terça-feira, 9 de abril de 2019

As celebrações ibéricas da volta ao mundo

No próximo dia 10 de Agosto celebra-se o 5º centenário da partida das cinco naus que saíram de Sevilha, que desceram o rio Guadalquivir e entraram em Sanlúcar de Barrameda, de onde partiram no dia 20 de Setembro de 2019 para uma viagem às Molucas, navegando por ocidente. Segundo Le Voyage de Magellan 1519-1522 (edition Chandeigne, Paris, 2017), seguiam a bordo 237 homens, mas com os que embarcaram nas Canárias e no Brasil, terão sido 242 os participantes na viagem, sendo 139 espanhóis (64 andaluzes, 29 bascos, 15 castelhanos, 7 galegos, 5 asturianos, 3 navarros, 2 aragoneses, 2 estremenhos, um murciano e 11 de origem indeterminada), 31 portugueses pelo menos, pois alguns ter-se-ão feito passar por espanhóis, 26 italianos, 19 franceses, 9 gregos, 5 flamengos, 4 alemães, 2 negros, 2 irlandeses, 2 mestiços sendo um luso-brasileiro e outro hispano-americano, um inglês, um goês e um malaio. Entre estes homens encontrava-se Fernão de Magalhães, provavelmente natural da vila transmontana de Sabrosa, que era o seu experimentado comandante. Era, portanto, uma verdadeira tripulação internacional, até porque as Espanhas eram então um extenso número de reinos semi-independentes e ainda não existia um estado espanhol. Daí que tivesse causado um grande escândalo o parecer da Real Academia de História de Espanha divulgado no passado dia 10 de Março, em que a viagem iniciada por Magalhães em 1519 foi considerada "plena y exclusivamente española". 
Hoje o jornal ABC, na sua edição de Sevilha, destaca as comemorações do 5º centenário da primeira viagem à volta do mundo e noticia que os governos espanhol e português acordaram na celebração conjunta desse acontecimento que foi ibérico, mas também europeu, pelo que não faz qualquer sentido a exaltação de glórias nacionalistas que alguns pretenderam introduzir na celebração desta efeméride. Andaram bem os dois governos peninsulares ao chegarem a um acordo quanto ao processo de comemorar a primeira viagem à volta ao mundo.
Segundo foi divulgado, além de  muitas outras iniciativas conjuntas, em 2020 os navios-escolas das Marinhas dos dois países – Buque Escuela Juan Sebástian Elcano e Navio-Escola Sagres – darão a volta ao mundo seguindo a mesma rota que seguiu a expedição de Magalhães e Elcano.
Entretanto, a cidade de Sevilha já reivindica ser o ponto de partida dessa viagem, apesar de haver problemas de calado para o Elcano navegar naquele rio e de haver cabos de alta tensão sobre o Guadalquivir. Apesar disso, a edição local do ABC dá como certa a partida de Sevilha dessa viagem e escolheu exactamente o navio-escola espanhol para ilustrar a sua capa.

Os problemas continuam na Venezuela

A Venezuela vive uma crise política e económica profunda, com uma espiral hiperinflacionária e uma enorme contracção do seu produto nacional, que provocaram a escassez de produtos essenciais e a saída do país de mais de dois milhões de pessoas.
A situação agravou-se com o bloqueio económico americano e com a intransigência do regime chavista, que tem atropelado as regras da democracia, sobretudo por falsear as eleições presidenciais e por não dar voz à oposição.
Foi neste quadro que Juan Guaidó, o presidente do Parlamento, se auto-proclamou presidente interino da Venezuela no passado dia 23 de Janeiro. Beneficiando de um alargado apoio internacional, Juan Guaidó aproveitou uma rede anónima de resistência criada em Fevereiro de 2011 para lutar contra o chavismo que então foi baptizada como Operación Libertad Venezuela (OLV) e, tratou de fazer uma digressão pelo país para activar esse movimento.
Com esse apoio, no passado fim de semana promoveu um conjunto de grandes manifestações articuladas em todo o território nacional que classificou como a “fase definitiva” do seu plano a que chamou Operación Libertad, para afastar Nicolás Maduro do poder e do palácio presidencial de Miraflores. Porém, também o regime chavista organizou grandes manifestações, a mostrar que há duas venezuelas e que há riscos de confrontações. A juntar a esta tensão política apareceram os apagões eléctricos e o racionamento da água, o que está a fazer aumentar a mobilização contra Nicolás Maduro, que está a ser responsabilizado por tudo o que de mal vem acontecendo no país. Para amanhã estão convocadas novas manifestações em todo o território e, sobretudo em Caracas, onde os manifestantes tencionam dirigir-se ao palácio presidencial para reclamar o afastamento de Nicolás Maduro.
O diário La Hora, que se publica no pequeno estado insular de Nova Esparta e que tem por lema - ni con unos ni con otros: con Nueva Esparta – destaca o masivo apagón e as manifestações contra Maduro en la fase definitiva de la operación Libertad.

domingo, 7 de abril de 2019

A luta pelo poder intensifica-se na Líbia

Segundo vem sendo noticiado, desde que Muammar Kadhafi foi morto em Syrte no dia 20 de Outubro de 2011, a Líbia entrou num caos político, com várias facções tribais a disputar o poder. Depois de uma primeira guerra civil líbia seguiu-se uma certa acalmia, mas o conflito reacendeu-se e agora há duas autoridades ou facções a lutar pelo poder, naquilo que já é chamada a segunda guerra civil líbia: de um lado está um governo de união nacional estabelecido em 2015 em Tripoli e que vem sendo reconhecido pelas Nações Unidas e pela comunidade internacional e, do outro, uma outra autoridade dirigida pelo auto-proclamado marechal Khalifa Haftar. Haftar é um militar muito conceituado com dupla nacionalidade, líbia e americana, que exerce o poder na zona leste do país a partir da cidade de Benghazi e tem o apoio do Egipto e dos Emirados Árabes Unidos, que o ajudam militarmente e o consideram um baluarte contra os islamitas.
Nos últimos dias, as forças de Haftar aproximaram-se de Tripoli e terão recebido ordens para atacar a cidade, havendo notícias de ataques aéreos nos seus subúrbios. Perante este quadro, o jornal italiano la Repubblica afirma que há o caos na Líbia e o medo na Europa. As Nações Unidas procuram soluções e António Guterres foi a Tripoli para incentivar as partes a participar numa conferência de paz, porque “não há solução militar e apenas o diálogo entre os líbios pode resolver os problemas do país”.
Curiosamente, o Papa Francisco referiu-se ontem ao facto da Europa e dos Estados Unidos alimentarem estes conflitos com a venda de armas, embora o assunto seja mais complexo. De qualquer forma, parece não haver dúvidas que as destabilizações no Iraque, na Síria e na Líbia tiveram origem nas intervenções ocidentais que não compreenderam a realidade política e cultural desses países e apostaram no derrube de Sadam Hussein, Bashar el-Assad e Muammar Kadhafi.
A Líbia fica às portas da Europa e a actual situação pode intensificar a corrente migratória clandestina para Lampedusa, para Malta e de um modo geral para a Europa. Se há o caos na Líbia, então o medo aumenta na Europa.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

E depois do incêndio do Rio de Janeiro

No passado dia 2 de Setembro ocorreu um enorme incêndio que destruíu o Palácio de São Cristóvão no Rio de Janeiro, em que estava instalado o Museu Nacional. Era um dos mais emblemáticos edifícios históricos da cidade, ocupava uma área de 13 mil metros quadrados e, em termos culturais, o incêndio destruíu um património museológico único e provocou uma verdadeira calamidade cultural.
A peritagem que tem vindo a ser efectuada já concluíu que a causa do incêndio foi um curto-circuito num aparelho de ar condicionado do auditório, localizado no primeiro andar do edifício, mas também apurou que o Museu Nacional não dispunha de estruturas de combate a incêndios, que houve falhas no sistema de prevenção, que o sistema de controlo dos detectores de fumo não estava accionado e que não existiam portas corta-fogo que poderiam ter retardado a propagação das chamas e do fumo. Houve, portanto, demasiado descuido.
A temperatura durante o incêndio ultrapassou os mil graus e a maior parte do acervo do Museu foi destruído. Foi um desastre para o património cultural do Brasil, mas as autoridades “arregaçaram as mangas” e começaram o trabalho que havia de ser feito. Assim, segundo hoje relata o jornal O Globo, foi logo contratada uma empresa para fazer algumas obras de emergência, sobretudo a estabilização das estruturas e a execução de uma cobertura provisória do edifício, bem como a remoção de entulhos e a recuperação de peças do acervo museológico que ainda pudessem ser salvas. Cerca de 85% do trabalho já está concluído e já foram removidas 1500 toneladas de entulho, assim como as vigas metálicas e outros materiais destruídos pelo incêndio.
Hoje, o jornal O Globo não só publicou uma reportagem sobre os resultados da peritagem às causas do incêndio, como também publicou uma fotografia de primeira página a quatro colunas das ruinas do Museu, a alertar os seus leitores para que esta tragédia não fique esquecida. 

quarta-feira, 3 de abril de 2019

A guerra e a "geração perdida" da Síria

Embora não se conheça a verdadeira situação em que se encontra actualmente a Síria, parece que a guerra acabou depois de oito anos de combates que causaram cerca de 450 mil mortos e mais de dez milhões de deslocados e refugiados, o que representa cerca de metade da população do país. Parece, também, que o regime de Bashar al-Assad venceu com o apoio dos seus aliados russos e iranianos, que o Daesh foi derrotado por uma aliança entre as forças democráticas sírias, as forças curdas e a aviação americana e que, finalmente, o califado morreu em Bagouz, depois de ter chegado a ocupar um terço do território da Síria e um terço do território do Iraque. Parece, ainda, que o Irão e a Turquia passaram da situação de rivais a grandes amigos, com a Rússia de permeio. Estes "parece" significam, portanto, que a informação que nos chega é ocasional, pontual, pouco esclarecedora e, provavelmente, manipulada.
O que não há dúvida é que a Síria está confrontada com uma grave crise humanitária. Agora é necessária a urgente assistência às populações e em especial às crianças, a todas as crianças da Síria e não só aos filhos dos militantes do Daesh, pois todas sofreram a guerra e viveram vários anos sem escola e sem educação, viram as barbaridades cometidas e as escolas destruídas, aprenderam a usar armas e foram preparadas para uma guerra sem regras. Só no campo de Al Hol, no leste da Síria, estarão 25.000 crianças em idade escolar que foram instruídas para servir o Daesh. Estas crianças representam uma pequena parte daquilo que já foi chamado a “geração perdida da Síria”, isto é, os dois ou três milhões de crianças em idade escolar que perderam parte ou a totalidade de sua educação formal durante os oito anos da guerra, umas em território sírio e outras que se estão refugiadas em campos de internamento no Líbano, Jordânia, Turquia, Iraque e Egipto.
O jornal Los Angeles Times destaca em primeira página esta grave situação humanitária de que poucos falam. Porém, é a altura de perguntar quem são os responsáveis por esta guerra e de saber quem quis levar a primavera árabe para a Síria e quem estimulou e armou todos aqueles grupos que destruíram a Síria.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

A desertificação e as assimetrias ibéricas

No próximo dia 28 de Abril realizam-se eleições legislativas em Espanha e as sondagens que vão sendo conhecidas estão a indicar que nenhum partido vai conseguir a maioria e que vai ser difícil formar coligações de governo. Depois, no dia 26 de Maio realizam-se as eleições para o Parlamento Europeu.
Perante este quadro eleitoral, muitas associações da chamada Espanha rural, agora também chamada La España vaciada, decidiram manifestar-se ontem no centro da capital espanhola para, em tempos de campanha eleitoral, exigirem dos poderes públicos mais investimento nas províncias mais desfavorecidas e mais atenção para travar o seu despovoamento. A iniciativa que juntou algumas dezenas de milhar de pessoas serviu para unir as reivindicações das províncias do interior da Espanha “desde León a Murcia y desde Cáceres a Huesca” e, segundo o jornal el Periódico de Aragón, a cidade de Madrid foi ocupada, o que significa que a mensagem dos manifestantes passou.
A Espanha está confrontada com o despovoamento do interior e a aglomeração populacional nas grandes cidades, de que resultam graves problemas económicos e sociais, que se traduzem em assimetrias regionais cada vez mais acentuadas. Embora em menor escala, também Portugal padece da acentuada desertificação do interior. É um problema que está diagnosticado e para o qual todos os políticos fazem promessas, sem que se note qualquer inversão da situação, até porque essas regiões “não dão votos”. Os poderes públicos fazem pouco para resolver a situação e calam-se perante o encerramento de tribunais, linhas ferroviárias, agências bancárias, estações dos correios, repartições públicas, esquadras da polícia, escolas secundárias e tudo o mais que não resiste à cegueira dos critérios financeiros da avaliação custo-benefício e que não olha a critérios sociais. 
Os espanhóis reclamaram ontem, mas os portugueses estão calados.

domingo, 31 de março de 2019

A guerra de Espanha terminou há 80 anos

A guerra civil de Espanha foi um conflito de grande violência que aconteceu em Espanha entre 1936 e 1939, de que terão resultado 500 mil mortos. A sociedade portuguesa desse tempo acompanhou esse drama, que gerou muitos refugiados e em que muitos portugueses atravessaram a fronteira para combater dos dois lados. 
A guerra civil espanhola tem sido considerada como um ensaio preparatório da 2ª Guerra Mundial e terminou há 80 anos, sendo hoje evocada pelo jornal catalão ara, que se publica em Barcelona com uma linha editorial pró-independentista e que, sugestivamente, faz a pergunta (a Franco) : ainda cá estás?
A guerra civil de Espanha começou no dia 17 de Julho de 1936, quando ocorreu um pronunciamento militar na praça de Melilla, no norte de África, tendo terminado no dia 1 de Abril de 1939, quando o general Franco anunciou o fim da guerra, depois das suas tropas terem entrado em Madrid. De um lado esteve a Frente Popular, que agregava os movimentos da esquerda e os nacionalistas galegos, bascos e catalães que apoiavam o governo legítimo da Espanha, o regime republicano instalado em 1931 e os estatutos de autonomia; do outro lado estiveram os Nacionalistas conservadores, em que se integravam os monárquicos, os falangistas, os carlistas e outros movimentos da direita espanhola. Porém, a guerra internacionalizou-se e, enquanto a Frente Popular teve o apoio da União Soviética e das Brigadas Internacionais compostas por militantes socialistas e comunistas de todo o mundo e de numerosas voluntários, os Nacionalistas tiveram o apoio do Corpo Truppe Volontarie enviado por Mussolini, da Legião Condor enviada por Hitler e dos Viriatos organizados pelo regime de Salazar.
A guerra civil espanhola polarizou toda a Espanha e deu origem a execuções, massacres e campanhas de terror praticadas pelos dois lados e, por isso, é um assunto muito sensível na nossa vizinha Espanha, porque muitas das suas feridas ainda estão por sarar. A ditadura instaurada pelo general Franco, que foi o vencedor da guerra, durou até à sua morte em 1975, mas a lição desse tempo e dessas circunstâncias não pode estar ausente do pensamento nem da acção dos responsáveis políticos do país vizinho e das suas regiões autónomas, para que a História não se repita.

sábado, 30 de março de 2019

O incerto futuro das crianças da jihad

O noticiário internacional tem sido mobilizado em torno do fiasco do Brexit, da contínua instabilidade política na Venezuela ou das devastações causadas por ciclones e cheias em Moçambique, enquanto os nomes de Theresa May, Juan Guaidó, Donald Trump, Nicolas Maduro, Jair Bolsonaro ou Benjamin Netanyahu estão a ser os protagonistas do momento e enchem páginas dos jornais.
Apesar disso, nos últimos dias, vários jornais internacionais, sobretudo franceses e americanos, têm vindo a tratar do problema das crianças do Daesh que se encontram internadas em campos de refugiados em território sírio.
Com a derrota militar das forças do Daesh, as mulheres que se juntaram à jihad islâmica e que viveram no califado, muitas delas de origem europeia, bem como as suas crianças, encontram-se agora em campos de refugiados em diversos locais da Síria, na maior parte dos casos controladas pelas forças curdas. A pressão para que sejam repatriadas é enorme por evidentes razões humanitárias, mas as opiniões públicas ocidentais parecem resistir. Essas mulheres traíram os seus países e juntaram-se ao radicalismo e ao terrorismo. Eventualmente, cometeram crimes ou foram coniventes com eles. Muitas das suas crianças já estão instrumentalizadas pela propaganda do Daesh, já participaram em acções terroristas, já viram muitos crimes hediondos e foram preparadas para ser combatentes e para actuar como kamikazes e, se não forem acolhidas e reeducadas, serão em breve um verdadeiro material explosivo sempre pronto a ser accionado por um qualquer Abu Bakr al-Baghdadi. É um dossier muito delicado. Por isso, em diversos países, incluindo Portugal, se tem feito a pergunta sobre o que deverá ser feito, isto é, se o apoio ao regresso dessas mulheres e crianças, ou o seu exílio e abandono nos campos de internamento.

sexta-feira, 29 de março de 2019

O impensável naufrágio do Reino Unido

O eleitorado britânico votou no dia 23 de Junho de 2016 sobre a permanência ou não permanência do Reino Unido na União Europeia e quase 33 milhões de votantes escolheram: 51,8% votaram no leave, enquanto 48,2% votaram no remain. Depois de 43 anos de permanência na União Europeia, o eleitorado escolheu a saída. David Cameron, o primeiro-ministro conservador que organizou o referendo e que fez campanha pela permanência demitiu-se e, no dia 13 de Julho, cedeu o seu lugar a Theresa May.
Apesar de Theresa May ter defendido a permanência, decidiu cumprir o mandato para que foi escolhida e tratou de iniciar o “processo de divórcio”, ao enviar uma carta ao Conselho Europeu a activar o artigo 50 do Tratado de Lisboa. Iniciaram-se depois as  conversações com Bruxelas que deveriam ficar concluídas e ratificadas até ao dia 29 de Março de 2019.
Por razões de política interna, no dia 8 de Junho de 2017 realizaram-se eleições legislativas antecipadas e Theresa May e o seu partido perderam a maioria na Câmara dos Comuns. Apesar disso, as negociações avançaram e no dia 8 de Dezembro foi anunciado um primeiro pré-acordo sobre as modalidades e temas do “divórcio”, entrando-se na segunda fase das negociações.
Nesta segunda fase das negociações começaram os problemas e o primeiro, que veio a ficar conhecido por backstop, pretendia evitar o regresso da fronteira física e do controlo aduaneiro entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda. Depois sucederam-se as discussões em torno do tipo de acordo a celebrar, as dissidências no governo britânico, as manifestações a favor e contra o Brexit, a hipótese de realizar um segundo referendo e uma verdadeira implosão no seio do Parlamento britânico. Theresa May foi incapaz de evitar a confusão e a incerteza, conduzindo o Reino Unido para um impensável patamar de desprestígio e de desconfiança.
Hoje deveria ser concretizado o Brexit, mas foi adiado. Na sua edição de hoje, o Courrier International dedica a sua primeira página com uma sugestiva ilustração alusiva ao naufrágio do Reino Unido, afirmando ser um país ingovernável e com a sociedade mais dividida do que nunca.

quinta-feira, 28 de março de 2019

O regresso triste e inoportuno do Aníbal

Instalou-se no espaço mediático nacional, no contexto da luta política e eleitoral em que já estamos envolvidos, um enorme ruído de fundo sobre os familiares dos políticos que ocupam lugares no governo ou próximo dele, parecendo que a questão é nova e que foi inventada agora. Não é verdade! A generalidade da classe política portuguesa sempre foi uma casta que se soube proteger e que sempre foi mais interessada em servir os seus interesses pessoais ou de grupo, do que em servir o interesse público, a comunidade ou o bem comum. Daí que, muitos jovens aprendam, desde muito cedo, que a melhor maneira de subir na vida é alistarem-se nesse trampolim que são as jotas, porque já sabem que é a militância partidária que dá poder, emprego, mordomias, negócios e influência, mesmo sem que haja qualidade ou qualificação, embora alguns ainda arranjem uns canudos à pressa e subam na vida como verdadeiros relvas. São eles que se instalam, que dominam os aparelhos e que mandam nisto tudo, por vezes como serventuários de outros interesses.
É através dessa forma de ver a política que se arranjam lugares para maridos, mulheres, filhos e filhas, genros e noras, enteados, sogros, primos e primas, amigos e amigos dos amigos e por aí adiante. No caso de algumas autarquias são famílias inteiras e, em certas empresas públicas, era quase a mesma coisa. Nunca faltaram lugares para governantes, deputados, assessores, autarcas e gestores, nem outros lugares para troca de favores. Sempre houve cardonas e estrelas. Sempre foi assim! Por isso, não há que admirar por aquilo a que assistimos actualmente e até é ridículo que haja quem faça o  papel de virgem ofendida e que se deixe engodar por esta questão, que faz parte da tradição cultural portuguesa de procurar colocar os amigos onde mais convém.
Porém, a minha surpresa foi o aparecimento do Aníbal, que devia estar calado em Boliqueime ou na Quinta da Coelha, para não nos recordar o seu triste legado político de mesquinhez e incultura, ao vir atirar um pouco de gasolina para uma fogueira que não passa de um episódio de campanha eleitoral ou de imprensa cor-de-rosa. Ou será que está com ciúmes de MRS que, cada vez mais, o está a apagar da História?

terça-feira, 26 de março de 2019

Airbus ou Boeing: as escolhas da China

Numa altura em que a Boeing atravessa uma grave crise em consequência dos acidentes com o seu modelo 737 Max, a China avançou com a maior encomenda alguma vez feita ao construtor europeu Airbus.
O avião Boeing 737 Max parecia dominar o mercado aeronáutico e a Boeing já tinha registada uma carteira de 4316 encomendas, mas porque apenas foram entregues 86 aviões, havia uma lista de espera de 4230 unidades. Entretanto, aconteceram os acidentes com o voo Lion Air 610 que se despenhou no mar de Java, na Indonésia, e mais recentemente, com o voo ET 302 da Ethiopian Airlines. Os voos do 737 Max foram suspensos, muitas encomendas foram canceladas e as acções da empresa tiveram uma brutal queda na Bolsa.
Foi nesse contexto que foi assinado em Paris, na presença de Emmanuel Macron e de Xi Jinping, que está em visita oficial a França, o contrato para a aquisição de 300 aviões para treze companhias aéreas chinesas. Os aviões serão construídos na fábrica da Airbus em Tianjin, a norte de Pequim e, a preços de catálogo, a encomenda custará mais de 32 mil milhões de dólares (custo unitário da ordem de 100 milhões de dólares). Assim, os franceses aproveitaram a tensão comercial que o Donald criou com os chineses e, segundo o jornal La Dépêche du Midi, bateram o seu próprio record de encomendas.
Tal como a recente encomenda de submarinos pela Austrália animou a região da Bretanha, também esta encomenda entusiasmou a região de Toulouse, até porque se estima que até 2037 a China terá necessidade de 7400 aviões de passageiros e carga.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Realmente, parece haver duas Venezuelas

É muito incerta a situação que se vive na Venezuela, sobretudo depois de 23 de Janeiro de 2019, quando Juan Guaidó se auto-proclamou Presidente do país. A partir de então intensificou-se uma campanha internacional contra Nicolas Maduro e o seu regime, apoiada nos mass media internacionais que se mobilizaram em torno da ajuda humanitária e da ocupação do poder pelos chavistas de Maduro, que é considerada ilegítima pela oposição. A intensidade dessa campanha faz-nos desconfiar, até porque a leitura da imprensa venezuelana revela que ainda é plural, sem parecer estar enfeudada a Maduro ou a Guaidó, pois veicula as diferentes posições dos partidos venezuelanos e insiste que “urge buscar acuerdo politico en el país”.
Há uma crise séria, mas os militares e os juízes continuam com Maduro. Porém, há novos episódios todos os dias. Um deles foi a prisão de um colaborador próximo de Guaidó, alegadamente envolvido em operações de financiamento de um grupo paramilitar que iria desencadear atentados terroristas para destabilizar, ainda mais, o país. O outro foi a vitória do vino tinto, isto é, a equipa nacional de futebol sobre a Argentina de Messi, o que elevou a auto-estima venezuelana.
Ontem a notícia, veiculada por toda a imprensa venezuelana, incluindo o jornal El Clarín de la Victoria para Aragua, foi a chegada ao aeroporto de Maiquetía de dois aviões da Força Aérea Russa, um gigante Antonov An-124 carregado com 35 toneladas de material e um Ilyushin Il-62 com 99 militares comandados por um general. É uma notícia preocupante porque os objectivos desta missão são desconhecidos, embora tivesse sido adiantado que resultam de compromissos relativos aos contratos de carácter técnico-militar existentes entre a Rússia e a Venezuela.
Esta notícia não vai agradar nada ao Donald. Realmente, parece haver duas Venezuelas: uma que a Rússia apoia e outra com que o Donald sonha. Além disso, a notícia mostra uma realidade diferente daquela que nos tem sido mostrada, nomeadamente pelos chamados enviados especiais portugueses que se deslocaram à Venezuela e que não tiveram o cuidado ou o profissionalismo de mostrar as duas faces da história.

domingo, 24 de março de 2019

Marinha de Espanha e unidade nacional

O jornal espanhol ABC destaca na primeira página da sua edição de hoje uma fotografia das longas filas de visitantes que no porto basco de Getxo quiseram ver o porta-aviões Juan Carlos I, “el buque insignia de la Armada”. Da mesma forma, também o Diario de Cádiz também destaca hoje a visita que a fragata Blas de Lezo fez ao porto de Cádiz, na Andaluzia, onde foi visitado por muita gente. Na passada semana, a fragata Cristóbal Colón estivera no porto asturiano de Avilés, onde esteve aberto a visitas do público, o que foi relatado pelo jornal La Voz de Avilés.
Significa que, em três diferentes regiões espanholas, estiveram três navios da Marinha de Espanha em visitas de cortesia e abertos ao público para visitas, factos de que a imprensa fez eco, o que não deixa de ter uma leitura política.
Com estas visitas a diferentes portos do seu território, os navios da Marinha espanhola dão um forte contributo para o reforço dos sentimentos de unidade nacional do país vizinho, onde existem 17 comunidades autónomas, algumas das quais com tendências separatistas. Por outro lado, os milhares de visitantes que estiveram no Juan Carlos I, mas também nas duas outras fragatas, puderam apreciar a capacidade tecnológica da Marinha de Espanha e dos seus profissionais, o que é um estimulante tributo de reconhecimento por parte da sociedade civil espanhola. Finalmente, a cobertura que a imprensa deu a estes acontecimentos mostra como os espanhóis se interessam pela sua Marinha. Assim fosse em Portugal.

A queda de Baghouz não é o fim do Daesh

Alguma imprensa britânica e francesa, caso do Le Monde, anunciou a queda de Baghouz , o último reduto do Daesh, situado nos confins da parte leste da Síria, junto da fronteira com o Iraque. Há alguns dias, também Donald Trump anunciara o fim do Daesh. Significa que o califado que adoptou o nome de Estado Islâmico do Iraque e da Síria durou cinco anos e que, depois de em 2017 ter perdido as suas capitais de Mossul (Iraque) e Rakka (Síria), tinha um fim anunciado.
Porém, a queda de Baghouz não é o fim do Daesh, pois a organização chefiada por Abu Bakr al-Baghdadi criou ramificações e células em vários países e é natural que continue a sua actividade, agora com uma diferente estratégia, que não passa pela ocupação de território, mas que continua com a prática contínua de atrocidades, assassínios em massa, execuções arbitrárias, roubos, saques e violações, isto é, o terror.
Nas últimas semanas, as forças curdas e sírias capturaram algumas centenas de combatentes do Daesh, muitos deles originários de países europeus, mas agora ninguém sabe o que fazer com eles, nem sequer com as suas famílias.
O assunto está na ordem do dia e um dos seus aspectos mais curiosos acontece com as chamadas noivas do Daesh, que tendo aderido ao movimento terrorista, parecem reivindicar agora todos os direitos sociais que tinham nos seus países, antes de se juntarem ao grupo jihadista islâmico. Em alguns casos essas pessoas já estão a reivindicar o direito de serem libertadas, repatriadas e apoiadas pelos seus países de origem, o que é verdadeiramente paradoxal. Muitas dessas mulheres têm agora crianças o que torna o problema mais complexo por razões humanitárias, mas o Le Monde chama a atenção para essa gente que pode aparecer como “des bombes à retardement”.

Um Reino Unido cada vez mais desunido

A confusão é total e são cada vez menos aqueles que se interessam pelo Brexit e pelo futuro da Grã-Bretanha. O poderoso Reino Unido que ”governou o mundo durante o século XIX”, que no século XX se afirmou sem equívocos em duas guerras mundiais e que, mais recentemente, navegou pelo Atlântico Sul em defesa das ilhas Falklands, está agora sem rumo e o que vier a acontecer será sempre um desastre. Ficar ou sair, com ou sem acordo, representará sempre e por muitos anos, um símbolo de decadência que colocará o Reino Unido num patamar de inferioridade em relação à comunidade internacional. Quem pensou que o Reino Unido se transformaria numa República das Bananas? Ninguém imaginou este cenário de confusão, nem este futuro de incerteza. A força e a determinação de Winston Churchill ou de Margareth Tatcher são coisas do pasado. Theresa May revelou-se uma personagem incapaz, dominada por uma obcecada teimosia e sem ter a noção da importância do momento histórico que lhe caiu nas mãos.
O Brexit, enquanto decisão soberana do eleitorado britânico falhou, mas o que é mais surpreendente é que Theresa May deixou arrastar o problema e parece nunca ter tido a intenção de se demitir. Agora, é a União Europeia que, cansada deste processo, impõe as suas regras e encosta o Reino Unido à parede.
Porém, ainda ontem em Londres, um milhão de pessoas reclamou contra a incapacidade dos seus políticos e exigiu que seja realizado um novo referendo, defendendo que o Reino Unido permaneça na União Europeia. Foi uma manifestação histórica diz hoje o jornal espanhol La Razón.
Se ao menos adiassem a decisão por um ano, para formar um novo Parlamento e para amadurecer ideias, por certo que se encontraria a solução mais desejada e mais consensual. Assim, tudo se conjuga para que o proceso corra mal, que ocorra uma grave crise económica e social e que não tardem as reivindicações da Escócia e da Irlanda do Norte a desunir e a enfraquer ainda mais o Reino Unido.