quinta-feira, 16 de abril de 2020

Argentina inicia 'la era del tapabocas'

Continua a saber-se muito pouco sobre o covid-19, embora o espaço mediático continue a estar cheio de gente que fala como se soubesse tudo sobre a pandemia. São os mesmos que também sabem tudo sobre política e sobre futebol, que falam de economia e de cultura e que não conseguem estar calados. Alguns deles são ex-políticos profissionais que fazem das suas constantes aparições televisivas uma prova de vida, com a qual facturam mais qualquer coisa e satisfazem as suas vaidades. Em qualquer lado poderiam ser opinion makers mais ou menos respeitados, mas por cá normalmente não passam de vulgares vendedores de banha de cobra, alguns deles com presença quase quotidiana nos nossos televisores.
No entanto, parece que no caso da pandemia do covid-19 eles têm alguma razão, pois há um consenso que começa a generalizar-se no sentido do uso de máscara, porque para além da sensação de protecção que dão a quem as usa, parece que realmente reduzem a hipótese de contágio. Por isso, espera-nos um futuro, de resto muito semelhante ao que se observa nos países da Ásia Oriental, em que as pessoas passarão a usar a máscara diariamente como se fosse uma peça do seu vestuário.
A generalidade da imprensa sempre insistiu no uso da máscara e até usou a falta de máscaras no mercado como um tema de crítica às autoridades sanitárias, o que de certa forma antecipava que o uso de máscaras iria ser obrigatório. Daí que as máscaras, las mascarillas, les masques ou the masks fossem assunto corrente no noticiário internacional da pandemia. Porém, com surpresa, verificamos que na Argentina pela voz do diário La Prensa, o tempo que aí vem já é designado como la era del tapabocas. Uma designação bem curiosa!

quarta-feira, 15 de abril de 2020

O Donald arrisca ser um William Bligh

Na actual conjuntura americana, apesar de já estarem contabilizados quase 25 mil óbitos devido ao covid-19, as preocupações começam a centrar-se no plano económico e Donald Trump parece querer que a vertente económica se sobreponha de imediato à vertente sanitária. 
Assim, prepara-se para decretar o reinício da actividade económica e, quando algumas vozes ousaram desaconselhá-lo dessa ideia, ele respondeu que “quando alguém é presidente dos Estados Unidos, a autoridade é total”. O governador democrata do estado de Nova Iorque, Andrew Cuomo, não gostou daquela fanfarronada e disse que o presidente não tem “autoridade total”, sobretudo para decidir a retoma das actividades económicas, até porque a pandemia da covid-19 está muito activa. Nesta sua posição teve imediato apoio dos governadores democratas de Nova Jersey, Connecticut, Pensilvânia, Delaware, Rhode Island e até do governador republicano do estado de Massachusetts, tendo havido um jornal nova-iorquino que escolheu para título da sua edição de ontem a frase “seven heads are better than one”.
Nas suas críticas, Andrew Cuomo foi buscar inspiração à História e disse que em 1776 os americanos rejeitaram um rei e que George Washington foi um presidente e não um rei. Por outro lado, o presidente Donald chamou “amotinados” aos governadores que o estão a enfrentar e, na sua edição de hoje, o jornal New York Post também se inspirou na História. Assim, o jornal travestiu o presidente Donald num novo William Bligh, o comandante do HMS Bounty que, devido à sua intransigência e tirania, foi deposto por uma parte da sua guarnição amotinada, numa revolta liderada pelo tenente Fletcher Christian, mas isso aconteceu no ano de 1789 no Pacífico Sul.

terça-feira, 14 de abril de 2020

A Venezuela do excêntrico Nicolás Maduro


Ontem foi celebrado em Caracas o 18º aniversário da tentativa de golpe de estado organizado em 2002 por sectores militares da extrema-direita venezuelana contra o presidente Hugo Chávez, que chegou a ser detido pelos revoltosos, mas essa tentativa foi derrotada ao fim de 47 horas. A derrota dos seus opositores e o estilo populista de Hugo Chávez tornaram-no um presidente poderoso que impôs um regime de tendência autoritária em nome do bolivarismo, que acentuou a sua hostilidade para com os Estados Unidos e a aproximação a Cuba, até que a morte o levou. O seu vice-presidente, que em 2013 foi eleito como seu sucessor, foi Nicolás Maduro que se tornou o presidente da República Bolivariana da Venezuela e se declarou herdeiro político de Hugo Chávez.
Nicolás Maduro é um dos dirigentes mais excêntricos que o mundo conhece e, como é sabido, dirige um país que atravessa grandes dificuldades económicas e sociais, além de uma grande turbulência política interna. O que se passa na Venezuela é mau demais e é difícil de compreender, porque as informações que nos chegam, a favor ou contra Maduro, estão viciadas pela propaganda e pelo preconceito ideológico.  
Porém, as festividades ontem realizadas no Dia de la Milicia Bolivariana e que hoje são destacadas pelo diário Últimas Notícias, são uma boa ajuda para perceber o regime venezuelano que Maduro encabeça. Disse ele, segundo destaca aquele jornal de Caracas:
“Declaro que hoy 13 de abril de 2020 la Milicia Nacional Bolivariana ha llegado a 4 millones 156 mil 567 milicianos y milicianas. Cuándo la Fanb tenía una fuerza de reserva tan poderosa?”.
Então não é que num país de 28 milhões de habitantes, há uma força paramilitar com mais de quatro milhões de milicianos e milicianas que, segundo Maduro, estão prontos e mobilizados para cumprir tarefas de “salud, alimentación, inteligencia y adiestramiento”? Esta Milicia Nacional Bolivariana está, desde Fevereiro, formalmente integrada nas Forças Armadas Nacionais Bolivarianas, mas as suas funções de “inteligencia y adiestramiento” são muito preocupantes, sobretudo para quem conhece o historial desse tipo de organizações.

Nova Iorque: há uma luz ao fundo do túnel

Segundo os últimos números que são conhecidos sobre o covid-19, os Estados Unidos registam os máximos mundiais, quer no número de infectados (587.337), quer no número de óbitos (23.649), estando o centro da pandemia centrado no estado de Nova Iorque, onde só a cidade de Nova Iorque regista 104.410 casos registados e, pelo menos, 6.898 óbitos.
No estado de Nova Iorque há quase dez vezes mais casos de infecção por covid-19 do que na Califórnia, que é o estado mais populoso dos Estados Unidos. Feita a comparação do número de infectados por cem mil habitantes, verifica-se que Nova Iorque regista 800 enquanto a Califórnia regista pouco mais de 50, o mesmo acontecendo com o número de óbitos cuja relação é de um para 16. A explicação deste diferencial está na forma como os dois estados tomaram ou não tomaram medidas de prevenção, porque se a Califórnia tomou as medidas aconselhadas como o confinamento e o distanciamento social, em Nova Iorque demorou-se demasiado tempo a perceber a gravidade da situação.
Porém, ontem ouviu-se Andrew Cuomo, o governador do estado de Nova Iorque, a considerar que, apesar da pandemia do covid-19 já ter ultrapassado a barreira dos dez mil óbitos no seu estado, o pior já tinha passado pois, pela primeira vez numa semana, o número de óbitos baixou para níveis inferiores a 700. Trata-se, naturalmente, de um anúncio muito encorajador, até porque na Europa também se começam a observar sinais de regressão ou de desaceleração do número de novos infectados e de óbitos, ao mesmo tempo que se anunciam algumas medidas para a retoma da actividade económica.  Que seja a luz ao fundo do túnel porque todos ansiamos.

sábado, 11 de abril de 2020

A pandemia chegou aos Estados Unidos


Relativamente à pandemia que continua a manifestar-se no mundo, a análise da lista dos casos confirmados de infecção e de óbitos mostra-nos esta manhã que os Estados Unidos chegaram ao topo dessa lista com 504.780 pessoas infectadas por covid-19 e com 18.763 óbitos, o que significa que o centro da pandemia chegou aos Estados Unidos.
Donald Trump desvalorizou a epidemia com a sua habitual arrogância e, em ano de eleições, é bem possível que a sua reeleição esteja comprometida, pois a opinião pública americana não lhe irá perdoar que a política do “America first” tenha levado a China a um protagonismo mundial e a América ao primeiro lugar… no ranking do covid-19. As fotografias das valas comuns no estado de Nova Iorque deram a volta ao mundo e os muitos americanos que foram intoxicados com o slogan “make America great again” devem estar em estado de choque e não tardarão a afastar aquele homem da Casa Branca. Essas fotografias lembram a retirada de Saigão em 1975 e, tal como a histórica fotografia da fuga da embaixada americana, têm o efeito de uma bala no orgulho americano.
Hoje a revista Time assume que as nossas vidas mudaram, mas enquanto a Europa parece estar a adaptar-se e a aceitar constrangimentos sociais e mudanças no seu modo de vida, nos Estados Unidos nunca se falou nessas coisas ou, antes pelo contrário, até escolheram um presidente que lhes acenou com cenários de prosperidade que não vão ser possíveis, como já demonstram os seus 17 milhões de desempregados, que representam uma taxa de desemprego de 14%. A nação mais poderosa do mundo está em estado de sítio e a passar por grandes dificuldades, mas todos esperamos que a sua comunidade científica e a sua reconhecida capacidade de inovação, encontrem rapidamente uma solução para esta pandemia.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

A pandemia também já chegou ao alto-mar

Nos últimos dias surgiram notícias do aparecimento do covid-19 em dois grandes porta-aviões, primeiro no USS Theodore Roosevelt e, agora, no porta-aviões nuclear francês Charles De Gaulle.
O Charles De Gaulle andava envolvido desde 21 de Janeiro em exercícios NATO no Atlântico Norte que, segundo informações divulgadas pela imprensa, visavam “a protecção dos estados bálticos”. Porém, nas últimas 48 horas, quando o navio se encontrava ao largo da costa portuguesa e segundo revelou o jornal Le Télégramme, verificou-se que quatro dezenas de tripulantes manifestaram sinais gripais que, de imediato, foram associados à pandemia de covid-19. O Ministério da Defesa anunciou o regresso do porta-aviões à sua base de Toulon como medida de precaução para os cerca de dois mil tripulantes e pilotos embarcados, enquanto a bordo foram adoptadas medidas de protecção semelhantes às que têm sido tomadas em terra. Entretanto, há um grande enigma nesta situação porque o navio escalou Brest entre os dias 13 e 15 de Março e, desde então, ninguém esteve em terra. Assim, no caso de serem positivos alguns dos quarenta casos considerados suspeitos, significa que o tempo de incubação do vírus covid-19 passa largamente os catorze dias que geralmente se pensava ser o seu limite máximo. On vera, dirão os franceses!
A notícia refere que o regresso do Charles De Gaulle à sua base de Toulon será mais sereno do que o regresso do porta-aviões americano USS Theodore Roosevelt à ilha de Guam, onde o seu comandante foi exonerado por ter divulgado publicamente que o covid-19 tinha infectado alguns dos seus homens, isto é, perante um problema semelhante, os franceses de Macron demarcam-se claramente dos americanos de Trump.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Usar ou não usar máscara de protecção

No meio das inúmeras polémicas que têm aparecido na esfera pública resultantes da ansiedade das pessoas e do desconhecimento sobre a natureza do vírus que por aí anda, a questão do uso ou não uso das máscaras de protecção está na ordem do dia.
Os asiáticos usam-nas por rotina desde há muito tempo, mas na Europa Ocidental tem havido alguma hesitação quanto ao seu uso.
Tanto quanto se sabe, o contágio por covid-19 é feito através de gotículas e secreções que saem da boca quando uma pessoa espirra ou tosse e, por isso, a máscara serve sobretudo para proteger as pessoas que se encontram ao redor de quem usa a máscara e, de forma indirecta, também servem para proteger quem a usa. No entanto, porque não há certezas absolutas nem provas científicas irrefutáveis quanto à evolução ou tratamento do covid-19, há espaço para todo o tipo de opiniões. Assim, uns acham que se deve usar máscara de protecção e outros acham que não. Enquanto alguns países já obrigam ou recomendam o uso da máscara, as autoridades sanitárias portuguesas continuam a considerar que “de acordo com a situação actual em Portugal, não está indicado o uso de máscara para protecção individual, excepto para os suspeitos de infeção por covid-19 e para as pessoas que prestem cuidados a suspeitos de infecção por covid-19”. Assim, até agora, a Direcção-Geral da Saúde (DGS) não recomenda o uso da máscara de protecção às pessoas que não apresentem sintomas, até porque a máscara contribui para uma falsa sensação de segurança e a sua eficácia obriga a que seja trocada com regularidade, o que provavelmente não é feito pela generalidade dos que a usam. Por isso, até novas recomendações da DGS, continuarei a cumprir as regras básicas da higiene e do distanciamento social, mas sem usar máscara de protecção.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Há alguns sinais positivos no horizonte


Os sinais que nos últimos dias nos chegam da Itália, de França e da Espanha, mas também de Portugal, são animadores, isto é, parece que o covid-19 está a ser contido e que as medidas de confinamento adoptadas estão a produzir resultados. 
Esses sinais estão inscritos na imprensa desses países e embora ainda estejamos no plano da catástrofe humanitária, da depressão económica profunda e de uma crise social como a nossa geração não conhecera, o jornal francês La Dépêche diz que há “enfim, um pouco de esperança”, enquanto o jornal catalão el Periódico diz que “el virus desacelera” e que “Italia también frena el contagio”. No entanto, há ainda alguns outros jornais que sustentam a mesma opinião.
Ainda será cedo para perceber a evolução da pandemia e, nesta altura em que tanto se fala da curva, ninguém sabe como ela vai evoluir e se tem um ou mais picos, mas os sinais que são hoje transmitidos pela imprensa são muito encorajadores. Além disso, temos visto como aqueles que estão na primeira linha de luta contra o vírus se comportam com extrema dedicação e nos transmitem confiança, apesar das faltas de material de protecção sanitária que, como se observa nas declarações televisivas, são uma constante em todos os países. Por isso aqui fica o lamento pelo triste papel a que se têm prestado os bastonários dos médicos e dos enfermeiros, ao assumirem um corporativismo primário na denúncia das faltas de máscaras, de luvas, de fatos, de ventiladores e não sei de que mais, como se fosse possível que algum país tivesse tudo isso na emergência que nos afecta. O que nos vale são os profissionais que estão na primeira linha e estes sinais positivos que se vislumbram no horizonte.

A ganância dos homens em tempo de crise

No meio das preocupações e incertezas com que o mundo está confrontado, há muita gente que se aproveita da situação para fazer negócios e para mostrar uma grande irresponsabilidade social. Um caso que aconteceu com um empresário de Santiago de Compostela mereceu hoje destaque de primeira página no jornal El País e em outros jornais espanhóis, ilustrando a forma como actuam os gananciosos.
Esse indivíduo acedeu a um armazém de uma empresa de distribuição de produtos sanitários e roubou material avaliado em cinco milhões de euros, incluindo milhões de máscaras de máxima protecção, daquelas que têm faltado aos profissionais da saúde que estão na primeira fila do combate à pandemia. Além das máscaras, foram também roubadas luvas cirúrgicas, calças e uniformes sanitários, kits de medicamentos e álcool. O objectivo deste roubo seria a venda deste material em Portugal e, segundo pensa a investigação, terá tido êxito.
O caso terá acontecido em Fevereiro quando o coronavírus já ameaçava a Espanha e já havia um alerta sanitário, pelo que as autoridades galegas detiveram o referido empresário que “estava plenamente consciente” de que aquele material iria ser necessário.
Tendo investigado o local da ocorrência, a polícia apenas encontrou uma enorme quantidade de caixas vazias e algum material de menor valor, tendo sido a fotografia desse armazém que ilustrou as capas de vários jornais. A notícia informa que as autoridades galegas, em colaboração com as autoridades portuguesas, estão a investigar a rede envolvida nesta prática ilícita e criminosa.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Europa Ocidental está no olho do furacão

O jornal espanhol ABC destaca em primeira página na sua edição de hoje as fotografias dos primeiros-ministros de seis países da Europa Ocidental, com a indicação das percentagens de apoio popular que as suas medidas de combate à pandemia do covid-19 têm suscitado. Apesar de ser um assunto interessante, é de lamentar que o jornal tenha evidentes e inoportunos objectivos políticos contra Pedro Sánchez, porque ao mostrar que ele tem o mais baixo apoio de entre todos os líderes da Europa Ocidental, acaba por se colocar num patamar crítico e de fora de uma união nacional que nesta altura é essencial para ultrapassar a grave situação por que passa a Espanha. Não é a altura de atacar primeiros-ministros. Inversamente, António Costa surge nesta apresentação como o líder com mais apoio popular da Europa Ocidental, com a particularidade de ter os apoios do principal partido da oposição e de uma muito larga maioria parlamentar.
O facto é que a pandemia assentou arraiais nesta faixa do continente europeu e que a Europa Ocidental está no olho deste furacão. Nos seis países considerados, verifica-se que, segundo os números mais recentes, já houve 43.419 óbitos em consequência do covid-19, repartidos por Itália (15.887), Espanha (12.641), França (8.078), Reino Unido (4.934), Alemanha (1.584) e Portugal (295). Como até agora estão contabilizados 65.509 óbitos em todo o mundo devidos ao covid-19, significa que nestes seis países da Europa Ocidental aconteceram 66% dessas fatalidades. Os países que desde o século XVI dominaram o mundo e que, provavelmente, têm os mais elevados índices civilizacionais da humanidade, são aqueles que mais estão a sofrer com a pandemia do covid-19
Já apareceram algumas teorias explicativas, mas nenhuma delas parece convincente. Será uma consequência de estilos de vida? De hábitos de consumo? De práticas de higiene? Ora aí está mais um tema a merecer a atenção da investigação científica, até porque pode ajudar a resolver ou a atenuar o problema.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Crise e desemprego ameaçam a América


A imprensa norte-americana destaca hoje que, em apenas duas semanas, o país criou dez milhões de desempregados, como consequência da crise do covid-19, numa altura em que os Estados Unidos já são o país do mundo com mais infectados e em que ainda se desconhece o que ainda está para vir. 
O jornal New York Post ilustrou a sua primeira página com um apelo de alguém que empunha um cartaz com a frase “out of work” e em que o chapéu do tio Sam, que tantas vezes tem simbolizado o poder americano, está abandonado sobre uma mesa, significando que se aproximam dias muito difíceis para os Estados Unidos e para os seus desempregados. 
O país parece caminhar a passos largos para uma situação de calamidade económica e social, como só aconteceu na grande depressão de 1929. É certo que, em maior ou menor escala, o cenário americano não difere dos cenários que se desenham em alguns países europeus, mas na depressão americana que se avizinha, a arrogância e a ignorância do presidente Trump tiveram um papel determinante ao desvalorizar a aproximação da pandemia e ao imaginar que os seus efeitos sanitários e económicos não chegariam à América. Daí resultou um atraso na resposta à pandemia e aos alarmantes números a que já se chegou – 274.987 infectados e 7.065 mortes – que estão a conduzir o presidente dos Estados Unidos para um descrédito interno e de irresponsabilidade de que dificilmente sairá. 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Wimbledon também fica para mais tarde


Alguns dos grandes acontecimentos desportivos previstos para o corrente ano já foram adiados devido à actual pandemia de covid-19, assim acontecendo com os Jogos da XXXII Olimpíada – Tóquio 2020, que é o maior evento desportivo do ano.
Porém, a decisão agora tomada pela direcção do All England Club e pela comissão de gestão do The Championships, ao anunciarem o cancelamento do histórico Torneio de Wimbledon de 2020, teve também um enorme impacto mediático devido ao simbolismo daquele torneio, conforme evidencia hoje a capa do jornal desportivo francês L’Équipe.
O Torneio de Wimbledon realiza-se desde 1877 e é uma das provas desportivas mais antigas do mundo, estando previsto que se realizasse entre os dias 29 de Junho e 12 de Julho, mas as preocupações com a saúde pública devidas à actual pandemia levaram a organização a adiar a 134ª edição do torneio para 2021. É a terceira vez que isso acontece, pois entre 1915 e 1918 (1ª Guerra Mundial) e entre 1940 e 1945 (2ª Guerra Mundial), o torneio também não se realizou.
As novas datas estão definidas e o torneio decorrerá entre os dias 23 de Julho e 8 de Agosto de 2021. No torneio agora adiado, ainda estava prevista a participação de Roger Federer que é o recordista do torneio com oito vitórias e de Serena Williams que tem sete vitórias, rembora a recordista seja Martina Navratilova com nove vitórias. Porém, no próximo ano ambos terão 39 anos de idade e os anos não perdoam...
Curiosamente, o Open dos Estados Unidos que se prevê realizar entre 31 de Agosto e 13 de Setembro de 2020 em Flushing Meadows, na cidade de Nova Iorque, ainda não foi adiado, o que mostra como os americanos ainda não assumiram a gravidade da pandemia que também já entrou no país e, sobretudo, no estado de Nova Iorque.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

O novo mundo da tecnologia já chegou


Meio mundo está em quarentena e, nesse quadro, as comunicações electrónicas adquiriram uma importância que, embora seja inesperada, tem surpreendido. Muitas actividades quotidianas deixaram de exigir a presença física das pessoas e a quantidade de funções que passaram a depender da internet e da world wide web são incontáveis. Na na situação de emergência por que passamos, generalizou-se a adopção de computadores e dos seus derivados. Mesmo os mais irredutíveis cidadãos começam a render-se ao novo mundo porque, através do computador, escrevemos e guardamos textos, podemos ter música e cinema, mas também o teletrabalho, a teleconferência, a telescola, o home banking e inúmeras App, o que significa um novo mundo de eficiência, mas também de maior desumanização. Os novos reis da comunicação são o WhatsApp, o Skype, o Facebook, o Instagram, o Twitter, o Google+ e o Youtube. Num pequeno equipamento de 14 por 7 centímetros, ou mesmo mais pequeno, que pode custar menos de cem euros, podemos ligar-nos ao mundo e telefonar, escrever, ver filmes, mandar mensagens, fotografar, filmar, pagar despesas, ter consultas médicas, comprar livros, encomendar provisões ou refeições e muitas mais coisas que muitas vezes até desconhecemos.
Com os dias de quarentena e de confinamento, as nossas casas estão a tornar-se verdadeiros home offices, de onde cada um de nós telefona, recebe e envia mensagens, conferencia, consulta o banco, paga facturas, marca consultas médicas, recebe as compras dos supermercados, visita bibliotecas e museus, compra livros e discos e faz muitas mais coisas. As habituais idas ao multibanco e ao supermercado tendem a ser desnecessárias. Esta quarentena está mesmo a acelerar a chegada de um novo mundo da tecnologia. Estamos realmente a entrar na era do home office como hoje referia uma revista brasileira.

terça-feira, 31 de março de 2020

Recursos escassos necessidades ilimitadas

No panorama actual da pandemia do covid-19 que tanto nos preocupa, os Estados Unidos são o país do mundo com mais pessoas infectadas, registando actualmente 164.406 casos, embora as 3.172 mortes que já se verificaram no país estejam aquém das que já se registaram na Itália, na Espanha ou na China. 
Porém, Donald Trump e as autoridades federais acordaram muito tarde. Esse facto, associado à não existência de um serviço nacional de saúde universal semelhante aos que têm os países europeus, têm levado alguns especialistas a referir que o centro da pandemia já se deslocou para os Estados Unidos. No entanto, os abundantes recursos americanos acabam sempre por ajudar a ultrapassar algumas dificuldades, como as que estão a atravessar a Itália e a Espanha, onde os recursos hospitalares são escassos para acudir a quem deles precisa.
Ontem, com grande cobertura da imprensa americana e até de alguma imprensa europeia, atracou no Pier 90 do porto de Nova Iorque o USNS Comfort, the giant hospital ship da Marinha americana. Trata-se de um antigo petroleiro com 272 metros de comprimento e uma altura correspondente a um edifício de dez andares, que foi reconvertido num grande hospital e dispõe de 1000 camas, 12 salas de operações e todas as valências hospitalares, sendo servido por 1200 tripulantes, sobretudo médicos e pessoal paramédico.
A missão do USNS Comfort em Nova Iorque não é receber ou tratar doentes infectados com o covid-19, mas recolher pacientes com outras patologias e, por essa via, aliviar o sistema hospitalar daquele estado. Entretanto, um outro navio semelhante já se encontrava em Los Angeles para apoio ao sistema hospitalar do sul da Califórnia, que é o terceiro estado com mais infecções no país, depois de Nova Iorque e Nova Jersey.
Naturalmente que estes recursos causam inveja aos pequenos países onde “os recursos são escassos e as necessidades ilimitadas”, um axioma que certos interesses corporativos portugueses parecem não conhecer.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Depois disto, nada vai ser como dantes


Quando há mais de duas semanas começamos a tomar medidas de distanciamento social ou de voluntária quarentena, todos imaginamos que a situação de confinamento poderia durar até meados do mês de Abril, depois começou a falar-se em Maio e um jornal de Lisboa anuncia hoje que a quarentena pode durar até finais de Junho. Todos os dias somos informados com novas previsões baseadas em estudos matemáticos que vão atirando o fim desta pandemia para mais tarde, mas o facto é que esses modelos matemáticos pretendem prever a evolução de um fenómeno novo e até há pouco tempo desconhecido. Portanto, nesta preocupante situação por que estamos a passar, parece que vivemos mais no campo do palpite do que no campo da verdade científica.
Independentemente de se saber o andamento da curva epidemiológica e de se saber se vai ter um pico ou se achata, ou se tem um pico agora e outro pico mais tarde, já ninguém tem dúvidas que o nosso modo de vida vai mudar e que muitos dos exageros civilizacionais a que a sociedade chegou, não sobreviverão a esta crise.
Daí que, na sua última edição, o Courrier International tenha aberto um debate à volta do tema repensar o mundo. Porém, a mudança de paradigma que necessariamente nos vai alterar o modo de vida, não vai depender dos poderes dos estados, das orientações dos líderes ou dos sistemas económicos, mas vai ser obra de cada ser humano e da sua adaptação a novos tipos de relacionamento social e familiar, a novos modelos de consumo e a uma nova atitude perante o ambiente e a paisagem. Depois desta pandemia do covid-19 vão ser diferentes a sociedade, a economia, as relações internacionais, o desporto, o turismo, o nosso modo de vida. Nada vai ser como dantes.