quinta-feira, 19 de junho de 2014

As mentiras, as trapalhadas e o desnorte

Os nossos governantes andam muito desorientados e, perante as persistentes dificuldades do nosso país e as suas más políticas, reagem com mentiras, trapalhadas e demasiadas desculpas de mau pagador. A propaganda falhou e o insucesso é uma realidade. Depois da monumental farsa que foi a história da saída limpa e dos piores resultados eleitorais que os seus partidos obtiveram nas recentes eleições, o desnorte dos governantes e dos seus mais fiéis seguidores é completo e muito preocupante, enquanto o silêncio do homem do leme nos causa muita apreensão. Já não há disfarces possíveis.
O caso do ataque aos funcionários públicos é um exemplo de fanatismo e dava para rir se não fosse um assunto tão sério. Esta manhã os jornais anunciaram que o governo recusava repor os subsídios de férias dos funcionários públicos, com base nas declarações do ministro Maduro que ontem afirmou que, depois da decisão do Tribunal Constitucional, aqueles que já tinham recebido o subsídio de férias com cortes, não teriam direito a qualquer ajustamento. Aparentemente, o ministro Maduro estava seguro do que dizia, tendo as suas declarações sido apoiadas pelo irrevogável ministro Portas e por esse exemplo de boçalidade política que é o deputado Montenegro. Porém, o ministro Guedes veio hoje desmentir o ministro Maduro e anunciar que os funcionários públicos que já tivessem recebido a totalidade ou parte do subsídio de férias com o corte que estava previsto, vão afinal receber o valor em falta.
Demitiu-se o ministro Maduro por ter sido desautorizado? Não tem ponta de vergonha, nem tem coragem para isso. Significa, portanto, que ninguém se entende no governo e que muitos de nós nunca sabemos quanto vamos receber ao fim do mês. Esta gente não tem consideração nenhuma pelos portugueses. A desconfiança é total. Antes tinham a desculpa do Pinto de Sousa e da troika, agora desculpam-se com o Tribunal Constitucional. É demasiada mediocridade e muito amadorismo. É uma completa trapalhada. Andam com os passos trocados. A nau está meter água por todo o lado.

Espanha: novo rei, nova esperança?

A partir de hoje o Príncipe das Asturias tornou-se o Rei de Espanha com o nome de Filipe VI, sucedendo a seu pai Juan Carlos I que esteve no trono durante 39 anos e que dele saiu, exactamente no mesmo dia em que a Espanha também deixou de reinar no futebol mundial. Os desafios do novo rei constitucional e Chefe de Estado são enormes, porque a Espanha continua debaixo de uma crise económica e social gravíssima, os movimentos independentistas estão muito vivos e a contestação ao regime monárquico está a agitar-se nas ruas e nas redes sociais. 
Um sou um republicano moderado, isto é, não acredito que a República tenha todas as virtudes do mundo, nem creio que a Monarquia seja o mais desprezível dos sistemas políticos. Cada país ou cada comunidade escolhe o sistema que melhor se ajuste às suas realidades culturais e económicas e, de uma forma mais geral, ao seu projecto de sociedade, não sendo certo que a República Francesa seja melhor do que a Monarquia Belga, nem que a Monarquia Sueca seja melhor do que a República Finlandesa. A forma do poder é uma questão que tem um carácter simbólico, que cada país resolve de maneira soberana como melhor entende.
Por razões de ordem diversa que não serão aqui analisadas, a República Portuguesa tem especiais relações históricas e institucionais com as Monarquias Espanhola e Inglesa, olhando para o que se passa nos palácios da Zarzuela ou de Buckingham com um interesse que vai para além da simples curiosidade. Assim, somos levados a uma  curiosa comparação entre Filipe, Príncipe das Asturias (Espanha) que agora sobe ao trono com 46 anos de idade e Carlos, Príncipe de Gales (Inglaterra) que, aos 65 anos de idade continua à espera, havendo quem considere que nunca será Rei da Inglaterra. Numa altura em que as monarquias estão cada vez mais fora de moda e já não são suficientemente representativas nem exemplares, o novo Rei pode realmente representar uma renovada esperança para a sobrevivência e para a unidade da própria Espanha... y viva España!

terça-feira, 17 de junho de 2014

Ainda a troika e os efeitos colaterais

Ontem tratamos aqui dos efeitos colaterais provocados pela acção concertada da troika e do governo, destacando o facto de cerca de 150 mil famílias, que representam cerca de 6,3% das famílias portuguesas, terem deixado de cumprir o pagamento dos empréstimos que contrairam para a compra de habitaçãp própria.
Hoje, o Diário de Notícias destaca naturalmente essa “enorme tragédia” que foi a derrota portuguesa na sua “estreia desastrada” no Mundial de Futebol, com a fotografia de Ronaldo a personificar essa derrota, mas isso não foi devido à troika. Porém, o jornal também informa que “341 portugueses abandonam o País todos os dias” e que “no último ano emigraram 128 mil portugueses”, acrescentando ainda que, apenas em dois anos, saíram de Portugal quase 250 mil pessoas, entre emigrantes permanentes e temporários. A acrescentar a esta dramática realidade demográfica está a quebra de natalidade que, em conjunto com a emigração, estão a conduzir o país a uma grave redução da população e ao seu rápido envelhecimento.
Este problema agravou-se com o programa de ajustamento económico e financeiro que lançou a nossa economia na recessão e no brutal aumento do desemprego. Esse agravamento é, portanto, uma consequência das políticas de austeridade da troika, que o governo cegamente adoptou e não deixa de ser mais um gravíssimo efeito colateral dessa austeridade, que põe em causa o nosso futuro como nação que tem um passado e uma história. Na sua actuação dominada pelo fanatismo e pela cegueira, os nossos governantes não vêem que estão a hipotecar o nosso futuro pela via demográfica e que, cada vez mais, há uma geração de jovens que sentem não ter direito a uma vida digna no seu país e que emigram, ao mesmo tempo que os que por cá ficam não têm estabilidade económica nem segurança para organizarem a sua vida e procriarem. É um caso de ausência de visão estratégia. É uma situação verdadeiramente dramática. "A que novos desastres determinas de levar estes reinos e esta gente", é o que lhes perguntaria Camões (Os Lusíadas, Canto IV, est.97).

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Ataques da troika e efeitos colaterais

Quando ocorre uma situação de conflito de qualquer natureza, seja numa guerra, num simples jogo de futebol ou até nas relações humanas, há umas acções que podem ser classificadas como ofensivas e outras que são classificadas como defensivas. As acções ofensivas destinam-se a produzir efeitos mais ou menos severos sobre o adversário, mas quando ocorrem efeitos diferentes daqueles que se procuravam, estamos perante os chamados efeitos secundários ou efeitos colaterais.
As acções conduzidas em Portugal pela troika entre 2011 e 2013 foram acções ofensivas, que se destinaram sobretudo a retirar rendimentos aos funcionários públicos e aos pensionistas, que se traduziram no desemprego, no empobrecimento e na emigração generalizada, mas tiveram muitos efeitos colaterais, observáveis no recuo da qualidade de vida e nos retrocessos na educação, na saúde, na cultura e na ciência.
Hoje o Diário de Notícias revela um outro importante efeito colateral que se verificou em Portugal: o número de famílias que não pagam casa subiu e chega à beira de 150 mil. Estes números aproximam-se do máximo de incumprimento de 150.300 que se verificou em Junho de 2012. Na realidade, só no corrente ano de 2014 houve mais 4083 famílias que deixaram vencer o crédito da casa, ou seja, uma média diária de 80 portugueses deixaram de conseguir liquidar o empréstimo à habitação. Segundo o Banco de Portugal há 6,4% de famílias portuguesas que deixaram de  cumprir o pagamento dos empréstimos à compra de casa própria, enquanto uma responsável da  DECO afirmou que “estamos a sentir que as famílias estão numa situação muito mais difícil do que no ano passado e do que no início da crise”, até porque "no início da crise as dificuldades foram diluídas porque havia almofadas das famílias, amigos e dos próprios e hoje essa rede de proteção é inexistente".
Quem é que nos falou na saída limpa? Quem é que nos disse que o país está muito melhor? Ora aqui está mais uma consequência da brutalidade do ataque feito pela troika aos portugueses, com a subserviente e insensível compreensão do passos perdido.

domingo, 15 de junho de 2014

A Copa do Mundo 2014 - comentário I


Fonte: www.fifa.com/worldcup/photos
Estamos no quarto dia do Mundial de Futebol e, depois de oito jogos já disputados, sucedem-se o entusiasmo das torcidas, as boas exibições das equipas, os erros dos árbitros, os resultados imprevistos e os golos.
O ambiente que nos chega do Brasil é de festa, mas por aqui também há uma onda de euforia futeboleira que percorre Portugal, alimentada pela televisão que tem estado dominada pelas transmissões contínuas, pelas notícias, pelas entrevistas, pelas reportagens e pelos compromissos publicitários, para além de ter mobilizado algumas dezenas de comentadores.
Dois dos grandes favoritos à vitória final começaram as suas prestações com sortes diferentes. O Brasil entrou a ganhar mas a imprensa brasileira foi contida, destacando “a vitória sofrida” e o papel do “anjo japonês”. A Espanha entrou a perder e, com muita impaciência, a imprensa espanhola destacou um “siniestro total”, uma “roja de vergüenza” e o “ridiculo para empezar”. Houve vitórias do México, Holanda, Chile, Colômbia, Costa do Marfim, Costa Rica e Itália. Entre os que entraram a perder, para além da Espanha, destacam-se a Grécia e o Uruguai.
O mais importante jogo realizado até agora foi o Espanha-Holanda, que reeditou a final do anterior Campeonato do Mundo, que a Espanha vencera. A Holanda esteve demolidora e ganhou com muito mérito por 5-1. Nunca um campeão do mundo sofrera tal humilhação. O primeiro golo holandês foi marcado por Robin van Persie, um futebolista com 30 anos de idade que joga no Manchester United. Foi uma obra de arte, um voo que a fotografia da FIFA tão bem captou. Foi, até agora, o melhor golo e o melhor momento deste Mundial.
Com estes artistas haverá alguém que não goste do espectáculo do futebol!

sábado, 14 de junho de 2014

Em Defesa da Independência Nacional

Há cerca de 60 anos foi proposto um modelo político e económico para assegurar a paz e a prosperidade na Europa, que começou por juntar seis países, mas que tem sido sucessivamente alargado e que, no essencial, tem correspondido aos ideais dos seus fundadores. O modelo tem evoluído entre uma prática intergovernamental e uma tendência federalista que tem prevalecido através de uma complexa e muito burocrática rede de instituições que, além de serem demasiado dispendiosas, parecem viver fechadas sobre si próprias e afastadas das populações que deveriam servir. Esse centralismo ou essa materialização do ideal federalista, a que o Reino Unido sempre reagiu, foi uma criação dos burocratas e dos apátridas que se instalaram nos corredores comunitários mas, nos últimos anos, começou a revelar-se irrealista, utópico e até ditatorial.
A União Europeia, que deveria ser uma parceria entre iguais, deixou-se arrastar por interesses hegemónicos e as soberanias nacionais foram transferidas, em maior ou menor grau, para Bruxelas e Estrasburgo e, mais recentemente, também para Frankfurt. A arrogância da troika e as intromissões da Comissão Europeia no nosso quotidiano tornaram-se intoleráveis e ofendem os sentimentos soberanos de uma nação com uma identidade bem definida e com nove séculos de História. É preciso romper com esta subserviência a que nos temos obrigado e restaurar a dignidade nacional.
O livro agora publicado pelo economista João Ferreira do Amaral - Em Defesa da Independência Nacional – é um manifesto patriótico de um grande pensador, que reage “à ditadura europeia” e que deve ser lido cuidadosamente e muito meditado. É um livro que invoca as nossas raízes históricas e culturais e que nos revela como a nossa soberania está ameaçada por “uma legião de burocratas europeus”. Todos sabemos que assim é. Por isso, é um livro a não perder.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Eles comem tudo… e não deixam nada

Há pouco tempo, na sua descarada campanha de propaganda, o governo vangloriava-se por aquilo a que chamou saída limpa, pois o programa de ajustamento económico-financeiro conduzido pela troika tinha sido um sucesso, mas muitas declarações então produzidas cobrem agora de ridículo os seus autores, pelo menos aqueles que ainda têm vergonha na cara. Nesse campo do ridículo destacou-se o irrevogável ministro que até instalou um relógio na sede do seu partido para assinalar o tempo que faltava para o restauro da nossa soberania, comparando-a com o restauro da nossa independência em 1640. Era tudo arrogância e auto-satisfação. Os vícios do anterior governo estavam corrigidos. A credibilidade externa do país estava recuperada. Os famosos mercados estavam rendidos à eficiência lusitana. Os juros da dívida baixavam continuadamente. A economia dava sinais de recuperação e só as exportações não ajudavam por causa dos trabalhos de manutenção na refinaria de Sines.
Três anos depois da chegada da troika, a realidade começou a ver-se com clareza e a decepção é completa, pois não só se agravaram as principais variáveis macroeconómicas, como o nosso tecido social se degradou enormemente. Acusaram-nos de vivermos acima das nossas possibilidades e decidiram empobrecer-nos, enquanto o seu novo-riquismo pacóvio tem esbanjado os nossos impostos, com as suas multidões de assessores, os seus carros pretos de alta cilindrada e as suas viagens faraónicas. A dignidade e a independência nacionais foram violadas perante a passividade dos nossos governantes. A necessária reforma do Estado ficou na gaveta. A base social de apoio do governo é cada vez mais estreita. Os recentes ataques feitos ao Tribunal Constitucional são um mau exemplo de convívio democrático e revelam que os nossos governantes não se sabem dar ao respeito.
Hoje, os jornais dizem que “cortes salariais regressam para 400 mil” (Jornal de Notícias), que “carta ao FMI promete mais rescisões no Estado” (Diário de Notícias) e que “governo quer novos cortes na função pública já em Agosto” (Jornal i).
Esta gente andou a enganar-nos e só nos lembramos d’Os vampiros de Zeca Afonso porque, tal como acontecia antigamente, eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada.

Navegar é preciso

Estamos a três semanas de se iniciar a famosíssima regata - The Tall Ships Race 2014 - que este ano decorre entre os dias 3 de Julho e 5 de Agosto numa área muito limitada do Mar do Norte e que partirá de Harlingen (Holanda), com paragens em Fredrikstad e Bergen (Noruega) e em Esbjerg (Dinamarca), estando prevista a participação de oito dezenas de veleiros, incluindo o lugre português Santa Maria Manuela. Os veleiros participantes já começaram a convergir para a área de partida e um desses navios é o Kruzenshtern, que é o segundo maior veleiro do mundo e serve de navio-escola da Marinha russa, que esta semana visitou o porto francês de Le Havre e mereceu honras de primeira página no jornal Le Havre Presse.
Trata-se de uma barca com 4 mastros e 114 metros de comprimento que foi construída em 1926 nos estaleiros alemães de Bremerhaven, que foi utilizado no transporte de minério entre o Chile e a Alemanha, que serviu depois de navio-escola alemão no mar Báltico e que veio a ser capturado pelos Aliados e entregue à Rússia como compensação de guerra. Em 1954 adoptou o seu actual nome e foi integrado na Marinha russa.
A visita de um navio ao porto de Le Havre, situado na região administrativa da Alta Normandia que tanto sofreu durante a 2ª Guerra Mundial, é um acontecimento de rotina. Porém, o destaque que a imprensa local dá à visita de um veleiro é esclarecedor do interesse pelas actividades marítimas e pelo simbolismo dos grandes veleiros. Aqui, neste “jardim à beira-mar plantado”, continuamos a utilizar uma retórica de grande maritimidade, mas na realidade continuamos de costas voltadas para o mar quando, cada vez mais, “navegar é preciso”.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A guerra no Iraque e a lição da História

Lajes, 16 de Março de 2003
As notícias que nos últimos dias nos têm chegado do Iraque são demasiado preocupantes e mostram que, com todas as suas trágicas consequências, a guerra se intensifica nas regiões da antiga Mesopotâmia, que foi um dos berços da nossa civilização.
Ontem, chegou uma informação anunciando que “os rebeldes tomaram o controlo total de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, após dias de combates” e, mais tarde, outra notícia destacava que os rebeldes apoderam-se da província de Ninive e de sectores das províncias iraquianas de Kirkuk e Saladino”. Hoje, uma outra notícia informa que “militantes islâmicos avançam sobre a maior refinaria iraquiana na cidade de Baiji. Significa que a guerra se instalou no norte do Iraque e que as autoridades de Bagdad estão a perder o controlo da situação. Estas forças, ora designadas por rebeldes ora por militantes, estão agrupadas em torno do grupo jihadista EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) que já controla a cidade de Mossul e que, aparentemente, também já controla a maior refinaria do país. Na Síria, no contexto da sua luta contra o governo de Bashar al-Assad, os jihadistas também têm sob o seu controlo as regiões do leste do país, que fazem fronteira com o Iraque. Desta forma concertada, o EIIL procura expandir os territórios sob o seu controlo, a fim de criar um Estado islâmico entre a Síria e o Iraque. Esta preocupante situação tem origens muito complexas, sobre as quais não é fácil emitir opinião.
Nestes casos, porém, a História ajuda-nos e mostra-nos que na origem desta turbulência e desta guerra está a famosa cimeira realizada em 2003 na Base das Lajes, nos Açores, quando George W. Bush (E.U.A.), Tony Blair (Reino Unido) e José Maria Aznar (Espanha) foram recebidos pelo primeiro-ministro português Durão Barroso na tarde de 16 de Março de 2003, para uma cimeira que culminou quatro dias depois, na madrugada de 20 de Março, com o início da intervenção militar contra o regime de Saddam Hussein, porque alegadamente este possuia armas de destruição maciça, incluindo armas químicas. Era mentira como todos, um a um, reconheceram depois. E aqui temos como uma mentira dos falcões do costume e dos seus ajudantes, levou a instabilidade, o desassossego e a guerra até às regiões da antiga Mesopotâmia. Então, como a fotografia mostra, Barroso sorria.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Os caminhos da paz no Médio Oriente

Há duas semanas o Papa Francisco esteve numa visita oficial de três dias ao Médio Oriente, com passagens pela Jordânia, pela Palestina e por Israel, com o objectivo de relançar o diálogo inter-religioso e contribuir para a resolução do conflito israelo-palestiniano que continua a agravar-se. De entre os inúmeros encontros do Papa Francisco destacam-se aqueles que manteve com Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestiniana, e com Shimon Peres, o presidente de Israel, aos quais fez um convite para se juntarem a ele no Vaticano para que, em conjunto, rezassem pela paz. Aludiu, então, às “consequências trágicas do prolongado conflito” e disse que “chegou a hora de se colocar um ponto final numa situação que se tornou cada vez mais inaceitável”.
Ontem, duas semanas depois do desafio lançado, o líder da Igreja Católica reuniu e rezou nos jardins do Vaticano com os presidentes de Israel e da Palestina, juntando simbolicamente nesse singular encontro, os cristãos, os muçulmanos e os judeus. A fotografia do abraço entre Shimon Peres e Mahmoud Abbas, apadrinhado pelo Papa e aparentemente muito afectuoso, ilustrou muitas primeiras páginas dos jornais, como por exemplo The Wall Street Journal.
Independentemente dos resultados deste encontro, ele é um expressivo sinal e representa um forte contributo para ultrapassar o conflito que tem oposto israelitas e palestinianos, mas que também tem envolvido o mundo árabe  e os aliados de Israel, num contínuo processo de ameaça à paz mundial. Com esta iniciativa, fica evidenciado quão importante pode ser o papel do Papa e da Igreja Católica como potenciadores do diálogo e da paz em situações de conflito. Numa declaração ontem produzida, o Papa Francisco disse que “para ter paz é preciso mais coragem do que para fazer a guerra” e que “é preciso coragem para dizer sim ao encontro e não ao conflito, sim ao diálogo e não à violência, sim às negociações e não às hostilidades, sim ao respeito dos pactos e não às provocações, sim à sinceridade e não à duplicidade. Para tudo isto, é preciso coragem e grande esforço de ânimo”.
A iniciativa do Papa que apelou a um "diálogo a todo o custo", é uma lição para os líderes mundiais e um desafio para aqueles dois dirigentes que não podem ignorar por mais tempo o desejo de paz dos seus povos e devem colocar um ponto final no conflito que assola o Médio Oriente há várias décadas.

O maior desportista espanhol de sempre

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O tenista espanhol Rafael Nadal venceu ontem em Paris pela nona vez o torneio de Roland-Garros e, se ainda não era considerado a maior figura de sempre do desporto espanhol, na sua edição de hoje o diário desportivo Marca tratou de lhe atribuir esse título. A imprensa espanhola e alguma imprensa internacional destacam hoje esse feito desportivo e, numa altura de alguma instabilidade e muita preocupação em Espanha por razões políticas, aparece a figura de Rafael Nadal como um símbolo da tenacidade, do orgulho e até da unidade espanholas.
Nascido nas Ilhas Baleares e com 28 anos de idade, Rafael Nadal tem um currículo impressionante no ténis mundial, no qual se inscrevem 14 vitórias individuais em torneios do Grand Slam, que inclui os quatro torneios de ténis mais importantes que se disputam no mundo - Torneio de Wimbledon, Torneio de Roland-Garros, Open da Austrália e Open dos Estados Unidos - um feito só superado pelo tenista suiço Roger Federer.
Além disso Nadal ganhou 27 títulos em torneios ATP World Tour Masters 1000, fez parte da equipa espanhola que venceu a Taça Davis por quatro vezes e, em 2008, conquistou o título olímpico em Pequim.
A Espanha que está a vir para as ruas a reclamar por consultas populares, num caso por um plebiscito sobre a Monarquia após o anúncio da abdicação do rei Juan Carlos e, noutro caso, a reivindicar por um ou mais referendos sobre a independência de algumas das suas comunidades autónomas, encontra no desporto um factor de unidade nacional e, neste momento, o seu elo de união mais forte parece ser Rafael Nadal.

domingo, 8 de junho de 2014

As Festas de Lisboa estão de volta

As Festas de Lisboa estão de volta para animar a cidade durante o mês de Junho, com um programa intenso e diversificado, mas quase sempre de acentuado cunho popular. A cidade transforma-se e mobiliza-se para receber os festejos nas quentes noites de Junho, enquanto as ruelas estreitas e as pequenas pracetas dos bairros históricos, sobretudo em Alfama, na Bica e Bairro Alto, são ornamentadas a preceito para acolher os arraiais populares. Um pouco por toda a cidade, sobretudo nos bairros tradicionais, há animação de rua, com bailes populares, festivais, cinema, exposições, competições desportivas, teatro de rua e música, para além de um sem número de pequenos restaurantes que, em mesas decoradas com vasos de manjericos, servem a indispensável sardinha assada, o caldo verde, o chouriço assado, a sangria e, mais recentemente, a cerveja. A sardinha assada é, de resto, um dos mais expressivos símbolos das festas da cidade, mas é preciso ter atenção ao encomendar porque, nesta altura, há a tendência para despachar muita sardinha congelada... 
No entanto, a mais entusiasmante das iniciativas das Festas de Lisboa são as marchas populares que desfilam na Avenida da Liberdade no dia 12 de Junho a partir das 21:00 horas, que este ano têm como tema a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, uma obra publicada há 400 anos e que, desta maneira, tem uma divulgação acrescentada. Entre outros motivos de grande interesse, as Festas da Cidade incluem uma outra dimensão cultural muito curiosa, pois integra dois patrimónios imateriais da Humanidade – o fado lisboeta e os “castelleres de Sants”, as torres humanas que vêm de Barcelona e que se inspiram na tradição catalã do século XVIII. Por outro lado, as Festas da Cidade também têm um motivo adicional de interesse que são as transmissões televisivas dos jogos da selecção portuguesa no Campeonato do Mundo de Futebol, que poderão ser um factor de maior entusiasmo com as bandeirinhas, os cachecóis e os outros ícones futebolísticos.
As festas encerrarão no dia 3 de Julho com um concerto de Fausto Bordalo Dias na Torre de Belém.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A memória do dia D ou do dia mais longo

Ficou registado na História como o Dia D e aconteceu há 70 anos, no dia 6 de Junho de 1944. A literatura e o cinema elegeram-no como “o dia mais longo” e como um dos seus temas preferidos, que continua a suscitar o interesse dos estudiosos da Segunda Guerra Mundial. Tratou-se da maior invasão anfíbia de todos os tempos, na qual estiveram envolvidos mais de cinco mil navios que, só nesse dia, desembarcaram 160 mil homens e todo o apoio logístico de que necessitavam, numa frente de desembarque de mais de 80 quilómetros nas costas francesas da Normandia. A complexa invasão das forças aliadas, sobretudo americanas, inglesas e canadianas, foi designada por operação Overlord e a ela estiveram ligados importantes comandantes aliados como Eisenhower, Montgomery e Bradley, mas também, do outro lado, Von Rundstedt e Rommel. A guerra avassalava a Europa desde 1939, mas a partir desse dia alterou-se a correlação de forças e iniciou-se a libertação da França ocupada pelos nazis e a caminhada militar das forças aliadas em direcção à Alemanha. Um ano depois, a Alemanha nazi sucumbia e Berlim era ocupada.
Hoje, 19 chefes de Estado, entre os quais Obama, Putin, Isabel II e Hollande, evocarão esse dia em diversas cerimónias em que ainda participarão 1800 veteranos de guerra. A imprensa francesa associa-se a esta efeméride e Le Figaro destaca que o mundo festeja a liberdade, pois esse dia representou o princípio do fim do nazismo, de Adolf Hitler e do III Reich de tão horrível memória.
Nos tempos conturbados por que passamos, a celebração desta efeméride tem a virtualidade de a todos recordar o que foram os horrores daquela guerra, mas também da necessidade de hoje assegurar entendimentos que preservem a paz. Bom seria que se lembrassem do que fizeram, ou não fizeram, por exemplo na Líbia, na Síria ou na Ucrânia.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Caminhando com os passos trocados…

O governo veio dizer que o Tribunal Constitucional põe em causa a governação do país, por este ter chumbado três normas do Orçamento do Estado para 2014. Ao actuar por esta via de confronto, o governo mostra não perceber que tem que cumprir a Constituição e as leis da República e dá um mau exemplo ao país, pois destabiliza a sociedade e a economia, quando devia ser um factor de estabilidade de que o país tanto precisa.
Há três anos o primeiro-ministro Passos prometeu cumprir o programa acordado com a troika e admitiu mesmo “surpreender e ir mais além [das metas] do acordo”. Assim fez e, durante três anos, foi um obediente e submisso servo da troika, tornou-se um campeão das políticas de austeridade que empobreceram o país e fizeram com que a dívida pública não parasse de aumentar. A mentira e a propaganda tornaram-se práticas comuns e foram enormes os desvios entre o que foi prometido e aquilo que efectivamente foi feito. O modelo que adoptou para vencer a crise - aumento de impostos e corte em salários e pensões – foi um completo fracasso que empobreceu o país, criou muito desemprego e aumentou as desigualdades económicas e sociais. Havia alternativas, mas ele adoptou a arrogância, o auto-convencimento e a teimosia. Já na fase final do chamado ajustamento ainda tentou fazer o número da saída limpa, mas até esse foguetório foi uma completa farsa. Sintetizando, perante a humilhação que a troika nos impôs, o primeiro-ministro teve um comportamento subserviente, sem a dignidade e a firmeza que o seu cargo exigia e a que o obrigava o nosso passado como nação com nove séculos de história e com importantes contributos para o progresso da Humanidade. Passos escolheu caminhar com os passos trocados… e o eleitorado deu-lhe apenas 27,71% de votos nas recentes eleições europeias.
Agora, olha para o lado e em vez de reconhecer a sua abusiva tendência para governar à margem da lei, vem queixar-se do Tribunal Constitucional e ameaçar-nos com novos aumentos de impostos. O ajudante Portas e as cornetas de Marques Mendes e Marco António, não se calam. Realmente, esta gente passou-se! Anda tudo com os passos trocados.
Entretanto, ainda sobre a decisão do Tribunal Constitucional, o primeiro Passos não esclarece se a troika foi embora ou ainda anda a passear por aí, mas assiste, subserviente e sem reagir, às declarações insultuosas e aos diktacts de Barroso e de Olli Rehn, da malta do FMI e da Moody’s ou, ainda, do Arnaut, que é o mais recente servo da Goldman Sachs. Nesta estória, aquele que está em Belém e que jurou “cumprir e fazer cumprir a Constituição”, fica silencioso e embevecido a olhar para a camisola 12 da selecção que lhe foi oferecida.

terça-feira, 3 de junho de 2014

A monarquia espanhola em renovação

O rei Juan Carlos I de Espanha decidiu abdicar do seu trono porque “uma nova geração reclama com justa causa o papel de protagonista”, quando o país atravessa uma situação de profunda crise económica que tem deixado graves cicatrizes no tecido social. Independentemente da diversidade dos ideais de cada espanhol, o facto é que Juan Carlos parece ter sabido conviver com o franquismo sem se deixar dominar por ele e que, depois da morte de Franco, assegurou a estabilidade e a unidade nacionais durante 39 anos, apesar de nunca ter estado imune a muitas críticas. Na sua declaração televisiva aos espanhóis, o Rei disse acreditar que o seu filho Felipe, de 46 anos de idade, está preparado para assegurar a estabilidade e a defesa da monarquia e da democracia espanholas.
Nestas circunstâncias, ainda durante o corrente mês de Junho,  Felipe Juan Pablo Alfonso de Todos los Santos de Borbón y Grecia poderá tornar-se Felipe VI, enquanto a sua mulher Letízia Ortiz Rocasolano, uma antiga jornalista de Oviedo,  que já tem direito aos títulos de Princesa das Astúrias, de Girona e de Viana, Duquesa de Montblanc, Condessa de Cervera e Senhora de Balaguer, será a Rainha de Espanha.
Todos os jornais espanhóis, mas também muitos jornais internacionais, destacaram hoje esta notícia mas, provavelmente, poucos foram tão explícitos como o ara, um jornal de Barcelona nascido em 2010 e que é o jornal de maior audiência, escrito exclusivamente em catalão. De facto, quando a generalidade da imprensa espanhola presta homenagens ao rei Juan Carlos I ou elogia as capacidades do futuro rei Felipe VI, o ara destaca o processo da Catalunha e o grito popular republicano, como os grandes desafios que esperam o novo Rei e a própria Espanha. Desafios complexos, mas inadiáveis. Naturalmente, a transição régia vai gerar movimentações políticas e sociais em Espanha e, sem qualquer dúvida, todos estes desenvolvimentos serão acompanhados com muito interesse em Portugal.