sábado, 21 de março de 2020

A preocupação americana com o covid-19


As últimas notícias indicam que nos Estados Unidos já se verificaram 273 mortes devido ao covid-19 e que há, pelo menos, 19.762 pacientes que já foram infectados nos 50 estados americanos.
Há menos de um mês o presidente dos Estados Unidos ainda afirmava que a situação estava “totalmente sob controlo” e que o risco do coronavírus afectar o país era muito baixo, atribuindo essa convicção às medidas que tomara ao proibir a entrada no país de pessoas provenientes da China. De resto, as declarações de Donald Trump sempre desvalorizaram a hipótese de poder haver contágios nos Estados Unidos, certamente para evitar que os americanos entrassem em pânico, mas a realidade foi-se impondo. Há uma semana, já com alguns casos confirmados de pessoas infectadas, o presidente declarou o estado de emergência nacional e insistiu que “os números iam descer”, mas o facto é que eles não param de subir, embora estejam anunciadas muitas medidas para travar a propagação do vírus, como o cancelamento de voos, o encerramento de escolas e, agora, a quarentena obrigatória para 40 milhões de californianos e para os trabalhadores não essenciais dos estados de Connecticut, Illinois e New York. Já não é possível anunciar que que a situação está “totalmente sob controlo”.
Nesta altura, os Estados Unidos encontram-se em sexto lugar na lista de países com mais pessoas infectadas e com mais mortes, depois da Itália, China, Espanha, França e Irão. Por vezes, são feitas acusações aos dirigentes nacionais que não actuaram em tempo oportuno, mas no caso dos Estados Unidos ter-se-à ido longe demais. É, portanto, uma situação muito preocupante que hoje o New York Post ilustra com uma Estátua da Liberdade fechada em casa e em forçada quarentena.

sexta-feira, 20 de março de 2020

O mundo fechou, o mundo não produz.


A pandemia do covid-19 continua activa e, em maior ou menor escala, todo o mundo está infectado e muito apreensivo em relação a uma situação de que se não vislumbra o fim.  O mundo fechou, o mundo não produz, o mundo não sabe quanto tempo isto vai durar. A imagem que a edição do The Economist escolheu para a sua edição desta semana é bem sugestiva, pois mostra que, em paralelo com a calamidade sanitária, também se desenha uma calamidade económica. Angela Merkel disse que a Alemanha enfrenta o seu maior desafio desde a 2ª Guerra Mundial e António Guterres pede solidariedade, cooperação internacional e esperança. A arrogância ignorante de Trump e Bolsonaro já deu lugar à preocupação. O problema é realmente sério. A quarentena ou o estado de emergência que têm sido decretados na generalidade dos países têm o objectivo de travar os contágios e esse é o aspecto mais importante, mas essas medidas drásticas estão a atrofiar as economias. 
Em Portugal as primeiras consequências económicas já estão à vista com a quebra na produção e no turismo, o encerramento de empresas, a suspensão dos transportes aéreos, as falhas no abastecimento público e o desemprego. A situação é grave mas, apesar disso, ainda há alguns indivíduos que, tanto na política como na vida empresarial, parecem não perceber isso e estão a procurar esta oportunidade para servirem os seus interesses particulares, como se vai vendo diariamente nas reportagens apresentadas pelas televisões. É lamentável que, nesta altura, ainda haja tantos portugueses a olhar para o seu umbigo. 
Porém, há que ter esperança e confiança em que os dias melhores virão mais depressa do que se pensa.

quinta-feira, 19 de março de 2020

A crise é séria mas o país não pode parar

O nosso país entrou em estado de emergência e, exceptuando meia dúzia de experientes peritos que entendem que esta decisão foi tardia e outros tantos que acham que foi prematura, parece que toda a gente concordou. Todas as principais figuras do Estado estiveram de acordo e essa unidade reforça a nossa confiança.
Há uma semana, eu ainda me encontrava no número daqueles que imaginavam que estas coisas só aconteciam aos outros, mas nos últimos dias a realidade tornou-se ameaçadora e tem trazido muitas apreensões à população. Os números falam por si e mostram como é grave e imprevisível a situação. 
Nesta emergência há que seguir as orientações das autoridades sanitárias no sentido de minimizar as hipóteses de contaminação pelo covid-19 e de seguir as directivas governamentais para que a economia funcione e possa produzir os bens e serviços essenciais de que carece a população. Por isso, são devidas palavras de encorajamento e de gratidão aos milhares de portugueses que lutam diariamente para que o país funcione nos hospitais e nas farmácias, nos supermercados e nos postos de abastecimento de combustível, nas empresas de electricidade, gás e água, nos transportes públicos e na recolha do lixo, nas estações de rádio e de televisão. Alguém já disse que é uma guerra contra um inimigo invisível e de facto assim é. No entanto, os combatentes que estão na frente dessa luta exigem unidade de comando e firmeza na rectaguarda para vencer esta guerra. E foi isso que vimos ontem nas atitudes do Presidente da República, do Governo e do Parlamento, no qual se destacou a intervenção responsável do líder do maior partido da oposição. Com esta unidade de comando e esta firmeza, a nossa confiança e a nossa unidade reforçam-se. Não pode haver lugar para divisionistas, boateiros, alarmistas, derrotistas e açambarcadores. O país não pode parar!

terça-feira, 17 de março de 2020

A imprevisível evolução do coronavírus


O jornal catalão El Punt Avui está alinhado com a luta pela independência da Catalunha e resultou da fusão que aconteceu em 2011 entre dois jornais rivais catalães - o El Punt, de Girona, e o Avui, de Barcelona. O jornal publica-se em catalão e, por isso, a sua circulação é limitada à Catalunha.
Hoje, tal como inúmeros jornais europeus, o El Punt Avui tem como tema principal que destaca na sua primeira página a crise que o covid-19 está a provocar, mas utiliza uma forma singular e bem original. Enquanto a generalidade dos jornais ilustra as suas edições com fotografias de praças vazias, de comércio fechado e de gente com máscaras, completadas com declarações de líderes políticos, com a contabilidade da tragédia ou com palavras de ordem dirigidas às populações, o jornal catalão apresenta aos seus leitores a curva, isto é, a representação gráfica da evolução da epidemia na Catalunha, da qual não se conhece o modelo matemático que nos possa indicar a previsão do aparecimento do pico ou máximo daquela função. Nessa curva pode observar-se a evolução que se está a verificar na região autónoma da Catalunha, onde o primeiro infectado foi detectado no dia 25 de Fevereiro e em que, vinte dias depois, já estão identificados 1.394 infectados e já aconteceram 18 mortes (na Espanha são 11.178 infectados e 491 mortes).
Porém, o jornal não resiste e aproveita esta oportunidade para responsabilizar Madrid e o governo espanhol por demorarem nas decisões necessárias ao controlo da situação, aliás como também acontece por cá com alguns sectores socio-profissionais, em que aparecem alguns “especialistas” que acusam as autoridades de não serem rápidas a tomar medidas e aproveitam para, de forma dissimulada mas atrevida, fazerem as suas exigências corporativas. São oportunistas que, numa altura tão séria e grave como esta, não são precisos para nada.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Uma guerra mundial com inimigo invisível

A generalidade da população portuguesa parece já ter compreendido que a situação que se aproxima é muito séria e está a aceitar com alguma serenidade as recomendações que estão a ser difundidas pelas autoridades sanitárias. A natureza do covid-19 continua a ser desconhecida, sobretudo no que respeita à sua incubação e propagação, pelo que ainda não há vacinas nem terapêuticas para combater esse vírus. 
Porém, os casos confirmados de infecção têm aumentado e chegaram à Europa, pelo que a melhor terapêutica é mesmo permanecer em casa, de forma a reduzir o risco de exposição e minimizar as probabilidades de contaminação em cadeia.
Aqui em Portugal estamos em estado de alerta, mas aproxima-se o estado de emergência. As restrições e as limitações à vida quotidiana dos cidadãos já são enormes e, nesta altura, a duração desta crise e a sua incidência são imprevisíveis, mas a população parece aceitar todas as contrariedades para defender a saúde pública., embora ainda haja quem, irresponsavelmente, acentue mais as consequências económicas desta crise do que a salvaguarda da vida humana.
No que respeita ao que se perspectiva para as próximas semanas o panorama é preocupante, pois a curva epidemiológica que corresponde matematicamente à evolução da epidemia, está a ser ajustada com os escassos elementos até agora disponíveis, embora aponte para “dois meses de guerra”, como hoje revela o jornal i. Significa que a actual fase de propagação está a crescer exponencialmente, mas que não se sabe quando atingirá (matematicamente) o ponto de inflexão e inverterá a sua progressão. A confirmar-se a tendência actual, haverá um agravamento progressivo da situação e o alívio da epidemia só acontecerá entre fins de Abril e princípios de Maio. Todos teremos que aguentar com muita paciência, esperar com serenidade e confiar em quem sabe. Há dois meses o coronavírus era desconhecido e, desde a última semana, tornou-se um grande problema para Portugal, para a Europa e para o mundo, como se fosse uma terceira guerra mundial contra um inimigo invisível.

sábado, 14 de março de 2020

Portugal está em alerta com o que aí vem

Nos últimos dois dias e, em especial nas últimas horas, dispararam todos os alarmes relativos ao surto do covid-19, quando o governo e as autoridades sanitárias impuseram severas medidas no sentido de travar a propagação do vírus e minimizar os seus efeitos, até porque a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou que a Europa se tornou o epicentro da pandemia de coronavírus, com um crescente número de infectados e de casos fatais. 
Em Portugal, tal como em outros países europeus e até em alguns do continente americano, foram tomadas medidas drásticas, que afectam o modo de vida dos portugueses. Estas medidas foram apoiadas por todos os partidos políticos, o que constitui um acontecimento inédito ou muito raro no panorama político português, mas parece que também foram compreendidas pela generalidade da população, embora com as excepções do costume por parte de espertalhões, valentões, açambarcadores e golpistas. Nesta altura não se sabe o que nos espera, pois a ameaça com que nos defrontamos tem contornos desconhecidos quanto à intensidade e quanto à duração. Os nossos modos de vida e os nossos comportamentos vão ter que modificar-se e não se sabe por quanto tempo. O desafio das autoridades é muito difícil e todos contamos com a militância e a competência dos profissionais da saúde pública, para evitar o pânico e atenuar os riscos a que todos estamos expostos.
Como referiu o primeiro-ministro António Costa, “esta é uma luta pela nossa própria sobrevivência”. Aprendemos isso nos últimos dois dias e, em especial nas últimas horas. Por isso, todos teremos que estar alerta e ter confiança em quem sabe, com serenidade e confiança.

terça-feira, 10 de março de 2020

Há uma ameaça de profunda crise global


Nas últimas horas acelerou-se o pânico no mundo, não tanto por causa da epidemia do Covid-19 e da sua perigosidade sanitária, mas sobretudo pelas suas consequências sobre as economias. Os jornais publicam gráficos que mostram que o Dow Jones, o Nasdaq e as principais bolsas mundiais caíram muitos pontos e continuam em queda, enquanto a Arábia Saudita decidiu cortar cerca de 30% nos preços do petróleo, o que comprova que para além do medo pelo Covid-19, há uma enorme incerteza e falta de confiança no que está para vir.
Não é preciso ser especialista para perceber a situação, pois basta olhar à nossa volta. A economia tem muitas facetas, mas assenta sobretudo em dois eixos – a oferta e a procura, ou a produção e o consumo. Quando a Itália está fechada em casa a cumprir uma forçada quarentena, significa que nada produz e que consome muito menos do que o normal, o que é catastrófico para a sua economia. Em vários países europeus, nomeadamente em Portugal, as coisas estão a seguir o mesmo caminho, pois as pessoas estão a ser convidadas a ficar em casa, foram fechadas muitas escolas e proibiram-se acontecimentos sociais, incluindo jogos de futebol, concertos e outros eventos que atraem muito público. A actividade económica já está a ser seriamente afectada, sobretudo no sector do turismo, com as reservas nos hotéis e nos navios de cruzeiro a serem canceladas, muitas feiras e congressos a serem suspensos e com as companhias aéreas a cortar milhares de voos por falta de procura. Apesar das medidas administrativas e sanitárias que estão a ser tomadas e dos discursos destinados a afastar o pânico, a situação pode tornar-se muito preocupante e levar a uma crise que, tal como vimos com a crise financeira de 2008, nada de bom nos trará.

domingo, 8 de março de 2020

A campanha eleitoral americana começou


As eleições presidenciais americanas realizam-se no dia 3 de Novembro de 2020, o que quer dizer que faltam menos de oito meses para que seja conhecido o futuro presidente dos Estados Unidos e que a campanha eleitoral vai entrar na sua fase mais intensa e mais decisiva.
As eleições primárias do Partido Democrata já começaram e nesta altura aparecem destacados os candidatos Joe Biden com 664 delegados eleitos e Bernie Sanders com 573 delegados designados, mas qualquer deles precisa de reunir 1991 delegados para garantir a nomeação do seu partido, sendo por agora imprevisível saber quem vai enfrentar o candidato republicano. No Partido Republicano, para além de Donald Trump que se vai recandidatar e quer ser reeleito, também há vários candidatos como por exemplo Bill Weld, o antigo governador do estado de Massachusetts.
As campanhas eleitorais nos Estados Unidos foram o berço da Sociologia Política, não só no que respeita à eficácia das suas mensagens, mas sobretudo no que se refere às formas de manipulação dos perfis dos candidatos e do estudo das formas de sedução do eleitorado. Os estados-maiores de todos os candidatos trabalham arduamente na criação de truques, hoje chamadas fake news, destinadas a valorizar os seus candidatos e a desvalorizar os candidatos adversários. 
Tudo isto vem a propósito da última edição da revista The New Yorker, que se dedica há quase um século à cobertura da vida cultural da cidade de Nova Iorque e que utiliza o humor nas suas apreciadas críticas, ensaios, reportagens e ilustrações. Pois esta revista, também entrou em campanha e a propósito do uso de máscaras para evitar o contágio do Covid-19, decidiu escolher para a sua capa a imagem de um Donald Trump ignorante e burgesso, que não sabe usar a máscara para se proteger do Covid-19, mas que insiste em querer ser presidente dos Estados Unidos. 
O facto é que, por vezes, uma imagem vale mais que mil palavras...

sábado, 7 de março de 2020

O surto do Covid-19 já se tornou global


Na passada semana a revista The Economist destacava na sua capa que o surto do novo coronavírus estava a tornar-se global, mas uma semana depois começa a poder afirmar-se que a epidemia já é global porque, segundo as últimas notícias, estão infectadas mais de cem mil pessoas, das quais 3.459 já morreram em 92 países, sobretudo na China, Coreia do Sul, Japão, Irão e Itália. O nervosismo instalou-se no mundo e em alguns casos já derivou para o pânico, porque embora as autoridades procurem serenar as populações, a indústria da informação e os seus agentes não resistem a esta oportunidade de sensacionalismo e, objectivamente, tudo fazem para as alarmar.
As medidas anunciadas pelos governos começam a ser drásticas e estão a afectar a tranquilidade e o modo de vida das pessoas, enquanto os efeitos desta situação sobre a economia já são muito perturbadores, com a brutal quebra do turismo, a redução da oferta no transporte aéreo, a queda da bolsa e da cotação do petróleo, o cancelamento de eventos desportivos e culturais. Os efeitos psicológicos do Covid-19 estão a ser devastadores e, como é evidente, mesmo que a sua agressividade se atenue rapidamente, o que até agora já aconteceu vai ter repercussões na economia mundial e a recuperação da confiança e da actividade económica vão demorar.  
Em Portugal o surto parece limitado por agora e as medidas adoptadas têm sido as que a OMS recomenda e que não têm diferido das que têm sido tomadas pelos seus parceiros europeus, embora haja um grande sensacionalismo da comunicação social, com alguns exageros e até alguma ansiedade por parte dos jornalistas estagiários do costume que, com toda a diligência, procuravam noticiar em primeira mão a detecção do primeiro caso positivo de infecção com o Covid-19.
Esta gente bem precisava de aprender a dar as notícias ou informar com exactidão e verdade, sem o sensacionalismo emocional com que nos assaltam e incomodam, até porque o assunto é demasiado importante para ser tratado por amadores.

terça-feira, 3 de março de 2020

A Catalunha retoma a sua luta autonómica

No passado sábado reuniram na cidade francesa de Perpignan, a cerca de trinta quilómetros da fronteira espanhola, cerca de cem mil independentistas catalães que ali se deslocaram para apoiar o Conselho pela República da Catalunha, uma organização criada por Carles Puigdemont para internacionalizar o independentismo catalão e para manter viva a resolução do Parlamento Catalão que no dia 27 de Outubro de 2017 declarou a independência da Catalunha. O encontro teve larga cobertura da imprensa catalã, embora alguns jornais se tivessem a ele referido como o picnic a Perpignan.
O independentismo é transversal à sociedade catalã e é representado sobretudo por três forças políticas: o Junts per Catalunya (JuntsxC) uma coligação de centro direita formada em 2017 que é dirigida a partir de Bruxelas por Carles Puigdemont, a Esquerra Republicana de Catalunya (ERC), um partido de centro-esquerda criado em 1931 e que é liderado por Oriol Junqueras que actualmente está na prisão, e a Candidatura de Unidade Popular (CUP) que se afirma de esquerda. Estas três formações têm, respectivamente, 34, 32 e 4 deputados no Parlamento Catalão, o que representa 51,8% do total de 135 deputados catalães.
Recentemente a ERC fez um acordo com o PSOE de Pedro Sanchez que permitiu que o governo espanhol fosse investido, mas não se conhecem as contrapartidas desse acordo. O que é público é que houve diálogo e negociação, o que não acontecia no tempo de Mariano Rajoy, o que é positivo para a democracia espanhola. Entretanto, Carles Puigdemont que foi muito ovacionado em Perpignan, parece passar por uma renovada fase de radicalismo e veio desvalorizar esse acordo e apelar à “luta definitiva”. Significa, portanto, que há um novo tipo de luta na Catalunha, que não é só contra Madrid e pela independência, mas que é também pela hegemonia do independentismo, ou por Puigdemont ou Junqueras. Quem não deve saber para onde se virar é Quim Torra, o independente indicado por Puigdemont que tem gerido a Generalitat de Catalunya.

segunda-feira, 2 de março de 2020

A agonia da língua portuguesa no Oriente

O Jornal de Letras, Artes e Ideias, ou simplesmente Jornal de Letras ou, ainda só JL, destaca na sua última edição que em Macau… ainda se escreve em português. Trata-se de uma edição especial dedicada à passagem do 20º aniversário da transferência da soberania para a República Popular da China, na qual alguns especialistas procuram responder à pergunta: o que ficou da cultura portuguesa?
Se fizermos uma analogia com o que se passa em Goa, rapidamente somos levados a pensar que, dentro de poucos anos, a cultura imaterial portuguesa terá desaparecido e que a cultura material portuguesa, isto é, os edifícios históricos e a arquitectura militar e religiosa, estarão “submersos” pelas gigantescas torres que vão nascendo pelo território. A língua portuguesa nunca foi a língua franca, nem em Goa nem em Macau, mas em tempos de globalização esse cenário agrava-se e a língua portuguesa é, cada vez mais, uma língua sem interesse prático, quase fossilizada e, sobretudo, uma língua que só alguns velhos ainda falam. Os esforços que têm sido feitos por várias entidades, quer em Goa quer em Macau, para manter viva a língua portuguesa não têm conseguido travar a sua lenta agonia. Pode haver muitos alunos a frequentar as escolas de português e até saber cantar A Portuguesa, mas esses alunos pensam e falam em inglês, em mandarim ou numa qualquer outra língua. Camões e Pessoa não lhes dizem nada.
É verdade que, no caso de Macau há três jornais que usam o português – Tribuna de Macau, Hojemacau e Ponto final – mas essa realidade é demasiado enganadora. Também é verdade que continua a haver alguns autores que, em Goa e em Macau, escrevem em português os seus livros de memórias e as suas reflexões sobre um outro tempo que viveram, mas esses autores são portugueses e esses casos são muito raros.
A língua portuguesa ainda será a língua oficial de Macau por mais trinta anos, mas nessa altura não portugalidade em Macau, nem haverá emprego para portugueses, nem a nova geração de macaenses falará português. É doloroso que isto aconteça, mas é a lei da vida ou o fluir da História.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

A tensão em Idlib reabre a guerra na Síria


A guerra civil da Síria que começou em 2011 e que por várias vezes tem estado próximo do fim, parece ter recomeçado agora com grande intensidade. A província e a cidade de Idlib, no noroeste do país e junto da fronteira turca, estavam ocupadas desde o início da guerra pelas milícias anti-Assad e aí se situava a sede do governo de salvação síria.
Com o forte envolvimento militar russo, o regime de Bashar al-Assad recuperou o controlo sobre a maior parte do território sírio, mas Idlib continua nas mãos dos rebeldes, onde têm o apoio turco. Idlib representa, por isso, o ponto de maior conflitualidade entre as duas partes e entre os seus aliados russos e turcos.
Em 2018 os russos e os turcos entendiam-se bem e até negociaram o fornecimento de sistemas de mísseis S-400, o que deixou a NATO e os Estados Unidos muito preocupados. Nessa altura, os russos aceitaram que fossem instalados doze postos de observação turcos em Idlib, os quais já foram provocados várias vezes pelas tropas sírias. Até que, anteontem, um ataque aéreo sírio provocou a morte de 33 soldados turcos, para além de ter causado 36 feridos, numa aparente tentativa síria de recuperar o controlo sobre o reduto rebelde de Idlib. Na madrugada de ontem a Turquia retaliou e bombardeou algumas posições sírias naquela região.
A Turquia exige que os sírios se afastem dos postos de observação turcos e a Rússia acusa os turcos de ajudarem terroristas. Entretanto, milhares de pessoas fugiram das suas casas e Recep Tayyip Erdogan pediu uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Na imprensa turca, cujos títulos podem ser decifrados com a ajuda do amigo Google, são publicadas as fotografias dos 33 heróis-mártires de Idlib e é anunciado que foram destruídas as posições de Assad, isto é, prepara-se a população para novos e mais perigosos episódios desta já tão longa guerra, pois já há heróis, mártires e vitórias no terreno.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O triste naufrágio do futebol português

Nos últimos anos o futebol invadiu de forma desproporcionada o espaço mediático e, portanto, também o nosso espaço público e a nossa vida. O futebol parece ter sido colocado no centro da vida dos portugueses e há muita gente, aparentemente respeitável, que embarca nesta loucura da futebolite. O futebol transformou-se numa arena onde se digladiam todas as perversidades e frustrações da nossa sociedade, como podemos ver todos os dias nas televisões, enxameadas por dezenas de comentadores, quase sempre numa postura de radicalismo clubista, que até podem criar a ideia de que o futebol é a coisa mais importante da vida. Já não há paciência para ouvir as constantes conferências de imprensa dos treinadores, as judiciosas opiniões dos árbitros sobre os casos do jogo ou a grosseira incontinência verbal de certos dirigentes.  A continuar assim, um dia o futebol acaba e ninguém tem conseguido travar este degradante movimento que constitui um verdadeiro retrocesso civilizacional.
Porém, ainda há quem pense que essa é a face mais obscura do fenómeno futebolístico, porque do outro lado há a festa, a alegria, o espectáculo desportivo, a incerteza quanto ao resultado, os grandes golos e as grandes defesas.
Porém, também essa face nos desilude cada vez mais. Nas 16 equipas em prova na Liga dos Campeões não há qualquer equipa portuguesa, mas na chamada segunda linha das competições europeias, que é a Liga Europa, havia quatro equipas portuguesas. Até ontem, porque as equipas do Braga, Sporting, Porto e Benfica foram eliminadas. Foi um naufrágio completo. O jornal A Bola diz hoje que o nosso futebol é um Portugal dos pequenitos. De facto, com tanto tempo e tanta gritaria dedicados ao futebol, não era previsível que acontecesse este naufrágio ou, então, essa gente do futebol anda-nos a vender gato por lebre e não nos diz a verdade, ou seja, que o nosso futebol que era a alegria do povo, está agora irremediavelmente de rastos.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

O automóvel e o sucesso de Carlos Tavares

Carlos Tavares é, provavelmente, o mais conhecido gestor português com currículo internacional e, na galeria de portugueses ilustres que atingiram um plano de destaque fora do país, ele está ao lado de muito poucos políticos, cientistas, artistas, escritores e futebolistas.
Ele é o presidente executivo do grupo automóvel PSA, que possui as marcas Peugeot, Citroën, DS, Opel e Vauxhall, tendo feito o anúncio dos resultados do exercício de 2019: uma facturação recorde de 74.700 milhões de euros, mais 1% do que no exercício anterior, uma margem operacional histórica de 8,5% e um lucro de 3.200 milhões de euros, correspondente a um aumento de 13,2% em relação ao exercício anterior.
Como consequência destes resultados, a PSA decidiu dar um bónus de 4.100 euros aos trabalhadores com salários anuais inferiores a 51.000 euros, enquanto os accionistas vão receber 1,23 euros por acção quando em 2018 tinham recebido 78 cêntimos, o que significa um aumento de 58%. Portanto, tanto o capital como o trabalho ficaram satisfeitos na PSA e Carlos Tavares tem sido elogiado pelos parceiros sociais.
Porém, se o grupo PSA vendeu menos 10% de veículos em 2019, isto é, vendeu menos 3,5 milhões de unidades, como foi possível atingir estes resultados? Ou, como é possível aumentar a rentabililidade quando as vendas baixam?
Segundo o jornal Les Echos, a estratégia de Carlos Tavares assentou na redução dos custos, tanto fixos como variáveis, mas também na melhoria dos preços de venda, sobretudo através do chamado princing power que é um ajustamento do preço em função das quantidades procuradas, o que permite aumentar a procura.
Em teoria a equação é simples e tem apenas três variáveis - custos fixos, custos variáveis e receitas das vendas – mas quando um grupo tem a dimensão da PSA e as suas muito diversas culturas, bem como a concorrência de outros poderosos fabricantes europeus de automóveis, então o desafio é certamente complexo. Porém, Carlos Tavares tem estado a vencê-lo.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Da China para o mundo: crise do Covid-19


Em finais de 2019 apareceu na cidade chinesa de Wuhan um surto epidémico de coronavírus que afecta o sistema respiratório e pode evoluir para situações de maior gravidade como a pneumonia. Porque o surto alastrou para fora da China, a Organização Mundial de Saúde atribuiu-lhe um nome oficial para facilitar o seu reconhecimento universal, pelo que passou a ser conhecido como Covid-19.
Nesta altura ainda não se sabe a origem desta epidemia, ou do Covid-19, que infectou até agora cerca de 80.000 chineses e que já provocou 2715 mortes na China, ao mesmo tempo que está a perturbar a economia chinesa. O vírus propagou-se pelos países asiáticos e, entretanto, já chegou a uma dezena de países europeus, sobretudo à Itália onde já provocou 12 mortes, tendo nas últimas horas chegado a Espanha. As preocupações das autoridades sanitárias têm-se acentuado, embora haja demasiadas dúvidas e poucas certezas sobre a natureza deste surto epidémico que se manifesta simplesmente por febre, tosse, cansaço e dificuldades respiratórias, havendo também quem mostre desconfianças quanto ao que realmente se passa e aos eventuais interesses que giram à volta desta situação. A Organização Mundial de Saúde continua sem identificar a natureza deste vírus nem a forma de o travar, mas anunciou que o surto atingiu o seu pico na China entre os dias 23 de Janeiro e 2 de Fevereiro, estando em declínio desde então. No entanto, a generalidade dos países europeus parecem estar de prevenção ou mesmo um pouco alarmados, ao mesmo tempo que se anunciam efeitos sobre a economia com recessões, crises bolsistas e contracção no turismo.
Em síntese há que aguardar pela evolução da situação que, aparentemente, ainda não preocupa os portugueses. No entanto, se a situação se complicar, mais dia menos dia, talvez possamos ver o nosso Guia a copiar o exemplo pedagógico do colega Xi Jinping e a fazer-se fotografar com uma máscara igual à dele.