sábado, 15 de abril de 2023

Lula recoloca o Brasil no palco mundial

O presidente Lula da Silva está em visita à República Popular da China e essa visita significa o regresso do Brasil ao patamar mais elevado das relações internacionais, um lugar que lhe é devido e de que estivera afastado durante o mandato de Jair Bolsonaro. Desde que assumiu a presidência da República Federativa do Brasil, o presidente Lula da Silva começou por visitar a Argentina e o Uruguai, seguiu-se uma visita aos Estados Unidos e agora à China, a que se seguirá uma visita a Portugal. Trata-se de uma itinerância inteligente que, em menos de quatro meses, ressuscitou o prestígio internacional do Brasil.
Sabe-se como o Brasil está dividido emocional e politicamente, mas sabe-se também como são enormes as dificuldades para unir o país, mas os primeiros cem dias de Lula da Silva já mudaram a sua imagem, como mostra a sua actual viagem à China, embora não tenha tido, até agora, grande destaque na imprensa brasileira. A excepção é a edição de hoje do jornal O Globo do Rio de Janeiro, que dedica uma fotografia a toda a largura da sua primeira página à visita que se iniciou em Shangai, onde Lula da Silva participou na cerimónia de posse da ex-presidente Dilma Rousseff como presidente do Banco dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e South Africa). Depois seguiu-se Pequim, com uma recepção entusiástica, as reuniões com o presidente Xi Jinping e os inúmeros encontros sectoriais dos visitantes brasileiros com os seus homónimos chineses de que resultou a assinatura de quinze acordos de cooperação.
Lula declarou que “temos interesse em construir uma nova geopolítica” e que “ninguém vai proibir” o Brasil de o fazer. Sobre a guerra na Ucrânia que continua a pressionar alinhamentos geopolíticos e económicos em torno das grandes potências mundiais, Lula da Silva mostrou que tem uma política externa autónoma do Ocidente e dos Estados Unidos e que o Brasil se move apenas pelos seus próprios interesses, tendo salientado que os Estados Unidos devem deixar de encorajar a guerra e que a Europa deve passar a falar mais de paz.
Para aqueles que no Brasil ou no exterior tinham dúvidas, embora envolvida em polémica, aí está a prova do enorme prestígio e independência de Luiz Inácio Lula da Silva.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

A oferta cultural nas cidades americanas

Houston é a mais populosa cidade do Texas e a quarta de todas as cidades americanas, mas não é a capital do estado que está localizada em Austin. A cidade situa-se na orla do golfo do México, dispõe do principal porto comercial dos Estados Unidos e tem um grande dinamismo económico, tecnológico e cultural, sendo um importante ponto de apoio da actividade aeroespacial e da indústria petrolífera americanas. Em paralelo com a sua pujança económica e tecnológica, a vida cultural da cidade também é muito dinâmica e, durante os fins-de-semana, são realizados inúmeros eventos culturais para fruição da população, para os quais é feita a devida promoção estimulante da participação.
Na sua edição de hoje o jornal Houston Chronicle apresenta, com destaque de primeira página, a fotografia do Elissa, um veleiro armado em barca, destacando a visita de seis Tall Ships como um dos mais emblemáticos eventos que se realizam na cidade, ou antes, na ilha de Galveston, situada a cerca de 80 quilómetros da cidade. A barca Elissa pertence à Galveston Historical Foundation e, juntamente com os outros Tall Ships, promove visitas a bordo e proporciona pequenos cruzeiros destinados a estimular o gosto pelo mar e pela navegação à vela. Porém, para além da sua regular oferta cultural, a cidade ainda promove eventos especiais como o Art Car Weekend que enquadra inúmeras actividades relativas ao culto do automóvel, enquanto a Asia Society Texas exibirá filmes de sucesso produzidos pela indústria cinematográfica indiana que é conhecida por Bollywood e, em complemento dos museus e das galerias, a Anya Tish Gallery irá apresentar uma grande exposição de pop-art.
As cidades americanas são habitualmente conhecidas pela diversidade da sua oferta cultural, designadamente as que se situam na costa leste, como Boston, Nova Iorque e Filadélfia, mas a diversidade cultural de Houston concorre cada vez mais com aquelas emblemáticas cidades.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

A ambição e a nova era dos porta-aviões

O jornal turco Daily Sabah anunciou na sua edição de ontem a entrada ao serviço do novo TCG Anadolu (L-400), afirmando ser o primeiro porta-drones, ou um navio com uma plataforma de voo destinada a aeronaves não tripuladas. Na cerimónia da entrega deste novo navio-chefe da Marinha Turca, o presidente Recep Tayyip Erdoğan afirmou que o Anadolu é um símbolo do "século da Turquia”, salientou que o seu país é um dos poucos países do mundo que fabrica os seus próprios navios de guerra e não escondeu a sua ambição para tornar a Turquia numa potência regional. Erdoğan classificou como "histórico" o facto de nos últimos vinte anos, a dependência externa do sector da defesa turca ter caído de 80 para 20%, o que mostra a evolução e a ambição turcas. 
A Turquia começou oficialmente a construir este seu primeiro navio dispondo de plataforma para aterragem de aéreos em 2016, quando Erdoğan já anunciava a sua intenção de fabricar um porta-aviões movido a energia nuclear. Ainda não é esse navio com que sonhou, mas aproxima-se. O TCG Anadolu foi construído nos estaleiros de Istambul através de um consórcio com a construtora espanhola Navantia e utilizou os planos e as tecnologias do navio de assalto anfíbio multiusos e porta-aviões Juan Carlos I (L-61).
Na semana passada o jornal francês Le Parisien destacou como tema de primeira página o “nouveau porte-avions” francês que terá propulsão nuclear, afirmando que “ce bateau sera une cathédrale de technologie”, que custará dez mil milhões de euros e estará pronto em finais de 2025.
Já não bastavam a Ucrânia e Taiwan para nos preocuparmos. O paradigma de Samuelson - canhões ou manteiga - parece estar a virar-se para os canhões, pois há alguns países a fazer musculação e a equipar-se com porta-aviões.

segunda-feira, 10 de abril de 2023

O entusiasmo espanhol pela “festa brava”

Nunca fui aficionado nem entusiasta da festa brava, ao contrário de muitos dos meus amigos que são verdadeiros apaixonados por essa tradição cultural e são capazes de percorrer muitas centenas de quilómetros para assistir a uma corrida de touros, tanto em Portugal como em Espanha.
Naturalmente, a festa brava que foi a paixão de Picasso e de Hemingway, já conheceu tempos melhores em Portugal, pois os grupos de defesa dos direitos dos animais e do bem-estar animal têm estado muito activos na condenação da crueldade que envolve as actividades tauromáquicas, daí tendo resultado que a televisão pública portuguesa deixou de transmitir touradas desde 2021, apesar dessas transmissões televisivas terem larga audiência. Porém, goste-se ou não das touradas, enquanto espectáculos em que são lidados touros bravos, a pé ou a cavalo, o facto é que elas são uma importante marca identitária da cultura portuguesa, sobretudo em algumas regiões. Assim, contrariando os grupos de pressão que se opõem às touradas, são conhecidos mais de cinco dezenas de municípios portugueses que declararam a tauromaquia como Património Cultural Imaterial, de acordo com os critérios definidos pela UNESCO.
Existem as corridas de touros à portuguesa e à espanhola, mas enquanto as primeiras se caracterizam pelas cortesias, pela lide a cavalo e pela pega do touro (um prática iniciada em 1836 quando a rainha D. Maria II proibiu a morte dos touros na arena), as corridas à espanhola geram entusiasmos indescritíveis e são caracterizadas pela lide apeada e pela morte do touro.
Ontem foi a tarde inaugural da temporada sevilhana em que “la fiesta resucita en la Maestranza”, a mais antiga praça de touros espanhola. O Diario de Sevilla publicou com grande destaque a notícia da corrida ontem realizada na Real Maestranza de Sevilla em que actuou Julián López, El Juli, que “cortó dos orejas, aunque los toros de Núñez del Cuvillo no estuvieron a la altura de la cita”.

O Papa pede o fim da guerra e nós também

Depois de uns dias em que esteve internado no Hospital Gemelli de Roma devido a dificuldades respiratórias, o Papa Francisco reapareceu ontem no balcão central da Basílica Vaticana para ler a sua mensagem urbi et orbi, isto é, a mensagem com que o Papa se dirige à cidade e ao mundo e a todo o universo, perante a multidão de fiéis presentes na Praça de São Pedro.
Da sua mensagem pascal e do apelo que fez ao Cristo ressuscitado “para que a comunidade internacional se esforce para cessar esta guerra”, destacamos o seguinte texto:
“Ajudai o amado povo ucraniano no caminho para a paz, e derramai a luz pascal sobre o povo russo. Confortai os feridos e quantos perderam os seus entes queridos por causa da guerra e fazei que os prisioneiros possam voltar sãos e salvos para as suas famílias. Abri os corações de toda a Comunidade Internacional para que se esforcem por fazer cessar esta guerra e todos os conflitos que ensanguentam o mundo, a começar pela Síria, que ainda espera a paz. Sustentai quantos foram atingidos pelo violento terramoto na Turquia e na própria Síria. Rezemos por aqueles que perderam familiares e amigos e ficaram sem casa: possam receber conforto de Deus e ajuda da família das nações”.
Na sua edição de hoje, o The Wall Street Journal publicou a fotografia do Papa e salienta que ele pediu a paz para a Ucrânia, o que aqui também temos feito por diversas vezes desde o dia 24 de Fevereiro de 2022. Durante todos estes longos meses de guerra, o sofrimento do povo ucraniano e a completa destruição de muitas cidades deveriam fazer reflectir os líderes mundiais sobre as tempestades que têm provocado, por estarem amarrados aos seus interesses particulares e aos seus sentimentos belicistas. Há alinhamentos e opiniões para todos os gostos, mas não se pode esperar que uma das partes derrote a outra parte. Por isso, há que conciliar os vários pontos de vista, ceder em alguns pontos e encontrar a paz. 
É esse o dever dos homens de boa vontade, de que o Papa Francisco é um exemplo.

domingo, 9 de abril de 2023

Cristo, a festa pascal e o Rio de Janeiro

A Cristandade celebra hoje o Domingo de Páscoa que é uma grande festa porque, segundo relata o Novo Testamento, é o dia da Ressurreição de Jesus Cristo acontecida três dias depois da sua Crucificação na colina do Calvário, nas proximidades da cidade de Jerusalém.
Numa boa parte dos países do mundo, sobretudo na Europa, nas Américas e em muitos países africanos, a festa pascal conclui as celebrações da Semana Santa, em que são evocadas a paixão e a morte de Jesus Cristo, a que se segue a festa da sua ressurreição no domingo de Páscoa, com diversos rituais que variam de região para região, mas que incluem missas, procissões, troca de cumprimentos e a oferta de ovos da Páscoa. A imprensa dá sempre cobertura às festividades pascais e o exemplo da edição de hoje do jornal O Dia, que se publica no Rio de Janeiro é muito curiosa. De facto, em vez de publicar as habituais imagens de carácter religioso, o jornal pergunta aos seus leitores se já imaginaram o que seria o Rio de Janeiro sem Cristo, que é uma frase de duplo sentido, pois tanto os pode remeter para a sua religiosidade, como para a singular monumentalidade da estátua do Cristo Redentor. O título é ilustrado com uma bela fotografia da cidade do Rio de Janeiro captada do alto dos 710 metros de altitude do morro do Corcovado, sobre o qual se encontra a estátua do Cristo Redentor de braços abertos, que desde 2007 é uma das sete novas maravilhas do mundo.
Como noticiário de Domingo de Páscoa, era difícil ter maior criatividade e imaginação para salientar a festa pascal do que a elucidativa frase escolhida por O Dia Já imaginou o que seria do Rio sem o Cristo?

sábado, 8 de abril de 2023

Reconciliação entre iranianos e sauditas

Nas “margens” do golfo Pérsico situam-se dois grandes países: na “margem norte” localiza-se o Irão com 1648 mil quilómetros quadrados de superfície e cerca de 88 milhões de habitantes e, na “margem sul” encontra-se a Arábia Saudita, com 2150 mil quilómetros quadrados e cerca de 36 milhões de habitantes. Tanto a República Islâmica do Irão como o Reino da Arábia Saudita professam a religião islâmica e as suas crenças, mas enquanto o Irão é maioritariamente xiita e de cultura persa, já a Arábia Saudita é maioritariamente sunita e de cultura árabe, isto é, pertencem a grupos que dentro do islamismo são rivais políticos e religiosos. São dois grandes países produtores de petróleo e ambos são destacados membros da OPEP: a Arábia Saudita é o maior exportador de petróleo do mundo e o segundo país com mais reservas, enquanto o Irão é o segundo maior produtor de petróleo.
As duas comunidades têm rivalizado ao longo da história e, por vezes, com muita tensão, cada uma delas a procurar afirmar-se como a potência regional dominante, com a Arábia Saudita a manter fortes laços com os Estados Unidos e o Irão a ter laços também muito fortes com a Rússia. Nos últimos anos a tensão tem sido enorme e houve quem vaticinasse que à volta do golfo Pérsico, estavam todos os sinais de uma “tempestade perfeita” e de um conflito de grandes proporções. Porém, após sete anos de muita tensão e muitas ameaças recíprocas agravadas pelos conflitos na região, os iranianos e os sauditas retomaram as relações bilaterais. A reconciliação aconteceu em Pequim, cuja diplomacia conseguiu o que parecia uma impossibilidade e que é saudado pelo jornal The National, que se publica na cidade de Abu Dhabi nos Emirados Árabes Unidos.
Como se vai vendo, a China vai marcando pontos em muitos tabuleiros.

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Celebrações grandiosas da Semana Santa

Por toda a Espanha, mas também em algumas cidades portuguesas, as festividades e as procissões da Semana Santa atraem muitos milhares de crentes, mas também muitos turistas que apreciam a grandeza e os rituais das celebrações. A imprensa espanhola, sobretudo a que tem um carácter mais regional, dedica as suas primeiras páginas à Semana Santa, assim sucedendo com a edição de hoje do jornal El Norte de Castilla, que se publica na cidade de Segóvia.
A Semana Santa é uma tradição religiosa cristã que celebra a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Jesus Cristo e que decorre desde o Domingo de Ramos até ao Domingo de Páscoa. Cada um dos dias da Semana Santa tem um significado e uma simbologia próprios no contexto bíblico e histórico da vida de Jesus Cristo, daí derivando práticas religiosas e culturais diferenciadas nas várias comunidades cristãs.
As celebrações juntam muitos milhares de fiéis e de turistas, sobretudo nas cidades espanholas e, especialmente na Andaluzia, constituindo também um cartaz turístico pois agregam o sagrado e o profano, sendo habitualmente consideradas como as mais populares, mais emotivas e maiores festas do ano nas comunidades em que se realizam.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Angola festeja 21 anos de paz e harmonia

O Jornal de Angola destaca na sua edição de hoje que os angolanos estão em paz há 21 anos e esse é um facto muito importante, que merece ser saudado. O território angolano esteve afectado pela guerra durante mais de quarenta anos, primeiro com a luta entre o poder colonial português e as forças de libertação nacional (1961-1974) e, depois, numa guerra civil em que intervieram o MPLA e a UNITA e os seus aliados (1975-2002). Com tanto tempo de guerra, que envolveu os angolanos, mas também os portugueses, os cubanos, os sul-africanos e militares de outras nacionalidades, há muitas memórias dolorosas e muitos excessos cometidos e, por isso, a paz é uma conquista que tem que ser preservada e saudada.
A primeira tentativa de paz aconteceu com a assinatura dos Acordos do Alvor de 15 de Janeiro de 1975, que estabeleceram os mecanismos de partilha do poder em Angola até à proclamação da independência, marcada e concretizada em 11 de Novembro de 1975.
A independência aconteceu no dia previamente acordado mas cada um dos três movimentos signatários dos Acordos do Alvor proclamou a sua própria independência. A guerra civil que foi travada imediatamente, sobretudo entre o MPLA e a UNITA, teve enorme envolvimento estrangeiro e durou até 18 de Março de 2002, quando os comandos militares dos dois contendores assinaram um pré-acordo de paz em Cassamba, que veio a ser confirmado no dia 4 de abril de 2002, como um acordo de paz que ficou assinalado na história como os Acordos de Luena.
Alvor e Luena, mas também outros locais simbólicos da história recente angolana, são marcos de uma longa guerra que foi travada durante mais de quarenta anos, mas desde há 21 anos que os angolanos têm paz, que é a condição primeira para o seu progresso. Ontem foi o Dia da Paz e da Reconciliação Nacional e, para bem dos angolanos e dos que gostam de Angola, é necessário que a paz e a reconciliação estejam presentes nos quotidianos daquele grande país.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

A Finlândia é o 31º membro da NATO

A Finlândia vai tornar-se amanhã o 31º membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO na sua sigla em inglês), que é uma aliança política e militar criada pelo Tratado do Atlântico Norte, assinado em Washington no dia 4 de Abril de 1949. O Tratado instituiu um sistema de defesa colectivo que foi inicialmente assinado por doze países fundadores, mas tem havido vários alargamentos e a organização tem actualmente trinta membros.
Um dos aspectos mais relevantes do Tratado é o seu artigo 5º que estipula que “um ataque armado contra qualquer um dos seus membros, na Europa ou na América do Norte, será considerado como um ataque contra todos”. Porém, a obrigação de prestar assistência ao estado-membro atacado, não exige que os outros estados-membros utilizem forças militares contra o agressor, isto é, embora obrigados a responder, cada estado-membro conserva a liberdade de escolher o tempo e o modo da sua intervenção. Significa que a NATO é uma organização intergovernamental de estados soberanos e daí que a participação portuguesa na organização não lhe retira qualquer espaço da sua soberania nacional. Porém, no início do ano de 2022, pouco tempo depois de Vladimir Putin ter dado ordens para a “operação especial” lançada contra a Ucrânia, a vice-presidente dos Estados Unidos Kamala Harris visitou a Polónia e afirmou que “os Estados Unidos estão preparados para defender cada centímetro do território da NATO”, enquanto Jens Stoltenberg, o secretário-geral da NATO, tem utilizado a expressão “fronteiras da NATO” e fala como se estivesse acima dos poderes soberanos de cada um dos estados-membros. 
A NATO é uma aliança intergovernamental e não tem território, nem tem fronteiras. O facto é que essa mensagem inverdadeira também já foi utilizada por Joe Biden e, hoje, ao saudar a entrada da Finlândia na NATO o jornal ABC escreveu que é “la última frontera de la OTAN”, o que nos recorda a famosa frase de Joseph Goebbels: “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”.
Quanto ao resto, se os finlandeses escolheram, está escolhido.

A crise é grande e os europeus protestam

A Europa está a atravessar uma grave crise para a qual há diversas explicações, umas mais alinhadas à direita e outras mais alinhadas à esquerda. O aumento do custo de vida, o empobrecimento dos trabalhadores e da classe média, os horizontes sombrios e sem perspectivas dos jovens e as reformas insuficientes que se fazem no “Estado Social” e na “Economia do Bem-Estar”, estão a provocar uma onda de protestos e muitas greves em vários países europeus, como salientava a edição de ontem do elPeriódico de Barcelona.
As explicações são diversas, sobretudo a não recuperação da pandemia do covid-19, a revolução tecnológica em curso e o impacto da guerra na Ucrânia, mas também são apontadas as distorções do sistema financeiro internacional e a ganância dos sectores energético, bancário e agroalimentar. Apenas sete países da União Europeia aplicaram um imposto especial sobre lucros excessivos, a mostrar como a maioria dos governos europeus parecem fazer como a avestruz e esconder a cabeça na areia. Por tudo isso, as ruas de muitas cidades europeias “estão em ebulição” com milhões de pessoas a protestar. Na Alemanha paralisaram os transportes públicos com os trabalhadores a reclamar salários dignos, numa greve descrita como a maior das últimas três décadas. No Reino Unido sucedem-se, desde há alguns meses, os protestos de professores, funcionários, enfermeiros e ferroviários. Uma situação semelhante, segundo o jornal, sucede em Portugal, nos Países Baixos e na Bélgica, enquanto a paz social em França está abalada por violentos distúrbios nas ruas, devido ao contestado projecto de alargamento da idade da reforma.
A Europa, envelhecida e altamente endividada, está realmente perante uma grave crise e sem líderes capazes de a resolver, provavelmente numa decadência irreversível.

domingo, 2 de abril de 2023

A China, os aliados e os amigos do futuro

Desde que há pouco mais de uma semana os presidentes da China e da Rússia se encontraram em Moscovo, que a China e as suas relações com os Estados Unidos têm estado em destaque na imprensa internacional. Aquele encontro veio dar uma reforçada ambição à China, bem como aos seus desígnios relativamente ao regresso à mãe-pátria de Taiwan, a sua província rebelde desde 1950, mas até mesmo em relação à disputa ou ao desafio chinês da hegemonia mundial americana.
Depois do seu encontro com Putin, o presidente Xi Jinping recebeu em Pequim o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, o primeiro-ministro da Malásia Datuk Seri Anwar Ibrahim e o primeiro-ministro de Singapura Lee Hsien Loong, tendo o jornal China Daily destacado estas três visitas com três fotografias de Xi Jinping com os três visitantes, tendo destacado como título da notícia que nestas visitas, “o multilateralismo esteve em destaque”. De facto, como António Guterres tem repetidamente anunciado, o multilateralismo ou o trabalho em cooperação sobre temas concretos, é o único caminho para combater as alterações climáticas, a pobreza, a injustiça e as desigualdades, mas também para o reforço da cooperação económica. Os encontros de Xi Jinping têm sido tudo isso, mas serão sobretudo uma forma de estabelecer alianças e de incrementar relações de toda a ordem, porque o futuro parece estar a ficar muito sombrio e a China aspira a um novo papel no mundo.
Daí que a declaração feita no passado mês de Janeiro pelo general Michael Minihan da Força Aérea americana, em que afirmou que “espero estar enganado, mas o meu instinto é que vamos lutar em 2025”, tenha um preocupante significado, pois há vários indícios de que se “contam espingardas” no Pacífico ocidental e, tal como num jogo de xadrez, a China parece ir colocando as suas peças no enorme tabuleiro que é o nosso planeta.

sexta-feira, 31 de março de 2023

Donald Trump desafia o povo americano

De modo nenhum me interessa a vida privada dos meus vizinhos e muito menos a daqueles que vivem a milhares de quilómetros de distância, como acontece com um tal Donald John Trump, nascido em 1946 num hospital de Nova Iorque e que foi o 45º presidente dos Estados Unidos. O que me interessa e preocupa é o acelerado grau de degradação que se verifica um pouco por todo o mundo, povoado por gente muito perigosa e pouco confiável, como são todos os Trumps e os Putins, mas também aqueles que sendo diferentes deles se comportam de maneira muito semelhante.
Vem isto a propósito do antigo presidente dos Estados Unidos, que se quer recandidatar em 2024 e que agora foi formalmente acusado pela Justiça americana, tornando-se o primeiro ex-presidente a enfrentar uma acusação criminal, como hoje revela o The New York Times e muitos outros jornais americanos. A acusação contra Donald Trump, por um suposto pagamento feito em 2016 para silenciar uma actriz pornográfica, foi agora votado favoravelmente por um grande júri de um tribunal de Nova Iorque. A esta distância parece-me um assunto menor e desinteressante. Quando vemos a Justiça, a Sociedade e a Imprensa americanas tão polarizadas em volta desta questão de saber da vida íntima do Donald ficamos muito apreensivos, sobretudo porque há muitos outros problemas que deveriam preocupar os americanos, como as guerras que proliferam não só na Ucrânia e as alterações climáticas, mas também a desigualdade e a pobreza no mundo e nos próprios Estados Unidos. E ficamos na dúvida sobre estas práticas justiceiras e sem saber se se trata de uma espécie de voyeurismo colectivo, ou se é um alerta para a personalidade de um ex-presidente que quer voltar a dirigir a mais poderosa nação do mundo ou, ainda, se será uma ousada estratégia para vir a ser reeleito. 
Não restam dúvidas é que Donald Trump chama a atenção e desafia o povo americano. Quem sabe se não vai ser perdoado e se aqueles que agora o acusam não vão voltar a colocá-lo na Casa Branca…

quinta-feira, 30 de março de 2023

Memória portuguesa subsiste em Malaca

A edição de hoje do jornal The Star, que é publicado pelo maior grupo malaio de media, anunciou com destaque de primeira página que “Melaka CM is out”, isto é, que o primeiro-ministro de Malaca, com o título honorífico de Datuk Seri e com o nome de Sulaiman bid Md Ali,  resignou do seu cargo. 
Datuk Seri Sulaiman bid Md Ali foi o 12º Chief Minister do estado de Melaka que é o mais pequeno dos treze estados que constituem a Federação da Malásia, onde se localiza a histórica cidade de Melaka que se situa a cerca de 150 quilómetros da cidade de Kuala Lumpur, a capital do país.
A palavra Melaka, ou Malaca, remete-nos para uma cidade costeira da península da Malásia que Afonso de Albuquerque conquistou em 1511 e que foi governada pelos portugueses até 1641, depois pelos holandeses que expulsaram os portugueses da cidade e, de seguida, pelos britânicos que tinham estabelecido o Império Britânico na península da Malásia, a partir de 1786. O estado de Melaka tem actualmente menos de um milhão de habitantes, sobretudo malaios, chineses e indianos, para além de uma pequena comunidade mestiça kristang, que descende dos portugueses que lá viveram nos séculos XVI e XVII, que ainda conserva algumas das suas tradições culturais e utiliza o papiá kristáng, uma lingua creoula de base portuguesa. Do património construído pelos portugueses pouco resta, para além da igreja de São Paulo e da Porta de Santiago da Fortaleza de Malaca, vulgarmente conhecida como “A Famosa”, mas essa herança patrimonial portuguesa foi decisiva para que em 2008 a UNESCO classificasse “Melaka and George Town, Historic Cities of the Straits of Malacca” e as incluísse na World Heritage List.

quarta-feira, 29 de março de 2023

Reino Unido: PM hindu e PM muçulmano

A primeira-ministra escocesa Nicola Sturgeon desempenhou funções desde Novembro de 2014, mas no dia 15 de Fevereiro de 2023 anunciou que se retiraria, depois de mais de oito anos no cargo, o que fez dela a pessoa com mais tempo na chefia do governo na história da Escócia.
O seu partido é o Partido Nacional Escocês (SNP) que se alinha no centro-esquerda e é independentista, tratou de escolher um sucessor de acordo com as boas práticas democráticas que, a partir de hoje, se tornou o novo primeiro-ministro da Escócia. Chama-se Humza Yousaf, tem 37 anos de idade e é filho de imigrantes paquistaneses de religião muçulmana, como revela o jornal The Scotsman. Yousaf está na vida política desde 2005, ano em que se inscreveu no SNP, foi eleito para o Parlamento escocês em 2011 e, com 27 anos de idade, tornou-se em 2012 o primeiro escocês de origem asiática a ser nomeado ministro do governo da Escócia, que é um dos quatro países que fazem parte do Reino Unido.
A Escócia mantém um permanente rivalidade e um diferendo com a Inglaterra, e naturalmente com o Reino Unido. Em 2014 realizou-se um referendo sobre a independência da Escócia e os independentistas perderam com 44% dos votos. No Brexit realizado em 2016 houve 62% de escoceses que escolheram continuar na União Europeia, o que fez renascer os ideais independentistas e levou Nicola Sturgeon a reivindicar a realização de um segundo referendo para independência da Escócia, que ainda está pendente em Londres.
A partir de agora vamos assistir a uma disputa política entre um muçulmano de 37 anos (Humza Yousaf) e um hindu de 42 anos (Rishi Sunak), um com raízes no Paquistão e o outro com raízes na Índia, um nascido em Glasgow e outro nascido em Southampton. É apenas uma curiosidade, mas ninguém vai ignorar que aqueles dois homens podem simbolizar a rivalidade entre a Índia e o Paquistão, que são potências nucleares e cuja fronteira é palco de graves tensões desde 1950. Nem deve haver no planeta rivalidade maior do que a que existe entre paquistaneses e indianos. Porém, Yousaf e Sunak são britânicos e... honi soit qui mal y pense!