quinta-feira, 11 de julho de 2024

75 anos da NATO: a cimeira e a apreensão

Decorreu ontem e anteontem em Washington, a cimeira da NATO que assinalou o 75º aniversário da organização criada em 1949, da qual Portugal é um dos fundadores. 
Segundo foi divulgado, a cimeira tratou especialmente da guerra na Ucrânia, que resultou da invasão russa de Fevereiro de 2022, mas também tratou dos desafios resultantes do forte investimento militar da China e da coesão política entre os membros da NATO. Não sabemos se houve discursos dissonantes, sobretudo por parte de Viktor Órbán e até de Justin Trudeau, como hoje sugere a capa do jornal canadiano National Post, que se publica em Toronto. 
Os chefes de Estado e de governo presentes comprometeram-se com um mínimo de 40 mil milhões de euros para apoiar o esforço de guerra ucraniano, mas parece que nem todos assumiram esse compromisso.
Joe Biden esteve a “fazer prova de vida” em vésperas das eleições americanas e tratou de dizer que “a Ucrânia vai travar Putin” e que “vamos defender cada centímetro da aliança”, esquecendo-se que em Novembro pode haver outras ideias na Casa Branca. Porém, a grande surpresa da cimeira terá sido a declaração de Jens Stoltenberg, o secretário-geral da NATO em fim de mandato, que garantiu o apoio à Ucrânia para a sua futura integração na NATO. Em Moscovo esta declaração foi considerada uma “grave ameaça para a segurança nacional russa” porque a Rússia sempre recusou a expansão da NATO para a Ucrânia e vê agora ser afirmada a garantia da sua futura integração na NATO. Até parece uma declaração de guerra. A Rússia reagiu a essa declaração, acusou a NATO de estar "totalmente envolvida no conflito com a Ucrânia" e os Estados Unidos e a Europa de não serem partidários do diálogo, nem da paz, apostando na confrontação. A cimeira também acusou a China de ser “facilitador da guerra”, pelo que esta condenou a declaração da NATO, acusando-a de usar “retórica beligerante” e de “incitar ao confronto” entre blocos. 
Entretanto, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, que esteve na cimeira, manifestou-se apreensivo e assumiu que a perspectiva de um conflito directo entre a NATO e o Kremlin é muito preocupante. Também me parece.

quarta-feira, 10 de julho de 2024

As sucessivas derrotas políticas de Macron

A França é um país muito instável do ponto de vista político, como se verificou nas recentes eleições parlamentares. Na 1ª volta, realizada no dia 30 de junho, o Rassemblement National ou Frente Nacional, assumidamente de extrema-direita, foi a força mais votada, o que deu origem a protestos, confrontos e distúrbios, bem como a uma enorme mobilização das forças políticas que a combatem. Na 2ª volta, realizada no dia 7 de julho, a situação inverteu-se e a Nova Esquerda Popular, uma coligação de esquerda que reúne a França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon, com socialistas, ecologistas e comunistas, foi o grupo mais votado e conseguiu eleger 182 deputados numas eleições que bateram recordes de afluência às urnas. A coligação Ensemble, que inclui o partido Renascença do Presidente Emmanuel Macron, apareceu em segundo lugar, tendo conseguido eleger 168 deputados. Seguiu-se o Rassemblement National de Marine Le Pen e Jordan Bardella, que passou de 88 para 143 deputados, o que sendo um crescimento significativo, foi uma enorme decepção pois ficou aquém das perspectivas sugeridas na 1ª volta. 
O Parlamento francês ficou fragmentado ou tripartido e nenhum dos partidos ou coligações vai poder assegurar os 289 lugares necessários para criar uma maioria absoluta num Parlamento com 577 deputados. Emmanuel Macron está, por isso, a passar por grandes dificuldades e o jornal Le Figaro, escolheu como título de primeira página a frase “la coalition introuvable”, isto é, a coligaçao que não se encontra. Dizem os especialistas que Macron teve uma vitória eleitoral porque travou o avanço da extrema-direita, mas outros dizem que sofreu uma grande derrota pois forçou a realização de eleições antecipadas que levaram o país para uma situação que pode vir a tornar-se caótica. O facto é que ninguém sabe como se vai sair deste imbróglio.
O sonho que Macron alimenta, desde há muito tempo, de se tornar uma figura de referência na Europa, sofreu mais um duro revés.

sábado, 6 de julho de 2024

J. Biden, D. Trump e o drama americano

O debate realizado no dia 27 de junho em Atlanta, em que se enfrentaram os candidatos presidenciais Joe Biden e Donald Trump, trouxe para o primeiro plano da política americana o problema da idade dos candidatos e até a sua saúde mental. O debate foi considerado um desastre e a generalidade da imprensa classificou Biden como senil e Trump como mentiroso. No campo democrata surgiu uma onda de pânico e as capacidades de Joe Biden para um novo mandato estão a ser postas em dúvida. Segundo divulgou o The New York Times, uma recente sondagem revela que como consequência do desempenho de Joe Biden no debate, o candidato Donald Trump ampliou a sua vantagem em seis pontos percentuais e Joe Biden passou a ser considerado “velho demais para o cargo” por 74% dos eleitores.
As dúvidas a respeito de Biden são crescentes em todos os grupos demográficos, geográficos e ideológicos, sobretudo no eleitorado democrata e nos independentes, havendo muita gente que lhe pede que renuncie à sua recandidatura.
Esta embaraçosa situação por que passa a corrida presidencial americana está a ser caricaturada por alguma imprensa internacional, como por exemplo pela revista Newsweek, cuja capa mostra um George Washington assustadoe pela revista The Economist, cuja capa mostra uma cadeira de rodas com os símbolos presidenciais. Porém, a ilustração escolhida como capa da revista alemã Stern trata do “drama americano”, refere “o velho e o mentiroso”, diz que “os Estados Unidos ainda podem ser salvos” e mostra Trump a engolir Joe Biden. Talvez seja a mais expressiva de todas essas capas.

O Reino Unido e a sua viragem política

As eleições realizadas no passado dia 4 de julho no Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte tiveram um resultado demolidor para o governo do Partido Conservador e deram a vitória ao Partido Trabalhista de Keir Starmer, que conquistou 412 dos 650 lugares do Parlamento (antes tinha 205), o que significa que conquistou a maioria absoluta.
Depois dos trabalhistas Tony Blair e Gordon Brown, a partir de 2010 o governo de Sua Majestade foi exercido pelos primeiros-ministros conservadores David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss e Rishi Sunak. Foram 14 anos em que aconteceu o Brexit, o covid-19, vários escândalos políticos e a instabilidade global se acentuou nos serviços públicos, na economia, na segurança e na imigração. Os Conservadores foram fortemente penalizados e têm agora 121 deputados (antes tinham 344).
A terceira força política britânica são os Liberais Democratas que passaram a ter 71 deputados (antes tinham apenas 15). Como nota de curiosidade, regista-se a eleição à oitava tentativa de Nigel Farage, lider dos Reformistas de extrema-direita e considerado o pai do Brexit, que passaram a ter 4 deputados.
Os britânicos votaram na 4ª feira e na 6ª feira de manhã o rei Carlos III recebeu Keir Starmer no Palácio de Buckingham e convidou-o a formar governo. Aceite o convite, Starmer foi investido ao início da tarde e dirigiu-se depois para o número 10 de Downing Street, onde fez uma curta declaração a anunciar a necessidade de uma “renovação nacional” e da “devolução da política ao serviço público”, começando de imediato a trabalhar. Tudo rápido como deve ser.
Porém, a maior curiosidade da política britânica é a sua viragem à esquerda, quando na Europa e nos Estados Unidos parece estar em curso uma viragem para a direita.

O Euro 2024 terminou para Portugal

Ontem em Hamburgo estiveram frente a frente as selecções de Portugal e da França para disputar um lugar nas meias-finais do Euro 2024. Durante 120 minutos o jogo foi equilibrado, muito equilibrado, mas nenhuma das equipas marcou golo. Seguiu-se a lotaria dos penaltis, a mesma lotaria que nos permitira ultrapassar a Eslovénia. Tudo podia acontecer e nenhuma das equipas merecia perder.
João Félix acertou no poste, Diogo Costa não fez nenhum milagre, a França acertou nos cinco penaltis e Portugal, que estava entre os oito melhores, não passou ao grupo dos quatro melhores. C’est fini, como diz o título da edição de hoje do jornal O Jogo.
Um outro jornal desportivo português escreveu que houve falta de pontaria e que a selecção esteve “seis horas sem marcar”. É verdade. A equipa portuguesa marcou um golo à República Checa (Francisco Conceição) e dois golos à Turquia (Bernardo Silva e Bruno Fernandes), aproveitou dois auto-golos dos adversários, mas não marcou qualquer golo à Geórgia, nem à Eslovénia, nem à França.
O futebol é uma arte que deve ser representada por artistas de excelência, como são os jogadores portugueses, mas nessa representação artística não podem faltar os golos que são a parte mais emocionante do espectáculo. Muitas vezes, os jogadores portugueses parecem esquecer esse axioma e parecem satisfazer-se com a continuada e inconsequente troca da bola de uns para os outros. Os jogadores portugueses são habilidosos e experientes como poucos, são temidos pelos adversários, mas depois esquecem-se de rematar para fazer golo.
Como disse o seleccionador português Roberto Martinez, “o futebol pode ser cruel”. Desta vez foi mesmo cruel, pois uma equipa onde está a élite do futebol europeu, ficou pelo caminho porque, entre outros erros e adversidades, houve um João Félix que acertou no poste

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Viktor Orbán procura o caminho da paz?

A Hungria é um país da Europa Central que tem fronteira com sete países, é membro da NATO desde 1999 e aderiu à União Europeia em 2004. O seu governo é presidido por Viktor Orbán, que também preside ao partido nacional-conservador, que foi primeiro-ministro entre 1998 e 2002 e que, depois de 2010, ganhou todas as eleições parlamentares húngaras, o que faz dele o primeiro-ministro com mais tempo em funções na União Europeia.
A Hungria assumiu a presidência rotativa e semestral do Conselho da União Europeia no dia 1 de julho e, logo no dia seguinte, Viktor Orbán realizou a sua primeira visita à Ucrânia desde o início da invasão russa. Embora esta viagem possa ter sido resultado de uma vontade autónoma, é bem possível que tenha sido previamente acordada com as várias partes interessadas e, em especial, com Putin e com Zelensky. Curiosamente a imprensa internacional não se interessou por este encontro e o The Wall Street Journal foi a excepção.
Viktor Orbán tinha-se encontrado com Putin em outubro de 2023 e é considerado o seu mais próximo aliado europeu, o que significa que é um dos principais obstáculos aos esforços europeus para ajudar a Ucrânia, financeira e militarmente. Ao contrário dos restantes líderes da União Europeia, a Hungria tem bloqueado sistematicamente o apoio à Ucrânia e tem mantido posições próximas de Moscovo. Durante a sua visita a Kiev, Viktor Orbán apelou a um cessar-fogo imediato que abra as portas a uma negociação de paz, enquanto Zelensky considera que é prioritário falar numa “paz justa e duradoura”. 
Pode ser o início de uma caminhada difícil, mas que é necessário fazer.
Porém, Viktor Orbán também terá estado atento às tensas relações entre a Ucrânia e a Hungria, sobretudo, porque existem minorias húngaras na região da Transcarpátia que os ucranianos têm tentado desnacionalizar, o que pode conduzir a um conflito adicional. 
A Europa é mesmo uma manta de retalhos, com muitas pátrias, pelo que é preciso tratar tudo com muito cuidado.

terça-feira, 2 de julho de 2024

A grandeza de Ronaldo até se vê no choro

A figura de Cristiano Ronaldo é reconhecida e admirada em todo o mundo, não só pelo seu currículo futebolístico, mas também por muitas das atitudes que toma fora dos campos de futebol, sobretudo em acções de solidariedade.
A sua carreira, bem como os seus sucessos ou os seus insucessos, são notícia na imprensa de vários países, sobretudo naqueles onde jogou e entusiasmou multidões. Assim acontece em Espanha, onde jogou na equipa do Real Madrid durante nove anos, tendo feito 438 jogos e marcado 451 golos, o que faz dele o maior marcador de golos da história do clube, onde conquistou quatro Ligas dos Campeões Europeus e quatro Bolas de Ouro. Depois do Real Madrid, jogou em Itália e, com 39 anos de idade, ainda joga na Arábia Saudita e na selecção nacional de futebol.
Cristiano Ronaldo é um ídolo que continua a ser recordado em Espanha, sobretudo pelos adeptos do Real Madrid e, na sua edição de hoje, o jornal desportivo as dedica-lhe a sua primeira página com uma expressiva fotografia, em que ele chora por ter falhado um penalti que podia ter resolvido a favor de Portugal, o jogo que disputava com a Eslovénia. O título diz “a cuartos llorando”, o que significa que Portugal passou aos quartos-de-final apesar do choro de Ronaldo, mas a fotografia também mostra como o futebol desperta emoções profundas nos jogadores.
O jogo veio a ser resolvido por penaltis, tendo Cristiano Ronaldo sido o primeiro a marcar e com sucesso. Porém, a sua fotografia num jornal espanhol, é uma homenagem e exprime a grandeza deste jogador português que marca golos e que é rico e poderoso mas que perante o insucesso chora como o mais comum dos mortais.

Costa só há um, o Diogo e mais nenhum

Que o António Costa, mais o Afonso Costa e o Gomes da Costa, mais todos os Costas do mundo, me desculpem, inclusive os Costas da minha família mas, depois do que vimos ontem, há que afirmar que “Costa só há um, o Diogo e mais nenhum”. Esta revelação começou a afirmar-se ontem no jogo contra a Eslovénia dos oitavos-de-final do Euro 2024, em que Diogo Costa fez uma defesa salvadora aos 115 minutos, quando o esloveno Sesko lhe surgiu isolado pela frente. Não tendo havido golos durante os 120 minutos de jogo, a decisão foi para os penaltis e Diogo Costa lá foi para a baliza para cumprir o seu papel, tendo defendido o primeiro, depois o segundo e, por fim, o terceiro. Nunca se vira nada como isto. Com intuição e com segurança, Diogo Costa defendeu tudo com “as mãos de Portugal”, como se lhe referiu o jornal A Bola. Não foi preciso defender mais porque os jogadores portugueses não falharam o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro penalti que marcaram. Depois de tanto sofrimento e tanta emoção desportivas, a selecção portuguesa estava apurada para os quartos-de-final do Euro 2024, em que defrontará a França.
Milhões de portugueses, excitados por longas horas de espaços televisivos, cansativos e repetitivos, apresentados por “jornalistas” medíocres e bajuladores, vibraram com as defesas de Diogo Costa e com a vitória portuguesa, que esteve tão comprometida.
Com 24 anos de idade, este atleta que nasceu em Rothrist, na Suiça, mas que cresceu em Santo Tirso, joga no F.C. Porto desde 2011 e, a partir de ontem, tornou-se o Costa mais conhecido e admirado de todos os Costas de Portugal.

R.I.P. Fausto Bordalo Dias

Deixou-nos aos 75 anos de idade o homem que foi considerado “um monumental criador de canções” e cuja obra maior foi o Por Este Rio Acima, provavelmente o mais importante disco da música portuguesa. Num tempo de grande criatividade musical em que se destacaram criadores famosos como José Afonso, Sérgio Godinho e José Mário Branco, aquele notável disco de Fausto como criador e cantautor, parece ultrapassá-lo a si próprio, pois permanece vivo desde 1982. 
Essa sua obra de referência explora o tema dos descobrimentos marítimos portugueses, um tema simultaneamente grandioso e polémico, tendo procurado inspiração na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e nos seus enredos, como por exemplo o medo, o horror, a escravidão, o sonho e a saudade, que exprime em canções como “O barco vai de saída”, “Navegar, navegar” ou “A guerra é a guerra”, em que se serviu de uma diversidade musical e instrumental invulgares, cujas raízes se encontram no folclore português e na música africana.
Fausto nascera em 1948 a bordo do paquete Pátria em pleno oceano Atlântico, quando o navio navegava de Lisboa para Luanda, tendo vivido em Angola até 1968, ano em que rumou a Lisboa para iniciar os seus estudos universitários. Consigo, trouxe o ritmo musical africano que passou a conjugar com a tradição da música popular portuguesa, que se tornaram marcas distintivas da sua obra.
Fausto Bordalo Dias partiu, mas deixou-nos o Por Este Rio Acima, para ouvirmos muitas mais vezes. Apesar de outros grandes destaques do dia, a morte de Fausto foi noticiada em primeira página pela imprensa portuguesa, designadamente pelo jornal Público, que dedicou três páginas ao "genial alquimista da música portuguesa".

segunda-feira, 1 de julho de 2024

R.I.P. Manuel Cargaleiro

Com 97 anos de idade faleceu ontem o pintor e ceramista Manuel Cargaleiro, um dos mais importantes artistas plásticos do nosso tempo, a quem se atribui o mérito de ter renovado a azulejaria portuguesa.
O Diário de Notícias prestou-lhe uma justificada homenagem, ao noticiar o seu falecimento na primeira página da sua edição ce hoje. A sua obra teve sempre o reconhecimento da crítica e dispersa-se pela cerâmica, pintura, gravura, tapeçaria e desenho, embora o seu talento artístico se tivesse distinguido sobretudo na cerâmica, talvez a sua arte favorita, pois executou diversos painéis cerâmicos em edifícios, igrejas, jardins e escolas, com destaque para a estação de Champs Elysées-Clémenceau do Metropolitano de Paris (1995) e para a estação do Colégio Militar/Luz do Metropolitano de Lisboa (1988), embora as estações do Rato e da Cidade Universitária, em Lisboa, também tenham beneficiado das suas intervenções, ao transpor para painéis cerâmicos algumas obras relevantes da pintura de Arpad Szènes e de Maria Helena Vieira da Silva.
Desde 1957 que Manuel Cargaleiro vivia em Paris mas nunca esqueceu as suas raízes lusitanas que lhe serviam de inspiração, sobretudo na procura da harmonia das cores, tendo a sua obra sido apreciada pelos Presidentes da República Ramalho Eanes, Mário Soares e Marcelo Rebelo de Sousa que condecoraram este homem cujo legado artístico é relevante no quadro da cultura portuguesa.
Eu sou modesto um admirador da sua obra, que se distingue no panorama da nossa arte contemporânea, que se expressou além-fronteiras, que vai perdurar e que continua a sensibilizar-me esteticamente.

domingo, 30 de junho de 2024

A origem das bombas que destruiram Gaza

A edição de hoje do diário Kuwait Times, que é o mais importante jornal em língua inglesa de todo o golfo Pérsico, destaca como título de primeira página que, desde o dia 7 de outubro de 2023, os Estados Unidos enviaram para as autoridades israelitas 14.000 bombas de 2.000 libras, isto é, bombas de cerca de 907 quilogramas de grande poder destruidor pois “podem rasgar concreto e metal espessos”.
Com base em informações recolhidas em fontes oficiais, tanto em Washington como em Gaza, o jornal informa que desde outubro de 2023, os Estados Unidos “transferiram pelo menos 14 mil bombas MK-84 de 2.000 libras, mais 6.500 bombas de 500 libras, cerca de 3.000 mísseis ar-solo Hellfire de alta precisão, 1.000 mísseis destruidores de bunkers e 2.600 bombas de pequeno diâmetro para lançar do ar, além de outros tipos de munições”. Este apoio atingiu 6,5 mil milhões de dólares e, apesar dos apelos internacionais para que cessasse o apoio militar a Israel, o jornal refere que “as quantidades anunciadas de fornecimentos militares sugerem que não houve quebra significativa no apoio americano a Israel”.
Estas informações estão em linha com o panorama de destruição na Faixa de Gaza, que as imagens televisivas nos mostram, mas também com os anunciados 37.834 mortos, sobretudo mulheres e crianças, anunciados pelas autoridades sanitárias de Gaza.
Como se conclui das informações do jornal, a administração de Joe Biden está totalmente alinhada com o regime de Benjamin Netanyahu e, portanto, é co-responsável pela desproporcionada e cruel repressão que está a ser feita ao povo palestiniano. Algumas declarações moderadoras de Joe Biden ou as múltiplas viagens de Antony Blinken ao Médio Oriente, não são mais do que simples actos de propaganda e de hipocrisia, embora tenham quem as apoie em algumas capitais europeias pois, também elas, vendem armas a Israel.
Este mundo anda mesmo muito perturbado…

Eleições francesas e futuras incertezas

Os franceses vão hoje às urnas e daí que o jornal La Voix du Nord, que se publica na cidade de Lille, em tom de solene proclamação, tenha escolhido a frase: “Aux urnes citoyens!”, como título principal da sua edição de hoje.
Estas eleições deveriam acontecer apenas em 2027, mas foram convocadas pelo presidente Emmanuel Macron após a derrota do seu partido nas recentes eleições de 9 de junho para o Parlamento Europeu, em que se verificou a surpreendente subida do Rassemblement National, o partido da extrema-direita que é presidido por Marine Le Pen.
As sondagens dão a vitória à extrema-direita, com hipóteses de conseguir uma maioria absoluta, o que pode mergulhar a França num cenário de instabilidade que pode contagiar a Europa, enquanto a coligação de esquerda da Nova Frente Popular pode chegar aos 29% e o partido liberal de Emmanuel Macron se ficará pelos 20%. A confirmarem-se estas sondagens, poder-se-à dizer que é uma tempestade política em França e que a segunda volta, que se realizará no dia 7 de julho, nada trará de novo. Macron deve ter sonhado que poderia ser um novo Napoleão inspirador dos franceses, exorbitou no seu protagonismo europeu e descuidou-se internamente, tendo os franceses percebido que ele não passa de um Napoléon de poche.
Porém, esta tempestade política francesa também irá produzir efeitos no conjunto da União Europeia e vai mostrar que não são apenas os franceses que estão descontentes com Macron. Certamente que, noutros estados-membros, também os seus nacionais não estão satisfeitos com o rumo que os seus dirigentes estão a dar aos assuntos políticos europeus, nomeadamente com a questão ucraniana, com os seus discursos belicistas e com o seu seguidismo em relação aos interesses americanos.
A derrota anunciada de Macron é, certamente, um pré-aviso para todos os europeus e, naturalmente, para os portugueses.

sábado, 29 de junho de 2024

A festa do Tour de France vai começar

O Tour de France é uma das mais antigas e mais participadas provas desportivas que se disputam no mundo e que este ano cumpre a sua 111ª edição, que começa hoje na cidade italiana de Florença e termina no dia 21 de julho na cidade francesa de Nice. Ao longo de 21 etapas e de 3.492 quilómetros, muitos deles em alta montanha, haverá 176 ciclistas distribuidos por 22 equipas a lutar para chegarem à meta à frente de todos os outros corredores.
O Tour de France 2024 regista a presença dos grandes nomes do ciclismo mundial – Tadej Pogacar, Jonas Vingegaard, Primoz Roglic, Remco Evenepoel, Mathieu van der Poel e Wout Van Aert – que não costumam correr juntos, pelo que esse facto é mais um factor a aumentar o entusiasmo pela competitividade da corrida, embora o jornal desportivo francês L’Équipe dê todo o favoritismo ao esloveno Tadej Pogacar que há poucas semanas ganhou a Volta à Itália.
Haverá três ciclistas portugueses em prova: João Almeida (12), Rui Costa (114) e Nélson Oliveira (157). De entre eles, será João Almeida, que é companheiro de equipa de Tadej Pogacar, aquele de quem se espera melhor desempenho e até uma boa classificação.
O Tour de France é uma festa para os franceses, talvez mais importante que as eleições legislativas que estão em curso e que os Jogos Olímpicos que virão depois. Muitos milhares de franceses estarão à beira das estradas a vibrar com a caravana ciclista e a apoiar os seus ídolos. A prova terá transmissão televisiva assegurada pelo canal Eurosport e, certamente, os espectadores continuarão a ter a possibilidade de acompanhar a parte desportiva da prova, bem como uma sempre interessante itinerância turística e cultural, que fazem das transmissões televisivas um espectáculo dentro do espectáculo.

António Costa dirige o Conselho Europeu

António Costa foi escolhido por uma maioria qualificada dos líderes dos 27 estados-membros para presidir ao Conselho Europeu a partir de Dezembro do corrente ano e essa escolha é altamente gratificante para Portugal que, em breve, vai ter dois dos seus mais destacados cidadãos a dirigir as Nações Unidas e a União Europeia.
Num discurso proferido em 1965, o ditador Salazar tinha afirmado que Portugal era um país “sem alianças, orgulhosamente só” e aqui temos a prova que o regime instalado com o 25 de Abril de 1974, além da Liberdade, da Democracia e do fim da guerra colonial, ainda nos trouxe o respeito da comunidade internacional.
Embora o presidente do Conselho Europeu não tenha funções executivas e seja um coordenador de 27 líderes, de 27 vaidades, de 27 sensibilidades políticas e de 27 egoismos nacionalistas, o seu desempenho vai ser muito importante para a União Europeia, num tempo em que a França e a Alemanha estão muito fragilizadas, em que a Itália quer maior protagonismo, em que se discutem opções entre “canhões ou manteiga”, em que é necessário parar com a guerra na Ucrânia, em que os americanos estão em pânico perante o seu futuro quadro presidencial, em que os chineses continuam a marchar firmemente para a liderança do mundo e em que os africanos desesperam por um melhor futuro para os seus países.
António Costa vai ter que falar com muita gente, fazer muitas viagens, procurar muitos equilíbrios e consensos, mas os líderes europeus não duvidaram da sua capacidade, nem da sua inteligência política, nem da sua moderação. Lamentavelmente, foi em Portugal que um sistema viciado e vicioso mais procurou destruir António Costa, afastando-o do governo e levantando suspeitas sobre a sua honorabilidade, sem que houvesse indícios ou provas. Muita gente de duvidosa sensatez teve que “engolir um sapo”. Porém, o primeiro-ministro Luís Montenegro esteve à altura das suas obrigações e deu-lhe todo o apoio. Nós também.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

O debate-empate entre Biden e Trump

O debate que os candidatos presidenciais americanos sustentaram ontem à noite em Atlanta, não parece ter tido consequências importantes na corrida eleitoral. Os juízos opinativos da imprensa americana estão em linha com o alinhamento dos próprios jornais, em que uns apoiam Biden e outros apoiam Trump, pelo que os efeitos políticos do debate só serão conhecidos mais tarde. Na sua edição de hoje o jornal nova-iorquino Newsday diz que o debate presidencial foi um combate de palavras, o que significa que não se pode classificar o debate como decisivo, enquanto se escreveu que o debate não foi mais do que “90 minutos miseráveis”.
Porém, alguns títulos e algumas afirmações que se podem ler nas entrelinhas de diversa imprensa, parecem mostrar que Joe Biden esteve pior que Donald Trump. O jornal New York Post diz que “assistimos ao fim da presidência de Biden”, que esteve triste, resmungão e até tropeçou, enquanto o britânico Evening Standard escreveu que “Biden estragou tudo”.
O facto é que os Democratas parecem ter ficado em pânico com o desempenho de Joe Biden, havendo quem tenha começado a sugerir a nomeação de um candidato mais jovem para a convenção de agosto do Partido Democrata, lembrando talvez o sucesso histórico de jovens como John Kennedy ou Bill Clinton. 
Donald Trump foi classificado como “o pior presidente da história americana” e foi acusado, uma vez mais, de ter sido o responsável pela insurreição de 6 de janeiro de 2021.Os dois candidatos divergiram em relação à guerra na Ucrânia, pois Biden disse que Putin era “um criminoso de guerra” que quer estender a guerra até aos estados vizinhos que pertencem à NATO, enquanto Trump se referiu a Zelensky como “o maior vendedor do mundo”.
Foi um combate de palavras, ou um debate-empate, que o mundo seguiu com muita atenção e ficado à espera da reacção dos eleitores americanos.