domingo, 15 de janeiro de 2017

A incerta coesão territorial espanhola

O diário catalão el Periódico inclui hoje na sua primeira página, com grande destaque, uma reportagerm sobre a coesão territorial espanhola e os resultados de cerca de 35 anos de descentralização autonómica.
Nos termos da sua Constituição de 1978 a Espanha adoptou uma organização territorial que declara a unidade da nação espanhola e garante o direito à autonomia das diferentes nacionalidades e regiões que a integram e a solidariedade entre todas elas. Assim se constituiram 17 comunidades autónomas formadas por uma ou mais províncias e duas cidades autónomas. Com a integração europeia concretizada em 1986 em simultâneo com a integração portuguesa, a Espanha aspirava a uma maior coesão territorial das suas regiões ou comunidades e à redução do fosso entre comunidades ricas e comunidades pobres.
Porém, depois de trinta anos de descentralização autonómica e de integração europeia, de redistribuição fiscal por via de diferentes mecanismos, de investimento público e de absorção de imensos fundos de coesão e de fundos estruturais, as desigualdades entre as comunidades espanholas mantiveram-se ou acentuaram-se. O jornal analisa diferentes variáveis, incluindo o emprego, o investimento, as despesas com educação e saúde e, em todas elas, se verifica que a Espanha das autonomias navega a diferentes velocidades.
Provavelmente, a mais significativa de todas essas variáveis será o PIB per capita de cada comunidade, que vai desde 30.284 euros na Comunidade de Madrid até aos 15.437 euros na Extremadura. O diferencial entre essas duas comunidades, no ano de 1980, era de 9.814 euros mas hoje é de 15.156 euros.
Como salienta o jornal, a “España se quiebra y no por Catalunya”, mas por causa da coesão territorial que é, ou deveria ser, um dos grandes objectivos do Tratado de Roma e da política comunitária europeia. Pensemos que ao menos não se quiebre a coesão nacional, que hoje assenta no Rei, na selecção roja e em pouco mais.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Lisboa e o comovido adeus a Mário Soares

No dia em que a mais prestigiada imprensa internacional dedicou largos espaços ao fim do mandato de Barack Obama e à próxima investidura de Donald Trump como novo presidente dos Estados Unidos da América, o mais internacional jornal espanhol decidiu utilizar a sua primeira página para prestar homenagem a Mário Soares.
Assim, na sua edição de ontem o diário El Pais publicou na sua primeira página uma expressiva fotografia a quatro colunas das cerimónias fúnebres realizadas no Mosteiro dos Jerónimos, às quais assistiram vários dirigentes políticos mundiais, incluindo o Rei Filipe VI de Espanha e o Presidente Michel Temer do Brasil.
Porém, durante os três dias de luto nacional, o maior e mais genuíno tributo a Mário Soares foi prestado pelo povo anónimo de Lisboa, que esteve presente em todas as cerimónias realizadas e se comoveu com a perda do homem que se tornou o símbolo da coragem política e da luta pela liberdade. O cortejo fúnebre que transportou Mário Soares até ao Cemitério dos Prazeres foi imponente e solene, mas foi também uma comovida e sincera homenagem que lhe foi prestada, sobretudo quando passou pelo Largo do Rato, onde uma pequena multidão voltou a gritar “Soares é fixe”.
As televisões dedicaram grande parte da sua programação ao legado político de Mário Soares, enquanto um sem número de mal preparados praticantes de jornalismo se esforçou por lhe dar conteúdo. A generalidade dos políticos, com maior ou menor sinceridade, não deixou de acompanhar Mário Soares e de lhe prestar a sua homenagem.
Depois de três dias, as cortinas fecharam-se. Nos tempos que hão de vir, a voz e militância de Mário Soares vão fazer falta à Democracia em Portugal.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Portugal está de regresso a Goa

António Costa, o Primeiro-Ministro de Portugal, chegou ontem a Goa para uma visita de dois dias, tendo sido recebido no Aeroporto de Dabolim por Francisco D’Souza, o Deputy Chief Minister do Governo de Goa, enquanto a edição desta manhã do diário Heralda voz de Goa desde 1900 - voltou a ter um título em português ao destacar uma mensagem de boas vindas:
“Bem vindo Sua Excelência, Goa vos saúda”.
A visita de António Costa à Índia insere-se no capítulo normal das relações diplomáticas de Portugal com a comunidade internacional, por razões de conveniência mútua. Porém, esta visita a Goa tem uma componente afectiva muito mais intensa, não só por razões familiares do próprio Primeiro-Ministro, mas também porque Goa é um espaço geográfico e cultural onde as raízes lusófonas são muito profundas. Por razões históricas recentes, a separação entre Goa e Portugal concretizada em 1961 foi traumática e a relação entre ambos os Estados esteve suspensa. Depois de 1974 essa relação foi retomada pela mão de Mário Soares e, desde então, tem sido feito um grande esforço por diversas instituições públicas e privadas para intensificar a ligação cultural entre Portugal e Goa.
Talvez seja a altura de António Costa agradecer aos goeses que têm mantido viva a herança cultural portuguesa - e alguns já partiram sem o devido reconhecimento do Estado Português - e trabalhar consequentemente por um amplo acordo cultural que, sem equívocos, reconheça o legado cultural português em Goa e permita a sua preservação através do ensino da língua portuguesa, da preservação da toponímia, da cooperação científica e económica, de uma presença regular nos mass media e, de uma forma geral, de uma intervenção cultural activa e prestigiante no espaço público. Foi isso que em 1947 os ingleses garantiram em toda a Índia,  que os franceses fizeram em 1954 em Pondicherry e foi isso que os portugueses não puderam fazer em 1961, mas que deveriam agora procurar fazer em Goa.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Um iceberg do tamanho do Algarve?

São muito frequentes os desprendimentos de blocos de gelo polares, quer no Ártico quer no Antártico, que depois navegam pelas altas latitudes e são conhecidos por icebergs. Os seus riscos para a navegação marítima são evidentes e a história do Titanic é o maior exemplo da sua perigosidade.
Porém, com os modernos meios de observação via satélite e com outros meios de acompanhamento e rastreio, é cada vez mais possível prever esses desprendimentos de gelos e acompanhar os seus movimentos no mar. Foi exactamente por essa via que nas últimas semanas foi detectada na Antártida uma fenda que tem aumentado e que, segundo os especialistas, pode dar origem a um iceberg gigantesco de cerca de 5.000 quilómetros quadrados de superfície e cerca de 350 metros de espessura. A acontecer, será um dos maiores icebergs alguma vez registados no nosso planeta.
Alguma imprensa internacional tem noticiado esta hipótese e o diário argentino Uno que se publica na cidade de Mendoza, destaca hoje essa possibilidade na sua primeira página, ao mesmo tempo que informa que o fenómeno não terá consequências oceanográficas para as populações ribeirinhas do hemisfério sul.
No entanto, a dimensão deste possível iceberg impressiona. Acontece que o Algarve tem cerca de 4.997 quilómetros quadrados de superfície e, por isso, se a massa de gelo se desprender como prevêem os cientistas, teremos um iceberg do tamanho do Algarve a navegar pelos mares do Sul.
É bem curioso.

sábado, 7 de janeiro de 2017

R.I.P. Mário Soares

Mário Soares faleceu esta tarde no Hospital da Cruz Vermelha em Lisboa aos 92 anos de idade.
O país está de luto. Portugal perdeu um homem que marcou o nosso século XX e que é um dos maiores símbolos da nossa Democracia.
Desde muito jovem que Mário Soares lutou corajosamente contra a Ditadura. Foi preso, foi deportado e conheceu o exílio, tendo sido nessa altura que fundou o Partido Socialista. Regressou a Portugal depois do libertador dia 25 de Abril de 1974 e tornou-se uma figura de referência nacional, vindo a ser deputado, ministro, primeiro-ministro, Presidente da República e eurodeputado.
Portugal deve muito a este antigo Presidente da República Portuguesa, porque o seu prestígio pessoal e político a nível internacional foram um passaporte necessário para a entrada numa Europa desconfiada do que se passava em Portugal e que saíra há pouco tempo de um regime opressivo e ditatorial.
Como todos os políticos, Mário Soares não recolhia o apoio unânime dos portugueses mas todos lhe reconhecem um protagonismo decisivo na consolidação do regime democrático, na integração política e social na família europeia e na intransigente defesa da Liberdade. Ninguém ficou indiferente às suas exemplares qualidades de coragem, de tenacidade e de persistência, nem aos seus valores cívicos e culturais, que fizeram dele um político muito respeitado até pelos seus adversários.  
As instituições não deixarão de prestar as homenagens que são devidas a Mário Soares, um símbolo da Liberdade e uma das mais importantes personagens do século XX português, que a Europa e o mundo admiravam. Aqui lhe deixamos um singelo tributo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O custo dos combustíveis e a demagogia

Uma das principais fontes da receita pública são os impostos indirectos e, de entre estes, os impostos sobre os combustíveis que constituem sempre uma substancial parcela do orçamento do Estado. Do preço pago pelos consumidores nas bombas de abastecimento, cerca de metade reverte directamente para o Estado. É assim por toda a parte e, no início do ano, começa o folhetim dos aumentos dos combustíveis para assegurar as receitas de que o Estado carece.
Embora o assunto já não seja notícia, ainda há jornais que o destacam. Assim sucede hoje com o jornal francês L’Est éclair que se publica na cidade de Troyes, ao destacar na sua primeira página a subida do preço dos combustíveis. Aqui perto, também vários jornais espanhóis tratam desse assunto e, por exemplo, La Voz de Galícia destaca que “las gasolinas cuestam a los gallegos um 23% más que hace um año”.
Aqui em Portugal somos originais e nem os jornais nem os jornalistas trataram este assunto. Vai daí, a jovem presidente centrista de nome Cristas decidiu encenar um número e foi abastecer o seu carro com 20 euros de combustível. Chamou os seus amigos da TVI que servilmente alinharam naquela cena... e desancou no governo. Um caso de pura demagogia de quem politicamente pouco vale e que quer ganhar notoriedade. A orquestrada cena foi ridícula, até porque a jovem Cristas fez parte do governo de Passos-Portas, que foi humilhado pela Europa, que empobreceu o país e que foi mais longe do que a sinistra troika.
A jovem Cristas poderia ter abastecido a sua viatura na bomba de abastecimento do pai, que é revendedor de combustíveis, como provavelmente costuma fazer, mas escolheu outro cenário que lhe pareceu mais favorável. Do que não restam dúvidas é que os filhos dos revendedores de combustíveis gostam da política, sejam eles nascidos em Boliqueime ou em Luanda.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

As dúvidas e as incertezas do Brasil

A recente rebelião do presídio de Manaus em que se confrontaram grupos rivais e que se saldou em 60 mortos e 184 fugitivos, não é só um acontecimento trágico, mas também é um sinal muito preocupante da situação social que se vive em algumas regiões brasileiras, com evidentes sinais de instabilidade e até mesmo de desagregação. A consulta da imprensa brasileira revela sinais de uma crise profunda, em que sobressai a fraqueza do Estado e das instituições, mas também uma situação económica fragilizada pela recessão e pelo desemprego e um quotidiano de insegurança e de incerteza.
A propósito da rebelião do presídio de Manaus o jornal Estado de Minas classifica o ambiente do sistema prisional brasileiro como bomba-relógio, mas esse alerta é porventura mais profundo e pode aplicar-se a outros sectores da sociedade brasileira, que não apenas o sistema prisional.
A imagem externa do Brasil deteriorou-se enormemente quando há poucos meses foi destituída a Presidente Dilma Rousseff, como consequência de um confronto de facções político-partidárias. A democracia brasileira abriu uma profunda brecha e saiu muito enfraquecida do processo de “impeachment”, ao contrário do que foi dito. A confusão no topo do Estado contagiou outros escalões. O sistema político brasileiro abriu uma caixa de Pandora e viu-se o novo governo de Michel Temer a perder ministro sobre ministro, sob acusações de corrupção. Muitas instituições federais ou estaduais têm revelado alguma incapacidade para assegurar a harmonia social, para promover a recuperação económica e para dar confiança aos brasileiros. 
É preciso que a rebelião de Manaus tenha sido apenas um caso isolado e que não haja qualquer bomba-relógio no horizonte brasileiro.

Guernica: símbolo da crueldade da guerra

Nestes primeiros dias do ano e em jeito de balanço, a imprensa espanhola tem destacado três grandes temas que são as festas religiosas do Natal, a significativa quebra no desemprego e o enorme aumento do turismo, o que de resto parece ser uma característica ibérica.
Porém, no meio de alguma unanimidade noticiosa, o diário Málaga hoy anuncia a realização do Año Guernica que este ano se comemora e em que será homenageado Pablo Picasso, o mais famoso de todos os malaguenhos.
Pablo Picasso nasceu em Málaga em 1881 e de entre as suas obras mais famosas salienta-se Guernica, um painel pintado a óleo em 1937 por ocasião da Exposição Internacional de Paris e que foi exposto no pavilhão da República Espanhola. Esse enorme painel que mede 3,49 x 7,77 metros encontra-se em Madrid no Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia e representa o bombardeamento efectuado no dia 26 de Abril de 1937 sobre a cidade basca de Guernica, situada a poucos quilômetros de Bilbau, por aviões alemães e italianos que apoiavam as forças nacionalistas do ditador Francisco Franco.
Guernica tornou-se um símbolo universal da crueldade da guerra e estão anunciadas grandes exposições no Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia e no Museu Thyssen-Bornemisza em Madrid e no Museu de Barcelona.
No caso do Museu Rainha Sofia já está anunciada a exposição intitulada “Piedadd y terror em Picasso: el camino a Guernica” que celebrará os 80 anos de Guernica e que estará patente de 4 de Abril a 4 de Setembro, na qual poderão ser vistas cerca de 150 obras primas do pintor, provenientes de colecções de mais de três dezenas de instituições de todo o mundo. Uma grande oportunidade.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O português é uma língua em ascensão

O diário Hoy é o principal jornal da Extremadura espanhola e tem edições simultâneas nas cidades de Badajoz e Cáceres.
Hoje, ambas as edições destacam o ataque terrorista que aconteceu na noite da passagem do ano numa discoteca de Istambul, mas também incluem um anúncio na sua primeira página que chama a atenção dos portugueses, pois reproduz a bandeira nacional.
O anúncio promove a venda de um “Curso audiovisual de autoaprendizaje de português” que tem o valor de 103 euros, mas que pode ser comprado nas instalações do jornal por 24,95 euros, isto é, trata-se de uma promoção com um desconto de 78,05 euros que representa uma poupança de 76%. Nesta altura, segundo o jornal, “ya lo tienen 5”.
O anúncio convida os leitores a aprender português de forma amena e ao ritmo de cada um, diz que “es el momento de aprender portugués” e acrescenta que “o Curso es compuesto por todo el material audiovisual, diccionario y casos prácticos que te permitirán defenderte en las destrezas básicas de un idioma en alza: leer, escribir y hablar português”.
Idioma em alza” significa idioma em ascensão ou idioma em alta. De facto, o português é falado por mais de 200 milhões de pessoas e é a 6ª língua mais falada no mundo, depois do mandarim, do espanhol, do inglês, do híndi e do árabe. Qualquer dia, quando uma proposta feita em 2008 pelos países da CPLP vingar, há-de tornar-se a 7ª língua oficial das Nações Unidas.

domingo, 1 de janeiro de 2017

O meu voto de boa sorte para Guterres

António Guterres iniciou hoje o seu mandato de cinco anos como secretário-geral das Nações Unidas e esse facto é um acontecimento marcante da nossa história contemporânea, que deixa os portugueses muito orgulhosos.
A partir de agora, todos estaremos mais atentos ao que se passar nas Nações Unidas e no mundo, até porque a inteligência, a experiência e a sensibilidade de António Guterres colocam as nossas expectativas demasiado altas. Nenhum português teve alguma vez um desafio desta dimensão, em que se interceptam as complexas crises que vai enfrentar, que vão desde a Síria aos refugiados, mas que também passam pelo terrorismo, pelas alterações climáticas, pelos direitos humanos e pela fome no mundo.
António Guterres vai encontrar um mar de problemas e uma nau em risco de naufrágio. As Nações Unidas são cada vez mais uma organização paralisada por uma excessiva burocracia e que está a passar por um período de descrédito internacional porque se tem mostrado inoperante perante o conflito da Síria e que, além disso, está muito manchada por alguns episódios de má conduta dos seus funcionários. De facto a ONU está sem rumo, um pouco como acontece com o mundo. A escolha de um português para ocupar o cargo de secretário-geral da ONU é realmente um acontecimento único e nenhum dos seus concidadãos ficou indiferente a esta designação.
O processo de candidatura foi exemplar e meio mundo ficou espantado. Agora todos esperamos que ele consiga, a partir de hoje, colocar as suas capacidades ao serviço da paz mundial e tenha resultados positivos. Como dizia hoje o suplemento Magazine do Diário de Notícias, numa edição especial que lhe foi dedicada, temos ”o mundo no olhar de Guterres” e todos esperamos que ele tenha boa sorte. O mundo precisa mesmo deste António Guterres. Que a sorte o acompanhe.

Novo ano e esperança num mundo melhor

Ontem despedimo-nos de 2016 com uma imagem do Brasil e da sufocante praia de Pitangueiras a abarrotar de guarda-sóis e de gente. Hoje voltamos ao Brasil para saudarmos a chegada do novo ano de 2017, através de uma imagem do espectacular fogo de artifício sobre a praia de Copacabana no Rio de Janeiro, que o jornal O Globo escolheu para ilustrar a sua primeira edição do novo ano.
Hoje, como repetidamente acontece todos os anos, muitos jornais ilustraram as suas edições com imagens do fogo de artifício em Sydney e Hong Kong, enquanto a generalidade das televisões rivalizaram na apresentação de imagens da passagem do ano.
Porém, para além das festivas e coloridas imagens que proporciona, esta mudança de calendário torna-se um tempo de reflexão, em que por toda a parte se exprime a aspiração por um mundo melhor, com paz, harmonia e prosperidade. Esta aspiração também significa que se deseja o fim de todas as guerras, o fim do terrorismo, o fim da exploração e o fim da fome e da pobreza.  Estes e outros males do mundo podem não acabar de repente, mas há que fazer um esforço no sentido de os atenuar, para que a felicidade, a segurança, a prosperidade e o bem estar sejam cada vez mais uma pertença de toda a Humanidade.
Que em 2017 seja esse o rumo do mundo.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Que sufocantes são as praias brasileiras

O diário brasileiro Estado de S. Paulo ilustra a sua última edição de 2016 com uma elucidativa fotografia da praia de Pitangueiras que se situa no centro do Município da Estância Balneária do Guarujá, no Estado de S. Paulo.
É a mais acessível e a mais popular de todas as 27 praias do município e, por isso, atrai multidões, sobretudo nestes dias de festas do fim do ano, quando o calor tropical aumenta e a brisa marítima se torna uma benção que toda a gente procura. Nestes dias, porque o lugar está geograficamente em 23º de latitude Sul e a declinação do Sol também está próxima desse valor, ao meio-dia o Sol está no zénite ou por cima da cabeça das pessoas e “não há sombra”. É mesmo tempo de calor.
A fotografia que o jornal publica mostra o areal da praia de Pitangueiras coberto por muitas centenas de coloridos guarda-sóis, absolutamente ocupado e sem espaço para mais nada. Este sufoco está a banalizar-se em muitas praias, não apenas no Brasil, mas sobretudo nas praias situadas nas proximidades das grandes cidades que se estão a tornar num sítio pouco recomendável para descanso ou para lazer. Todos podemos imaginar o ambiente criado por guarda-sóis encostados uns aos outros e acrescentar que, segundo refere a notícia, “as caixas de som debaixo do guarda-sol viraram moda”.
A fotografia publicada fala por si e vale mais do que mil palavras. É caso para perguntar se alguém quer trocar este frio português pelo calor de uma praia brasileira como esta.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A reconciliação firmada em Pearl Harbor

Cerca de 75 anos depois da famosa operação aeronaval em que a Marinha Imperial japonesa atacou a base americana de Pearl Harbor nas ilhas Hawai, o Presidente Barack Obama e o primeiro-ministro Shinzō Abe encontraram-se exactamente no local onde no dia 7 de Dezembro de 1941 aconteceu esse ataque que provocou a morte de 2300 militares americanos e empurrou os Estados Unidos para a 2ª Guerra Mundial. Como foi afirmado nos discursos pronunciados no USS Arizona Memorial, nenhum outro local era tão apropriado para assinalar a definitiva reconciliação entre os Estados Unidos e o Japão.
Esta foi a primeira visita oficial de um líder japonês àquela base naval e esse gesto emblemático foi interpretado como o símbolo de uma autêntica reconciliação, a que ainda assistiram alguns sobreviventes dessa trágica manhã, entre os quais o luso-descendente Alfred Rodrigues. 
Porém, esta iniciativa também teve o cunho da reciprocidade. De facto, no passado mês de Maio o Presidente Barack Obama tinha sido o primeiro presidente dos Estados Unidos em exercício a visitar Hiroshima, a primeira cidade japonesa sobre a qual foi lançada uma bomba nuclear no dia 6 de Agosto de 1941, que provocou a morte de 150 mil pessoas.  Nesse local encontra-se hoje o Hiroshima Peace Memorial e foi aí que Barack Obama e Shinzō Abe deram ao mundo uma primeira imagem de reconciliação. 
Estas visitas foram mensagens enviadas para o mundo, mostrando que é sempre possível encontrar a paz, mesmo depois das mais violentas guerras. O jornal Star Advertiser que se publica em Honolulu, fez uma alargada reportagem do acontecimento e, na sua primeira página, destacou exactamente a palavra reconciliação. Curiosamente, nem Barack Obama pediu desculpas ao Japão, nem Shinzō Abe pediu desculpas aos Estados Unidos, isto é, houve um respeito pela História e não houve lugar para esse tipo de hipocrisias.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

“Mare Mortum” em balanço de fim de ano

Nesta época de fim do ano é habitual fazerem-se balanços sobre os acontecimentos mais relevantes que ocorreram no ano que finda. Este ano assim acontece.
No seu balanço do ano de 2016, o diário El Periódico que se publica em Barcelona decidiu evocar a tragédia do Mediterrâneo, onde nos últimos doze meses morreram mais de 5.000 pessoas que procuravam chegar à Europa para fugir da guerra, ou da pobreza ou, simplesmente, procuravam uma vida melhor. O Mare Nostrum dos Romanos que foi um símbolo de progresso civilizacional está transformado num Mare Mortum, como anuncia o título do jornal de Barcelona.
Esta evocação é uma oportuna chamada de atenção para todo o mundo e para muitos dos alucinados dirigentes que o governam e fecham os olhos a este tipo de tragédias humanitárias, mas é sobretudo uma valente bofetada nos dirigentes europeus que têm fortes responsabilidades na criação da dramática situação que tem acontecido no Mediterrâneo e para a qual têm sido incapazes de encontrar soluções. E nem é coisa que não tenha sido prevista por muita gente. Porém, o que tem acontecido é uma crescente subordinação da política aos interesses económicos e financeiros, numa relação em que os dirigentes são meros instrumentos dos interesses dos “mercados”. O respeito pelos direitos humanos e a solidariedade que devia ser praticada tornam-se secundárias. O ser humano é cada vez mais um número. A arrogância europeia é cada vez mais gritante. A sobranceria com que se olham os gregos ou os portugueses, não é muito diferente da indiferença com que olham os líbios, os sírios e outros povos que fogem da guerra.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

E se mais prémio houvera mais ganhara

O ano de 2016 vai ficar na história recente de Portugal, por muito boas razões.
No campo da nossa política interna tivemos uma eleição presidencial que colocou em Belém um homem que respira alegria e que despachou para o esquecimento de Boliqueime aquele que durante dez anos ensombrou a nossa vida política mas, como se isso fosse pouco, ainda tivemos um governo que acabou com aquela pantomina que era o arco da governação e que, segundo revelam as sondagens, está a merecer cada vez mais o agrado dos portugueses.
No campo da política internacional também assistimos a uma Comissão Europeia que, depois de tanto nos ter humilhado, se desfaz agora em elogios aos resultados da governação portuguesa, enquanto um processo de grande profissionalismo diplomático levou o enorme prestígio de António Guterres ao cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas.
No campo desportivo também o sucesso nos bateu à porta com as vitórias europeias no hóquei em patins e, sobretudo no Euro 2016, em que aquele golo do improvável Éder deixou o país cheio de orgulho e de lágrimas de alegria.
Porém, num tempo em que prevalecem as culturas mediáticas e pesem embora todas as coisas boas que aconteceram em Portugal, não será exagero afirmar-se que o ano de 2016 foi o ano de Cristiano Ronaldo, que no espectro mediático dá pelo nome de CR7. O homem fartou-se de ganhar títulos colectivos e prémios individuais. Então não é que agora foi eleito o melhor desportista europeu de 2016, quando havia desportistas alemães e ingleses, mas também franceses, italianos, espanhóis e de muitos outros países, que rematam, nadam, pedalam, velejam ou remam? Aqui nenhum jornal lhe dedicou uma página inteira, como hoje fez o diário espanhol as.
De facto, é caso para dizer que se mais prémio houvera, mais ganhara.