terça-feira, 5 de maio de 2020

O reconhecimento da língua portuguesa

Hoje, dia 5 de Maio, celebrou-se pela primeira vez o Dia Mundial da Língua Portuguesa, uma data que foi oficializada no ano passado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e que, por iniciativa da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), já antes se comemorava como o Dia da Língua e da Cultura Portuguesa.
As celebrações foram discretas porque os tempos não estão nada de feição para celebrações ou para festas. No entanto, várias personalidades da Literatura, da Música, do Cinema e da Ciência dos nove países que têm a língua portuguesa como língua oficial – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste - subscreveram mensagens de regozijo pelo reconhecimento internacional da língua portuguesa que, de acordo com os rankings mais credíveis, será a quinta língua mais falada no mundo. O próprio secretário-geral das Nações Unidas, na sua dupla qualidade de dirigente do principal organismo internacional e de cidadão português, difundiu uma mensagem a assinalar o acontecimento, tal como fizeram outros luso-falantes, nomeadamente alguns presidentes da República e até um Prémio Nobel.
Os falantes de português serão cerca de 290 milhões que residem nos nove países da CPLP, a que se devem juntar as diásporas de cada um dos países que se encontram fora dos seus países de origem e que vivem em vários países da Europa, nos Estados Unidos e no Canadá, mas também na Austrália, na África do Sul, na Venezuela e, naturalmente em Macau e Goa. 
O reconhecimento internacional da língua portuguesa é, seguramente, um factor que prestigia e credibiliza todos os países que se exprimem em português e todos os cidadãos luso-falantes.

Brasil: o povo nem sempre tem razão

Portugal é um país que tem vários países-irmãos e amigos, mas o seu irmão mais velho chama-se Brasil. Não é preciso invocar o passado histórico nem a língua comum para justificar a relação íntima que existe entre os dois países e, por isso, tudo o que acontece no Brasil interessa aos portugueses, sobretudo nos aspectos culturais, em especial com a música e o futebol, mas também nos aspectos políticos.
Acontece que depois de um conturbado processo político, no dia 28 de Outubro de 2018 os brasileiros elegeram Jair Bolsonaro para presidente da República Federativa do Brasil com 55% dos votos, mas como nos ensina a História, por vezes o povo engana-se nas escolhas que faz. Parece ser esse o caso, pois é lamentável o que se está a passar no Brasil, sobretudo depois de se ter revelado a calamidade que está a ser a pandemia de covid-19. O Jair revela-se uma personalidade menor e as elites culturais e económicas brasileiras devem estar a chorar pelo apoio directo ou indirecto que lhe deram, quando recusaram Fernando Haddad e a gente do  PT.
A pandemia que ele sempre desvalorizou já é uma calamidade nacional com mais de 100.000 infectados e mais de 7.000 mortos mas, apesar dessas trágicas estatísticas, o Jair continua a desrespeitar todas as normas sanitárias e a participar em protestos que apelam à dissolução do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, ao mesmo tempo que sugere, incita ou ameaça com uma intervenção militar. É a escalada da insensataz, escreve hoje o Correio Braziliense. É um impensável nível de irresponsabilidade. Os seus aliados desertam todos os dias, como aconteceu com Sérgio Moro, um seu fiel seguidor que vai fazendo os seus trabalhinhos mais ou menos sujos para subir na política brasileira. O Jair já não tem futuro. O povo enganou-se.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Há um novo mundo a surgir no horizonte

A última edição do Courrier internacional é temática e centra-se numa questão que, na actual turbulência que atravessamos e de que ainda não se sabem as verdadeiras consequências, nos obriga a repensar o mundo. As dúvidas que se levantavam aos efeitos nocivos da globalização sobre o comportamento dos seres humanos, sobre a crise climática e o aquecimento global que rapidamente estão a alterar o planeta ou sobre a crise generalizada da natalidade, juntaram-se à pandemia do covid-19 e aos seus medos e incertezas, parecendo que estamos perante uma tempestade perfeita.
Há que repensar o mundo, como salienta na sua primeira página o Courrier internacional. Ninguém pode ficar indiferente às imagens que temos visto das ruas e praças das cidades desertas, das angústias ou mesmo da impotência de quem trabalha nos hospitais, das filas intermináveis de gente que procura abastecer-se nos supermercados, dos rostos que em vez de sorrisos mostram máscaras, das placas de estacionamento dos aeroportos pejadas de aviões imobilizados ou dos grandes navios de cruzeiro abandonados nos cais. Essas imagens sugerem que repensemos o mundo porque nunca mais vai ser como era e que nos preparemos para um modo de vida diferente que, quem sabe, até pode ser melhor. A pandemia do covid-19 está a desencadear uma verdadeira revolução, talvez uma das maiores revoluções que a Humanidade alguma vez enfrentou. Há que pensar nela e nas adaptações a fazer no modo de vida da sociedade. Porém, neste quadro que nos obriga a pensar no futuro com coragem, com inteligência, com imaginação e com esperança, ainda há gente muito responsável – dispenso-me de aqui deixar nomes – que continua com o seu discurso político ou sindical da reivindicação, da exigência e da confrontação, como se o mundo não tivesse mudado radicalmente nos últimos três meses.

domingo, 3 de maio de 2020

España: la alegría vuelve a la calle

A pandemia que nos ataca desde há quase dois meses, em particular nos países da Europa ocidental, obrigou ao encerramento de escolas, à suspensão de grande parte da actividade produtiva e ao confinamento domiciliário das pessoas, entre outras medidas destinadas a evitar os contágios e a propagação do vírus. 
De acordo com os imensos “especialistas” que diariamente nos dão lições sobre o assunto, estaremos agora na fase descendente da primeira vaga da pandemia, mas espera-se uma segunda vaga ainda mais dura nos próximos tempos, o que nos obriga a todos os cuidados. Por isso, nesta aparente acalmia pandémica, as autoridades sanitárias estão a procurar conciliar todas as variáveis que entram nesta equação – a defesa da saúde pública, o fim do confinamento obrigatório, a reactivação do comércio e da indústria, a reabertura das escolas e das repartições públicas e, até mesmo, essa coisa que pouca falta nos tem feito que é o futebol e as longas noites televisivas a discutir foras de jogo e penaltis.
O confinamento obrigatório vai terminar em Portugal, enquanto em Espanha já terminou. Ontem as cidades espanholas encheram-se de pessoas que vieram para a rua para “esticar as pernas” e apanhar sol, para fazer caminhadas e pedalar. A imprensa espanhola encheu as suas primeiras páginas com imagens que mostram as cidades cheias de gente e de vida. O jornal Canarias7 de Las Palmas de Gran Canaria seguiu a mesma linha e encheu a sua primeira página com os surfistas canários.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

A maior calamidade está em Nova Iorque

Nos Estados Unidos contabilizaram-se hoje 1.122.866 pessoas já infectadas com covid-19 e 65.397 óbitos devidos ao mesmo vírus, enquanto no estado de Nova Iorque estão registadas 313.855 pessoas infectadas (28% do total do país) e o número de óbitos atinge 24.069 (37% do total do país). Estes números mostram como os Estados Unidos e o estado de Nova Iorque estão no centro desta tempestade a que nenhum país tem escapado. Se comparamos os 24.069 óbitos que já aconteceram no estado de Nova Iorque, que tem cerca de 20 milhões de habitantes, com os números do que se passa em todo o mundo, verificamos que a calamidade nova-iorquina é muito mais grave do que aquela que atinge os maiores países europeus que são muito mais populosos, como a Itália (27.967 óbitos), o Reino Unido (26.771 óbitos), a Espanha (24.543 óbitos) e a França (24.376 óbitos).
Hoje, o Daily News e outros jornais do estado de Nova Iorque anunciaram que, pela primeira vez na história de 115 anos do New York City Subway, vai ser interrompida durante a noite a circulação nas suas 36 linhas e 472 estações, para que se proceda a uma limpeza geral de desinfecção anti-vírus, pois pensa-se que o transporte diário de mais de 5 milhões de passageiros torna o metropolitano nova-iorquino um dos principais focos de propagação da epidemia de covid-19. Porém, é de lamentar que as autoridades estaduais tenham demorado tanto tempo para perceber que o metropolitano era o mais provável agente de contágio e para se decidirem por esta iniciativa sanitária, o que mostra como na nação mais poderosa do mundo há demasiadas fraquezas.

A crise aeronáutica e a retoma da Airbus

O jornal regional La Dépêche du Midi que se publica em Toulouse, a cidade do sul da França que é o mais importante centro de produção aeronáutico da Airbus, dedicou a sua última edição à crise por que passa o sector, numa época em que não há novas encomendas, em que muitos milhares de aviões estão parados e em que as companhias de aviação têm as suas finanças arruinadas por não terem receitas.
Ainda não se avista a luz ao fundo do túnel no que respeita à normalização da actividade aeronáutica mundial e, naturalmente, há uma absoluta incerteza quanto à retoma da produção industrial de aeronaves, porque não há nem vai haver procura nos tempos mais próximos. A Airbus passa por tempos difíceis e a cidade que “vive” da Airbus está verdadeiramente assustada, porque o desemprego é o cenário mais provável em todas as áreas industriais que participam na produção aeronáutica, bem como nas áreas que indirectamente lhe estão ligadas. O que se aproxima da cidade de Toulouse pode ser uma calamidade social e o principal jornal da cidade pergunta mesmo se a Airbus tem condições para descolar, pois não se antevê procura que possa dinamizar a capacidade de produção instalada e ocupar a força de trabalho que está ligada ao grupo.
É um desafio enorme que só começará a ser resolvido quando as companhias aéreas recuperarem os seus negócios ou quando os passageiros voltarem a encher os aviões, mas quando isso acontecer pode já ser tarde. Por isso, a cidade de Toulouse vive angustiada.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Jair Messias Bolsonaro preside. E daí?

Chama-se Jair Messias Bolsonaro e foi eleito presidente da República Federativa do Brasil, mas não revela inteligência, nem competência, nem senso para exercer aquele cargo em nome de 210 milhões de brasileiros e sobre um território que é o quinto maior país do planeta. Evidentemente que a presidência do Jair é um problema interno do país e de cada cidadão brasileiro, mas desde que a globalização se impôs, muitos problemas internos dos países também passaram para a esfera internacional, até porque são percepcionados através da televisão. É o que acontece com figuras como Trump, Maduro e Viktor Orbán, mas também com o Jair, que se tornaram erros de casting nos seus países, mas também no mundo.
Hoje o jornal O Dia do Rio de Janeiro destaca que no Brasil o número de óbitos devido ao covid-19 já atinge 5.466 pessoas e que afinal não é uma gripezinha nem um resfriadinho, como se lhe referiu o Jair. Queixam-se os brasileiros que o homem revela uma gritante falta de compaixão para com os mortos e as suas famílias e uma enorme falta de solidariedade para com aqueles que estão na primeira linha da frente de combate, isto é, os profissionais da saúde pública. Quando um dia destes foi interrogado pelos jornalistas a respeito do alarmante ritmo de crescimento da pandemia, o Jair enervou-se e limitou-se a dizer de uma forma arrogante e boçal:

       E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? 
       Eu sou Messias, mas não faço milagres. 
       É a vida. Amanhã vou eu.

Naturalmente, a generalidade da imprensa brasileira pegou na expressão E daí? e as críticas não mais pararam de disparar contra um presidente desbocado e insolente que repete demasiadas vezes que “quem manda sou eu”. Seria esperado que da sua boca se ouvisse uma palavra de conforto, de solidariedade e de esperança, mas o Jair não conhece esses valores.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

A crise pandémica e a ‘America first’

Os Estados Unidos são hoje o centro da pandemia de covid-19 e registam mais de um milhão de infectados e 56.843 óbitos. É uma calamidade sem precedentes na história sanitária americana e, só na última semana, verificaram-se cerca de 200 mil novos casos de pessoas infectadas e cerca de 12 mil óbitos. America first, a frase-slogan da doutrina oficial da política da administração Trump está a afirmar-se por razões bem infelizes, isto é, a América está no topo ou no centro da pandemia.
Nesta situação que atinge em especial o estado de Nova Iorque, destacaram-se as recentes palavras do presidente Donald que chocaram a comunidade científica, ao sugerir que a injecção de um desinfectante numa pessoa infectada poderia destruir o vírus num minuto, o que fez com que algumas pessoas seguissem o conselho presidencial e que as linhas telefónicas de emergência tivessem recebido muitas chamadas com relatos ou perguntas sobre a exposição a lixívia e a outros desinfectantes.
A sugestão de Donald Trump que fez rir o mundo, faz-me lembrar o que dizem alguns indivíduos que em Portugal se dedicam ao comentário televisivo como biscate para receberem um dinheirinho e para que o povo se lembre deles, pois também falam da pandemia sem saber do que falam. Eu penso que há um enorme atrevimento dos Portas, dos Júdices ou dos Marques Mendes, entre outros, que falam do covid-19 com base no que leem aqui e acolá, mas sem que tenham conhecimentos científicos de Medicina ou de Estatística, que lhes permitam tratar desses assuntos. Falam alto e claro, exibem-se sem contraditório, mas não sabem do que falam. Nessa matéria não passam de uns vulgares vendedores de banha de cobra, porque uma licenciatura em Direito ou muita experiência política, não são créditos suficientes para tratar de assuntos da área da Saúde Pública. E eles, sem qualquer pudor, estão a fazê-lo.

domingo, 26 de abril de 2020

Brasil: zangas, traições e interferências

O Brasil está a atravessar um tempo difícil, não só pelos efeitos da pandemia do covid-19, mas também pelas perturbações políticas dos últimos tempos, devido às declarações imprudentes e incompetentes de Jair Bolsonaro e às demasiadas fissuras que fragilizam o seu aparelho de poder. 
Aconteceu agora que o ex-deputado federal Jair Bolsonaro, que é o actual presidente do Brasil, e o ex-juiz federal Sérgio Moro, que vinha desempenhando as funções de ministro da Justiça, se zangaram e fizeram mútuas acusações, daí resultando a demissão do ministro que era considerado o mais bolsonarista dos ministros brasileiros. As divergências e as tensões foram-se acumulando, mas parece que a gota de água que fez transbordar o copo foi a acusação que o Moro fez ao Jair, segundo a qual ele estava a querer interferir no processo em que um seu filho está sob investigação na Polícia Federal. O Jair não gostou dessa acusação e tratou de dizer que o Moro era demasiado ambicioso e que queria garantir um lugar no Supremo Tribunal Federal, que é um lugar de escolha presidencial. Não se sabe qual deles está a mentir mais ou qual deles está a jogar mais no seu próprio futuro político, mas uma sondagem revela que nesta polémica há 65% de brasileiros que acredita em Moro, enquanto 35% estão com o Jair.
Depois da demissão do popular ministro Luiz Henrique Mandetta, a demissão de Sérgio Moro que surgiu com gravíssimas acusações ao Jair, vem abrir uma crise governamental no Brasil, porque “quando se zangam as comadres, descobrem-se as verdades” e é isso que está a acontecer. Em tempos de pandemia e quando o número de óbitos continua a aumentar, os caminhos trilhados pela política brasileira são preocupantes e parecem mostrar que há “uma mão invisível” que a todos tritura, ou que os arquitectos que desenharam os processos contra Lula da Silva e, sobretudo, contra Dilma Rousseff, estão agora a “beber do seu próprio veneno”.

sábado, 25 de abril de 2020

Viva a Liberdade e viva o 25 de Abril !

Com uma ilustração elucidativa dos difíceis tempos que correm, o jornal Público assinala na sua edição de hoje o 46º aniversário do 25 de Abril de 1974, em que não haverá lugar para os tradicionais festejos populares, nem para os desfiles com cravos na mão.
O 25 de Abril é uma data histórica que marca o regresso do nosso país à Liberdade e à Democracia, depois de muitos anos de autoritarismo, de repressão e de perseguição política, mas também de obscurantismo, de isolamento internacional e de guerra. Apesar de todas as dificuldades e contradições deste percurso colectivo de 46 anos, qualquer balanço que se faça conduz-nos sempre à conclusão que valeu a pena a mudança e que “as portas que Abril abriu”, na expressão poética de José Carlos Ary dos Santos, nos conduziram a um novo patamar civilizacional em que a integração europeia, o reconhecimento internacional, a afirmação dos novos países de expressão portuguesa e a prosperidade económica e social da população são alguns dos traços mais marcantes do Portugal de Abril.
O fim da guerra colonial e as transformações económicas e sociais que se sucederam ao 25 de Abril e que modernizaram o país, sobretudo nos domínios da educação, da saúde e das infraestruturas, são relevantes activos da comunidade nacional. Num quadro de recursos escassos e de necessidades ilimitadas, mas também de alguns erros e de algumas opções erradas, não tem sido possível satisfazer todas as aspirações de todos os portugueses, nem erradicar alguns dos vícios endémicos da nossa sociedade, nem assegurar que ninguém fique para trás na nossa caminhada. No entanto, nada do que esteja por fazer, diminui a importância histórica e emocional do “dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio”, como Sophia de Mello Breyner chamou ao dia 25 de Abril de 1974.
Por tudo o que nos deu, o 25 de Abril é uma efeméride que tem que ser celebrada pelos que defendem os valores da Liberdade e da Democracia, pelo menos da forma singela como hoje é sugerida pela capa do jornal Público.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

A falta de sensatez de um líder sindical

O Orçamento do Estado para 2020 foi aprovado pela Assembleia da República no dia 6 de Fevereiro e foi promulgado pelo Presidente da República no dia 23 de Março, devendo entrar em vigor no dia 1 de Abril.
O Orçamento do Estado é o principal instrumento de política económica e a sua apresentação, discussão e votação são alguns dos mais relevantes momentos da vida política. Neste orçamento, para além da passagem de déficite para superávite das contas públicas, de se continuar pelo quinto ano consecutivo o processo de convergência europeia e de se reduzir o peso da dívida pública no PIB até aos 116%, havia o compromisso de melhorar o rendimento real, pelo terceiro ano consecutivo, da grande maioria dos pensionistas e retomar a normalidade dos aumentos salariais anuais na Administração Pública, coisa que não acontecia há uma dezena de anos. Ainda o Orçamento não estava promulgado e já as circunstâncias se tinham alterado completamente, o que vai obrigar a que seja feito um orçamento rectificativo porque, como se tem dito, esta é uma crise que não se sabe até onde vai durar e que não tem precedentes na história económica deste século. É um caso muito sério!
O Orçamento para 2020 prevê um aumento de 0,3% para todos os trabalhadores da Administração Pública, em linha com a inflação de 2019, embora com um aumento maior para os salários mais baixos. Porém, aconteceu que no dia 21 de Abril se soube que os profissionais da saúde não iriam receber os seus aumentos no corrente mês, tendo o Ministério da Saúde comunicado que isso acontecera por dificuldades informáticas, mas que em Maio tudo seria regularizado com retroactivos. Então não é que o líder da UGT veio dizer que isto é uma estupidez? O homem estará no seu pleno juízo? Onde é que está a estupidez? Em vez de se preocupar com a crise geral da economia e do emprego que se avizinha, ou com os trabalhadores que estão em lay-off e com redução dos seus salários, ou até de aceitar que esses aumentos fiquem congelados, este homem de Neandertal saíu das cavernas e veio classificar de estupidez uma inoperância dos serviços de um ministério que tem sobre a cabeça uma responsabilidade inimaginável. Se isto é ser líder sindical… 

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Cuba: negócio, propaganda, solidariedade

Na sua edição de hoje o jornal espanhol El Mundo destaca que “Cuba aprovecha la crisis para hacer negocio com sus médicos en 21 países”, referindo que 6.400 milhões de dólares entram anualmente no país e que esse dinheiro é vital devido à brutal quebra do turismo. Segundo escreve o jornal, trata-se de “negocio y propaganda tras la solidariedad”.
Depois do triunfo da revolução cubana em Janeiro de 1959, o seu líder Fidel Castro apostou na ideia de “um exército de batas brancas para distribuir saúde pelo mundo e levar médicos e enfermeiros aos lugares onde o capitalismo levava militares”. Numa conferência de imprensa em Buenos Aires em 2003, Fidel Castro disse: “Médicos y no bombas, médicos y no armas inteligentes”. Essa frase foi recentemente citada pelo Granma, o jornal oficial do Comité Central do Partido Comunista Cubano, a propósito da mais recente “exportação” de médicos e enfermeiros cubanos, "requisitados" por diferentes países para ajudarem a combater a pandemia. É sabido que Cuba é o país com maior número de médicos por habitante e que os médicos cubanos têm cumprido missões em muitos países do mundo, mas com o surgimento da pandemia do covid-19 essas missões acentuaram-se. No passado domingo, a pedido do presidente das Honduras, um país que se situa nas antípodas ideológicas do regime cubano, chegou ao país uma brigada de médicos cubanos e foi então anunciado que actualmente havia 21 brigadas cubanas repartidas pela América Latina, Europa, África e Médio Oriente. A primeira terá sido aquela que no dia 23 de Março aterrou na Lombardia, mas outras já estavam há muito mais tempo na Argentina, na Venezuela, no Brasil, em Angola e em outros países. São milhares de médicos e de enfermeiros cubanos. É uma política de solidariedade activa, mas também é uma política de Estado que combina o económico (a venda de serviços para obter divisas) com o político (ganhos de legitimidade internacional e de reputação no país que recebe a ajuda cubana). Porém, parece que o governo cubano controla a actividade dos médicos e arrecada para si próprio entre 75 e 90% dos seus salários, ou seja, como hoje diz o El Mundo, “negocio y propaganda tras la solidariedad”. E aqui na Europa, porventura, teremos solidariedade mais activa e menos interesseira do que aquela com que Cuba ajuda o mundo?

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Os tempos difíceis que esperam o Brasil

Na questão da pandemia do covid-19 convém ter sempre presente que se sabe muito pouco sobre o assunto e, por isso, a maior parte do que vai sendo dito por esse mundo fora são tiradas delirantes, sobretudo sobre o aparecimento de vacinas e segundas vagas da pandemia, mas também sobre a forma de conciliar pandemia e economia ou como recuperar, na medida do possível, o quotidiano da sociedade e das pessoas. Há, contudo, uma questão que, um pouco por todo o mundo, está agora a dominar as agendas políticas: manter o confinamento, reduzi-lo gradualmente ou, simplesmente, acabar com ele para salvar a economia.
As autoridades sanitárias têm sido prudentes quanto a estas opções, mas há líderes que falam demais sem se saber se é para ganhar popularidade, se é para tranquilizar as populações, se é porque entendem que a pandemia não pode perturbar a economia ou se é apenas por ignorância.
O caso do Brasil é muito preocupante. O covid-19 apareceu em São Paulo no dia 24 de Março e, um mês depois, quando a Itália e a Espanha já viviam uma situação catastrófica, o presidente Jair Bolsonaro veio dizer que o covid-19 não passava de uma “gripezinha” ou de um “resfriadinho”, descredibilizando as evidências científicas, ao mesmo tempo que pedia às autoridades estaduais e municipais que reabrissem as escolas e o comércio, e pusessem fim ao "confinamento em massa". Depois demitiu o seu ministro da Saúde e tem insistido para que o país regresse à normalidade, sem dar ouvidos às autoridades sanitárias. O país chegou aos 38.654 infectados e aos 2.462 óbitos, mas alguns estudos indicam que pode haver entre 12 a 15 vezes mais casos de infecção, sobretudo porque não são feitos suficientes testes à população. 
Ontem em Brasília, Bolsonaro desafiou o bom senso e patrocinou uma manifestação em que, segundo o jornal O Dia, “um punhado de irresponsáveis, em atentado à saúde pública e à democracia”, pediu a intervenção militar e o encerramento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro aplaudiu este pedido expresso para um regresso do Brasil a um regime não democrático. Aproximam-se tempos difíceis para o Brasil.

sábado, 18 de abril de 2020

A pandemia global e a nova geopolítica

A corrente edição da revista The Economist trata de um tema novo a que chama pandemic geopolitics e pergunta se a China está a vencer, deixando no ar a ideia que, nas actuais circunstâncias sanitárias e económicas e no contexto da luta pela hegemonia mundial, a China está a dar mais um passo em frente e que os Estados Unidos estão a dar um passo atrás. 
Os dados objectivos mais recentes são perturbadores. Ontem, a Universidade Johns Hopkins de Baltimore anunciou que os Estados Unidos “registaram 4.491 mortos nas últimas 24 horas” devido à covid-19, o que elevou para cerca de 33 mil o total de vítimas. No dia anterior, o jornal USA Today tinha recordado o número de americanos mortos no ataque a Pearl Harbor de Dezembro de 1941 (2235), no ataque às Torres Gémeas de 11 de Setembro de 2001 (2977) e na passagem do furacão Katrina em 2017 (1836), para evidenciar a catastrófica dimensão da pandemia que está a arrasar o país, ao mesmo tempo que se anunciam 22 milhões de desempregados apenas num mês.
Muitas análises têm sido feitas sobre este confronto pela hegemonia do mundo, sobretudo desde que Donald Trump chegou à Casa Branca e quis a “America first” e a “America great again”, fazendo uma ousada aposta nas suas capacidades militares, com a abertura de frentes de guerra em inúmeros países. Numa recente entrevista à Newsweek, o ex-presidente Jimmy Carter disse que “os Estados Unidos são a nação mais guerreira da história do mundo” e que desperdiça milhares de milhões de dólares em despesas militares para submeter os países que se querem afastar da sua hegemonia, enquanto a China “não desperdiçou um centavo em guerras” e é por isso “que nos ultrapassa em quase todas as áreas”. Os Estados Unidos gastam cerca de 3,3% do seu PIB em despesas militares, enquanto a China só gasta 1,9%, mas em termos absolutos os Estados Unidos gastam quase quatro vezes mais do que a China. Recorrendo à velha máxima de Paul Samuelson sobre a opção entre canhões e manteiga, a crise do covid-19 veio mostrar que a China de Xi Jinping escolheu a manteiga e que os Estados Unidos de Donald Trump escolheram os canhões. 
Hoje, nenhum dos quatro antigos presidentes dos Estados Unidos - Obama, Bush, Clinton e Carter - apoia o empresário que conduz os destinos dos Estados Unidos.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Os navios-escolas que regressam a casa

O navio-escola espanhol Juan Sebastián de Elcano atracou ontem na Base Naval de La Carraca, em Cádis, depois de cinco meses e meio de viagem de instrução de guardas-marinhas e, pela primeira vez na sua existência e por causa do covid-19, não atracou no cais da cidade para receber as tradicionais boas-vindas da cidade, o que inspirou o título de capa do jornal La Voz de Cádiz: triste regreso a casa del JS Elcano.
Durante a sua viagem de 18.000 milhas, o navio visitou nove portos de sete países das ilhas e das costas ocidentais atlânticas, em que cumpriu os seus objectivos de instrução e representação da Espanha, mas com “especial énfasis en transmitir la españolidad de la gesta y su transcendencia para el progreso de la humanidad”, isto é, nuestros hermanos não perdem nenhuma oportunidade para chamar a si todos os méritos de uma viagem à volta do mundo “sem querer “ que, como o mundo sabe, foi um empreendimento ibérico em que os castelhanos entraram com a força do dinheiro e os portugueses contribuíram com a força do seu saber náutico.
Segundo as notícias publicadas, a viagem terminou quando em Miami, devido à pandemia do covid-19, foram cancelados todos os actos institucionais previstos e a visita se tornou numa simples escala técnica para satisfazer necessidades logísticas.
O regresso do navio mereceu fotografias na primeira página em seis jornais diários espanhóis (!), o que mostra a grande empatia existente entre a imprensa espanhola e o seu navio-escola, uma situação que a imprensa portuguesa não cultiva em relação ao nosso belo navio-escola que, nesta altura navega no Atlântico Sul com rumo a Lisboa, depois de ter sido interrompida a sua viagem de circum-navegação, também por causa da pandemia do covid-19.