quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Eu escolho o Pedro como figurão do ano

Quando termina o ano, as agências noticiosas e os órgão de comunicação social tratam de escolher os acontecimentos e as figuras do ano, através das mais diversas consultas. Este ano, assim voltou a acontecer e, de uma forma geral, todas as escolhas incidiram no Papa Francisco, no futebolista Ronaldo, no cantor Carlos do Carmo, na vitalidade cívica de Mário Soares, no surpreendente caso BES ou na detenção do ex-PM Pinto de Sousa. Eu permito-me discordar dessas opiniões e escolher o Pedro (PPC) como figura do ano. Mais do que uma figura, ele foi realmente um figurão.
PPC é o nosso primeiro-ministro desde 21 de Junho de 2011 e é aquele jovem de estudos tardios que, antes de ganhar as eleições, dissera que estava preparado, que tudo tinha estudado e que não seria necessário despedir pessoas nem cortar salários ou pensões. Porém, era mentira. Quando chegou a São Bento esqueceu-se do que tinha dito e com as suas políticas vieram os cortes nos salários e nas reformas, o aumento dos impostos, a precaridade no emprego, assim como a má prestação nos serviços de educação e de saúde por falta de pessoal e de material. O défice orçamental ficou na mesma e a dívida pública aumentou. A vulnerabilidade económica acentuou-se, a coesão social enfraqueceu, a pobreza aumentou e a desesperança instalou-se. Somos realmente um navio à deriva.
Milhares de portugueses perderam o emprego e outros tantos milhares emigraram. Muitos cientistas, médicos, engenheiros, arquitectos, pilotos de linha aérea e enfermeiros, entre outros profissionais, cuja formação tanto custa ao país, deixaram-nos e foram enriquecer outras economias, seguindo o conselho de PPC e do seu antigo braço direito Relvas, que bem incentivaram para que os portugueses emigrassem. Diz a Ordem dos Médicos que em 2014 houve 269 clínicos que pediram certificados para exercer a profissão noutro país e diz a Ordem dos Enfermeiros que desde 2011, recebeu 7564 pedidos de certificados de emigração para exercício da actividade no estrangeiro. Não precisamos de mais exemplos para mostrar a brutal sangria que estas políticas de PPC estão a fazer ao nosso país, que servem outros interesses que não os dos portugueses. E com um inclassificável despudor, ainda há poucos dias, a minha figura do ano nos avisou que mudar de políticas e de governo seria “deitar tudo a perder”. Como é possível tanta insensibilidade e tamanha cegueira política?

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Um grande jornal, uma grande instituição

O Diário de Notícias completou hoje 150 anos de vida e esse facto merece ser destacado, porque não é comum que as entidades empresariais portuguesas nascidas no século XIX, designadamente aquelas que têm por objecto a edição de periódicos, tivessem chegado ao século XXI. Neste tão longo período, o Diário de Notícias atravessou regimes políticos e situações económicas muito diferentes mas, no essencial, manteve a confiança dos seus leitores e dos seus anunciantes, tornando-se num referencial da imprensa portuguesa e numa verdadeira instituição cultural.  
Em boa hora, o jornal decidiu celebrar essa relevante efeméride com diversas iniciativas, de que se destaca uma edição especial com 144 páginas impressas em papel couché e em formato berliner, que o próprio jornal classifica como “uma espécie de viagem no tempo” e que recomenda que seja “para guardar”.
Esta edição especial foi hoje distribuida com a edição diária do jornal e é, realmente, uma viagem pelos grandes acontecimentos dos últimos 150 anos ou uma lição de História. A reprodução fac-similada da primeira edição do Diário de Notícias, datada de 29 de Dezembro de 1864, é o elemento mais interessante da edição, na qual se incluem textos apropriados de alguns escritores de referência como António Lobo Antunes, Manuel Alegre, Mário Cláudio, Gonçalo M. Tavares, Lídia Jorge ou Miguel Sousa Tavares. Como curiosidades, a edição “serve” aos leitores duas interessantes preciosidades: as quatro reportagens que Eça de Queirós fez da inauguração do Canal do Suez em 1870 e a entrevista de António Ferro a Adolf Hitler em 1930, pouco tempo antes do entrevistado se ter tornado o Führer da Alemanha.
150 anos de idade são por si só uma notável efeméride de uma entidade que conheceu a Monarquia e a República, a Ditadura e a Democracia. Esta edição especial do Diário de Notícias celebra-a condignamente.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Rolex Sydney to Hobart Yacht Race 2014

 
A edição de hoje do diário australiano The Sydney Morning Herald dá um grande destaque à regata oceânica que desde 1945 faz a ligação entre o porto de Sydney na costa oriental da Austrália e o porto de Hobart na ilha da Tasmânia, numa extensão de cerca de 630 milhas (1170 Km). A regata tem a sua largada no Boxing Day, isto é, no dia a seguir ao Natal e atrai velejadores e embarcações de todo o mundo, sendo considerada como uma das mais difíceis regatas do mundo e um ícone do desporto de verão australiano.
O record desta travessia foi estabelecido em 2012 pelo iate australiano Wild Oats XI que gastou 1 dia, 18 horas, 23 minutos e 12 segundos para ligar Sydney a Hobart. Na edição de 2014 participam 118 veleiros provenientes de dez países e de todos os Estados australianos, incluindo-se nessa frota alguns dos vencedores das anteriores edições.
Uma das curiosidades desta prova para veleiros de cruzeiro é a possibilidade de ser acompanhada quase em directo, apesar de decorrer longe de terra. De facto, para satisfazer o enorme interesse dos australianos por esta prova, a organização mantém uma webpage com informações permanentes sobre o estado do tempo e a previsão meteorológica, mas também com o posicionamento dos participantes, as distâncias actuais entre si e as velocidades com que navegam. Dessa forma, através da tecnologia GPS, os interessados podem acompanhar a Rolex Sydney to Hobart Yacht Race 2014 no seu computador, quase em directo.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Evocando o trágico tsunami de 2004

Foi há dez anos, no dia 26 de Dezembro de 2004, que o mundo foi surpreendido pelas brutais imagens televisivas do pior desastre natural que aconteceu no último século, em que perderam a vida 250 mil pessoas e foram destruídas muitas povoações ribeirinhas. Nesse dia, algumas ondas gigantes geradas a partir de um sismo submarino ocorrido ao largo da ilha de Sumatra, propagaram-se pelo oceano Índico e atingiram a orla costeira de diversos países. Foi um tsumani, um termo e um fenómeno que, até então, eram pouco conhecidos, inclusive por quem domina a meteorologia. Uma imponente e descontrolada massa de água entrou pela terra dentro com enorme velocidade e energia, tudo destruindo à sua passagem. A tragédia foi impressionante, como ainda podemos observar nas imagens que se conservam. O número de mortos atingiu mais de 165 mil na Indonésia, mais de 35 mil no Sri Lanka e mais de 16 mil na Índia, mas também houve vítimas na Tailândia, Malásia, Myanmar, Maldivas e na costa oriental africana. Algumas comunidades ribeirinhas que se reclamavam de origem portuguesa e que conservavam um crioulo português, por exemplo em Banda Aceh (Indonésia) e em Batticaloa (Sri Lanka), foram dizimadas. Se antes foram ignoradas pelas autoridades portuguesas, agora assim continuam e nem sequer se sabe quantos dos seus elementos sobreviveram ao tsunami. 
Dez anos depois desta tragédia que mobilizou substanciais auxílios internacionais para a reconstrução de infraestruturas e blocos residenciais para os muitos milhares de desalojados, sucedem-se as cerimónias evocativas e a inauguração de memoriais às vítimas do tsumani de 2004. Um pouco por todo o mundo as vítimas dessa tragédia foram evocadas.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Há mensagens de Natal muito ridículas

Os jornais espanhóis deram um grande e elogioso destaque à primeira mensagem de Natal de Filipe VI como rei de Espanha e, especialmente, às suas referências ao combate à corrupção, sobre o qual afirmou que “devemos cortar a corrupção pela raiz e sem contemplações” e que “um cargo público não pode ser um meio para enriquecer”. Na sua aplaudida mensagem, o rei salientou que “vivemos tempos complexos e difíceis para os nossos cidadãos e para a Espanha” e criticou aqueles que se desviam do que deles esperamos enquanto agentes do Estado, o que provoca tanta indignação e desilusão. A terminar, o rei teve palavras de incentivo para os agentes políticos e económicos e disse-lhes: “Aqui estarei sempre, ao vosso lado, como o servidor dos espanhóis”.
Isto aconteceu em Espanha no dia 24 de Dezembro. Aqui em Portugal também tivemos mensagens de Natal que foram muito diferentes da mensagem do rei de Espanha, porque os nossos republicanos mensageiros já nos cansam e as suas mensagens nada de relevante nos dizem ou, como diz o povo, são conversa da treta.
No dia 19 de Dezembro houve a mensagem de Boas Festas do Presidente da República, recitada a duas vozes, sem brilho, sem interesse e sem qualquer substância, a confirmar  a impopularidade com que as sondagens o contemplam.
No dia 25 de Dezembro tivemos a confrangedora mensagem de Natal do Primeiro-Ministro, na qual mostrou estar à margem das realidades do país e do orçamento do Estado que fez aprovar. Disse que “entrámos numa nova fase, numa fase de crescimento, do aumento do emprego e da recuperação dos rendimentos das famílias” e que “os portugueses não terão a acumulação de nuvens negras no seu horizonte”. Segundo disse, “a economia está a gerar dezenas de milhares de postos de trabalho” e é indispensável “não deitar tudo a perder". Que atrevimento! Foi uma intervenção que nada tem a ver com o Natal, inverdadeira ou mesmo mentirosa e que foi descaradamente eleitoralista. Há realmente mensagens de Natal que são muito ridículas.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Vancouver e a beleza da neblina matinal

No passado dia 21 de Dezembro pelas 23:03 horas (hora de Lisboa), ocorreu o Solstício de Inverno para as regiões situadas no hemisfério norte, o que significa que aconteceu o  dia mais curto do ano e teve início o Inverno. Com o Inverno agravam-se as condições meteorológicas no mar e em terra, dificultando muitas vezes a vida das pessoas e o normal desenvolvimento de muitas actividades.
Os jornais e os outros meios de comunicação costumam informar sobre o estado do tempo e sobre as previsões meteorológicas, mas também dão notícia das tempestades marítimas, do fecho de barras e portos, dos nevões e nevoeiros, do encerramento de aeroportos e do cancelamento de voos, de inundações e de outros fenómenos meteorológicos. Algumas vezes, esses jornais recorrem ao fotojornalismo para mostrar aos seus leitores os aspectos mais espectaculares desses fenómenos.
Assim fez na sua edição de hoje o Vancouver Sun, um importante diário da cidade canadiana de Vancouver, ao inserir na sua primeira página uma fotografia da “city in the mist”, isto é, uma eloquente fotografia da cidade envolta numa neblina matinal de que emergem  as torres dos grandes edifícios.
Acontece que Vancouver tem a fama de ser a mais habitável cidade do mundo. Depois de Toronto e Montreal, é a terceira cidade mais importante do Canadá, é uma cidade acentuadamente multicultural, é o maior porto canadiano e é conhecida como a Hollywood do Norte devido à sua indústria cinematográfica. Com todos estes atributos e para além de ter no turismo a sua maior actividade económica, até a neblina matinal que envolve a cidade parece que a embeleza e a torna mais atraente. É mesmo uma cidade com sorte.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Ainda a aproximação entre os EUA e Cuba

 

O anúncio da aproximação entre os Estados Unidos e Cuba feito simultaneamente por Barack Obama e Raúl Castro surpreendeu e entusiasmou a comunidade internacional, surgindo aplausos por todo o mundo. Porém, também gerou algum desagrado nos sectores conservadores americanos e nos seus aliados latino-americanos, que viram com desconfiança aquela iniciativa que consideram perigosa e desastrada. Segundo esses críticos, a decisão de perdoar os excessos do regime cubano e de ajudar os irmãos Castro é uma atitude de grande ingenuidade, que vai incentivar “os ditadores e tiranos de Caracas a Teerão e Pyongyang”. Do lado cubano também há algum cepticismo, pois há quem não acredite que termine a repressão contra os dissidentes anticastristas e que pense que a liberalização da economia só irá servir para fortalecer os grupos de interesses ligados ao regime que já dominam a economia cubana.
No Brasil de Lula da Silva e Dilma Rousseff, em que o poder político tem estado mais ou menos alinhado com o regime cubano, também os sectores conservadores têm mostrado muito cepticismo em relação à decisão de Barack Obama, estando a utilizá-la como arma de luta política interna ou como um ameaçador fantasma. A revista Veja, cuja política editorial se posiciona habitualmente com a direita política brasileira, examina e critica esta semana os efeitos resultantes da aproximação entre Cuba e os Estados Unidos. Na sua capa destaca “o amigo americano” e utiliza uma fotomontagem com a insinuação de que Barack Obama é um novo Che Guevara a apoiar os revolucionários cubanos. Será que temem um Che Obama para ocupar a Sierra Maestra e avançar sobre Santa Clara e Havana? Sabemos bem que não, mas o facto é que a fotomontagem funciona no subconsciente de muitas pessoas.

sábado, 20 de dezembro de 2014

A Índia já aderiu ao encanto do futebol

Um dos maiores jornais da Índia – o Hindustan Times – reservou a primeira página da sua edição de hoje para anunciar a final da Indian Super League de futebol. Trata-se de um acontecimento desportivo inédito, porque o futebol era até agora um acontecimento marginal na Índia, onde prevalecem o cricket e o hóquei em campo. As excepções eram Goa e a região de Calcutá (Kolkata) onde o interesse pelo futebol domina, mas parece que agora já nem a Índia resiste à globalização do futebol e ao seu encanto.
Este ano, pela primeira vez, foi organizado um torneio nacional que foi baptizado como a Indian Super League. São oito equipas criadas este ano em oito diferentes Estados ou cidades – Chennai, Delhi, Goa, Guwahati (Assam), Kerala, Kolkata (Bengala), Mumbai e Pune (Maharastra). São equipas que quase são selecções representativas desses Estados ou cidades, embora incluam muitos jogadores contratados no estrangeiro e até haja vários jogadores portugueses nessas equipas. A equipa de Goa contratou o famoso Zico para treinador e o luso-francês Robert Pires como jogador, mas nas outras equipas jogam antigos campeões do mundo e nomes famosos como Capdevilla, Del Piero, Trézéguet, Silvestre, Nesta, David James e Anelka. Embora sejam jogadores em fase descendente da sua carreira futebolística, os seus nomes sonantes, mais os media e a publicidade, exponenciaram o entusiasmo pelo futebol na Índia.
Na primeira fase desta primeira edição da Indian Super League jogaram todos contra todos e a classificação foi a seguinte: 1) Chennaiyin FC; 2) FC Goa; 3) Atletico de Kolkata; 4) Kerala Blasters FC. Depois, os quatro primeiros jogaram entre si. Kerala bateu Chennai e chegou à final. Goa defrontou Kolkata, sem que dois jogos e prolongamentos dessem sequer um golo, pelo que o finalista foi encontrado nos penaltis. Goa foi menos feliz e Kolkata seguiu para a final que se disputa hoje entre as equipas de Kerala e de Kolkata.
Goa, a verdadeira capital indiana do futebol, fica de fora. É pena.

R.I.P. Vítor Crespo

Com 82 anos de idade faleceu Vítor Crespo, almirante da Marinha Portuguesa e um dos símbolos do 25 de Abril.
Conheci-o há 50 anos, quando numa sala de aulas e em frente de um quadro preto, nos iniciava na química das pólvoras e dos explosivos e nos deduzia os complexos modelos matemáticos da Balística. Era um professor competente e eu apreciava-lhe a solidez dos seus conhecimentos e o profissionalismo e o rigor com que preparava as suas aulas.
Depois, andamos por caminhos diferentes. Até que surgiu o “dia inicial inteiro e limpo”, o dia em que “emergimos da noite e do silêncio”, como se referiu Sophia à madrugada libertadora do 25 de Abril. Foram muitos os que então arriscaram as suas carreiras e, porventura, as suas vidas, para que recuperássemos a Liberdade e conquistássemos a Democracia. Alguns arriscaram mais do que outros. Assim aconteceu com o pequeno grupo de militares que, com determinação e coragem, esteve no Posto de Comando da Pontinha a comandar as operações que conduziram à queda do regime. Só depois soube que Vítor Crespo foi um desses homens. Esse facto ligou-o intimamente ao processo de democratização e, durante os anos em que durou a intervenção do MFA na vida política, muitas vezes em circunstâncias muito difíceis, Vítor Crespo foi um dos mais eloquentes exemplos do “espírito do 25 de Abril”, um homem de grande coerência cívica, sensibilidade política, invulgar carácter e enorme tenacidade, tendo prestado relevantes serviços ao nosso país.
Quando em 1982 foi extinto o Conselho da Revolução e os militares sairam da cena política, Vítor Crespo regressou à Marinha durante alguns anos, sem beneficiar de quaisquer direitos ou mordomias pelos serviços que prestara. Atingida a reforma e com mais tempo disponível, continuou a ter uma intervenção cívica exemplar e de grande coerência, designadamente no quadro da Associação 25 de Abril, mas também no convívio com os seus amigos que lhe reconheciam uma superior inteligência e uma sólida cultura. Ontem deixou-nos.
Homens destes marcam uma época e fazem-nos falta nos tempos que vão correndo!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Privatização da TAP ? Não, obrigado !

Dizem os livros que um país é uma entidade constituída por um território geograficamente delimitado, onde habita em permanência uma população com afinidades culturais e linguísticas e que é administrado politicamente por um governo independente e soberano, que garante a harmonia social através das leis. Quando isso sucede e um país tem a capacidade de se relacionar com outros países, essa entidade é reconhecida como um Estado.
Portugal é um país e é um Estado, sendo inclusive o mais antigo da Europa com quase novecentos anos de história, mas não é apenas um território com 90 mil quilómetros quadrados e 10 milhões de pessoas. Portugal é muito mais do que isso. 
Portugal é um país cujos símbolos são a bandeira verde-rubra e “A Portuguesa”, mas que tem muitos mais sinais identitários. Portugal é a sua língua, a quinta língua mais falada do mundo, que Fernando Pessoa dizia ser a sua Pátria. Portugal é a sua história marítima e o seu pioneirismo no encontro cultural entre o Ocidente e o Oriente. Portugal é Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque, Pedro Nunes e Luís de Camões. Portugal é a Torre de Belém, o mosteiro de Alcobaça e o convento de Mafra. Portugal é o bacalhau, a sardinha assada e o pastel de nata. Portugal são as festas e romarias, o fado e o cante alentejano. Portugal são os conjurados de 1640, os resistentes das Linhas de Torres e os revoltosos da Rotunda. Portugal é o hidroavião Santa Cruz e o navio-escola Sagres. Portugal é a euforia do 25 de Abril de 1974. Portugal é o Benfica, a memória do Eusébio e o talento do Cristiano Ronaldo. Portugal é um país cuja imagem externa está nas cores dos aviões da TAP, que são inequívocos factores de inserção de Portugal no mundo e são um símbolo nacional junto das comunidades portuguesas e da Lusofonia.
Portugal é o sítio dos “heróis do mar”, do “nobre povo” e da “nação valente e imortal”. Tem identidade, história e património e, por isso, não pode ser amputado dos seus valores culturais ou económicos simbólicos, por iniciativa de quaisquer aventureiros desprovidos de valores nacionais e sem que se saiba exactamente porquê. Porquê privatizar a TAP?

O anunciado fim do bloqueio a Cuba

A imprensa mundial destaca hoje a decisão de Barack Obama de dar um primeiro passo para restabelecer as relações bilaterais com Cuba, depois de mais de 53 anos do bloqueio que os americanos impuseram à ilha na sequência da tomada do poder por Fidel de Castro e pelos combatentes da Sierra Maestra.
O presidente americano foi claro ao dizer que “se foram retomadas as relações com a China, também comunista, assim como com o Vietnam, era tempo de fazê-lo também com Cuba”, acrescentando que “não podemos continuar a fazer o mesmo durante 50 anos e esperar um resultado diferente”.
Já houve troca de prisioneiros e de imediato será aberta uma embaixada americana em Havana, esperando-se que o Congresso decida rapidamente o fim do bloqueio, para que os cubanos residentes nos Estados Unidos possam enviar dinheiro para os seus familiares em Cuba, para que os americanos voltem a poder passar férias na ilha e para que, de uma forma geral, fiquem normalizadas as relações entre dois países que estão a escassos 157 quilómetros de distância.
Simultaneamente em Havana, o presidente cubano em exercício Raúl Castro fez uma declaração no mesmo sentido, tendo ambos agradecido o papel mediador do Papa Francisco no restabelecimento destas relações.
Segundo hoje informa o El País, a cooperação diplomática entre o Papa e Barack Obama parece ter-se iniciado no passado mês de Março quando os dois líderes conversaram no Vaticano durante quase uma hora, tendo então forjado uma aliança que incluia uma solução para o isolamento de Cuba e para outros assuntos internacionais sensíveis, designadamente a instabilidade no Médio Oriente e na Venezuela e a colaboração turca na luta contra o terrorismo jihadista. Naquele dia de Março, referindo-se ao Papa Francisco, Barack Obama disse que “a sua voz deve ser escutada”, acrescentando: “Ele desafia-nos. O Papa põe ante os nossos olhos o perigo de nos acostumarmos à desigualdade”. Abre-se agora uma nova e imprevista era nas relações entre Cuba e os Estados Unidos. Realmente, o Papa Francisco desafia-nos!

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Person of the Year 2014

Desde o ano de 1927 que a revista TIME escolhe todos os anos a Person of the Year, uma pessoa, grupo ou ideia que, para o melhor ou para o pior, mais influenciou os acontecimentos do ano. A escolha desta conceituada revista desperta sempre muitas espectativas nos grandes meios de comunicação internacionais, até porque os escolhidos sempre têm sido personalidades mundiais de grande relevância. Depois de terem sido escolhidos o Presidente Barack Obama (2012) e o Papa Francisco (2013), havia alguma curiosidade a respeito da escolha deste ano, pois o ano de 2014 foi marcado pela mediocridade dos líderes mundiais e pela sua incapacidade para ultrapassar os problemas do mundo. Quem escolheria a TIME? Quem é que mais  influenciou os acontecimentos em 2014?
Com alguma surpresa, a revista TIME fez uma escolha inteligente e sensata ao eleger os Ebola fighters, isto é, os trabalhadores da saúde – médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar – muitos dos quais acabaram por ser infectados e vieram a morrer. Durante o recente surto do virus Ébola, que foi o mais grave e mais prolongado desde que foi descoberto em 1976, esse grupo de profissionais destacou-se pela sua coragem apesar dos enormes riscos que correu e pela solidariedade e humanidade com que acudiu aos infectados. Segundo o último balanço divulgado pela Organização Mundial de Saúde, a epidemia já fez 6.583 mortos na África Ocidental, num total de 18.188 casos identificados nos três países mais afectados, respectivamente a Serra Leoa, a Libéria e a Guiné-Conacry e, ao longo do período em que o surto esteve mais activo, houve 639 profissionais de saúde que foram infectados, dos quais 349 morreram. Estes números evidenciam a boa escolha da revista TIME.

A Galiza atrai o verdadeiro investimento

 
A Galiza recebeu com grande euforia a notícia de que a PSA Peugeot Citroën, que é presidida pelo gestor português Carlos Tavares, escolhera a sua fábrica de Balaídos para fabricar a sua nova gama de veículos comerciais K-9, que serão lançadas no mercado em 2018 sob as marcas Peugeot, Citroën e Opel, neste caso devido a um acordo estabelecido com a General Motors. O volume de produção previsto até 2028 é de 250 mil unidades por ano, que é uma carga de trabalho que a fábrica de Vigo terá que repartir com a fábrica da PSA em Mangualde. Em termos de emprego e se as previsões da procura se confirmarem, os actuais 6 mil trabalhadores da fábrica de Balaídos podem vir a ser reforçados até um valor próximo dos 10 mil.
Esta escolha da fábrica da PSA em Vigo preteriu a sua maior concorrente que é a fábrica de Trnava (Eslováquia), porque a fábrica galega, os sindicatos e as autoridades galegas e espanholas apresentaram melhores incentivos à construtora francesa. Segundo a edição de hoje de La Voz de Galicia, a fábrica de Balaídos “logra el mayor contrato de su historia” nos seus 56 anos de vida, acrecentando que “para la planta gallega, recibir este encargo era tan importante como respirar”. As autoridades galegas que tanto se empenharam na defesa desta decisão e em especial Alberto Feijoo, o Presidente da Xunta de Galicia, classificaram este anúncio como a melhor notícia possível para um sector decisivo da economia galega do qual vivem 19 mil famílias.
Depois da reanimação da sua construção naval, temos a Galiza e as suas autoridades a superar dificuldades, a atrair investimento e a criar emprego, enquanto por aqui nos limitamos a vender imobiliário a troco de vistos gold, uma operação de propaganda pessoal a que alguns chamam investimento. É pouco, muito pouco.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O tempo dos concertos de Natal

 
Um pouco por todo o país sucedem-se os concertos de Natal, muito deles promovidos pelos conservatórios, academicas e escolas de música que, desde datas mais ou menos recentes, também existem por todo o país.
Trata-se de um fenómeno cultural novo, que está ligado à democratização da vida social e cultural portuguesa. Desde o século XIX que uma boa parte da educação musical e da profissionalização da música em Portugal se fazia através das bandas de música e das sociedades musicais, mas nos últimos anos o interesse pela música multiplicou-se e apareceram inúmeras escolas profissionais, cujo dinamismo e entusiasmo tem atraido a juventude, as quais têm organizado a maioria dos concertos de Natal para apresentação do seu trabalho à comunidade, muitas vezes em associação com as autarquias e com outras entidades, designadamente as dioceses.
No caso de Lisboa, é de salientar que a Câmara Municipal, em cooperação com o Patriarcado de Lisboa, decidiu organizar diversos concertos de Natal quase sempre em igrejas, o que permite uma programação cultural de excepção e uma grande diversidade estilística e temporal, para além da possibilidade da apresentação de novos intérpretes de elevada qualidade. Esta ligação institucional já se concretizou com grande sucesso e grande afluência de público nos concertos já realizados nas igrejas de S. Nicolau, São Roque, Mercês e Graça.
Nos próximos dias estão anunciados concertos de Natal no cinema São Jorge, na igreja de São Domingos e no São Luiz Teatro Municipal, com entrada livre embora limitada à lotação dos espaços em que são apresentados. É mais uma oportunidade que é oferecida aos melómanos lisboetas e ao público em geral. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A violência contra as mulheres na Índia

A violência contra as mulheres é um fenómeno global, embora tenha características muito diversas e seja muitas vezes esquecido e até seja culturalmente aceite em muitas sociedades. A sua expressão mais visível são os casos de violência doméstica que, nos tempos mais recentes, têm revelado uma preocupante dimensão em Portugal.
Porém, de vez em quando o mundo é surpreendido por chocantes notícias relativas à  violência contra as mulheres. Assim acontece com os casos de violência sexual que nos últimos anos têm acontecido na Índia, designadamente o caso da estudante universitária de 23 anos de idade que em Dezembro de 2012 morreu depois de ter sido vítima de estupro colectivo num autocarro em Nova Delhi. Em termos sociais, culturais e jurídicos, a Índia costuma ser muito tolerante para com a violência sexual, mas este caso e outros que depois aconteceram e foram publicamente revelados, provocaram uma onda de protesto nacional e trouxeram esse problema para a discussão pública, o que está a mudar a visão dos indianos sobre a violência contra as mulheres. A atitude das autoridades perante esse problema também está a mudar. Nesse aspecto, o governo de Narendra Modi já marcou posição e produziu legislação no sentido de combater essa chaga da sociedade indiana, uma terra em que ainda há regiões onde existem comboios urbanos e suburbanos com carruagens para homens e carruagens para mulheres, exactamente para estas viajarem em segurança. O anúncio de meia página da Polícia de Delhi publicado na edição de hoje do The Asian Age, é muito curioso e é um invulgar apelo às mulheres indianas para que reajam e aprendam a defender-se para tornar a cidade de Nova Delhi mais segura.