terça-feira, 27 de outubro de 2015

A triste herança europeia de Barroso

A Volkswagen foi acusada pelas autoridades americanas de manipular os testes relativos às emissões de óxido de azoto em vários dos seus modelos a gasóleo, uma vez que os testes escondiam que os veículos poluem entre 10 a 40 vezes mais do que os limites permitidos pela lei americana. A marca alemã admitiu esse facto e lamentou profundamente que a marca tivesse forjado os resultados desses testes, que afectam a credibilidade da marca e já se preparam para recolher 11 milhões de viaturas no início de 2016, das quais 8,5 milhões circulam na Europa. 
O escândalo rebentou em finais de Setembro, mas adquiriu agora novos contornos na sequência de uma investigação feita pelo jornal britânico  Financial Times, que é talvez o mais importante jornal económico mundial. Na sua edição de ontem, o jornal anunciou em primeira página que Bruxelas, isto é, a Comissão Europeia então presidida por Durão Barroso, foi alertada em 2013 para as “car emissions tests discrepancies”.
Segundo a investigação levada a efeito pelo jornal, o problema do confronto entre a indústria automóvel e os grupos ambientalistas não é novo e a informação revelada pelo jornal mostra que a Comissão Europeia tinha conhecimento de que as emissões verificadas nos testes em laboratório não correspondiam às emissões verificadas nos testes de estrada e que tal assunto era objecto de debate interno. Numa carta escrita em Fevereiro de 2013, o então comissário europeu do Ambiente, Janez Potocnik, informou o então comissário da Indústria, Antonio Tajani, que haveria “discrepâncias significativas” entre as emissões verificadas nos testes e as registadas em condução real. Porque não deram ouvidos a Janez Potocnik? Porque se calou Antonio Tajani? O que soube ou não soube disto o presidente da Comissão Europeia? Este caso levanta muitas suspeitas. Numa Europa desacreditada e em crise, aqui está mais um exemplo da má memória que foi a Presidência Barroso, que atirou a União Europeia para a crise, para a desorientação, para a desagregação e para o salve-se quem puder.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O perdão de Blair e o silêncio de Barroso

O antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair foi entrevistado pela CNN e, apesar dessa entrevista ainda não ter ido para o ar, muitos jornais internacionais como o londrino Daily Mirror já estão a revelar alguns dos seus conteúdos mais surpreendentes e mais escandalosos. De facto, Tony Blair veio pedir desculpa pelo seu papel na guerra do Iraque, argumentando que utilizou informação errada, que não foi previsto o caos que se seguiria à queda de Sadam Hussein e que esse caos contribuiu para o aparecimento e consolidação do Estado Islâmico. A decisão da guerra contra o Iraque e Sadam Hussein foi tomada no dia 16 de Março de 2003, quando George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso se reuniram numa cimeira na Base das Lajes da qual resultou, quatro dias depois, o início da intervenção militar que conduziu à sua ocupação do Iraque e ao derrube do regime de Saddam Hussein, que viria a ser capturado, julgado e condenado à morte por enforcamento por um tribunal iraquiano.
Nesse dia, George W. Bush disse que “ou o Iraque se desarma ou é desarmado pela força", com base numa informação nunca provada de que o Iraque dispunha de armas de destruição maciça, nomeadamente químicas. Foi uma teimosia e uma obcessão americana a que aderiu com muitos sorrisos e aplausos o primeiro-ministro português Durão Barroso que, como prémio da sua indignidade e subserviência, chegou rapidamente a presidente da Comissão Europeia, onde aliás enriqueceu mas fez uma triste figura.
Na sua entrevista, Tony Blair declara-se preparado para “enfrentar o juizo da História” e destaca que outras intervenções internacionais posteriores também não deram resultados, referindo não só a intervenção com tropas no Iraque, mas também a intervenção sem tropas na Líbia e a não intervenção militar directa mas com um forte apoio à mudança de regime na Síria, concluindo que “se a nossa política não funcionou, as que se seguiram não foram melhores”.
Dez anos depois, Tony Blair pede perdão e reconhece os erros, mas o calculista Barroso guarda o silêncio e continua sem perceber o quanto nos envergonhou. Há dias, a televisão mostrou-o no congresso do PPE, a rir à gargalhada. Que tristeza! 

domingo, 25 de outubro de 2015

Os boys invadem o aparelho do Estado

O Jornal de Notícias anuncia hoje que o governo de Passos Coelho, que está em funções de gestão corrente, tratou esta semana de nomear uma centena de boys para cargos intermédios da administração pública, daqueles que não têm de passar pela Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CReSAP), designadamente cargos de director de serviço, chefe de divisão ou secretário-geral. Infelizmente, este tipo de comportamento desonesto não é um fenómeno novo porque, em maior ou menor grau, todos os governos procuraram sempre proteger os seus boys. Neste caso, a surpresa deriva destas nomeações ocorrerem já depois de conhecidos os resultados eleitorais e de se saber que o governo perdeu a maioria que o apoiava e que, provavelmente, vai para casa com o valente cartão vermelho que lhe foi mostrado pelo eleitorado. Além disso, na campanha difamatória que tem sido conduzida contra a alternativa governativa que se desenha, tem sido acentuada a credibilidade e a seriedade da dupla Passos & Portas, omitindo-se todas as suas mentiras, as ilegalidades e as práticas anti-constitucionais, a insensibilidade social e os resultados negativos da sua governação, que tanto tem afundado o país e empobrecido os portugueses. Daí que tivessem perdido quase um milhão de votos, mais de 12% dos seus eleitores e vissem os seus efectivos de deputados passar de 132 para 107, mas que pareça ainda não terem compreendido esta realidade.
Segundo revela o jornal, o Ministério da Defesa é o campeão das nomeações, o que confirma o perfil do tracinho Branco como traficante de interesses, seguindo-se o Ministério da Economia. Tudo isto é mesmo uma grande tristeza e só não dá para rir porque é tudo muito grave.

sábado, 24 de outubro de 2015

Ao qu’isto chegou!!!

Realizou-se em Madrid o congresso do Partido Popular Europeu (PPE), que reuniu os grandes líderes conservadores europeus e no qual estiveram cerca de três mil participantes, incluindo 14 chefes de Estado e de Governo. A análise dos discursos revela que houve uma troca geral de elogios e que a dois meses das eleições espanholas, este congresso foi uma ajuda de que Mariano Rajoy muito precisava para encarar as próximas eleições. As imagens televisivas mostraram algumas personalidades como o valente Nicolas Sarkozy que atacou a Líbia de Kadaffi, o estafado Silvio Berlusconi que se afogou em escândalos e o nosso José Barroso cuja incompetência deixou marcas em Bruxelas.
Angela Merkel esteve lá e, para além de pedir o voto em Mariano nas próximas eleições, exigiu que os portugueses tivessem menos férias e menos licenciados, dizendo ainda esperar que o “companheiro Pedro” possa formar governo. Mariano Rajoy foi mais longe e veio afirmar que “uma coligação de esquerda em Portugal seria negativa para os interesses de todos” e “não respeitaria” a vontade dos portugueses”, acrescentando que “seria a primeira vez na história – desde que a democracia regressou a Portugal – que não governaria o partido que ganhou as eleições”. O diário La Razón deu larga reportagem ao congresso conservador e destacou esses dois líderes em fotografia de primeira página. 
Acontece que todos se deviam preocupar mais com a desagregação da Europa, com a estagnação económica, com o desemprego, com a pobreza e a desigualdade social, com a ascensão das forças anti-democráticas, com os refugiados e a guerra na Síria, com o quadro de terror que se instalou na Líbia e com tantos outros graves problemas que afectam o nosso continente. Isso ficou em segundo plano. Angela Merkel preocupou-se com Portugal quando se devia preocupar com a Volkswagen e Mariano Rajoy preocupou-se com Portugal quando se devia preocupar com a Catalunha.
Aqui, só Manuel Alegre reagiu contra a inadmissível ingerência desta gente na nossa vida interna.
Ao qu’isto chegou!

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Os jornais, os jornalistas e a propaganda

Nas últimas semanas, uma enorme quantidade de jornalistas e de comentadores, uns assalariados e outros contratados, vestiram a farda de caceteiros e atiraram-se ao PS e ao seu secretário-geral, papagueando insultos e insinuações. 
Durante a campanha eleitoral essa gente nunca questionou o Passos nem o Portas, nem as desgraças económicas e sociais a que conduziram o país, que com eles se tornou mais pobre e mais dependente. Obcecados, só lhes interessou confrontar o Costa com o seu programa, com os seus objectivos e com as suas intenções. Todos os dias, essa gente repetia os mesmos argumentos, as mesmas perguntas, as mesmas palavras e fazia as mesmas insinuações. Espalharam o medo e a incerteza no eleitorado. Alguns deles, acantonados nas televisões, no Observador, no Sol e em outros pasquins semelhantes, encheram páginas de artigos cirúrgicos contra o Costa e contra a mudança.
Vieram as eleições e os resultados retiraram a maioria a quem nos governava. Assim, era exigível que tendo perdido a maioria, eles procurassem um compromisso para se manterem no poder, assumindo com humildade a sua nova condição. As partes não chegaram a acordo porque quem tinha que ceder não cedeu, mas o ambiente foi uma vez mais perturbado pelos mesmos jornalistas e comentadores que se voltaram a mobilizar para criar uma onda de dúvida e de temor na opinião pública e para continuar a difamar o PS e o seu secretário-geral. E tantas vezes repetem as mesmas mentiras, as mesmas inverdades ou as suas maliciosas opiniões, que toda essa manipulação passa a ser uma verdade quase absoluta para a opinião pública cansada e anestesiada. Tudo isto é feito de uma forma perversa, porque essa gente aprendeu que uma mentira mil vezes repetida se torna numa verdade inquestionável, como lhes ensinou Joseph Goebbels. É isto que se passa, com esta miserável gente a perder toda a honorabilidade e sujeitar-se a este papel de caluniadores sem escrúpulos. A política não pode ser assim. E agora temos o paradoxo de ver quem esteve na Alameda em 1975, ser considerado como um perigoso esquerdista e a pôr em causa os nossos compromissos internacionais. Força António Costa!

Cavaco e um discurso que nos envergonha

Ontem, o indivíduo que  exerce as funções de Presidente da República Portuguesa anunciou a indigitação do actual primeiro-ministro para formar governo, pois o seu partido foi o mais votado nas eleições de 4 de Outubro. Foi uma decisão esperada e legítima, apesar de haver muitas vozes a afirmar que “foi uma perda de tempo”. Poderia ter ficado por aí, mas o homem que veio de Boliqueime quis ir mais longe ao renunciar ao seu papel de árbitro e ao acrescentar à sua mensagem algumas verdadeiras barbaridades. Como se costuma dizer, em vez de pacificar a complexa situação que atravessamos, lançou muita gasolina para a fogueira da disputa partidária. Foi um péssimo e lamentável serviço ao país. Tirou a máscara da neutralidade e da imparcialidade e, nesta hora difícil, revelou estar ao serviço do seu partido e refém dos seus ódios, que aliás já revelara no seu famoso discurso de posse.
O que Cavaco disse revelou a pequenez de um homem e a sua definitiva incompreensão quanto ao papel de moderador que os portugueses lhe confiaram. Sem disfarçar a sua fúria, Cavaco espumou e fez afirmações de grande gravidade contra a esquerda portuguesa, que contabiliza agora 62% dos votos do eleitorado, quase lançando para a “clandestinidade” o PCP e o BE e, como escreveu um comentador, só faltando mandar avançar as canhoneiras contra a Soeiro Pereira Gomes e a Rua da Palma e, cercar o Largo do Rato para vergar o PS, acrescento eu. O indivíduo não se ficou por aí e desatou a mostrar a sua fúria contra o PS por não ter chegado a acordo com o PSD e a sua sanguessuga. No seu partido só esses génios da boçalidade que são Marco António Costa e Luís Montenegro tinham ido tão longe. Depois, de uma forma grosseira, antidemocrática e anticonstitucional, decidiu intervir com uma desapropriada pressão sobre o Parlamento no sentido de aliciar ou convencer alguns dos deputados do PS a aprovar o programa do do PSD e da sua sanguessuga e a votar contra o seu compromisso eleitoral.
Foi um discurso desapropriado e que nos envergonha. E ainda teremos Cavaco por mais 91 dias!

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A verdade do Eurostat e a propaganda

O Eurostat divulgou hoje o seu NewsRelease 186/2015 e a informação que nos dá é absolutamente preocupante e alarmante, sobretudo numa altura em que estamos rodeados de incertezas e perante um provável quadro de crise política. Ao longo dos últimos meses a desenfreada propaganda governamental e dos seus aliados da comunicação social garantia que estávamos no bom caminho, que tudo corria bem, que os cofres estavam cheios e até avisavam os eleitores para que tivessem cuidado para não se deitar a perder tudo aquilo que fora conquistado com o sacrifício dos portugueses. O governo até teve a ousadia e o atrevimento de defender que, em pouco tempo, estaríamos entre as dez economias mais competitivas do mundo. Muitas ilusões se venderam e muitas manipulações foram feitas para anestesiar e cativar o voto do eleitorado.
Hoje, o Eurostat veio dizer-nos a verdade e tirar-nos uma parte dessa anestesia com que o governo nos manipulou: a dívida pública e o défice público, que eram as bandeiras do governo e que se dizia tinham assegurado a retoma da credibilidade externa portuguesa, estão ao nível do pior que acontece na Europa. Mais de quatro anos de governação só agravaram estes problemas. A dívida pública portuguesa em finais de 2014 continuava a aumentar e aproximava-se dos 230 mil milhões de euros, o que significa que representa 130,2% do PIB e que só é ultrapassada pela Itália (132,3%) e pela Grécia (178,6%). Relativamente ao nosso défice público de 2014 que se fixou nos 7,2%, a situação também é muito grave, pois só o Chipre está pior do que nós (8,9%). Significa que, depois dos tais sacrifícios que os portugueses fizeram, estamos na mesma ou talvez pior. Dá que pensar.
Não sabemos o que vai acontecer politicamente nos próximos dias, mas é evidente que o resultado hoje anunciado pelo Eurostat recomenda que alguma ou muita coisa mude. 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Brasília sofre com o aquecimento global

No tempo do Presidente Juscelino Kubitschek, que entre 1956-1961 foi o 21º Presidente do Brasil e ficou conhecido por JK, iniciou-se a construção da nova capital federal brasileira que concretizava uma ideia antiga de promover o desenvolvimento do interior e a integração territorial e económica do país. JK convidou o urbanista Lúcio Costa e o arquitecto Oscar Niemeyer para projectarem a nova cidade e os seus principais edifícios públicos numa perspectiva moderna. Eles fizeram-no de uma forma inovadora que impressionou pela sua ousadia e o facto é que, em 1987, a cidade foi classificada como Património Cultural da Humanidade pela UNESCO. Actualmente, a cidade é considerada um monumento a céu aberto e na sua área metropolitana concentram-se cerca de três milhões de pessoas. JK e a nova capital federal ficaram associados a um período de notável desenvolvimento do Brasil, de grande estabilidade política, de enorme dinamismo cultural e de acentuada aquisição de prestígio internacional, sobretudo pela construção de Brasília e pela conquista da sua primeira Copa do Mundo em futebol.
Porém, nem tudo são rosas na grande cidade, um pouco por culpa da meteorologia e das alterações climáticas. Segundo os dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), as temperaturas máximas na cidade ocorrem em Outubro e a temperatura máxima absoluta historicamente registada em Brasília foi de 35,8 ºC e verificou-se no dia 28 de Outubro de 2008, seguido pelos 35,0 ºC registados no dia 15 de Outubro de 2014.
Ontem o Correio Brasiliense informava que a temperatura atingiu 36,4 ºC e acrescentava que “foi o dia em que Brasília ferveu”. Em nome do aquecimento global, o dia 18 de Outubro de 2015 entrou na história da cidade. Que os meus amigos brasilienses aguentem o melhor possível!

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Rugby World Cup: o sul derrota o norte

A Rugby World Cup 2015 está a decorrer desde o passado dia 18 de Setembro em onze cidades inglesas e em Cardiff (Gales), com a presença de vinte selecções nacionais distribuidas por quatro grupos.
No fim da fase preliminar ficaram apuradas oito equipas e a grande surpresa foi a eliminação da equipa da Inglaterra, o país organizador. Depois, as oito equipas apuradas encontraram-se nos quartos de final e a Austrália, a Argentina, a Nova Zelândia e a África do Sul ficaram apuradas para as meias finais por terem eliminado, respectivamente, a Escócia, a Irlanda, a França e o País de Gales. Aconteceu, portanto, o inesperado: as equipas do sul do planeta eliminaram todas as potências do rugby europeu, aquelas que disputam o famoso Torneio das Cinco Nações.
Alguns escreveram que no rugby, tal como em muitas outras coisas, a Europa está em decadência, mas foi com os franceses que a situação foi mais dramática. A selecção da França perdeu com a Nova Zelândia por 62-13 e, a avaliar pela reacção da imprensa francesa, o país ficou em estado de choque, pois ontem os media não hesitaram na escolha dos títulos dos seus jornais – “L’humiliation” ou “La marée noire” ou “Le désastre” ou “Humiliés” ou “Comment rebâtir le XV de France?”. Não é caso para tanta mágoa dos franceses, porque uma derrota num jogo de rugby com a Nova Zelândia não é tragédia nenhuma, embora tenha havido e continue a haver outras tragédias por aí, sem que a imprensa francesa as tenha denunciado claramente.
No próximo fim de semana haverá o Argentina-Austrália e o África do Sul-Nova Zelândia, para escolher aqueles que, no dia 31 de Outubro, jogarão a final do Rugby World Cup 2015.

domingo, 18 de outubro de 2015

A guerra na Síria é um grande imbróglio

Na sua edição de ontem, o diário libanês L’Orient – Le Jour apresenta uma desenvolvida reportagem intitulada “Qui combat qui, et où, en Syrie”, na qual procurou recolher informação directa das partes sobre um conflito que desde 2011 já fez 250 mil mortos. E, sobre a guerra, o jornal pergunta: É uma revolta popular contra um regime autoritário? É uma guerra por procuração entre potências regionais? É uma luta contra o jihadismo internacional? É uma nova guerra fria entre as grandes potências? É uma guerra, se não mundial, pelo menos internacional com combatentes de diferentes nacionalidades no terreno? O jornal diz que, certamente, é um pouco de tudo isto, o torna muito complexa a compreensão do que se passa no terrreno. O último exemplo desta confusão são os raids aéreos russos que Moscovo afirma serem dirigidos contra o Estado Islâmico, enquanto os Ocidentais defendem que eles são dirigidos contra as forças da oposição ao regime de Bashar el-Assad.
Para clarificar a situação, o L’Orient – Le Jour fez um estudo com a identificação de quem combate quem e onde, com a informação tão detalhada quanto possível das forças pro e anti-regime de Bashar el-Assad actualmente presentes no território sírio. Essa lista “das principais forças presentes no terreno”, confirma a real complexidade da situação pois não há apenas dois campos que se combatem, havendo muitos outros que se combatem entre si.
Do lado do regime estão as Forças de Defesa Nacional Síria (100 mil soldados), o Hezbollah (8 mil combatentes), as forças pasdaran ou guardas da revolução iraniana (7 mil combatentes) e as milícias iraquianas xiitas (25 mil combatentes). Contra o regime de Assad estão a Frente al-Nosra, que é o ramo sírio da el-Qaëda (10 mil combatentes), o ISIS ou Estado Islâmico (50 mil), o Jaich el-Fateh (30 mil), o Ahrar el-Cham (15 mil), o Jaich el-Islam (10 mil), a Frente Sul (30 mil), a Saraya ahl el-Cham (efectivos não declarados ao jornal). Além destas, existem as forças do PYD (Partido da União Democrática Curda) com 35 a 60 mil combatentes, dos quais 40% são mulheres, que defendem a criação de um Estado Curdo e que, para isso, tanto combatem o ISIS (como aconteceu em Kobani), como o regime de Assad.
A guerra na Síria é realmente um imbróglio e a solução passa pelo entendimento, primeiro entre os Estados Unidos e a Rússia e, depois, entre, o Irão, a Turquia, a Arábia Saudita e o Qatar, entre outros.

sábado, 17 de outubro de 2015

A corrupção também existe na Alemanha

Todos temos presente a forma arrogante como a Alemanha trata e humilha os seus parceiros do Sul, sobretudo os gregos e os portugueses. As atitudes e os discursos alemães denotam um evidente preconceito de superioridade que julgávamos ultrapassado desde há muitos anos. Porém, em algumas ocasiões pudemos ver directamente através da televisão não só a agressividade dos seus principais dirigentes, mas também as atitudes subservientes de Vítor Gaspar e de Maria Luís Albuquerque perante o todo poderoso ministro Wolfgang Schäuble.
Há bem pouco tempo fomos surpreendidos pela grosseira batota da Volkswagen que demonstrou a todo o mundo que os alemães não têm qualquer superioridade moral sobre os seus parceiros europeus, designadamente sobre os países do Sul. Sabemos também que, enquanto maior fabricante mundial de submarinos e seu fornecedor a dezenas de países, incluindo a Grécia e Portugal, recaem as maiores suspeitas sobre a indústria alemã quanto à forma pouco transparente como decorrem esses negócios. A notícia agora divulgada pelo diário catalão La Vanguardia e por outros jornais mundiais é mesmo demolidora: a Alemanha subornou a FIFA para assegurar a realização do Mundial de Futebol de 2006. Este caso até nem admira porque Joseph Blatter, o homem que preside à FIFA desde 1998, parece estar envolvido em enormes esquemas de corrupção e até foi suspenso pelo Comité de Ética daquela organização. O que não se imaginava é que a Alemanha fosse tão longe na sua ambição e na sua ganância ou que lá houvesse tanta corrupção.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Códices medievais na Memória do Mundo

A UNESCO acaba de inscrever no Registo da Memória do Mundo o conjunto de manuscritos medievais dos Comentários do Apocalipse do Beato de Liébana existentes na Península Ibérica, em resultado de uma candidatura conjunta de Portugal e Espanha, apresentada em 2014 e intitulada Manuscritos do Comentário do Apocalipse (Beatus de Liébana) na Tradição Ibérica. O conjunto inclui onze manuscritos,  nove existentes em Espanha e dois que se encontram em Portugal, um dos quais é o códice conhecido como o Apocalipse de Lorvão, datado do séc. XII que pertence ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo e, o outro, é o códice conhecido como o Apocalipse de Alcobaça, existente na Biblioteca Nacional, que foi produzido no Mosteiro de Alcobaça no início do séc. XIII.
A história remonta ao séc. VIII quando as Astúrias foram o reduto da resistência ibérica contra a invasão muçulmana. Aí, no ano de 786, o padre Beato de Liébana escreveu o Comentário do Apocalipse como uma interpretação do último livro do Novo Testamento para que os cristãos comuns conseguissem entender a linguagem simbólica do seu texto. No século XII o monge Egas, no Mosteiro do Lorvão, fez uma cópia do texto do Beato de Liébana que ficou conhecida como Apocalipse de Lorvão, ilustrando-a com 66 iluminuras e incluindo comentários pessoais. Como o original do século VIII se perdeu, no século XIII foi feita no Mosteiro de Alcobaça uma cópia a partir do Apocalipse do Lorvão do monge Egas, a que se chamou Comentário ao Apocalipse do Beato de Liébana ou Apocalipse de Alcobaça. Únicos no seu género, estes códices são considerados uma expressão cultural e artística de grande relevância produzida na Península Ibérica e com grande disseminação no resto da Europa medieval. No seu site, a UNESCO diz que aqueles manuscritos são “considerados os mais bonitos e originais produzidos pela civilização medieval ocidental”. Com esta classificação a Memória do Mundo da UNESCO passa a ter oito inscrições portuguesas.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Um patrão português do futebol mundial

A edição de hoje do diário francês Libération destaca na sua primeira página a fotografia de um homem de fato azul e o título “Le vrai patron du foot mondial”, dedicando-lhe uma desenvolvida reportagem nas páginas interiores. Esse homem chama-se Nélio Lucas, tem 36 anos de idade, é português e é originário de famílias humildes da região de Coimbra. Estudou Comunicação e Marketing nos Estados Unidos, fala fluentemente cinco línguas (português, espanhol, inglês, francês e italiano) e, há menos de uma dezena de anos, entrou com grande sucesso no mundo do futebol. O jornal considera-o “o símbolo do liberalismo mais absoluto no futebol moderno” e afirma que ele domina a opacidade do negócio do futebol.
Nélio Lucas dirige a Doyen Sports, um fundo de investimento que está presente no universo do futebol e, segundo o jornal, é ele que “desenha o mapa do futebol” e é tudo naquela organização: investidor, banqueiro, empresário, agente de imagem, olheiro e recrutador.
A reportagem permite-nos imaginar o ambiente que caracteriza este negócio da compra e venda de jogadores de futebol e das margens de lucro que envolve, através do relato dos encontros havidos entre empresários e dirigentes no Hotel Sheraton da Avenida da Boavista no Porto, antes do recente jogo entre o FC Porto e o Chelsea. A velha ideia do amor à camisola já tinha morrido, mas agora consolida-se a ideia de que cada equipa de futebol é uma unidade de negócio que existe para ser rentabilizada financeiramente.
Neste negócio sempre ouvi falar em Jorge Mendes, mas graças ao Libération ficamos a saber que também há o Nélio Lucas e, provavelmente, haverá outros todo-poderosos neste mundo do futebol. Assim, são cada vez mais ridículos aqueles indivíduos que passam horas a discutir futebol na televisão por causa de um penalti ou de um golo anulado. 

A escolha do próximo Primeiro-Ministro

As eleições legislativas realizaram-se no dia 4 de Outubro mas continuamos sem saber quem será o futuro Primeiro-Ministro. Porém, ao contrário do que dizem alguns protagonistas que andam por aí, por agora isso não é um problema, até porque os dias continuam a ter 24 horas, os rios continuam a correr para o mar e a lei de Lavoisier continua viva, isto é, na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Estes dias de incerteza e de curiosidade quanto ao nome do próximo Primeiro-Ministro têm servido para que na televisão, na rádio e nos jornais, tenham aparecido centenas de cidadãos a expressarem a sua fundamentada opinião e a mostrar que há saídas constitucionais para todos os gostos, ou seja, Sua Excelência - que já pensou em todos cenários - vai ouvir os partidos representados na Assembleia da República e, tendo em conta os resultados eleitorais, vai nomear um Primeiro-Ministro, cujo programa essa mesma Assembleia da República irá aceitar ou rejeitar. Depois se verá...
No meio desta silenciosa algazarra que nos envolve, já há algumas coisas que se devem salientar. A primeira é que a maioria absoluta acabou e que a estabilidade e a governabilidade exigem humildade e compromisso a quem aceitar a incumbência de formar governo.  A segunda é que são os portugueses, através dos seus deputados, que aprovam ou reprovam o programa do governo, o que significa que essa tarefa não cabe aos comentadores. A terceira é que aquela ideia do arco da governação é uma treta inventada pelo portismo e que caiu por terra, pois os governos dependem do Parlamento e para apoiar um governo não há deputados de primeira e deputados de segunda.
Para além destas realidades, há uma novidade na política portuguesa que nunca se vira antes com tal intensidade, a lembrar os tempos sombrios do Diário da Manhã e da União Nacional. Trata-se da intervenção de alguns indivíduos que, disfarçados de jornalistas ou de comentadores, dão um triste espectáculo de servilismo e de preconceito à mudança, que difamam, que insultam e que nos envergonham a todos. O que eles fazem não é jornalismo. É uma repugnante propaganda. É a arruaça. Moram nas televisões, mas também no Observador e no Correio da Manha, entre outros locais que lhes dão abrigo e lhes pagam. Esse Fernandes e essa Bonifácio...

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Cristiano Ronaldo ou o grande ganhador

Há muito poucos portugueses que brilham além-fronteiras, mas Cristiano Ronaldo é um deles. Nem Saramago, nem Paula Rego, nem Guterres e muito menos Barroso, atingiram a sua notoriedade e fama. Ele é o mais famoso futebolista português de sempre e recebeu ontem a sua quarta Bota de Ouro. Nunca nenhum outro jogador de futebol tinha vencido aquele troféu tantas vezes e, por isso, o tema foi destacado na imprensa desportiva internacional, assim sucedendo hoje, por exemplo, com o diário espanhol MARCA que o classifica com o título El Único. A Bota de Ouro é um prémio atribuido pelo European Sports Media para distinguir o futebolista que tenha marcado mais golos nos diferentes campeonatos europeus. Criado em 1967 pela revista francesa L’Équipe, o prémio já foi conquistado por três futebolistas portugueses, a mostrar que em matéria futebolística somos um país muito competitivo. Assim sucedeu com Eusébio (1967-68 e 1972-73), com Fernando Gomes (1982-83 e 1984-85) e, mais recentemente, com Cristiano Ronaldo (2007-08, 2010-11, 2013-14 e 2014-15).
Em 47 anos que já tem de existência, o prémio veio para Portugal oito vezes, o que significa que 17% dos premiados foram portugueses. É um caso surpreendente. O prémio já foi conquistado por argentinos, holandeses e romenos (4 vezes cada), por brasileiros, uruguaios e búlgaros (3 vezes cada), por alemães, jugoslavos, austríacos, franceses, italianos, galeses e escoceses (2 vezes cada) e, curiosamente, nunca foi ganho por espanhóis. Com oito troféus conquistados os portugueses destacam-se nas artes futebolísticas e Cristiano Ronaldo mostra que é realmente um caso único no futebol europeu.