segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Cavaco e o Design Center da Nini

O Presidente da República chegou hoje ao Funchal para uma visita oficial de dois dias à Região Autónoma da Madeira, levando na bagagem uma agenda carregada de inaugurações, que inclui um centro de design, uma adega e um hotel. Já lá vai o tempo em que Cavaco era recebido por Alberto João como o Senhor Silva e, por isso, agora a passeata tem tudo para correr bem.
Segundo noticiou o Diário de Notícias do Funchal, a veia inauguradora do homem de Boliqueime revelou-se imediatamente e, hoje mesmo, quando eram 13 horas, inaugurou o Design Center de Nini, no Molhe da Pontinha. Nesta celebração, segundo o mesmo jornal, Nini ofereceu uma peça de arte a Maria Cavaco Silva. Curiosamente, o Palácio de Belém vai ter este ano uma decoração natalícia que foi encomendada à famosa decoradora Nini, que utilizará orquídeas, arranjos e um pinheiro que virão expressamente do Funchal. Segundo anuncia o jornal, a equipa de Nini começará a trabalhar em Belém a partir da próxima quinta-feira e, naturalmente, os meus impostos vão servir para pagar esta factura da Nini Andrade Silva, porque quem quer luxos tem que os pagar.
Para o homem que faltou às cerimónias do 5 de Outubro sem qualquer justificação aceitável e em ofensa aos ideais republicanos, esta ideia de ir passear para a Madeira para inaugurar o Design Center da Nini não lembraria a ninguém, até porque Cavaco tem em mãos um governo demitido pela Assembleia da República e um Primeiro-Ministro para indigitar, numa conjuntura política e económica muito complexa. Só nos faltava esta: a Europa em estado de sítio e nós à volta da Nini. Felizmente que só já faltam 67 dias!

sábado, 14 de novembro de 2015

Estamos com a França e com os franceses

Foi há poucas horas e ainda não são conhecidos os detalhes nem a dimensão dos brutais actos de terrorismo que aconteceram em Paris. Sabe-se que houve mais de uma centena de mortes e que o mundo expressou um imediato repúdio pelo que se passou, reagindo com solidariedade e com muita apreensão à tragédia de Paris e aos sinais de insegurança que estão a alastrar pela Europa. Foram vários ataques coordenados em diferentes locais da cidade que deixaram um rasto de destruição e de morte em restaurantes e bares mas, sobretudo, na famosa sala de concertos Bataclan. Foi uma noite de terror que deixou a França e os franceses em estado de choque.
A imprensa mundial destacou obviamente esta noite de terror como a notícia do dia, mostrando que todo o mundo está com a França e com os franceses nestas horas de dor e de incerteza.
Porém, recordo o que premonitoriamente disse Muammar Kadafi em Março de 2011, em entrevistas publicadas na Europa: "Milhares de pessoas irão invadir a Europa a partir da Líbia. E não haverá ninguém para detê-las [...] Haverá uma jihad islâmica diante de vocês, no Mediterrâneo. Eles atacarão a 6ª esquadra americana, haverá actos de pirataria aqui, às vossas portas, a 50 quilómetros das vossas fronteiras. Os homens de Bin Laden vão cobrar resgates em terra e no mar. Será realmente uma crise mundial e uma catástrofe para todo o mundo. Eu não deixarei isso ser feito".
Neste aspecto, Muammar Kadafi tinha razão ao avisar dos perigos que se avizinhavam, mas seis meses depois morria, depois de ter sido condenado por uma coligação ocidental que agora não consegue resolver esta dramática situação de insegurança em que a Europa vem caindo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A espectacular ponte romana de Alcântara

O diário Hoy que se publica nas cidades de Badajoz e de Cáceres, destaca na sua edição de hoje a inauguração da iluminação da ponte romana de Alcântara, que cruza o rio Tejo. A ponte fica localizada na província de Cáceres a cerca de 18 quilómetros da fronteira luso-espanhola de Segura - Piedras Albas. Tem 194 metros de comprimento, 8 metros de largura e uma altura máxima de 61 metros, constando de seis arcos assimétricos, que assentam sobre cinco pilares com alturas distintas sobre o terreno.
A ponte foi construída por ordem do Imperador Trajano, terá ficado concluída no ano 106 e é uma das mais importantes obras da engenharia romana, que continua a impressionar pela sua qualidade estética e funcional. Há quase dois mil anos que a ponte resiste a inúmeras circunstâncias adversas devidas a operações de guerra e que continua a suportar o trânsito rodoviário com total normalidade. A iniciativa de iluminar aquela ponte romana numa região fronteiriça e turisticamente excêntrica, contou com o apoio mecenático da Iberdrola e é demonstrativa do interesse das autoridades da Extremadura pelo seu património arquitectónico e cultural. Curiosamente, este importante monumento ainda não integra a Lista do Património Mundial da UNESCO, apenas porque essa classificação nunca lhe foi proposta. A decisão do diário Hoy de destacar em primeira página a inauguração da iluminação da ponte romana de Alcântara não é apenas a cedência aos interesses promocionais  da Iberdrola, mas parece ser também um primeiro passo no sentido dessa classificação.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Repercussão externa da queda do governo

A queda do governo provocou uma onda de choque na direita portuguesa que a deixou transtornada, surpreendida e enfurecida. O processo da sua manutenção no poder desenhara-se desde a campanha eleitoral com muita propaganda e nela participaram o próprio Presidente da República e a generalidade dos comentadores. Porém, ao contrário do que imaginaram, os resultados das eleições de 4 de Outubro não lhes permitiram manter-se no poder porque não dispunham do apoio parlamentar necessário, como determina a Constituição. Se a Lei é assim, porquê então tanta admiração? O ambiente criado foi tão crispado e até mesmo tão agressivo, que os menos avisados até poderiam pensar que se estava perante qualquer anormalidade constitucional. Houve até quem, irresponsavelmente, tivesse falado em golpe.
Perante este quadro de dramatismo criado e também de alguma incerteza quanto ao que aí vem, tratei de ir procurar na imprensa internacional a repercussão que tivera a queda do governo, porque com o que se ouvira por cá era de pensar que o mundo estaria em pânico perante o que se passara junto ao Tejo, no extremo ocidental da Europa.
Li as primeiras páginas de algumas centenas de jornais, desde o The Washington Post ao Financial Times, passando pelo Le Monde e pelo The Guardian. Vi os jornais escandinavos, americanos, alemães, australianos, brasileiros, indianos e de muitos mais países. As notícias dominantes eram a morte de Helmut Schmidt, a ameaça separatista de David Cameron, o processo catalão e os debates presidenciais nos Estados Unidos. Sobre Portugal e a queda do governo há apenas breves referências nas primeiras páginas de alguns jornais espanhóis, brasileiros, angolanos e moçambicanos. E a excepção são dois jornais gregos que destacam a queda do governo português com a fotografia do primeiro-ministro demitido na primeira página. Porque será que a imprensa grega deu esse destaque a Portugal? Será que depois de quatro anos de austeridade continuamos "iguais" à Grécia? Será que os nossos cofres afinal não estão cheios?
Assim, ao alarme e ao ódio que por aí se têm visto, António Gedeão responderia que, no resto do mundo, é “água quase tudo e cloreto de sódio”.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Caiu o governo. O povo estava farto dele

Ontem o governo português caiu. A queda do governo é um acontecimento normal em democracia, porque aconteceu “a aprovação de uma moção de censura por maioria absoluta dos Deputados em efectividade de funções” (alínea f do artigo 198º da Constituição). Nos termos constitucionais, o governo carece do apoio da maioria da Assembleia da República e o XX Governo Constitucional não teve esse apoio. Durou 11 dias. Caiu.
Ora o governo caiu porque não percebeu que 62% da população estava farta dele. Caiu porque no dia 5 de Outubro os seus parceiros assinaram apressadamente um acordo de governo, que inviabilizou quaisquer soluções governativas ao centro. Passos e Portas “embebedaram-se” com os seus 38% de votos que não esperavam e esqueceram-se que é a Assembleia da República quem mais ordena. Foi um tremendo erro político. 
À volta da queda do governo desenharam-se todo o tipo de opiniões e todo o tipo de argumentos, a favor ou contra o que aconteceu. Todas mais ou menos respeitáveis. Porém, o que mais surpreende é a contínua e mentirosa mistificação conduzida por uma verdadeira matilha de comentadores televisivos e de jornalistas-comentadores, qual matilha de U-boats a atacar um comboio aliado, que vive encostada à ex-maioria PSD/CDS e aos favores que esta lhe fez durante os últimos anos com avenças e viagens. São muitos, são demasiados. Repetem à exaustão a sua mensagem e os mesmos argumentos contra o PS e contra António Costa, com uma linguagem que, muitas vezes, é demasiado grosseira. Insultam e difamam. Distorcem e manipulam. Em vez de serenarem a população com o esclarecimento de que as eleições legislativas servem para escolher deputados e que não servem para escolher primeiros-ministros, essa gente prefere alinhar na main stream contra o PS e repete que perdeu as eleições, que tem ambição de poder, que não respeita os compromissos internacionais, que vai trazer-nos a troika novamente e que os mercados não vão aceitar esta solução. Assustam o povo.  Ameaçam. São os mais indecorosos protagonistas da nossa política.
Nomes? Ligue a televisão e escolha.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O desafio independentista catalão

O Parlamento da Catalunha tomou ontem uma decisão inédita ao aprovar por 72 votos a favor e 63 votos contra, uma resolução que proclama o início do processo independentista, com desobediência às instituições espanholas (incluindo o Tribunal Constitucional) e com o apoio à Generalitat (Governo Autónomo) para cumprir apenas as leis emanadas do Parlamento catalão. Como salienta o diário El País, metade da Catalunha rompe com a democracia espanhola.
Nessa resolução em nove pontos, o Parlamento da Catalunha enquanto “depositário de la soberania”, declara “el inicio del proceso de creación del Estado catalán independiente en forma de república” (ponto 2) e “la voluntad de inicio de negociaciones para hacer efectivo el mandato democrático de creación de un Estado catalán independiente en forma de república y, así mismo, lo pone en conocimiento del Estado, de la UE y del conjunto de la comunidad internacional” (ponto 9).
Esta votação reflecte a profunda divisão que vive a sociedade catalã entre os partidários e os adversários da independência. Não se trata de um tema novo para os espanhóis e para o centralismo de Madrid, mas é seguramente um tema preocupante pelo contágio que pode induzir noutras regiões espanholas e até em alguns países europeus.
Entretanto, a Audiência Nacional que é uma instância especial espanhola com jurisdição em todo o território e que se dedica a crimes graves e complexos como corrupção, terrorismo e crime económico, deu instruções às polícias nacional e regional para se prepararem para actuar contra aqueles que cometam o delito de sedição. Hoje, o Conselho de Estado aprovou por unanimidade a apresentação de um recurso de inconstitucionalidade contra a resolução separatista aprovada ontem pelo Parlamento catalão. Significa, portanto, que o processo reivindicativo da Catalunha acelerou mas que ainda fará correr muita tinta.

A democracia falou. Viva a democracia!

Eram cerca de 17:15 horas quando a soberana Assembleia da República, reunida para discutir o programa do XX Governo Constitucional, aprovou uma moção de rejeição por 123 votos favoráveis e 107 votos contra, o que implicou a sua demissão, apenas 11 dias depois de ter tomado posse. O governo caiu porque deixou de ter uma maioria parlamentar para o suportar. Caíu por terra a sua repetida invocação de autoridade democrática e a sua arrogância traduzida num quase direito natural a governar. Caíu aquela atrevida ideia do arco da governação que tanto ajudou o portismo. A realidade é tão simples como isto. As repetidas manipulações e argumentos apresentados sobre quem ganhou ou quem perdeu as eleições, não passam de retórica e de propaganda, da qual já todos estamos fartos. A competência, a seriedade e a sensibilidade social não terão sido os seus atributos de governo e, por isso, perderam quase um milhão de votos nas eleições de 4 de Outubro. Os resultados dos seus quatro anos de governo falam por si: o país regrediu, está mais pobre, mais desertificado e mais dependente dos diktats alemães e da burocracia de Bruxelas.
Estes governantes precisavam de descansar depois de quatro anos em que nos massacraram de austeridade, com muitas viagens, muita demagogia e muita subserviência à Europa. Foram-se o Gaspar e o Relvas. Ficaram o Passos que tanto elogiou Dias Loureiro e que chamou piegas aos portugueses, mais a Albuquerque que nos disse estarem os cofres cheios, mais o tracinho Branco que nunca esclareceu aquela venda dos estaleiros e, sobretudo, ficou aquele irrevogável que eleitoralmente nada vale, mas que se passeou pelo mundo à custa dos meus impostos.
Agora são tempos novos. A democracia está a funcionar. A Constituição da República está viva. Algumas das velhas convenções com mais de quarenta anos, que excluiam uma boa parte dos deputados (e muitos milhares de eleitores) do diálogo parlamentar também cairam. O país político alargou-se e está mais plural. Precisávamos de respirar e de mudar.
E o futuro? O futuro a Deus pertence!

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O Pico exibe um ambiente primaveril

É sabido que a meteorologia dos Açores se altera depois do equinócio do Outono e que as chuvas se tornam mais frequentes, as ventanias muito mais fortes e a agitação marítima muito incómoda para aqueles que andam no mar. Nesta época, o famoso anticiclone dos Açores costuma deslocar-se para sul, deixando que predomine a influência das baixas pressões do Atlântico Norte, que tantas tempestades provocam nas costas ocidentais europeias. Porém, neste ano de 2015, talvez como consequência da desregulação global que atravessa tantas outras coisas deste mundo, o anticiclone dos Açores está preguiçoso e tem teimado em manter-se nas latitudes do costume, o que faz com que se esteja um tempo quase primaveril aqui nas ilhas.
No caso do grupo central do arquipélago, essa circunstância é bem visível no Pico que não se esconde nas núvens e parece divertir-se com elas, oferecendo-nos imagens de grande espectacularidade e beleza. Para os entendidos nestas coisas da meteorologia local, as núvens em volta do Pico têm um significado meteorológico preciso que eu desconheço. Sinal de bom tempo? Sinal de tempestade? Sinal de acalmia prolongada? Não sei.
Apenas sei que, com núvens ou sem elas, o Pico é sempre imponente e muito atraente.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Outros valores mais altos se alevantam

No passado dia 26 de Outubro o Parlamento da Catalunha elegeu Carme Forcadell para a sua presidência e, no seu discurso de posse, a nova Presidente declarou que “encerramos a etapa autonómica” e, sem nunca ter utilizado a palavra independência, fez a apologia dos seus valores e terminou o seu discurso com “Viva la democracia, viva el pueblo soberano y viva la república catalana”. Naturalmente, as suas palavras geraram o aplauso apoteótico de uma parte do Parlamento e um enorme silêncio da outra parte, significando que os independentistas não desistiram, antes acentuaram a luta pela independência da Catalunha e a sua separação da Espanha.
Uma vez mais, o orgulho espanhol e as instituições tremeram face à determinação dos deputados catalães e dos seus líderes, temendo pela unidade da Espanha. Por isso, houve reacções, designadamente dos líderes dos dois maiores partidos espanhóis que imediatamente se reuniram num almoço no Palácio de la Moncloa. Apesar de se irem confrontar nas eleições gerais espanholas já marcadas para o dia 20 de Dezembro, Mariano Rajoy (PP) e Pedro Sánchez (PSOE) deram público testemunho do seu acordo quanto à unidade da Espanha e quanto à rejeição do processo independentista catalão porque, como escreveu Camões em 1572 n'Os Lusíadas', “outros valores mais altos se alevantam”.
Este acto é exemplar e mostra que, mesmo em situação de acesa luta política e de disputa eleitoral, os espanhóis encontram espaço para acordos em questões estratégicas, como é a sua comum rejeição da aspiração independentista catalã. Lamentavelmente em Portugal, ao longo dos anos, não tem havido espaço para acordos de regime entre os dois maiores partidos portugueses e, provavelmente, esse será um dos grandes problemas do país. 

A Turquia já está ameaçada pela guerra

A instabilidade parece ser a característica principal da situação na Europa e nas suas vizinhanças e, como se já não houvesse tantos focos de justificada preocupação, os observadores internacionais estão agora a chamar a atenção para a Turquia e, como faz o Courrier International, pergunta se não estaremos perante uma nova Síria.
Durante muitos anos o Presidente Erdogan e o seu partido islamo-nacionalista AKP, adoptaram um modelo de democracia conservadora, aliando um capitalismo liberal com um islamismo moderado, fazendo crescer a economia e apostando na entrada na União Europeia. Porém, o que se tem passado nas suas vizinhanças e no próprio país alterou aquele quadro que aparentava estabilidade e progresso.
No próximo domingo, pela segunda vez este ano, os turcos vão às urnas para escolher o seu novo Parlamento numa altura em que o país está muito dividido e atravessa uma grave crise política e social, mas em que também está muito isolado no plano internacional por causa dos dossiers curdo e sírio. Muitos observadores não hesitam em classificar a situação de pré-guerra civil, com o Presidente Erdogan a reforçar o seu autoritarismo devido à sua obcessão com a questão curda e à perspectiva da criação de um Estado curdo nas suas fronteiras, mas também pela estagnação da economia, pelo peso dos refugiados e pelas graves dissensões internas do seu regime.
Além disso, as operações militares que tem desenvolvido contra o Estado Islâmico e contra os curdos, as manifestações da oposição ao seu regime e os violentos atentados que têm ocorrido, contribuem para um clima de grande tensão no país. Abandonada por americanos e russos, a Turquia parece à beira da implosão e o Courrier International pergunta se a Turquia não será a próxima Síria. Depois da Líbia, do Iémen, do Iraque e da Síria, iremos assistir ao colapso do Estado turco? Estaremos em vias de uma sirianização?

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O futuro tão incerto dos portugueses

Há quem afirme que o maior problema português da actualidade é a Demografia e, na minha opinião, essas pessoas têm toda a razão. Na verdade, antes da Economia e das Finanças, da dívida pública e do défice orçamental, o grande desafio nacional está no nosso envelhecimento, na quebra brutal da natalidade, na emigração forçada de cerca de 400 mil jovens entre 2011 e 2014 e na incerteza do que espera cada português nos dias do futuro. Nos últimos anos, a intervenção da troika obrigou à revisão das leis laborais e os nossos governantes, obcecados com a ideia de serem bons alunos e de receberem alguns elogios do exterior, trataram de tudo aceitar, incluindo a liberalização quase total dos despedimentos e a crescente precaridade do trabalho, em nome da eficiência económica. Apesar do auto-elogio repetido até à exaustão durante a campanha eleitoral pelos seguidores do governo, o país não está melhor. A tentativa de resolver o problema estrutural das nossas finanças públicas foi inconsequente e a dívida aumentou algumas dezenas de milhar de milhões de euros. No aspecto social, a situação também é muito precária e a pobreza tem aumentado para níveis que até há bem pouco tempo eram impensáveis, como se vê nas ruas, nos autocarros e à porta dos supermercados.
Hoje o retrato social (e económico) do nosso país quase atinge algum dramatismo. Como se já não fosse grave a existência de cerca de 770 mil desempregados, o Jornal de Notícias veio revelar que há mais 700 mil trabalhadores com contratos a prazo e, ainda, 128 mil trabalhadores sem vínculo laboral, que são pagos com recibos verdes. Como é que toda esta gente tem condições para fazer uma vida digna, segura, estável e com condições para procriar? Os portugueses têm um futuro muito incerto, mas os governantes ignoram-no ou nada fazem para o resolver.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A triste herança europeia de Barroso

A Volkswagen foi acusada pelas autoridades americanas de manipular os testes relativos às emissões de óxido de azoto em vários dos seus modelos a gasóleo, uma vez que os testes escondiam que os veículos poluem entre 10 a 40 vezes mais do que os limites permitidos pela lei americana. A marca alemã admitiu esse facto e lamentou profundamente que a marca tivesse forjado os resultados desses testes, que afectam a credibilidade da marca e já se preparam para recolher 11 milhões de viaturas no início de 2016, das quais 8,5 milhões circulam na Europa. 
O escândalo rebentou em finais de Setembro, mas adquiriu agora novos contornos na sequência de uma investigação feita pelo jornal britânico  Financial Times, que é talvez o mais importante jornal económico mundial. Na sua edição de ontem, o jornal anunciou em primeira página que Bruxelas, isto é, a Comissão Europeia então presidida por Durão Barroso, foi alertada em 2013 para as “car emissions tests discrepancies”.
Segundo a investigação levada a efeito pelo jornal, o problema do confronto entre a indústria automóvel e os grupos ambientalistas não é novo e a informação revelada pelo jornal mostra que a Comissão Europeia tinha conhecimento de que as emissões verificadas nos testes em laboratório não correspondiam às emissões verificadas nos testes de estrada e que tal assunto era objecto de debate interno. Numa carta escrita em Fevereiro de 2013, o então comissário europeu do Ambiente, Janez Potocnik, informou o então comissário da Indústria, Antonio Tajani, que haveria “discrepâncias significativas” entre as emissões verificadas nos testes e as registadas em condução real. Porque não deram ouvidos a Janez Potocnik? Porque se calou Antonio Tajani? O que soube ou não soube disto o presidente da Comissão Europeia? Este caso levanta muitas suspeitas. Numa Europa desacreditada e em crise, aqui está mais um exemplo da má memória que foi a Presidência Barroso, que atirou a União Europeia para a crise, para a desorientação, para a desagregação e para o salve-se quem puder.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O perdão de Blair e o silêncio de Barroso

O antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair foi entrevistado pela CNN e, apesar dessa entrevista ainda não ter ido para o ar, muitos jornais internacionais como o londrino Daily Mirror já estão a revelar alguns dos seus conteúdos mais surpreendentes e mais escandalosos. De facto, Tony Blair veio pedir desculpa pelo seu papel na guerra do Iraque, argumentando que utilizou informação errada, que não foi previsto o caos que se seguiria à queda de Sadam Hussein e que esse caos contribuiu para o aparecimento e consolidação do Estado Islâmico. A decisão da guerra contra o Iraque e Sadam Hussein foi tomada no dia 16 de Março de 2003, quando George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso se reuniram numa cimeira na Base das Lajes da qual resultou, quatro dias depois, o início da intervenção militar que conduziu à sua ocupação do Iraque e ao derrube do regime de Saddam Hussein, que viria a ser capturado, julgado e condenado à morte por enforcamento por um tribunal iraquiano.
Nesse dia, George W. Bush disse que “ou o Iraque se desarma ou é desarmado pela força", com base numa informação nunca provada de que o Iraque dispunha de armas de destruição maciça, nomeadamente químicas. Foi uma teimosia e uma obcessão americana a que aderiu com muitos sorrisos e aplausos o primeiro-ministro português Durão Barroso que, como prémio da sua indignidade e subserviência, chegou rapidamente a presidente da Comissão Europeia, onde aliás enriqueceu mas fez uma triste figura.
Na sua entrevista, Tony Blair declara-se preparado para “enfrentar o juizo da História” e destaca que outras intervenções internacionais posteriores também não deram resultados, referindo não só a intervenção com tropas no Iraque, mas também a intervenção sem tropas na Líbia e a não intervenção militar directa mas com um forte apoio à mudança de regime na Síria, concluindo que “se a nossa política não funcionou, as que se seguiram não foram melhores”.
Dez anos depois, Tony Blair pede perdão e reconhece os erros, mas o calculista Barroso guarda o silêncio e continua sem perceber o quanto nos envergonhou. Há dias, a televisão mostrou-o no congresso do PPE, a rir à gargalhada. Que tristeza! 

domingo, 25 de outubro de 2015

Os boys invadem o aparelho do Estado

O Jornal de Notícias anuncia hoje que o governo de Passos Coelho, que está em funções de gestão corrente, tratou esta semana de nomear uma centena de boys para cargos intermédios da administração pública, daqueles que não têm de passar pela Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CReSAP), designadamente cargos de director de serviço, chefe de divisão ou secretário-geral. Infelizmente, este tipo de comportamento desonesto não é um fenómeno novo porque, em maior ou menor grau, todos os governos procuraram sempre proteger os seus boys. Neste caso, a surpresa deriva destas nomeações ocorrerem já depois de conhecidos os resultados eleitorais e de se saber que o governo perdeu a maioria que o apoiava e que, provavelmente, vai para casa com o valente cartão vermelho que lhe foi mostrado pelo eleitorado. Além disso, na campanha difamatória que tem sido conduzida contra a alternativa governativa que se desenha, tem sido acentuada a credibilidade e a seriedade da dupla Passos & Portas, omitindo-se todas as suas mentiras, as ilegalidades e as práticas anti-constitucionais, a insensibilidade social e os resultados negativos da sua governação, que tanto tem afundado o país e empobrecido os portugueses. Daí que tivessem perdido quase um milhão de votos, mais de 12% dos seus eleitores e vissem os seus efectivos de deputados passar de 132 para 107, mas que pareça ainda não terem compreendido esta realidade.
Segundo revela o jornal, o Ministério da Defesa é o campeão das nomeações, o que confirma o perfil do tracinho Branco como traficante de interesses, seguindo-se o Ministério da Economia. Tudo isto é mesmo uma grande tristeza e só não dá para rir porque é tudo muito grave.

sábado, 24 de outubro de 2015

Ao qu’isto chegou!!!

Realizou-se em Madrid o congresso do Partido Popular Europeu (PPE), que reuniu os grandes líderes conservadores europeus e no qual estiveram cerca de três mil participantes, incluindo 14 chefes de Estado e de Governo. A análise dos discursos revela que houve uma troca geral de elogios e que a dois meses das eleições espanholas, este congresso foi uma ajuda de que Mariano Rajoy muito precisava para encarar as próximas eleições. As imagens televisivas mostraram algumas personalidades como o valente Nicolas Sarkozy que atacou a Líbia de Kadaffi, o estafado Silvio Berlusconi que se afogou em escândalos e o nosso José Barroso cuja incompetência deixou marcas em Bruxelas.
Angela Merkel esteve lá e, para além de pedir o voto em Mariano nas próximas eleições, exigiu que os portugueses tivessem menos férias e menos licenciados, dizendo ainda esperar que o “companheiro Pedro” possa formar governo. Mariano Rajoy foi mais longe e veio afirmar que “uma coligação de esquerda em Portugal seria negativa para os interesses de todos” e “não respeitaria” a vontade dos portugueses”, acrescentando que “seria a primeira vez na história – desde que a democracia regressou a Portugal – que não governaria o partido que ganhou as eleições”. O diário La Razón deu larga reportagem ao congresso conservador e destacou esses dois líderes em fotografia de primeira página. 
Acontece que todos se deviam preocupar mais com a desagregação da Europa, com a estagnação económica, com o desemprego, com a pobreza e a desigualdade social, com a ascensão das forças anti-democráticas, com os refugiados e a guerra na Síria, com o quadro de terror que se instalou na Líbia e com tantos outros graves problemas que afectam o nosso continente. Isso ficou em segundo plano. Angela Merkel preocupou-se com Portugal quando se devia preocupar com a Volkswagen e Mariano Rajoy preocupou-se com Portugal quando se devia preocupar com a Catalunha.
Aqui, só Manuel Alegre reagiu contra a inadmissível ingerência desta gente na nossa vida interna.
Ao qu’isto chegou!