domingo, 6 de julho de 2014

O poder naval é um símbolo de prestígio

Anteontem foi um grande dia para a Royal Navy e para a indústria da construção naval britânica pois foi lançado à água nos estaleiros escoceses de Rosyth o maior navio de guerra jamais construído no Reino Unido: o HMS Queen Elizabeth. A Rainha baptizou o novo porta-aviões numa cerimónia cheia de simbolismo, pois em vez do tradicional lançamento de uma garrafa de champanhe contra o costado do novo navio, foi utilizada uma garrafa de whisky em homenagem aos trabalhadores do estaleiro. O navio será a peça principal da capacidade militar britânica do século XXI, juntamente com o HMS Prince of Wales que também está em construção. Com 65.000 toneladas de deslocamento, aqueles navios poderão actuar em todo o mundo, não só em acções militares, mas também em operações de carácter humanitário.
Ontem, o diário The Scotsman não “esqueceu” que a Escócia está apenas a 11 semanas do seu referendo sobre a independência e lembrou que o navio foi "made in Scotland", embora dedicasse toda a sua primeira página ao evento e salientando que era um dia de orgulho para a Royal Navy e para as mais de 10 mil pessoas que têm trabalhado na contrução dos navios, até porque foi um desafio de uma complexidade sem precedentes. Não faltou ninguém a este grande evento: a Rainha e o Príncipe Filipe, o Primeiro Ministro David Cameron, o líder da oposição, muitos deputados e o Primeiro Ministro da Escócia Alex Salmond, que se fez acompanhar pelo pai Robert, que tem 92 anos de idade e que, como sargento, fez parte da guarnição de dois porta-aviões ingleses durante a guerra.
O curioso de tudo isto é a atenção que a Grã-Bretanha dá à sua Defesa e à sua Marinha, bem como a sua vontade de manter um poder naval forte e de “governar os mares”. Aqui, enquanto se gastaram (e continuam a gastar) milhares de milhões de euros em bancos, PPP, swaps e outras fantasias financeiras, ainda há quem critique a aquisição de dois submarinos, ao mesmo tempo que assistimos a uma desastrada actuação de um ministro da Defesa que, objectivamente, visa o desprestígio das Forças Armadas e ainda não percebeu a importância interna e internacional que elas têm para o nosso país. Assim, com estas vistas tão curtas e tão servis, é muito difícil sermos respeitados internacionalmente.

sábado, 5 de julho de 2014

Um prémio e um incompreensível silêncio

Carlos do Carmo foi distinguido com o mais prestigiado prémio da indústria discográfica – o Grammy Lifetime Achievement Awardpela sua carreira, pelo seu estilo “único e definitivo” e pelo seu papel no enriquecimento do património cultural mundial. É uma satisfação para a cultura portuguesa, pois nunca um cidadão português recebera uma tal distinção que apenas é atribuída a figuras reconhecidas mundialmente e que vai contribuir para uma maior internacionalização do fado e de todos os seus cultores.
Carlos do Carmo é um homem inteligente e culto que tem sabido gerir uma carreira de 50 anos e que adquiriu projecção internacional, tendo dado um importante contributo para a afirmação mundial do fado, que culminou com a sua classificação pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade, num processo em que, segundo o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, ele foi “um grande, enérgico, incansável e insubstituível embaixador”. Essa distinção única e prestigiante, mereceu felicitações de três ex-presidentes da República - António Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio - mas foi ignorada pelo Presidente da República em exercício, provavelmente por Carlos do Carmo ser um seu assumido crítico.
No entanto, é preciso notar que no dia 23 de Janeiro de 2011 quando foi eleito para o seu segundo mandato com 53,14% dos votos, o cidadão Aníbal Cavaco Silva se tornou o Presidente de todos os Portugueses, isto é, dos que votaram e dos que não votaram nele, dos que gostam e dos que não gostam dele, dos que o elogiam e dos que o criticam. Nessa linha, ele tem o dever institucional de homenagear os portugueses que se destacam no panorama interno e internacional, atribuindo comendas a uns e enviando mensagens de felicitações a outros, sem cuidar de saber se fazem parte do seu grupo de amigos ou de outro qualquer grupo. É assim que se deve comportar o supremo magistrado da Nação, pelo que não se compreende porque saiu da sua linha de rumo e assumiu este incompreensível silêncio em relação ao prémio atribuído a Carlos do Carmo.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Música erudita por todo o país

A última edição do Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL) destaca a frase Tempo de Festivais como título de primeira página e, em subtítulo, a frase Música erudita por todo o país. Com a chegada do Verão e do irresistível apelo para usufruir das agradáveis noites estivais, os festivais levam a música a muitos palcos espalhados por todo o país. Nesse aspecto, a música popular e a música pop-rock, mas também o fado, são os tipos de música que mais anima as festas e as romarias, mas o facto é que a música erudita parece ganhar cada vez mais audiências, não só nas cidades do litoral, mas também em zonas do interior.
Neste Verão, segundo informa o JL, estão anunciados festivais de música erudita um pouco por todo o país, muitas vezes com apresentação em espaços patrimoniais de excelência – igrejas, castelos e praças medievais - designadamente em Lisboa, Estoril, Cascais, Sintra, Óbidos, Leiria, Coimbra, Gaia, Espinho, Oliveira do Douro, Póvoa de Varzim, Santarém, Moura, Marvão, Castelo Novo e Alpedrinha, entre outras localidades.
De entre os festivais anunciados destaca-se o Cistermúsica, que decorrerá até 27 de Julho e que “levará a Alcobaça seis séculos de música para ouvir em mais de vinte e cinco espetáculos”. Entre os atrativos do programa alcobacense contam-se, pela primeira vez, dois alaudistas - Hopkinson Smith (num recital de tiorba dedicado a suites de Bach) e Miguel Yisrael (que tocará Beethoven, Britten, Webern e Debussy) - ou a estreia moderna de um requiem do século XVI, conservado na Biblioteca de Coimbra.
Não deixa de ser curioso e merecer justo aplauso, a verificação de uma atitude de crescente interesse e dinamismo das organizações culturais da sociedade civil, dos agentes culturais e dos músicos, das autarquias e dos patrocinadores, para dar resposta a uma maior procura cultural e estética dos novos públicos, em sintonia com a melhoria do nível educacional da nossa população.

Quem enganou as crianças da Esperança?

ESPERANÇA, 28 Março de 2014
Foi há cerca de três meses que o Banco Espírito Santo (BES) decidiu "recuperar a esperança", tendo lançado uma campanha institucional com o duplo objectivo de realizar obras de recuperação numa aldeia alentejana  e de restaurar o sentimento da esperança junto da população portuguesa. Essa aldeia tem 739 habitantes, chama-se Esperança e fica no concelho de Arronches, distrito de Portalegre. Entre outras beneficiações realizadas na aldeia, foi recuperada a Escola Básica da Esperança.
O Presidente da República, a Primeira Dama e o Ministro Crato associaram-se à campanha do BES e visitaram essa escola, fazendo-se fotografar com os seus acompanhantes, mas também com os professores e os alunos da escola. A imprensa noticiou esta iniciativa e descreveu “como uma campanha recupera uma aldeia alentejana” (DN/Dinheiro Vivo, 29-3-2014).
Menos de três meses depois, o Ministro Crato anunciou o encerramento de 311 escolas no âmbito da reorganização da rede escolar, cujos alunos vão ser integrados em distantes centros escolares já no próximo ano lectivo de 2014-2015. Uma dessas escolas é exactamente a EB Esperança, onde o Ministro Crato tinha levado o Venerando Chefe do Estado para a citada acção de propaganda, onde este exibiu um largo sorriso estampado no rosto. Agora, verificamos que as crianças, os professores e as famílias de Esperança foram enganadas!
É sabido que, desde há muitos anos, as assimetrias territoriais têm aumentado em Portugal, mas também é sabido que a nossa desertificação territorial se tem acentuado nos últimos anos com a recessão, o envelhecimento e o desemprego e, sobretudo, com as políticas do actual governo, onde se incluem o encerramento de escolas, centros de saúde, tribunais, repartições de finanças e estações de correios.  
É caso para perguntar: o que foram fazer à Esperança estes altos dignitários da Nação? É assim que se resolve o problema da natalidade?

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O 6º Festival ao Largo começou em Lisboa

Uma vez mais e como consequência do êxito que constituiram as suas anteriores edições, as noites lisboetas vão ser animadas com bons espectáculos de música e bailado, pois na passada sexta-feira teve início a sexta edição do Festival ao Largo com um concerto comemorativo dos 70 anos do Coro do Teatro Nacional de São Carlos. Durante um mês e  assinalando o início do Verão, o Largo de São Carlos e as ruas adjacentes vão transformar-se numa enorme sala ao ar livre que apresentará um cartaz com espectáculos de ópera, bailado, concertos sinfónicos e outras surpresas, para os quais não é necessário comprar bilhete e onde sempre aflui um numeroso público.
O programa é, portanto, muito variado e inclui uma Noite Russa (dias 10 e 11), bem como uma noite dedicada ao Dia Nacional de França, no âmbito da Semana de Paris em Lisboa (dia 14). No dia 16 apresentar-se-á a Orquestra de Instrumentos Chineses de Macau e, nos dias 18 e 19 de Julho, o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, o Coro Juvenil de Lisboa e a Orquestra Sinfónica Portuguesa prestam homenagem a Elisabete Matos, a cantora lírica portuguesa mais reconhecida internacionalmente, num espectáculo que conta com a participação da homenageada e do barítono Sergei Leiferkus, como convidado especial. Para finalizar o festival a Companhia Nacional de Bailado apresentará, nos dias 25 a 27 de Julho, o bailado Orfeu e Eurídice.
O Festival ao Largo é, uma vez mais, uma boa oportunidade para usufruir de espectáculos de excelência num cenário de grande envolvência estética, mas é necessário chegar bem cedo para garantir um lugar sentado ou até mesmo de pé.

sábado, 28 de junho de 2014

O FMI volta a reconhecer os seus erros

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Com base em informações do Banco de Portugal, o Jornal de Notícias informa na sua edição de hoje que a dívida pública portuguesa tinha atingido em finais de Abril o valor de 225,8 mil milhões de euros, significando que aumentou cerca de 50 mil milhões de euros desde que o actual governo tomou posse. Este escandaloso aumento da dívida resulta de múltiplos factores, embora o principal seja uma consequência do programa de ajustamento imposto pela troika e que, fanaticamente, o governo adoptou como seu, rejeitando aquilo que se afigura como uma solução natural: a renegociação e a reestruturação de uma dívida que nos humilhará e nos esmagará por muito tempo.
Num documento preparado por um grupo de técnicos e que foi apresentado ao Conselho Consultivo do FMI, defende-se que existem vantagens em reescalonar as dívidas públicas quando existam dúvidas de sustentabilidade e, sem equívocos, o documento reconhece que teria sido melhor renegociar a dívida portuguesa antes do programa de ajustamento que tanto desemprego e tanta pobreza criou. Não é a primeira vez que essa ideia vem do FMI e foi isso que, há uns meses, foi defendido por 74 personalidades portuguesas e a que o governo não deu ouvidos. Há dias, o assunto ainda ficou mais claro numa intervenção televisiva do antigo ministro Bagão Félix que revelou que, depois de várias descidas, as taxas médias de juro do resgate português de 78 mil milhões de euros estão actualmente nos 2,9%, enquanto a Espanha que beneficiou de um resgate de 40 mil milhões de euros só para a banca, tem uma taxa de 0,5% e um período de carência de 10 anos. Temos, então, dois pesos e duas medidas na União Europeia e nos “terrenos” da troika, porque tudo temos aceitado passivamente. Este assunto não pode ser ignorado pelos jornalistas e esta subserviência tem que acabar, em nome da nossa dignidade.

A Língua Portuguesa: a nossa língua, a língua do mar, a língua da gente

A Língua Portuguesa celebrou ontem o seu 800º aniversário com algumas iniciativas realizadas em Lisboa, entre as quais a apresentação do Manifesto 2014 - 800 anos da Língua Portuguesa, assinado por alguns governantes e políticos, mas também por músicos, escritores, professores e jornalistas dos países onde se fala português. Nesse manifesto, os seus subscritores afirmam querer festejar nesse dia “esses oito séculos da nossa língua, a língua do mar, a língua da gente, uma grande língua da globalização” e que “na era da globalização, falar português, uma das grandes línguas globais do planeta, que partilha e põe em comum culturas da Europa, das Américas, de África e da Ásia e Oceânia, com centenas de milhões de falantes em todos os continentes, é um imenso património e um poderoso veículo de união e progresso”.
Esta precisão de calendário a definir o dia do nascimento da Língua Portuguesa é meramente simbólica e está relacionada com o facto do primeiro documento oficial escrito em português – o testamento de D. Afonso II – ser datado de 27 de Junho de 1214. Decorridos oitocentos anos, a Língua Portuguesa atravessa actualmente uma fase de afirmação,  expansão e internacionalização e, de acordo com o Instituto Camões, é falada por 244 milhões de pessoas, para além de ser a sexta língua mais falada do mundo, a quinta língua mais usada na Internet e a terceira mais utilizada nas redes sociais Facebook e Twitter.
O semanário Expresso das Ilhas que se publica na cidade da Praia, foi um dos poucos jornais que tratou este assunto e destacou esta efeméride na sua primeira página com uma citação de Amílcar Cabral,  o pai das independências da Guiné-Bissau e Cabo Verde, para quem a educação era uma garantia do sucesso da própria luta de libertação nacional: “A língua portuguesa é uma das melhores coisas que os portugueses nos deixaram”.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A Copa do Mundo 2014 – comentário III

A selecção portuguesa terminou a sua participação no Mundial 2014 e vai regressar a casa, tal como acontece com as selecções da Espanha, Itália, Inglaterra, Rússia, Croácia e Bósnia-Herzegovina, o que significa que mais de metade das 13 equipas europeias que participaram na competição foram eliminadas, o que até faz parecer que a crise que tem afectado a Europa também já chegou ao futebol.
Havia muitas expectativas em torno da selecção portuguesa criadas por uma comunicação social e por muitos jornalistas absolutamente apostados no endeusamento dos jogadores e na criação de cenários fantasiosos, como aquele que ainda acreditava ser possível o apuramento português, depois da derrota com a Alemanha e do empate com os Estados Unidos. A palavra “milagre” encheu as páginas dos jornais e os discursos dos comentadores, pelo que muita gente foi levada a acreditar que tudo se havia de resolver no último instante.
Ontem, a magra vitória obtida sobre a equipa do Gana serviu para minimizar a nossa desilusão colectiva, mas não escondeu que a equipa portuguesa não esteve à altura das circunstâncias pois correu pouco, falhou no passe e, sobretudo, foi inconsequente no remate. Em Brasília não aconteceu o tal “milagre”. Porém, hoje o jornal Record parece querer “tapar o sol com a peneira” e veio dizer-nos que o apuramento “afinal era possível”. Não é verdade. Com aquele futebol apático e incaracterístico, sem alma e sem garra, não era possível ou, como o seleccionador Bento afirmou com muita lucidez, apenas “tivemos o que merecíamos”.
É certo que fica algum amargo de boca porque das equipas europeias que foram eliminadas nenhuma totalizou os 4 pontos que a equipa lusitana conseguiu e até houve algumas selecções que foram apuradas para a fase seguinte da prova com os mesmos 4 pontos, casos da Grécia, da Nigéria, dos Estados Unidos e da Argélia. Porém, isso são apenas acidentes de percurso, porque a realidade é simples: no Grupo G houve duas equipas que foram melhores do que a equipa portuguesa.
Quanto ao resto, a Copa do Mundo tem sido boa. Foram realizados 48 jogos e foram marcados 136 golos, o que dá uma média de 2,83 golos por jogo. Para quem gosta de futebol...

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A herança histórica portuguesa em Macau

O território de Macau é uma região administrativa especial da República Popular da China com uma população um pouco superior a meio milhão de habitantes. Apesar de ter sido administrado pelos portugueses desde meados do século XVI até Dezembro de 1999, a língua portuguesa nunca se impôs significativamente à população local e tem havido justificados receios de que neste novo quadro politico-administrativo do território venha a desaparecer, apesar ser uma das suas línguas oficiais.
Porém, a par de um grande desenvolvimento económico e da construção de grandiosos edifícios e outras infraestruturas, as autoridades do território têm procurado preservar o património arquitectónico de origem portuguesa existente em Macau e, em 2005, conseguiram que o seu centro histórico e as construções da colina da Guia – fortaleza, capela e farol – fossem incluídos na Lista do Património Mundial da UNESCO “por constituirem um testemunho único da confluência de características estéticas, culturais, arquitectónicas e tecnológicas do Oriente e do Ocidente”. Significa, portanto, que a preservação da herança cultural portuguesa é uma aposta duradoura das autoridades de Macau.
Nesse sentido, também está a protecção das simbólicas Portas do Cerco, conforme destacou na sua edição de ontem o jornal Tribuna de Macau, ao noticiar que o Conselho do Património Cultural as classificou como “património histórico do território”, pelo que  a solução de utilizar a própria infraestrutura do posto fronteiriço das Portas do Cerco (antiga fronteira entre Macau e a República Popular da China) para instalar a paragem do Metro Ligeiro da linha que segue para a China Continental, deve manter a harmonia paisagística e arquitectónica no local. Assim continuará, bem visível, a simbólica frase ali inscrita em 1871 no tempo do governador António Sérgio de Sousa:
A Pátria honrai que a Pátria vos contempla.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Há mais desporto para além do futebol

 
Ontem foi um dia de muitas emoções para o desporto português, sobretudo em relação ao futebol. Jogando em Manaus, a selecção nacional não foi além de um empate com a equipa dos Estados Unidos e, com esse resultado, só pode esperar o seu afastamento da Fase Preliminar do Campeonato do Mundo, tal como já aconteceu com as selecções da Espanha e da Inglaterra, entre outras.
Não é difícil explicar o que aconteceu, porque se somos talentosos no futebol, os outros também não são piores do que nós. Por isso, é normal que a equipa portuguesa perca com a Alemanha e não ganhe à equipa dos Estados Unidos. O que não é normal, parece-me, é a verdadeira tontice que tem sido o endeusamento e a subserviência aos nossos jogadores, por vezes chamados os eleitos ou os amigos de Paulo Bento, feita pelos incontáveis enviados especiais que se passeiam pelo Brasil e pelas dezenas de comentadores que nos entram em casa todos os dias, cansando-nos com as suas banalidades. Humildemente, eu penso que é nessa absurda idolatria deste binómio jornalistas/comentadores que estão as causas desta má prestação lusitana no Brasil, pois esses experts tudo fizeram para nos convencer, a nós e aos jogadores, de que tudo era fácil, desde que o joelho do Ronaldo estivesse bom. Exageraram no elogio e venderam-nos imagens de grande confiança, desde a entrada nos autocarros e os adeptos entusiasmados, até aos treinos e às conferências de imprensa. E como ponto alto deste provincianismo e desta dose maciça de selecção estiveram as perguntas mais imbecis que se poderiam ter feito:
Quem vai ganhar? Por quantos? Quem vai meter os golos?
Felizmente que há mais desporto para além deste futebol, destes jogadores-vedetas e destes jornalistas-subservientes, como ontem também se viu.
O ciclista Rui Costa (Póvoa de Varzim) que é o actual campeão do mundo de ciclismo, venceu pela terceira vez consecutiva a Volta à Suiça, enquanto o ciclista Tiago Machado (Vila Nova de Famalicão), que poucos conhecerão, triunfou na Volta à Eslovénia. Absorvidos com o futebol, apenas alguns jornais noticiaram estes acontecimentos na sua primeira página, mas nenhum noticiou que, também ontem, a selecção nacional de voleibol venceu a Holanda por 3-1 e está na frente do Grupo E da Liga Mundial de Voleibol, quando estão disputados 2/3 da competição.
Já que o futebol não nos dá as alegrias que gostaríamos, regojizemo-nos ao menos com os êxitos internacionais dos nossos ciclistas e voleibolistas.

domingo, 22 de junho de 2014

A crise, a ganância e as fraudes na banca

Foi em Setembro de 2008 que o Lehman Brothers, um dos maiores bancos de investimento americanos, declarou falência depois de ter acumulado gigantescos prejuízos devido à crise no mercado imobiliário originada pela criação de produtos financeiros (conhecidos por subprime), suportados em créditos hipotecários de alto risco concedidos a famílias americanas que não tinham capacidade financeira para os pagar. Era a derrota da gananciosa e fraudulenta actividade da banca que levara a que a dívida do Lehman Brothers superasse os 430 mil milhões de euros, isto é, mais do dobro do PIB de Portugal! O contágio foi intenso e, um ano depois, tinham fechado 273 bancos americanos!
A falência do Lehman Brothers tem sido considerada como o detonador de uma crise financeira que atravessou o Atlântico e levou à falência de muitas empresas e à perda de milhões de empregos na Europa. Então, quando se verificou que também havia muitos “lehman brothers” na Europa, foram injectados na banca muitos milhões de euros sob várias formas para superar a situação, “porque os bancos eram demasiado grandes para falir”. Apesar disso, um pouco por toda a Europa houve bancos que faliram ou foram nacionalizados, por exemplo na Grécia, na Espanha, no Chipre, na Bélgica e até na Alemanha. Raramente foram pedidas responsabilidades por gestão ruinosa, por práticas fraudulentas, evasão fiscal, manipulação contabilística ou, simplesmente, por roubo. A impunidade foi quase total, pouco foi alterado e continuaram as obscenas remunerações, os bónus e as mordomias faraónicas dessa gente. Tem reinado o silêncio e a promiscuidade do costume entre banqueiros, políticos e jornalistas. A culpa parece ter morrido solteira.
Aqui tivemos o caso BPN, mas também os casos BPP e BCP, o Banif e, agora, o BES, cuja sucursal de Angola não sabe a quem emprestou 5,7 mil milhões de euros, embora se suspeite que, tal como no BPN, uma boa parte tenha ido parar às contas de alguns administradores e tenham alimentado grandes negociatas. Lamentavelmente, muitos dos nossos "políticos de aviário" continuam sem perceber nada disto e, em vez de se curvarem aos banqueiros para que lhes garantam o futuro, deveriam repensar as razões por que chegamos a este tão lamentável “estado da Nação” e ter a coragem de mudar de rumo, com melhor governo, melhor oposição e mais respeito pelos portugueses. Ao menos valha-nos o Pai e o Filho, porque o Espírito Santo...

sábado, 21 de junho de 2014

Sanjoaninas, a grande festa terceirense

As Festas Sanjoaninas que se realizam na cidade de Angra do Heroísmo e que são “as maiores festas profanas dos Açores”, iniciaram-se ontem com um vasto programa que se estende até ao dia 29 de Junho com actividades culturais, recreativas, etnográficas, desportivas e gastronómicas. As festas têm uma origem que remonta ao povoamento da ilha Terceira e são um verdadeiro ex-libris da cidade de Angra do Heroísmo e até da própria ilha Terceira, atraindo muitos visitantes que têm a oportunidade de conhecer os costumes e as tradições culturais dos terceirences. Este ano as Sanjoaninas evocam a passagem do 30º aniversário da inscrição da cidade na Lista do Património Cultural da Humanidade da UNESCO, que se verificou em 1983 e que constitui um motivo de grande orgulho dos angrenses.
As Sanjoaninas satisfazem o peculiar temperamento festeiro dos terceirenses e iniciaram-se com um cortejo de abertura em que participaram 110 figurantes e cinco carros alegóricos mas, provavelmente, o seu ponto mais alto são as marchas de São João que desfilam na noite do dia 23 de Junho. É realmente um desfile espectacular de dança, cor, música e muita alegria. Estão inscritas 28 marchas, sendo uma oriunda do Canadá e duas da ilha de São Miguel, estimando-se que desfilem mais de 1600 marchantes, sem contar com os músicos das filarmónicas que os acompanham. O outro ponto de grande interesse popular das Sanjoaninas é a Feira Taurina que entusiasma os terceirenses e mobiliza interesses a nível ibérico e que inclui corridas de praça, touradas à corda e largadas de touros. No sentido integrar a comunidade açoriana da diáspora as Sanjoaninas terão a participação de representações vindas do Brasil, dos Estados Unidos da América e do Canadá, além de bandas musicais da Califórnia e de uma marcha do Canadá.
Como não poderei estar em Angra do Heroísmo, irei procurar acompanhar as festas através da RTP Açores.

A Copa do Mundo 2014 – comentário II

A Copa do Mundo 2014 está hoje no seu décimo dia, quando já estão disputados 26 dos 48 jogos da fase preliminar ou fase de grupos, sempre debaixo de um grande entusiasmo, conforme temos visto na televisão e lido nos relatos da imprensa. O futebol tornou-se um fenómeno global e, para quem gosta do espectáculo, tem sido uma verdadeira festa em que já foram marcados 77 golos, o que corresponde a uma média de 2,96 golos por jogo. Independentemente das prestações individuais de alguns jogadores que o tempo confirmará ou não, podem desde já ser destacadas algumas equipas – a Espanha e a Inglaterra que já estão eliminadas e a Holanda, o Chile, a Colômbia e a Costa Rica, que já asseguraram o apuramento para a fase seguinte.
A equipa da Costa Rica é a grande surpresa deste campeonato porque, num grupo que integra três antigos campeões mundiais, já cometeu a proeza de bater o Uruguai (3-1) e a Itália (1-0), daí resultando o seu apuramento e a eliminação da Inglaterra, que perdeu com a Itália (2-1) e com o Uruguai (2-1).
A derrota inglesa com o Uruguai resultou de dois golos marcados por Luis Suárez que joga no Liverpool, embora a eliminação da Inglaterra tenha resultado da vitória costariquenha sobre a Itália com um golo marcado por Bryan Ruiz, um futebolista que este ano alinhou na equipa do Fulham que disputou a Premier League. Significa que a Inglaterra foi eliminada do Campeonato do Mundo pelas prestações insuficientes dos seus jogadores, mas também pelos golos dos seus adversários que jogam na Inglaterra. Hoje, a edição do The Times revela um singular fair play ao destacar na sua primeira página a fotografia de Bryan,” the man who put England out of the World Cup”. 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

As mentiras, as trapalhadas e o desnorte

Os nossos governantes andam muito desorientados e, perante as persistentes dificuldades do nosso país e as suas más políticas, reagem com mentiras, trapalhadas e demasiadas desculpas de mau pagador. A propaganda falhou e o insucesso é uma realidade. Depois da monumental farsa que foi a história da saída limpa e dos piores resultados eleitorais que os seus partidos obtiveram nas recentes eleições, o desnorte dos governantes e dos seus mais fiéis seguidores é completo e muito preocupante, enquanto o silêncio do homem do leme nos causa muita apreensão. Já não há disfarces possíveis.
O caso do ataque aos funcionários públicos é um exemplo de fanatismo e dava para rir se não fosse um assunto tão sério. Esta manhã os jornais anunciaram que o governo recusava repor os subsídios de férias dos funcionários públicos, com base nas declarações do ministro Maduro que ontem afirmou que, depois da decisão do Tribunal Constitucional, aqueles que já tinham recebido o subsídio de férias com cortes, não teriam direito a qualquer ajustamento. Aparentemente, o ministro Maduro estava seguro do que dizia, tendo as suas declarações sido apoiadas pelo irrevogável ministro Portas e por esse exemplo de boçalidade política que é o deputado Montenegro. Porém, o ministro Guedes veio hoje desmentir o ministro Maduro e anunciar que os funcionários públicos que já tivessem recebido a totalidade ou parte do subsídio de férias com o corte que estava previsto, vão afinal receber o valor em falta.
Demitiu-se o ministro Maduro por ter sido desautorizado? Não tem ponta de vergonha, nem tem coragem para isso. Significa, portanto, que ninguém se entende no governo e que muitos de nós nunca sabemos quanto vamos receber ao fim do mês. Esta gente não tem consideração nenhuma pelos portugueses. A desconfiança é total. Antes tinham a desculpa do Pinto de Sousa e da troika, agora desculpam-se com o Tribunal Constitucional. É demasiada mediocridade e muito amadorismo. É uma completa trapalhada. Andam com os passos trocados. A nau está meter água por todo o lado.

Espanha: novo rei, nova esperança?

A partir de hoje o Príncipe das Asturias tornou-se o Rei de Espanha com o nome de Filipe VI, sucedendo a seu pai Juan Carlos I que esteve no trono durante 39 anos e que dele saiu, exactamente no mesmo dia em que a Espanha também deixou de reinar no futebol mundial. Os desafios do novo rei constitucional e Chefe de Estado são enormes, porque a Espanha continua debaixo de uma crise económica e social gravíssima, os movimentos independentistas estão muito vivos e a contestação ao regime monárquico está a agitar-se nas ruas e nas redes sociais. 
Um sou um republicano moderado, isto é, não acredito que a República tenha todas as virtudes do mundo, nem creio que a Monarquia seja o mais desprezível dos sistemas políticos. Cada país ou cada comunidade escolhe o sistema que melhor se ajuste às suas realidades culturais e económicas e, de uma forma mais geral, ao seu projecto de sociedade, não sendo certo que a República Francesa seja melhor do que a Monarquia Belga, nem que a Monarquia Sueca seja melhor do que a República Finlandesa. A forma do poder é uma questão que tem um carácter simbólico, que cada país resolve de maneira soberana como melhor entende.
Por razões de ordem diversa que não serão aqui analisadas, a República Portuguesa tem especiais relações históricas e institucionais com as Monarquias Espanhola e Inglesa, olhando para o que se passa nos palácios da Zarzuela ou de Buckingham com um interesse que vai para além da simples curiosidade. Assim, somos levados a uma  curiosa comparação entre Filipe, Príncipe das Asturias (Espanha) que agora sobe ao trono com 46 anos de idade e Carlos, Príncipe de Gales (Inglaterra) que, aos 65 anos de idade continua à espera, havendo quem considere que nunca será Rei da Inglaterra. Numa altura em que as monarquias estão cada vez mais fora de moda e já não são suficientemente representativas nem exemplares, o novo Rei pode realmente representar uma renovada esperança para a sobrevivência e para a unidade da própria Espanha... y viva España!