sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O fanatismo e a teimosia foram travados

O Tribunal Constitucional veio ontem dar um puxão de orelhas ao governo ao chumbar, mais uma vez, o corte das pensões que a equipa de Passos se propunha concretizar, numa lógica de insensibilidade e de irresponsabilidade social, que ataca os reformados e os pensionistas em vez de promover a efectiva reforma do Estado, de acabar com o despesismo em viagens e viaturas oficiais, de parar com a contratação de assessores, seguranças, motoristas e fazer muitas mais coisas que devia fazer. Neste caso, o fanatismo e a teimosia governamentais foram travados e o banhista da Manta Rota perdeu mais uma batalha na guerra que declarou aos pensionistas. 
Desde que este governo tomou posse em Junho de 2011 que o tema das pensões se tornou tão repetitivo anualmente que não pode ser outra coisa que não seja fanatismo e obcessão do primeiro Passos e dos seus ajudantes neo-liberais, verdadeiros ignorantes da realidade portuguesa. Já são mais de 3 anos de perseguição! Todos nos lembramos do que foi dito e repetido pelo candidato Passos, no tempo em que ainda passava férias na Manta Rota sem a corte de seguranças que agora o protegem, quando anunciava que tinha estudado tudo e nos garantia que não haveria cortes nos salários nem nas pensões. Mentiu e eu não gosto de mentirosos! E é bem curiosa a desfaçatez desta gente mentirosa ao insistir no ataque às pensões, que muito contribuem para a economia nacional, ao mesmo tempo que se colocam à margem da “tempestade perfeita” que se desenha com a crise do BES, mentindo descaradamente com o trocadilho do GES e do BES e procurando sacudir a água do capote, a revelar não ter aprendido as lições do BPN.

domingo, 10 de agosto de 2014

É proibitiva a visita aos nossos museus

Uma das mais sugestivas atracções culturais que a cidade de Lisboa oferece aos seus residentes é uma panóplia de mais de cinco dezenas de museus de índole muito variada, que vão desde os grandes espaços museológicos como o CCB ou a FCG, até aos museus de arte que possuem colecções de pintura, escultura e artes decorativas, passando pelos museus temáticos, as casas-museu e os museus das fundações. Uma dezena e meia desses museus são tutelados pelo Estado através da Direcção Geral do Património Cultural (DGPC) e são geridos pelo Instituto dos Museus e da Conservação (IMC). Esta alargada oferta museológica prestigia a cidade de Lisboa e o seu passado histórico e cultural. Muitos lisboetas incorporaram a visita aos museus nos seus roteiros domingueiros, porque o ingresso era gratuito. A vida cultural da cidade enriqueceu-se porque os museus são espaços que transmitem valores, que despertam memórias e que interagem com a contemporaneidade. A DGPC acompanha essa visão e informa que “os museus e os monumentos são lugares únicos que nos proporcionam experiências memoráveis e uma aprendizagem indispensável à formação da identidade”.
Durante muitos anos habituei-me a levar os meus filhos aos museus aos domingos de manhã, aproveitando a gratuitidade das entradas e, dessa forma, procurei contribuir para a formação da sua identidade cultural e dos seus valores. Muitos outros lisboetas beneficiaram desse bónus da política cultural. Porém, hoje fui surpreendido na visita que fiz à exposição permanente do Museu Nacional de Arte Antiga e à exposição temporária “Os Sabóias. Reis e Mecenas (Turim 1730-1750)”, com a obrigação de pagar bilhetes de 6 euros em cada uma das exposições. Senti-me assaltado, até porque nunca visito os museus sozinho. A ânsia governamental de empobrecer os portugueses, até aproveita as visitas dominicais aos museus. Nada lhes escapa. Agora, a generosidade das visitas gratuitas só acontece um domingo em cada mês. Um dia até os encerram porque não são lucrativos ou decidem privatizá-los como fizeram com a EDP e os CTT. Será que eles sabem o que é e para que serve um museu?
 

A nova guerra do Iraque

No início do ano de 2003 circulou uma informação falsa que George W. Bush e Tony Blair tomaram como verdadeira, que assegurava que o regime de Sadam Hussein estava a desenvolver armas de destruição maciça que ameaçavam a paz e a segurança mundiais. Nesse contexto, uma coligação de forças americanas, inglesas e de alguns dos seus aliados iniciou no dia 20 de Março de 2003 a invasão do Iraque a partir do Kuwait e, ao fim de três semanas, essas forças entraram em Bagdad. O regime de Sadam Hussein caiu e, em Dezembro de 2004, ele próprio foi capturado. A coligação liderada pelos americanos ocupou o país e procurou estabelecer um regime democrático segundo o modelo ocidental, mas não conhecia o país. Assim, viu-se confrontada com um clima de desordem e de guerrilha em que se combatiam sunitas e xiitas, ao mesmo tempo que se reforçava a influência da jihad ou das jihads, mais ou menos inspiradas na Al-Qaeda. Aos poucos os parceiros da coligação foram abandonando o Iraque e, em Dezembro de 2011, também os Estados Unidos deram por terminada a sua presença no país. Foi a partir de então que a situação se deteriorou mais rapidamente e que surgiu o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), um grupo jihadista radical que conseguiu recrutar milhares de combatentes e que, em pouco tempo, domina partes importantes dos territórios sírio e iraquiano, incluindo a maior central hidroelétrica iraquiana, que assegura o abastecimento de água e de electricidade para grande parte do país. A brutalidade dos seus métodos tem impressionado o mundo e a palavra genocídio entrou no noticiário internacional. Nesse quadro, o presidente Obama decidiu lançar os seus aviões contra as forças jihadistas com o objectivo humanitário de proteger as minorias religiosas iraquianas, mas também para impedir a progressão das forças do EIIL em direcção a Bagdad, prevenindo desde logo os americanos e o mundo que a intervenção será demorada. Os mass media internacionais já falam na nova guerra do Iraque, um país onde a intervenção americana tem produzido um nível de tragédia como o país nunca vira na sua história recente.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

No Reino Unido o exemplo vem de cima

É sabido que os membros masculinos das casas reais europeias têm uma importante parte da sua educação assente na formação militar, passando habitualmente pela sua incorporação activa nos três ramos das Forças Armadas. Esse facto é particularmente notório no Reino Unido, onde os elementos masculinos da Casa de Windsor frequentam as escolas militares e prestam serviço em diferentes unidades militares. Esta atitude inspira-se no exemplo cívico da Rainha Isabel II que durante a 2ª Guerra Mundial serviu no Auxiliary Territorial Service, durante os bombardeamentos alemães sobre algumas cidades inglesas.
Assim, o exemplo vem de cima e os deveres de cidadania são assumidos pelos príncipes. O seu filho Andrew é comandante da Royal Navy e serviu como piloto de helicópteros na guerra das Falklands, tendo voado em várias missões militares de alto risco e de evacuação de feridos nesse teatro de operações. O seu neto Harry pertenceu ao regimento Household Cavalry e esteve no Afeganistão a combater os talibãs durante dois meses, integrado nas forças expedicionárias britânicas. O outro neto da Rainha é o príncipe William, que é o segundo na linha de sucessão ao trono e que se qualificou em 2010 na RAF, tendo servido como piloto de helicópteros no serviço de busca e salvamento e realizado 156 missões operacionais e resgatado 149 pessoas.
Agora, um ano depois de ter deixado a RAF, o príncipe William decidiu aceitar um convite para voltar a voar ao serviço de uma empresa privada – Bond Air Services – a quem está adjudicado o East Anglian Air Ambulance, isto é, as missões de serviço público de transporte em ambulância aérea de doentes e feridos. A notícia foi divulgada pela CNN e é a primeira vez que um membro da Família Real Britânica aceita um emprego civil, embora o seu salário vá reverter na sua totalidade e por sua iniciativa pessoal para instituições de caridade. É com estes exemplos de devoção à causa pública que a Monarquia Britânica sobrevive.    

A banca e os banqueiros sob suspeita

No passado dia 3 de Agosto o país foi informado das decisões tomadas relativamente ao Banco Espírito Santo (BES) e da intervenção do Banco de Portugal (BP): o fim do BES e a separação entre os chamados activos problemáticos (banco mau) e os restantes activos e passivos que serão integrados no Novo Banco (banco bom), o qual iria receber um empréstimo público de 4.900 milhões de euros.  Menos de 24 horas depois do anúncio do fim do BES, o governo decidiu falar para colher os méritos se a coisa correr bem e para sacudir a água do capote se a coisa correr mal. Assim, através da ministra das Finanças que foi à televisão elogiar o governador do BP e explicar a operação, o governo veio assegurar que “este empréstimo não tem risco para os contribuintes”.
Muitos comentadores e alguns porta-vozes dos partidos da maioria trataram de elogiar a solução encontrada num fim de semana de Verão, com o primeiro-ministro de chinelos e calções na algarvia Mantarota (com um enorme cordão de segurança que a televisão não conseguiu esconder), enquanto o governo dirigido pelo irrevogável ministro se reunia por via electrónica para tratar de um assunto destes, como se fosse coisa menor.
Foi dito que a operação não implicava custos para o erário público e que os clientes iriam poder realizar junto do novo banco todas as operações que antes realizavam junto do BES. Porém, houve muita gente que não foi nesta conversa e que, logo na dia 4, correu para os balcões do seu ex-BES para levantar as suas poupanças, tendo havido 200 milhões de euros que nesse dia transitaram para a Caixa Geral de Depósitos (CGD), conforme revela a edição de hoje do Público. No 1º semestre do ano o BES já tivera uma redução de 310 milhões de euros no seu volume de depósitos e, ao longo do mês de Julho, o movimento de contas particulares do BES para a CGD foi muito assinalável, nele se incluindo o já famoso levantamento de 128 milhões de euros feito pela Portugal Telecom. Afinal, parece que ninguém confia no ex-BES e que pouca gente confia no paleio do governo e do BP, nem na história do banco bom. Tudo isto é muito mau e começa a ser evidente que a factura vai sobrar para o pessoal do costume. Sempre os mesmos de um lado e sempre os mesmos do outro deste teatro mentiroso. Uma tristeza e uma vergonha!

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Memória da 1ª Guerra Mundial (1914-18)

Vários Chefes de Estado e outros altos representantes de mais de cinquenta países assinalaram ontem na Bélgica o centenário do início da 1ª Guerra Mundial, na qual pereceram cerca de 17 milhões de pessoas, entre militares e civis.
Embora a guerra tivesse começado com a invasão da Sérvia pelos exércitos austro-húngaros (28 de Julho), foi a invasão da Bélgica e a declaração de guerra da Alemanha à França (3 de Agosto) e o consequente envolvimento britânico (4 de Agosto), que aceleraram o desenrolar do conflito. Por isso, a efeméride foi especialmente evocada na Bélgica, em França e no Reino Unido, embora tivesse interessado muitos outros países, entre os quais Portugal, onde a comunicação social promoveu diversas iniciativas com destaque para o suplemento diário que o jornal Público vem publicando desde 28 de Julho sobre “os 100 anos da I Guerra Mundial”.
Nas cerimónias realizadas em Liége foi recordada a invasão alemã que desencadeou o conflito na frente ocidental, tendo o presidente francês agradecido à Bélgica a resistência de Liége que retardou a entrada das tropas alemãs no território francês. Outros discursos inspiraram-se nas “lições da História” e lembraram a enorme catástrofe que foi a guerra que varreu a Europa entre 1914 e 1918, tendo algumas vozes apelado para a necessidade do velho continente não optar pela indiferença relativamente aos conflitos que actualmente acontecem na Ucrânia, no Iraque, na Síria ou em Gaza, mas antes escolher uma intervenção pacificadora. Por razões diplomáticas não foi dito que, pior do que a indiferença, é tomar partido com o indisfarçado objectivo de vender armas ou de tomar posições no jogo do petróleo naquelas regiões.
Portugal também entrou na guerra a partir de 9 de Março de 1916 quando a Alemanha decidiu fazer uma declaração de guerra ao nosso país, embora nessa altura já decorressem operações militares na fronteira sul de Angola e na fronteira norte de Moçambique.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Depois do BPN, a surpresa veio do BES

Ontem, eram quase 23 horas, quando o governador do Banco de Portugal veio à televisão anunciar as medidas adoptadas para ultrapassar a crise do BES, um problema que até há bem pouco tempo ninguém tinha detectado, nem percebido, nem imaginado.  Como regulador, o Banco de Portugal esteve ausente e nunca foi capaz de identificar as contabilidades criativas, as práticas fraudulentas e as operações de branqueamento de capitais, nem no BES, nem nos outros bancos. Corre tudo entre oficiais do mesmo ofício ou entre amigos. Gente de confiança. Colegas de faculdade ou de partido. Apesar do fumo que até os cegos viam...
Porém, há menos de um mês, o Banco de Portugal veio dizer que a situação de solvabilidade do BES era sólida e que tinha sido reforçada com o recente aumento de capital. Mesmo há poucos dias, quando a coisa se começou a saber, com referências a irregularidades, gestão danosa e prática de ilícitos, ainda houve quem nos tivesse impingido aquela história de que o BES e o GES eram coisas diferentes e que todos podíamos estar descansados. Um deles foi o primeiro Passos, agora em banhos no Algarve. O BES merecia toda a nossa confiança. Afinal, ontem fomos informados que a coisa é muito grave, possivelmente mais grave que o caso BPN pelos impactos directos e indirectos que tem na economia, mas foi-nos dito e repetido que “esta operação não implica custos para o erário público”, embora a mesma coisa nos tivesse sido dita quando do caso BPN.
Se a minha surpresa foi grande com a notícia do afundamento do BES e com mais uma escandalosa demissão do Banco de Portugal, igual surpresa tive ontem com a enorme quantidade de especialistas que passaram pela televisão a explicar tudo, sem quaisquer dúvidas ou hesitações. Foram dezenas deles que, nada tendo visto antes, nos apareceram ontem como verdadeiros gurus das artimanhas bancárias. Desde o Marques Mendes ao Marcelo RS, passando pelos muitos jornalistas-comentadores que nada viram antes e que, quem sabe, também fizeram férias na neve à custa do BES. Ninguém se interrogou sobre o destino que tiveram tantos milhares de milhões de euros que têm sido roubados e que têm servido para que alguns enriqueçam, ao mesmo tempo que nos acusam de vivermos acima das nossas possibilidades.
Como diria Pessoa: Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!
 

domingo, 3 de agosto de 2014

Tripoli já está a arder!

Ao longo de 2011, a França e os Estados Unidos encabeçaram o ataque ao regime líbio que venceram com os seus mísseis. Kaddafi acabou por ser capturado e morto em Outubro de 2011, mas as rivalidades que, desde 1969, o seu regime geria com mão de ferro permaneceram no terreno e, segundo as notícias da imprensa internacional, agravaram-se nas últimas semanas a confirmar que o derrube do regime de Muammar Kaddafi não resolveu os graves problemas internos líbios e que o país passou de uma regime de ditadura para uma situação de caos absoluto.
Os grupos extremistas islâmicos nascidos dos antigos grupos rebeldes que lutaram contra Kaddafi e que parecem continuam a receber apoios do Qatar, da Turquia, dos Estados Unidos e de alguns países ocidentais, bem como o reforço das suas hostes com combatentes vindos da Síria, já provocaram a desagregação do Estado líbio. Vieram de Benghazi e de Misrata e chegaram a Tripoli. Os combates nos arredores da capital aumentaram de intensidade desde meados de Julho e, nos últimos dias, têm-se agravado com uma acesa luta pelo controlo do aeroporto internacional de Tripoli, onde já morreram centenas de pessoas. Há duros combates e muitos incêndios nas ruas de Tripoli e os hospitais estão destruídos. Neste quadro de guerra, sucedem-se as notícias do encerramento temporário de muitas das 76 embaixadas e consulados estrangeiros na Líbia – casos de Portugal, Estados Unidos, Arábia Saudita, França, Alemanha, Holanda, Austria, Grécia, Suiça, Espanha, República Checa, Reino Unido  e outros – bem como a notícia da evacuação de centenas de cidadãos estrangeiros que se encontravam no país.
Esta situação, muito semelhante a outras que nasceram a partir de 2009 com a chamada Primavera Árabe, revelam como foi errada a intervenção dos Estados Unidos e dos seus aliados europeus. Os seus estrategas não perceberam que alguns ditadores, casos de Sadam Hussein, Bashar el-Assad e Muammar Kaddafi, eram os estabilizadores políticos e representavam a autoridade tribal das suas regiões, pelo que o seu afastamento iria provocar a desestabilização, a desagregação e a guerra no Iraque, na Síria e na Líbia. Além de Bagdad e Damasco, também Tripoli já está a arder.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Os bons amigos do pequeno Moedas

Carlos Moedas com os seus amigos da troika
O nosso primeiro Passos deu hoje um valente pontapé no bom senso e no sentimento reformista ou regenerador dos portugueses, ao anunciar que convidara Carlos Moedas para ser o próximo comissário europeu na equipa de Jean-Claude Juncker, que deve iniciar funções em Novembro. O assunto já era discutido há muito tempo e eram muitas as personalidades cujos nomes estavam “em cima da mesa”. Havia quem defendesse um nome do PS para suceder ao actual comissário do PSD, o que ajudaria à criação de uma lógica de rotatividade. Havia quem desejasse um nome que reflectisse o resultado das recentes eleições europeias. Havia na própria maioria vários nomes de gente experimentada, incluindo o poiares, o peneda, o gaspar e até o irrevogável portas. Havia necessidade de escolher alguém com notoriedade e prestígio, mas nada disso comoveu o primeiro Passos que decidiu escolher Moedas, um dos seus mais fanáticos apoiantes. Podia ter ido à política, à ciência, à universidade, mas foi à banca. Favor com favor se paga!
Moedas está associado às políticas neo-liberais que têm destruido o nosso Estado social, à severa austeridade que nos levou à recessão e aos erros que têm dominado a nossa governação e feito aumentar a dívida, o desemprego e a pobreza. Ele foi, juntamente com Gaspar, um verdadeiro Secretário de Estado da Troika e um dos maiores e mais persistentes inimigos dos pensionistas e dos funcionários públicos.
Moedas é um caso sério de ambição, atrevimento e arrogância. Aprendeu precocemente os labirintos da finança internacional e foi formatado na Goldman Sachs e noutros abutres similares. Não sei se é ou não competente nas funções que vai desempenhar, que ainda não se conhecem, mas são conhecidas dezenas de pessoas com mais currículo profissional e maior experiência política do que ele. O primeiro Passos escolheu-o. É uma troca de favores. A merecer repúdio. É um caso de amiguismo ou de troca de influências. Tal como aconteceu com Catroga, Gaspar, Arnaut e outros mais. É mais uma prova de que são sempre os mesmos a safar-se, enquanto o país se afunda. Vai juntar vinte mil notas por mês e vai mudar de nome: doravante não será mais Carlos Moedas. Será o Carlos Notas. O filho do Zé Moedas é pequeno de estatura, mas percebeu que o que é bom é ter amigos que até o levam de Beja até Bruxelas.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Barroso e as "pipas de massa" que temos

Cumprindo um ambicioso plano que o levou desde a militância no MRPP até à presidência da Comissão Europeia, que o mesmo é dizer de Almada a Bruxelas, o comissário Barroso não desiste de procurar apoios para se manter na crista da onda, por cá ou no estrangeiro.
Assim, com muita demagogia, veio a Lisboa para anunciar que a Comissão Europeia vai canalizar 26 mil milhões de euros para Portugal nos próximos sete anos. “É uma pipa de massa”, disse o deslumbrado comissário Barroso que, paternalmente, dissertou sobre a necessidade desses fundos serem bem aplicados. Nesse aspecto, eu estou muito preocupado pois temo que se repitam os excessos, os favorecimentos e as não sei quantas mil habilidades que, noutros tempos, serviram para desviar fundos para fins diversos daqueles para que haviam sido seleccionados.
Entretanto, ontem foi anunciado o colossal prejuízo do Banco Espírito Santo que se cifrou em 3.577,3 milhões de euros no primeiro semestre do ano, alegadamente devido a factores de natureza excepcional ocorridos “que determinaram a contabilização de prejuízos, de imparidades e de contingências”. “É uma pipa de massa”, diria o comissário Barroso. Mas ele não comenta isso. Não lhe convém. Eu, que sempre costumava dizer que bancos e seguradoras eram “associações de malfeitores”, confronto-me agora com uma situação que parece dar-me razão.
Se recordarmos que na passada semana o Ministério das Finanças anunciou em comunicado que o défice público português aumentou no primeiro semestre deste ano até 4.192 milhões de euros, isto é, mais 149 milhões de euros que nos primeiros seis meses do ano passado, ficamos confrontados com mais um problema. “É uma pipa de massa”, podia ter dito o comissário Barroso. Sintetizando, já temos “pipas de massa” bastantes, para além daquela que o comissário Barroso anunciou.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Há demasiadas guerras na orla europeia

A brutalidade da guerra intensifica-se na Faixa de Gaza e algumas imagens que nos chegam através da televisão e algumas fotografias publicadas pela imprensa, como hoje sucede com The Independent, sugerem um nível de violência extremo e desumano.
Muitas organizações internacionais contestam o belicismo intolerável de Israel e, até os Estados Unidos que sempre têm sido os seus mais fiéis aliados, criticam esta acção e viram rejeitada a sua primeira proposta de cessar-fogo apresentada por John Kerry.
Israel parece cansado dos ataques dos foguetes lançados pelo Hamas sobre o seu território e tomou a iniciativa desta desproporcionada operação sobre a Faixa de Gaza que já matou muitas centenas de palestinianos. Por outro lado o Hamas, que controla aquela faixa de território, não reconhece Israel e opõe-se à sua existência, estando a resistir através do seu braço armado militar e político. A guerra dura há mais de vinte dias e tem-se intensificado.
Além da Faixa de Gaza, a Autoridade Nacional Palestiniana inclui o território da Cisjordânia que é controlado pela Fatah de Mahmoud Abbas e que, sendo um movimento muito mais moderado, aceita uma solução negociada com Israel, o que estimula as iniciativas bélicas dos israelitas no sentido de quebrar o Hamas que é classificado por muitos países como uma organização terrorista.
O puzzle da violência está a complicar-se na Palestina, mas também na Ucrânia e no Iraque, na Síria, na Líbia e, também, noutros países da orla europeia ou mesmo da Europa. São muito diferentes os problemas que enfrenta cada um destes países em guerra, mas uma análise atenta parece mostrar que muitos deles resultam de uma intervenção ocidental directa ou indirecta pouco pensada, em que a miopia americana e o seguidismo europeu estão presentes como se ainda vivessem os tempos hegemónicos do século passado.

domingo, 27 de julho de 2014

Tour de France 2014: espectáculo e festa

Terminou o Tour de France 2014 com a vitória incontestável do ciclista italiano Vincenzo Nibali. Desde o triunfo de Marco Pantani em 1998 que nenhum italiano vencera aquela centenária prova ciclista e, por isso, foi um acontecimento desportivo que despertou uma enorme onda de entusiasmo na Itália, com a fotografia de Nibali a encher as páginas dos jornais. Apesar do mérito da vitória, ninguém esquece que os dois grandes favoritos - o espanhol Alberto Contador e o inglês Christopher Froome - abandonaram a corrida devido a quedas e que isso acabou por facilitar a vitória de Nibali. A participação portuguesa foi positiva, embora o campeão do mundo Rui Costa também tivesse desistido por doença.
A nossa televisão voltou a dar uma alargada cobertura à prova com apropriados e sábios comentários do antigo ciclista Marco Chagas, a fazer inveja aos inúmeros jornalistas profissionais que não fazem nenhuma ideia do que é comentar ou relatar um simples jogo de futebol.
Porém, para além dos aspectos desportivos, o que mais impressionou nas reportagens diárias sobre o Tour de France foi a excelência da realização televisiva, que prestou um grande serviço ao turismo francês ao mostrar diariamente “uma França vista do céu” e que hoje nos exibiu a monumentalidade da cidade de Paris vista do ar. Ao longo de todas as reportagens, foram exibidas muitas sequências de imagens de montanhas e vales, de cidades e vilas, de castelos e igrejas, de aquedutos e pontes, de explorações agrícolas e de florestas, para além de estâncias de montanha, palácios, cemitérios das guerras e mil outras curiosidades culturais ou turísticas.
Além de tudo isso, as reportagens televisivas conseguiram sempre transmitir o entusiasmo dos franceses ao longo das estradas e no cimo das montanhas, a atestar que o Tour de France é realmente um espectáculo desportivo e uma grande festa popular.

Ainda há alguns jornalistas em Portugal

Li ontem a edição do semanário Expresso a procurar informar-me sobre o que está a acontecer relativamente ao GES, ao BES e ao homem que pagou 3 milhões de euros de caução para não ficar detido. Perante a indiferença, o sensacionalismo e o vira-casaquismo dominantes na imprensa portuguesa, não posso deixar de elogiar dois jornalistas, ambos Directores-Adjuntos daquele jornal, pelo que escreveram.
Escreveu Nicolau Santos: “A esta actuação aliava uma outra: o convite a jornalistas para irem a conferências de uma semana em estâncias de neve na Suiça ou em França, onde de manhã se ministravam cursos de esqui na neve e à tarde se ouviam especialistas na área económica e financeira. E no Verão repetia-se a dose: uma semana num barco algures no Mediterrâneo, acompanhando a Regata do Rei, até que num dos dias se subia a bordo do veleiro (ou será iate?) onde estava Ricardo Salgado para uma conversa descontraída sobre o banco”.
Escreveu João Vieira Pereira: “Por mais que agora venham dizer que sempre avisaram, é mentira. Ninguém teve coragem de o fazer. Ninguém com o poder de acabar com a vergonha. A vergonha de haver um poder económico que não trouxe prosperidade. E que ajuda a explicar por que razão continuamos na cauda da Europa. O valor criado era apropriado por alguns, os eleitos. E foram muitos os que ganharam no jogo”.
Era assim que eram tratados os jornalistas e era desta forrma que silenciavam o que deveriam ter denunciado, preferindo alinhar com os poderosos sem qualquer pudor e ampliando a teoria de que temos vivido acima das nossas possibilidades, não deixando de ser muito curioso que sejam os próprios jornalistas a denunciar esta vergonhosa promiscuidade de muitos deles com o poder, com todo e qualquer tipo de poder.
Assim, também podemos compreender algumas das formas usadas pelo maior banco privado português para construir uma poderosa rede de influências que, naturalmente, também incluia políticos e governantes, como atesta o facto de ter havido 34 Ministros e Secretários de Estado que em 16 dos 19  governos constitucionais se cruzaram com os destinos e os interesses do BES.
E você, ainda confia em todos os nossos jornalistas?

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Que soco! Que mais nos irá acontecer?

Desde há cerca de um mês que se têm acentuado as notícias sobre as dificuldades por que passa o Grupo Espírito Santo (GES) que, por ignorância ou encomenda, os jornais portugueses sempre trataram como uma questão de rivalidade familiar entre tios e primos, que se transformou numa luta pelo poder. Apesar de aparecerem de vez em quando algumas insinuações a respeito dos seus negócios menos claros, a solidez do GES e do seu banco eram glorificadas pelos jornais e pelos jornalistas, constituindo um marco de absoluta confiança para o cidadão comum. O que corria mal no país era a dimensão exagerada do Estado social, o peso da despesa pública e a legislação laboral demasiado permissiva, para além dos portugueses viverem acima das suas possibilidades. O que corria bem eram os lucrativos grupos financeiros, a venda da dívida pública, as exportações do portas e a partilha de favores e de interesses entre os políticos e a banca. Os poderes públicos instalados em Belém e São Bento alinharam nessa teoria que não era verdadeira e a presença da troika a humilhar-nos e a sua caricata saída limpa que tão celebrada foi pelo coro juvenil do portas, são episódios bem tristes da nossa vida recente.
Afinal, a história parece ser bem diferente daquela que tem sido contada, porque nos últimos dias temos sido surpreendidos com notícias que nos deixam estupefactos e que ainda não entendemos. Os portugueses não têm vivido acima das suas possiblidades, mas alguns portugueses têm acumulado milhões fraudulentamente. Essa é a verdade. Depois das falências do BPN e do BPP, depois das imensas ajudas canalizadas para a banca, depois da vigilância da troika e da maior atenção do regulador, podíamos ter pensado que a ganância da banca arrefecera. Porém, somos agora confrontados com suspeitas de burla, abuso de confiança, falsificação e branqueamento de capitais que envolvem um grupo de referência nacional que era o símbolo da solidez e da confiança. Como é possível ter-se chegado a este ponto de declínio civilizacional em que, para além da promiscuidade entre políticos e banqueiros  e da cobardia e do silêncio da generalidade dos jornalistas, todos os dias somos confrontados e desmoralizados com mais episódios deste impensável abandalhamento. Que mais nos irá acontecer?

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Nem todos podem caber na CPLP

Está a decorrer na cidade de Dili a 10ª Cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), uma organização internacional constituída por países lusófonos que tem por objectivo o "aprofundamento da amizade mútua e da cooperação entre os seus membros". A CPLP  tem sido um projecto entusiasmante que foi criado em 17 de Julho de 1996 por sete países – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. Em 2002, após a sua independência, a CPLP passou a integrar Timor-Leste e, com alguma surpresa, a Guiné Equatorial acaba de ser admitida como seu membro de pleno direito, sob o compromisso de abolir a pena de morte e de promover o uso do português como língua oficial.
Muitas vozes se têm levantado contra esta decisão de integrar na CPLP um país que vive em regime de ditadura, que não respeita os direitos humanos, que mantém níveis de desigualdade extremos e onde nem sequer se fala o português, o que significa um grave e inaceitável desvio dos princípios que estiveram na base da criação desta organização lusófona. Porém, por incompreensível consenso entre todos os membros da CPLP, a Guiné Equatorial foi admitida na organização. Nem Dilma Roussef nem Eduardo dos Santos se quiseram comprometer directamente com esta decisão que levanta demasiadas suspeitas de envolver negociatas e interesses obscuros. Outros deram a cara. Desta maneira, a língua portuguesa deixou de ser o elemento de união entre todos os membros da CPLP que, em vez de ser uma comunidade linguística, parece transformada num clube de negócios, no qual o regime e o petróleo de Teodoro Obiang têm muito dinheiro para distribuir. Esperava-se da delegação portuguesa uma atitude de não aceitação deste golpe de ilusionismo, mas o que aconteceu foi uma evidente incapacidade para contrariar o vento dominante. Precisávamos de velejadores mais hábeis, mais competentes e mais inconformados para contrariar o vento dominante e levar a nau a bom porto. Em nome não se sabe de quê, os nossos velejadores atemorizaram-se, calaram-se e o nosso orgulho e a nosssa dignidade levaram mais uma cacetada. O que é que os nossos velejadores lá estiveram a fazer?
Ao fim de 18 anos, o projecto CPLP foi vítima de um grave enviesamento, mas como não fui a Dili fico-me por aqui...