quinta-feira, 8 de março de 2018

O triste fim do navio "Mestre Simão"

O acidente aconteceu no passado dia 6 de Janeiro quando o navio Mestre Simão, de 40 metros de comprimento, fazia a sua entrada no porto da Madalena.
O Mestre Simão, tal como o seu irmão Gilberto Mariano, era o orgulho dos passageiros do canal, ainda a cheirar a novo, bem equipado, moderno e confortável, mas o mar pregou-lhe uma partida. Havia mau tempo no canal e o navio, que fazia a ligação entre a ilha do Faial e a ilha do Pico, terá sido apanhado por uma onda desencontrada que o atravessou e fez perder o governo, sendo atirado para as rochas que orlam a margem sul da bacia de manobra do porto da Madalena. Os setenta passageiros foram retirados sem quaisquer problemas e não houve feridos, mas o navio ficou preso às rochas, provavelmente muito aguçadas.
A autoridade marítima, a seguradora do navio e o armador Atlânticoline, desenvolveram esforços para esclarecer o que de facto se passou e para tentar o salvamento do navio. Os dias passaram e todos os esforços para o salvar foram infrutíferos, pelo que o governo dos Açores já anunciou que o Mestre Simão sofreu danos irreparáveis e foi considerado perdido, pelo que foi iniciado o processo de aquisição de um navio semelhante, ao mesmo tempo que foi aberto um concurso internacional para o seu desmantelamento e remoção.
Fui fotografar o navio e senti uma enorme mágoa ao ver aquele símbolo do progresso na ligação entre as ilhas do grupo central açoriano e que me transportou algumas vezes no canal do Faial, ali solitário e moribundo. É mesmo muito doloroso porque, como Fernando Pessoa escreveu na Ode Marítima, um navio tem personalidade e, por isso, não merecia um fim tão triste e tão inglório.

terça-feira, 6 de março de 2018

O enorme imbroglio político da Itália

As eleições legislativas italianas realizaram-se no passado domingo e os resultados foram considerados um cataclismo eleitoral, pois o cenário é muito incerto e poderá dar origem a uma situação de ingovernabilidade, para além de deixar a Europa em sobressalto. Le Télégramme, um jornal francês de Lorient, diz hoje que a Itália está em pleno imbroglio político.
Aconteceu que a coligação de centro-direita liderada por Matteo Salvini e que agrega a Liga do Norte, a Forza Italia de Silvio Berlusconi e outros partidos eurocépticos e populistas, obteve 37% dos votos, enquanto a coligação de centro-esquerda do ex-Primeiro Ministro Matteo Renzi, que é dominada pelo Partido Democrático e tem cariz social democrata, se ficou pelos 22,85% de votos. Entre estas duas coligações, mas com o melhor resultado em termos individuais, aparece o Movimento Cinco Estrelas, liderado pelo jovem Luigi di Maio de 31 anos de idade, eurocéptico, populista e adepto da democracia directa, que foi a força mais votada com 32,68% dos votos.
Ninguém conseguiu os 40% que garantem a maioria absoluta para governar e Matteo Renzi já se demitiu da chefia do seu partido. No meio de tantos partidos e tantas coligações, é mesmo muito difícil antever o que irá acontecer.
Certo é que a Itália está agora dominada por eurocépticos e populistas, uns da anti-política e da democracia directa que não são da direita nem da esquerda tradicionais, outros que estão muito próximos da extrema-direita. Um país fundador da União Europeia parece ter-se unido contra o poder de Bruxelas e estar a alinhar-se com as tendências direitistas e xenófobas da Hungria e da Polónia ou, como alguém escreveu, “é estranho imaginar o governo de Roma mais próximo de Budapeste ou Varsóvia, do que de Paris, Berlim ou Bruxelas”. Os italianos votaram contra as políticas internas de apoio aos emigrantes, mas também contra as medidas impostas por Bruxelas que têm empobrecido o país, havendo muita gente que, por toda a Europa, teme um Brexit italiano, que a acontecer seria certamente mais grave do que aquele que foi decidido em Londres.

segunda-feira, 5 de março de 2018

A nova pátria catalã chama-se Tabarnia

Muitos jornais espanhóis, sobretudo os mais conservadores como o ABC, noticiam hoje com grande destaque as manifestações havidas ontem em Barcelona a favor da independência da Tabarnia.
A Tabarnia é um neologismo criado a partir das palavras Tarragona e Barcelona, cujo território corresponde a uma parte do litoral da região autónoma da Catalunha e que agrega várias comarcas das províncias de Tarragona e de Barcelona, que maioritariamente não são independentistas e querem continuar a ser espanholas. Esse território seria constituído pela Alta Tabarnia ou área de influência de Barcelona e pela Baixa Tabarnia ou área de influência de Tarragona.
Para uns, este movimento que defende a independência da Tabarnia pretende “recuperar a soberania do antigo Condado de Barcelona” mas, para outros, apenas pretende opor-se aos movimentos soberanistas e ridicularizá-los. Os milhares de pessoas que ontem se manifestaram nas ruas de Barcelona contra o procés independentista, em boa verdade estavam a defender que a Catalunha continue a ser uma comunidade autónoma de Espanha e, repetidamente, afirmaram que os independentistas estavam a conduzir a Catalunha para um desastre e que as suas intenções são uma loucura.
Os partidos constitucionalistas espanhóis não apoiam este movimento a favor da Tabarnia, mas o facto é que ele até tem bandeira e que vem ganhando adeptos. A sua manifestação foi diferente das habituais manifestações e procurou ridicularizar os independentistas e a desconcertante conjuntura política que vive a Catalunha. Foi a favor de uma Espanha unida e parece ter sido apenas isso, mas muitos cidadãos tomaram-na a sério. O futuro dirá se a Tabarnia é, ou não é, uma coisa a considerar.

domingo, 4 de março de 2018

Navios naufragados = Património cultural

Realizaram-se recentemente nas águas do estreito de Sunda duas cerimónias de homenagem aos marinheiros - 353 australianos e 693 americanos - que pereceram no afundamento dos cruzadores HMAS Perth e USS Houston, que foram atacados por torpedos japoneses no dia 1 de Março de 1942.
Nessa cerimónia relatada pelo jornal The Jakarta Post, participaram as Marinhas americana, australiana e indónésia para evocar as vítimas desses afundamentos, mas a cerimónia também deu lugar a importantes declarações e compromissos no sentido de serem preservados todos os destroços de navios naufragados que estão assinalados nos mares indonésios. No caso do Perth e do Houston, tem havido incursões não autorizadas de mergulhadores que se têm dedicado ao furto de cobre, de equipamentos e de outros achados de valor histórico e arqueológico. Embora a lei indonésia estabeleça que os objectos, em terra ou no mar, com mais de cinquenta anos e com significado histórico, devam ser classificados de interesse cultural e devam ser protegidos do roubo, não tem havido a necessária acção das autoridades, não só na Indonésia, mas também um pouco por todo o mundo.
O estreito de Sunda separa as ilhas indonésias de Samatra e Java e liga o mar de Java ao oceano Índico, sendo reconhecido como um importante cemitério de navios, não só da 2ª Guerra Mundial mas também, provavelmente, do tempo em que os portugueses navegavam naqueles mares, sobretudo no século XVI, antes de serem afastados pelos holandeses da VOC. A preservação desses locais marinhos e a conservação dos destroços dos navios naufragados, não é apenas uma memória histórica e um património de interesse cultural, mas é também uma fonte essencial para os estudos de arqueologia naval.

sábado, 3 de março de 2018

Os “estranhos” navios que visitam Bilbau

A edição do jornal El Correo, que se publica em Bilbau, destaca na sua edição de hoje, uma notícia que informa que nos molhes de Santurtzi se encontram dois navios, cuja presença no porto de Bilbau classifica como “sorpreendentes estampas marineras”.
De acordo com a notícia o submarino Walrus pediu para fazer uma escala em Bilbau por razões técnicas e para descanso do pessoal. Trata-se de um dos quatro submarinos da classe Walrus da Royal Netherlands Navy, a única classe de submarinos holandeses actualmente ao serviço, cujas unidades prestaram durante muitos anos serviços à NATO em operações de vigilância das frotas russas no mar do Norte e no mar Mediterrâneo.
O outro navio que se encontra em Santurtzi é o M/Y Bob Barker, um antigo navio quebra-gelos de 52 metros de comprimento, que está registado em Roterdão. Este navio é propriedade da Sea Shepherd Conservation Society, tem a sua base no porto de Hobart, na Tasmânia, e dedica-se à luta contra os baleeiros, sobretudo japoneses, sendo conhecido em todo o mundo até pela sua camuflagem inspirada naquela que foi usada durante a 1ª Guerra Mundial.
O porto de Bilbau não figura entre os dez mais movimentados portos espanhóis e os molhes de Santurtzi não costumam ser visitados por outros navios que não sejam pesqueiros, pelo que a presença de um submarino e de um navio ecologista, ambos hasteando a bandeira holandesa, provocou muita curiosidade e gerou alguma especulação.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Putin responde a Trump e o mundo treme

Ontem, em Moscovo, o presidente Vladimir Putin fez o discurso do estado da nação perante deputados, senadores e outros dignitários russos, tendo anunciado o reforço da sua capacidade militar, a posse de novas armas sem paralelo no mundo e proclamado a actual superioridade militar da Rússia. A imprensa mundial de referência destacou hoje esse discurso e, diversos jornais internacionais, como por exemplo o espanhol El País, ilustraram a notícia com a mesma fotografia em que a imagem de Putin projectada no fundo da sala aparece sobreposta à assistência. A fotografia tem algum simbolismo a lembrar um poder semelhante ao antigo poder dos czares, porque Vladimir Putin tem dominado a política russa desde o ano de 2000 e tem conseguido reerguer o prestígio internacional da Rússia, depois da humilhação que se seguiu à queda da União Soviética. Com 65 anos de idade, Putin espera não só conseguir pela quarta vez mais um mandato de seis anos nas eleições de 18 de Março como espera, também, reforçar o seu poder pessoal ao prometer um futuro radioso para a Rússia. Durante o seu discurso, foram passados seis vídeos sobre as novas armas russas, incluindo uma nova geração de armas nucleares, um míssil de cruzeiro classificado como invencível e um torpedo nuclear que, segundo foi afirmado, pode vencer todas as defesas americanas. Para alguns observadores, o discurso de Putin teve por objectivo a agitação das paixões nacionalistas russas neste tempo pré-eleitoral, mas para outros significou um certo regresso ao passado e ao neo-keynesianismo militar do tempo da guerra fria, em que russos e americanos disputaram entre si a posse de mais e melhores aviões, fragatas, submarinos, tanques, mísseis, bombas, torpedos e ogivas nucleares.
Trump e Putin parece terem reentrado nessa antiga disputa, o que é bem preocupante.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Um português de sucesso na Florida

O diário el Nuevo Herald que se publica em Miami e que é o segundo jornal em espanhol mais lido nos Estados Unidos, destaca hoje na sua primeira página que “Carvalho se puede ir a Nueva York”.
Este homem que o jornal destaca é Alberto M. Carvalho, nascido em Lisboa e criado no Bairro Alto, que emigrou ilegalmente para a América. Chegou a Nova Iorque com 17 anos e sem saber inglês, trabalhou nas obras, lavou pratos em restaurantes e estudou. Hoje, com 53 anos de idade, é o português mais conhecido na Florida e um dos maiores especialistas em Educação nos Estados Unidos. Desde 2008 exerce a função de superintendente das Miami-Dade County Public Schools, o quarto maior distrito escolar dos Estados Unidos, ocupando um cargo que é uma espécie de Ministro da Educação de uma área onde vivem 5 milhões de pessoas, com a responsabilidade por cerca de 346 mil alunos e por 52 mil professores e funcionários.
A sua reputação é muito elevada, não só na Florida, mas também nos Estados Unidos. Já aconselhou inquilinos da Casa Branca republicanos e democratas, sobre a sua área de especialidade e, em 2014, a American Association of School Admimistrators elegeu-o, entre 15 mil superintendentes, como o National Superintendent of the Year.
Ontem foi anunciado que Alberto Carvalho foi escolhido por Bill de Blasio, o influente Mayor de Nova Iorque, para ocupar o cargo de chancellor of the New York City Department of Education, isto é, para dirigir as escolas da cidade. O jornal ainda não sabia se Carvalho tinha aceitado o convite, mas insinua que ele se prepara para partir para a Big Apple para, mais tarde, entrar na vida política e candidatar-se a um lugar no Congresso dos Estados Unidos. Com o percurso já percorrido, é bem possível.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Stop fire in Syria

Vasco Gargalo: Stop fire in Syria (Fonte: cartoonmovement.com)
Estão decorridos sete anos desde que começou a guerra na Síria ou, como por vezes se vai dizendo, as várias guerras da Síria.
No terreno e após sete anos de brutalidade e de tragédia não há vencedores, mas há apenas os sinais da violação dos direitos humanos, da morte e da destruição sistemática de um país, para além de uma consolidação do poder da Rússia na região. Apesar de todos os seus esforços, as Nações Unidas não têm conseguido parar a guerra e abrir o caminho a uma paz duradoura. Não é difícil perceber quem são os principais responsáveis por esta prolongada crueldade, que está a utilizar os sírios para satisfação das suas ambições geopolíticas, mas tem sido mais fácil condenar Bashar el-Assad e ignorar as responsabilidades. dos grandes dirigentes mundiais ou dos líderes dos países vizinhos. A diplomacia internacional tem sido ineficaz, ao contrário das suas agências noticiosas e da sua propaganda que procuram mostrar que, naquela tragédia, há uns protagonistas que são os bons e outros que são os maus, quando na realidade são todos muito maus. Lembremo-nos do que aconteceu em Kobane, Palmyra, Allepo, Racca e, agora, em Afrin e Ghouta, em que a manipulação da informação é feita sempre no mesmo sentido, através da utilização de imagens de forte impacto emocional. A utilização do poder dos mass media prolonga e alimenta todas as guerras através da manipulação das opiniões públicas. Essa é uma realidade que já vem pelo menos desde a 1ª Guerra Mundial. 
O cartoonista Vasco Gorgulho utilizou o seu talento e criou um cartoon bem esclarecedor, em que o secretário-geral das Nações Unidas procura apanhar a multiplicidade de bombas que caem na Síria, estando rodeado por estilhaços das bombas sírias, americanas, sauditas, russas, israelitas, turcas e iranianas, faltando-lhe ainda as bombas dos curdos, dos libaneses do Hezbollah, dos mercenários islâmicos do Daesh e outras mais. São bombas a mais e todas são igualmente devastadoras, quer sejam exibidas ou não nas televisões. Parem com todas elas!

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Ilhas perdidas e saudades de Moçambique

O semanário moçambicano Domingo destaca na sua última edição uma notícia relativa a um sururu na ilha de Kiriyanhuli, no distrito de Macomia, província de Cabo Delgado. Nos tempos coloniais conheci essa ilha muito bem. Chamava-se Quero-Niuni e era pouco mais do que um areal desabitado, com duzentos ou trezentos metros de comprimento máximo, com alguma escassa vegetação e um enorme banco que a envolvia e que em baixa-mar descobria algumas centenas de metros de corais.
Segundo a notícia, terá havido uma autorização provisória dada pelo governador da província de Cabo Delgado para que a empresa Durr Mozambique, Lda, que pertence a um deputado moçambicano, ocupe a ilha e ali instale um aldeamento turístico, em associação com investidores sul-africanos.
Esse tipo de investimentos tem sido usual em muitas das três dezenas de ilhas do arquipélago das Quirimbas, pois as suas condições turísticas são excepcionais, com extensos areais, águas límpidas, coloridos corais e variada fauna marítima. Nas ilhas maiores, não tem havido incompatibilidade entre a existência dos aldeamentos ou dos resorts turísticos e as aldeias que nelas existem, nem entre os turistas e os ilhéus. Porém, no caso desta ilha que é pequeníssima, parece haver uma disputa entre os que querem uma exploração turística e aqueles que não abdicam de continuar a viver na sua aldeia formada nos últimos anos, a partir da qual se dedicam à pesca. Não há espaço para as duas realidades e os pescadores reagiram. Daí o sururu.
O facto é que uma notícia relativa a um areal de duzentos ou trezentos metros de extensão nos evoca memórias de um outro tempo e nos desperta saudades de umas ilhas paradisíacas.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Barcelona: um jantar para o diálogo?

Começa hoje em Barcelona o Mobile World Congress (MWC), a primeira grande feira de tecnologia da temporada e o palco de lançamento de alguns dos mais aguardados smartphones do ano, apresentados pela Samsung, Huawei, LG, Nokia, Sony e outros fabricantes. Da mesma forma, estarão no evento as maiores operadoras telefónicas mundiais, como sucede com a Orange, a Vodafone e a Telefónica, entre outras.
O MWC2018 espera receber 108 mil visitantes provenientes de cerca de duas centenas de países e prevê-se um impacto económico de 471 milhões de euros, pois os hotéis e os restaurantes vão estar cheios e já foram criados 13 mil postos de trabalho temporários. É um evento de grande importância nacional e para a economia e a reputação da cidade de Barcelona. Por isso, o rei Filipe VI decidiu visitar a MWC2018 e dar-lhe o seu apoio institucional, para além de se mostrar aos participantes.
Os tempos não estão nada fáceis para o poder de Madrid e para o símbolo da unidade da Espanha que é o Rei, mas Filipe VI não hesitou e foi a Barcelona, provavelmente porque sentiu ser esse o seu dever. Os principais poderes locais – Parlamento da Catalunha e Alcaldesa de Barcelona – não o receberam na entrada da feira, o que foi um acto descortês e de grande hostilidade política, mas que parece não ter impressionado o Rei.
Porém, havia o jantar em honra dos participantes na MWC2018 e todos perceberam que o boicote ao Rei punha em risco a continuidade da MWC em Barcelona, que acontece desde 2006. Então, aconteceu o insólito: o Rei Filipe VI, a vice-presidente do governo central Soraya Sanchez de Santamaria, o presidente do Parlamento catalão Roger Torrent e a alcaldesa de Barcelona Ada Colau sentaram-se na mesma mesa. Era a realpolitiks a funcionar. Não sei se conversaram, mas todos os grandes jornais espanhóis publicaram a fotografia dessa mesa. Oxalá que esse jantar e essa fotografia possam ser uma porta aberta para o diálogo que é tão necessário na Catalunha.

Pyeongchang 2018 foi uma grande festa

Terminaram os Jogos Olímpicos de Inverno e todos os participantes merecem felicitações, embora no aspecto desportivo uns mereçam mais do que outros. É o caso de Marit Bjørgen, uma esquiadora norueguesa de Trondheim que, aos 37 anos de idade, se tornou na atleta que mais medalhas olímpicas conquistou nos Jogos de Inverno: uma medalha em Salt Lake City 2002, uma medalha em Turim 2006, cinco medalhas em Vancouver 2010, três medalhas em Sochi 2014 e, agora, cinco medalhas em Pyeongchang 2018. Exactamente 15 medalhas, das quais 8 de ouro! É obra.
A Noruega foi a grande vencedora desportiva em Pyeongchang ao conquistar 39 medalhas, o que se tornou num novo record. No ranking das medalhas olímpicas aparecem 28 países e, depois da Noruega, está a Alemanha com 31 medalhas, o Canadá com 29, os Estados Unidos com 23 e, com grande surpresa, a Holanda com 20 medalhas.
De facto, surpreende como os atletas de um país sem montanhas alpinas e sem neve nem gelo, conseguem ganhar vinte medalhas olímpicas e classificar-se em 5º lugar numa hipotética “classificação geral das nações”. O jornal De Telegraaf, o maior diário holandês com uma circulação média diária de 800 mil exemplares, na sua edição de hoje homenageou os olympische helden (heróis olímpicos, segundo o nosso amigo Google).
Para além dos aspectos desportivos, os Jogos de Pyeongchang tiveram um outro grande vencedor que foi a Coreia do Sul, não só pela qualidade da sua organização mas, sobretudo, pela possibilidade que abriu ao diálogo com a Coreia do Norte, que o mesmo é dizer, a um entendimento que conduza à paz na península coreana e ao desanuviamento internacional na Ásia Oriental.
Nesse aspecto simbólico, ainda se está para perceber por que razão os Estados Unidos se fizeram representar na cerimónia de encerramento por Ivanka Trump, como se fosse a princesa herdeira de Donald I. Seguem-se os Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim 2022.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Os novos ventos que sopram na Catalunha

Diversos jornais espanhóis destacam hoje os resultados de uma sondagem realizada pelo Centro de Estudos de Opinião (CEO) da Generalitat da Catalunha que revela que, desde o passado mês de Outubro, o apoio à independência catalã desceu de 48,7% para 40,8%, isto é, caiu oito pontos, enquanto os que não apoiam a conversão da Catalunha num Estado independente subiram de 43,6% para 53,9%, isto é, aumentaram dez pontos.
Em Outubro, quando o ideal independentista encheu as ruas de Barcelona e de outras cidades catalãs, o apoio à independência situava-se no record histórico de 48,7%, mas com o fiasco da DUI (declaração unilateral de independência), com a aplicação do artigo 155º da Constituição espanhola, com a prisão de vários dirigentes soberanistas e a fuga de outros para o estrangeiro, com os resultados das eleições de 21 de Dezembro e com os sinais pouco animadores que a economia vai apresentando, os catalães parecem agora menos entusiasmados com a independência. Porém, apesar do maior partido da Catalunha ser o Ciudadanos, o independentismo tem a maioria absoluta no Parlamento catalão, ocupando 70 dos seus 135 lugares.
A sondagem do CEO, que é feita regularmente desde Maio de 2006, revela que 36,3% dos catalães querem uma comunidade autónoma como a que tem existido até agora, que 32,9% querem um Estado independente, que 19,4% querem um Estado dentro de uma Espanha federal e que 6,6% desejam que a Catalunha seja apenas uma região da Espanha. Portanto, algo está a mudar na Catalunha e Oriol Junqueras já é mais popular que Puigdemont.
O jornal La Razón escolheu o título “descalabro independentista” e o El País destacou que “modelo autonómico actual é o preferido”, enquanto o ABC escolheu para a sua capa uma imagem do muro independentista catalão a desfazer-se.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A percepção da corrupção na Lusofonia

A Transparência Internacional acaba de publicar o seu Corruption Perceptions Index 2017, mas a generalidade da imprensa internacional continua sem valorizar este indicador. Este ano, porém, o jornal brasileiro O Liberal que se publica em Belém, no Pará, chamou a atenção para o facto de o Brasil ter caído 17 posições no ranking desse indicador da corrupção, passando da sua “metade menos corrupta” para a sua metade “mais corrupta”.
Embora esse índice não possa ser tomado como um valor absoluto, ele permite saber que a Nova Zelândia e a Dinamarca disputam o título de “mais honesto país do mundo”, mas também permite que se façam algumas comparações e se analise a sua evolução. Assim, tratamos de aqui fazer uma análise do que se passa, em termos relativos, nos países onde se fala português.
Verificamos que Portugal está na 29ª posição mundial e que melhorou ligeiramente desde 2012 quando ocupava a 33ª posição. No ranking mundial aparecem depois Cabo Verde na 48ª posição e S. Tomé e Príncipe na 64ª posição, mas enquanto Cabo Verde tem um retrocesso pois em 2012 ocupava a 39ª posição, já S. Tomé e Príncipe melhorou nos últimos cinco anos, pois ocupava a 72ª posição. Timor Leste tem um significativo progresso pois passou da 113ª posição em 2012 para a 91ª posição em 2017, isto é, melhorou 22 posições!
Segue-se o Brasil que desceu 17 posições num ano e que, desde 2012, desceu 27 lugares, ocupando agora a 96ª posição. Finalmente, na lista de 180 países, encontramos Moçambique (153º), Angola (167º) e Guiné-Bissau (171º) que, nos últimos cinco anos, têm descido no Índice da Percepção da Corrupção.
Note-se que cada país recebe uma pontuação entre 0 (correspondente a alto grau de corrupção) e 100 (correspondente a baixo grau de corrupção) e que, em 2017, mais de dois terços dos 180 países avaliados tiveram nota abaixo de 50.
Portanto, a corrupção e a sua percepção nos países lusófonos não são nada animadoras.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

PyeongChang resgata o orgulho francês

A França é um grande país e, entre outras coisas, devemos-lhe a revolução de 1789 de que emergiu o fim do feudalismo e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, sintetizada nos princípios da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, mas também muitos avanços na Ciência e na Cultura.
Porém, depois de Waterloo e da queda de Napoleão, a França tem acumulado grandes humilhações nos conflitos militares em que se tem envolvido, por exemplo, com os ingleses, os alemães, os vietnamitas e os argelinos. Apesar disso, o desenvolvimento económico, científico e cultural da França continua a ser um marco civilizacional, enquanto a cidade de Paris permanece como um farol que inspira meio mundo.
Hoje, com o fenómeno desportivo a tornar-se uma medida do prestígio das nações, a França também procura a sua afirmação internacional através do desporto, exibindo muitas vezes um chauvinismo desconcertante, como se A Marselhesa e o seu grito “aux armes citoyens” pudesse por si só dar-lhes triunfos desportivos. Por isso, apanham muitos baldes de água fria, como aconteceu em 2016 com a profunda desolação que sofreram quando foram derrotados pela equipa portuguesa na final do Campeonato da Europa de Futebol ou com a enorme mágoa que sentem porque, desde a vitória de Bernard Hinault em 1985, não vêem um seu compatriota vencer o Tour de France.
Nestes dias, porém, os franceses encontraram em PyeongChang um novo ídolo para resgatar o seu orgulho nacional. Martin Fourcade, que foi porta-bandeira da França no desfile inaugural em PyeongChang é, até agora, o mais medalhado atleta nos Jogos Olímpicos de 2018, pois ganhou três medalhas de ouro em provas do biatlo. Como ganhara duas medalhas de ouro em 2014 nos Jogos de Sochi, Fourcade tornou-se o mais medalhado atleta francês de todos os tempos, quer nos jogos de inverno, quer nos jogos de Verão. Toda a imprensa francesa louvou o novo ídolo e La Dépêche du Midi de Toulouse, a região de onde Fourcade é natural, é apenas um exemplo da euforia francesa. Curiosamente, das 14 medalhas já ganhas pelos franceses em PyeongChang, houve uma medalha de prata que foi ganha por uma tal Júlia Pereira de Sousa...

Afinal a guerra na Síria ainda não acabou

Depois de várias semanas de acalmia no território sírio, em que se pensava que a guerra se aproximava do seu fim em resultado da aparente derrota das forças do Daesh e do também aparente controlo da maior parte do território pelo regime de Bashar el-Assad, a guerra parece ter recomeçado, agora sem o Daesh, mas com sírios, iranianos, turcos, curdos, russos e outros mais, incluindo alguns americanos.
No norte do país, na região fronteiriça sírio-turca de Afrin, as forças governamentais de Bashar el-Assad foram em auxílio das forças curdas que estavam a ser atacadas pelos turcos desde há vários dias, com o pretexto de que não querem curdos nas suas fronteiras. Há notícias que indicam que as forças sírias recuaram ou que terá havido negociações, mas há outras que afirmam que o combate entre turcos e sírios, ou entre Bashar el-Assad e Recep Erdoğan, ainda não começou mas está eminente, o que a acontecer significa um preocupante agravamento da guerra civil síria que, recorde-se, já dura há sete anos. Porém, há muita propaganda ou contra-informação sobre Afrin.
No sul  da Síria, as notícias também são muito preocupantes. Nos arredores de Damasco, o enclave de Ghouta onde vivem cerca de 400 mil pessoas e que continua sob o controlo das forças de oposição ao regime sírio, tem sido alvo de bloqueio por parte do regime de Bashar el-Assad que impede a chegada de combustíveis, alimentos e medicamentos. Além disso, nos últimos dias começaram intensos bombardeamentos para acabar com "os rebeldes de Ghouta", tal como aconteceu em Allepo, que têm provocado centenas de mortes e que já são referidos como “o massacre do século XXI”. Porém, tal como em Afrin, há muita propaganda ou contra-informação sobre Ghouta.
O que não há dúvida é que estamos perante mais uma catástrofe humanitária e há quem diga que já não é uma guerra, mas um massacre. As Nações Unidas apelaram a um cessar-fogo imediato em Ghouta e em Afrin, mas parece que ninguém ouviu esse apelo, nem mesmo a imprensa internacional, pois são muito poucos os que tratam este assunto. The Guardian é uma das poucas excepções.