sexta-feira, 4 de maio de 2018

O fim da ETA e o tempo novo no Euskadi

A Euskadi Ta Askatasuna, mais conhecida pela sigla ETA, que lutou durante cerca de seis dezenas de anos pela independência do País Basco, anunciou ontem a sua dissolução definitiva e muita gente respirou de alívio, embora a generalidade da imprensa e dos partidos políticos critique o comunicado de dissolução por esquecer as vítimas.
A ETA nasceu em 1959 como uma organização de defesa da cultura basca, mas alguns anos depois tinha evoluido para uma organização paramilitar separatista que pegou em armas para conquistar a independência de uma região histórica cujo território se distribui entre a Espanha e França.
Ontem em Genebra e perante “diferentes personalidades”, dois históricos militantes da ETA – Josu Urrutikoetxea ou ‘Josu Ternera’ e Soledad Iparraguirre ‘Anboto’ leram uma “Declaración final de ETA al Pueblo Vasco”, em castelhano, basco e francês, em que a organização socialista revolucionária basca de libertação nacional informou o fim da sua trajectória política e militar e o total desmantelamento de todas as suas estruturas. Para trás ficaram 853 mortos e mais 6.389 feridos pelas acções da ETA, além das vítimas associadas aos 79 sequestros praticados pela organização.
Porém, os “sobreviventes” da ETA prometem continuar a sua luta pelo ideal da independência do País Basco, em termos semelhantes ao que está a acontecer com “el procés” na Catalunha, mas existe a convicção de que depois de seis décadas de perturbação e de terrorismo, ninguém vai querer ouvir falar desta gente durante muitos anos. Aliás, os títulos dos jornais espanhóis são unânimes na condenação do triste final da ETA, que foi derrotada e que enegreceu ainda mais o seu historial, mostrando uma enorme frieza e falta de vergonha ao ignorar as suas vítimas, como denuncia El Diário Vasco de Bilbau.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Um bom exemplo de ligação a Portugal

O primeiro-ministro António Costa está no Canadá numa visita oficial de quatro dias que termina no dia 5 de Maio e que o levará às cidades de Otava, Toronto e Montreal. O primeiro-ministro viaja acompanhado do presidente do governo regional dos Açores e, para além da aproximação das relações com as autoridades canadianas, esta visita vai permitir um contacto directo com a grande comunidade portuguesa que vive no Canadá.
São 450 mil portugueses ou luso-descendentes, na sua maioria de origem açoriana, que habitam sobretudo nas províncias orientais do Ontário (Toronto e Otava) e do Quebeque (Montreal).
A natureza multicultural do Canadá tem permitido que as comunidades estrangeiras conservem muitas das suas matrizes culturais e daí resulta que é o país que, embora não pertença à CPLP é, provavelmente, o país do mundo onde se publicam mais jornais impressos em português. Na cidade de Toronto são regularmente publicados o Sol Português e o Correio da Manhã, mas também com menos regularidade o Voice, o ABC, o Nove Ilhas e o Portugal Ilustrado, enquanto na cidade de Montreal se publica A Voz de Portugal, o mais antigo semanário de língua portuguesa do Canadá que foi fundado no dia 25 de Abril de 1961, mas também O Açoriano.
Alguns destes jornais, caso de A Voz de Portugal, anunciaram a visita do primeiro-ministro português com grande destaque e publicaram a sua fotografia, numa prova da sua exemplar ligação afectiva a Portugal. De resto, um dos vereadores do Toronto City Council é Ana Bailão, nascida em Vila Franca de Xira e que emigrou para o Canadá com 15 anos de idade.
Há visitas e visitas, assim como há comitivas e comitivas, mas esta visita oficial ao Canadá e à comunidade portuguesa é amplamente justificável, como se pode observar na maneira como a imprensa portuguesa do Canadá saúda o primeiro-ministro de Portugal.

A imortalidade do genial Pablo Picasso

A edição portuguesa da National Geographic do mês de Maio que foi agora distribuida dedica uma parte do seu conteúdo a Pablo Picasso, o pintor malaguenho que se tornou numa das mais importantes figuras da arte do século XX.
A sua vida e a sua obra revelam um homem genial que desafiou o seu tempo com inovadoras concepções estéticas, atitude cultural e militância política.
A sua obra está hoje um pouco por todo o mundo mas, com a ajuda do amigo Google, fui saber quais eram os melhores museus para ver a obra de Picasso e verifiquei que os principais se encontram na Europa e, alguns deles aqui bem perto, em terras espanholas.
E, para que conste, aqui vai a lista dos melhores museus para ver a obra de Picasso, selecionada pelo amigo Google:

1. Museu Picasso em Barcelona, Espanha;
2. Museum Sammlung Rosengart em Lucerna, Suiça;
3. Musée Picasso em Antibes-Côte d’Azur, França:
4. Museo Picasso em Málaga, Espanha;
5. Musée National Picasso em Vallauris-Côte d’Azur, França;
6. Musée Picasso em Paris, França;
7. Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid, Espanha;
8. Museum Ludwig, em Colónia, Alemanha.

Não sou crítico de arte, mas tenho um sentido estético suficiente para apreciar a arte e para gostar ou não gostar do que vejo. No caso de Picasso já tive o privilégio de contemplar algumas das suas maiores obras, nomeadamente o Guernica que vi em Nova Iorque e em Madrid, mas também algumas outras obras da sua pintura que têm sido apresentadas em exposições temporárias realizadas em Lisboa. O meu apreço pela obra de Picasso é um quase deslumbramento, de resto como acontece quando vejo e me delicio a ver a obra de outros génios, como foram Amadeo, Almada ou Vieira da Silva.

terça-feira, 1 de maio de 2018

As feiras e a hipocrisia dos políticos

Termina hoje a 35ª edição da Ovibeja e, de acordo com o que nos mostram as televisões, aquilo foi a passagem de modelos do costume, embora sem os jovens modelos que costumam desfilar pelas passerelles, mas com aquelas figuras que deambulam pela vida política e que aparecem nestas coisas para serem vistos e talvez para arranjar mais uns votos, até porque qualquer dia vamos ter eleições e há que procurar manter o estatuto, até porque a vida política não é nada desconfortável. Naturalmente que nem a cidade de Beja, nem a organização desta iniciativa que tanto anima e prestigia o Alentejo, têm a culpa.
A realidade é que a Ovibeja criou raízes como feira e como festa, que atrai visitantes e que mobiliza uma cidade e uma região e o facto é que não há figura política que se esqueça de ir a Beja e, se possível, falar para a televisão. Porém, o que interessa a essa gente é apenas aparecer, ser vista e ter microfones por perto, para além de nunca dispensar uma corte de fiéis figurantes à sua volta. É sempre assim. Aborrece e cansa. A feira propriamente dita, enquanto motor impulsionador das actividades agrícolas e agro-pecuárias alentejanas e amostra  do desenvolvimento tecnológico e da investigação científica aplicada, não lhes interessa nada. Nem os colóquios temáticos, nem os espectáculos e outras manifestações culturais lhes interessam.
A cidade de Beja não pode proibir esta gente de visitar a Ovibeja mas, no mínimo, devia desaconselhar esses políticos a fazê-lo, sobretudo aqueles que continuam a seguir o exemplo do Paulinho das feiras que, afinal, só gostava das feiras enquanto foi político. As feiras são, em última instância, um terreno fértil para a hipocrisia dos políticos, como se viu na Ovibeja que hoje encerra.

domingo, 29 de abril de 2018

A arquitectura é inovação e é polémica

A SNCF possui alguns terrenos disponíveis no centro da cidade de Toulouse pelo que decidiu convidar arquitectos e projectistas para apresentarem um projecto para a ocupação daquele espaço. O venceder do concurso foi Daniel Libeskind, um arquitecto americano de origem polaca, que apresentou uma proposta para a construção de um arranha-céus com 150 metros de altura e com 40 andares, a ocupar por escritórios, lojas e uma centena de residências, além de um restaurante panorâmico e um hotel da cadeia Hilton. O edifício foi de imediato baptizado como a Torre Occitania, em homenagem a esta região administrativa do sueste da França.
O projecto destina-se à transformação do centro da cidade e assenta na transformação da actual estação ferroviária de Toulouse-Matabiau num grande centro multimodal, que racionalize as funções ferroviárias com outras funções urbanas e ficará integrado no espaço urbano do Canal do Midi, que a UNESCO classificou como Património da Humanidade.
A área total de construção será de 30 mil m2 num terreno de 2.200m2 e as fachadas serão de vidro, com uma sucessão de terraços em cada andar que formarão uma fila vegetal a envolver o edifício.
A cidade de Toulouse é conhecida pelas suas ruas históricas e planas e, por isso, a construção deste edifício confronta-se com um movimento de oposição denominado “Non au gratte-ciel de Toulouse, collectif pour un urbanisme citoyen”, que tem como lema “Tour d’Occitanie: non merci!”. Os promotores do projecto querem começar a obra em 2019 para que possa ser inaugurada em 2022, mas os  oponentes contestam o projecto pela sua altura e por não ter sido democraticamente discutido com a população que vai ser afectada no seu modo de vida por esta obra. Hoje, o jornal Midi Libre de Montpellier edita um caderno especial sobre este projecto que, por ser inovador, também é polémico.

sábado, 28 de abril de 2018

A paz que se deseja na península coreana

Há poucos meses o mundo assistia preocupado à realização de testes nucleares e ao ensaio de mísseis de médio e longo alcance norte-coreanos, sempre acompanhados pelos ameaçadores discursos de Kim Jong-un, ao mesmo tempo que via Donald Trump responder àquela ameaça com o envio de porta-aviões para os mares da Coreia e com a promessa de “fogo e fúria”, em apoio do seu aliado sul-coreano Moon Jae-in.
Porém, no passado mês de Fevereiro vieram os Jogos Olímpicos de Inverno realizados em PyeongChang e a aproximação entre as duas Coreias começou a acontecer quando na cerimónia de abertura as equipas dos dois países desfilaram sob a mesma bandeira. Tal como acontecera noutros locais e noutras circunstâncias, a diplomacia desportiva deu frutos e o facto é que, dois meses depois, os presidentes Moon Jae-in e Kim Jong-un se encontraram na passada sexta-feira na Zona Desmilitarizada da Coreia. 
Desde que em 1953 se chegou ao cessar-fogo na guerra civil que dividiu a península coreana, este foi apenas o terceiro encontro entre os dois países e o primeiro ao mais alto nível. Segundo refere a imprensa e as televisões mostraram, o encontro começou com um longo aperto de mão entre Moon e Kim e terminou com um abraço caloroso. Entre esses gestos houve muita cordialidade e humor e, sobretudo, a assinatura de um acordo em que se abriu uma nova era de paz e de negociações para o início da desnuclearização da península da Coreia.  
Não é preciso ser especialista nestes assuntos para compreender a importância deste encontro para as duas Coreias e para o mundo, depois de 65 anos de tensão e de consumo de recursos e de energias que melhor teriam sido utilizados para promover o bem-estar dos coreanos do norte e do sul.
A China e os Estados Unidos que também combateram na guerra de 1950 a 1953, aplaudiram este encontro e o mundo suspira de alívio ao ver que, se a paz é possível na Coreia, também é possível na Síria e em todas as coreias e sírias que há pelo mundo.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Macron ou um novo Marquês de Lafayette

O Presidente Emmanuel Macron acaba de fazer uma visita oficial aos Estados Unidos e, de acordo com as imagens que foram divulgadas pelas agências noticiosas, o Presidente Donald Trump recebeu-o com grande proximidade e simpatia.
Não admira esta paixão repentina. O Donald precisa de ter amigos e nada melhor do que um compatriota do Marquês de Lafayette, o francês que foi um dos braços direitos de George Washington na Revolução Americana, enquanto com esta visita o Emmanuel aproveita esta oportunidade para brilhar, mesmo que tenha que esquecer o que há tempos disse do Donald quando ele denunciou os acordos de Paris. É a realpolitik e o preço foi apenas o lançamento de uns mísseis contra a Síria.
Naturalmente, o Donald e o Emmanuel foram as vedetas desta visita oficial e abraçaram-se, beijaram-se e apareceram em público de mãozinha dada, como hoje mostra a edição do The Independent. O diário The Times escolheu para título "La grande séduction" e escreveu-o em francês. Nem a Melania, nem a Brigitte, lhes chegaram aos calcanhares, apesar de terem aparecido exuberantes, com vestimentas novas e do melhor que os mais famosos costureiros produzem.
Os dois presidentes têm pouco em comum, mas cada um deles serviu-se do outro. Depois do apagado François Hollande, a França tem agora um Macron inteligente e ambicioso a querer liderar a Europa, embora não pareça que os franceses gostem desta amizade. Vamos agora esperar para ver como é que os parceiros europeus de Macron e a própria opinião pública francesa vão reagir a esta sua inesperada atracção pelo trumpismo.

Viva o 25 de Abril e a nossa liberdade

A poesia está na rua por Maria Helena Vieira da Silva
Perfazem-se hoje 44 anos sobre “a madrugada que eu esperava” e o “dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio”, como escreveu Sophia de Mello Breyner, um dia que foi recebido com muito entusiasmo e alegria por milhões de portugueses e foi aplaudido pela comunidade internacional.
Depois de um longo consulado de isolamento internacional, de um regime autoritário que perseguia os cidadãos e de uma guerra que trouxe dor e sofrimento a muita gente e deixou marcas profundas na sociedade, o país acordou de um sono profundo e de um enorme pesadelo. Desde então Portugal tem caminhado em frente, por vezes com alguma turbulência, mas sempre amarrado aos ideais da liberdade e da democracia que conquistara em 1974.
Passados 44 anos há que reconhecer que "as portas que Abril abriu", segundo a inspirada expressão de José Carlos Ary dos Santos, tudo mudaram e quase tudo mudaram para melhor. Tem sido um tempo de constante mudança e de muito progresso. Os portugueses têm sabido acompanhar os ventos da História e absorveram muitas das conquistas civilizacionais da Humanidade, sobretudo na saúde, na educação, na cultura e, de uma forma geral, na qualidade de vida.
Naturalmente, há muito para fazer e a lista das coisas por fazer é tão grande que nem me atrevo a enunciá-la aqui, embora saliente que me merecem mais atenção a segurança e a protecção das pessoas, o envelhecimento do país, a desertificação do interior, a defesa da natureza e do ambiente, a melhoria na saúde e na educação e a urgente necessidade de corrigir a justiça-espectáculo em que poucos acreditam.
Numa Europa de nações e de hegemonias regionais que se atropelam, apesar de todas as contrariedades que nos afectam enquanto país pequeno e periférico, os portugueses têm sabido conquistar um espaço de reconhecimento que só foi possível com a Liberdade e a Democracia que o 25 de Abril nos trouxe.
Por isso, comemoremos o 25 de Abril como um marco indelével da nossa História.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Macau sob os olhares atentos da América

Os americanos gostam de se meter em tudo o que se passa no mundo, como se tivessem a obrigação de o regulamentar e de o policiar ou, dito de outra maneira, entendem que o que é bom para a América é bom para o mundo. Para justificar essa ideia, a edição do hojemacau apresenta na sua capa a imponente fachada das ruinas do Colégio de S. Paulo, com a Estátua da Liberdade a espreitar...
Isto vem a propósito do mais recente relatório sobre os direitos humanos no mundo divulgado pelo Departamento de Estado norte-americano, que aponta aoterritório de Macau alguns problemas de direitos humanos, nomeadamente algumas restrições à liberdade de imprensa e à liberdade na vida académica, certas limitações na capacidade política dos cidadãos e, ainda, sobre tráfico humano.
O chefe do executivo macaense Fernando Chui Sai rejeitou os comentários contidos no referido relatório que classificou de “irresponsáveis” e afirmou que os asuntos nele tratados são “assuntos internos da China”.
Segundo o governo de Macau, nos termos da Constituição e da Lei Básica, estão garantidos ”os amplos direitos e liberdades, gozados pela população da RAEM”, mas em Washington há perspectivas diferentes. Um dos aspectos focados refere-se à autocensura dos jornalistas, mas esse é um problema universal dos mass media, isto é, o chamado jornalista independente tende a desaparecer para ser substituido por quem satisfaça a vontade do patrão ou do patrocinador.
O Departamento de Estado também refere que os académicos macaenses têm sido desencorajados ou impedidos de estudar ou falar sobre tópicos controversos relacionados com a China e salienta as limitações à participação política dos cidadãos. Outros aspectos citados no relatório são as desigualdades salariais entre homens e mulheres e a vulnerabilidade dos mais jovens e dos migrantes ao trabalho forçado e à prostituição. Porém, apesar das críticas, o documento saúda a atitude do governo de Macau relativamente a investigações feitas por organizações locais ou internacionais, sustentando que “operam sem restrições” e que, “na maioria das vezes, as autoridades cooperam e reagem de forma apropriada às suas opiniões”.

domingo, 22 de abril de 2018

A enorme insegurança pública no Brasil

Sob o título E agora, Brasil?, o diário Folha de S. Paulo iniciou ontem uma série de grandes reportagens sobre temas importantes para a sociedade brasileira, em que apresenta estatísticas, diagnósticos e propostas para reflexão dos seus leitores e da sociedade brasileira.
A primeira dessas reportagens é excelente, versou o tema da segurança pública e essa prioridade justifica-se: o Brasil é hoje o país com o maior número de homicídios do mundo e em 2016 foram contabilizadas 61.283 mortes, que é um número próximo da média anual de mortos na guerra civil da Síria. A violência e o desemprego constituem actualmente duas das maiores preocupações dos brasileiros, mas também das autoridades que, para atenuar o problema, se decidiram desde 16 de Fevereiro por uma intervenção federal na área da segurança pública e do combate à violência e à criminalidade no Estado do Rio de Janeiro.
O Brasil é reconhecido como um recordista mundial de mortes violentas e sete pessoas são assassinadas em cada hora. A taxa média brasileira de homicídios por grupo de 100 mil habitantes chegou a 29,7 em 2016, que é praticamente o triplo do padrão considerado aceitável no mundo, mas esse índice não é uniformemente distribuído. As enormes assimetrias regionais brasileiras também se verificam nos índices de criminalidade, porque enquanto no Estado de S. Paulo se verificam cerca de 10 homicídios por 100 mil habitantes, no Estado de Sergipe, no outro extremo do Brasil, ocorreram 64 mortes por 100 mil pessoas em 2016.
O Brasil também está entre os países com menor taxa de esclarecimento dos homicídios o que significa impunidade, por falta ou por ineficiência das investigações policiais. Em média, apenas são esclarecidos cerca de 15% dos assassinatos que acontecem no país, enquanto esses índices atingem números bem diferentes no Reino Unido (90%), na França (80%), nos Estados Unidos (65%) e na Argentina ( 45%).
Perante este quadro, entre outras interrogações, o jornal pergunta: investir nas polícias ou na redução das desigualdades socio-económicas brasileiras?
Daqui do outro lado do Atlântico observamos o Brasil a que nos ligam tantos afectos e não deixamos de ficar preocupados nem de torcer para que a situação social melhore.

sábado, 21 de abril de 2018

Sobre a língua portuguesa em Macau

Quando no dia 20 de Dezembro de 1999 se verificou a transferência da soberania de Macau para os chineses, já tinha entrado em vigor o decreto-lei nº 101/1999/M que consagrava as línguas portuguesa e chinesa como línguas oficiais e com a mesma dignidade na Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China. Embora a língua portuguesa nunca tenha tido uma difusão significativa durante os cerca de 442 anos em que os portugueses administraram o território de Macau, a partir de 1999 os cidadãos portugueses residentes que não dominassem o cantonense ficavam protegidos por aquela lei e podiam ser notificados pelos tribunais na sua própria língua. Porém, segundo revela o jornal hojemacau, a lei tem sido frequentemente ignorada pelos próprios tribunais e pelos juizes, que têm o dever de aplicar as leis, o que se traduz num grande prejuízo para os cidadãos.
A Associação dos Advogados de Macau tem denunciado essa situação que tende a excluir o português do sistema judiciário macaense e a acelerar o processo da sua transformação numa língua morta e alguns advogados até têm denunciado algum fundamentalismo patriótico na utilização da língua chinesa pelos tribunais.
O facto é que, de acordo com a lei, os tribunais são obrigados a comunicar com os arguidos numa língua que eles entendam e não é aceitável que uma sentença relativa a um cidadão português seja comunicada em língua chinesa.
Porém, o que está a acontecer só pode admirar quem não conhece o que foi a história da insignificância da língua portuguesa em Macau. Custa aceitar que a língua portuguesa seja lançada no caixote do lixo como sugere a imagem do hojemacau, mas o que tem que ser sempre teve muita força...

Trump e o poder pessoal acima do partido

Os Estados Unidos são, sob os mais diferentes pontos de vista, a maior potência do planeta. Esse facto é impressionante, sobretudo quando pensamos que a sua independência aconteceu há pouco mais de duzentos anos e que em finais do século XIX ainda as caravanas corriam para ocupar a costa oriental do continente, o chamado Far West. Pois esse país tem um presidente eleito e o actual é Donald Trump.
Nos últimos dias, algumas revistas internacionais de referência como The Economist, a Time e o Der Spiegel trouxeram Donald Trump para as suas primeiras páginas. A primeira foi a revista Time que, ainda antes dos bombardeamentos da Síria, mostrava uma imagem do Donald envolvido num temporal de vento, chuva e mar revolto e uma simples legenda: stormy. Depois, os alemães da revista Der Spiegel utilizaram a imagem de um Donald a incendiar o mundo, perante a apreensão de Angela Merkel e de um Emmanuel Macron empunhando um extintor, com a pergunta: quem vai salvar o ocidente?
Finalmente, a revista The Economist apresenta uma imagem na sua capa que sugere como tem evoluido o símbolo do Partido Republicano, que passou do tradicional elefante até ao rosto do próprio presidente e pergunta o que é que aconteceu ao partido.
Segundo a revista, o Partido Republicano está cada vez mais organizado em torno de um homem e da lealdade a esse homem, salientando que isso é perigoso. Naturalmente, os melhores presidentes da América também exigiam lealdade, mas faziam-no em nome de um princípio ou de uma visão, mas o Donald exige lealdade a ele mesmo e à enorme volatilidade das suas ideias. A revista acrescenta que todos os presidentes mentiram, intimidaram e atropelaram as normas presidenciais, mas nenhum foi tão longe como o Donald.
Porém, o problema não é só dos americanos que têm que conviver com um figurão destes que, no mesmo dia, tanto ameaça como abraça, homens como Kim Jong-un ou Vladimir Putin. O problema é que, como vimos recentemente, o Donald arrasta consigo alguns líderes europeus.

terça-feira, 17 de abril de 2018

A mesquinhez dos nossos deputados

Apesar de ter deixado de ser o que foi durante muitos anos, o semanário Expresso por vezes revela-nos assuntos de interesse, como agora aconteceu ao noticiar que os deputados das ilhas dos Açores e da Madeira, recebem uma compensação fixa de 500 euros por semana para viajar entre a sua residência nas ilhas e a capital, sem precisar de apresentar quaisquer comprovativos.
Os deputados têm uma remuneração mensal fixa de 3624 euros, ou de 3994 euros quando não têm outra actividade, mas a essa retribuição somam vários outros subsídios e despesas a que estatutariamente têm direito. E são muitas. No caso dos deputados que não vivem na área metropolitana de Lisboa, como acontece com os deputados das ilhas, eles têm direito a uma ajuda de custo de 69,19 euros por cada dia de trabalho no Parlamento. Ao fim do mês é muito dinheiro e bem sabemos como muitos destes servidores públicos pouco servem, para além de levantar o braço quando há votações.
Acontece que no contexto da redução dos custos da insularidade, os residentes das ilhas dos Açores e da Madeira podem beneficiar do Subsídio Social de Mobilidade que lhes permite pagar apenas 134 ou 86 euros por cada viagem de ida e volta das ilhas para o continente. Basta ir aos CTT, apresentar o respectivo comprovativo da viagem e logo se recebe o diferencial entre o valor que foi pago e os referidos 134 ou 86 euros.
Apesar da sua gorda retribuição que os coloca no topo dos mais bem pagos servidores públicos portugueses, a maioria dos deputados das ilhas não abdica de se aproveitar do  Subsídio Social de Mobilidade e, a maioria deles, para além de receber 500 euros fixos por semana, ainda vai aos CTT sacar o diferencial entre o que pagaram na sua viagem e os 134 ou 86 euros definidos como tecto para os residentes das ilhas.
Não sei se é legal ou não que os deputados possam receber duas vezes pelas suas viagens e onerem duplamente os contribuintes portugueses, mas é seguramente um caso de falta de ética, de mesquinhez e de ganância que os envergonha a todos e que, a mim, me dá vómitos ou vontade de rir. Nem sei. 

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Um rescaldo da ofensiva militar na Síria

A ofensiva militar dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França contra alvos sírios é um bom exemplo da complexidade da vida internacional e do poder que os mass media têm sobre as opiniões públicas (que votam e escolhem governos). Por isso, é muito difícil saber a verdade, tanto mais que o ataque ocorreu poucas horas antes dos peritos da Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ) iniciarem a sua investigação quanto à veracidade ou encenação do ataque químico que aconteceu em Douma. Um ataque químico do regime de Bashar el-Assad faria pouco sentido numa altura em que os "rebeldes" já estavam derrotados pelos soldados governamentais e pelos seus aliados russos. Assim,  há que desconfiar de tudo isto, até por uma questão de bom senso.
Parece, portanto, que os mísseis deveriam ter esperado pelos resultados da investigação da OPAQ e que, tanto Emmanuel Macron como Theresa May, não deveriam ter ido a reboque do impulsivo Donald, que o ex-director do FBI vem agora dizer que “é moralmente inapto para ser presidente”. Porém, os mísseis foram disparados e, dois dias depois, uma parte da história considera que a acção foi um êxito, enquanto a outra parte afirma ter sido um insucesso. Quem mente mais? Será o Donald que afirma ter sido uma vitória e que a missão foi cumprida, ou serão os russos de Putin que afirmam que dos 110 mísseis lançados houve 71 que foram interceptados pela defesa aérea síria e que os 12 mísseis que foram lançados sobre a base aérea de Dumayr foram todos abatidos?
Macron entusiasmou-se com os mísseis e aproveitou para ser pôr em bicos de pés, mas já percebeu que isso lhe pode trazer dissabores políticos internos pelo que já veio afirmar que não declarou guerra à Síria, como se os mísseis franceses levassem farinha em vez de alto-explosivo.
Theresa May também está atrapalhada porque quis agradar ao Donald sem ter apoio interno para isso, já que apenas 28% dos britânicos apoiaram a sua iniciativa, enquanto 36% a reprovaram, segundo uma sondagem publicada pelo The Independent. Jeremy Corbyn, o líder da oposição, já lhe declarou guerra e parece que o assunto não vai ficar por aqui, a lembrar a história de Tony Blair e a mentira sobre as armas de destruição maciça de Sadam Hussein que destabilizaram o Médio Oriente e o mundo.

Uma semana de festa rija em Sevilha

Começou no sábado quando eram 24 horas e só vai terminar às 24 horas do próximo sábado, isto é, a Feria de Abril ou Feria de Sevilla decorre exactamente durante uma semana e vai dar origem a um excepcional movimento de gente na cidade capital da Andaluzia.
A feira está considerada como Fiesta de Interés Turistico Internacional e tem um enorme impacto económico, social e cultural na cidade de Sevilha, mas também em toda a Comunidade Autónoma da Andaluzia, pois recebe diariamente cerca de 500 mil visitantes. Um dos pontos altos da feira é o programa tauromáquico oferecido pela praça de touros da Real Maestranza de Caballería, com quinze corridas de touros e sete novilhadas, mas a feira oferece muitas outras animações e uma grande diversidade gastronómica servida por inúmeros restaurantes, bares e bodegas, em que se destacam os vinhos brancos tradicionais da região, como o fino de Jerez de la Frontera e a manzanilla de Sanlúcar  de Barrameda, que foi celebrizada pela Carmen, a famosa ópera de Georges Bizet.
A feira também é uma quase “passagem de modelos”, com uma extensiva apresentação do trajo típico andaluz, tanto masculino como feminino. Este, é muito exuberante e é conhecido por traje de flamenca, apresentando-se com uma grande variedade de cores e de desenhos.
A edição sevilhana do jornal ABC destaca hoje a fotografia de duas sevilhanas em traje de flamenca, junto da Portada de la Feria de Abril, um ex-libris da feira que todos os anos é diferente, mas que é sempre imponente.
Sevilha não está longe da fronteira portuguesa e, por certo, não faltarão portugueses a divertir-se no recinto da feira que também é uma festa.