terça-feira, 12 de junho de 2018

Os refugiados abalam a coesão europeia

No passado sábado foram resgatadas 629 migrantes que faziam a travessia do Mediterrâneo, em seis operações nas quais participaram unidades da ilha de Lampedusa, três navios mercantes e a ONG SOS Mediterrâneo. Essas pessoas foram recolhidas no Aquarius, um pequeno navio registado em França e que pertence àquela organização não governamental. Porém, as autoridades italianas proibiram o navio de atracar num porto italiano e pediram a Malta que recebesse esses migrantes porque o navio estava mais próximo de Malta do que da costa italiana, mas o governo de Malta recusou e atribuiu essa responsabilidade aos italianos. Estava criado um impasse, com dois estados-membros da União Europeia a recusarem o auxílio humanitário a que os obriga a lei internacional e a terem um comportamente absolutamente desumano e contrário à política da União Europeia, por deixarem à deriva um navio numa situação muito precária.
Porém, ontem o impasse foi desbloqueado quando Pedro Sánchez, o primeiro-ministro espanhol, se ofereceu ontem para que o navio fosse acolhido no porto de Valência. Os chefes de governo de Itália, Giuseppe Conte, e de Malta, Joseph Muscat, agradeceram o gesto espanhol, enquanto Matteo Salvini, que é o ministro do Interior de Itália e que também é o líder do partido nacionalista e xenófogo Liga Norte, gritou “vitória” e “objectivo alcançado”, declarando que “salvar vidas é um dever, mas transformar a Itália num enorme campo de refugiados, não”.
Os jornais espanhóis, como por exemplo o ABC, tratam hoje este assunto com fortes elogios ao seu novo primeiro-ministro. O facto é que, a somar a muitos outros problemas que atravessam a Europa e a sua coesão, o caso do Aquarius e as declarações xenófobas de Salvini vieram lembrar que o problema dos refugiados continua por resolver.

domingo, 10 de junho de 2018

O Donald até sonha ser o rei da América

Nos últimos dias o presidente dos Estados Unidos tem andado nas primeiras páginas dos jornais e nas aberturas dos telejornais, não só pelo seu previsto encontro com Kim Jong-un em Singapura mas, sobretudo, pela forma como se tem afirmado perante o mundo.
Na sua corrente edição, a revista Time analisa a sua faceta de extrema arrogância e ridiculariza-o, ao mostrá-lo perante um espelho a mostrar a sua postura de aspirante a rei do mundo que se quer ver coroado.
A reunião do G7, isto é, o encontro dos sete países mais industrializados do mundo que se realizou no Canadá e que visou melhorar as regras do comércio internacional, não correu bem. O assunto é complexo e os americanos e os europeus estão em acesa discussão. Alguns dos líderes presentes na reunião enfrentaram o Donald, ao mesmo tempo que denunciaram as suas constantes ameaças de guerra comercial. Angela Merkell e Emmanuel Macron “levantaram a voz” ao Donald, tal como Justin Trudeau, o jovem primeiro-ministro do Canadá. O Donald parece que não gostou e abandonou a reunião, sem ter assinado o seu comunicado final.
Um antigo director da CIA classificou as atitudes prepotentes e provocatórias do Donald como palhaçadas que estão a abalar o prestígio americano no mundo e pediu paciência aos aliados e amigos dos Estados Unidos, porque Donald Trump é "uma aberração temporária".
Chegou-se ao ponto de desejar que Kim Jong-un tenha a paciência própria dos orientais para travar este indivíduo que, cada vez mais, entende que pode impor a sua vontade a tudo e a todos.

A festa do Dia de Portugal e de Camões

Hoje, dia 10 de Junho, é o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, um dia que assinala a morte do poeta Luís de Camões e que também é considerado como o Dia da Língua Portuguesa e como o Dia do Cidadão Nacional e das Forças Armadas. É uma data que se celebra com a presença dos mais altos dignitários nacionais e que inclui cerimónias oficiais, desfiles militares, concertos e entrega de condecorações aos portugueses que mais se distinguiram.
O palco das cerimónias oficiais que antigamente era em Lisboa no Terreiro do Paço, há muito que se tornou itinerante e, desde 1977 que, por escolha do Presidente da República, é designada uma cidade para acolher as comemorações oficiais. Em 2016 Marcelo Rebelo de Sousa teve a ideia de escolher duas cidades, uma no país e outra no estrangeiro, para que as comemorações se estendessem às comunidades portuguesas. Assim, as comemorações tiveram lugar em Lisboa e em Paris e, no ano seguinte, foram escolhidas as cidades do Porto e as cidades brasileiras do Rio de Janeiro e de S. Paulo. Este ano, o Presidente da República escolheu Ponta Delgada e as cidades americanas de Boston, Providence e New Bedford, no estado de Massachusetts, onde as comunidades portuguesas estão profundamente inseridas.
Embora o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas não desperte grande interesse popular em Portugal e quase seja ignorado pelos mass media, nas comunidades portuguesas é um grande dia de festa, em que os portugueses afirmam a sua identidade e manifestam o orgulho na sua nacionalidade, na sua língua, na sua bandeira e na suas tradições culturais, através de inúmeras iniciativas. A capa do jornal A Voz de Portugal, que se publica desde 1961 em Montreal, no Quebeque, e que é o mais antigo semanário de língua portuguesa do Canadá, é expressiva do entusiasmo com que o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas é festejado no estrangeiro. Mas para perceber isto é preciso viver ou ter vivido longe daqui.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Mulheres dominam no governo espanhol

No passado dia 1 de Junho, o governo de Espanha chefiado por Mariano Rajoy (PP) foi destituído na sequência da aprovação de uma moção de censura apresentada no Parlamento pelo Partido Socialista Obrero Español (PSOE). Nos termos constitucionais, o líder do partido que conseguiu a aprovação da moção de censura tornou-se automaticamente chefe do governo ou primeiro-ministro. Pedro Sanchez é, por isso, o novo primeiro-ministro de Espanha.
O resultado final da votação foi de 180 votos a favor, 169 contra e uma abstenção e, após a a votação, Mariano Rajoy saiu do seu lugar e dirigiu-se a Pedro Sanchez para o cumprimentar, como novo primeiro-ministro. A aprovação desta moção de censura é um momento histórico em Espanha, uma vez que o PSOE só tem 84 de um total de 350 deputados (24%), mas conseguiu os votos necessários para afastar Mariano Rajoy, com apoio do Unidos Podemos, dos nacionalistas bascos e dos independentistas catalães. É uma mistura muito complexa, de muito duvidosa coesão e, portanto, de durabilidade incerta.
Ontem Pedro Sanchez levou os nomes dos seus ministros ao Rei Filipe VI e depois anunciou-os em conferência de imprensa, com um discurso em que afirmou progressismo, europeismo, modernização e compromisso com a igualdade. O seu governo tem um presidente e 17 ministros, entre os quais 11 mulheres. Nunca houve na Europa um governo tão feminino e, hoje, o diário La Razón destaca esse facto e titula: consejo de "ministras". Os primeiros sinais de Pedro Sanchez foram muito apreciados, não só por apostar no feminino, mas também pelas suas escolhas mais técnicas que políticas, como sucede com Josep Borrell, o antigo presidente do Parlamento Europeu, com Nadia Calvino que era Directora-Geral da Comissão Europeia e responsável pelo orçamento comunitário e, até, com o astronauta Pedro Duque.
Consta que Pedro Sanchez se inspirou na solução portuguesa e o facto é que, à partida, tem um apoio parlamentar de apenas 24% dos deputados, pelo que vai precisar de muita habilidade. O mais certo é ter que preparar eleições.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Mais um caso de pouca vergonha

As manchetes dos jornais destinam-se a chamar a atenção das pessoas, a suscitar o seu interesse e a fazer com que comprem os jornais. Têm, quase sempre, uma certa dose de sensacionalismo e, por vezes, nem sequer correspondem a factos verdadeiros e não passam de meras especulações. Porém, como diria o poeta António Aleixo, “para a mentira ser segura e atingir profundidade tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade”. Nesse sentido, mesmo as mais sensacionalistas manchetes têm sempre qualquer coisa de verdade e, por isso, a repetida frase que nos diz que uma imagem vale mais que mil palavras, bem pode dar origem a uma curiosa derivação e talvez possamos passar a dizer que uma manchete vale mais do que mil palavras. 
Isto vem a propósito da manchete da edição de hoje do jornal i que vem dizer-nos que as ajudas aos bancos custaram o equivalente a 23 Pontes Vasco da Gama. Ficamos absolutamente arrepiados com essa informação e com essa pouca vergonha, só possível pelas cumplicidades e pela promiscuidade que tem havido entre a Banca e a Política. Sabemos que a banca arranjou muitos empregos aos políticos e aos protegidos dos políticos, que distribuiu milhões em dividendos aos accionistas e outros tantos milhões em remunerações e prémios aos seus incompetentes ou desonestos gestores que continuam a andar por aí. Sabemos como os quadros superiores da banca continuam a disfrutar de benesses e mordomias como mais nenhum outro sector de actividade usufrui em Portugal. E, no entanto, nada muda e vivemos nesta angustiante realidade em que os contribuintes pagam os prejuízos da banca, enquanto ela absorve os lucros que tem e que não tem.
É ou não é uma pouca vergonha?

Um caso de pouca vergonha

O Expresso anunciou na sua última edição que o ex-banqueiro Jardim Gonçalves ganhou a acção que moveu contra o Millenium BCP no Tribunal de Sintra e vai continuar a receber a pensão de reforma de 167.000 euros mensais que vem recebendo desde 2005, mais as despesas em segurança, carro e motorista que o banco suspendera em 2010, mas que o tribunal agora obrigou a pagar retroactivamente e que já atingem 2.124.000 euros.
O banco tem procurado chegar a acordo com todos os antigos administradores para aceitarem a redução do valor das suas reformas e das suas regalias e todos terão aceite as propostas do banco, excepto Jardim Gonçalves que se reformou em 2005 quando tinha 69 anos de idade.
O senhor Gonçalves é um caso verdadeiramente inacreditável de ganância e de obscenidade social, que choca qualquer criatura, mas a que o tribunal foi indiferente. O juiz cedeu aos argumentos de um bom advogado e ter-se-à agarrado a uma qualquer lei para achar justa uma reforma mensal de 167 mil euros, num país onde o salário mínimo não chega aos 600 euros. O meretíssimo que produziu a sentença ofendeu o bom senso e a racionalidade, lesando os contribuintes portugueses que, directa ou indirectamente, pagam todos os devaneios do senhor Gonçalves. Não sei o que diz a lei, mas este caso parece mesmo um caso de uma terra fora da lei.
É mesmo um caso de pouca vergonha!

terça-feira, 29 de maio de 2018

O enorme imbróglio da política italiana

As eleições legislativas italianas que se realizaram no dia 4 de Março e que elegeram 630 deputados, não gerou nenhuma maioria clara até que, recentemente, o populista Movimento 5 Estrelas liderado pelo jovem Luigi Di Maio e a nacionalista Liga Norte dirigida por Matteo Salvini, chegaram a um acordo de governo e indigitaram Giuseppe Conte para primeiro-ministro. Este formou o seu governo e nele incluiu o economista Paolo Savona como ministro da Economia.
Só que o presidente da República, Sergio Mattarella, decidiu não aceitar Paolo Savona por ser declaradamente anti-europeu e, com o seu veto, o indigitado primeiro-ministro decidiu renunciar à indigitação. A crise política ficou aberta e há acusações de todos os lados, pelo que o mais provável caminho para a Itália será a marcação de novas eleições. Os dois partidos mais votados nas eleições de 4 de Março, com cerca de 50% dos votos, foram o Movimento 5 Estrelas e a Liga Norte. São movimentos que o L’Espresso classificou como “política sem rosto”, pois são ambos populistas, eurocépticos e mais ou menos regionalistas. É difícil perceber, fora da Itália, o que representa cada um destes movimentos e porque razão ganharam tanta força em tão pouco tempo. Neles não tem sentido a tradicional separação entre esquerda e direita e das suas inesperadas posições podem sair propostas muito destabilizadoras sobre a permanência na União Europeia e na Zona Euro, mas também sobre a própria unidade política da Itália.
Com ou sem eleições, ninguém sabe o que vai acontecer, mas a preocupação é grande. Os italianos estão mesmo perante um grande imbróglio.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

CR7 ocupa a agenda mesmo sem golos

A equipa de futebol do Real Madrid ganhou a Liga dos Campeões da UEFA pela 13ª vez, o que é um feito desportivo notável e, dessa maneira, consolidou a sua liderança no futebol europeu, onde o Milan (com 7 vitórias) e o Barcelona, Bayern e Liverpool (com 5 vitórias), são os seus maiores rivais.
A festa madrilena foi grande, mas a sorte também foi muito grande porque na final disputada em Kiev, o guarda-redes Loris Karius que defendia a baliza do Liverpool teve uma exibição demasiado infeliz e “ofereceu” dois golos ao Real Madrid. Foram essas duas “ofertas” de Karius e os dois golos obtidos pelo galês Gareth Bale, um dos quais com elevada nota artística, que deveriam ter marcado aquela final. Aconteceu, porém, que Cristiano Ronaldo, o maior goleador da história da Liga dos Campeões da UEFA e que acabava de ganhar a prova pela 5ª vez, teve uma exibição vulgar e não marcou golo nenhum. Acontece a todos. Quando o jogo terminou, Cristiano até parecia ausente da festa e esteve apagado. Provavelmente não se sentiu no centro das atenções. Provavelmente amuou. Interpelado por um jornalista, tratou de dizer que “foi muito bonito jogar no Real Madrid”, o que foi interpretado como um pré-aviso de saída para outra equipa. Com aquela frase, espontânea ou premeditada, “marcou um golo” já depois do fim do jogo e inverteu os acontecimentos. Os jornais esqueceram os golos de Bale, as defesas de Navas, a lesão de Mohamed Salah, os frangos de Karius, o golo de Benzema e concentraram-se na declaração de Cristiano Ronaldo. Hoje, o diário desportivo Marca pede-lhe que fique, exactamente como fazem outros jornais espanhóis e o momento desportivo espanhol já não é a vitória do Real Madrid, mas apenas o futuro de Cristiano Ronaldo.
CR7 é um verdadeiro mestre em agenda-setting!

domingo, 27 de maio de 2018

Macau vai ter a maior ponte do mundo

É a maior ponte do mundo! Começou a ser construída em 2009, já está concluída e vai assegurar a ligação entre as três principais regiões administrativas do sul da China ou as três grandes cidades no delta do Rio das Pérolas, isto é, Hong Kong, Zhuhai e Macau. Tem cerca de 50 quilómetros de extensão e consiste numa série de três pontes suspensas e um túnel submarino de 6,7 quilómetros, além de três ilhas artificiais. Nestas ilhas haverá uma zona de controlo de fronteiras, parque de automóveis e áreas de lazer.
Chama-se Ponte Hong Kong - Zhuhai - Macau ou, mais simplesmente, Ponte HZM e espera-se que seja aberta ao tráfego rodoviário dentro de um mês, embora o jornal hoje macau anuncie que a inauguração está sem prazo à vista.
É um mega-projecto de engenharia e os chineses querem mostrar ao mundo que também são capazes nestas áreas tecnológicas. Por agora, o problema parece ser o movimento de viaturas e a gestão do tráfego, estando estabelecidas quotas para limitar o número de veículos que circularão na ponte. No caso de Macau, estão autorizadas 600 quotas para veículos macaenses autorizados a circular de Macau para Hong Kong ou Zhuhai, isto é, procura-se evitar que por um qualquer imprevisto a ponte fique congestionada por tráfego intenso e inesperado, o que significa que não vai ser possível a um qualquer cidadão macaense dizer para a família ou para os amigos: "Metam-se no carro. Vamos almoçar a Hong Kong".

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A futebolização do nosso quotidiano

O futebol é uma arte e eu gosto muito desse espectáculo artístico, isto é, daquilo que se passa “dentro das quatro linhas”, onde me regalo a ver as fintas do Messi, os remates do Ronaldo ou das defesas do Casillas.
Porém, os interesses não artísticos do futebol invadiram a nossa sociedade e essa invasão é preocupante por ser um símbolo de mediocridade cultural e de retrocesso civilizacional, até porque a futebolização é particularmente activa na política e nos mass media.
A política está cada vez mais futebolizada e os pequenos políticos que querem subir nos aparelhos partidários não largam o futebol e fazem tudo o que consta na check-list do adepto, isto é, usam cachecóis, gritam, oferecem jantares aos presidentes dos clubes, sentam-se nos camarotes dos estádios e fazem-se comentadores futebolísticos. Estão em toda a parte e, muitas vezes, com absoluta falta de bom senso. Por este andar, a Assembleia da República ainda acaba por substituir os actuais grupos parlamentares  por novos grupos parlamentares em representação do Benfica, do Sporting, do Porto e de outros clubes.
Os mass media e, em especial as televisões, estão completamente futebolizados e contratam dezenas de comentadores que passam horas a fio a dizer o mesmo sobre o mundo que envolve o futebol, as contratações, as lesões, os treinos e os humores dos jogadores, mais os penaltis e os árbitros, os cartões e as agressões. É um massacre constante, a que não faltam gritos, insultos e ameaças de agressão.
Agora apareceu essa figura menor, essa espécie de Nicolas Maduro do futebol português e, sem que se perceba porquê, temos as televisões a dar horas e horas do seu tempo de antena a esta criatura menor e aos inúmeros comentadores que se atropelam à entrada das estações televisivas, muitos deles sem a menor noção do ridículo. Uma tristeza e uma lástima.

A corrupção que fez tremer a Espanha

A Audiência Nacional, que é um tribunal com jurisdição sobre todo o território e a principal instância penal espanhola, condenou ontem 29 dos 37 acusados no processo Gürtel a 351 anos de prisão. A Espanha naturalmente tremeu e muitos espanhóis ficaram em estado de choque, mas muitos outros também ficaram aliviados.
O caso Gürtel refere-se a uma rede de corrupção política ligada ao Partido Popular (PP) que era encabeçada pelo empresário Francisco Correa Sánchez, uma figura da alta sociedade de Madrid, tendo sido baptizado como Gürtel, a tradução alemã de Correa, talvez porque quando as coisas foram detectadas Francisco Correa tinha um estatuto de intocável e ninguém queria associar o seu nome a este caso.
A investigação foi iniciada em finais de 2007 e só agora houve sentença. Apurou-se que, durante muitos anos, nos municípios e comunidades autónomas governados pelo PP, eram adjudicados inúmeros serviços a empresas ligadas a Francisco Correa, a troco de subornos e presentes de elevado valor. Os lucros assim obtidos eram canalizados para contas secretas e paraísos fiscais às ordens do PP. Francisco Correa foi considerado o cabecilha deste caso e foi condenado a 51 anos de prisão, enquanto Luis Bárcenas, o ex-tesoureiro do partido, foi condenado a 33 anos de prisão e ao pagamento de uma multa superior a 44 milhões de euros, tendo a sua mulher, Rosalia Iglesias, sido condenada a uma pena de 15 anos de prisão. Ao todo, houve 29 condenações com 351 anos de cadeia. Uma bomba em Espanha!
Como hoje refere o El País, o PP foi condenado e a credibilidade de Mariano Rajoy, o líder do PP, está de rastos. Aproxima-se, portanto, mais uma crise política em Espanha, a juntar às que já por lá viviam.
Não sabemos se este caso teve ou não teve contágio em Portugal, mas ninguém tem dúvidas que muitas adjudicações por aí feitas ao longo dos anos, beneficiaram os amigos de todas as cores, por vezes escandalosamente.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Prémio Camões 2018 foi para Cabo Verde

O escritor cabo-verdiano Germano de Almeida foi galardoado com o Prémio Camões 2018 e o semanário Expresso das Ilhas, que se publica na cidade da Praia, destaca essa notícia na primeira página da sua edição de hoje, homenageando dessa forma o premiado.
O Prémio Camões foi instituído em 1988 pelos governos de Portugal e do Brasil para distinguir os autores que tenham contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa. Desde então houve 13 portugueses, 12 brasileiros, 2 angolanos, 2 moçambicanos e 2 cabo-verdianos que receberam aquele prestigiado prémio e, nessa lista de 31 nomes, figuram por exemplo Miguel Torga, João Cabral de Melo Neto, Vergílio Ferreira, Jorge Amado, Mia Couto, José Saramago, Sophia de Mello Breyner, José Craveirinha, António Lobo Antunes e Manuel Alegre.
Germano de Almeida, o vencedor do Prémio Pessoa 2018, estudou Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e exerce a profissão de advogado na cidade do Mindelo, na ilha de S. Vicente. No campo literário a sua obra é vasta, destacando-se O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, publicado em 1991 e que teve grande êxito internacional. É uma obra que se recomenda vivamente.
Naturalmente, que aqui ficam expressas as minhas felicitações ao autor e a minha congratulação por este prémio ter ido para Cabo Verde, a terra da sôdade, da morna, da coladera e da cachupa.

R.I.P. Júlio Pomar

Ainda se sucediam as justas declarações elogiosas sobre a vida e a obra de António Arnaut, quando fomos surpreendidos pela morte de Júlio Pomar, que nos deixou aos 92 anos de idade e era um dos mais inspirados pintores do modernismo e uma figura fundamental da arte portuguesa.
Ao longo de sete décadas de actividade não foi apenas a arte nas suas múltiplas facetas que o atraiu, pois foi também um democrata convicto e um homem de grande empenho social e político, de que resultou ter sido preso pela PIDE nos anos 1950 e ter passado quatro meses no Forte de Caxias, ao lado de Mário Soares, de quem ficou amigo.
Na sua multifacetada obra destacam-se os temas do erotismo, do fado e da tourada mas, sobretudo, os retratos, em especial os que fez de Fernando Pessoa e de Mário Soares, que figura na galeria dos Presidentes do Museu da Presidência da República. Em 2013 a sua vasta obra foi depositada no Atelier-Museu Júlio Pomar, uma iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa, onde pode ser visitada pelo público.
O percurso artístico de Júlio Pomar e o tempo que viveu em Paris, tornaram-no um ícone da arte contemporânea portuguesa e a sua partida é um momento triste para a cultura portuguesa.
Os principais jornais portugueses prestam-lhe hoje uma justa homenagem nas suas edições, a que me associo.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

R.I.P. António Arnaut

António Arnaut faleceu hoje em Coimbra com 82 anos de idade e com ele desaparece um homem que, como poucos, simbolizava a ética republicana, a integridade cívica e a devoção ao serviço público. Foi um dos fundadores do Partido Socialista e fez parte do pequeno núcleo de cidadãos que em 1973 esteve na reunião fundacional realizada na cidade alemã de Bad Münstereifel, nos tempos em que era precisa muita coragem para desafiar o Estado Novo.
Militou activamente na Oposição Democrática e, depois do 25 de Abril, foi deputado à Assembleia Constituinte e Ministro dos Assuntos Sociais no II Governo Constitucional presidido por Mário Soares e é considerado o criador do Serviço Nacional de Saúde, uma das mais importantes conquistas da democracia portuguesa. Depois da sua passagem pelo governo voltou à sua actividade profissional de advogado e não ficou pendurado às benesses do Estado, como tantas vezes acontece com os políticos. Escritor e poeta, tornou-se um exemplo de Cidadania e nunca abdicou da defesa da Liberdade, dos direitos sociais e do bem comum. Era presidente honorário do Partido Socialista desde 2016 e o Presidente da República tinha-o justamente agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.
O exemplo de António Arnaut devia ser inspirador para os políticos portugueses e as instituições não deixarão de lhe prestar as homenagens que são devidas ao seu legado político, ao seu exemplo e à sua memória. O dia de luto nacional já anunciado pelo Presidente da República enquadra-se no sentimento de gratidão nacional a António Arnaut.

domingo, 20 de maio de 2018

A China e a sua aposta nos porta-aviões

O primeiro porta-aviões concebido e construído pela República Popular da China acaba de realizar cinco dias de provas de mar e já regressou aos estaleiros de Dalian, no nordeste da China. A notícia e a fotografia do navio apareceram nos maiores jornais chineses, como por exemplo no China Daily.
Actualmente, a Marinha chinesa apenas possui o porta-aviões Liaoning, que pertenceu à classe Kuznetsov da União Soviética e que foi adquirido em 2012, aparentemente para que os chineses pudessem aprender tudo sobre esse tipo de navios e os melhorassem, para que depois os pudessem construir, usar e e vender.
O novo porta-aviões desloca 50.000 toneladas, ainda navega sob o nome Type 001A e, segundo foi anunciado, é uma construção totalmente chinesa. Entretanto, em Xangai já está em construção um terceiro porta-aviões e os planos para construir um porta-aviões nuclear já estão em desenvolvimento.
Trata-se de mais um passo para reforçar a presença chinesa no mar da China e, também, no oceano Índico, onde os chineses já possuem uma base em Djibuti, oficialmente designada como base logística, mas também o porto de Hambantota no Sri Lanka que foi arrendado por 99 anos e o futuro uso do porto estratégico paquistanês de Gwadar, no mar Arábico, que estão a construir.
A China está assim a posicionar-se para dominar o mar da China, controlar Taiwan e disputar com a Índia o domínio do oceano Índico.