sábado, 21 de setembro de 2019

A reconstituição da viagem de 1519-1522

Hoje, na sua edição de Sevilha, o jornal ABC destaca as cerimónias da reconstituição da partida da nau Victoria, cuja réplica largou ontem de Sanlúcar de Barrameda, para repetir a histórica viagem iniciada em 1519 por Fernão de Magalhães e que foi concluída em 1522 por Juan Sebastián de Elcano. Esta viagem que constituíu um acontecimento relevante na história da Humanidade e que é um dos mais curiosos episódios das seculares rivalidades luso-espanholas, enquadra-se no programa do V Centenario de la Primera Circunnavegatión e teve a presença de uma fragata espanhola que, curiosamente ou não, também se chama Victoria.
A Volta ao Mundo de 1519-1522 aconteceu por acaso. A expedição magalhânica tinha como objectivo atingir as ilhas Molucas navegando por ocidente e demonstrar que se situavam no hemisfério castelhano definido pelo Tratado de Tordesilhas. Nas instruções que recebeu do rei Carlos I, era claro que a expedição não deveria entrar no hemisfério português, o que significava que deveria fazer a torna-viagem. Porém, com a morte de Magalhães nas ilhas Filipinas, o seu sucessor decidiu desobedecer e navegar no hemisfério português e atravessar o oceano Índico, tendo chegado ao ponto de partida na foz do rio Guadalquivir em Setembro de 1522. Foi, portanto, uma Volta ao Mundo sem querer, como recentemente escreveu o grande historiador Luís Filipe Thomaz.
A polémica em torno desta viagem continua muito activa e, muita gente, tanto em Portugal como em Espanha, parece abusar de um provincianismo serôdio de rivalidade do tipo das disputas entre Alguidares de Cima e Alguidares de Baixo. O sucesso da viagem organizada e iniciada por Magalhães que Elcano concluíu e a sua importância para a história da Humanidade, não é português nem espanhol. É um sucesso ibérico e, mais do que isso, é um feito civilizacional europeu, ou mais apropriadamente, é um património da Humanidade.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Fernão de Magalhães e a volta ao mundo

Perfazem-se hoje 500 anos sobre o dia em que Fernão de Magalhães largou de Sanlúcar de Barrameda para iniciar a sua viagem para as Molucas, navegando para ocidente em nome do jovem rei Carlos I de Espanha, que subira ao trono em 1516 e que em 1519 se tornou no imperador Carlos V da Alemanha.
Nos cinco navios da expedição – San Antonio, Trinidad, Concepción, Victoria e Santiago – embarcavam 237 homens de muitas nacionalidades, incluindo 64 andaluzes, 31 portugueses, 29 bascos, 26 italianos, 19 franceses, 15 castelhanos, 9 gregos, 7 galegos, 5 asturianos, 5 flamengos e 4 alemães, além de elementos de outras nacionalidades. O veneziano António Pigafetta, que foi o principal cronista da viagem, escreveu no seu diário:
El martes 20 de septiembre partimos de Sanlúcar, navegando con viento de garbino, y el 26 llegamos a una de las islas Canarias, llamada Tenerife, situada en los 28º de latitud septentrional.
Hoje o Diário de Notícias é um dos jornais que evoca essa efeméride histórica.
A viagem constituiu a maior aventura que, até então, foi realizada pelo ser humano. Com base nas informações recolhidas pelas explorações portuguesas na margem ocidental do Atlântico e dos conhecimentos cartográficos do tempo, nomeadamente a carta de Martin Waldseemuller, o obstinado Fernão de Magalhães procurou e encontrou a passagem – o Estreito de Todos-os-Santos, depois chamado Estreito de Magalhães – que ligava o oceano Atlântico ao oceano Pacífico, que percorreu com felicidade entre os dias 1 e 28 de Novembro de 1520.
A expedição, então com três navios apenas, atravessou depois o Pacífico e, no dia 27 de Abril de 1521, Magalhães morreu em combate na ilha de Mactán, nas Filipinas. Algum tempo depois, o basco Juan Sebastián de Elcano assumiu o comando da nau Victoria, navegou para oeste até ao cabo da Boa Esperança e, no dia 6 de Setembro de 1522, chegou a Sanlucar de Barrameda com 18 homens. Sem que esse fosse o seu objectivo inicial, tinham concluído a primeira volta ao mundo.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Made in Iran - sim ou não?

O ataque dirigido contra uma refinaria e um campo de petróleo sauditas que aconteceu no passado sábado, gerou muita instabilidade nos mercados petrolíferos e aumentou a tensão no golfo Pérsico, sobretudo entre os americanos e os iranianos.
Apesar do ataque ter sido reivindicado pelos rebeldes iemenitas houthis, o facto é que a região do Golfo e o Médio Oriente são um complexo puzzle estratégico em que tudo o que acontece tem a mão, mais ou menos invisível, das potências mundiais ou regionais interessadas no petróleo daquelas regiões.
Por isso, meio mundo tratou de responsabilizar o Irão por este sofisticado e cirúrgico ataque que, naturalmente, foi negado pelas autoridades iranianas, apesar do aiatolá Ali Khameni ter pessoalmente aprovado esse ataque. Entretanto, pela voz do secretário de Estado Mike Pompeo, os americanos, responsabilizaram o Irão pelo ataque e afirmam ter-se tratado de um acto de guerra. Porém, Vladimir Putin apelou à comunidade internacional para que não retire conclusões precipitadas sobre a origem do ataque e declarou estar pronto a ajudar a Arábia Saudita, nomeadamente através do fornecimento de sistemas de mísseis antiaéreos russos para defender o seu território, tal como fizeram o Irão e a Turquia que adquiriram os sistemas S-300 e S-400, respectivamente.
No meio deste jogo de acusações e de suspeitas, os sauditas trataram de juntar os destroços de um drone, de um míssil de cruzeiro e de alguns rockets, tendo o jornal New York Post escolhido o título “Made in Iran” e ilustrado a sua capa com uma fotografia das armas de ataque reconstruídas a partir dos destroços e que, segundo o jornal, incrimina os iranianos.
O assunto vai continuar na agenda internacional e não é isento de grandes preocupações.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Sauditas e iranianos em vias de confronto

Há uma grande refinaria e um campo de exploração petrolífera a arder na Arábia Saudita, em consequência de um ataque ocorrido no passado sábado em que foram lançados dez drones contra a refinaria de Abqaiq e o campo de Khurais. Estes ataques já foram reivindicados pelos rebeldes iemenitas houthis, mas os americanos não acreditam nessa declaração e acusam o Irão de estar por trás deste ataque. Entretanto, o The New York Times publicou uma fotografia satélite do enorme incêndio nessa refinaria.
O ataque, aparentemente muito eficaz, terá sido feito como reacção aos ataques aéreos e incursões militares sauditas, que têm sido dirigidos contra as regiões do Iémen que os rebeldes controlam, incluindo a sua capital Sanaa. Nos últimos meses, os rebeldes houthis, que são apoiados pelo Irão, realizaram uma série de bombardeamentos fronteiriços com mísseis e drones contra bases aéreas sauditas e outras instalações no país, o que tem sido condenado pelos países ocidentais que acusam o regime de Teerão de fornecer armas ao grupo, o que tem sido negado pelos iranianos.
Os ataques de sábado provocaram grandes incêndios na refinaria que é a maior instalação mundial de processamento de petróleo e um dos maiores campos de extracção de petróleo, ambos operados pela gigante estatal saudita Saudi Aramco – Saudi Arabian Oil Company.
Com este ataque, a capacidade de produção diária da Arábia Saudita foi reduzida para menos de metade, o que significa um corte de 5% na oferta mundial do produto e uma ameaça para a estabilidade dos preços, o que pode dar origem a uma escalada na sua cotação nos mercados mundiais.
Esta ocorrência também veio aumentar a tensão entre os Estados Unidos e o Irão, que não cessam de fazer recíprocas ameaças, além de mostrar que a rivalidade política e religiosa nas margens do golfo Pérsico ou entre o Irão e a Arábia Saudita, continua a ser um foco de preocupação mundial.

Espanha: o desporto e a unidade nacional

Todos os jornais espanhóis, mas todos sem excepção, destacam hoje com grandes fotografias de primeira página a conquista pela selecção de Espanha do título de campeã mundial de basquetebol, o que é realmente um feito desportivo notável.
De Madrid à Catalunha, da Cantábria à Andaluzia ou das Baleares às Canárias, a imprensa publica a fotografia dos campeões que “conquistaram o mundo” e dedica-lhes adjectivos como invencíveis, gigantes, gloriosos ou reis do mundo. É uma notável unanimidade que “esquece” outros acontecimentos do momento ou outras rivalidades que estão vivas, como o julgamento do procés catalão, o final de La Vuelta ou a gota fria que afectou o Levante ou, até, os desencontros entre Sanchez e Iglésias para formar ou não formar governo. Esta generalizada uniformidade informativa revela a força do desporto, enquanto cimento que aglutina e reforça a unidade nacional. Por um dia, não há catalães nem bascos, nem galegos ou castelhanos, mas apenas orgulhosos espanhóis.
Os sucessivos governos espanhóis, sobretudo depois da reinstauração da Democracia e da criação das regiões autónomas, compreenderam que no meio das diferenças históricas, culturais e linguísticas, o fenómeno desportivo seria um elemento de coesão nacional, pelo que afectaram sempre generosas fatias orçamentais à promoção da sua prática. Os resultados têm sido compensadores porque a Espanha se tornou realmente numa potência desportiva mundial em diversas modalidades e não apenas no basquetebol.

domingo, 15 de setembro de 2019

Macron visitou a “sua” terra de Andorra

O Principado de Andorra é um microestado soberano que fica situado nos Pirinéus, encravado entre a região francesa do Midi-Pyrenées e a província de Lleida da região autónoma da Catalunha. Tem uma área de 468 km2 e cerca de 80 mil habitantes, sendo o 16º menor país do mundo em superfície e também o 11º país menos populoso do mundo. Por razões diversas, cerca de um quinto da população do principado é portuguesa e trabalha na hotelaria, no comércio, na construção e até na administração pública.
Diz-se por lá que, se os portugueses deixassem Andorra, de repente e ao mesmo tempo, o país fechava.
O principado é independente desde 1278 e, desde 1993, é uma democracia parlamentar, em que o poder legislativo é exercido por 28 deputados que integram o Conselho Geral dos Vales, a quem também compete escolher o chefe do governo. Por razões históricas, a chefia do Estado é exercida em diarquia, isto é, por duas personalidades ditas co-príncipes, que são o Presidente da República Francesa e o Bispo de La Seu d’Urgell na Catalunha. É um caso que parece não ter paralelo no mundo.
Tanto quanto se sabe, o Bispo de La Seu d'Urgell e o Presidente da França não costumam reunir-se para tratar dos assuntos de Andorra e, aparentemente, não visitam o território que tutelam, como consequência de uma tradição medieval que resistiu ao tempo. Porém, recentemente Emmanuel Macron decidiu visitar Andorra e, à simpatia com que foi recebido e rodeado pela população, correspondeu de igual modo nas ruas da sua capital Andorra la Vella. O Diari d’Andorra, que é o jornal do principado e que se publica em catalão, deu notícia da visita de Macron, mais como turista do que como Chefe do Estado, dizendo que seduziu a população, onde não encontrou os coletes amarelos franceses que tanto o têm contestado.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

As inundações e as alterações climáticas

As regiões orientais da península Ibérica ou regiões do Levante, têm estado sujeitas a fortes tempestades resultantes de um fenómeno meteorológico conhecido por gota fria, que acontece quando uma frente atlântica de ar polar frio atravessa a Europa a grande altitude e se encontra com o ar quente e húmido do mar Mediterrâneo. Este fenómeno traduz-se na ocorrência de chuvas diluvianas que, nalguns casos, atingiram 200 litros por metro quadrado.
Segundo revela a imprensa espanhola, as províncias de Castellón (Comunidade Valenciana) e Teruel (Comunidade de Aragão) foram as mais afectadas pelas grandes inundações e pelos consequentes problemas na circulação automóvel, nos comboios e no metropolitano. Milhares casas foram inundadas, enquanto as escolas de mais de uma centena de municípios das comunidades do Levante suspenderam as suas aulas, tal como muitos serviços públicos que encerraram as suas portas.
Na província de Castellón várias pessoas tiveram que ser resgatadas das suas viaturas que, como mostra a expressiva fotografia publicada pelo Diario de Navarra, foram arrastadas pelas águas nestas históricas inundações, a fazer lembrar os tsunamis do oceano Índico oriental e dos mares da Indonésia.
Este episódio de gota fria nas regiões orientais da península Ibérica está a ser o mais intenso desde 2008 e junta-se a muitos outros casos de inundações, temporais, furacões, secas extremas, incêndios florestais e outros episódios resultantes das alterações climáticas que estão a afectar o nosso planeta.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Um cartoon inteligente ajuda a esclarecer

Democratic Funeral (In www.cartoonmovement.com)
A situação por que passa o Reino Unido em relação ao Brexit é realmente lastimável e perigosa. Já está quase tudo dito sobre o assunto e já ninguém consegue prever o que vai acontecer, nem como ou quando vai acontecer.
Hoje é sabido que o referendo promovido por David Cameron foi precipitado e que poucos sabiam no que estavam a votar, pelo que em função do inesperado resultado que deu a vitória ao leave, se demitiu.
Depois sucedeu-lhe Theresa May que tratou de conduzir negociações em Londres e em Bruxelas, para conseguir um acordo de saída da União Europeia, mas que não levaram a lado nenhum, pelo que também se demitiu.
Apareceu depois Boris Johnson, com o seu ar de adolescente extravagante e estarola, que incitado pelo radical Donald e apesar de não ter mais apoios do que tivera May, decidiu avançar e perdeu... mas sem se demitir. No sentido de ganhar tempo e com todo o aspecto de golpe, Boris Johnson decidiu neutralizar durante algumas semanas o Parlamento que o contrariou, pelo que precisou e teve o apoio institucional da Rainha. Porém, o Supremo Tribunal da Escócia veio acusar o Boris de “ter enganado a Rainha” e já considerou a decisão contrária à lei, pelo que deve ficar sem efeito. Estamos, portanto, em mais um dos muitos imbróglios em que o Brexit tem sido fértil.
Tudo isto tem um teor de gravidade tão grande que preocupa meio mundo, embora o outro meio mundo aproveite para caricaturar e ridicularizar esta situação. Foi o que fez  o cartoonista português Vasco Gargalo no seu trabalho “Democratic funeral”, com muita inteligência e perspicácia. Aqui lhe deixo as minhas felicitações. 

O independentismo catalão a arrefecer

Ontem celebrou-se a Diada Nacional de Catalunya ou Dia Nacional da Catalunha que é a festa nacional catalã e que, todos os anos, recorda a resistência popular ao cerco da cidade de Barcelona, que terminou no dia 11 de Setembro de 1714. Este episódio da resistência catalã ocorreu durante a Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714), que envolveu diversas monarquias europeias em torno dos direitos de sucessão à coroa espanhola. Aquele episódio e aquela data tornaram-se o símbolo da Catalunha e a sua oposição ao centralismo de Madrid.
Durante a ditadura franquista a celebração da Diada esteve proibida, mas com a reinstalação da democracia, recomeçou a ser celebrada em 1977 e, em 1980, o Parlamento da Catalunha veio a proclamar o dia 11 de Setembro como o Dia Nacional da Catalunha.
Nos últimos anos a Diada tem constituído uma grande jornada de luta, ao concentrar os protestos contra o governo espanhol de Madrid e as reivindicações independentistas catalãs. Segundo os registos existentes, desde 2012 mais de um milhão de pessoas têm estado nas ruas de Barcelona no dia 11 de Setembro, tendo havido um pico de 1,8 milhões de manifestantes em 2014. Ontem foram 600 mil manifestantes que vieram para a rua e esse número foi o mais reduzido desde que se intensificou a reivindicação independentista, segundo hoje informa o El Periódico de Catalunya. Nem a aproximação da sentença judicial relativa ao procés e à declaração unilateral de independência feita no Parlamento da Catalunha em Outubro de 2017, conseguiram mobilizar o povo. Talvez que a dureza da sentença que se aproxima, possa servir para ressuscitar os catalães para o ideal independentista que, sendo legítimo, não é nada oportuno numa Europa em dificuldade.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Subir ao topo dá mesmo muito trabalho

Na Sala Cid dos Santos da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa assisti hoje às provas públicas de doutoramento de um amigo de há muitos anos e tive a grande alegria de presenciar a forma como foi justamente reconhecido e elogiado pelos seuspares. Foi, por isso, um dia memorável para o meu amigo, para a sua família e para aqueles que, como eu, prezam aquele jovem médico tão devotado à carreira que escolheu.
Não costuma ser aconselhável que se fale dos amigos, porque há sempre uma natural tendência para o exagero no elogio e no uso do adjectivo, mas este caso é realmente incontornável porque, se não é único, é mesmo um caso muito raro e, por isso, aqui lhe deixo uma breve mensagem.
O meu amigo, que entrou naquela sala como candidato, apresentou-se perante o meretíssimo júri depois de mais de vinte anos de estudo e de trabalho hospitalar e após ter adquirido experiências e saberes em alguns centros de referência mundial, desde os Estados Unidos ao Japão, para além de um longo período de investigação clínica no mais conhecido hospital de Barcelona.
Porém, para atingir o patamar de excelência a que chegou, não confiou apenas na sua privilegiada inteligência, nem nas suas superiores qualidades de trabalho e de metódica organização. Venceu todas as barreiras com a humildade, a solidariedade e a esmerada educação que o caracterizam. Definiu um objectivo e uma estratégia, não dando tréguas à sua avidez pelo conhecimento científico, nem pela sua valorização profissional. Durante mais de vinte anos estudou com determinação e persistência, adiou outros projectos e privou-se de muitas coisas, mas tornou-se um bom médico, daqueles que acompanham e se interessam pelos seus pacientes.
A sua tese intitilou-seNon-tumoral portal vein thrombosis in patients with and without cirrhosis – Clinical significance, natural history of varices and efficacy of anticoagulation”. No fim, os elogios foram unânimes e o júri aprovou-o com distinção e louvor, por unanimidade. É a mais alta classificação que pode ser atribuida a um doutoramento. Fiquei orgulhoso. Parabéns ao CNF.

domingo, 8 de setembro de 2019

Gales também já está contra o Brexit?

A barafunda política em que está envolvido o Reino Unido continua a agravar-se e a tornar-se ridícula, não só pela obcessão que alguns manifestam pelo Brexit, com ou sem acordo, mas também porque as alternativas são cada vez mais improváveis e, sobretudo, não são nada claras. Os problemas económicos e sociais que se avizinham estão estudados e são muito preocupantes, não só para o governo de Londres, mas também para a União Europeia.
Porém, o problema da fragmentação territorial do Reino Unido parece estar cada vez mais próximo e esse problema é muito sério, até do ponto de vista militar devido à dispersão das bases britânicas pelas diferentes regiões das Ilhas Britânicas.
É sabido que a Escócia e a Irlanda do Norte votaram contra o Brexit (62% e 56% respectivamente) e, por isso, não admira que a primeira-ministra escocesa Nicola Sturgeon já tenha declarado que, a concretizar-se o Brexit, vai realizar um novo referendo sobre a independência da Escócia, enquanto os irlandeses de Belfast já ameaçaram que a unificação das Irlandas é o seu futuro mais provável.
Entretanto o País de Gales, que tinha sido a região em que apenas 47,5% dos eleitores tinha votado contra a saída da União Europeia, começou a dar mostras de ter invertido o seu ponto de vista e que, afinal, já não quer que o Reino Unido abandone a União Europeia, juntando-se, assim, aos escoceses e aos irlandeses do norte. O jornal escocês The National, que se afirma apoiante da independência da Escócia, decidiu dar publicidade às aspirações galesas e veio agora afirmar-se como “the newspaper that supports an independent Wales”. Portanto, as coisas agravam-se cada vez mais "em terras de Sua Majestade", até porque no nº 10 de Downing Street está um perigoso fanático, aliás como insinuou o seu irmão Jo Johnson, que acaba de se demitir do governo e do Parlamento.

sábado, 7 de setembro de 2019

O dia da Eslovénia na região da Cantabria

Está a decorrer a volta ciclista à Espanha, a famosa La Vuelta, cujo traçado inclui muitas etapas montanhosas nos seus 3290 quilómetros de extensão. Ontem, a partir de Bilbao, realizou-se a 13ª etapa na distância de 166 quilómetros, que incluia sete contagens para o Prémio da Montanha (!), a última das quais no Alto de Los Machucos, na região da Cantabria, que coincidia com o final da etapa. Esta subida tem sido considerada desumana porque tem um gradiente médio de 9,2% mas que em alguns troços chega aos 25%, mas também porque aparece aos ciclistas depois de mais de 150 quilómetros de corrida entre vales e montanhas e quando as suas forças já estão muito enfraquecidas.
Os ciclistas espanhóis, mas também os colombianos e os franceses, estão na primeira linha dos grandes ciclistas que andam a disputar a Vuelta, mas ontem os louros foram para dois eslovenos, o que de certa forma é uma anormalidade, uma vez que a pequena Eslovénia não tem tradição ciclista.
Tajed Pogacar e Primoz Roglic destacaram-se na difícil subida e mostraram um grande espírito de entre-ajuda apesar de serem de equipas diferentes, tendo chegado isolados à meta instalada no Alto de Los Machucos. Na Eslovénia os dois atletas devem ter sido bem festejados e, em termos desportivos, o caso não é para menos. Foi o jovem Pogačar, de 20 anos de idade, que cortou a meta em primeiro lugar, certamente uma condescendência do seu compatriota como sinal de gratidão pela ajuda que lhe dera, enquanto Roglič, de 29 anos de idade, não só manteve a camisola vermelha de líder, como aumentou a sua vantagem sobre os seus mais directos adversários. Hoje, o jornal Alerta de Santander dedicou a sua primeira página ao “dia da Eslovénia na Cantabria” e, também hoje, os ciclistas pedalam pelas Astúrias em direcção a Oviedo. Só no dia 15 termina a Vuelta com a chegada a Madrid.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

O fim da guerra e o futuro da Síria

Depois de alguns meses em que a imprensa internacional esteve calada e não falou da Síria, apareceu agora a revista The Economist com um artigo a reconhecer a vitória de Bashar al-Assad e do seu regime, embora considere que se tratou de uma vitória oca. De resto, o título do artigo está em linha com a fotografia de Assad sobre um monte de destroços, que é elucidativa quanto aos resultados da guerra, isto é, que Assad ganhou mas que o país ficou destroçado.
Quando no ano de 2011 Assad decidiu resistir à primavera árabe que chegara às suas fronteiras, enfrentou as ameaças e até alguns bombardeamentos ocidentais, tendo pedido ajuda à Rússia e ao Irão. Depois de oito anos de violência, de milhões de refugiados e de meio milhão de mortos, parece que só a província de Idlib ainda resiste. “Contra todas as probabilidades, o monstro venceu”, escreveu o anónimo autor do artigo da revista, deixando no ar a ideia de que era um artigo encomendado.
Começa agora a pensar-se no futuro. A Síria está destruída, enquanto a pobreza, a corrupção e as desigualdades sociais são enormes. O que resta do país corre o risco de colapsar. Aproximam-se tempos ainda mais difíceis para os sírios porque o país não tem dinheiro, nem quadros, nem mão-de-obra para a reconstrução. A Rússia e o Irão são credores de uma enorme dívida da Síria e, certamente, esperam vir a ser pagos com juros. Diz The Economist que “para os sírios, a vitória de Assad foi uma catástrofe”, mas acrescenta que os seus “adversários estão exaustos”.
Outro dos grandes problemas sírios são os refugiados que saíram do país, fugindo destes e daqueles, mas que agora não querem regressar da Jordânia, do Líbano ou da Turquia, onde não são desejados porque consomem recursos, ocupam empregos e geram agitação social.
Lamentavelmente, o artigo não contribui para o desanuviamento nem para a reconciliação nacional, atacando Bashar al-Assad como se ele e os seus aliados fossem os maus desta fita, enquanto os seus adversários, locais ou internacionais, fossem uns bonzinhos e que as suas bombas eram inofensivas, o que não é verdade. E, para mostrar o seu alinhamento ideológico, o artigo diz que “os sírios sofreram terrivelmente. Com a vitória de Assad, a miséria deles continuará”. O artigo não engana, revela muito radicalismo e mostra aquilo a que se chama um mau perder. Só pode ser publicidade paga.

Moçambique em festa com a visita papal

O Papa Francisco está em Moçambique e esta visita papal, que acontece pouco tempo depois da assinatura do acordo de paz e reconciliação entre a Frelimo e a Renamo, coloca o país na primeira página da imprensa mundial. Muita gente vê nesta visita o apoio do Papa a uma paz estável e duradoura, que permita o progresso económico e social dos moçambicanos.
Moçambique é um grande país da costa oriental africana e recebeu o Papa Francisco em festa, tendo exibido a sua diversidade religiosa nas cerimónias de recepção no aeroporto, o que mostra o carácter pacificador desta visita. Acontece que o país já está em campanha eleitoral para as eleições de 15 de Outubro e muitos temem que o partido do governo aproveite esta visita para se promover, mas muitos outros acreditam que a mensagem de reconciliação papal supera tudo o resto. Outros, também lamentam que a visita papal tenha sido limitada à cidade de Maputo e deixasse de lado as províncias de Sofala e da Zambézia que recentemente foram devastadas por ciclones, bem como a província de Cabo Delgado onde se tem verificado uma onda de violência fundamentalista islâmica. Mas, evidentemente, o Papa não pode ir a todo o lado e terá que ser a comunicação social a dar notícia desta visita e da sua importância para a paz, como bem tem feito o diário O País, que se publica em Maputo.
Amanhã, antes de partir para Madagáscar e para a Maurícia, o Papa Francisco celebrará missa no Estádio Nacional do Zimpeto, sendo esse o momento mais grandioso desta sua visita que enche de orgulho os moçambicanos e reforça a ideia de paz e de reconciliação nacional.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Alterações climáticas a afectar Brasília

A edição de hoje do Correio Braziliense destaca o notícia de que o Distrito Federal registou ontem o dia mais quente do ano e o valor mais baixo da humidade relativa neste século e que, na cidade de Brasília, esse valor atingira os 8%, acrescentando que o tempo seco deverá continuar e que hoje se espera que a humidade tenha um valor semelhante ao de ontem.
Se isso acontecer, isto é, se se verificarem dois dias seguidos com humidades abaixo dos 12%, segundo os critérios da Defesa Civil significa uma situação de emergência.
A Organização Mundial de Saúde indica o valor de 60% como o valor ideal da humidade relativa e, perante esta situação, as autoridades trataram de avisar a população e, entre outras recomendações, alertam para que suspenda a prática de actividades físicas e trabalhos ao ar livre, para que se aumente a ingestão de líquidos e para que se procure vaporizar o ambiente doméstico com vaporizadores ou toalhas molhadas.
Segundo o jornal, não chove no Distrito Federal desde há 94 dias e essa situação torna-se crítica pelo desconforto das pessoas e pelas consequências sobre a saúde da propagação de vírus que circulam no ar e que provocam muitas doenças respiratórias e outras. Por outro lado, as queimadas e os incêndios que têm acontecido na região de Brasília, que já registaram 5.871 incêndios florestais desde Janeiro, segundo revelou o Corpo de Bombeiros, têm deixado o céu de Brasília tomado pela fumaça e, por vezes, quase enquadrando um cenário de apocalipse. É mais um evidente caso das enormes alterações climáticas que estão a afectar o nosso planeta e às quais o Jair parece pouco sensibilizado.
Aqui na cidade de Lisboa também estamos sob um vaga de intenso calor, mas sempre vamos tendo de mais de 30% como valor mínimo da humidade relativa. Porém, já que outra coisa não podemos fazer para além de expressarmos solidariedade, também desejamos que chova rapidamente em Brasília.