quarta-feira, 12 de abril de 2017

O Brasil treme com a operação Lava Jato

Embora deste lado do Atlântico saibamos pouco sobre o que se passa no Brasil em relação à Operação Lava Jato ou à propina paga pela Petrobras ou aos acordos de  delacção premiada que foram feitos entre a autoridade judicial e os executivos da Odebrecht e de outras grandes empresas, o facto é que de vez em quando somos surpreendidos com as notícias que nos chegam do Brasil. O ministro   Edson Fachin, que é o relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, provocou um verdadeiro terramoto político ao dar luz verde para a abertura de processos a dezenas de altas figuras do Estado. 
Hoje, o diário O Globo tal como a generalidade da imprensa brasileira, destacou que a República é que está a ser investigada e que há suspeitas sérias em relação a 8 ministros, 12 governadores, 24 senadores, 37 deputados e 5 antigos Presidentes da República. Estas informações impressionam toda a gente e os brasileiros têm todas as razões para estar preocupados, porque estes números envergonham o Brasil. Parece, então, que as investigações em curso que a Polícia Federal brasileira tem conduzido para apurar os esquemas de generalizada corrupção activa e passiva, de lavagem de dinheiro, de gestão fraudulenta, de recebimento de vantagens indevidas e, de uma forma geral, de enriquecimento ilegal e criminoso, têm uma dimensão transversal por todo o país e neles estão envolvidas as elites brasileiras.
Por aqui, vamos continuar a acompanhar as notícias da Operação Lava Jato para saber se vai ser possível fazer a limpeza a que aspira a sociedade brasileira. Por cá não temos nenhuma Operação Lava Jato, nem nada que se pareça. Aqui não se procura acabar com os males da nossa floresta de vícios e proceder à sua limpeza, porque os nossos sapadores florestais apenas se interessam por uma ou outra árvore de que não gostam e não procuram limpar a floresta.

Saudade e morabeza em Cabo Verde

Depois de já ter visitado Moçambique e o Brasil, o Presidente da República visitou esta semana mais um país lusófono e esteve em Cabo Verde, tendo passado pelas ilhas do Fogo, Santiago e São Vicente, sempre acompanhado por Jorge Carlos Fonseca, o seu homólogo cabo-verdiano e seu amigo de há muitos anos.
Marcelo Rebelo de Sousa fez-se acompanhar por uma alargada comitiva de jornalistas portugueses que deram a conhecer alguns pormenores da visita presidencial, desde o número de pastéis de nata que Marcelo comeu, até ao tempo que nadou na praia defronte do seu hotel, isto é, trataram da espuma da visita. Porém, o semanário Expresso das Ilhas procurou a substância da mesma e reproduziu e analisou as declarações presidenciais.
Numa delas, proferida durante uma recepção realizada a bordo da fragata Álvares Cabral, atracada na cidade da Praia, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que “Cabo Verde é para Portugal uma aposta prioritária e sabemos que Portugal é para Cabo Verde uma aposta prioritária”, afirmando ainda que “Cabo Verde é o país irmão que se confunde com o nosso, de tal forma que não sabemos em Cabo Verde quem é cabo-verdiano e quem é português e em Portugal quem é português e quem é cabo-verdiano”.
Nessa declaração, Marcelo Rebelo de Sousa utilizou várias vezes a palavra fraternidade. E fez bem. Os portugueses são tratados em Cabo Verde como irmãos e os cabo-verdianos gostam dos portugueses. O futebol, a música e a cachupa fazem parte do quotidiano luso-cabo-verdiano. Se em Portugal há a saudade, em Cabo Verde há a morabeza, que são palavras difíceis de traduzir mas que representam sentimentos e ajudam a  definir uma identidade. Pois a saudade e a morabeza encontraram-se em Cabo Verde nas pessoas de Marcelo Rebelo de Sousa e de Jorge Carlos Fonseca e, agora, só há que esperar que as relações entre Portugal e Cabo Verde se reforcem ainda mais nos vários domínios de interesse mútuo.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Mísseis americanos a ameaçar Pyongyang

No princípio deste mês de Abril o Presidente Donald Trump deu uma entrevista ao jornal Finantial Times, tendo declarado que os Estados Unidos estavam prontos para agir sozinhos contra a Coreia do Norte para impedir que desenvolvesse o seu programa de armas nucleares, caso a China não aumentasse a pressão contra esse programa norte-coreano.
Algumas horas depois, Trump decidiu lançar 59 mísseis Tomahawk sobre a Síria e, logo de seguida, ordenou que um grupo de ataque que inclui o porta-aviões USS Carl Vinson, dois destroyers e um cruzador equipados com mísseis, avançasse para as águas próximas da Coreia do Norte, como resposta intimidatória aos sucessivos testes de mísseis que têm sido feitos. Este grupo de ataque não é comandado por um almirante, mas por uma almiranta. Isso acontece pela primeira vez, pois Nora Wingfield Tyson comanda a 3ª Esquadra americana desde 2015 e, provavelmente, só espera ordens do seu Presidente para carregar no botão.
Existe alguma apreensão por esta decisão de Donald Trump porque, contrariamente ao que ele sempre disse, parece estar agora a querer impor a vontade americana nos diferentes cenários mundiais, o que custa muito dinheiro e pode conduzir a confrontações de contornos indesejáveis. Será que depois da Síria, o Donald se prepara para atacar o solo norte-coreano? Como foi dito na referida entrevista, os Estados Unidos estão prontos para agir sozinhos mas, naturalmente, estão cientes de que precisam do apoio da Coreia do Sul, do Japão e da neutralidade da China.
O facto é que a imprensa asiática se mostra um pouco apreensiva com esta movimentação naval americana e que, por exemplo, a edição de hoje do Macau Daily Times deu grande destaque a esta iniciativa e mostra a apreensão que está a suscitar.

domingo, 9 de abril de 2017

A ETA cedeu e a paz voltou ao País Basco

Durante mais de cinquenta anos a Euskadi Ta Askatasuna, mais conhecida pela sigla ETA, foi um símbolo das aspirações independentistas bascas, mas também foi um instrumento da luta armada e da violência no País Basco do Sul, que inclui as províncias espanholas de Alava, Biscaia, Guipúscoa e Navarra. A ETA foi fundada em 1959 e as suas acções violentas iniciaram-se em 1968, tendo-se traduzido na morte de 829 pessoas e em ferimentos em alguns milhares, para além de algumas dezenas de sequestros.
Durante a ditadura franquista, a ETA teve o apoio da população basca e algum apoio internacional, mas com a democratização e a integração europeia da Espanha, a organização foi perdendo militantes, viu muitos dos seus dirigentes serem presos e tornou-se cada dia mais fraca.
Cada vez mais isolada socialmente e mais vulnerável à pressão policial das autoridades espanholas, mas também das autoridades francesas do País Basco do Norte, em 2011 a ETA anunciou o fim das suas actividades ou, como então salientou, um cessar-fogo. Há poucas semanas , a organização anunciou que no dia 8 de Abril faria a entrega de todo o seu armamento às autoridades francesas sob a supervisão de uma Comissão Internacional de Verificação. Ontem, no início do dia e conforme fora anunciado foi entregue às autoridades judiciais uma lista com a localização dos oito depósitos de armas, situados nos Pirenéus Atlânticos, onde se encontravam 118 armas, quase três toneladas de material para fabricar explosivos, muitos detonadores e 25.700 munições. A imprensa espanhola, como por exemplo o El Mundo, deu hoje um grande destaque a este acontecimento que significa o fim da luta armada da ETA, sem quaisquer condições. Agora é o tempo da justiça, da reconciliação, da paz e da luta política democrática, em que a Espanha terá que ter a sensibilidade democrática de respeitar o espaço cultural basco, porque o nacionalismo basco é centenário e não morreu.

sábado, 8 de abril de 2017

O que fez correr Donald Trump?

Na passada terça-feira dia 4 de Abril, a pequena cidade de Khan Sheikhun, situada no noroeste da Síria e que tem estado sob o controlo de forças hostis a Bashar al-Assad, foi vítima de um ataque com armas químicas e, segundo revelaram as autoridades sanitárias turcas, as vítimas apresentavam sintomas de terem estado expostas a gás sarin. O ataque causou 86 mortos e provocou uma onda mundial de indignação. Menos de 72 horas depois, na madrugada de sexta-feira dia 7, os Estados Unidos decidiram uma acção de surpresa e, como retaliação, dispararam 59 mísseis Tomahawk sobre a base aérea de Shayrat, próximo da cidade de Homs. Depois de seis anos de guerra, foi a primeira acção directa dos americanos na Síria e significou uma mudança nas opções de Donald Trump, que sempre criticou o envolvimento americano (e a despesa) em conflitos longe da América. A Rússia e o Irão não gostaram, enquanto o Reino Unido, a França e a Turquia aplaudiram.
Ontem, durante todo o dia, as televisões portuguesas fizeram desfilar nos seus estúdios dezenas de comentadores especializados, incluindo generais, professores, politólogos, estrategistas e jornalistas. Todos muito sabedores a debitar as mais diversas hipóteses: que recomeçou a guerra fria, que foi uma humilhação para a Rússia, que a escalada do confronto pode começar, que houve um acordo secreto entre Trump e Putin, que não foi mais do que um impulso de Trump, que foi um aviso à Coreia do Norte e ao Irão, que foi um exibicionismo perante a China, que foi uma acção para recolocar a opinião pública americana ao lado de Trump e, ainda, mais algumas hipóteses. Não ouvi nenhum desses sábios olhar para a situação na lógica da manipulação da informação nos conflitos militares, um pouco na linha de acção de Joseph Goebbels, para quem uma mentira mil vezes repetida se tornava uma verdade. Foi esse tipo de manipulação que criou a mentira das armas de destruição maciça de Sadam Hussein e levou George W. Bush, Tony Blair, Aznar e Durão Barroso a darem a cara pela invasão do Iraque, onde tudo isto começou. É caso para perguntar o que fez correr Donald Trump e porque não esperou pela realização de um inquérito independente para saber o que realmente se passou em Khan Sheikhun?

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Aprender o português no Luxemburgo

O primeiro-ministro português António Costa, efectuou ontem uma visita oficial ao Luxemburgo a convite do seu homólogo luxemburguês Xavier Bettel, tendo saudado os cinco memorandos de entendimento assinados durante a visita, em especial aquele que vai reforçar o ensino do português nas escolas, como salienta hoje Le Quotidien na sua primeira página. 
O Luxemburgo é um pequeno país com 550 mil habitantes, onde cerca de 100 mil são portugueses, isto é, quase 20% da população é portuguesa e constitui a maior comunidade estrangeira do país.
Porém, a completa integração social das comunidades estrangeiras passa sempre pela aprendizagem da língua do país de acolhimento, embora seja natural que essas comunidades queiram manter a sua língua materna e as suas raízes culturais, uma compatibilidade que se tem visto que, por vezes, é muito difícil.
Por isso, o memorando ontem assinado sobre o ensino da língua portuguesa no Luxemburgo é muito importante, pois permite que as novas gerações de portugueses tenham uma aprendizagem multilingue desde o ensino pré-escolar, possam ter plena integração no sistema de ensino luxemburguês e não tenham uma barreira acrescida no seu progresso educativo.
O modelo adoptado introduz cursos complementares em português a realizar fora do horário escolar, o que vai representar uma sobrecarga horária para os alunos de português e vai obrigar à contratação de mais professores. Mas valerá a pena. A aprendizagem do português em casa e no ambiente familiar resolve o problema da conversação mas não resolve o problema da escrita e, por isso, é frequente encontrarmos portugueses que vivem no estrangeiro e que falam mas não escrevem em português, apenas porque lhe faltou a aprendizagem na escola.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

O Brexit e a velha questão de Gibraltar

No passado dia 29 de Março, a primeira-ministra britânica Theresa May fez chegar ao polaco Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, uma carta a formalizar a sua decisão de abandonar a União Europeia. As análises que já antes eram feitas sobre os prós e os contras desta decisão voltaram a ser discutidas, um pouco por toda a parte. Nesse contexto, surgiu uma novidade: o que iria fazer Gibraltar e os 30 mil gibraltinos? Estarão eles dispostos a deixar a União Europeia e a enfrentar uma mudança na sua relação com a Espanha, com o fim da livre circulação de pessoas e bens, com a reabertura da burocracia fronteiriça ou até o isolamento?
Theresa May cometeu o erro de ignorar Gibraltar na sua carta e a Espanha aproveitou a oportunidade para insinuar que era chegada a hora de Gibraltar ficar sujeita a um regime de soberania partilhada entre a Espanha e o Reino Unido, como primeiro passo para o seu futuro regresso à Espanha. Fabian Picardo, o jovem ministro-chefe de Gibraltar veio de imediato opor-se a qualquer alteração à actual ligação de Gibraltar com o Reino Unido, enquanto em Londres alguém se lembrou de dizer que Gibraltar seria tão defendido quanto o foram as Falklands/Malvinas em 1982. Entretanto, começaram as habituais quezílias fronteiriças nas águas gibraltinas. A antiga corveta Infanta Cristina que em 2004 foi reclasssificada como navio-patrulha (P-77), terá feito “uma incursão ilegal” nas águas de Gibraltar ao passar a cerca de 1500 metros da costa, o que obrigou o navio-patrulha HMS Scimitar (P-284) a abordar o navio espanhol para o escoltar para fora da águas territoriais de Gibraltar. O navio espanhol tem 89 metros de comprimento e 1440 toneladas de deslocamento, enquanto o patrulha britânico tem 16 metros de comprimento e 24 toneladas de deslocamento. Esta diferença e a fotografia dos dois navios foram aproveitadas pelo Daily Mail para dar uma ajuda ao orgulho britânico e à persistência ou à teimosia de Gibraltar.

domingo, 2 de abril de 2017

Que viva o Guernica e que viva Picasso

Uma grande exposição organizada em Madrid pelo Museu Reina Sofia vai celebrar o pintor Pablo Picasso, desde o próximo dia 4 de Abril até ao dia 4 de Setembro, a propósito do 80.º aniversário da criação de Guernica, o símbolo universal da crueldade da guerra e o mais famoso quadro do pintor. Hoje, o diário ABC dedica uma extensa e muito interessante reportagem ao famoso quadro.
Em 1937, em plena Guerra Civil, o governo republicano espanhol encomendou um mural a Picasso para figurar no pavilhão espanhol da Exposição Internacional de Paris de 1937. O tempo correu sem que Picasso executasse a encomenda, até que no dia 26 de Abril de 1937 os aviões da Legião Condor hitleriana bombardearam com grande violência a cidade basca de Guernica. Esse trágico acontecimento inspirou Picasso que em 33 dias realizou o trabalho com 3,51 por 7,82 metros e que foi montado no pavilhão espanhol no dia 4 de Junho. O êxito foi enorme e todos queriam ver a obra de Picasso. Quando a exposição de Paris terminou, o mural começou a circular: Noruega, Suécia, Dinamarca e Londres. Depois Estados Unidos e uma longa itinerância por Nova Iorque, Los Angeles, S. Francisco e Chicago. O Guernica regressou à Europa e foi exposto em Milão, depois foi até São Paulo e voltou de novo à Europa para ser visto na Alemanha, na Bélgica, na Holanda e na Dinamarca. Em finais dos anos 50 regressou aos Estados Unidos e Picasso declara então que o mural deveria ser devolvido ao povo espanhol quando as liberdades públicas fossem restauradas em Espanha.
Depois de muitas negociações o Guernica viajou para Espanha pela primeira vez em 1981 e em 1992 foi depositado no Museu Reina Sofia, onde agora se celebra também o 25º aniversário da sua chegada.
O símbolo universal dos horrores da guerra viajou muito, atravessou várias vezes o Atlântico e percorreu muitos milhares de quilómetros. De grandes dimensões e enrolado, sofreu muito com transportes e foi afectado por temperaturas e luminosidades. Guernica precisa de restauro e, apesar da complexidade dessa operação, parece que isso vai ser feito agora com o apoio técnico dos maiores especialistas mundiais..

É preciso muito mais ética na advocacia

A revista advocatus inclui na sua última edição uma entrevista com Guilherme Figueiredo, o novo Bastonário da Ordem dos Advogados, destacando uma afirmação na primeira página em que diz que “a advocacia tem de ser uma profissão exclusiva”. É óbvio que toda a gente que gosta de viver numa sociedade equilibrada e democrática concorda com esta afirmação: a advocacia é uma actividade que deve ser exercida em exclusividade. Não é a única, porque há outras actividades assim no nosso país.
Há que esperar, portanto, que o Bastonário seja coerente e seja consequente com o princípio que ele próprio enunciou, para bem de todos nós. Assim, espera-se que o Bastonário denuncie a promiscuidade e o conflito de interesses que se vive na Assembleia da República e proponha medidas legislativas para acabar com aquilo que Paulo Morais disse ser um antro de corrupção, talvez o maior do país, onde se fazem muitos negócios.
Depois é preciso acabar com a cena quotidiana de ver sócios de poderosos escritórios de advogados que defendem sempre os interesses dos seus clientes, mas que intervêm como supostos comentadores televisivos independentes e levam o público a comer gato por lebre. Apenas alguns nomes e respectivos registos: José Miguel Júdice (PLMJ/RTP), António Lobo Xavier (MLGTS/SIC), Luís Marques Mendes (Abreu Advogados/SIC), Nuno Morais Sarmento (PLMJ/TVI), António Vitorino (Cuatrecasas/SIC), Luís Nobre Guedes (NGMS/RTP), José Eduardo Martins (Abreu Advogados/RTP) e outros famosos advogados que aparecem mais ou menos regularmente.
Este tipo de personagens com o carimbo dos grandes escritórios de advogados, também são useiros e vezeiros em ter lugares nos governos, sucedendo-se notícias - verdadeiras ou falsas - de que fazem contratos por ajuste directo para favorecer amigos políticos e contratam assessorias jurídicas pagas principescamente, já para não falar de isenções ou perdões fiscais. Ora, é preciso muito mais ética na profissão de advogado, porque não vale tudo.
 

quinta-feira, 30 de março de 2017

O aeroporto Cristiano na ilha do Ronaldo

Eu devo estar a ficar ultrapassado pelo tempo e, por isso, não consigo compreender como é possível dar o nome de um futebolista a um aeroporto internacional, apesar de se tratar de um grande atleta que mete muitos golos, de ser um homem que parece apoiar boas causas, de ter um grande sucesso internacional e ser o português mais conhecido no mundo. Tudo isso é verdade e eu reconheço essa realidade. Porém, dar o nome de Cristiano Ronaldo ao aeroporto da Madeira ultrapassa a minha compreensão, apesar de verificar que o Presidente da República e o Primeiro-Ministro não faltaram à festa, certamente porque na luta pela popularidade parece valer tudo.
Cristiano Ronaldo tem feito muito pelo nosso país e nunca esquece a terra onde nasceu. Devemos ser-lhe grato por isso, mas também pelos golos que marca pela selecção nacional e que tanta alegria dão ao povo. No entanto, Cristiano Ronaldo é muito jovem, ainda está activo na sua carreira futebolística e o seu futuro, como o de todos nós, é sempre incerto. E há coisas que, por uma questão de bom senso, não se fazem. E se o homem decide ir viver para a América e naturalizar-se americano? E se o homem perde a cabeça e arranja um qualquer esquema de vida complicado? 
Se a moda pega, não demorará que Setúbal também queira um aeroporto e o baptize com o nome de José Mourinho ou, mais modestamente, que Manuel Luís Goucha exija uma estátua nas Avenidas Novas ou João Baião um pelourinho na Buraca.
Até o jornal desportivo espanhol as levou este acontecimento a sério e tratou de lhe dedicar toda a sua primeira página, como nenhum jornal português fez. Mas, se calhar estou isolado nesta minha opinião...

quarta-feira, 29 de março de 2017

Lisboa: cidade e turismo de mãos dadas

Por circunstâncias muito diversas mas que acabam por ser convergentes, a cidade de Lisboa está a tornar-se num pólo turístico à escala europeia ou mesmo mundial, ao receber muitos milhares de turistas. Há turistas por todo o lado.
O turismo tem transformado a cidade que está mais moderna, mais acolhedora e mais cosmopolita. Os turistas deambulam por toda a cidade e pelos arredores de Cascais e Sintra, enchem as esplanadas do Terreiro do Paço e fazem longas filas para comprar os pastéis de Belém; sentam-se na Ribeira das Naus a ver o Tejo com o movimento dos cacilheiros e o voo das gaivotas; acotovelam-se para entrar nos Jerónimos ou na Torre de Belém; assaltam as colinas do Castelo e as ruas estreitas da Alfama; sentam-se nas esplanadas da Brasileira ou da Bénard e fazem-se fotografar ao lado da estátua de Fernando Pessoa; visitam museus e igrejas, sobem até aos miradouros do Monte e da Graça para observar a cidade das sete colinas. À noite divertem-se. A hotelaria e o comércio lisboeta animam-se e o produto nacional, o emprego e a balança de pagamentos agradecem esta circunstância que se espera seja sustentável.
A prestigiada revista francesa Geo, que é especialista em turismo e lazer, dedica a sua edição nº 458 de Abril de 2017, que hoje foi posta a circular, à cidade de Lisboa. Chama-lhe magnétique, o que significa que atrai. Na sua primeira página destaca uma fotografia da Torre de Belém e do azul do mar, tendo escolhido para título a frase Comment cette belle ville du Sud devient une grande capitale d’Europe e, na sua reportagem, diz que Lisboa est la plus irrésistible des capitales européennes. Embora sejam frases agradáveis que os portugueses gostarão de ler, há um acentuado exagero nesta laudatória reportagem que, embora assente numa realidade quotidiana que todos vemos, até parece ter sido feita por encomenda. E lá teremos mais turistas e mais pastéis de nata para vender...

terça-feira, 28 de março de 2017

O paraíso dos reformados é em Portugal

Hoje, os escaparates franceses exibem um jornal em que se destaca a palavra Portugal, por muito boas razões. Trata-se do jornal Sud-Ouest que é um diário publicado em Bordéus e que é o terceiro maior jornal regional francês com uma circulação da ordem das 300 mil cópias.
Na sua edição de hoje, o jornal elege Portugal como notícia da sua primeira página e considera-o como o paraíso ou o eldorado dos reformados franceses. O jornal veio a Portugal para saber as razões porque são cada vez em maior número os reformados franceses que escolhem este país meridional e periférico para se instalarem, sobretudo no Algarve, mas também noutras regiões como o Oeste, a costa alentejana ou os Açores. Nos últimos anos esse número aumentou consideravelmente e a principal razão desta escolha parece ser um custo de vida mais barato e a possibilidade de poderem usufruir de regimes fiscais benevolentes. Porém, há outras razões de peso para a escolha dos reformados franceses, que vão desde a segurança e da amenidade do clima, até à riqueza do seu património monumental e da sua gastronomia, para além da simpatia, da cordialidade e da cultura dos portugueses.
Afinal e, ao contrário do que dizem alguns burocratas europeus que acusam os portugueses de “viver acima das suas possibilidades” ou de gastar tudo em “copos e mulheres e depois pedir dinheiro emprestado”, as opções dos reformados franceses mostram que Portugal é um país pacífico e acolhedor que merece mais respeito por parte dos Dijsselbloems e dos Schaübles, bem como da sua arrogância e sectarismo.

segunda-feira, 27 de março de 2017

O Brexit pode ser uma boa oportunidade

Foi anunciado pela primeira-ministra britânica Theresa May que o processo de saída da Grã-Bretanha da União Europeia se iniciará na próxima 4ª feira, dia 29 de Março, com a activação do artigo 50º do Tratado de Lisboa, dando-se assim andamento aos resultados do referendo de 23 de Junho de 2016. Uma decisão desta importância, que é tomada com base numa escassa vitória por 51.9% de votos no referendo e contra a opinião do eleitorado da Escócia e da Irlanda do Norte é, sem dúvida, uma decisão de alto risco, até porque são imprevisíveis as suas conseqüências internas e externas. Internamente há sérios riscos de desintegração do Reino Unido, com a Escócia a reclamar a sua independência e a Irlanda do Norte a apostar na sua integração na República da Irlanda, mas também se temem graves conseqüências económicas como a fuga de empresas estrangeiras, a quebra de investimentos e a redução do seu comércio externo. Externamente, também há muitos fantasmas a pairar, porque o exemplo britânico pode ser a caixa de Pandora que acelere a desagregação da União Europeia que, sem o Reino Unido, se torna mais fraca e mais vulnerável. A incerteza está a dominar as opiniões públicas quanto ao futuro e quanto à crise que aí vem, havendo "estudos" que servem e justificam todas as opiniões sobre as boas ou más consequências do Brexit.
Porém, uma das opiniões menos conhecidas hoje veiculada pelo semanário francês La Vie, sugere que o Brexit é uma boa oportunidade para a Europa se reformar e retomar os princípios do Tratado de Roma que muitos têm procurado não cumprir, ao manterem-se amarrados aos seus nacionalismos e ignorando os princípios da coesão e da solidariedade. Parece ser o caso britânico, que nunca aceitou ser igual entre iguais e que, em boa verdade, nunca perdeu a sua arrogância imperial e vitoriana, nem a sua hostilidade aos ventos continentais, não só os de Napoleão e de Hitler, mas também os que agora sopram democraticamente de Bruxelas. 
Aproximam-se tempos de crise, mas é das crises que surgem sempre as oportunidades de transformação.

sábado, 25 de março de 2017

Os deputados servem-nos ou servem-se?

Há meia dúzia de anos atrás, um antigo vice-presidente da Câmara Municipal do Porto chamado Paulo Morais afirmou que "o centro de corrupção em Portugal tem sido a Assembleia da República, pela presença de deputados que são, simultaneamente, administradores de empresas" e, acrescentou, que a Assembleia da República "parece mais um verdadeiro escritório de representações, com membros da comissão de obras públicas que trabalham para construtores e da comissão de saúde que trabalham para laboratórios médicos". Dizia Paulo Morais, que "os deputados estão ao serviço de quem os financiou e não de quem os elegeu". Estas declarações não ficaram escondidas numa qualquer página interior de um jornal, pois Paulo Morais repetiu-as com frequência quando da sua recente candidatura presidencial.
Porém, passados todos estes anos, nada foi feito para acabar com esta situação de promiscuidade, como mostra o recente caso do a-núncio e das relações entre o poder político e os escritórios de advogados. Ao mesmo tempo revelam-se outras situações igualmente perversas, que desacreditam a vida parlamentar e cavam um enorme fosso entre eleitos e eleitores. Foi o que agora revelou em livro e repetiu numa entrevista publicada no jornal i, o antigo deputado Magalhães. Nessa entrevista ficamos a saber que os deputados, para além do seu generoso salário, têm abonos complementares para trabalho de círculo ou para trabalho nacional, cujo pagamento não é sujeito a qualquer comprovativo ou verificação. É à vontade do freguês! É, por isso, um segundo salário não sujeito a impostos, havendo quem chegue a receber 80 mil euros por ano em subsídios de deslocações, por causa dos contactos com as comunidades de emigrantes. Daí resulta que os 230 deputados com assento na Assembleia da República, muitos deles sem trabalho efectivo ao serviço de quem os elegeu, tenham 230 remunerações diferentes, que são pagas pelos contribuintes. 
Sim, é mesmo verdade: muitas daquelas figurinhas ali sentadas com ar de parlamentares não têm vergonha nenhuma.

sexta-feira, 24 de março de 2017

As aventuras do novo John Rambo

Uma das principais bandeiras de Donald Trump quando se candidatou à presidência dos Estados Unidos foi o combate à imigração e aos imigrantes ilegais. Com apenas dois meses de mandato cumprido, o Donald tem-se afirmado como um bom cumpridor das suas promessas eleitorais, mas também como um verdadeiro sucessor de John Rambo, o ex-boina verde americano que tudo arrasava, como sugere a capa da edição de hoje do Newsweek.
O Donald começou por assinar o simbólico decreto que determina a construção de um muro na fronteira com o México para impedir a entrada de imigrantes ilegais e, agora, iniciou o prometido combate contra as chamadas “cidades santuário”, que acolhem a maioria dos indocumentados, que passarão a estar sob pressão para serem identificados, para terem menos hipóteses de trabalho e para poderem ser deportados. Mexicanos e brasileiros, mas também nacionais de muitos outros países estão agora sob permanente suspeita e em total insegurança, enquanto se acentuam as limitações à entrada de novos imigrantes ou de refugiados, sobretudo de religião muçulmana. As directivas para a expulsão de cerca de 11 milhões de imigrantes indocumentados, sobretudo hispânicos, dos quais 1,4 milhões serão brasileiros, foram accionadas e os agentes dos serviços alfandegários e de imigração têm instruções para expulsar o mais rapidamente possível os indocumentados que encontrem, embora em diferentes graus de prioridade. Para reforçar estas acções, o governo federal que o Donald dirige com a ajuda do genro e da filha Ivanka, está a ponderar reforçar as autoridades estaduais com mais 100 mil agentes da Guarda Nacional para perseguir os imigrantes indocumentados, sobretudo os que vivem mais próximo da fronteira mexicana. O dessassossego e o medo espalharam-se com esta nova “caça às bruxas” promovida pelo Donald, que parece querer governar a América e dirigir o mundo como um verdadeiro sucessor de John Rambo.