terça-feira, 14 de outubro de 2014

O ISIS é o feitiço contra o feiticeiro

Com base em informações seguras que certamente possui, quer da CIA quer de outras agências que acompanham estes assuntos, a edição de ontem do The Washington Post revela a composição das forças do Estado Islâmico, conhecidas habitualmente pela sigla ISIS.
Imaginava-se que essas forças eram originárias da Síria e daí o seu combate contra o regime de Bashar al-Assad. Porém, o jornal revela que cerca de 15 mil militantes islâmicos de pelo menos 80 países entraram na Síria e que, na sua maioria, se juntaram ao ISIS, que já não luta apenas pelo derrube do regime sírio, mas que tem agora o objectivo de dominar territorialmente alguma regiões da Síria e do Iraque e impor um califado e a sua lei.
A enumeração das origens e do número de combatentes que se encontram no terreno é a seguinte: Tunísia (3000), Arábia Saudita (2500), Jordânia (2089), Marrocos (1500), Líbano (890), Rússia (800), Líbia (556), Reino Unido (488), França (412), Turquia (400), Egipto (358), Paquistão (330), Bélgica (296), Austrália (250), Argélia (250), Iraque (247), Alemanha (240), Holanda (152), Albânia (148), Estados Unidos (130), Yemen (110), Espanha (95), além de muitos outros. Esta diversidade de gente ou esta brigada internacional, mostra que estamos perante uma verdadeira jihad, isto é, um esforço ou uma guerra no sentido de impor o Islão e a sua religião a outras pessoas e a outras regiões. É um desafio concreto e muito perturbador que, até agora, não passava de uma teoria enquadrada no tema do choque das civilizações ou das religiões.
É difícil uma reflexão quanto à complexidade do que está a acontecer, bem como à forma como nasceu, foi armado e tem crescido o ISIS. Porém, se nos lembrarmos do apoio ocidental que tiveram as chamadas “primaveras árabes” e as forças ditas democráticas que atacaram Saddam Hussein, Muammar Kadaffi e Bashar al-Assad, não podemos deixar de concluir quanto às origens do monstro que já ameaça esse mesmo ocidente. Talvez seja um exemplo de um feitiço que se vira contra o feiticeiro.

domingo, 12 de outubro de 2014

Kobani poderá não resistir à jihad

Desde há vários dias que as forças jihadistas do Estado Islâmico (ISIS) cercam Kobani, uma cidade síria de maioria curda com cerca de 40 mil habitantes, situada na fronteira com a Turquia. A proximidade da fronteira é evidenciada pelas fotografias que têm corrido mundo, em que os”mirones” do lado turco assistem aos combates que ocorrem dentro de Kobani, à frente dos seus olhos.
A cidade tornou-se o centro da resistência curda contra o regime de Bashar al-Assad, sendo controlada pelo YPG, uma organização militarizada que é o braço armado do Conselho Nacional do Kurdistão. Portanto, o que está a acontecer à volta de Kobani é uma batalha de uma particular guerra entre o Kurdistão e o Estado Islâmico, ambos a lutar por um território que tem estado repartido entre a Turquia, a Síria, o Iraque, o Irão, a Arménia e o Azerbeijão. Segundo refere a imprensa internacional, os jihadistas receberam reforços de artilharia e tanques, enquanto a resistência está a ceder e os ataques aéreos aliados não estão a ter os efeitos desejados, pelo que poderá estar em vias de acontecer em Kobani um drama humanitário semelhante, ou mais grave, do que aquele que aconteceu em 1995 em Srebrenica, quando foram assassinados mais de oito mil bósnios muçulmanos. Independentemente das posições geopolíticas e estratégicas que se confrontam naquela região, a probabilidade de acontecer um massacre em Kobani é elevada. Desesperados, os sitiados pedem ajuda internacional e a situação agrava-se todos os dias. Não há sinais de ajuda a Kobani e a cidade pode cair a todo o momento. Hoje o jornal The Independent diz que o plano americano para atacar os jihadistas com ataques aéreos não está a resultar e que esse plano não prevê outras alternativas. Ali ao lado está a Turquia que parece não se querer envolver num problema que, mais tarde ou mais cedo, vai acabar por lhe bater à porta.          
Ainda há alguém que tenha dúvidas sobre a enorme asneirada e a irresponsabilidade que tem sido a política americana naquela região?

sábado, 11 de outubro de 2014

Radiografia del saqueo

Há uma crise mais ou menos generalizada que afecta a Espanha e que, entre outras coisas, se traduz num exército de 6 milhões de desempregados mas, aqui ao lado, embora de contornos e dimensão diferente, também passamos por uma crise semelhante que se evidencia na debilidade da economia, no aumento da pobreza, na progressiva perda de direitos sociais e na generalizada falta de confiança nas instituições. Todos sabemos como os portugueses são parecidos com os espanhóis e como já passou o tempo em que se dizia que “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”. Hoje há uma evidente “globalização à escala ibérica”.
Porém, entre as coisas que ainda distinguem claramente a Espanha de Portugal, encontramos a imprensa e a forma como é usada a liberdade de imprensa. Em Espanha existe jornalismo de investigação e, como se vê hoje no El Correo, que se publica em Bilbau, são postos na praça pública os nomes e as fotografias dos homens que usaram abusivamente e gastaram milhões com os cartões de crédito da Caja Madrid e do Bankia, assim como uma pormenorizada descriminação dos gastos feitos em restaurantes, discotecas, viagens, hotéis, jóias, vestuário, cosmética, farmácia e tantas coisas mais. O jornal destaca esse assunto e chama-lhe a “radiografia do saque”. Porém, em Portugal nada disto é feito porque o nosso jornalismo se deixou enredar pelos interesses instalados e a maioria dos nossos jornalistas se tornaram permeáveis ao compadrio com essa gente e gosta de viajar com eles. Vemos isso demasiadas vezes. Assim, há uma opaca cortina jornalística que esconde os nomes e os factos que levaram Portugal por um caminho tão obscuro de incerteza e de desânimo, como aquele em que estamos. Não foi apenas o silêncio perante a mentira política e perante os responsáveis pelos casos BPN e BPP. Agora estão calados perante o caso BES e tantos outros escândalos menores, em que a política, o jornalismo e os negócios convivem. A única coisa positiva disto é que assim vamos sabendo quem é que tem vivido acima das suas posibilidades.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A gente sem vergonha que fala do BES

Há dias, o presidente do F. C. do Porto veio dizer que se sentiu “vigarizado por Passos e Cavaco no caso BES” e hoje lemos num jornal da nossa capital que "Queiroz perde milhões no BES". 
Estes dois casos são conhecidos porque se trata de duas pessoas do mundo do futebol, com natural acesso aos media. Porém, os jornais ignoram o que se passa com a maioria das pessoas que tinha o seu dinheiro no BES e, com esse silêncio e essa ligeireza jornalística, prestam um mau serviço à sociedade e merecem o nosso repúdio.
O escândalo do BES começou em Julho, quando o governador do Banco de Portugal reafirmou que a situação no BES estava sólida e que tudo estava a ser feito para evitar riscos de contágio com outras áreas do grupo. Foi uma declaração imprudente e incompetente, porque o banco não tinha nenhuma solidez.
Logo a seguir, na sua mania de falar de tudo do que sabe e do que não sabe, o primeiro-ministro veio dizer que os depositantes do BES tinham razões para confiar no banco e afirmou não ter dúvidas quanto à tranquilidade do sistema financeiro português. Disse então: "Uma coisa são os negócios que a família Espirito Santo tem e outra coisa é o banco. É muito importante que os agentes portugueses e os investidores externos consigam, não apenas perceber bem esta diferença, mas estar tranquilos relativamente à situação do banco", sublinhou.
Entretanto, durante uma importante visita à Coreia do Sul, também o Presidente da República veio falar do assunto, dizendo que os portugueses podiam confiar no BES, porque as suas folgas de capital eram mais que suficientes para cumprir a exposição que o banco tem à parte não financeira, mesmo na situação mais adversa. Em Agosto, a Ministra das Finanças veio confirmar tudo isto e elogiar a supervisão no caso BES que, segundo ela, seguiu as melhores práticas.
Agora, surpreendentemente, o primeiro-ministro veio admitir que a solução encontrada para o BES pode implicar encargos para os contribuintes, o que a Ministra das Finanças veio confirmar.  Eu já não me admiro nada com os malabarismos, as insensibilidades e a falta de vergonha desta gente, mas pergunto porque há tanta irresponsabilidade e porque razão insistem em iludir-nos e em mentir-nos.  E, já agora, é caso para perguntar onde param os 4.900.000.000 euros!

domingo, 5 de outubro de 2014

Aí está a Volvo Ocean Race 2014-2015

Começaram ontem em Alicante as provas preliminares da Volvo Ocean Race 2014-2015, embora a partida para a primeira etapa só vá acontecer no próximo dia 11 de Outubro. Serão cerca de 8 meses de uma prova vélica à volta do mundo, em que serão percorridas 38.739 milhas em 9 etapas na seguinte sequência portuária: Alicante, Cape Town, Abu Dhabi, Sanya, Auckland, Itajai, Newport, Lisboa, Lorient e, por fim, Gotemburgo. Em prova estarão 7 equipas cujas embarcações ostentarão as bandeiras nacionais dos seus patrocinadores: Emirados Árabes Unidos, China, Holanda, Estados Unidos-Turquia, Espanha, Dinamarca e Suécia, com a particularidade da tripulação sueca ser exclusivamente feminina. Os tripulantes das embarcaçoes são oriundos dos mais diversos países, a dar um cunho internacional a esta prova.
Tal como já acontecera em 2012 e já está confirmado acontecer em 2018, a cidade e o porto de Lisboa voltaram a ser escolhidos para acolher uma etapa da prova, que é um dos cinco maiores acontecimentos desportivos do mundo.
Assim, entre 23 e 27 de Maio do próximo ano, são esperados em Pedrouços os veleiros que completarão a 7ª etapa  da Volvo Ocean Race 2014-2015, que partirá de Newport e percorrerá 2800 milhas até Lisboa.
São raras as oportunidades que a cidade tem de se mostrar ao mundo e, por isso, estão de parabéns todas as instituições e pessoas que conseguiram colocar e manter a cidade de Lisboa como um dos pontos altos desta prova.

sábado, 4 de outubro de 2014

A minha pátria é a língua portuguesa

De acordo com as estimativas divulgadas pela Internet World Statistics relativas a 31 de Dezembro de 2013, a língua portuguesa é a 5ª língua mais utlizada na internet. Segundo essas estatísticas, a língua mais utilizada na internet é o inglês (800 milhões), seguida do chinês (649 milhões), do espanhol (222 milhões), do árabe (135 milhões) e do português (121 milhões), aparecendo depois o japonês, o russo, o alemão, o francês e o malaio.
Esta posição da língua portuguesa é semelhante à sua posição no ranking das línguas mais faladas no mundo. O Ethnologue: Languages of the world, que estuda e dá informação sobre as 7106 línguas e dialectos conhecidos no mundo, publicou a 17ª edição da sua publicação sobre as línguas, pela primeira vez em formato digital, tendo estabelecido o seu ranking no ano de 2013, em que o português aparece em 6º lugar. Assim, segundo o Ethnologue, as línguas mais faladas no mundo são o mandarim, o inglês, o espanhol, o hindi, o bengali e o português.
Temos, portanto, o português como a 6ª língua mais falada no mundo e a 5ª língua mais utilizada na internet. É obra! O facto do português ser a 3ª língua europeia mais falada e mais utilizada na internet, devia impor respeito na Europa e nos líderes europeus, para além de dever ser um estímulo para que quem nos representa se dê ao respeito e se faça ouvir em português, mesmo que fale ou conheça outras línguas.
Sejamos orgulhosos da nossa língua e pensemos na celebrada mensagem de Fernando Pessoa: “Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa.”

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Um escândalo espanhol aqui tão perto

 
Os jornais espanhóis destacam hoje a destituição de um director-geral de Economia da Comunidade de Madrid porque, entre 2003 e 2011, gastou 246.700 euros com um cartão Visa, para além das despesas de representação de que já beneficiava.
É o chamado “caso de las tarjetas opacas de Caja Madrid” que assume contornos de escândalo nacional e que envolve muita gente e muitos milhões de euros. No caso do director destituido, primeiro beneficiava de 25 mil euros anuais e, depois, de 4 mil euros mensais, para serem gastos como parte integrante da sua retribuição e sem necessidade de qualquer justificativo. Segundo referiu numa entrevista, o que se passava não era um exclusivo da Caja Madrid, mas “era una práctica conocida y legal en las corporaciones del mundo entero” e “todo el mundo conocía las tarjetas, pero estamos en un teatro”.
Porém, o caso é muito mais extenso e mais grave. Entre 2009 e 2011, quando a crise passou pelo seu pior período, os executivos da Caja Madrid gastaram mais de 4 milhões de euros com os seus cartões de crédito, sem necessidade de justificar esses gastos. Mas não eram só os executivos. Diz o jornal ABC que “un total de 28 consejeros del PP, 15 del PSOE, 4 de IU y 10 de los sindicatos las utilizaron” [las tarjetas]. O jornal El País escreve que “un excargo de Caja Madrid dice que Hacienda conocia las tarjetas opacas”, o diário La Razón diz que “diez sindicalistas gastaron 1,1 milliones con las tarjetas B de Caja Madrid” e o La Vanguardia destaca que “el escándalo de las tarjetas de Caja Madrid provoca los primeros ceses”.
Por uma questão de proximidade geográfica e cultural, este caso que tanto preocupa a Espanha bem merecia ser tratado pelo nosso jornalismo de investigação, até para ficarmos sossegados quanto ao que acontece em Portugal e não pensarmos que este tipo de gente gananciosa e sem escrúpulos também existe por cá.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Os aviões da RAF já voam sobre o Iraque

O Ministério da Defesa do Reino Unido anunciou ontem que dois aviões Tornado GR4 tinham lançado o seu primeiro ataque contra alvos no norte do Iraque, no quadro da sua campanha contra a jihad e o Estado Islâmico, informando também que os aviões tinham regressado em segurança à sua base em Chipre. Hoje, a edição do The Times, tal como outros jornais ingleses, destaca essa notícia. Esta primeira acção foi realizada quatro dias depois do parlamento britânico ter dado luz verde para a participação na coligação internacional contra o Estado Islâmico no norte do Iraque, por 524 votos a favor e 43 votos contra, após sete horas de intenso debate, isto é, o assunto foi pensado e democraticamente decidido.
A coligação internacional é liderada pelos Estados Unidos e parece já ter a adesão de quatro dezenas de países. Segundo a imprensa, a França, a Bélgica, a Dinamarca e a Holanda já aderiram à coligação e estão a participar nos ataques aéreos, enquanto os mais recentes ataques que os Estados Unidos estão a conduzir no território sírio contam com a participação do Egipto, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Jordânia e Qatar. Pela sua previsível duração e elevado custo, as operações precisam de ser compreendidas e aceites pelas opiniões públicas dos respectivos países, sobretudo numa Europa em recessão e crise económica. Assim, no Reino Unido foram divulgadas imagens da primeira acção britânica no Iraque, a imprensa belga diz que “F-16 belgas: 97% de alvos atingidos” e, sobre os Emirados, é destacado que “mulher comanda bombardeios na Síria”. Por cá, o assunto não é discutido, nem sabemos se ainda temos alguns aviões ou se já foram vendidos todos. Se a FAP tem pilotos ou já estão todos na TAP. Ouvimos o Ministro da Defesa dizer que “Portugal vai participar na coligação internacional contra o Estado Islâmico, ressalvando que “a seu tempo se verá” de que forma, enquanto o Presidente da República afirmou que “não está prevista a participação de militares portugueses na coligação internacional contra o Estado Islâmico”. Em vez destas tiradas despropositadas ou até contraditórias, talvez fosse interessante perguntar aos portugueses através dos seus representantes, tal como foi feito no Reino Unido, o que é que acham deste assunto.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O ténis de mesa é que nos dá alegrias

Neste domingo disputou-se a final do Campeonato da Europa de ténis de mesa por equipas e a selecção portuguesa venceu a selecção alemã por 3-1, conquistando pela primeira vez o título.
O funchalense Marcos Freitas começou a brilhar ao vencer Steffen Mengel no primeiro jogo por 3-0, mas João Pedro Monteiro perdeu com Timo Boll e o encontro ficou empatado em 1-1. Seguiu-se Tiago Apolónia que venceu Dimitrij Ovtcharov por 3-1 e colocou o resultado em 2-1. O embate final entre Marcos Freitas e Timo Boll, respectivamente o nº 5 e o nº 2  do ranking europeu, foi espectacular e a inesperada vitória portuguesa fez explodir de alegria o pavilhão do Parque das Nações e os jogadores. Não era para menos, porque a selecção alemã não é apenas a nº 1 do ranking europeu, mas tinha sido campeã europeia ininterruptamente desde 2007 e é, actualmente, a equipa vice-campeã do mundo.
É muito raro que os nossos atletas sejam campeões europeus de qualquer coisa e, no corrente ano, parece-me que só o remador Pedro Fraga tinha conseguido esse título, para além daquele singular caso que é a canoagem, em que este ano foram obtidas 18 medalhas em Europeus e Mundiais. Por isso, num ano de má memória desportiva, com fracassos no Mundial de Futebol e apenas alguns bons resultados internacionais na canoagem, no remo e no ciclismo, este resultado no ténis de mesa é digno de aplauso, pois significa muito talento e muito trabalho.

Sopra vento de esperança e de mudança

Realizaram-se ontem as eleições primárias do PS cuja campanha animou os últimos meses e, como hoje dizia o editorial do Diário de Notícias, “nem sempre quem ganha é o mais preparado e o melhor. Mas aconteceu...”
António Costa ganhou com cerca de 65% dos votos e, com este resultado esmagador abre-se um novo ciclo político, porque a maioria está cansada e exausta, mentiu demasiadas vezes aos portugueses, empobreceu o país, dirigiu uma cruzada contra funcionários públicos e pensionistas, afundou-se em casos complicados e não resolveu (antes agravou) os nossos principais problemas, como a dívida, o défice, o desemprego, a coesão social e a confiança dos portugueses, para além de se ter deixado humilhar perante os nossos parceiros internacionais. A vitória de António Costa é um sinal de esperança mas não resulta apenas da confiança que suscita nos portugueses, pois também tem de ser interpretada como uma evidente vontade de afastar do poder a actual maioria e muitos dos seus protagonistas inexperientes, ambiciosos, incompetentes e arrogantes. Por isso, esta vitória tem que ser vista como um sinal de esperança e de mudança, mas também da criação de novas condições de diálogo com todas as forças políticas parlamentares e do fim da expressão “arco da governação”, que tanto tem servido a Portas e à sua corte para se instalarem.
António Costa tem pela frente um desafio complexo, em que o primeiro passo deverá ser a mobilização dos portugueses para que recuperem a confiança no seu país, depois dos tempos bem difíceis em que têm vivido. Além disso, espera-se que este homem tenha uma proposta e nos ofereça uma alternativa de mudança, com uma política que apoie o crescimento e o emprego, que ataque a dívida com soluções realistas, que reforce o Estado social e que reforme o sistema político e a administração pública. O mais difícil para António Costa será demarcar-se de práticas políticas já gastas, do aparelhismo a que está ligado e da sua capacidade para resistir aos jobs for the boys (como o seu amigo Guterres não resistiu), mas também de se deixar transformar numa espécie de François Hollande, que tendo devolvido a esperança aos franceses, os desiludiu depois. Porém e para já, sopra um vento de esperança.

domingo, 28 de setembro de 2014

A tradição naval ainda é o que era

Nas sociedades organizadas existe sempre um acentuado culto comemorativista das pessoas, mas também das instituições. Comemorar é um exercício emocional libertador que estimula o reencontro com as melhores memórias e os princípios orientadores da actividade dos homens ou das instituições. É por isso que as pessoas comemoram os seus aniversários, os baptizados e os casamentos, os êxitos académicos, as vitórias desportivas e outros acontecimentos relevantes das suas vidas, enquanto as instituições utilizam as datas comemorativas para evocar grandes realizações e estimular o fortalecimento de sentimentos positivos.
Pela sua especificidade, a instituição militar e em especial a corporação da Marinha, cultiva muitos símbolos, muitas tradições e muitas datas comemorativas que contribuem para o reforço da coesão da corporação e para alimentar a cultura naval. Assim, é habitual que os chamados “filhos da escola” comemorem as datas das suas incorporações e do seu final de curso, assim como outras datas relacionadas com a sua vida naval, sobretudo quando são celebrados 25, 40 ou 50 anos dessas efemérides. É por isso que, por exemplo, a Escola Naval cumpre uma tradição e todos os anos recebe nas suas instalações do Alfeite muitos dos seus antigos alunos, por vezes com as suas famílias, que ali vão evocar os tempos da sua formação militar-naval.
Em Espanha acontece a mesma coisa e a Escuela Naval Militar, localizada em Marin (Pontevedra), recebeu os seus alunos que terminaram o curso em 1989 e que ali foram celebrar os 25 anos da sua promoção a guardas-marinhas. Entre eles encontrava-se o Rei Filipe VI e o Diário de Pontevedra assinalou o facto com uma fotografia na primeira página da edição de ontem.
Lá como cá, a tradição naval ainda é o que era.

A Bretanha e a sua identidade cultural

Nos últimos anos, a crise económica, a generalizada má governação e a inexistência de verdadeiros líderes europeus, têm ampliado a insatisfação dos cidadãos, um pouco por todo o continente, estando os sinais dessa insatisfação a revelar-se por diferentes formas, sobretudo de ordem política e cultural.  
Ontem na cidade francesa de Nantes, a principal cidade do Departamento de Loire-Atlantique, cerca de quatro dezenas de milhar de cidadãos com os seus tradicionais gorros vermelhos e com bandeiras da Bretanha, manifestaram-se e reivindicaram que o seu Departamento fosse integrado na região administrativa da Bretanha, de que fazem parte os Departamentos de Finistère (Brest), Côte d’Armor (St. Brieuc), Ile et Vilaine (Rennes) e Morbihan (Lorient).
A edição de hoje do Ouest-France, mas também outros jornais franceses, destacaram a importância histórica da marcha ontem realizada por uma Bretanha reunificada. Esta reivindicação tem um carácter histórico e cultural, pois “o Loire inferior faz parte da Bretanha desde há mais de mil anos e a Bretanha a quatro, não é a Bretanha”. A mobilização pela “reunificação da Bretanha com 5 Departamentos” e pela defesa da sua língua, tem-se acentuado nos últimos anos e, segundo as sondagens conhecidas, a maioria dos bretões quer esta reunificação.
O curioso é que, embora com objectivos distintos, a manifestação ontem realizada em Nantes acontece depois do referendo escocês e numa altura em que a Catalunha se radicaliza, significando que para além deste sentimento reunificador, também haverá um sentimento autonomista entre os bretões, historicamente ligados ao mar e ao Atlântico como nenhuns outros franceses.

sábado, 27 de setembro de 2014

Uma maioria, um governo, um Presidente

A Assembleia da República ouviu ontem as explicações do primeiro-ministro sobre alegados recebimentos que terá auferido no tempo em que exercia funções de deputado em regime de exclusividade.
A maioria gostou e aplaudiu de pé, enquanto a oposição não aceitou as explicações e prometeu que este caso não estava encerrado, devido às suas implicações políticas e éticas. Aquilo a que assistimos no debate parlamentar quinzenal foi um exercício de malabarismo, ensaiado para agradar à sua própria claque parlamentar, com demagógicas referências à subvenção vitalícia que não requereu, à sua vida remediada e às poupanças que não tem. Como toda a gente sabe, era comum e talvez ainda o seja em muitas empresas e até organismos estatais, usar “sacos azuis” e “pagamentos por debaixo da mesa” para reduzir a carga fiscal de quem paga e de quem recebe. Ignorar isso é a mesma coisa que ignorar que a Terra é redonda. Na panóplia destes instrumentos de retribuição à margem do fisco estão, por exemplo, o uso de despesas de representação, o pagamento de quilómetros fictícios em viatura própria, o cartão de crédito para despesas pessoais, as senhas de gasolina e de refeição, a atribuição de viatura, o pagamento de viagens, os PPR, os seguros e tantas outras impensáveis benesses.
O ex-deputado Passos Coelho estava em regime de exclusividade, mas viajou para Bruxelas e para Cabo Verde em trabalho para uma organização como facilitador de negócios, declarando que trabalhou sem remuneração e que apenas recebeu ajudas de custo e reembolsos de despesas, mas não se recorda quanto. A dúvida persiste. Eu não fiquei nada esclarecido com esta explicação. Porém, o Presidente da República, que ainda não falou sobre o pandemónio em que vivemos na Justiça e na Educação, apressou-se a dizer que foi informado que “o senhor primeiro-ministro prestou todos os esclarecimentos sobre a sua relação profissional com a Tecnoforma e que o fez no local próprio”.
Que tristeza!  Face ao malabarismo do ex-deputado, o governo apoia, os deputados aplaudem e o presidente diz que está tudo bem. Foi por isso que sempre foi desejada “uma maioria, um governo, um Presidente”?
 
 
 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

À mulher de César não basta ser honesta…

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Há mais de dois mil anos o imperador Júlio César decidiu divorciar-se da sua esposa Pompéia, não porque ela lhe tivesse sido infiel, mas apenas porque esse rumor correu em Roma. Foi no contexto desse divórcio que Júlio César disse que “à mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta”. Passaram-se séculos e aquela frase e o seu significado chegaram até aos nossos dias, sendo utilizada em situações muito diversas, sobretudo de ordem política.
Vem esta evocação a propósito da dúvida agora surgida a respeito do jovem deputado Pedro Passos Coelho (PPC) que em tempos se esqueceu dos seus deveres parlamentares e terá recebido importâncias a que não tinha direito. A questão é simples: ou PPC tinha regime de exclusividade e não podia ter recebido quantias da ordem dos 150 mil euros por actividades exteriores ao Parlamento que não declarou ao fisco, ou PPC não tinha regime de exclusividade e, nesse caso, não tinha direito ao subsídio de reintegração de cerca de 30 mil euros que requereu à Assembleia da República e lhe foi concedido.
Estes factos terão ocorrido entre 1995 e 1999 e, a ter acontecido qualquer ilicitude de natureza criminal, já terá prescrito. Porém, o deputado PPC chegou a primeiro-ministro e, nessa função, a ausência de responsabilidade criminal não elimina a responsabilidade política. A ser verdade o que a imprensa vem revelando, não podemos deixar de condenar quem tem actuado como uma espécie de justiceiro e tem dirigido uma política de cortes cegos contra funcionários públicos e pensionistas e, afinal, tem tantos telhados de vidro. Lamentavelmente, em vez de procurar esclarecer o que se passou, refugia-se em frases vazias e na falta de memória, ameaçando bater com a porta. Assim, aumenta o nosso interesse em saber a verdade, até porque em política não vale tudo. À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O ‘não’ escocês e as aspirações catalãs

O resultado do referendo escocês que reafirmou a unidade do Reino Unido e rejeitou a independência da Escócia foi um acontecimento importante que descansou o nervosismo de muita gente nas ilhas Britânicas, que não sabia o que fazer se o resultado fosse outro. Entretanto, houve muita gente, quer no Reino Unido, quer na União Europeia, que decidiu descansar sobre o resultado do referendo escocês, pensando que tinham arrefecido as tendências separatistas, independentistas ou descentralizadoras que se têm manifestado em vários países europeus mas, provavelmente, para esses movimentos aconteceu que o resultado da Escócia correspondeu apenas a uma batalha perdida e que “a guerra não está perdida”.
A Catalunha é um exemplo da vontade que se reforçou depois do referendo escocês, com a exigência da realização de um referendo semelhante que se realizou no passado dia 18 de Setembro. Assim, será uma enorme ingenuidade pensar que as aspirações autonomistas catalãs, tal como as de outras regiões, vão desaparecer por causa da Escócia, até porque o actual ambiente de recessão e de austeridade europeia muito contribui para as causas separatistas.
Por isso, o atraente grafismo da capa do diário madrileno ABC induz nos seus leitores a ideia que o processo catalão está em perda e que a consulta popular que milhares de pessoas reivindicam nas ruas, se diluiu com o resultado escocês. Porém, essa é apenas uma opinião do jornal, pois a realidade parece ser outra. De resto, o diário ABC que é um dos maiores jornais espanhóis e que é conhecido pela sua qualidade jornalística, mas também pelas suas tendências conservadoras, apoio à monarquia e defesa da unidade da Espanha, não está a fazer outra coisa que não seja o cumprimento da sua cartilha ideológica e a procurar formar em vez de informar os seus leitores.