quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A esperança espanhola chama-se Podemos

No corrente ano de 2015 a nossa vizinha Espanha vai ter eleições locais e autonómicas em Maio e, no final do ano, terá eleições gerais que, de acordo com a lei, se realização até ao dia 20 de Dezembro. Será, portanto, um ano em que os espanhóis vão ser chamados às urnas para responder a muitas perguntas, embora a crise económica e social e, em especial, a austeridade e o desemprego sejam os temas dominantes nas disputas eleitorais. O PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) e o PP (Partido Popular) têm sido os grandes protagonistas do processo político espanhol, alternando maiorias e assegurando o governo do país. Porém, em consequência da crise económica e social, do elevado desemprego e da continuada austeridade, surgiram condições para a formação de uma nova força política que de imediato mobiliou o cansaço e o descontentamento dos espanhóis. Foi criado em Janeiro de 2014 e foi baptizado como Podemos. Quatro meses participou nas eleições europeias, obteve 7,98% dos votos e conquistou 5 cadeiras no Parlamento Europeu.
O sucesso do Podemos de Pablo Iglésias despertou uma onda de entusiasmo em Espanha, semelhante ao que se passou na Grécia com o Syrisa de Alexis Tsipras. O barómetro de Janeiro do Centro de Investigações Sociológicas (CIS), um organismo governamental autónomo, revelou que o Podemos já é a segunda força política espanhola com 23,9% das intenções de voto e que está apenas a três pontos do PP, que continua a ser o primeiro partido espanhol. Hoje, o diário ABC destaca exactamente a fulgurante ascensão de um partido que rejeita a austeridade, a má governação e a sujeição às imposições estrangeiras.
Faltam alguns meses para as eleições legislativas espanholas, mas o fenómeno Podemos pode abrir um novo capítulo na história espanhola e, naturalmente, também nos outros países da Europa do Sul. Até lá, aguardemos o que vai acontecer no imbróglio grego…

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A escalada da guerra domina a Ucrânia

Foi em Abril de 2014 que começaram os confrontos militares no Leste da Ucrânia e, passados cerca de 8 meses, já estão contabilizados mais de 5 mil mortos e 1,2 milhões de refugiados e, como hoje diz o jornal luxemburgês Le Quotidien, a Ucrânia está à beira do precipício.
Assim, uma vez mais, temos o continente europeu confrontado com uma guerra dentro das suas fronteiras geográficas e culturais e com uma tragédia que nos recorda um passado histórico de conflitualidade, sem que os seus dirigentes se entendam e consigam impor a negociação, o cessar-fogo e a resolução pacífica deste conflito.
Na Ucrânia há uma parte que quer virar-se para a prosperidade da União Europeia e outra parte que quer manter os seus laços tradicionais com a Rússia e, do intenso combate político em que o país se envolveu, resultou o confronto militar. Os combates entre as forças regulares do exército ucraniano e os independentistas das autoproclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk intensificaram-se nos últimos tempos e o número de mortos continua a aumentar, com as televisões a mostrar as imagens brutais da morte, do sofrimento e da destruição. Os separatistas pró-russos anunciaram a intenção de criar uma frente única para unir as duas frentes de combate activas, apelaram à urgente mobilização de 100 mil combatentes e ameaçaram estender a guerra a todo o território ucraniano.
Perante este cenário em que os separatistas pró-russos parecem estar a consolidar e alargar posições no terreno, o governo de Kiev teme uma invasão russa e acusa o governo de Putin de já estar a intervir no terreno, pelo que os Estados Unidos estão a ponderar uma resposta com o envio de auxílio militar que poderá incluir sistemas antiaéreos, anti-morteiro e antitanque. embora a Alemanha e a França não apoiem essa solução.
Muitos analistas já consideram que os tempos da “guerra fria” estão de volta e, como hoje escreveu o diário Le Quotidien, a Ucrânia está à beira do precipício, sobretudo porque não há dirigentes capazes de fazer qualquer coisa pela negociação e pela paz ou, então, são mais sensíveis aos seus interesses económicos do que às tragédias humanas dos outros.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

As novas estratégias para a Ásia do Sul

No dia 26 de Janeiro comemorou-se na Índia o Dia da República, evocando a aprovação em 1950 da Constituição da União Indiana que instituiu a república, embora tenha sido mantida a ligação à Commonwealth. Esse dia é mais festejado que o próprio Dia da Independência e, em Nova Delhi, consta de uma monumental parada militar que percorre os 5 quilómetros da Rajpath e demora 3 longas horas. Desfilam o Exército, a Marinha e a Força Aérea. Desfilam as Polícias. Desfilam tanques, mísseis e carros de combate. Desfilam tropas com turbantes de todas as cores montando cavalos e camelos. Desafilam motociclistas acrobatas. Desfilam grupos de dança. É um impressionante festival de cor e de sincronismo. Um imponente airshow mostra todo o tipo de aviões e helicópteros a sobrevoar a parada militar, com destaque para os Sukhois e para os MiGs. No sentido de reforçar a unidade nacional, cada um dos 28 Estados federados faz-se representar no monumental desfile por um carro alegórico, onde é evidenciada a sua história e a sua realidade cultural.
A parada do Dia da República é um grande espectáculo e este ano, pela primeira vez, teve a participação das mulheres das Forças Armadas e direito a transmissão televisiva internacional.
Todos os anos o Dia da República tem um convidado especial que este ano foi Barack Obama, que desta forma se tornou o primeiro presidente americano a visitar a Índia por duas vezes, por poderosas razões de realpolitik. Com a China, a Rússia e o Paquistão ali tão perto, uma nova estratégia e uma nova aliança parecem ter sido ensaiadas neste encontro entre Obama e Modi, o primeiro ministro da Índia.
Barack Obama viu ali um contra-poder à sua rival China, viu como a Rússia é a principal fornecedora de equipamento militar à Índia e viu o esforço de “indigenisation”, isto é, a vontade indiana de se tornar num produtor e exportador de equipamento militar.
Narendra Modi viu ali o amigo do seu arqui-rival Paquistão, viu um novo aliado em relação às pretensões territoriais chinesas e à sua influência no oceano Índico e viu um investidor que pode trazer o capital e a tecnologia de que a Índia carece para se desenvolver.   
A última edição do India Today diz que Obama e Modi reescreveram um reviravolta nas relações entre os dois países e, com euforia, escolheu como título: REUNITED STATES. Um sugestivo título!

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O lamentável esquecimento do caso BPN

O caso BPN está associado às mais negras nuvens e aos mais tenebrosos abutres que assolaram Portugal nas últimas décadas, mas muitas vezes parece ter caído no esquecimento da comunicação social e da opinião pública. É lamentável que assim suceda e não será difícil imaginar porque assim acontece.
No entanto, a tragédia do BPN é uma vergonha nacional pelos seus contornos criminosos e de absoluta indignidade, tendo mostrado que os portugueses não viveram acima das suas possibilidades, mas que quem assim viveu foram muitos banqueiros, empresários, gestores e políticos ligados ao regime e, em especial, àquilo a que o portismo e os seus amigos abusivamente chamaram o “arco da governação”.
A edição deste fim de semana do semanário Expresso veio lembrar-nos que o caso BPN existiu, ao anunciar em primeira página que o “Estado só recuperou €540 milhões do BPN”, que correspondem apenas a 12,9% dos 4,2 mil milhões de euros de créditos em dívida de clientes e accionistas que foram considerados activos tóxicos. Segundo a Parvalorem, a entidade pública responsável pela recuperação desses créditos, entre 2010 e 2014 foram recuperados 310 milhões de euros em dinheiro e o restante em valores imóveis. É muito pouco, muitíssimo pouco. É inadmissível. Só pode ser por falta de vontade.
O governo tinha anunciado em devido tempo que queria recuperar as dívidas do BPN e, nessa altura, foi divulgado que havia 13 mil créditos em contencioso. Não se compreende como persiste a impunidade de tanta gente, sobretudo dos administradores do BPN antes da sua nacionalização e dos seus amigos, que compraram e venderam acções sem nunca as pagar e beneficiaram de créditos sem que lhes exigissem garantias.
É caso para perguntar se a Justiça também tem dois pesos e duas medidas.

O monarca absoluto de Angola

Angola parece viver tempos de incerteza, depois de um período de grande expansão, havendo quem afirme que se está a caminhar para o “desastre político e social”. A situação economica e social tende a agravar-se devido à extrema dependência do país em relação ao petróleo, cujo preço está em queda e que em 2015 se espera represente uma quebra de 12 mil milhões de euros na receita petrolífera, mas também porque o país está viciado nas importações, nos gastos supérfluos com fundos públicos e com as muitas centenas de carros de luxo das elites.
O Presidente da República e titular do Poder Executivo que está no poder há 35 anos, é acusado pela oposição e até por alguns sectores do MPLA, de não ter apoiado a diversificação da economia, de ter pactuado com a corrupção e de ter imposto os seus amigos e correlegionários como parceiros a todos os estrangeiros que querem investir ou fazer negócios em Angola.
Poucos jornais denunciam esta situação. Um deles é o folha 8 que se publica em Luanda e que é independente do governo e tem uma linha editorial que é muito crítica do regime angolano, pelo que já foi ameaçado de ser suspenso por denunciar os seus excessos. Na sua edição de ontem, o jornal inclui uma entrevista com Marcelino Moco, jurista e doutorando na Universidade de Lisboa, ex-secretário geral do MPLA, ex-primeiro ministro e ex-secretário executivo da CPLP que, embora rejeite pertencer à oposição angolana, manifesta preocupação “quando se vive da distribuição de avultadas riquezas líquidas a familiares, a servidores pessoais e aos que se calam a algum preço, alto ou baixo” As críticas de Marcelino Moco vão mais longe, ao afirmar que “para proteger completamente os interesses pessoais do actual e longevo titular da Presidência da República, o Tribunal Constitucional (deve ler-se ‘tribunal presidencial eduardista’) concluiu a proclamação do actual Presidente da República em monarca absoluto, depois de ter proclamado o filho José Filomeno dos Santos seu príncipe herdeiro”. E Marcelino Moco faz uma promessa: “Se um dia eu voltar ao governo, que nunca será neste regime completamente amoral e atrapalhado com a ideia de acumulação de capital para parentes e servidores, saberei rodear-me de pessoal competente nessas áreas”.
É assim a vida em Angola, onde reina um monarca absoluto.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Como eles sacodem a água do capote

Não temos acompanhado a verdadeira novela que tem sido o processo BES, porque são assuntos de grande complexidade técnica e que só têm servido para me incomodar, sobretudo porque revelam a enorme podridão que tem afectado algumas das nossas supersestruturas politico-económicas e alguns dos seus desonestos agentes.
Por isso, foi com alguma surpresa que tomamos conhecimento de uma carta dirigida à Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES, em que o seu antigo Presidente afirma ter-se encontrado com Cavaco Silva, Passos Coelho, Maria Albuquerque, Carlos Moedas, Durão Barroso e Paulo Portas, isto é, a nata do nosso regime político. O Presidente do BES conhecia todas estas pessoas e várias vezes integrou comitivas presidenciais e ministeriais. Certamente conviveu com eles aqui e acolá. Provavelmente até passaram férias conjuntamente num qualquer local exótico. Por isso, estes encontros não foram visitas de cortesia, mas foram visitas institucionais para informar sobre a situação de degradação que se vivia no BES e para pedir apoio. Significa, portanto, que todas estas pessoas e entidades estavam informadas do que se passava no BES, como de resto muito mais gente anónima suspeitava.
Porém, quando rebentou a bronca do BES e do GES, até porque era tempo de praia, cada um tratou de sacudir a água do capote à sua maneira. Ninguém era amigo do Salgado, ninguém conviveu com Salgado.
Agora a carta enviada à Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES veio ressuscitar a questão, ao revelar que o Presidente do BES se tinha encontrado duas vezes com o Presidente da República, o que significa que ele conhecia a situação.  Muitos portugueses que tinham confiado no BES reagiram de imediato, pois tinham perdido as suas poupanças. Lembraram que em Julho de 2014, na Coreia do Sul, o Presidente da República tinha garantido que os “Portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo”, de acordo com as garantias e as informações que recebera do Banco de Portugal. E eles confiaram. Agora, quando todas essas declarações ainda estão disponíveis na internet e estão gravadas na nossa memória, num verdadeiro jogo de palavras, o irritado Presidente veio dizer que nunca disse o que disse e acusou os jornalistas de mentirem. Ele é, sem dúvida, um grande sacudidor da água do capote.

Dijsselbloem & Varoufakis: o desencontro

Jeroen Dijsselbloem e Yanis Varoufakis encontraram-se ontem em Atenas. O primeiro é o ministro das Finanças dos Países Baixos e presidente do Eurogrupo e o segundo é o ministro das Finanças da Grécia. Ao contrário do que sucedeu na reunião entre Alexis Tsipras e Martin Schulz em que este, de acordo com a imprensa, gostou do que ouviu e saiu optimista do encontro, manifestando agrado com a intenção grega de dar prioridade ao combate à emergência e à injustiça sociais e à evasão fiscal, os senhores Dijsselbloem e Varoufakis estiveram demasiado tensos na conferência de imprensa final, quase nem se cumprimentaram e, cada um ao seu modo, mostrou que não estava politicamente preparado para aquele número. É caso para dizer que as conversas entre a União Europeia e a Grécia começaram mal e que esse facto não augura nada de bom.
Dijsselbloem e Varoufakis não estiveram bem. Não foi um encontro. Foi um desencontro. Não é assim que se negoceia ou se abrem as portas para negociar. Jeroen Dijsselbloem portou-se como um cobrador de fraque e repetiu o discurso obcessivo, intransigente e humilhante que os gregos tinham acabado de rejeitar nas urnas. A outra parte não gostou. Varoufakis esqueceu a sua condição de devedor e, animado pela recente vitória eleitoral, mostrou alguma sobranceria e repetiu o discurso anti-austeridade e anti-troika. A outra parte não gostou. 
O assunto é demasiado complexo e demasiado importante para o futuro da Europa e, por isso, a maioria dos líderes europeus mostra-se muito cautelosa nas suas declarações, embora haja algumas excepções. Uma dessas excepções acontece em Portugal. É um Portugal radical! É lamentável a obcessão de quem, ao fim de quase quatro anos, não só não conseguiu suster a nossa dívida externa e criou um problema social muito grave, como agora se mostra “mais papista do que o Papa” e se coloca ao lado dos falcões e da ganância dos mercados, revelando uma absoluta insensibilidade em relação à tragédia social grega.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Uma grande derrota da jihad em Kobani

Adicionar legenda
Depois de 134 dias de cerco, a cidade curda síria de Kobani, situada na fronteira com a Turquia, foi libertada pelas forças curdas do YPG - as unidades de defesa do Partido da União Democrática (PYD) que é o principal partido curdo da Síria - que resistiram aos jihadistas com a ajuda dos peshmerga (forças iraquianas curdas) e dos ataques aéreos da coligação internacional liderada pelos Estados Unidos.
Os quatro meses de combates levaram ao abandono da cidade pelos seus 50 mil habitantes e deixaram a malha urbana completamente arrasada e sem água, electricidade ou mantimentos, mas livre dos jihadistas que abandonaram a cidade e que são agora perseguidos pelos arredores.
Kobani tornou-se o símbolo da resistência ao movimento jihadista e esta vitória já é considerada um enorme revés para as forças do Estado Islâmico, mas também a sua primeira grande derrota na campanha militar visando a expansão do seu autoproclamado califado. Essas forças terão perdido cerca de mil combatentes e grande quantidade de material de guerra mas, sobretudo, perderam a reputação que pretendiam criar de absoluta invencibilidade e de não poderem ser travados por ninguém.
O jornal independentista catalão ara que se publica em Barcelona, foi um dos raros órgãos de comunicação que hoje destacou esta notícia e compara a resistência de Kobani à resistência de Stalinegrado em 1942-1943 e de Sarajevo em 1992-1996. 
Porém, a libertação de Kobani não é apenas uma derrota para a jihad, mas é também uma significativa vitória para a nação curda. Certamente, esta vitória vai estimular o nacionalismo curdo e recolocar em cima do futuro tabuleiro negocial, a aspiração de reunir numa só pátria e num só território nacional os 28 milhões de curdos hoje dispersos sobretudo pela Turquia, mas também pelo Iraque, Irão, Síria, Arménia e Azerbeijão.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Auschwitz, 70 anos depois da libertação

Há 70 anos, no dia 27 de Janeiro de 1945, as tropas soviéticas libertaram Auschwitz, o mais famoso e mais tenebroso campo de concentração do III Reich, onde terão morrido cerca de 1,3 milhões de pessoas, sobretudo judeus, mas também polacos, ciganos romenos, prisioneiros de guerra russos e dezenas de milhares de prisioneiros de outras nacionalidades.
A partir de toda a Europa ocupada pelos nazis, entre o início de 1942 e os finais de 1944, houve muitos milhares de pessoas que, por via ferroviária, foram transportadas para Auschwitz, um campo situado no território polaco, com destino às suas câmaras de gás. Muitos não chegaram a morrer nessas câmaras de extermínio, pois sucumbiram à fome, às doenças infecciosas, aos trabalhos forçados, às execuções individuais ou às experiências médicas.
Auschwitz tornou-se o maior e o mais terrível campo de concentração e um símbolo da barbárie nazi. A sua brutal realidade ultrapassou tudo o que pudesse ter sido imaginado.
Em 1947 foi aberto o Museu de Auschwitz-Birkenau nas instalações do antigo campo de concentração de forma a preservar às gerações vindouras a memória do Holocausto e, em 1979, a UNESCO declarou oficialmente o “German Nazi Concentration and Extermination Camp (1940-1945)” de Auschwitz-Birkenau, como Património da Humanidade.
Hoje, cerca de 300 sobreviventes de Auschwitz, na sua maioria com mais de 90 anos de idade, regressaram ao local de onde foram libertados há 70 anos, numa cerimónia em que estiveram presentes delegações oficiais de cerca de cinco dezenas de países. Porém, as cerimónias evocativas aconteceram um pouco por todo o mundo, inclusive em Portugal, tendo alguns jornais internacionais evocado a data,  homenageado as vítimas do nazismo e apelado para que o mundo não esqueça Auschwitz e os seus horrores.
 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Grécia: para que tudo não fique na mesma

Alexis Tsipras e o Syrisa ganharam as eleições legislativas, por vontade dos gregos e contra o desejo repetidamente expresso pelos dirigentes alemães e pelos burocratas de Bruxelas, que continuam a apoiar essa entidade abstracta e agiota a que se convencionou chamar “mercados”. Com o seu voto democrático, os gregos provocaram um tsunami político numa Europa cada vez mais inquieta e sem soluções para os seus graves problemas económicos, mas sobretudo para a sua profunda crise social. Os gregos votaram contra uma austeridade humilhante que lhes tem sido imposta pela ganância dos credores e desafiaram a troika e as autoridades de Bruxelas mas, sobretudo, enfrentaram Angela Merkel e o seu autoritarismo. Depois de Hollande e Renzi terem frustrado as esperanças francesas e italianas relativamente à adopção de novas políticas que não submetessem os povos à ditadura financeira dos mercados, Alexis Tsipras surge como a figura que desafia a poderosa Angela Merkel e as políticas de austeridade que têm sido impostas à Grécia, mas também a outros países, entre os quais Portugal.
Os tempos que se aproximam vão ser muito difíceis e muito incertos e todos os cenários estão em aberto, desde a consolidação de uma nova via para o futuro da Europa com novas políticas e novos actores, até à implosão do velho continente e uma completa tragédia na Grécia e não só. O tempo dos diktats alemães parece ter-se esgotado. É preciso muita prudência em Atenas, em Berlim e em Bruxelas para negociar com dignidade. É preciso que em Lisboa se olhe para Atenas com muita atenção e que se aprenda com o exemplo daqueles dirigentes insubmissos e patriotas. Os eleitorados europeus  já estão fartos desta receita de austeridade e não suportam mais a má governação, a incerteza, o desemprego, o aumento da pobreza, a ausência de crescimento, a ruptura social, a falta de esperança e a arrogância da troika e dos seus aliados.
Há dias o franco suiço desligou-se do euro e alguns observadores viram nessa decisão um mau prenúncio. Da mesma forma, embora tardiamente e perante a eminência de uma deflacção incontrolada, o BCE decidiu fazer qualquer coisa, para que tudo não fique na mesma. Ontem, os gregos deram um passo nesse mesmo sentido.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Nada justifica a venda dos nossos anéis

A Assembleia Geral da PT SGPS decidiu vender a PT Portugal à Altice, um fundo de investimento com sede no Luxemburgo que é maioritariamente detido por franceses e que, aparentemente, se dedica a compras e vendas no sector das telecomunicações. A edição de ontem do Jornal de Negócios destaca essa notícia que se traduz na saída de Portugal de mais um centro de decisão.
O facto serve para nos avivar a memória do que tem sido a delapidação do nosso património empresarial, nuns casos pela sua incapacidade de sobrevivência num mercado internacional muito competitivo, noutros casos pela incompetência e leviandade com que foi gerido e noutros casos, ainda, apenas por decisão ideológica de privatizar as empresas estatais. Ainda há poucos anos os portugueses se orgulhavam de algumas empresas portuguesas com prestígio internacional e se estimulava o aparecimento de “campeões nacionais”, isto é, empresas que pelo seu impacto nos mercados interno e internacional podiam ser vistas como referenciais no desempenho económico, na qualidade da gestão, na investigação científica e tecnológica, na inovação e na reputação dos seus produtos ou serviços. Porém, os ventos começaram a soprar de outra direcção e não se pensou mais nos “campeões nacionais”. Por necessidade financeira ou por opção ideológica, o governo português entrou numa onda de privatizações e de abertura ao capital privado estrangeiro mais ou menos especulativo, assunto que nunca foi bem explicado e que tanto nos subalterniza. Um dia assistimos ao “desaparecimento” da Cimpor, que foi privatizada e se tornou brasileira; no outro vimos a “espanholização” do Banco Totta. A coisa não parou. Nos anos mais recentes instalou-se uma onda privatizadora em Portugal e lá se foi a EDP para os chineses da Three Gorges, a REN também para os chineses da State Grid of China e a ANA para os franceses da Vinci. Os CTT foram comprados por um sindicato internacional onde pontificam os americanos da Goldman Sachs e o Deustche Bank, enquanto a Caixa Seguros (Fidelidade) foi comprada pelos chineses da Fosun. É demais.
Não há nada que justifique esta delapidação do nosso património empresarial e a venda dos nossos anéis.  E se essa venda não é ilegal, é certamente ilegítima.

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Brasil: a preocupante escassez de água

Alguns jornais brasileiros têm destacado, quase todos os dias, a alarmante situação por que passa o abastecimento público de água às grandes metrópoles, sobretudo São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, traçando cenários muito preocupantes em relação à hipótese dessas cidades poderem entrar numa situação de emergência hídrica. A escassez de água potável é hoje um problema mundial, sobretudo nas regiões mais urbanizadas e nas grandes cidades que têm atraido muita população e crescido desordenadamente, umas vezes pela inexistência de infraestruturas devidamente dimensionadas e, outras vezes, pela persistência da seca.
O problema parece ter uma enorme dimensão no Brasil e o caso mais preocupante é a Grande São Paulo, uma área metropolitana onde vivem 22 milhões de pessoas, que assistiu ao colapso do sistema Cantareira, o seu principal sistema de captação, tratamento e distribuição de água potável, vivendo actualmente uma situação de quase colapso. No Rio de Janeiro também há grandes problemas, sobretudo com a bacia do rio Paraíba do Sul, responsável por 90% do abastecimento do Estado do Rio de Janeiro, que está próximo do zero e que, segundo os especialistas, poderá vir a ter “um fim de ano dramático, como o que aconteceu com o sistema Cantareira”. Por isso, o jornal Extra que se publica no Rio de Janeiro, exibiu uma fotografia a 6 colunas de um dos principais reservatórios quase vazio e, como ante-título e título, escreveu: “falta d’água” e “no fundo do poço”.
As preocupações também já chegaram ao Estado de Minas Gerais e um jornal que se publica na cidade de Belo Horizonte, destacou em primeira página a frase “alerta máximo” e anunciou que as represas que servem 14 milhões de consumidores estão com a sua capacidade reduzida a uma média de 3,8%, o que significa apenas a possibilidade para um mês de utilização. No Estado de Pernambuco é salientado que “a crise hídrica se agrava”, havendo apelos generalizados para que se evitem os desperdícios. Há muitas regiões brasileiras "perto do colapso de abastecimento" e é preciso que chova, embora "só 29% culpem a falta de chuva pela crise".
A situação é muito preocupante e daí a persistência com que é tratada pela imprensa brasileira.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Praça da Canção – o livro de uma geração

Em Janeiro de 1965 foi publicado um pequeno livro de poemas incluido na colecção do Cancioneiro Vértice, com o título de Praça da Canção. O autor era Manuel Alegre, um quase desconhecido que em 1962 tinha sido mobilizado para Angola por motivos políticos, onde veio a ser preso pela PIDE. De regresso à Metrópole, foi colocado em Coimbra com residência fixa, mas em 1964 decidiu passar à clandestinidade e exilar-se, tendo o livro sido editado pela sua família.
Apesar de proibido e apreendido pela Censura, o livro foi um sucesso para a jovem geração que nas universidades então contestava as políticas salazaristas e a guerra no Ultramar. O impacto da sua circulação limitada e clandestina, foi ultrapassado pelo facto de muitos dos seus poemas terem sido cantados e divulgados por José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Manuel Freire.
Em 1969 a Editora Ulisseia decidiu publicar a 2ª edição da Praça da Canção e eu tive oportunidade de adquirir um exemplar na Cooperativa Livrelco, que ainda conservo. No prefácio dessa edição, Mário Sacramento escreveu que “com Manuel Alegre nasceu o maior poeta do neo-realismo português”. De facto, o livro inclui poemas que revelam a opressiva realidade lusitana e expressam a solidariedade do poeta para com o sofrimento dos portugueses que emigravam, que partiam para a guerra ou que eram perseguidos pelo delito de opinião. A Trova do vento que passa, a Trova do amor lusíada, a Trova do emigrante, a Canção com lágrimas e sol, o Nambuagongo, meu amor ou o Canto peninsular, são apenas alguns dos poemas que são marcos da poesia portuguesa, nos quais o poeta recorre à nossa História para interrogar o presente e o futuro de Portugal, conseguindo aliar o lírico e o épico num grito contra a ditadura e a repressão em que os portugueses viviam nesse tempo.
Na edição que hoje foi posta a circular, o Jornal de Letras evoca Manuel Alegre e a Praça da Canção, um dos mais importantes livros da literatura portuguesa contemporânea e um marco de elevada estética literária no panorama da cultura portuguesa, por ocasião dos 50 anos da sua primeira publicação.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Eleições gregas com sinais de esperança

No próximo domingo realizam-se eleições legislativas na Grécia e esse acontecimento está a agitar a Europa, sobretudo porque as sondagens indicam que o principal partido da oposição (Syriza de Alex Tsipras com 29,5%) está a aumentar a sua vantagem sobre o partido do actual governo (Nova Democracia de Antónis Samarás com 25,7%).
Há muitas questões em aberto, quer no que respeita às maiorias que se possam vir a formar para governar a Grécia, quer em relação ao previsível confronto grego com a União Europeia e os seus credores internacionais, pois o resultado eleitoral do próximo domingo pode gerar um ciclo de instabilidade política e social, precipitando a reestruturação da dívida grega ou a saída da moeda única.
A União Europeia e outras instâncias internacionais como o FMI temem o Syriza, uma coligação de esquerda que combate as políticas de austeridade, que tanto têm afundado a economia grega e criado um insustentável desemprego, além de defender o adiamento ou a anulação da enorme dívida grega. Muitos dirigentes internacionais, desde Jean-Claude Juncker a Christine Lagarde, têm produzido declarações que são uma inadmissível pressão sobre os gregos, mas também tem havido declarações a considerar legítimo que o eleitorado grego escolha o caminho que deseja seguir. Essa escolha dos gregos vai ser certamente inspiradora para os países endividados do sul da Europa e pode ser “uma pedrada no charco” que abra as portas a uma nova abordagem para a retoma da coesão e da solidariedade europeias. As propostas de Alex Tsipras para que os países endividados assumam uma posição conjunta sobre a dívida pública têm cada vez mais seguidores e essa poderá ser a melhor solução para os problemas da Grécia, mas também de Portugal, Itália, Espanha, Chipre, Irlanda e Bélgica, não deixando de ser curioso e alarmante ouvir de Giscard d’Estaing que “a França corre o risco de viver uma situação como a da Grécia”.
As eleições gregas já estão a ser um grito de alerta e um sinal de esperança para muitos europeus, podendo ser também “uma luz ao fundo do túnel” que indique caminhos alternativos às políticas de austeridade que tanto têm empobrecido os países do sul da Europa, assustando-os, desmoralizando-os e oprimindo-os.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

‘Histórias que vêm do Mar’ em exposição

Foi hoje inaugurada no Museu de Marinha – Sala D. Luís, em Lisboa, a exposição “Histórias que vêm do Mar”, numa iniciativa conjunta de diversas entidades culturais e académicas açorianas, a que se associou a Marinha Portuguesa e o seu museu.
Apesar de ser constituída por simples painéis de acentuado cunho pedagógico, a exposição aproxima-nos das metodologias de investigação usadas na arqueologia subaquática e de algumas realidades do património cultural subaquático açoriano, sobretudo a partir da identificação de sítios de interesse arqueológico e da apresentação de objectos provenientes de naufrágios que foram recolhidos nos mares dos Açores. Entre o acervo recolhido, destacam-se enormes presas de elefante, âncoras, ânforas, objectos de cerâmica e outros objectos de uso quotidiano, incluindo a base de um octante, um instrumento náutico destinado à medição de alturas do sol para a determinação da latitude. Esta exposição revela que a história da expansão marítima que tem sido feita a partir de fontes escritas, cartográficas e iconográfica, pode receber valiosos contributos da arqueologia subaquática, enquanto actividade científica, como esta exposição demonstra.
A exposição foi inicialmente apresentada na cidade da Horta, no âmbito do estudo dos vestígios arqueológicos subaquáticos recuperados durante os trabalhos associados ao projecto de requalificação e reordenamento da frente marítima daquela cidade, mas tem vindo a ser alargada a outras realidades do arquipélago e tem feito uma itinerância pelas principais cidades açorianas.
A exposição que hoje foi inaugurada no Museu de Marinha estará patente até ao dia 31 de Março de 2015.