segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Realizações televisivas de alta qualidade

Terminou ontem em Santiago de Compostela a 76ª edição da Volta ciclista à Espanha ou Vuelta 2021, com a vitória do ciclista esloveno Primož Roglič, que assim averbou a terceira vitória consecutiva naquela prova que este ano teve uma extensão de 3.417 quilómetros e se distribuiu por 21 etapas. 
Primož Roglič venceu quatro dessas etapas e dominou a prova completamente, deixando o segundo classificado a 4 minutos e 42 segundos. Recentemente ganhara em Tóquio a medalha de ouro olímpica na prova da corrida contra-relógio e com estas vitórias tornou-se um dos mais bem-sucedidos desportistas mundiais da actualidade. Curiosamente, ele foi saltador de esqui e campeão mundial dessa modalidade, só tendo optado pelo ciclismo há cerca de dez anos. Foi uma boa decisão, pois tornou-se um verdadeiro campeão. 
Dos 184 ciclistas que participaram na prova houve dois portugueses à partida e, nos 142 que chegaram ao fim, eles lá estavam: Nelson Oliveira da Movistar terminou em 72ª posição e Rui Olivreira da do UAE Team Emirates acabou em 74º lugar.
Porém, tão interessantes quanto foram a Vuelta 2021 e os seus resultados finais, foram as reportagens televisivas que diariamente foram apresentadas pelo canal Eurosport, que conseguem ser não apenas um detalhado relato da corrida e do entusiasmo popular que suscita, inclusive de muitos portugueses, mas também um excelente documentário que mostra o património natural e arquitectónico espanhol e constitui um casamento perfeito entre Desporto e Património. 
Primož Roglič, foi o campeão na bicicleta, mas a realização das reportagens televisivas também merecia um prémio. O meu aplauso.

O adeus de Angela Merkel 16 anos depois

Aproxima-se a data em que Angela Merkel vai deixar de ser chanceler da Alemanha, um cargo que ocupa desde 2005. Foram dezasseis anos na primeira linha da política mundial, em que muitas vezes foi considerada a mulher mais poderosa do mundo.
Não é este o local para fazer o elogio da carreira política da senhora Merkel, tanto pela forma equilibrada como geriu os negócios da Alemanha durante quatro mandatos, como pelo  prestígio internacional que lhe foi reconhecido e que lhe valeu ser considerada muitas vezes como a líder da União Europeia. Em dezasseis anos de mandato ele enfrentou inúmeras crises com destaque para a ruptura do sistema financeiro global de 2008, para as cíclicas ameaças de dissolução da União Europeia, para a grande onda migratória que teve o seu pico em 2015 e, finalmente, para a pandemia do covid-19. Nessas situações, a Europa olhava para ela e sabia que ninguém era mais capaz do que ela para enfrentar dificuldades e para manter arrumada "a casa comum".
Porém, a chanceler Angela Merkel ainda teve outros contratempos, como foi o acompanhamento das complexas questões da Síria, do Irão e da Ucrânia, assim como o convívio institucional com Donald Trump e Vladimir Putin, mas também com outros figurões como Recep Tayyip Erdoğan, Viktor Orbán ou Boris Johnson.
Quando escrever as suas memórias, ela certamente irá dar um lugar de destaque a um figurão com quem também conviveu institucionalmente durante cerca de nove anos e que se chamava José Barroso, uma figura inesquecível de fura-vidas a quem a própria mulher chamava “o cherne”.
Na sua última edição a prestigiada revista Der Spiegel parece ter iniciado as devidas homenagens a Angela Merkel, que seguramente irão aparecer de muitos lados, porque não é comum que alguém governe tanto tempo com o apoio do voto popular.

sábado, 4 de setembro de 2021

Que o Brasil acorde e ponha o Jair na rua

Quando hoje se conversa com um cidadão brasileiro culto e letrado, podemos facilmente verificar o desencanto com que ele se refere ao seu país e aos seus políticos mas, sobretudo, a forma como censura o seu presidente e os seus inacreditáveis comportamentos.
Porém, “só quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro” e, por isso, é preciso ter muito cuidado na apreciação da informação, verdadeira ou falsa, que chega até nós.
Queixam-se os cidadãos brasileiros que o poder está cada vez mais nas mãos de seitas evangélicas, que a economia está em declínio com o dólar muito alto, com a inflação a crescer, com o desemprego a tornar-se uma chaga social e com a generalidade dos bens essenciais a subirem de preço constantemente. A insegurança pública tem aumentado, fala-se de novo em fome, prossegue a desmatação da Amazónia e a população começa a perceber que Lula da Silva e Dilma Rousseff foram vítimas de mentiras e de golpes antidemocráticos.
Hoje a revista Veja classifica Jair Bolsonaro como um presidente incendiário, devido aos repetidos confrontos e provocações com que ataca o seu próprio governo e os seus ministros, mas também os deputados federais e as autoridades estaduais, dizendo na sua primeira página que Bolsonaro é “inimigo de si mesmo” e que usa uma incompreensível estratégia de sabotagem do seu próprio governo.
Ainda falta cerca de um ano para que os brasileiros usem o voto para expulsar Bolsonaro e escolham alguém capaz para ocupar o Palácio do Planalto, que possa levar o Brasil para o caminho da ordem e do progresso, como está inscrito na sua bandeira nacional. Que o Brasil acorde depressa e ponha o Jair na rua como merece.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Adeus Cabul, com imagem para a História

Há fotografias que se tornam documentos únicos ou simbólicos de grandes acontecimentos e que ficam para a história, assim acontecendo com a imagem esverdeada e com pouca nitidez que hoje é publicada pelo jornal Le Monde, mas também por outros jornais de referência, em que o último soldado americano abandona Cabul. Trata-se do major-general Christopher Donahue de 52 anos de idade que comandava o 82nd Airbone Division e que foi fotografado por uma câmara de visão nocturna a entrar para o último C-17 que saiu de Cabul.
A imagem fixa um momento simbólico, em que é dada por terminada a tarefa de retirada do Afeganistão de todos os militares estrangeiros, bem como de cerca de oitenta mil civis, mas que representa também o fim da mais longa guerra em que os Estados Unidos se envolveram. Segundo foi relatado e as imagens televisivas mostraram, após a descolagem deste último C-17, houve celebrações no aeroporto de Cabul com tiros disparados para o ar e fogo-de-artifício em alguns pontos da cidade.
O mundo tem agora o Emirado Islâmico do Afeganistão, totalitário e teocrático, a dominar um imenso território com 587 mil quilómetros quadrados e cerca de 40 milhões de habitantes, enquanto por aqui se acotovelam e se empurram dezenas de comentadores para falar nas nossas televisões e para explicar o que se vai passar nos tempos que hão de vir.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

America’s Longest War Ends

A mais longa guerra da America terminou é o título da edição de hoje do The Wall Street Journal, mas também de outros jornais americanos, que ilustram a notícia com a fotografia de um Boeing C-17 Globemaster III, um avião de transporte militar desenvolvido para a Força Aérea dos Estados Unidos pela McDonnell Douglas. 
Foram vinte anos de uma presença militar americana e dos seus aliados no Afeganistão, iniciada na sequência dos ataques de 11 de Setembro de 2001, quando o presidente George W. Bush decidiu invadir o país para desmantelar a Al-Qaeda e capturar Osama bin Laden. Essa invasão iniciou-se com os bombardeamentos do dia 7 de Outubro de 2001 e foi feita à revelia das Nações Unidas. O governo Taliban foi derrotado em Cabul, enquanto Hamid Karzai se tornou o presidente do país e o aliado preferencial dos Estados Unidos. Depois foi o processo do costume, com o envio de soldados, a construção de bases e a entrega de material militar e muitos dólares, tendo chegado a haver 130 mil soldados estrangeiros no Afeganistão para combater, mas sobretudo para formar e treinar o novo exército afegão.
Em Maio de 2011 Osama bin Laden foi morto numa operação das forças especiais americanas realizadas no Paquistão e o presidente Obama anunciou um plano para reduzir a presença militar americana no Afeganistão. Em Junho de 2013 as forças afegãs passaram a ser responsáveis pela segurança do país e o governo americano já conversava com as lideranças dos Taliban para negociar a paz. Em 2014 foi eleito Ashraf Ghani para presidente do Afeganistão, quando os Taliban ganhavam terreno e o governo e as forças militares afegãs se afundavam em corrupção.
Apertados pela opinião pública e pela sangria orçamental, em Fevereiro de 2019 a administração de Donald Trump iniciou conversas de alto nível com o Taliban que, um ano depois, culminaram num acordo de paz. O novo presidente Joe Biden decidiu manter o compromisso assumido pelo seu antecessor e garantiu que todas as tropas americanas sairiam do país até 31 de Agosto de 2021, independentemente do andamento das negociações de paz entre os grupos rivais afegãos.
No dia 15 de Agosto os Taliban entraram em Cabul, mas o presidente Ashraf Ghani já tinha fugido. Os americanos também partiram, mas a guerra civil entre as várias facções afegãs, que dura há muitos anos, vai continuar, enquanto os americanos, conforme já prometeu Joe Biden, vão perseguir o terrorismo encabeçado agora pelo Isis-K. 
Parece, portanto, que embora com outro figurino, a guerra vai continuar.

domingo, 29 de agosto de 2021

Ronaldo é muito mais que um futebolista

Rosto do jornal mexicano Récord,
edição de 28 de Agosto de 2021
O futebol é um dos meus desportos favoritos e gosto de acompanhar os grandes jogos e o ambiente festivo que os rodeia, mas sobretudo entusiasma-me o que se passa dentro do campo durante os 90 minutos do jogo, com as habilidades dos grandes futebolistas, os grandes golos e as grandes defesas. Tudo o que decorre à margem desses 90 minutos não me interessa, porque são negociatas com demasiados interesses envolvidos ou são conversas e comentários feitos por alienados, mais ou menos disfarçados de comentadores. Por isso, não me interessam nem acompanho os longos espaços televisivos a discutir se foi ou não foi penalti, se o árbitro apitou bem ou mal ou se as equipas devem comprar ou vender jogadores. Tudo isso faz parte de um negócio de milhões que eu não quero entender, até porque não percebo de onde vêm tantos milhões. 
Porém, o caso de Cristiano Ronaldo é uma excepção nesse mundo do futebol e, por isso, não deve ser ignorado.
Ronaldo era jogador da Juventus de Turim e tem 36 anos de idade, que já é uma idade avançada para um jogador de alta competição, mas foi anunciada a sua transferência para o Manchester United, o clube que entre 2003 e 2009 o projectou para a fama e para o sucesso, tendo os seus adeptos entrado em euforia. Todos pensam que Ronaldo vai ser o dinamizador do ressurgimento dos red devils, que vai tirar o clube da sombra do seu rival Manchester City e que vai voltar a ser um dos maiores clubes do mundo.
Parece que Ronaldo vai ser o mais bem pago jogador do futebol inglês e a sua transferência foi notícia de primeira página com fotografia, pelo menos em duas dezenas de países e em várias dezenas de jornais. É realmente um fenómeno único, o caso deste homem que é mais conhecido no mundo do que o seu próprio país.

Atentado em Cabul e... a guerra continua

Os acordos de Doha que levaram à retirada estrangeira do Afeganistão, também permitiram a entrada dos Taliban em Cabul, o que provocou uma onda de pânico e levou muitos milhares de pessoas, sobretudo aquelas que durante cerca de vinte anos mais colaboraram com as forças americanas e da NATO, a correr para o aeroporto de Cabul na tentativa de abandonar o país. A situação tornou-se caótica, como mostraram muitas reportagens televisivas que chegaram até nós.
Durante as operações de retirada de civis estrangeiros e afegãos no aeroporto de Cabul, verificou-se na passada quinta-feira um duplo atentado suicida em que morreram pelo menos 180 pessoas, entre as quais 13 militares americanos, além de ter havido cerca de duas centenas de feridos.
Os vinte anos de guerra custaram a vida a 1.909 militares americanos em combate, mas este atentado foi um dos mais mortíferos ataques sofridos pelos Estados Unidos no Afeganistão e só dois acidentes com helicópteros, acontecidos em 2005 e 2011, tinham provocado mais vítimas. O ataque foi reivindicado pelo Estado Islâmico-Província de Khorosan, conhecido pela sigla Isis-K e os Estados Unidos não demoraram a retaliar, anunciando ter morto os principais responsáveis pelo atentado.
Este atentado veio mostrar que a instabilidade e a guerra no Afeganistão vão continuar e que os Estados Unidos também irão “continuar” a ter uma presença no país, agora contra o Isis-K e ao lado dos Taliban, o seu anterior inimigo. As voltas que o mundo dá...
Numa atitude de reconhecimento em que os Estados Unidos são exemplares, o jornal The New York Times presta hoje homenagem na sua primeira página aos militares mortos no aeroporto de Cabul.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

A rentrée política e as eleições autárquicas

Na sua edição de hoje o jornal Público dedica o principal espaço da sua primeira página à chamada rentrée política, com a fotografia dos nove líderes dos partidos representados na Assembleia da República. Todos são figuras mediáticas e com percursos políticos apreciados pelos cidadãos que os escolheram e que foram sufragados pelos eleitores. Todos beneficiam da liberdade com que se vive no nosso país, podendo ter discursos e projectos muito distintos. Todos se julgam detentores da verdade, como se na política houvesse verdades absolutas. Todos afirmam a sua vontade de chegar ao poder para conduzir a governação e assegurar mais prosperidade e mais segurança aos portugueses.
Poderia pensar-se que, sendo assim, todos deveriam convergir no sentido do progresso e do bem-estar do povo português, com coerência discursiva e com práticas irrepreensíveis ou mesmo imaculadas, sem abdicar dos seus princípios ideológicos, mas sem egoismos e sem quaisquer cedências a interesses particulares ou de grupo.
Porém, não é isso que se passa porque, muitas vezes, parece que estamos em tempos de “vale tudo” com a luta política a ultrapassar a verdade e o bom senso, com todos ou quase todos a usar a promessa demagógica, a reivindicação irrealista, a manipulação mentirosa da obra feita, o discurso populista irresponsável e a caça ao voto, ignorando com frequência a inteligência e os verdadeiros interesses do povo português.
Estamos a menos de um mês das eleições autárquicas e já se prometem novos tempos, uma terra para todos, mais e melhor futuro ou está na hora da mudança, entre outros slogans propagandísticos. Poucos acreditam nesse tipo de discurso e, dessa forma, a abstenção vai acabar por ganhar. A abstenção ganhou as últimas eleições europeias (69%), as últimas presidenciais (51%) e as últimas legislativas (51%), bem como as autárquicas de 2017 (45%).
Será que os nove líderes partidários podem fazer alguma coisa para melhorar a cidadania, a prática democrática e a participação eleitoral dos cidadãos, em vez de insistirem no discurso demagógico em que todos acabam por cair?

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

O Brasil de Jair Bolsonaro e o futuro

As eleições gerais brasileiras estão previstas para serem realizadas no dia 2 de Outubro de 2022 e, nesse dia, entre outras eleições de nível federal ou estadual, os eleitores escolherão o novo presidente da República. Jair Bolsonaro é o presidente desde 1 de Janeiro de 2019 e vai ser avaliado pelo eleitorado brasileiro, mas tudo parece indicar que não será reeleito.
A sua popularidade tem vindo a cair e ele tem sido responsabilizado pela crise sanitária brasileira que, no seu início, ele classificou como uma gripezinha, mas que já provocou mais de meio milhão de mortos. Porém, o desagrado brasileiro com o comportamento presidencial de Bolsonaro tem múltiplos antecedentes em que revelou impreparação para tão importante cargo. Há um ano, certamente em delírio de aspirante a ditador, ele foi capaz de dizer que “eu sou a Constituição”. Os seus atropelos às normas que regulam a vida do país são frequentes e têm sido muitas as atitudes que geraram uma grave crise institucional, cujo ponto mais alto foi o desrespeito ao Supremo Tribunal Federal. A economia brasileira também já sente os efeitos da crise institucional, com a retoma da actividade económica a retardar-se. Em termos de prestígio internacional, o Brasil caíu muitos pontos devido à insensatez e à boçalidade de Jair Bolsonaro.
Uma eloquente forma de avaliar a situação é oferecida pela última edição da revista IstoÉ, cuja capa destaca a instabilidade política, social e económica gerada pelo comportamento de Bolsonaro que está a afectar o Brasil com uma sugestiva frase: ou o Brasil acaba com Bolsonaro ou Bolsonaro acaba com o Brasil.
O que não há dúvida é que a política brasileira vai interessar cada vez mais a margem oriental do Atlântico onde se fala português.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Ciclones tropicais, tempestades e furacões

A costa leste dos Estados Unidos é uma área sujeita a ciclones tropicais formados no Atlântico oriental entre os 10 e os 30 graus de latitude, no golfo do México ou nas Caraíbas.
Os ciclones tropicais têm um ciclo de vida que dura entre duas a três semanas e, durante esse período, movem-se e as suas características evoluem, originando denominações específicas. Em função da velocidade do vento começam por ser designados como "depressões tropicais", depois tornam-se "tempestades tropicais" e, quando o vento sopra com mais de 119 km por hora, passam a ser designados como "furacões" (hurricanes).
O mais recente furacão que atingiu a costa leste dos Estados Unidos foi baptizado como Henri e, como previram as autoridades meteorológicas americanas, foi o primeiro furacão que nos últimos trinta anos atingiu o nordeste dos Estados Unidos, incluindo os estados de Nova Iorque, New Jersey, Maine, Vermont, New Hampshire, Massachusetts, Connecticut e Rhode Island. Para além do vento muito forte que derrubou árvores e postes de electricidade que deixaram milhões de pessoas sem energia, o principal impacto do Henri foi a chuva diluviana que provocou inundações, desabamento de terras e cortou estradas. Na noite de sábado, dia 21 de Agosto, no bairro de Manhattan da cidade de Nova Iorque, foi registado um valor da pluviosidade histórico, porque a chuva ultrapassou o anterior máximo registado em… 1888.
A intensidade furiosa do Henri levou a que a edição de ontem do jornal Newsday lhe dedicasse a sua primeira página e deixasse para segundo plano o “Afghanistan chaos”, o covid-19 e a demissão do governador Cuomo.

domingo, 22 de agosto de 2021

Afeganistão: emendar os erros cometidos

Na sua edição de hoje o centenário jornal canadiano The Globe Mail and Mail destaca a situação no abandonado Afeganistão e afirma que o Canadá e o Ocidente traíram aquele país, o que mostra que o problema afegão continua na primeira página da agenda mundial e que está para durar. A situação afecta os abandonados afegãos que confiaram no poder dos Estados Unidos e dos seus aliados da NATO, mas também está a abalar os governos que não souberam prever o que se iria passar e estão a ser contestados internamente, pela forma irresponsável como agiram e se deixaram humilhar. Hoje torna-se evidente que os americanos que em Doha conduziram as negociações com os Taliban, nomeadamente Zalmay Khalilzad e Mike Pompeo, não sabiam o que estavam a fazer, mas também se torna evidente que as mudanças presidenciais de Trump para Biden não foram feitas com a seriedade necessária. Donald Trump nem sequer compareceu à posse de Joe Biden e esse sinal repercute-se agora com a situação do Afeganistão, que está a servir para acentuar a clivagem entre os democratas e os republicanos americanos.
Está acordado que a retirada dos estrangeiros do Afeganistão deva acontecer até ao próximo dia 31 de Agosto, mas já há muitas vozes a defender que a permanência militar americana se estenda por mais algumas semanas ou até por mais tempo, se for necessário, sobretudo através da utilização de forças especiais aptas a executar operações de resgate. O Afeganistão é um país muito grande com 650 mil km2, quase quarenta milhões de pessoas e não é apenas o aeroporto de Cabul.
Por maior que tenha sido o erro cometido, ainda há margem para emendar o que tenha que ser emendado e o Conselho de Segurança das Nações Unidas pode ter uma palavra a dizer.

sábado, 21 de agosto de 2021

Afeganistão: o mundo já não é o que era

Uma semana depois da rendição generalizada das autoridades e das forças governamentais afegãs, bem como da entrada dos taliban em Cabul, a situação é grave e não é possível prever-se o que se vai seguir. Ninguém, com sabedoria e bom senso arrisca prognósticos porque são tantos e tão diferentes os cenários possíveis, que só os analistas encartados e pagos se arriscam a fazer análises e previsões para justificar as suas avenças. Ainda nenhum desses sábios encartados apareceu na televisão a dizer simplesmente “não sei o que se vai seguir”. Alguns deles vão mesmo ao ridículo de discutir se a culpa disto tudo é do Obama, do Trump ou do Biden, mas raramente ousam criticar os líderes europeus que se envolveram num problema que não era deles. No entanto, todos os analistas parecem estar de acordo quando consideram que o que se está a passar é uma humilhante derrota dos Estados Unidos e da NATO, um facto que apenas a chanceler Angela Merkel parece reconhecer.
A mais recente edição da revista brasileira Veja dedica a sua capa ao que se está a passar no Afeganistão, tendo escolhido como título “uma derrota da civilização” e, como ilustração, mostra a Estátua da Liberdade envolvida numa túnica negra e num turbante afegão, enquanto alerta para a explosiva combinação entre política e religião, salientando que o fundamentalismo continua a ser uma ameaça à Humanidade.
Os efeitos da humilhação ocidental no Afeganistão vão repercutir-se durante muitos anos e vão afectar o actual quadro de relações internacionais, demonstrando, talvez pela primeira vez desde há três séculos, que a América e a Europa já não dominam o mundo, apesar dos seus aviões, dos seus mísseis e da sua tecnologia.
O Afeganistão mostrou que o mundo já não é o que era.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

A lição de Sun Tzu e a derrota americana

Quatro dias depois da entrada dos Taliban em Cabul, começam a ficar mais claras as circunstâncias do que se está a passar. Os Estados Unidos estavam cansados da sua mais longa guerra e os seus cofres pareciam já não aguentar mais a sangria a que estavam sujeitos desde há quase vinte anos.
Quando em 2017 Donald Trump chegou à Casa Branca, prometeu acabar com os conflitos em que o país estava envolvido e as negociações relativas ao Afeganistão começaram no ano seguinte. Dessas negociações resultou o Agreement for Bringinf Peace to Afghanistan between the Islamic Emirate of Afghanistan which is not recognized by the United States as a state and is known as the Taliban and the United States of America […] signed in Doha, Qatar on February 29, 2020. Foi esse o ponto de partida para a retirada do Afeganistão das tropas americanas e da NATO, que está em curso.
Por imposição taliban que os americanos aceitaram, o presidente Ashraf Ghani Ahmadzai e o governo afegão não tomaram parte nas negociações e não foram parte do acordo de Doha, mas ficou estabelecido que os Taliban e o governo do Afeganistão teriam negociações para um cessar-fogo e o fim da guerra civil. A exclusão do governo afegão dessas negociações foi um grave erro e daí nasceu o actual imbroglio, a humilhante derrota americana e da NATO, a implosão do governo afegão e, consequentemente, a vitória dos Taliban. Os Taliban limitaram-se a seguir as lições de Sun Tzu, o famoso general, estratega e filósofo chinês do século V a.C. que escreveu em A Arte da Guerra que, “pelejar e vencer todas as batalhas não é a excelência suprema: a excelência suprema consiste em quebrar a resistência do inimigo sem combater”. Foi o que os Taliban, tal como os Vietcong, fizeram aos americanos.
Alguns dos grandes estrategas militares como Mao Tse-Tung, Ho Chi Minh e Vo Nguyen Giap, reconheceram que o seu sucesso se inspirou exactamente nas lições de Sun Tzu e, até na recente Guerra do Golfo, é referido que os generais Norman Schwarzkopf e Colin Powell puseram em prática alguns dos princípios de Sun Tzu. Hoje a revista francesa L'Express não poupa o comportamento dos americanos.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

O fim da guerra: estava tudo combinado!

O jornal The Irish Times que se publica em Dublin desde 1859, foi apenas um dos jornais internacionais que publicaram a impressionante fotografia de 640 afegãos que no aeroporto de Cabul conseguiram entrar num avião C-17 Globemaster da US Air Force e voar para o Qatar. Esta cena, bem como as imagens e os relatos que nos chegam de Cabul, mostram o pânico que se vive na capital afegã e revelam que, nem os Estados Unidos nem a NATO, acautelaram a sua saída do Afeganistão, que foi planeada e acordada com os Taliban desde há mais de dois anos.
Em Fevereiro de 2019 o presidente Donald Trump tinha previsto encontrar-se em Camp David com o presidente do Afeganistão e com os líderes talibans, mas estes encontros foram cancelados à última hora. Porém, os contactos prosseguiram e, em Fevereiro de 2020, foi anunciado que tinha sido assinado um acordo que abria o caminho ao fim da guerra e à retirada das tropas americanas e da NATO, dentro de catorze meses. O acordo foi assinado pelo enviado especial americano Zalmay Khalilzad e pelo líder taliban Abdul Ghani Baradar, ficando definido um cronograma para a retirada definitiva das tropas estrangeiras e com os Taliban a assumir o compromisso de não permitir que o território afegão fosse usado para planear ou executar acções terroristas. Nessa cerimónia que foi pública e se realizou em Doha, no Qatar, participou o secretário de Estado americano Mike Pompeo. Depois, no dia 20 de Setembro de 2020, Mike Pompeo e Abdul Ghani Baradar reuniram-se de novo em Doha, fizeram-se fotografar e negociaram os últimos detalhes da retirada americana. Certamente que os contactos prosseguiram e, ainda há poucos dias, se negociavam em Doha alguns aspectos da retirada, pelo que a não intervenção taliban na área do aeroporto de Cabul ou a retirada ordeira das tropas americanas, fazem parte dos acordos negociados. Afinal, estava tudo combinado. O que não terá sido previsto foi a demissão da liderança política e militar afegã.
Neste quadro, é confrangedor ver os inúmeros especialistas que enxameiam as nossas televisões e que raramente citam este acordo feito pela Administração Trump, a que Joe Biden deu seguimento para acabar com vinte anos de guerra. 
No entanto, o problema é que ninguém consegue prever o futuro do Afeganistão.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

O desespero afegão no aeroporto de Cabul

Foi demasiado rápido o que aconteceu no Afeganistão, com os Taliban a ocuparem as cidades, incluindo Cabul, depois do anúncio da retirada americana. A longa guerra civil afegã, afinal já era outra coisa porque uma das partes se encostou aos americanos e, como se viu, criou a sua área de conforto e deixou de lutar. Ninguém pensou que, depois de tantos anos de investimento americano em formação e meios, fosse possível que as Forças Armadas do Afeganistão e os seus líderes se rendessem tão cobardemente, que fugissem do país, que se entregassem sem luta. Parece que ninguém pensou que o vazio deixado pela retirada americana iria ser ocupado tão rapidamente pelos Taliban, com as suas exigências, a sua violência e a sua anunciada crueldade. O pânico instalou-se e muitos temem ser acusados de colaboracionistas. Em desespero, muitos querem abandonar o país. O caos está instalado e, infelizmente, as piores notícias ainda estão para vir.
Os americanos saem de onde nunca deviam ter entrado pois não tinham mandato das Nações Unidas. Gastaram rios de dinheiro e tiveram milhares de baixas. Perderam a sua aposta por não terem estudado a lição da derrota soviética de 1979-1989. Arrastaram os seus parceiros da NATO para um cenário que não faz parte da sua área de intervenção, nem dos seus interesses.
Agora o Emirado Islâmico do Afeganistão é uma realidade no centro da Ásia, montanhoso e sem acesso ao mar, com fronteiras com o Irão, o Paquistão, o Turcomenistão, o Uzbequistão, o Tajiquistão e até com a China. Provavelmente vai ser o centro do radicalismo islâmico e da instabilidade mundial.
Hoje, toda a imprensa mundial publica a fotografia de um avião militar americano no aeroporto de Cabul, literalmente cercado por aqueles que desesperadamente tentam fugir do terror Taliban.