sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Após a crise, aí está a retoma da Airbus

A aviação comercial foi uma das actividades mais afectadas pela crise pandémica e pelo consequente abrandamento da economia e do turismo, mas os resultados anunciados pelo fabricante europeu Airbus, relativos aos primeiros nove meses do ano, causaram uma onda de entusiasmo. A empresa que tem sede em Toulouse anunciou um montante de 2,6 mil milhões de euros de lucro nos primeiros nove meses do corrente ano e este resultado financeiro resulta do incremento das suas principais variáveis de gestão: as entregas e as encomendas de novas aeronaves. São números que anunciam a boa convalescença da empresa, como escreveu o jornal La Dépêche du Midi que se publica em Toulouse.
Em 2020 a empresa entregara 566 aviões, quando no ano anterior entregara 863, o que representou uma quebra de 34%. Nos primeiros nove meses do corrente ano já foram entregues 424 aviões, quando no mesmo período do ano passado tinham sido entregues 341, o que significa uma melhoria de 24%, esperando-se que até ao fim do ano sejam entregues seiscentas unidades. Neste quadro, as previsões da empresa já apontam para que a normalidade aconteça até 2024, mas para isso será necessário acelerar a produção, até porque há 5600 aviões A320 com a entrega atrasada.
A estratégia seguida por Guillaume Faury, que desde 2019 é o CEO do Grupo Airbus, pretende voltar a tornar a Airbus o maior fabricante aeronáutico mundial, aproveitando os problemas que perseguem a Boeing, designadamente a segurança do 737 Max e as dificuldades técnicas do 787 Dreamliner.
Portanto, após a crise, aí está a descolagem da Airbus, como titula hoje o La Dépêche du Midi.

Só as eleições podem desempatar este jogo

A Assembleia da República rejeitou por 117 votos contra e 113 votos a favor, a proposta de Orçamento do Estado para 2022, cuja votação aconteceu no passado dia 27 de Outubro.
O chumbo do Orçamento do Estado aconteceu pela primeira vez na vida democrática portuguesa e congelou um aumento de cerca de seis mil milhões de euros em relação ao Orçamento anterior, onde se incluíam medidas de benefício para as famílias e para os pensionistas. Não havia razões de peso para que o Orçamento fosse recusado, porque dessa forma atrasa-se o recebimento dos fundos europeus previstos no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e, como sempre, “o tempo é dinheiro”. Além disso, depois da crise pandémica cria-se uma crise política que vai afectar a economia que começava a recuperar a bom ritmo com o desemprego mais baixo das últimas décadas e que vai congelar as intenções de investimento dos agentes económicos. Estava previsto o maior aumento do salário mínimo da história da nossa democracia, aumentos extraordinários das pensões mais baixas e a gratuitidade progressiva das creches, o que representava um acréscimo de rendimentos para as famílias.
Porém, em nome dos seus interesses particulares, os partidos chumbaram a proposta, o que os cidadãos comuns acham que foi uma loucura e um acto irresponsável, que prejudicou todos os portugueses e afectou a nossa imagem e prestígio internacionais.
Nestas circunstâncias, o Presidente da República decidiu devolver a palavra aos eleitores e marcou eleições legislativas para o dia 30 de Janeiro. Não havia outra alternativa sensata e, aqueles que mais esticaram a corda, não poderão esperar a compreensão dos portugueses quando eles forem votar daqui a noventa dias.
De facto, é muito difícil de aceitar a irredutibilidade do comportamento dos discípulos do ideólogo Louçã, que foram longe demais e não cuidaram de proteger os verdadeiros interesses dos portugueses, incluindo daqueles que lhe deram o voto que lhes tem garantido assento parlamentar.
Com o quadro actual, também o tempo das selfies marcelistas e de outras rapaziadas parece ter chegado ao fim...

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Um cavalo de muito sucesso na Venezuela

Na nossa habitual consulta da imprensa internacional fomos surpreendidos com a capa da edição de hoje do jornal venezuelano Meridiano e com o seu título: Lusitano manda
Efectuada a leitura da notícia verificamos tratar-se de um cavalo de nome Lusitano, que ontem ganhou a 75ª edição do Clássico Internacional Simón Bolivar que se realizou no hipódromo La Rinconada, em Caracas. O cavalo montado por Jean Carlos Rodríguez não pertencia ao grupo dos favoritos, mas surpreendeu todos os seus adversários e, segundo o referido jornal, "Jean Carlos Rodríguez condujo de manera magistral al ejemplar Lusitano, que ensayó una poderosa atropellada en la recta final del óvalo capitalino para adjudicarse el magno evento de calendario hípico”.
Este tipo de provas desperta grande entusiasmo na Venezuela e esta edição do Clássico Simón Bolivar, a mais importante competição hipíca do país, teve catorze concorrentes, repartiu mais de 78 mil dólares em prémios e registou a presença de Nicolás Maduro, o presidente da República da Venezuela.
Apenas o título do jornal e o nome do cavalo vencedor justificam que esta notícia seja aqui destacada, como simples curiosidade. Porém, regista-se que um outro cavalo puro-sangue inglês, igualmente famoso, se chamou Filho da Puta (1812-1835) e venceu nove das doze grandes corridas em que participou na Inglaterra. Foi pintado em 1815 por John Frederick Herring num quadro a óleo sobre tela e está exposto no Doncaster Museum, South Yorkshire, havendo inúmeras reproduções que decoram muitos bares ingleses.
Portanto há pelo menos dois cavalos de sucesso com nome português: o Filho da Puta na Inglaterra e o Lusitano na Venezuela.

domingo, 31 de outubro de 2021

O Papa na rota de São Francisco Xavier

A realização da Cimeira do G20 em Roma proporcionou um encontro do Papa Francisco com Narendra Modi, o primeiro-ministro da Índia, que constituiu um facto de grande relevância internacional.
Desde que o Papa João Paulo II visitara a Índia em 1999, que as relações entre o Vaticano e a Índia se tornaram frias, como demonstram as fracassadas negociações havidas em 2017 para que o Papa visitasse a Índia, por ocasião da visita papal ao Bangladesh e a Mianmar. O encontro de Roma estava programado para durar 20 minutos, mas prolongou-se por mais de uma hora, o que foi interpretado como uma reviravolta nas relações entre o Vaticano e a Índia, até pela elucidativa declaração final de Narendra Modi: “Tive um encontro muito caloroso com o Papa Francisco. Tive a oportunidade de discutir uma ampla gama de questões com ele e também o convidei para visitar a Índia".
As fotografias do encontro são esclarecedoras da empatia entre os dois líderes e foram reproduzidas com grande destaque pela imprensa indiana, nomeadamente pelo diário The Hindu, o que é significativo num país onde mais de 80% da população professa o hinduísmo e onde os 20 milhões de católicos apenas representam 1,5% da população. O fanatismo religioso, incentivado pela actual liderança de Narendra Modi e do BJP, o seu partido, têm feito aumentar a discriminação e a violência sobre as minorias religiosas, incluindo os cristãos, um pouco por todo o país.
O Papa Francisco aceitou o convite de Narendra Modi e a sua visita vai contribuir para uma maior tolerância religiosa e para levar a sua solidariedade aos cristãos da Índia. Certamente, o Estado de Goa vai poder receber um Papa que foi jesuíta e que não vai perder a oportunidade de visitar a terra que recebeu Francisco Xavier, o primeiro jesuíta que missionou na Ásia, bem como o seu túmulo na Basílica do Bom Jesus em Velha Goa. O culto por São Francisco Xavier tem em Goa a sua máxima expressão e a comunidade goesa venera-o como o Goencho Saib, o santo de Goa.
Jorge Mario Bergoglio, o arcebispo de Buenos Aires que foi elevado ao cardinalato em 2001 e que foi eleito Papa em 2013, ao escolher o nome de Francisco, inspirou-se na vida de São Francisco Xavier. Agora Francisco irá cumprir uma missão pontifical, mas também um desejo: conhecer o ponto de partida da rota asiática de São Francisco Xavier.

sábado, 30 de outubro de 2021

Em Glasgow para salvar o nosso planeta

Amanhã inicia-se em Glasgow a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que tem sido designada como COP26, cujos trabalhos decorrerão até ao dia 12 de Novembro.  
Na Conferência de Paris de 2015 os países comprometeram-se a reduzir e limitar as suas emissões de gases de efeito de estufa e o consequente aquecimento global, mas a realidade veio mostrar que muito poucos cumpriram com as obrigações assumidas. Cinco anos depois, deveria ser feita uma avaliação dos resultados na 26ª Conferência mas, devido à pandemia, essa reunião magna foi adiada para 2021 e vai realizar-se a partir de amanhã, esperando-se que perante o agravamento das alterações climáticas que se tem verificado, os países mostrem um maior empenho no combate que é cada vez mais necessário para o futuro do planeta. Espera-se a participação de vinte e cinco mil delegados de duas centenas de países e está confirmada a presença de Joe Biden, Justin Trudeau, Narendra Modi, Recep Tayyip Erdogan e muitos líderes europeus, embora também esteja confirmada a ausência de Xi Jinping, Vladimir Putin e Jair Bolsonaro, entre outros.
Hoje o jornal francês La Tribune destaca a realização desta COP26 com uma fotografia do nosso planeta e dirige-se aos dirigentes de todo o mundo para que se unam para o salvar enquanto é tempo.
Durante doze dias muito se vai discutir mas, provavelmente, continuarão a prevalecer os interesses nacionais, mas há sempre a esperança de poder ser o início de uma nova caminhada para salvar o nosso planeta.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Manobras navais na afirmação da Espanha

Os jornais da cidade de Cádis, ou Cádiz em língua castelhana, destacam nas suas edições de hoje os exercícios navais da Marinha espanhola que foram designados por Flotex-21. 
São as maiores manobras militares realizadas em Espanha depois da crise pandémica e os exercícios decorrem em águas gaditanas e na serra de Retin, nele participando 3.632 militares, 14 navios, 12 aerovaves, oito navios de desembarque, 97 veículos e 760 fuzileiros, além de forças do Exército e da Força Aérea, bem como unidades internacionais integradas no Euromarfor, como sucede com a fragata Rizzo. Os meios envolvidos mostram como a Espanha prestigia as suas Forças Armadas, enquanto instrumentos de defesa e de afirmação externa do país.
O jornal La Voz de Cádiz faz uma extensa reportagem do Flotex-21.

Acaba de amanecer en la Bahía y la actividad es vertiginosa. Mientras un helicóptero SH3 Seaking de la Flotilla de Aeronaves de la Armada sobrevuela el buque anfibio multipropósito (LHD) Juan Carlos I, cuatro aviones caza Harrier se preparan para despegar desde la cubierta de vuelo del mayor buque de guerra construido en España. El Juan Carlos I navega por aguas de Cádiz, junto a él, a estribor, las fragatas Numancia, Reina Sofía y Santa María; a babor, el buque de asalto anfibio Galicia, las fragatas Blas de Lezo y Álvaro de Bazán y el cazaminas Tambre. Y, al fondo, Barbate y el campo de adiestramiento de la Sierra del Retín.

O exercício Flotex-21 iniciou-se no dia 25 de Outubro e vai decorrer até ao dia 5 de Novembro, tendo por objectivo a preparação das unidades navais espanholas, enquanto “herramientas del Gobierno de España para garantizar la seguridad y la defensa”. Cerca de três dezenas de jornalistas, fotógrafos e operadores de câmara de uma vintena de meios de comunicação de todo o mundo acompanham o exercício. Significa que a Espanha olha pela eficiência das suas Forças Armadas e que a sua imprensa acompanha as suas actividades, mas quando pensamos no que se passa por cá só nos fica espaço para uma enorme tristeza pela forma como são tratadas as nossas Forças Armadas e os seus soldados e marinheiros.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Jair Bolsonaro indiciado por nove crimes

Recentemente, numa reportagem da revista brasileira IstoÉfoi feita a denúncia da gestão do presidente Jair Bolsonaro a quem chamou "mercador da morte", porque durante a pandemia do covid-19 patrocinou experiências desumanas inspiradas no horror nazi. Essa reportagem baseou-se nos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado (CPI) à covid-19, que foi constituída por senadores que trabalharam durante cerca de seis meses e que ontem aprovaram o respectivo relatório final por sete votos contra quatro. A última versão do documento tem 1.289 páginas e indicia 78 pessoas, entre as quais o próprio presidente Bolsonaro, os seus três filhos, vários ministros e ex-ministros e alguns empresários.
Na versão final do relatório da CPI foram atribuídos nove crimes ao presidente, entre os quais os de prevaricação, charlatanismo, epidemia com resultado morte, incitação ao crime, emprego irregular de verba pública, falsificação de documentos particulares e crimes contra a humanidade. De acordo com o relatório final, Bolsonaro “incentivou de forma reiterada a população a violar o distanciamento social, opôs-se ao uso de máscaras, promoveu aglomerações e procurou desqualificar as vacinas”. Naturalmente, toda a oposição já pediu “impeachment e cadeia para Bolsonaro”.
Com mais de 606 246 mortes e 21,7 milhões de infectados pelo covid-19, o Brasil é um dos países mais afectados pela pandemia no mundo, juntamente com os Estados Unidos e a Índia e, segundo um senador, “não foi a omissão que nos levou a 605 884 mortos. Foi a acção dolosa de quem dirigia o Brasil nesse período que levou a essa marca terrível, que fica registada na história como um dos momentos mais macabros da vida deste jovem país chamado Brasil”.
Na sua edição de hoje o jornal Estado de Minas de Belo Horizonte enuncia as acusações contra Bolsonaro na sua primeira página de forma muito criativa. Agora é esperar para ver o que aí vem.

Eleições antecipadas para a clarificação?

A discussão do Orçamento do Estado para 2022 decorreu ontem na Assembleia da República e revelou que a votação que hoje se vai realizar será desfavorável ao governo.
Quando existem inúmeros problemas económicos e sociais para serem resolvidos e é necessária a recuperação da actividade económica que tanto foi afectada pela crise pandémica, o país vai envolver-se em campanhas eleitorais e em eleições antecipadas, que muito dinheiro vão custar, que muitas energias vão consumir e que talvez nada resolvam. Num tempo em que as alternativas políticas ainda estão por constituir, o chamado interesse nacional cede a interesses partidários, corporativos ou até demagógicos, enquanto às ideias de unidade nacional e de bem comum se sobrepõem as visões egoístas de algumas minorias. Na sua edição de hoje o diário espanhol El País destaca a situação política em Portugal e publica uma fotografia do primeiro-ministro António Costa e diz que “el Gobierno de izquierdas se tambalea en Portugal”. Esta notícia mostra como existe alguma apreensão por aquilo que se passa em Portugal.
Depois da intervenção da troika que, para nossa humilhação, esteve em Portugal entre 2011 e 2014, o país conseguiu recuperar o crédito e o prestígio internacionais, com estabilidade política e social, contas certas e com a retoma da convergência europeia e, por vezes, o país chegou mesmo a ser considerado como um modelo à escala europeia.
Porém, a crise pandémica perturbou este ciclo e agora, quando haveria que unir forças para voltar ao caminho, estão a ser aproveitados os percalços que tem havido nesta caminhada e todos teremos que esperar até que as prováveis eleições antecipadas resolvam a situação. O governo terá o apoio de 108 deputados do Partido Socialista e alguns mais, mas não chegarão aos necessários 116 que constituem a maioria dos 230 deputados do Parlamento. Portanto…

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Há quem queira a crise. Pois vamos a ela!

A Assembleia da República começa hoje a discutir o Orçamento do Estado para 2022 e os deputados vão ser chamados a um dos seus actos mais nobres, embora se espere que não votem pela sua cabeça e se limitem a obedecer às nomenklaturas e aos aparelhos partidários.
O Orçamento do Estado (OE) é um documento e um instrumento de gestão preparado pelo governo, que enumera as receitas previstas e as despesas autorizadas do Estado para o próximo ano, incluindo os fundos e serviços autónomos e a segurança social. Em certo sentido pode dizer-se que a vida de todos os cidadãos depende do OE, mas num quadro de necessidades ilimitadas e de recursos escassos, a sua preparação é um exercício muito complexo porque não é possível satisfazer as aspirações de todos, com menos impostos, mais rendimentos, mais saúde, mais educação, mais justiça, mais segurança, melhores estradas, melhores transportes e por aí adiante. Por isso há que fazer escolhas segundo determinados critérios e, em função dessas escolhas, os cidadãos apoiam ou não apoiam os governantes que prepararam o OE. No entanto, nesta discussão do OE, não têm estado em causa os portugueses nem os seus problemas, mas tão só os interesses e as estratégias partidárias que se movem como se o país fosse um tabuleiro de poker e os interesses partidários ou pré-eleitorais a tudo se sobrepusessem. 
O governo que preparou o OE 2022 é minoritário e procura as alianças necessárias para conseguir uma maioria que o vote favoravelmente. Negoceia e cede, o que é normal. Aperfeiçoa o documento, o que é desejável. Porém, não pode ir de cedência em cedência, desvirtuando a sua proposta e tornando-a a proposta de outros. Nessas circunstâncias não há acordo e só há uma solução: antecipar eleições para que o povo diga de sua justiça. O custo desta decisão é elevado e talvez fique tudo na mesma, mas ver-se-á depois quem ganhou e quem perdeu com a arrogante teimosia de alguns interesses minoritários que querem ganhar na secretaria o que não ganharam nas urnas.

domingo, 24 de outubro de 2021

Angola e Portugal com relações em alta

O processo da independência angolana foi longo, complexo e doloroso, tanto para os angolanos como para os portugueses, tendo ficado concluído no dia 11 de Novembro de 1975. As relações históricas e culturais entre os dois países anteviam um futuro de amizade e de cooperação, mas nem sempre assim aconteceu, porque as autoridades de Portugal e Angola entraram em rota de colisão demasiadas vezes, não percebendo que é muito mais importante o que aproxima os dois países, do que aquilo que os separa. 
Nos últimos tempos e com a presidência de João Lourenço, as relações entre Angola e Portugal parecem ter entrado numa nova fase e o Jornal de Angola, considerado o porta-voz do governo angolano, reflecte exactamente essa realidade.
Na sua última edição, o jornal destaca um debate virtual entre os presidentes de Angola e Portugal, no âmbito do Fórum Euro-África, publicando em primeira página as fotografias de João Lourenço e Marcelo Rebelo de Sousa, o que é um acontecimento de enorme significado político.
Disse João Lourenço que "tive a felicidade de durante este meu primeiro mandato termos sabido manter a um nível bastante alto as relações de amizade e cooperação entre os nossos dois países, entre Angola e Portugal, a todos os níveis, incluindo a nível pessoal”, sublinhando que os relacionamentos pessoais ajudam a que isso aconteça e acrescentando que “nós soubemos construir ao longo dos anos essa mesma relação com o presidente Marcelo Rebelo de Sousa e com o primeiro-ministro António Costa”.
Aqui está, portanto, uma forma adequada de fazer política em nome dos povos irmãos de Angola e Portugal, como se deseja.

sábado, 23 de outubro de 2021

Até no Vietnam se vibra com o Ballon d’Or

A Bola de Ouro ou Ballon d’Or é um prémio que foi instituído em 1956 pelo jornal francês France Footbal para distinguir o melhor futebolista do ano.
Todos os anos os jornalistas do France Footbal fazem uma lista de trinta candidatos que depois são votados por um jornalista internacional de cada país e pelos treinadores e capitães da selecção nacional. O processo não me parece muito linear, como também não me parece linear que, em termos absolutos, se possa dizer que um futebolista seja o melhor, pois tudo passa por um complexo processo de promoção dos candidatos. Mas a escolha está em curso e a cerimónia de consagração do Bola de Ouro de 2021 decorrerá no Theatre du Chatelet em Paris, no dia 29 de Novembro. Os trinta candidatos estão escolhidos e, entre eles, há três portugueses: Cristiano Ronaldo, Ruben Dias e Bruno Fernandes. A imprensa desportiva internacional vem dedicando algum espaço a este assunto e, como se diz na gíria, cada país puxa a brasa à sua sardinha, embora nos grandes favoritos estão as estrelas do costume que são Lionel Messi com seis triunfos e Cristiano Ronaldo com cinco.
O curioso desta disputa é que ela não se fica pela imprensa da Europa ocidental e da América do Sul e chega, por exemplo, ao Vietnam. Quem diria! O jornal Th thao & Văn hóa, que em língua vietnamita parece que significa Sports & Culture, também se envolveu na escolha do melhor futebolista de 2021 e parece apostar em Cristiano Ronaldo, Mohamed Salah e Karim Benzema, esquecendo Lionel Messi, Robert Lewandowski e Kylian Mbappé. Como se vê, o assunto é muito controverso, mas sem dúvida que este envolvimento da imprensa vietnamita é uma boa curiosidade a mostrar como o futebol se globalizou.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Prémio Camões 2021 foi para Moçambique

O Prémio Camões, que é considerado a mais importante distinção da literatura em língua portuguesa e que é atribuído anualmente pelos governos de Portugal e do Brasil a um autor “cuja obra contribua para a projeção e reconhecimento do património literário e cultural da língua comum”, foi atribuído à escritora moçambicana Paulina Chiziane.
Criado em 1988, o Prémio Camões já distinguiu catorze portugueses, treze brasileiros, três moçambicanos, dois angolanos e dois cabo-verdianos e o júri decidiu por unanimidade atribuir o prémio de 2021 a Paulina Chiziane, que assim se junta aos seus compatriotas José Craveirinha e Mia Couto, os moçambicanos que já venceram o Prémio Camões. A notícia foi divulgada pelo jornal Público, que anuncia que o júri que distinguiu a escritora assinalou a importância que nos seus livros dedica aos problemas da mulher moçambicana e africana, no contexto da sua cultura específica e das transições por que tem passado desde o fim da era colonial. 
Paulina Chiziane “está traduzida em muitos países” e já recebeu vários prémios e condecorações, tendo a valia cultural da sua obra sido reconhecida em Portugal, pelo que foi condecorada em 2014 com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. O seu primeiro livro foi publicado em 1990 em Moçambique e intitula-se Balada de Amor ao Vento, pelo que passou a ser considerada pela crítica como “a primeira romancista de Moçambique”, mas a sua obra tem sido regularmente publicada em Portugal pela Editorial Caminho. 
Já li alguma coisa da obra de Craveirinha e de Mia Couto, mas não conhecia Paulina Chiziane. Naturalmente, esta escritora moçambicana vai ser uma das minhas próximas leituras, embora a sua obra pareça estar esgotada em Lisboa.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

O exemplo de Aristides de Sousa Mendes

Aristides de Sousa Mendes, o antigo cônsul português em Bordéus, foi homenageado pelo Estado Português numa cerimónia que aconteceu 67 anos depois da sua morte e que lhe deu justas honras de Panteão Nacional, através de uma placa evocativa de homenagem junto de um túmulo sem corpo, uma vez que os seus restos mortais permanecem em Cabanas de Viriato, a sua terra natal.
Decorria a Segunda Guerra Mundial e milhares de refugiados procuravam atravessar a fronteira francesa para fugir à barbárie nazi e chegar à península Ibérica. Nessas circunstâncias e à revelia das ordens do governo de Salazar, em Junho de 1940 o cônsul Aristides de Sousa Mendes emitiu vistos que permitiram a travessia da fronteira franco-espanhola e salvaram cerca de dez mil judeus e outros refugiados, embora haja fontes que referem que foram “mais de 30 mil pessoas salvas”. A sua corajosa e humanitária atitude desobedecia à “Circular 14”, que condicionava a emissão de vistos a pessoas refugiadas por diplomatas portugueses, sem prévia autorização governamental. Porém, Sousa Mendes enfrentou a dura realidade que tinha perante os seus olhos e não perdeu tempo a pedir prévias autorizações. Salazar não lhe perdoou e isso valeu-lhe a expulsão da carreira diplomática e uma vida cheia de dificuldades económicas, vindo a morrer na miséria em 1954 no Hospital Franciscano para os Pobres, em Lisboa, com 69 anos de idade.
A reabilitação pública de Aristides de Sousa Mendes só aconteceu em 1988, quando a Assembleia da República decretou por unanimidade a sua reintegração na carreira diplomática, alguns anos depois do seu nome ter sido inscrito no Memorial do Holocausto, em Jerusalém, onde recebeu o título de “Justo entre as Nações”.
Só o Diário de Notícias destacou esta homenagem a Aristides de Sousa Mendes. Os outros jornais portugueses, ditos de referência, encheram as suas primeiras páginas com as vitórias do Sporting sobre o Besiktas e do FC Porto sobre o Milan. Que ignorância cultural, que mediocridade cívica e que falta de sentido do que é o jornalismo.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

O insólito acidente de um belo veleiro

A notícia espalhou-se através das redes sociais, mas também apareceu em alguns jornais, caso de A Tribuna, da cidade brasileira de Santos: o Cisne Branco, o veleiro da Marinha do Brasil, sofrera um acidente quando manobrava no porto equatoriano de Guayaquil, tendo abalroado a ponte sobre o rio Guayas e sofrido vários danos, especialmente no mastro principal, enquanto um dos rebocadores que auxiliava a manobra se afundou. Não houve vítimas, mas chegou a temer-se que o navio fosse “engolido pela ponte”, como se viu em algumas imagens que circularam na internet.
Segundo informou a Marinha do Brasil, que está a apurar as causas da ocorrência, o insólito acidente aconteceu devido à força da corrente e à inoperância dos rebocadores. No entanto, o que aconteceu só pode ter resultado de erro humano e de imperícia do comandante, pois a manobra de navios em espaços restritos ou em águas de fortes correntes ou de turbulência requerem um estudo e um planeamento prévios. Numa manobra destas nada acontece de imprevisto ou, como se diz na gíria, “está tudo previsto”.
O veleiro Cisne Branco é um belo veleiro de 76 metros de comprimento e que arma 31 velas, tendo sido construído em Amesterdão no ano de 2000, por ocasião das comemorações dos 500 anos da descoberta do Brasil pela armada de Pedro Álvares Cabral. Tem uma guarnição de cinquenta tripulantes e pode embarcar 31 cadetes em viagens de instrução, sendo utilizado como “embaixada flutuante” em actividades de representação nacional e internacional. Desta vez, essa função de representação no maior porto e cidade do Equador correu mal e até há quem associe este acidente ao período bolsonarista que o Brasil atravessa e que tanto o tem desprestigiado internacionalmente. Mas, como diriam os franceses, honni soit qui mal y pense...

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Powell e a mentira da invasão do Iraque

Com 84 anos de idade, faleceu ontem o general Colin Powell. É a notícia principal da edição do The Wall Street Journal. Paz à sua alma!
Powell nasceu num bairro pobre de Nova Iorque e era filho de emigrantes jamaicanos, tendo sido o primeiro secretário de Estado dos Estados Unidos de ascendência afro-americana. Não frequentou a Academia de West Point mas teve uma carreira militar notável, que fez dele um exemplo de sucesso na escala social americana. Foi combatente no Vietnam onde foi ferido, foi o estratega da invasão americana do Panamá em 1989 e foi um dos comandantes que supervisionou a guerra do Golfo em 1991, destinada a desalojar os iraquianos do Koweit. Passou à reserva em 1993 e veio a ser escolhido pelo presidente George W. Bush para secretário de Estado, tendo-se destacado pela sua intervenção nas Nações Unidas em 2003, onde defendeu a invasão do Iraque com o argumento falso de que Saddam Hussein possuía armas de destruição maciça. Porém, quando mais tarde se soube que não havia quaisquer dessas armas e que essa crença não passava de um mentira forjada pelos serviços secretos americanos, veio a declarar: “Foi uma mancha… e vai ficar no meu currículo. Foi doloroso. Ainda o é agora.“
Colin Powell foi o herói americano que se arrependeu de defender a invasão do Iraque e foi um dos poucos líderes que reconheceu o seu erro. O primeiro-ministro português Durão Barroso, a quem a própria mulher chamava o cherne, apoiou a invasão do Iraque à revelia da opinião pública portuguesa e nunca reconheceu o seu erro, tendo-o aproveitado para singrar na vida. Uma tristeza!
Pensava-se que o prestígio de Colin Powell pudesse fazer dele um candidato presidencial mas, certamente arrependeu-se do seu histórico erro que tanto mal trouxe ao mundo e afastou-se da política e do Partido Republicano, vindo a apelar ao voto em Barack Obama em 2008, em Hillary Clinton em 2016 e em Joe Biden em 2020.