domingo, 24 de março de 2013

Um museu e três exposições

O museu da Fundação Arpad Szénes–Vieira da Silva (FASVS) com o apoio dos seus mecenas, está a oferecer ao público lisboeta três exposições temporárias que são uma excelente oportunidade para, de uma só vez, revisitar uma parte da obra de três artistas de elevada cotação internacional – Vieira da Silva, Arpad Szénes e Graça Morais.
A exposição Vieira da Silva, Agora esteve recentemente no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro no âmbito do projecto cultural Ano de Portugal no Brasil, para homenagear a pintora portuguesa que, com o marido, viveu naquele país na década de 1940. Depois de ter sido visitada durante dois meses por 42.315 visitantes, a exposição é agora apresentada em Lisboa, mostrando obras de pintura e desenho que cobrem um vasto período da produção da pintora e que é complementada pela sua fotobiografia. Revisitar a obra de Vieira da Silva é um exercício muito estimulante e confirma a sua excepcional dimensão no panorama internacional da arte contemporânea.
Porém, o FASVS tem por vocação a divulgação e estudo das obras de Maria Helena Vieira da Silva e do seu marido de origem húngara Arpad Szénes, mas também de outros artistas seus contemporâneos. Nesse sentido, o museu apresenta também uma pequena exposição da obra de Arpad Szénes e a exposição Os Desastres da Guerra, que reúne pintura e desenho de Graça Morais em que denuncia a guerra e a sua violência. Esta exposição pode ser vista até 14 de Abril, enquanto a exposição Vieira da Silva, Agora pode ser vista até 16 de Junho.


Lisboa valorizada com a Ribeira das Naus

A zona ribeirinha do rio Tejo situada entre o Terreiro do Paço e o Cais do Sodré, constitui um dos mais simbólicos locais da cidade de Lisboa. Aí existiram, pelo menos desde o século XIV, as carreiras de construção de navios ou Ribeira das Naus, onde nasceram muitos dos navios da expansão marítima portuguesa e que serviu de modelo aos estaleiros que se construíram nas ribeiras de Goa, de Cochim, do Rio de Janeiro e do Recife. Depois da destruição provocada pelo terramoto de 1755 os estaleiros foram reconstruídos e a Ribeira das Naus passou a ser designada por Arsenal Real da Marinha que, até ao fim do século XIX, foi o mais importante pólo de construção naval português. Em 1910 os estaleiros passaram a ser designados por Arsenal da Marinha, mas em 1938 foram extintos quando foi inaugurado o novo Arsenal do Alfeite.
O acesso da carreira de construção ao rio Tejo foi então cortado e foi construída a Avenida Ribeira das Naus. Porém, o recente e justificado interesse pela frente ribeirinha da cidade levou à decisão de requalificar a Avenida Ribeira das Naus e o seu espaço adjacente. A primeira fase desse projecto ficou agora concluída por iniciativa da CML: um largo passeio pedonal, um novo jardim público e uma larga escadaria em suave plano descendente até ao rio, como recriação de uma praia existente antes do terramoto. A cidade de Lisboa “que deve tudo ao rio”, foi enriquecida com a recuperação da sua memória histórica e ganhou mais um espaço de lazer. Bem precisamos destas coisas positivas para nos animarmos!

sábado, 23 de março de 2013

Precisam-se soluções para vencer a crise

A crise que atravessamos é grave e, sobre as suas origens e características, está quase tudo dito. A sua resolução não está a ser bem sucedida e a tentativa de reduzir o défice orçamental e de travar o crescimento da dívida pública, apenas tem conduzido ao brutal aumento do desemprego, à recessão económica, a um forte desânimo popular e à descrença no futuro. Apesar de haver cada vez mais comentadores, há cada vez menos comentários para fazer e o que tem faltado são as soluções. Não se vê rumo na governação e, quanto à terapêutica para vencer a crise, é cada vez mais do mesmo. As nossas dificuldades estão a tornar-se inultrapassáveis. A nossa economia está doente. A procura caiu. Há muitas empresas a encerrar. Os nossos jovens desesperam e emigram, Temos poucos recursos naturais. Temos uma estrutura produtiva deficiente. Produzimos pouco. Gastamos para além do razoável. Poupamos e investimos muito pouco. É um problema muito antigo.
Com o actual nível de juros não é possível pagar a dívida e vencer a crise. Basta um elementar exercício de matemática para tirar essa conclusão. É preciso encontrar um novo rumo e novas soluções. É preciso mais imaginação. É preciso mais investimento, mais emprego e mais crescimento económico. Há dias, Silva Peneda afirmou que a experiência neoliberal fracassou. Antes, Miguel Cadilhe tinha defendido uma renegociação honrada da dívida pública portuguesa, com redução da taxa de juro e do prazo de pagamento do empréstimo da troika. Porém, os nossos jovens e incompetentes governantes continuam cegos e surdos, não ouvindo sequer os seus companheiros de partido mais velhos e mais experientes.
Um graffiti que aparece nas ruas de Lisboa é sugestivo e faz todo o sentido:
No dia em que o povo acordar, o governo não conseguirá dormir

quinta-feira, 21 de março de 2013

Há uma ameaça a pairar sobre Chipre

Os graves problemas financeiros do Chipre continuam sem solução e a preocupar a Europa. As necessidades imediatas estão avaliadas em 17 mil milhões de euros e as instituições da troika prometem emprestar 10 mil milhões de euros, se o Chipre conseguir mobilizar recursos próprios da ordem dos 6 mil milhões de euros, de modo a evitar um crescimento exponencial da sua dívida pública. A primeira solução proposta e aceite pela troika foi a aplicação de uma taxa extraordinária sobre os depósitos bancários, o que levou os cipriotas ao desespero e à revolta. Essa intenção constituía também um perigoso precedente para os outros países da Zona Euro e foi reprovada por unanimidade no Parlamento cipriota. Então, o BCE fez um ultimato ao governo cipriota no sentido de encontrar uma outra solução a curtíssimo prazo, que poderá passar pela criação de impostos sobre pensões e imobiliário, pela venda de património e privatizações, por um fundo de solidariedade ou, até, pela emissão de direitos antecipados sobre as importantes reservas de gás natural descobertas nas águas territoriais cipriotas.
Uma sondagem agora divulgada, revela que 91% dos cipriotas apoia a rejeição da taxa extraordinária sobre os depósitos feita pelo Parlamento e 67.3% defendem a saída do euro e o reforço das relações com a Rússia. Dão que pensar estes resultados. No Chipre não há apenas o sufoco financeiro e a quase falência dos dois maiores bancos, mas há a ameaça da saída do euro, o interesse russo pelo gás natural e um panorama geopolítico em mudança, onde a República Turca do Norte de Chipre se quer fazer ouvir. O modelo cipriota ruiu. A feliz ilustração da primeira página do diário alemão Frankfurter Rundschau vale mais do que mil palavras.

Grandes Naufrágios Portugueses

Na história das navegações marítimas não são as rotineiras viagens que ficam registadas nas suas páginas e que despertam a curiosidade de muitas gerações mas, pelo contrário, o que fica registado na memória das pessoas ou no imaginário colectivo das comunidades é o dramatismo dos acidentes marítimos, das peripécias das batalhas navais e dos grandes naufrágios, onde se perdem pessoas e bens.
Por isso, o Comandante Rodrigues Pereira decidiu reunir algumas das mais dolorosas perdas acontecidas à navegação portuguesa ao longo dos séculos, com especial destaque para os relatos da História-Trágico Marítima, mas onde inclui também os desastres marítimos ocorridos mais recentemente, como é o caso do navio-motor Save, da traineira Praia da Atalaia e do pesqueiro Bolama. É um trabalho que faltava e que preenche uma lacuna na historiografia marítima, mas que também abre perspectivas para outras apreciações deste tema.
Na análise que é feita, verifica-se que a generalidade dos naufrágios resultou de falhas humanas, quer no planeamento quer na condução das viagens, mas também de condições meteorológicas severas ou de batalhas navais. Grandes Naufrágios Portugueses (1194-1991) é um livro muito interessante e de boa leitura, com um bem elaborado glossário para ajudar os leitores menos habituados à terminologia náutica. Ao ler as seis dezenas de relatos e o capítulo dedicado aos “cemitérios de navios”, somos levados directamente ao Mar Português, um dos mais citados poemas da Mensagem de Fernando Pessoa:

         Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!

terça-feira, 19 de março de 2013

As Festas do Concelho de Constância

A Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem/Festas do Concelho de Constância vão realizar-se nos próximos dias 30 e 31 de Março e 1 de Abril. A origem destas Festas encontra-se na devoção a Nossa Senhora da Boa Viagem, a padroeira dos marítimos, estando associada ao tráfego fluvial de mercadorias que durante séculos foi muito intenso no curso do rio Tejo, a partir de Constância para jusante. Passado o tempo dos marítimos e do transporte fluvial, as Festas entraram em declínio, até que a Câmara Municipal decidiu intervir com o objetivo de as revitalizar e revalorizar, associando-lhe um vasto conjunto de actividades culturais, recreativas e de lazer que constituem as Festas do Concelho de Constância.  As Festas incluem música, artesanato, exposições, desporto, ruas floridas, tasquinhas, gastronomia, doçaria e muita animação, mas o seu ponto alto são as cerimónias religiosas que se realizam na tarde da segunda-feira da Páscoa (1 de Abril), em que se destaca a procissão que sai da Igreja Matriz e vai até junto do rio Tejo, onde já se encontram as embarcações que integraram a procissão fluvial para receberem a bênção, prosseguindo depois pelas ruas da vila. Esta procissão ou cortejo fluvial é, provavelmente, a mais simbólico evento do programa e recorda o tempo "em que os rios eram estradas e deles vinha o ganha pão de grande parte da população". Realiza-se na manhã do mesmo dia 1 de Abril, com algumas dezenas de embarcações engalanadas com bandeiras e com coloridas flores de papel. Sai de Tancos rio acima e passa junto ao castelo de Almourol e ao largo da Praia do Ribatejo, até Constância. Já tive o privilégio de assistir a esse cortejo e posso assegurar que é um grande espectáculo!

segunda-feira, 18 de março de 2013

Chipre e a crise de confiança europeia

A decisão de confiscar parte dos depósitos bancários no Chipre como forma de obrigar os cipriotas a custear uma parte do resgate internacional de que carecem, está a levantar sérios problemas, muitas interrogações e grandes preocupações. Os bancos cipriotas encerraram as suas agências até nova ordem. A reacção dos depositantes foi racional pelo que iniciaram de imediato uma corrida aos bancos, que as televisões mostraram ao mundo e que logo contagiou os países europeus que estão a passar por dificuldades semelhantes, cujas autoridades se apressaram a negar qualquer relação.
Os bancos eram até há pouco tempo o símbolo da estabilidade e da solidez financeira, mas aos olhos das pessoas tornaram-se a imagem da ganância e da especulação. A confiança na banca está muito debilitada e o que está para ser feito no Chipre, significa que a garantia dos depósitos bancários deixou de existir. E se os depósitos bancários no Chipre não estão garantidos, não há qualquer razão para que os cidadãos dos outros países da Zona Euro acreditem que os seus depósitos serão tratados de forma diferente. É a confiança perdida e a crise da confiança. E sem confiança a economia não funciona. E sem a economia a funcionar não há emprego. E sem emprego pode surgir a revolta social. É uma situação inquietante e, neste quadro de crise da confiança, o jornal i pergunta mesmo se “o colchão passou a ser o banco mais seguro”.


As reflexões de Jean-Claude Juncker

Nos tempos que correm é cada vez menor a confiança dos cidadãos na generalidade dos políticos europeus e é, também, cada vez mais evidente a falta de líderes que inspirem e mobilizem as populações. Os líderes europeus são reféns dos seus eleitorados e dos seus interesses e, muitos deles, não passam de funcionários impreparados mas bem pagos, rendidos aos seus nacionalismos e sem uma visão estratégica que assegure a esperança, o emprego, a prosperidade e a paz para essa complexa comunidade de nações que é a União Europeia.
Por vezes há algumas excepções e, nos últimos dias, destacou-se Jean-Claude Juncker, que é desde 1995 o Primeiro-ministro do Luxemburgo e que, durante oito anos, foi o Presidente do Eurogrupo. É seguramente um dos mais experientes políticos europeus. E o que disse ele? Numa entrevista ao semanário alemão Der Spiegel disse que os velhos demónios que no passado levaram países europeus a entrar em guerra “não desapareceram” e que “estão apenas adormecidos, como as guerras na Bósnia e no Kosovo mostraram”, confessando que o assusta ver as semelhanças entre as circunstâncias da Europa de há 100 anos e o contexto actual europeu. Dias depois, comentando as políticas de austeridade, a recessão e os seus efeitos sociais e económicos devastadores, sublinhou a necessidade de um maior equilíbrio entre austeridade e crescimento, dizendo acreditar que há um risco de “revolta social” na Europa. São palavras muito sensatas, num tempo de emergência social na Europa, onde mais de 26 milhões de pessoas estão desempregadas e outros 120 milhões vivem em situação de precariedade. As palavras de Jean-Claude Juncker merecem reflexão, até porque já há quem veja no horizonte alguns sinais de uma “primavera europeia”.

domingo, 17 de março de 2013

A crise e os tempos difíceis na Galiza

O diário galego La Voz de Galicia que se publica na Corunha, anunciou hoje em primeira página a notícia que “Galiza põe à venda as suas aldeias abandonadas” e acrescenta que, segundo o censo de 2011, existem na Comunidade Autónoma da Galiza um total de 1.408 núcleos populacionais abandonados, que vão desde as pequenas aldeias com igreja e escola, até aos mosteiros isolados e aos pequenos núcleos com casas destruídas e abandonadas. Esta realidade reflecte o histórico problema da emigração galega, mas também é um sinal da crise contemporânea, da desertificação rural, do envelhecimento da população, do isolamento e da ausência de actividade económica. Nesta altura haverá três dezenas de núcleos populacionais que esperam por comprador, havendo ingleses, noruegueses, árabes e americanos que têm mostrado interesse em fixar-se na Galiza.
Esta notícia recorda-nos Rosalia de Castro, a poetisa galega da segunda metade do século XIX que na sua poesia denunciou a pobreza que obrigava os galegos a emigrar, sobretudo para a América de língua castelhana e, em especial, o seu famoso Cantar da Emigração”, o poema que Adriano Correia de Oliveira cantou.

Este parte, aquele parte 
e todos, todos se vão.
Galiza, ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Os versos de Rosalia de Castro e a notícia de La Voz de Galicia, têm cerca de 150 anos de intervalo e são uma consequência do fenómeno da emigração. Em Portugal, que tantas afinidades culturais e naturais tem com a Galiza, também temos os mesmos problemas da emigração e das aldeias abandonadas. São tempos difíceis de um mundo em mudança.

Os especuladores atacam em Chipre

No passado mês de Junho o Chipre pediu ajuda à União Europeia, depois de terem sido detectados graves problemas nos dois principais bancos cipriotas que foram afectados e contagiados pela crise grega. Depois de muitos meses de negociações, foi decidido conceder uma ajuda ao Chipre que, a partir de agora, passa a ser o quinto país da Zona Euro a beneficiar de um programa de ajuda internacional.
Inicialmente, o Chipre pedira um resgate de 17 mil milhões de euros, que é um montante equivalente ao seu PIB, mas nem o FMI nem o BCE concordaram com esse valor, alegadamente porque isso significaria um brutal aumento da dívida cipriota. A solução encontrada inclui duríssimas exigências que não têm precedentes. A troika avança apenas com 10 mil milhões de euros para “aliviar a carga dos contribuintes europeus”, sendo recolhidos 5,8 mil milhões de euros através de um singular imposto: os depósitos bancários com mais de 100.000 euros irão pagar um imposto extraordinário de 9.9 % e os depósitos abaixo deste valor pagarão 6,7 %.
Acontece que cerca de 30% dos depósitos bancários pertencem a cidadãos russos e resultam de lavagem de dinheiro. Esta medida irá custar aos russos quase 2 mil milhões de euros e a sua confiança na banca cipriota vai vacilar, o que vai afectar a economia e aprofundar a crise no país. 
Os cipriotas são assim os primeiros cidadãos europeus a quem é retirada uma parte das suas poupanças, que não será devolvida. É um imposto que incide sobre um milhão de cipriotas e é um verdadeiro assalto às suas poupanças. Os jornais espanhóis destacaram esta notícia e o La Vanguardia chama-lhe um confisco, mas os jornais portugueses ignoraram-na.
Os especuladores financeiros continuam a beneficiar da cumplicidade e da fraqueza dos dirigentes europeus que tudo fazem para destruir a ideia de uma Europa solidária, próspera e pacífica.

sábado, 16 de março de 2013

O futuro bem negro que nos anunciam

Ontem o nosso contabilista deu mais uma lição de insensibilidade social, de ignorância económica e de servilismo aos interesses dos especuladores (ou dos mercados) e o Diário de Notícias sumariou-a: “Gaspar anuncia futuro negro”. Então um ministro anuncia um futuro negro e não se demite? E ninguém o demite por ele nos andar a enganar há tanto tempo? Depois de cerca de 21 meses de governo e de todas as declarações e promessas feitas, antes e depois das eleições legislativas de 5 de Junho de 2011, os resultados são verdadeiramente catastróficos. Estamos perante a pior recessão de que há memória em Portugal, com uma quebra do produto nacional de 3,2%, uma brutal quebra no consumo e nas exportações, um desemprego que já atinge cerca de um milhão de pessoas e um ambiente social depressivo e sem esperança. Não é preciso ser economista nem ler estatísticas para ver a triste realidade que nos cerca. Os nossos jovens governantes revelam inexperiência, ignorância, atrevimento e insensibilidade social. Um dos que se destaca nessa intolerável atitude é exactamente o nosso contabilista, que tem falhado sempre e que já nem tem o apoio do seu próprio partido. É a nossa desgraça!
Entretanto, o homem que chamou piegas aos portugueses, movimenta-se emparedado entre o seu contabilista e um relvas sem escrúpulos, insistindo teimosamente nas mesmas receitas que nos levaram a esta delicada situação. Ele não sabe, nem quer aprender outras soluções. Submisso e vaidoso, deslumbra-se com os elogios que lhe fazem em Bruxelas e Frankfurt. Não arrepia caminho e continua a afirmar “nem mais tempo, nem mais dinheiro”. O Titanic afunda, mas ele e a sua banda continuam a tocar no salão, embora alguns músicos já estejam a preparar-se para embarcar nos botes de salvação. A situação é muito complexa e as dificuldades são enormes. A recessão é europeia e a crise também é europeia. Ninguém tem dúvidas disso. Anunciam-nos um futuro negro. E o que faz o homem do leme? Visita moagens e fábricas de cogumelos.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Habemus Papam!

Ontem à noite em Roma, de uma varanda da Basílica de São Pedro, o cardeal francês Jean-Louis Tauran anunciou ao mundo que o conclave tinha escolhido o novo Papa, o homem que vai dirigir uma comunidade de 1200 milhões de católicos em todo o mundo. O eleito tinha sido o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires de 76 anos de idade, que decidiu adoptar o nome de Francisco.
O novo Papa nasceu em Buenos Aires em 1936, filho de um ferroviário de origem italiana. Foi engenheiro químico antes de se tornar padre em 1969 e era arcebispo de Buenos Aires. É o primeiro latino-americano e o primeiro jesuíta a dirigir a Igreja Católica. Dirigindo-se à multidão que o aclamou disse que “os meus irmãos cardeais foram buscar-me quase até ao fim do mundo”.
Hoje sabe-se que o cardeal Bergoglio terá sido o principal adversário de Joseph Ratzinger na eleição de 2005, tendo chegado a reunir 40 votos dos cardeais eleitores. Dizem os registos que é um homem tímido, modesto, conservador e preocupado com os mais pobres. O seu estilo de vida é sóbrio e austero. Vive num pequeno apartamento em Buenos Aires e recusou viver no Palácio Apostólico. Viaja de metropolitano e de autocarro e, quando vai a Roma, voa em classe económica. Cozinha as suas próprias refeições, gosta de tango e de literatura, mas também é um apaixonado pelo futebol. É adepto e sócio do San Lorenzo de Almagro e gosta de ir ver os jogos da sua equipa. Com este exemplo de vida podemos dizer: Habemus Papam!
O diario argentino El Dia diz que é “um dia histórico” e salienta o “orgulho e a emoção” argentinas. O país de Jorge Luis Borges e Juan Manuel Fangio, de Maradona e Messi, de Che Guevara e Eva Peron, de Carlos Gardel e Piazzola, rejubila.

terça-feira, 12 de março de 2013

115 cardeais para escolher o novo Papa

Esta tarde na Capela Sistina do Vaticano, os 115 cardeais da Igreja Católica com menos de 80 anos de idade iniciaram o conclave para escolher o novo Papa que irá suceder a Bento XVI. Os cardeais eleitores, entre os quais há dois portugueses, são originários da Europa (60), América Latina (19), América do Norte (14), África (11), Ásia (10) e Oceânia (1), ficando fechados e isolados do mundo até que o novo Papa seja escolhido. As votações decorrem até que um nome obtenha uma maioria de dois terços dos 115 votos e, uma vez escolhido, o eleito declara se aceita a eleição como soberano pontífice e escolhe o nome que adopta. Então, o fumo branco anuncia que já há um novo Papa que, a partir da varanda da basílica de São Pedro, profere a bênção apostólica Urbi et Orbi. O Papa é o líder espiritual de 1200 milhões de católicos, é o Chefe do Estado do Vaticano e o Bispo de Roma. O Papa terá de mobilizar as energias da Igreja Católica em todos os continentes e proteger a diplomacia da Santa Sé, proceder à reforma da Cúria Romana e do governo da Igreja, tornando-a moderna, global e plural. Terá que ter respostas para as questões da ordenação das mulheres, do celibato dos padres, da sexualidade e da pedofilia, mas também para os problemas e suspeitas que pairam sobre o Banco do Vaticano.
O Papa é uma figura de influência mundial e, uma vez que, por razões que a História explica, a Santa Sé e o Vaticano existem, exige-se que estejam, através das suas redes diplomáticas e religiosas, ao serviço da paz, dos direitos humanos, dos pobres, dos oprimidos e do diálogo entre as nações. É isso que se espera do novo Papa.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Resistência Galega

Numa altura de grandes dificuldades económicas e sociais, a Espanha defronta-se também com sérias intenções independentistas no País Basco e na Catalunha, mas também na Galiza, embora neste caso se trate de uma reivindicação quase simbólica, mas que não deixa de se mostrar activa. Assim, a imprensa galega noticiava hoje que a Resistência Galega realizou mais um atentado bombista e o diário Atlántico, que se publica em Vigo, destacava na sua primeira página o “nuevo atentado de Resistência Galega a un banco en O Rosal”.
A Resistência Galega agrega diferentes grupos organizados no quadro da luta pela independência da Galiza e, em 2005, publicou um “Manifesto pola resistência galega”, passando a levar a efeito acções bombistas contra entidades bancárias e partidos políticos espanhóis. A primeira dessas acções aconteceu no dia 23 de Julho de 2005 e foi dirigida contra uma agência bancária em Santiago de Compostela, na véspera do Dia Nacional da Galiza. Desde então, a Resistência Galega efectuou cerca de três dezenas de acções armadas, das quais só resultaram danos materiais. As forças de segurança espanholas consideram que os independentistas actuam a partir de três células activas, baseadas em Santiago de Compostela e Vigo, mas também de uma terceira célula localizada, eventualmente, no norte de Portugal.
Em Outubro de 2010, o Tribunal Supremo espanhol designou a "Resistência Galega" como um "grupo terrorista", comparando-o com outras organizações armadas que actuam em Espanha, como por exemplo a ETA. Não são fáceis os tempos nem os ventos que sopram em Espanha.

domingo, 10 de março de 2013

Que mais nos irá acontecer?

O nosso primeiro afirmou em campanha eleitoral que fez as contas e que estava em condições de garantir que não seria preciso cortar salários nem fazer despedimentos para consolidar as nossas finanças públicas. Era a voz da arrogância. Disse, então, que tudo foi vasculhado para haver contas bem feitas e que a sua gente procurou estimar, preferindo fazê-lo mais por excesso do que por defeito. Anunciou que iria mais longe do que a troika. Era a teoria do corte das gorduras que o amigo catroga todos os dias anunciava por megafone televisivo e que uma legião de relvas, moedas, borges e nogueiras aplaudia. Porém, os homens da bandeirinha na lapela não tinham estudado a lição, não conheciam o país, deslumbraram-se com o poder e nem perceberam que as coisas eram bem mais complexas do que pensavam. Depressa esqueceram programas e promessas e passaram a fazer o contrário do que anunciaram e prometeram. Os resultados são desastrosos. Afundaram a nossa economia. Levaram o desemprego para níveis insuportáveis. Aumentaram a dívida pública. Não reduziram o défice. Aumentaram impostos. Cortaram salários e pensões. Empobreceram o país. Estimularam a emigração. Roubaram-nos a confiança. Humilham-nos todos os dias.
Agora, cegos e surdos, insistem na mesma receita, querem ainda mais austeridade e preparam-se para cortar nas despesas sociais e nas funções de soberania. E querem mais cortes nas pensões de quem descontou toda a vida e confiou no sistema. São uns fundamentalistas obcecados e nem sequer obedecem aos seus colegas da troika porque, em boa verdade, eles são a troika. Estão a levar-nos para um desastre e a destruir a identidade e o orgulho nacionais. Que mais nos irá acontecer?