sábado, 7 de outubro de 2017

Mocímboa da Praia e as minhas memórias

Mocímboa da Praia é uma localidade por onde passam muitas das minhas memórias pessoais, consolidadas há muitos anos quando visitava a sua pequena baía e vestia a camisa do botão de âncora.
Localizada na costa moçambicana da província de Cabo Delgado e a menos de 100 quilómetros da fronteira com a Tanzânia, a vila apareceu ontem referida com grande destaque no diário moçambicano O País, com o título "Tensão em Mocímboa da Praia". As notícias referem que a povoação foi atacada por cerca de três dezenas de elementos fundamentalistas islâmicos que integram uma célula do grupo terrorista Al-Shabab, que também actua na Somália e no Quénia. O grupo terá atacado três ou quatro postos policiais e, segundo as informações disponíveis, nos confrontos havidos terão sido abatidos dez terroristas e detidos quinze, enquanto terão sido mortos quatro agentes policiais. Uma parte do grupo atacante parece ainda estar a ocupar parte da vila, pelo que a tensão é muito grande, com as ruas desertas e quase todo o comércio e serviços fechados, incluindo as instituições estatais.
A presença em território moçambicano deste grupo fundamentalista islâmico, que é formado maioritariamente por jovens, já dura há alguns anos, mas tem vindo a intensificar-se nos últimos tempos. Segundo informa o jornal, vários contingentes da Unidade de Intervenção Rápida da Polícia moçambicana estão na região a fim de restabelecer a ordem.
Moçambique já tem alguns problemas sérios, mas não pode deixar de dar muita atenção a esta ameaça, até porque o islamismo tem uma forte implantação naquela região que, há pouco mais de cem anos, era dominada pelo sultanato de Zanzibar. Portanto, as autoridades moçambicanas têm que estar atentas e actuar enquanto é tempo.

The Times e o bom fotojornalismo inglês

A imprensa britânica cultiva o fotojornalismo, por certo como nenhuma outra no mundo, sobretudo quando regista imagens de efemérides astronómicas ou de paisagens marítimas.
Nessa linha editorial, o diário The Times destaca hoje na sua primeira página e com grande destaque uma fotografia a quatro colunas da Lua cheia, captada no Solent, isto é, o canal que separa o sul da Inglaterra da ilha de Wight, próximo de um dos quatro fortes construídos no século XIX para proteger o porto de Portsmouth de qualquer ataque marítimo vindo do sul. É uma bela fotografia que valoriza a capa do jornal.
A Lua ocupa um lugar importante em muitas mitologias e lendas populares de inúmeras culturas do nosso planeta. De acordo com a cultura britânica e norte-americana, cada uma das Luas cheias que ocorre durante o ano tem um nome diferente relacionado com as estações do ano no hemisfério norte e que serve de referencial para as diversas épocas agrícolas. A Lua cheia de Setembro é a mais próxima do equinócio do Outono (22 de Setembro) e é conhecida como a Harvest Moon ou Fruit Moon. Porém, neste ano de 2017, essa Lua cheia só aconteceu em Outubro o que já não acontecia desde 2009.
Foi essa imagem da Lua cheia sobre o Solent que o jornal The Times publicou.
Curiosamente, a mesma edição anuncia uma entrevista com António Horta Osório, o presidente executivo do famoso Lloyds Bank que afirma que, no exercício das suas relevantes funções, o stress quase o quebrou.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O novo Terminal de Cruzeiros de Lisboa

No quadro da globalização e, em especial, da abertura económica que hoje caracteriza a União Europeia, as cidades competem para valorizar a sua base económica e para atrair actividades e recursos. O caso da Agência Europeia do Medicamento que vai sair de Londres e para a qual se candidataram 19 cidades para a acomodar no futuro, mostra como é dura a luta das cidades para atrair organizações, actividades, eventos, congressos, investimentos e tudo o que possa gerar rendimentos, criar empregos, aumentar a notoriedade, valorizar a sua imagem e atrair visitantes.
Portugal e em particular a sua capital não têm descurado esta nova filosofia. Apesar de ser um país e periférico e de muitas vezes não poder competir com os seus parceiros economicamente mais fortes, Portugal tem desenvolvido um significativo esforço no sentido de se modernizar e de atrair grandes eventos internacionais. Assim aconteceu com a Expo 98, com o Euro 2004 e com a Web Summit 2016, mas também com o Rock in Rio que é um dos maiores festivais de música do mundo e que desde 2004 se tem realizado em Lisboa ou com a Volvo Ocean Race, a volta ao mundo à vela que desde 2012 escala o porto de Lisboa. A cidade de Lisboa tem sido a cidade portuguesa mais beneficiada com estes eventos, tendo aproveitado a sua relação íntima com o rio Tejo para se afirmar, daí resultando que tenha sido contemplada com a construção de novas infraestruturas que vêm harmonizando essa relação, muito importante para o turismo e para a economia do mar.
Depois da construção do Centro de Investigação para o Desconhecido da Fundação Champalimaud, um projeto de autoria do arquitecto goês Charles Correa que foi inaugurado em 2010 e do MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia que foi concebido pela arquitecta britânica Amanda Levete, inaugurado em 2016, está em vias de ser inaugurado o novo Terminal de Cruzeiros de Santa Apolónia, uma obra da autoria do arquitecto Carrilho da Graça.
Hoje o jornal Público publicou uma entrevista com o autor da obra e, por acaso, havia hoje 4 grandes navios de cruzeiro atracados nos cais adjacentes ao novo Terminal, a mostrar que o turismo de massa está em Lisboa.

A Catalunha terá de esperar mais tempo

A edição que hoje foi posta a circular da revista The Economist destaca como tema principal a situação na Catalunha e afirma que “quem fizer a declaração de independência será responsável pelo enorme dano que se fará à Catalunha e aos catalães, à Espanha e aos espanhóis e à Europa e aos europeus”.
Carles Puigdemont tem ameaçado que fará brevemente a DUI (Declaración Unilateral de Independencia), mas os seus entusiasmados apoiantes parece que se estão lentamente a desmobilizar. Ao fim de alguns dias de verdadeira insurreição patrocinada pelo governo catalão, o balanço começa a ser muito desfavorável para os independentistas, pois não conseguiram reconhecimento internacional e começam a assistir aos primeiros sinais de uma crise económica e financeira que se aproxima e que será muito dura para a população.
O referendo do dia 1 de Outubro foi uma farsa em que cada um votou como quis, as vezes que quis e nos locais que quis. As cargas policiais que vimos foram sobretudo respostas a provocações e não foram diferentes das que acontecem para resolver problemas com claques do futebol. Ninguém viu um único dos mais de oito centenas de feridos que foram anunciados e que, por serem desproporcionados, não foram levados a sério.
Os dirigentes independentistas já estão derrotados pela sua própria estratégia que não serviu a sua causa, eventualmente justa, mas que requeria uma abordagem menos emocionada e mais racional, menos de rua e mais de negociação. A generalizada desobediência e a quase insurreição popular que foi patrocinada pelos independentistas não agradou aos seus possíveis aliados europeus que têm as suas próprias catalunhas e não querem abrir nenhuma caixa de Pandora, num tempo em que há outros problemas para resolver. Carles Puigdemont e Oriol Junqueras já perderam esta batalha. Parece-me que a independência da Catalunha vai ter de esperar.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O feriado e a evocação da República

Completaram-se hoje 107 anos sobre a data em que foi proclamada a República em Portugal, em consequência de uma revolução organizada pelo Partido Republicano, em que participaram a Carbonária, uma organização clandestina e republicana, cerca de dois mil soldados e marinheiros e muitos populares armados. A monarquia constitucional portuguesa passava por grandes dificuldades e  tinha perdido credibilidade e a confiança do povo, pelo menos desde os tempos do mapa cor-de-rosa e do ultimato inglês, que se agravava em cada dia com a instabilidade política e social em que o país vivia e com o crescente acolhimento dos ideais republicanos. O regicídio de 1908 foi o ponto alto do ataque à Monarquia e dois anos depois as forças da Rotunda triunfaram sobre as forças monárquicas e o novo regime foi proclamado da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa.
A República afirmou-se como um regime de base popular e com um programa de modernização que parecia capaz de devolver aos portugueses o prestígio internacional abalado e de dinamizar a economia e a sociedade. Os principais símbolos nacionais como a bandeira, o hino e a moeda foram mudados e a toponímia urbana rapidamente introduziu os nomes de República, Almirante Reis e Miguel Bombarda.
O imaginário popular adoptou a República e um dos mais populares cartazes que então se produziram ainda hoje podem ser vistos em alguns velhos estabelecimentos.
O dia 5 de Outubro passou a ser um dia de grande festa nacional, sempre com grande participação popular, até que esse dia feriado nacional foi suprimido em 2013 por um governo sem perspectiva histórica, assim ficando até 2015 em nome de um aumento da produtividade da economia nacional.
Em 2016, e em boa hora, o feriado do 5 de Outubro foi restabelecido e é esse dia de festa a que me associo hoje com um "Viva a República".

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Autárquicas mostram um país cor-de-rosa

As eleições autárquicas realizaram-se no passado domingo e embora os resultados representem as escolhas dos eleitores perante as alternativas locais que lhes foram apresentadas, não deixam de ter um significado nacional.
Como de costume, cada um minimiza as derrotas e maximiza as vitórias, porque os números não têm igual significado na matemática eleitoral, dependendo de quem os usa. Por isso, não têm faltado comentadores e comentários bem diversos. Porém, sem excepção, todos têm destacado o Partido Socialista como o grande vencedor destas eleições pelo número de câmaras que venceu a nível nacional, designadamente nas principais cidades. De facto, das 308 câmaras municipais em discussão eleitoral o PS venceu em 158, mais o Funchal e Felgueiras em coligação, o que lhe garante a continuidade da presidência da Associação Nacional de Municípios. À frente das vitórias socialistas está, naturalmente, a cidade de Lisboa, onde Fernando Medina foi reeleito com 42,02% dos votos, mas onde a candidata do CDS obteve 20,57% dos votos, o que é um resultado surpreendente, embora tivesse beneficiado largamente da fraqueza da candidata do PSD a quem “roubou” uma boa parte dos seus votos. Na sua histérica euforia, a futura vereadora Assunção bem pode ir pensando que este caso não se volta a repetir e que nas próximas eleições voltará a ser em Lisboa o que é a nível nacional, isto é, quase nada.
O grande derrotado destas eleições foi o PSD que teve os piores resultados da sua história autárquica, sobretudo nas grandes cidades, embora esses resultados pareçam não impressionar o seu presidente que continua agarrado ao poder, sem perceber que a sua derrota resultou em grande parte das suas más escolhas de candidatos. O PCP, através da sua coligação eleitoral, perdeu 9 câmaras municipais, designadamente Almada, Beja e Barreiro, mas ainda governa 23 câmaras municipais, o que é significativo. O Bloco de Esquerda ficou com pouco para contar e não conseguiu beliscar nem o Partido Socialista, nem António Costa, como tanto procurou.
António Costa tem beneficiado de uma conjuntura europeia e nacional muito favoráveis e os resultados da sua governação têm sido excepcionais, com mais crescimento económico, mais emprego, menos défice, saída dos défices excessivos e do lixo das agências de notação financeira, reposição de rendimentos e, sobretudo, mais optimismo e mais confiança dos agentes económicos. A solução governativa que escolheu e que acabou com aquela tristeza que era o  “arco da governação”, não só se revelou muito inclusiva, como resultou positivamente para o bem do país. Os eleitores mostraram o seu agrado e deram-lhe o seu voto.
O país continua a viver o seu quotidiano sem medo do diabo e ficou mais cor-de-rosa, como anunciaram as notícias da Sapo 24.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A tensão na Catalunha agravou-se muito

Ontem foi o dia do referendo na Catalunha e, como se esperava, as coisas não correram com normalidade e a tensão foi muito grande. Os independentistas de Puigdemont levaram a sua farsa eleitoral até limites inesperados e até anunciaram que o si à independência da Catalunha obtivera 90% de votos e que se tinham registado 761 feridos em resultado das cargas policiais. Estes números não têm qualquer credibilidade, mas os efeitos produzidos através das imagens televisivas foi devastador, porque a luta dos catalães entrou nas agendas mediáticas internacionais, ganhou os seus primeiros apoios internacionais e deu alento aos muitos regionalismos e egoismos que existem pela Europa.
O governo de Mariano Rajoy tem o apoio dos principais países da Europa e dos Estados Unidos e tem o dever constitucional de denunciar a ilegalidade da farsa referendária conduzida por dirigentes irresponsáveis, mas também tem a obrigação de conhecer as aspirações históricas e o orgulho catalão e de não o afrontar com a ocupação policial da Catalunha, quase como uma força militarizada de ocupação.   
Portanto, ontem o referendo não existiu porque a polícia nacional o inviabilizou, mas a causa catalã ganhou uma nova expressão cada vez mais difícil de controlar.
A tradição espanhola não exclui a violência e os independentistas sabem disso. Por isso, apesar de continuarem a desafiar o governo de Madrid, a sua estratégia passa agora por pedir negociações para a independência da Catalunha com mediação internacional, o que não cabe na cabeça de ninguém. A independência está por agora derrotada, até porque a outra metade da Catalunha rejeita a independência e defende a unidade da Espanha. Neste imbróglio é curioso observar o que se passa com um dos mais importantes jornais catalães que é o elPeriódico, que se publica em Barcelona e que é subsidiado generosamente pela Generalitat de Catalunya, não admirando por isso que seja a sua voz oficiosa.
Assim, na sua edição do passado dia 7 de Setembro o jornal anunciou Desobediencia e os independentistas desobedeceram. Hoje, o mesmo jornal escreveu Insurrección. Será esse o próximo passo de Puigdemont e da sua gente? Será a greve geral de amanhã um passo nesse sentido?

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A independência da Catalunha fica adiada

Desde que no passado mês de Agosto o Parlamento da Catalunha aprovou uma proposta de lei intitulada Ley de Transitoriedad Jurídica y Fundacional de la República, que o movimento independentista catalão se mobilizou para o referendo marcado para o próximo dia 1 de Outubro. De acordo com esse texto, se o referendo vencer, nem que seja por um voto de diferença, o presidente do governo Carles Puigdemont fará uma declaração de independência unilateral, mas se isso vier a acontecer, não será mais que uma declaração simbólica, sem valor jurídico e sem qualquer credibilidade internacional
O que se tem passado na Catalunha no último mês tem sido uma escalada de tensão e de erros das duas partes em confronto. De um lado estão as autoridades independentistas catalãs que mobilizaram as suas forças para a rua em apoio do referendo e, do outro, estão as autoridades centrais de Madrid que exigiram a sua anulação, mas porque não foram obedecidas e com base na decisão do Tribunal Constitucional de Espanha, reagiram e tomaram medidas drásticas que já inviabilizaram a sua realização. A Catalunha está, portanto, politicamente dividida entre o movimento independentista e a sua fidelidade à Espanha das Autonomias mas, por agora, o independentismo sai derrotado pela forma populista e desastrada como Carles Puigdemont e a sua gente conduziram a luta. A opção independentista pode ter muito apoio nas ruas e nos sectores mais dinâmicos da sociedade catalã, mas não têm qualquer apoio no resto da Espanha que não quer ser desmembrada, nem na comunidade internacional que não quer ver catalunhas nos seus próprios países. É por isso que nenhum país europeu apoia a Catalunha porque, em maior ou menor grau, todos têm as suas próprias catalunhas na Escócia, na Flandres, na Córsega, na Sardenha e em tantos outras regiões americanas, russas ou chinesas.
Porém, a História ensina-nos que as aspirações independentistas catalãs não são diferentes dos sentimentos portugueses que triunfaram em 1640, embora a mesma História tenha traçado destinos diferentes às duas nações. Significa que as autoridades catalãs têm a legitimidade democrática para lutar pela independência da Catalunha, mas também têm a obrigação de saber que nenhum poder central instalado em Madrid lhes facilitará a vida, pelo que essa sua aspiração exigirá tempo, paciência e muitas negociações, mas também a compreensão da comunidade internacional. O que está acontecer com o Brexit mostra que uma eventual separação exigiria negociações muito demoradas e complexas.
Os dirigentes do independentismo catalão deslumbraram-se e foram longe de mais. Não estudaram a conjuntura internacional e não tiveram aliados. Os catalães já começaram a rejeitar estes saltos no abismo conduzidos com motivações emocionais e por movimentos radicais, que podem ter efeitos devastadores para a economia e para a sociedade catalã. A aspiração independentista catalã vai provavelmente sair reforçada deste processo, mas vai exigir que no futuro seja conduzida por gente mais capaz que os Puigdemont e os Oriol Junqueras.
A independência da Catalunha vai ficar adiada, mas ninguém sabe por quanto tempo.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

O outro fantasma de Pyongyang

O jornalista brasileiro Renato Alves do diário Correio Braziliense conseguiu um visto especial para visitar a Coreia do Norte durante dez dias e, apesar da vigilância a que esteve sujeito pelo regime de Kim Jong-un, conseguiu recolher mais de 500 fotografias, dezenas de curtos vídeos e muitas histórias.
No passado dia 3 de Setembro, data em que se realizou o sexto e, até então, mais potente teste nuclear norte-coreano, o jornalista estava em Pyongyang e sentiu a terra tremer debaixo dos seus pés.
A extensa reportagem dessa visita à Coreia do Norte começou a ser publicada no seu jornal com o título “Passaporte para o segredo” e ontem foi dedicada ao “fantasma de 105 andares” ou ao “ícone do desperdício” que existe em Pyongyang.
Trata-se de um arranha-céus inacabado que se situa no centro da cidade e que é impossível não ser visto com os seus 330 metros de altura. Seria ou é o Hotel Ryugyong, pensado como o maior hotel do mundo e como símbolo de modernidade de um país ambicioso e em ascensão.
A sua construção iniciou-se em 1987, mas nunca foi concluído devido aos mais diversos contratempos, desde a falta de financiamento até ao aparecimento de problemas estruturais. Em 2011 o governo norte-coreano decidiu concluir o exterior do enorme edifício em forma de pirâmide, com painéis de vidro e antenas de telecomunicações, mas o seu interior continuou vazio. Trinta anos depois do início da sua construção, a fachada do Hotel Ryugyong está completa e com as janelas instaladas, mas o seu interior continua vazio, enquanto os seus 3 mil quartos continuam sem equipamentos e sem hóspedes. Caso tivesse sido concluído em 1989 seria o maior hotel do mundo, mas actualmente seria apenas o 47º mais alto e o quinto maior em número de quartos.
Em vez de Kim Jong-un e Donald Trump se ameaçarem constantemente, porque não chegam a um acordo para que a experiência hoteleira da Trump Organization, que opera a partir da Trump Tower em Manhattan, possa resolver o problema do Hotel Ryugyong? O Donald nunca escondeu que gosta de bons negócios e esta pode ser uma boa oportunidade para estender os seus interesses até à Coreia do Norte.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Estado do Curdistão vai ter de esperar

Está prevista para hoje a realização de um referendo sobre a independência no Curdistão iraquiano, mas paira sobre esta iniciativa uma grande apreensão, havendo muitos observadores que consideram que esta iniciativa pode dar origem a um agravamento ainda maior da situação naquela região do mundo.
O Curdistão é uma grande região do Médio Oriente, geográfica e culturalmente habitada pelo povo curdo, com uma área de cerca de 500 mil quilómetros quadrados e que se estende por vários países, estimando-se que existam cerca de 35 milhões de curdos, sobretudo na Turquia (18 milhões), no Irão (8 milhões), no Iraque (5 milhões), na Síria (2 milhões) e na diáspora curda (2 milhões). A ambição dos curdos para criar um Estado independente acentuou-se depois do fim da I Guerra Mundial, quando o Império Otomano foi derrotado e as potências vitoriosas redesenharam o mapa político do Médio Oriente, mas deixaram o povo curdo sem um Estado próprio. Essa ambição curda confronta-se com os interesses dos países que “ocupam” o seu território e, por isso, tem sido vítima da sua hostilidade, sobretudo na Turquia, onde cerca de um terço do seu território é habitado pelos curdos. No caso do Iraque, em que 20% da população é curda, a perseguição levada a efeito por Saddam Hussein foi brutal e foi um aviso que alertou a comunidade internacional para a necessidade de proteger o povo curdo.
Por isso, após as guerras do Golfo de 1991 e de 2003, o Curdistão iraquiano adquiriu um estatuto de autonomia que é único em todo o “território curdo”, que as autoridades de Bagdad foram “obrigadas” a aceitar. Agora, em nome dos direitos dos curdos, o Curdistão iraquiano mobilizou-se em torno do presidente Massoud Barzani que é o principal promotor do referendo, que só os curdos querem e que todos os “países ocupantes” rejeitam, ameaçando com represálias. Nada se espera deste referendo e o The New York Times até sugere que o cancelem para evitar males maiores, enquanto a ONU pediu que fosse cancelado.
O problema curdo só terá uma solução justa num quadro de negociações alargadas e complexas que ultrapasse as enormes rivalidades e as conflitualidades actuais dos “ocupantes”.

sábado, 23 de setembro de 2017

Os Antónios de Lisboa a brilhar na ONU

António Guterres e António Costa encontraram-se na sede das Nações Unidas durante o debate geral da 72ª sessão anual da Assembleia Geral que se iniciou no passado dia 19 de Setembro e o Diário de Notícias publicou na sua primeira página a fotografia destes dois políticos portugueses, ambos naturais de Lisboa e ambos com o mesmo nome.
António Costa é o Primeiro-ministro de Portugal desde o dia 26 de Novembro de 2015 e António Guterres é o Secretário-geral das Nações Unidas desde o dia 1 de Janeiro de 2017.
São ambos militantes do Partido Socialista desde há muitos anos e, entre 1995 e 2002, ambos participaram no XIII e no XIV Governos Constitucionais de Portugal que foram pesididos por António Guterres. Tal como sucede com todos os políticos, uns gostam e outros não gostam deles, embora ambos sejam credores do respeito dos seus concidadãos pelos serviços que já prestaram à democracia e ao serviço público em diversos cargos e funções nacionais e internacionais.
Os seus discursos nas Nações Unidas impressionaram e deixaram marcas. António Guterres apelou à paz, ao apoio aos refugiados e à negociação política como forma de resolução dos conflitos que preocupam o mundo. António Costa cumpriu com a tradicional reivindicação portuguesa junto das Nações Unidas, isto é, que o português seja declarado como uma das suas línguas oficiais e que o Brasil e a Índia tenham assento permanente no seu Conselho de Segurança.
A fotografia publicada pelo Diário de Notícias tem, por isso, um significado histórico para os portugueses porque regista o primeiro encontro de um Secretário-geral das Nações Unidas português com um Primeiro-ministro português. 

May recua e já pede adiamento do Brexit

Theresa May discursou ontem em Florença para anunciar aos seus ainda parceiros europeus os pontos de vista britânicos sobre o Brexit que deverá concretizar-se até ao dia 29 de Março de 2019, isto é, dois anos depois de ter sido accionado o famoso artigo 50 do Tratado de Lisboa que prevê de forma explícita a possibilidade de qualquer Estado-membro sair de forma voluntária e unilateral da União Europeia.
Portanto, nesse dia o Reino Unido deixará de ser membro da União Europeia.
Porém, as negociações não estão a ser fáceis e Theresa May deixou muitas coisas por esclarecer no seu discurso, embora tivesse sido clara num ponto: o Reino Unido precisa de um acordo comercial que permita que as empresas britânicas se adaptem às realidades dos seus novos mercados alternativos ao mercado único. Significa, portanto, que Theresa May recuou e pediu uma pausa de dois anos no Brexit, como titula The Guardian. O problema e as dificuldades são enormes, porque não é nada fácil retirar o Reino Unido da União Europeia e, simultaneamente, permitir-lhe que permaneça no mercado único e na União Aduaneira, aceitando também que os britânicos que residem por essa Europa fora mantenham o estatuto comunitário e não passem a ser estrangeiros.
O discurso de May também esclareceu muito pouco, quer em relação a outros aspectos da negociação do Brexit, quer em relação à natureza do futuro relacionamento britânico com a União Europeia.
Relativamente ao Brexit, aceitou que o Reino Unido deva pagar uma indemnização à União Europeia devido a compromissos assumidos no passado, mas a dúvida permanece quanto ao futuro dos três milhões de europeus que vivem e trabalham no Reino Unido. Quanto ao futuro pós-Brexit, Theresa May sublinhou a vontade britânica em manter uma cooperação muito próxima com a União Europeia nas áreas da segurança interna e da política externa e da defesa, pois reconhece que britânicos e europeus enfrentam ameaças comuns, como o terrorismo e a instabilidade geopolítica nas regiões fronteiras da Europa.
A resolução desta complexa equação é muito difícil e há cada vez mais gente a duvidar quanto à exequabilidade deste divórcio, até porque no referendo de Junho de 2016 o Brexit ganhou apenas com 51,89%, enquanto a Escócia e a Irlanda do Norte votaram contra, o que significa que também existe uma grande dificuldade política interna. E há as fronteiras com a Irlanda e com a Espanha em Gibraltar...

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Macau organiza o Festival da Lusofonia

Embora se realize entre os dias 20 e 22 de Outubro e, portanto, ainda falte um mês para a sua realização, o Festival da Lusofonia de Macau já hoje é destacado pelo jornal Tribuna de Macau, que salienta que o mesmo vai ter edição reforçada este ano. Será a 20ª edição de uma iniciativa que tem tido grande sucesso, que se tem realizado em Outubro de cada ano e que envolve gente de várias origens geográficas que têm em comum a língua portuguesa.
A primeira edição do Festival da Lusofonia de Macau aconteceu em 1998, quando o território ainda estava sob administração portuguesa, tendo sido integrado no programa de actividades comemorativas do 10 de Junho, isto é, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, com o objectivo de homenagear as comunidades lusófonas residentes em Macau pelo seu contributo para o desenvolvimento do território. O sucesso foi grande e as autoridades chinesas apreciaram-na, pelo que a iniciativa continuou depois do dia 20 de Dezembro de 1999, quando cessou a administração portuguesa e Macau se tornou a Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China.
Ao longo das 19 edições já realizadas, o Festival da Lusofonia tornou-se uma das grandes festividades anuais do calendário cultural macaense, sendo reconhecido como um factor de promoção turística pelo seu contributo para a oferta e para a diversidade cultural do território, ao atrair a participação de muitos residentes de Macau, de naturais dos países de língua portuguesa, de Hong Kong e de outras regiões da China.
Embora o programa do 20º Festival da Lusofonia ainda não tenha sido divulgado pelo Instituto Cultural de Macau, que é a instituição que organiza o evento, a Casa o Brasil em Macau já prepara a sua participação que este ano será essencialmente um tributo à poesia brasileira. Espera-se agora o anúncio das iniciativas que serão apresentadas por portugueses, angolanos, moçambicanos, cabo-verdeanos, timorenses, guineenses, são-tomenses e outros falantes de português.

Angola e a memória do Cuito Cuanavale

A poucos dias de deixar a presidência de Angola, José Eduardo dos Santos inaugurou ontem o Memorial à Vitória do Cuito Cuanavale, um monumento que vai ficar a assinalar o maior confronto militar da guerra civil angolana e a homenagear os protagonistas dessa batalha que acabou por decidir o futuro da guerra e por influenciar o fim do regime do apartheid sul-africano e a independência da Namíbia.
O Jornal de Angola dedica toda a sua primeira página à inauguração deste monumento localizado exactamente no Cuito Cuanavale, que coincide com as homenagens que têm sido prestadas a Agostinho Neto, considerado o fundador da República e pai da Independência angolana.
Nessa batalha que ocorreu no sul de Angola entre 15 de Novembro de 1987 e 23 de Março de 1988, considerada a maior batalha travada em África por dois exércitos regulares desde a segunda guerra mundial, confrontaram-se o exército angolano (FAPLA) e as Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FAR), assessorados por conselheiros militares da antiga União Soviética e, do outro lado, as forças da UNITA e o poderoso exército sul-africano. Embora a vitória tivesse sido reivindicada por ambas as partes, o facto é que esta dura batalha conduziu à assinatura dos Acordos de Nova Iorque, que levaram à retirada de tropas estrangeiras do território angolano, à independência da Namíbia, à libertação de Nelson Mandela e ao fim do apartheid na África do Sul.
O monumento ontem inaugurado tem uma concepção desajustada das correntes escultóricas mais modernas, mas tem um simbolismo histórico muito importante para Angola, pois enriquece o lugar de reflexão e memória que são os 3,5 hectares de extensão da praça memorial onde se encontram outros monumentos e "eterniza" a memória dessa grande epopeia militar angolana. Assim, Angola alimenta as memórias que fazem a sua História.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Até o Donald elogia António Guterres

Todos nos lembramos do dia 6 de Outubro de 2016, quando o Conselho de Segurança das Nações Unidas votou por unanimidade e aclamação a resolução que recomendou à Assembleia Geral a designação de António Guterres como o 9º secretário-geral das Nações Unidas, cargo que vem exercendo, num mandato de cinco anos, desde o dia 1 de Janeiro de 2017. Guterres está no cargo há pouco mais de oito meses e a sua acção tem sido marcada pela discrição, pelo que não tem sido alvo de críticas, nem de elogios significativos.
A lista de conflitos e de problemas com que o mundo se confronta é muito extensa, indo desde a guerra na Síria aos milhões de refugiados que fogem da guerra ou da fome, passando pelas atitudes bélicas da Coreia do Norte, as alterações climáticas e a implementação dos acordos de Paris, a instabilidade política na Venezuela ou a perseguição às minorias rohingya do Myanmar que têm procurado refúgio no Bangladesh. Imaginamos António Guterres preocupado e a trabalhar em todas estas áreas com a determinação e a inteligência que o mundo lhe reconheceu quando lhe atribuiu este cargo, mas nestes casos é necessária uma acção persistente e não se podem esperar resultados imediatos.
Ontem, Guterres encontrou-se com Donald Trump numa sessão das Nações Unidas em Nova Iorque. O Donald foi muito crítico em relação à “burocracia e má gestão” das Nações Unidas que desde o ano de 2000, segundo afirmou, aumentou o seu orçamento em 140% e duplicou os seus custos com pessoal. Depois, tendo António Guterres sentado à sua direita, disse: “Mas sei que isso está a mudar com o secretário-geral — e está a mudar rápido”, acrescentando que “encorajamos o secretário-geral a usar plenamente a sua autoridade para cortar a burocracia, reformar sistemas antiquados e tomar decisões firmes”.
A imprensa americana destacou o discurso do Donald nas Nações Unidas e o The New York Times salientou o seu elogio a Guterres: "He praised Secretary General António Guterres for tackling mismanagement and bureaucracy”.
“You have been fantastic” foi o que Trump disse a Guterres na abertura da reunião, acrescentando “I applaud the secretary general for laying out a vision to reform the United Nations so that it better serves the people we all represente".
Porém, não é caso para admirar porque no programa da sua candidatura, Guterres inscrevera a reforma das Nações Unidas como uma prioridade. É o que parece estar a fazer.