terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O investimento chinês alastra no mundo

No mesmo dia em que foi anunciada a venda do BESI (Banco Espírito Santo de Investimento) aos chineses do Grupo Haitong por 379 milhões de euros, também o governo francês anunciava a venda de 49,99% do aeroporto de Toulouse-Blagnac a um consórcio chinês por 308 milhões de euros.
Estes dois factos foram conhecidos alguns dias depois da última edição do Courrier international que dedica grande parte da sua edição à China e à sua estratégia de “conquista do mundo”, com especial enfâse na “nova rota da seda” (a linha ferroviária Duisburg-Chongqing) e nas ambições económicas e diplomáticas chinesas.
O assunto não é novo. Um estudo da Heritage Foundation que foi divulgado pela BBC Business (13-10-2013) já concluira que a China era o maior investidor mundial e quantificara o investimento chinês no mundo que, entre 2005 e Junho de 2013, atingiu um montante de 688 mil milhões de euros, distribuidos por quase todo o mundo e, sobretudo, pelos sectores da energia, metalomecânica, transportes, imobiliário e finança. Na relação dos países de destino desse investimento aparecem a Austrália (58,2 mil milhões de euros), os Estados Unidos (57,6), o Canadá (37,6), o Brasil (28,2), a Indonésia (25,9), o Irão (18,6), a Nigéria (18,5) e o Reino Unido (17,8), entre outros. No que respeita à Europa, o investimento chinês dirigiu-se para o referido Reino Unido (17,8 mil milhões de euros), França (9,2), Suiça (8,2), Grécia (6,6), Turquia (6,4), Alemanha (4,9) e Portugal (4,1), entre outros.
Assim, verifica-se que Portugal é o sétimo país europeu que mais investimento chinês recebeu e que esse investimento representa apenas 0,5 % do total, tendo sido orientado sobretudo para as privatizações da EDP, da REN e da Fidelidade, em operações que renderam 4114 milhões de euros ao Estado.
Portanto, embora não parecendo, a influência chinesa na Europa não se sente apenas em Portugal.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A Europa reage e começa a manifestar-se

Um pouco por toda a Europa, sobretudo no sul, estão a crescer os movimentos de contestação ao modelo de intervenção político-económica que tem sido imposto aos Estados-membros por Bruxelas (ou por Berlim), em nome das reformas estruturais do Estado e do sector público, da redução dos défices e da estabilização financeira. O problema é muito complexo e tem características específicas em cada país, embora o traço comum dessa intervenção sejam as políticas de austeridade, mais a arrogância de quem as impõe e o maior ou menor servilismo e insensibilidade social de quem as aceita. Nas últimas horas, os jornais noticiaram que a chanceler alemã quer que Paris e Roma introduzam mais reformas para reduzir o défice público e lancem novas reformas estruturais para apoiar as suas economias. Isso mesmo está referido na primeira página da edição de hoje do jornal DNA – Dernières Nouvelles d’Alsace que se publica em Strasbourg, que anuncia que “Merkel rappelle la France et l’Italie à l’ordre”. Esta declaração evidencia a arrogância dos mais fortes perante os mais fracos. As populações reagem, porque não compreendem nem aceitam os sacrifícios que lhe são impostos pelos especuladores da finança internacional e pelos seus aliados. Essa reacção nasce de pretextos diversos e tem características diversas. Na Grécia, na Itália e, até na Bélgica, tem gerado manifestações muito violentas contra a austeridade, que as televisões nos têm mostrado. Na Espanha tem servido para alimentar o independentismo catalão. Na França, onde se tem procurado fazer uma reforma das regiões (em nome da redução da despesa pública), estão a aparecer movimentos de contestação e de recusa do centralismo, desde a Bretanha à Alsácia. Hoje, no mesmo jornal de Strasbourg, a primeira página exibe uma fotografia de uma manisfestação em Mulhouse em que é exibido um cartaz com a seguinte mensagem: “Paris, nous n’avons pas besoin de toi”.
Não há dúvidas: a Europa anda muito desorientada!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A arte grega em viagem para a Rússia

Uma das mais valiosas estátuas gregas que se encontram no British Museum foi emprestada à Rússia para ser exposta no State Hermitage Museum em São Petersburgo, por ocasião da celebração do seu 250º aniversário, aí permanecendo até ao dia 18 de Janeiro. A estátua que representa um homem deitado e sem cabeça que simboliza Ilissos, o deus dos ríos, será a peça central de uma exposição de antiguidades que, mesmo antes de ser revelada ao público, já é considerada excepcional.
Essa estátua foi retirada do Parténon em 1806 por Thomas Bruce, Lord Elgin, que então era o embaixador britânico junto do Império Otomano que na época dominava a península grega. Graças às suas boas relações com o sultão, Lord Elgin foi autorizado a remover do Parténon e levar para Londres muitos dos seus mármores. Esse conjunto é conhecido como “mármores Elgin” ou “colecção Elgin” e é a primeira vez que uma das suas peças sai do território britânico. 
Segundo a edição de hoje do jornal londrino The Times, que destacou este assunto na sua primeira página, o primeiro-ministro grego Antonis Samaras reagiu “with fury to news that the British Museum has loaned part of the Elgin Marbles to Russia, describing it as un affront to the Greek people”. A partir de 1983, pela voz da Ministra da Cultura Melina Mercouri, a Grécia passou a reivindicar a devolução da colecção Elgin mas as autoridades britânicas sempre argumentaram que as estátuas não deviam ser removidas do local onde se encontravam, o que agora se viu não era um argumento válido. Para tratar da devolução da colecção Elgin, o governo contratou a advogada Amal Alamuddin que recentemente se casou com o actor americano George Clooney.
Este caso assemelha-se a muitas outras situações de “pilhagem de bens culturais”, feitos pelos países europeus um pouco por todo o mundo, mas também nos recorda que muito do nosso património cultural móvel foi pilhado pelos espanhóis entre 1580 e 1640, pelos franceses durante as invasões napoleónicas e, sempre, por alguns portugueses.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Um cavalo de Tróia do fundamentalismo?

 
Alguns dos meus amigos cultivam o yoga e, para além de elogiarem a sua prática e os benefícios que dele recebem, recomendam-no vivamente. O yoga faz parte das suas vidas e dos seus rituais, ocupando uma parte das suas agendas e prevalecendo sobre quaisquer outras das suas actividades sociais ou culturais.
O yoga é uma filosofia que tem a sua origem milenar na Índia e inspira-se no budismo e no hinduismo. Trabalha simultaneamente o corpo e a mente e, segundo os especialistas, assegura o fortalecimento do corpo, o desenvolvimento da flexibilidade, o relaxamento psíquico e a  tranquilidade mental. Na Índia o yoga também é uma cultura nacional e, nesse sentido, o novo governo indiano de Narendra Modi decidiu criar o Ministério do Yoga, cujo titular é o senhor Shripad Yesso Naik, com o objectivo de o relançar e promover por todo o país, não só para o reforço de um sentimento de identidade nacional e para benefício da população, mas também para a sua afirmação como um produto indiano que chega a todo o mundo. Porém, a criação de um Ministério com estes únicos objectivos parece esconder alguma coisa.  
Acontece que The Washington Post, o jornal que é reconhecido como um dos mais influentes do mundo, decidiu trazer o yoga e a designação de um Ministro do Yoga para a sua primeira página e esse facto não é nada irrelevante. De facto, estamos perante uma decisão que, para além dos seus aspectos culturais, tem evidentes contornos políticos. O 1º Ministro Narendra Modi é membro do BJP - Bharativa Janata Party, um partido nacionalista hindu que ganhou as eleições em Maio de 2014. Nunca um só partido obtivera uma maioria absoluta na Índia e esta decisão sobre o yoga já é uma consequência desse resultado. A fotografia que ilustra a notícia do The Washington Post mostra uma multidão de crianças a praticar yoga e evoca-nos o movimento ultranacionalista e paramilitar RSS, aliado do BJP, fomentador da violência e defensor do hinduismo como única religião, o que significa a exclusão de todas as outras religiões da Índia (muçulmanos, cristãos, sikhs). Assim, o yoga poderá estar a ser o cavalo de Tróia de um certo fundamentalismo hindu que visa apagar as políticas seculares e democráticas das eras de Ghandi e de Nehru. E Goa ali tão perto...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A jihad líbia já ameaça o sul da Europa

A notícia já aparecera em alguns meios de comunicação internacionais, caso da CNN, onde num texto inserto na sua website, se escreveu:
“A bandeira negra do ISIS está hasteada nos edifícios governamentais. Os carros da polícia já exibem o logotipo do ISIS. O estádio de futebol da cidade está a ser usado para execuções públicas. Uma cidade na Síria ou no Iraque? Não. É uma cidade na costa mediterrânica, na Líbia”.
Cerca de três anos depois da queda do coronel Muammar Kadaffi, a Líbia vive num caos político e parece estar cada vez mais ingovernável, com diversas forças militarizadas a actuar no terreno, entre as quais as forças jihadistas inspiradas no ISIS. Essas forças receberam o reforço de centenas de jihadistas líbios que combatiam na Síria e no Iraque, tendo ocupado Derna, uma cidade com cem mil habitantes, situada na costa do Mediterrâneo, próximo da fronteira com o Egipto.
Hoje a cidade de Derna assemelha-se a Raqqa, a cidade síria onde o ISIS tem o seu quartel-general, constituindo já a sua testa-de-ponte para estender o seu califado até ao Egipto e à Líbia. O ISIS é uma séria ameaça para a Líbia e já estão referenciados núcleos jihadistas líbios nas cidades costeiras de Tobruk, Benghazi, Misrata e Tripoli.
Tudo isto se passa bem próximo das costas europeias da Grécia e da Itália. Hoje, o Corriere Della Sera destaca em primeira página a situação líbia com uma fotografia das forças da jihad líbia e uma esclarecedora legenda: “nel califato libico davanti a noi”. Não é necessário saber italiano para traduzir aquela frase a avisar que há um califado líbio às portas da Itália.
A respeito do que se passa na Síria e agora na Líbia, o senador americano Rand Paul chamou à guerra da Líbia a “Hillary’s war”, considerando que foi a destabilização provocada pelo envolvimento americano nas guerras contra Bashar al-Assad e Muammar Kadaffi que abriu as portas ao ISIS.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A corrupção espanhola e a imprensa lusa

A corrupção está a mobilizar o aparelho judicial e a dominar o debate político em Espanha. “Cerco a la corrupcion”, titula hoje o diário ABC. Actualmente, há quase dois milhares de espanhóis constituídos arguidos em diversos processos de corrupção, entre os quais se incluem antigos e actuais ministros, banqueiros, autarcas, o ex-presidente do FMI Rodrigo Rato, o filho do ex-presidente catalão Jordi Pujol e até a infanta Cristina, irmã do rei. Para os espanhóis, a corrupção é, depois do desemprego, o maior problema nacional e, só no passado mês de Outubro, enquanto decorriam mais de 1700 investigações judiciais dirigidas a cinco centenas de dirigentes políticos, foram constituídos mais 141 arguidos. Além de agentes políticos e de dirigentes da administração pública, as investigações em curso visam empresários, advogados, sindicalistas e outros cidadãos.
Em Março de 2009 a prestigiada revista The Economist publicou um artigo intitulado Why is Spain so corrupt? e o seu autor interrogava-se quanto às razões porque países como a Espanha, França, Itália ou Portugal tinham tão elevados níveis de corrupção,  afirmando que se tratava de um problema cultural do sul da Europa.
Portanto, a corrupção não é apenas um problema espanhol.
Em Portugal também há corrupção, mas o seu combate não tem tido a mesma intensidade do que acontece na vizinha Espanha, mas em contrapartida esse combate está muito mais influenciado pelo comportamento sensacionalista e irresponsável de alguma comunicação social. Enquanto em Espanha o segredo de justiça é respeitado, em Portugal reina a impunidade em relação às continuadas e criminosas violações do segredo de justiça e, mesmo quando apenas há suspeitas ou se está sob investigação, a generalidade dos media aposta na presunção de culpabilidade dos cidadãos e contribui para a sua condenação pela opinião pública, quando ainda nem sequer estão acusados. Ora isso não devia acontecer porque nos afasta da verdade e da justiça.
A título de curiosidade, no Corruption Perceptions Index 2013 divulgado pela Transparency International encontramos a França (22º), Portugal (33º), Espanha (40º), Itália (69º) e a Grécia (80º). Entre os 28 países membros da União Europeia, o nosso país ocupa a 13ª posição, o que significa que em termos de corrupção estamos melhor do que a média europeia, o que deve surpreender muitos dirigentes europeus.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

UNESCO classificou o cante alentejano

O cante alentejano acaba de ser inscrito pela UNESCO na Lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade e esse facto não pode deixar de ser devidamente assinalado. A decisão foi tomada por unanimidade na 9ª sessão do Comité Intergovernamental da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Humanidade que se realizou hoje em Paris e, assim, o cante alentejano juntou-se ao fado que havia sido classificado em 2011. Assim, nas listas da UNESCO encontram-se agora 17 bens portugueses: 14 bens culturais, um bem natural e 2 bens imateriais.
O cante alentejano é um género musical tradicional do Alentejo, cantado em grupo, em que se alternam as vozes de um ponto e de um coro, com um andamento lento e com muitas pausas, sendo muito repetitivo, o que também o torna muito monótono. É, seguramente, um dos traços mais interessantes da cultura popular alentejana, preservada em muitos domínios como a gastronomia, o artesanato e a própria arquitectura. Esta classificação veio dar uma maior dimensão cultural ao Alentejo, que já estava representado nas listas da UNESCO através do Centro Histórico de Évora (desde 1986) e da Cidade-Quartel Fronteiriça de Elvas e as suas Fortificações (desde 2012), mas que naturalmente aspira a que venham a ser classificados outros bens culturais, como Mértola e a sua herança árabe, mas também Marvão e Monsaraz como símbolos de cidades fortificadas, ou bens imateriais como as famosas festas das ruas floridas em Campo Maior ou no Redondo. Nestas condições, pela sua história e geografia, paisagem natural, diversidade cultural, monumentalidade arquitectónica e tradição gastronómica, o Alentejo é cada vez mais uma região a percorrer. Que viva o Alentejo!

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Temos um país gravemente doente

As notícias dos últimos dias são demasiado tristes e deixam-nos incrédulos. Desde há  demasiado tempo que se via que o nosso regime estava doente e se sabia que não era dirigido pelos melhores, mas pelos mais afoitos e mais atrevidos. A crise que nos tem afectado desde 2008 acentuou os sintomas dessa doença e deixou a descoberto coisas que não imaginávamos. Pouco a pouco, tudo vamos perdendo. Perdemos muitos direitos em nome do equilíbrio financeiro, perdemos as grandes empresas, perdemos o bom nome e, de degrau em degrau, até a dignidade nacional quase está perdida, sem que haja uma estratégia nacional para a regeneração do país. Perdemos a confiança nos políticos e nas suas intervenções manipuladoras. Perdemos a confiança nas instituições. Não reagimos. Tudo aceitamos com um conformismo quase absoluto. Como se costuma dizer, o país parece estar sem rumo.
Nas últimas semanas acentuaram-se os sinais de esgotamento do nosso modelo de sociedade com a persistência da crise, a incerteza quanto ao futuro, a falência do BES ou do GES, a perda da PT, a anunciada venda da TAP, o caso dos vistos dourados, a demissão de um bom ministro e, agora, a detenção de um ex-primeiro ministro. São demasiados casos. Parece um naufrágio ou um terramoto. Neste conjunto de muitos casos e peripécias, há suspeitas muito graves para a Justiça apreciar, mas tem havido verdadeiros julgamentos mediáticos antecipados e, em vez da presunção de inocência, tem imperado a presunção de culpabilidade em nome do sensacionalismo. Isso também é muito grave. Neste quadro, é difícil encontrar sinais mais tristes e mais angustiantes para definir a realidade que atravessamos. Independentemente da verdade ou da mentira e da absolvição ou da condenação de toda esta gente, são casos de enorme gravidade a alertar para a decadência da nossa sociedade e para a perda dos valores que deveriam nortear o interesse nacional e o bem comum da nossa comunidade. O país está gravemente doente. Dizem que a Justiça está a funcionar.  Não sei...
Apenas sei que, como diz a canção nacional: Tudo isto existe. Tudo isto é triste. Tudo isto é fado.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Os deputados podem ser tão insensatos?

Ontem, dois deputados que andam nestas coisas da política há muito tempo mas que ignoram o povo que os elegeu, decidiram apresentar uma proposta para que fossem repostos os subsídios vitalícios de que beneficiavam os ex-políticos. Esses subsídios vitalícios foram extintos em 2005 por proposta do Governo Sócrates, mas essa decisão  não teve efeitos retroactivos. Assim, havia ainda cerca de três ou quatro centenas de ex-políticos que em 2005 recebiam esse subsídio, mas que no ano passado foram cortados. A proposta  agora apresentada visava repor esses subsídios. Numa altura em que há cerca de 400 mil portugueses que não têm emprego nem recebem qualquer tipo de subsídio, em que perduram cortes de salários e pensões, em que suportamos a mais elevada carga fiscal da Europa e em que  já ninguém ignora que há muita pobreza e muita fome em Portugal, esta proposta é insensata, lamentável, irresponsável e até provocatória para os mais desfavorecidos. Os deputados que a apresentaram não merecem estar na Assembleia da República e era bom que se demitissem. Não merecem estar sentados naquelas cadeiras. São deputados de elevada toxicidade que podem infectar os deputados sérios. Apesar disso, a proposta foi votada e aprovada pelos deputados do PS e do PSD e hoje esse facto é tema de capa do Jornal de Notícias. Aqueles que ontem votaram favoravelmente a proposta, devem ter ido para casa envergonhados, com um enorme peso na consciência e com remorsos pelo triste papel que desempenharam.
Hoje foi afirmado que regressou o bom senso e os deputados retiraram a proposta. Então ontem não tiveram bom senso. Foram insensatos. Aqueles que ontem votaram contra, hoje aplaudiram a reviravolta, o que mostra que estes deputados servem para tudo. É uma enorme tristeza!
Este lamentável episódio serviu para revelar alguns deputados coerentes e consequentes, caso da deputada Mortágua, mas também serviu para mostrar a força da sociedade civil e a "revolta da opinião pública". Nesse aspecto, o Forum TSF e o seu editor Manuel Acácio foram decisivos na sensibilização dos seus ouvintes (e até dos próprios deputados) para o problema e trouxeram para a luz do dia a lamentável proposta feita pelos dois deputados que visava o restabelecimento das subvenções vitalícias.

O Papa Francisco pode acordar a Europa?

No próximo dia 25 de Novembro o Papa Francisco vai visitar o Parlamento Europeu em Estrasburgo e falar aos 751 deputados eleitos nos 28 Estados-membros, por convite do respectivo presidente Martin Schulz. É a segunda vez que um Papa visita o Parlamento Europeu, depois de João Paulo II ter feito idêntica visita em Outubro de 1988. Na véspera, dia 24 de Novembro de 2013, perfaz-se um ano sobre a data em que o Papa divulgou uma exortação apostólica que intitulou Evangelli Gaudium, mas como é uma 2ª feira e esse dia é reservado ao regresso dos senhores deputados que estiveram ausentes durante o fim de semana, a visita papal passou para o dia 25. De qualquer forma, é simbólico que esta visita aconteça um ano depois da exortação apostólica de 2013.
A visita é um acontecimento relevante, pois não se trata apenas da visita do Chefe do Estado do Vaticano, nem do Chefe da Cristandade, mas de um Homem que no seu curto pontificado já se tornou uma voz mundialmente respeitada pelas posições coerentes que tem assumido em relação à paz e à defesa dos mais desfavorecidos, ao meio ambiente, à justiça social, à fome, à pobreza, aos abusos sexuais, ao celibato dos padres e à participação das mulheres na Igreja. Algumas das suas ideias tornaram-se marcantes - “esta economia mata” ou “o dinheiro deve servir e não dominar” – e serão certamente repetidas em Estrasburgo para acordar a Europa e para inspirar os seus dirigentes que, cada vez mais, são vassalos do seu interesse pessoal e não zelam pela coesão económica e social do velho continente. A  Europa adormeceu nas margens de um rio de prosperidade que já não corre como antes, mas continua sem reagir e sem acordar. Vive dominada pela ganância de políticos medíocres e sem visão, está escravizada pelas instâncias financeiras, perdeu os ideais da unidade e da solidariedade, passa por tempos muito difíceis e ameaça desagregar-se.
“Será que o Papa pode acordar a Europa”, foi o título escolhido pelo semanário católico La Vie, para analisar a visita papal a Estrasburgo e, de facto, essa visita poderá contribuir para que a Europa acorde.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A batalha por Kobani é dura e incerta

 
A edição de hoje do International New York Times destaca com texto e imagem na sua primeira página, a guerra que se desenrola na cidade síria de Kobani e informa que aquela batalha “é um teste para todos os lados”, isto é, para as unidades de protecção popular curdas (YPG), para as forças do Estado Islâmico (Islamic State of Iraq and Syria ou ISIS) e, também, para as forças internacionais.
A ofensiva do ISIS sobre Kobani iniciou-se em 16 de Setembro e tem sido caracterizada pela sua extrema violência. A cidade foi praticamente abandonada pelos seus 60 mil habitantes que se refugiaram na Turquia, enquanto os combatentes curdos que são apoiados pela aviação americana ocupam uma parte da cidade e os jihadistas do ISIS ocupam a outra parte.
As notícias sobre os avanços e os recuos das duas partes em confronto são contraditórias e a batalha por Kobani tornou-se emblemática para todos. Para os curdos, a defesa da cidade é apoiada e incentivada pela sua diáspora e representa a afirmação do ideal de independência e um passo necessário para  a criação do Estado do Curdistão. Para o ISIS, a batalha por Kobani é um teste para a sua imagem de invencibilidade e um instrumento para o reforço das suas hostes, pelo que o seu líder tratou de mandar o seu melhor comandante e “ministro da defesa” para coordenar o assalto à cidade. Para além disso, esta batalha também é um teste para a coligação internacional formada para travar a ameaça islâmica, baseada numa estratégia que combina o poder aéreo americano com a acção das forças locais no terreno e, segundo refere o jornal, os Estados Unidos e os seus aliados lançaram mais bombas sobre Kobani do que sobre qualquer outro local da Síria.
Porém, a edição do International New York Times tem outro destaque na primeira página. Trata-se de uma notícia sobre um vídeo de propaganda do ISIS com 7 minutos de duração, que foi divulgado em França, no qual se apela aos muçulmanos franceses para fazerem a "guerra santa" e para se juntarem à jihad. Entre outros, as autoridades francesas conseguiram identificar um dos jihadistas: Michael dos Santos, um jovem de 22 anos de idade, nascido nos arredores de Paris que é filho de pais portugueses.

 

A Espanha e o firme combate à corrupção

Há cerca de duas semanas a Guardia Civil espanhola deteve 51 pessoas suspeitas de corrupção durante uma operação realizada em vários municípios, por alegadas adjudicações públicas no montante de muitos milhões de euros que terão envolvido esquemas fraudulentos de comissões. Nesse grupo de detidos encontram-se figuras da política nacional e local, mas também alguns empresários ligados sobretudo a empresas de construção civil. A Espanha indignou-se com esta notícia e manifestou-se perante aquilo a que os jornais e alguns dirigentes partidários chamaram uma vergonha.
Talvez a forte repulsa popular tivesse acordado a justiça espanhola, porque a imprensa galega anuncia hoje que a juíza Maria Jesús García determinou a detenção de 23 pessoas por tráfico de influências e prática de subornos, as quais se juntam a outras sete que já estavam detidas na Galiza. O jornal Faro de Vigo destaca na sua primeira página a operação Zeta, para combate à fraude nas ajudas aos cursos de formação para desempregados, que levou àquelas detenções, em que se incluem cinco altos funcionários do governo galego. A notícia identifica os detidos e descreve com algum detalhe as situações fraudulentas em que estiveram envolvidos.  
Estas acções mostram como a justiça espanhola procura defender o Estado e a sociedade, actuando sobre a ilegalidade, a fraude e a corrupção. Naturalmente, nós que no nosso quotidiano “vemos, ouvimos e lemos”, como dizia Sophia, não podemos ignorar a forma distraida e permissiva, eventualmente cúmplice, como as autoridades responsáveis encaram o estado da nação, a degradação das instituições e não zelam pelo bem comum.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Os nossos preocupantes labirintos

Nos últimos dias tem-se falado muito de labirintos, não exactamente naqueles espaços em que se entra com facilidade mas em que é difícil encontrar a saída, mas nos outros labirintos, aqueles que existem na nossa sociedade, sobretudo no Estado, em que se instalaram e movimentam certos interesses que actuam em rede e minam a coesão social e a confiança dos cidadãos. Esses labirintos também estão disseminados na sociedade civil, especialmente no meio empresarial.
O nosso país está cheio de labirintos. A política é a grande inspiradora e a base de recrutamento daqueles que neles se movem e que neles alimentam as suas ambições e interesses pessoais. Entram nos esquemas labirínticos desde a sua tenra juventude e ocupam os espaços e os caminhos, sem outros ideais que não sejam o de se servirem. O seu sucesso é egoista e é sempre o insucesso do outro. Eles associam-se, articulam-se em redes e, sobretudo, vivem à margem do país real e em grande impunidade. Muitos deles, a coberto da sua militância partidária, chegam a deputados da nação numa idade em que seria mais recomendável que estudassem e trabalhassem. Alguns entram nas sociedades de advogados e em empresas e organizações já constituídas, mas outros criam as suas próprias empresas para apoio às suas negociatas, assessorias, consultorias e outras fantasias. São facilitadores de negócios e, em princípio, podem abrir todas as portas. Formalmente cumprem a lei, mas vivem no submundo do interesse pessoal ou de grupo, do favorzinho, da cunha, da comissão, da avença, da sabujice e da influência. Não têm vergonha nenhuma. Andam deslumbrados com o poder que acumularam e aparecem na televisão a falar de tudo, enquanto o país continua à deriva.
Alguns multiplicam os seus poderes e dispersam-se por interesses variados que também são um labirinto e, nesse aspecto, destacam-se os machetes e os vitorinos, os proenças de carvalho, os aguiares brancos e os lobos xavieres que, dotados não sei de que competências,  têm assento em inúmeras empresas de onde naturalmente comandam isto tudo.
Um dos labirintos da nossa sociedade parece estar agora em implosão. Não sabemos o que se passou, mas quando assistimos a que altas figuras do Estado sejam constituídas como arguidos no chamado processo dos vistos gold, por corrupção, peculato e tráfico de influências, não podemos deixar de ficar preocupados com a vulnerabilidade do Estado e com os labirintos de toda a espécie por aí circulam às claras. Disse o Papa Francisco que “este capitalismo mata”, mas por analogia podemos dizer que “estes labirintos matam”.

sábado, 15 de novembro de 2014

As jóias da expansão expostas em Lisboa

 
O Museu do Oriente inaugurou a exposição  ‘Jóias da Carreira da Índia’, que exibe cerca de duas centenas de peças, na sua maioria de ouro e prata, trabalhadas e enriquecidas com gemas, pérolas, marfins e esmaltes de cores exuberantes, que foram produzidas em diferentes lugares do Oriente e trazidas para o Reino a bordo das naus da Carreira da Índia. Esta carreira fazia a ligação anual entre Lisboa e Goa, embora por vezes também se dirigisse a outros destinos como Cochim, Baçaim ou mesmo Malaca, tendo entrado na História pelo seu pioneirismo náutico e pelo seu impacto no encontro cultural e económico entre o Ocidente e o Oriente. A viagem começou a ser estabelecida em finais do século XV e manteve-se ao longo dos tempos, até ao aparecimento da navegação a vapor e à abertura do canal do Suez. Cada uma destas viagens demorava cerca de 6 a 8 meses. Na viagem de ida, as naus levavam soldados, religiosos, mercadores e aventureiros, mas na viagem de regresso, ou torna-viagem, traziam a pimenta da costa do Malabar, a canela do Ceilão e o cravo das Molucas.
Porém, enquanto o negócio das especiarias era reservado em exclusivo ao rei de Portugal, muitas outras mercadorias e objectos raros como as peças de joalharia, “cabiam no bolso de qualquer viajante”. Essas preciosidades da joalharia oriental – colares, pendentes, pulseiras, adagas, taças, caixas e outros objectos – alimentavam a cobiça de muitos indivíduos que as adquiriam para fruição pessoal ou para serem vendidas em Portugal e na Europa.  
A exposição é uma bela lição de História da Expansão Portuguesa, sendo apoiada por um excelente catálogo. Pode ser vista até ao dia 26 de Abril de 2015 e constitui um documento de grande interesse histórico e estético que junta peças de diversas origens, muitas delas nunca antes expostas.  

Um grande quebra-cabeças para a França

A edição de hoje do jornal Le Télégramme que se publica em Lorient, na Bretanha, apresenta como tema de fundo o caso dos dois BPC da classe Mistral (Navio de Projecção e Comando) ou LHD (Landing Helicopter Dock, segundo a designação NATO), que foram encomendados pela Rússia aos estaleiros de Saint-Nazaire.
Estes navios têm um deslocamento de 21.300 toneladas, 199 metros de comprimento, 32 metros de largura, uma guarnição de 160 pessoas e podem transportar uma força de intervenção de 450 militares e 16 helicópteros. Podem acolher 650 refugiados e dispõem de um hospital. A Marinha francesa dispõe ou vai dispor de 4 unidades desta classe e, em face da sua capacidade operacional, em Junho de 2011 a Rússia fez uma encomenda de duas unidades, através de um contrato no valor de 1,2 mil milhões de euros. Embora os navios sejam entregues com todos os equipamentos de navegação, incluindo os sistemas de navegação de combate, todo o armamento será russo, inclusive rampas de lançamento de mísseis de cruzeiro e sistemas de defesa anti-míssil, anti-aérea e anti-submarina. A primeira unidade – o Vladivostok - está pronto para ser entregue e a segunda unidade - o Sébastopol - deverá estar pronto em 2015.
Porém, aconteceu a crise na Ucrânia e sucederam-se as sanções económicas à Rússia determinadas pela NATO e pela União Europeia. A entrega do Vladivostok foi suspensa e a construção do Sébastopol desacelerou, pelo que paira uma ameaça sobre os trabalhadores do estaleiro e sobre os seus inúmeros fornecedores e subcontratados. Trata-se de uma situação a lembrar-nos Viana do Castelo, os ENVC e o caso Atlântida, mas de muito maior dimensão.
As autoridades russas, que pagaram uma parte substancial do contrato por antecipação, estão a pressionar a França  e a fazer-lhe um quase ultimato para que cumpra os seus compromissos contratuais e faça a entrega dos navios, ameaçando-a com um pedido de indemnização de elevado montante, mas também existe a pressão dos falcões para que a França cumpra as sanções impostas à Rússia.  Assim, diz o jornal, uma quebra do compromisso francês será uma catástrofe financeira, mas também uma catástrofe para a imagem da indústria francesa do armamento. É um enorme quebra-cabeças (mais um) para François Holland.