segunda-feira, 11 de março de 2013

Resistência Galega

Numa altura de grandes dificuldades económicas e sociais, a Espanha defronta-se também com sérias intenções independentistas no País Basco e na Catalunha, mas também na Galiza, embora neste caso se trate de uma reivindicação quase simbólica, mas que não deixa de se mostrar activa. Assim, a imprensa galega noticiava hoje que a Resistência Galega realizou mais um atentado bombista e o diário Atlántico, que se publica em Vigo, destacava na sua primeira página o “nuevo atentado de Resistência Galega a un banco en O Rosal”.
A Resistência Galega agrega diferentes grupos organizados no quadro da luta pela independência da Galiza e, em 2005, publicou um “Manifesto pola resistência galega”, passando a levar a efeito acções bombistas contra entidades bancárias e partidos políticos espanhóis. A primeira dessas acções aconteceu no dia 23 de Julho de 2005 e foi dirigida contra uma agência bancária em Santiago de Compostela, na véspera do Dia Nacional da Galiza. Desde então, a Resistência Galega efectuou cerca de três dezenas de acções armadas, das quais só resultaram danos materiais. As forças de segurança espanholas consideram que os independentistas actuam a partir de três células activas, baseadas em Santiago de Compostela e Vigo, mas também de uma terceira célula localizada, eventualmente, no norte de Portugal.
Em Outubro de 2010, o Tribunal Supremo espanhol designou a "Resistência Galega" como um "grupo terrorista", comparando-o com outras organizações armadas que actuam em Espanha, como por exemplo a ETA. Não são fáceis os tempos nem os ventos que sopram em Espanha.

domingo, 10 de março de 2013

Que mais nos irá acontecer?

O nosso primeiro afirmou em campanha eleitoral que fez as contas e que estava em condições de garantir que não seria preciso cortar salários nem fazer despedimentos para consolidar as nossas finanças públicas. Era a voz da arrogância. Disse, então, que tudo foi vasculhado para haver contas bem feitas e que a sua gente procurou estimar, preferindo fazê-lo mais por excesso do que por defeito. Anunciou que iria mais longe do que a troika. Era a teoria do corte das gorduras que o amigo catroga todos os dias anunciava por megafone televisivo e que uma legião de relvas, moedas, borges e nogueiras aplaudia. Porém, os homens da bandeirinha na lapela não tinham estudado a lição, não conheciam o país, deslumbraram-se com o poder e nem perceberam que as coisas eram bem mais complexas do que pensavam. Depressa esqueceram programas e promessas e passaram a fazer o contrário do que anunciaram e prometeram. Os resultados são desastrosos. Afundaram a nossa economia. Levaram o desemprego para níveis insuportáveis. Aumentaram a dívida pública. Não reduziram o défice. Aumentaram impostos. Cortaram salários e pensões. Empobreceram o país. Estimularam a emigração. Roubaram-nos a confiança. Humilham-nos todos os dias.
Agora, cegos e surdos, insistem na mesma receita, querem ainda mais austeridade e preparam-se para cortar nas despesas sociais e nas funções de soberania. E querem mais cortes nas pensões de quem descontou toda a vida e confiou no sistema. São uns fundamentalistas obcecados e nem sequer obedecem aos seus colegas da troika porque, em boa verdade, eles são a troika. Estão a levar-nos para um desastre e a destruir a identidade e o orgulho nacionais. Que mais nos irá acontecer?

quinta-feira, 7 de março de 2013

Vodafone Red

Hoje, estranhamente, os principais jornais portugueses – generalistas, económicos e desportivos – apareceram nas bancas totalmente coloridos de vermelho. A dúvida assaltou-me. Seria uma forma de solidariedade para com a Venezuela e uma homenagem ao Presidente Hugo Chavez? Seria um apoio ao Benfica para o seu jogo desta noite com o Bordéus para a Liga Europa? Não podia ser nenhuma destas coisas. Só poderia ser uma qualquer mensagem publicitária induzida. Lembrei-me, então, que desde há dois dias, havia alguns outdoors a anunciar um novo pacote de serviços da Vodafone – o Vodafone Red.
O vermelho dos jornais cumpriu os dois primeiros passos do processo de comunicação publicitária - chamar a atenção e despertar o interesse. Depois, suscitou-me o desejo de conhecer o conteúdo da mensagem induzida no vermelho da capa dos jornais. Verifiquei, então, que a Vodafone decidiu responder à ofensiva recentemente lançada pela PT através da marca Meo, juntando  no mesmo pacote os serviços de internet, telemóvel, telefone fixo e televisão, com um tarifário atraente e competitivo, que pode levar à experimentação/aquisição do novo serviço. O vermelho serviu, portanto, os quatro pilares essenciais da comunicação publicitária: atenção, interesse, desejo e aquisição. 
Não sei se o Vodafone Red é melhor ou pior que a PT, mas ambas estão a lutar por um lugar no mercado das telecomunicações e a antecipar-se à anunciada fusão entre a Zon e a Optimus, que deverá estar concluída no Verão. A concorrência é assim e os consumidores é que ganham. É pena que este tipo de guerra não chegue à banca e aos combustíveis onde,  por vezes, a cartelização parece evidente.

Hugo Chávez, um amigo de Portugal

A morte de Hugo Chávez, o Presidente da República Bolivariana da Venezuela, era esperada mas nem por isso deixou de ser notícia na imprensa mundial.
Chavez foi eleito em 1998 e foi sucessivamente reeleito para a Presidência da República em todas as votações, a última das quais sucedeu em Outubro de 2012, tendo-se destacado internamente pelas suas políticas de inclusão social, de combate à pobreza e de cooperação no quadro latino-americano e, internacionalmente, pelo seu anti-americanismo e anti-capitalismo.
A Venezuela é um país em que vivem cerca de meio milhão de portugueses e em que se estima haver um milhão e meio de luso-descendentes (cerca de 5% da população), pelo que as relações bilaterais luso-venezuelanas são muito importantes. Hugo Chávez sempre expressou simpatia pela comunidade portuguesa e empenhou-se pessoalmente no desenvolvimento das relações económicas entre os dois países, tendo visitado Portugal por quatro vezes durante os seus doze anos de mandato. Daí resultou um enorme incremento das relações económicas entre os dois países e uma balança comercial muito favorável a Portugal. Hoje a Venezuela é o 19º mercado português e é o quinto mercado mais importante fora da União Europeia, tendo as exportações de bens e serviços aumentado 65,8% em 2012 e atingido mais de 500 milhões de euros.
Em Portugal todos os dirigentes políticos reconhecem Hugo Chávez como um grande amigo de Portugal e, numa altura em que no seio da própria Europa se está a perder a ideia de solidariedade, a evocação de um país e de um líder que mostrou essa mesma solidariedade para com os portugueses merece ser posta em evidência.  

quarta-feira, 6 de março de 2013

Uma exposição imperdível na Gulbenkian

Na Galeria de Exposições Temporárias do edifício-sede da Fundação Calouste Gulbenkian está patente a exposição 360º Ciência Descoberta, que aborda uma página pouco conhecida da história da ciência que se desenvolveu durante o período das grandes navegações marítimas dos séculos XV e XVI, na qual os povos ibéricos foram os grandes protagonistas e se tornaram de facto os verdadeiros precursores da moderna ciência europeia do século XVII.
A exposição está didacticamente organizada por núcleos temáticos, revelando o confronto com os saberes antigos e descrevendo as novas realidades observadas no encontro com um novo mundo. Apresenta-nos alguns dos mais simbólicos testemunhos materiais desse período dourado da ciência ibérica, como mapas e manuscritos raros, produtos exóticos e especiarias, instrumentos de navegação e livros, alguns dos quais são mostrados pela primeira vez em Portugal. Trata-se, portanto, de uma narrativa sobre as origens da ciência em Portugal e Espanha, que demonstra claramente o espírito inovador daquele tempo e a sua importância pioneira no contexto da ciência europeia que, muitas vezes, ainda é erradamente atribuída apenas a ingleses, franceses e italianos.
A exposição é acompanhada por um ciclo de conferências e é apoiada por um programa educativo muito inovador que está orientado para escolas e grupos organizados. A exposição é absolutamente imperdível e pode ser visitada até ao dia 2 de Junho.

terça-feira, 5 de março de 2013

A abrir portas ou a promover o portas?

O Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros foi de viagem à Índia para abrir portas e levou consigo uma alargada comitiva, onde se incluem 36 empresários mas também a televisão, para nos mostrar o sorridente ministro a inaugurar um ginásio e a informar-nos que a nossa economia precisa de músculo. A comitiva não viajou em classe económica, nem se instalou em hotéis de três estrelas, nem circulou localmente num riquexó barato. Evidentemente que não podia ser assim. São as exigências da dignidade do Estado. Por isso, estas coisas saem caras e se o ministro fizesse uma análise custo-benefício destas iniciativas a que chama “diplomacia económica”, mas que pouco mais são do que propaganda pessoal, ficaria muito surpreendido. Mas ele não resiste à sua paixão por viagens, nem à sua atracção por feiras e mercados. Depois das visitas à Ribeira e ao Bolhão, agora visita os mercados da Índia.
Porém, ele deveria conhecer um estudo realizado na Faculdade de Economia do Porto que o “Jornal de Notícias” divulgou em 24 de Agosto de 2009. O autor desse estudo analisou 12 visitas oficiais efectuadas entre 2005 e 2008, tendo concluído que os empresários portugueses que viajam em comitivas oficiais não as aproveitam para desenvolver negócios com empresários locais, preferindo desenvolver negócios com os outros empresários da comitiva. O estudo defendia que tanto os empresários como o Estado deviam repensar o modelo de funcionamento das visitas oficiais e salientava que não existia qualquer tipo de avaliação quanto à utilidade dessas visitas, que são financiadas por fundos públicos. Além disso, é evidente que os empresários não precisam que lhes abram as portas e, para inaugurar ginásios e promover encontros, já lá temos os nossos diplomatas.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Clientes BPN: quem são e quanto devem?

A imprensa noticia hoje e o Diário de Notícias destaca essa notícia em primeira página, que o governo tem um plano de recuperação do crédito malparado no BPN, o qual atingirá 17 mil devedores e se estima ter um valor de 4,2 mil milhões de euros. Segundo foi divulgado, até ao próximo mês de Julho, o governo irá contratar uma empresa especializada na recuperação de créditos, enquanto já haverá actualmente 13 mil processos em contencioso. Aparentemente, trata-se de boas notícias para os contribuintes portugueses, pois têm sido eles que têm sido chamados a “tapar o buraco” do BPN. Porém, perante a irresponsabilidade e a impunidade com que, desde há muitos meses, tem sido tratado este caso, teremos que ser descrentes e desconfiados. Tem havido uma incompreensível condescendência para com os assaltantes do BPN, muitos dos quais se passeiam por aí e, depois da venda do banco ao BIC, muitas empresas e muitos particulares em dívida deixaram de cumprir as suas obrigações que tinham para com o BPN. A morosidade da Justiça também não nos dá garantias de uma intervenção rápida, justa e eficaz, que assegure o pagamento dos créditos ou o confisco de bens que, sabemos agora, resultaram de um processo de acumulação de riqueza assente em práticas e favorecimentos ilícitos. No passado mês de Janeiro, todos os grupos parlamentares se uniram para exigir que os poderes judiciais actuassem rapidamente para julgar e punir os responsáveis pelos milhões roubados no BPN.
No entanto, o tempo corre e continuamos sem saber quem são e quanto devem aqueles que se aproveitaram do BPN. E todos temos o direito a saber isso.

domingo, 3 de março de 2013

Vozes de protesto para serem ouvidas

As manifestações que ontem se realizaram, um pouco por todo o país, em protesto contra a troika, o governo e as políticas de austeridade, tiveram a sua expressão mais evidente em Lisboa e no Porto e nem é importante saber quantos foram aqueles que nelas participaram.
Em Lisboa desfilaram muitos, muitos milhares de descontentes, de indignados, de desempregados, de reformados, de jovens sem futuro e de gente como eu, que cantou a “Grândola vila morena” e gritou palavras de ordem como “O povo unido jamais será vencido”, a evocar os tempos da conquista da liberdade e da luta contra a tirania. Os manifestantes reclamavam a demissão do governo e reagiam contra as políticas de austeridade e de ataque ao Estado social, de destruição da economia, de empobrecimento generalizado e de insensibilidade social, que estão a ser prosseguidas pelo governo e que ameaçam a coesão social e o futuro.
Embora as manifestações sejam uma prova de força popular e uma forma de expressão democrática e legítima, pouco mais conseguem do que desgastar politicamente o governo e de, eventualmente, levar a algumas alterações na sua orientação política. Porém, enquanto expressões da vontade popular, as manifestações não podem deixar indiferente o homem que elegemos em Janeiro de 2011 para ocupar o Palácio de Belém e que até tem um orçamento de 15 248 380 euros para pensar e para actuar. Por isso, o título do Jornal de Notícias é significativo e é dirigido ao governo, mas também ao homem do leme: oiçam-nos!





The Tall Ships Race 2016 em Lisboa

Num intervalo de poucas horas a cidade de Lisboa voltou a ser notícia por bons motivos, pois vai receber em 2016 a regata anual da Sail Training International - The Tall Ships Race - uma regata/festival náutico em que participam os grandes veleiros e que se realiza todos os anos com escalas em diversos países. Depois da anunciada escala lisboeta da Volvo Ocean Race em 2015, esta visita dos grandes veleiros em 2016 vem confirmar Lisboa como uma cidade marítima de excelência e um importante palco para grandes eventos náuticos internacionais.
A decisão de receber aquela regata/festival em Lisboa só foi possível devido ao envolvimento da Câmara Municipal de Lisboa e ao protocolo que foi assinado entre a autarquia e a Aporvela – Associação Portuguesa de Treino de Vela, o parceiro nacional da Sail Training International que é a entidade que, desde 1982, tem organizado a visita dos grandes veleiros ao porto de Lisboa.
Por outro lado, a decisão de incluir Lisboa na regata de 2016 resulta do sucesso da edição de 2012, na qual a Aporvela contou com o apoio de mais de duas centenas de voluntários. Nessa altura estiveram em Lisboa 49 grandes veleiros com cerca de 2500 jovens tripulantes de 43 nacionalidades, que tiveram a oportunidade de participar em vários eventos, animações de rua e concertos, mas também de conhecer a cidade. Um imponente desfile náutico atraiu ao rio Tejo algumas centenas de pequenas embarcações, enquanto muitos milhares de espectadores assistiram ao desfile nas margens do Tejo.
Para nosso contentamento, em 2016 esperamos voltar a ver o navio-escola Sagres a navegar rio abaixo com todo o pano e com tão numerosa companhia.

sábado, 2 de março de 2013

A Alemanha é rica mas tem fraca memória

A Alemanha é rica mas tem fraca memória, pois esquece que há 60 anos, exactamente no dia 27 de Fevereiro de 1953, houve um grupo de duas dezenas de países, entre os quais a Grécia, a Irlanda e a Espanha, que decidiram perdoar-lhe mais de 60% da sua dívida, através de um acordo assinado em Londres, conforme revelou o diário digital Dinheiro Vivo. Este perdão, que na prática foi uma extensão e reforço das ajudas financeiras directas do Plano Marshall, permitiu aos alemães a redução substancial da sua dívida, contraída antes e depois da Segunda Guerra Mundial. Segundo um perito citado pelo Dinheiro Vivo, a dívida antes da guerra ascendia a 22,6 mil milhões de marcos, incluindo juros, enquanto a dívida do pós-guerra foi estimada em 16,2 mil milhões. No acordo assinado em Londres esses montantes foram reduzidos para 7,5 mil milhões e 7 mil milhões respectivamente, o que equivale a uma redução de 62,6%. Porém, o acordo foi mais longe ao estabelecer  a possibilidade da Alemanha suspender pagamentos e renegociar as condições, caso ocorresse “uma mudança substancial que limitasse a disponibilidade de recursos" para além de, em alguns casos, ter havido uma redução significativa das taxas de juro aplicadas. O historiador alemão Albrecht Ritschl, que é professor na London School of Economics, numa entrevista à edição on line da revista Der Spiegel (21 de Junho de 2011) afirmou  que “Germany was the biggest debt transgressor of 20th century” e confirmou que existiu de facto um perdão de dívida gigantesco ao país. Porém, agora são os filhos e os netos dos que beneficiaram daquele perdão, que estão a asfixiar quem antes foi solidário e lhes perdoou as dívidas e tantas outras coisas mais.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A Volvo Ocean Race regressa a Lisboa

A organização da Volvo Ocean Race anunciou hoje que Lisboa vai continuar a ser um dos portos de escala da volta ao mundo à vela e que essa presença fica garantida para as duas próximas edições da prova, a realizar em 2014/15 e 2017/18. É uma importante notícia para Portugal, não só em termos desportivos, mas também em termos económicos e promocionais, que só foi possível pelo apoio da Câmara Municipal de Lisboa e pelo êxito que, em Junho de 2012, constituiu a passagem por Lisboa da 11ª edição da prova, que teve um enorme impacto económico avaliado em cerca de 30 milhões de euros e que atraiu muitos milhares de visitantes e espectadores.
A organização revelou que a próxima edição da Volvo Ocean Race partirá de Alicante (Espanha), seguirá para o Recife (Brasil) e, depois de contornar o cabo da Boa Esperança, navegará até Abu Dhabi (EAU). A prova sairá depois para Auckland (Nova Zelândia) e passará o cabo Horn a caminho de Itajaí (Brasil) e de Newport (EUA). A travessia do Atlântico será feita entre Newport e Lisboa e a corrida seguirá depois para Gotemburgo (Suécia) onde termina, estando ainda em aberto a hipótese de haver mais uma ou duas escalas em portos europeus. Faltam 18 meses para o início da 12ª edição da grande corrida e já está garantida a participação de três equipas. O que também está garantido é que a Volvo Ocean Race regressará a Lisboa no Verão de 2015 e que a cidade e o Tejo aparecerão em todas as televisões do planeta.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Postais turísticos de Coimbra

Coimbra é uma cidade de património e de cultura, uma terra de memórias para muita gente e um local que sempre se visita (e fotografa) com agrado. Ontem aconteceu-me isso na Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes, uma das artérias que liga a Baixa à Alta da cidade.
Ao longo dessa rua existe uma parede decorada com vários painéis de azulejos azuis e brancos que representam vários monumentos localizados na cidade e a sua história é simples: depois de Abril de 1974, esse extenso muro situado em frente do Mercado D. Pedro V, foi transformado num mural de tipo revolucionário, repetidamente pintado e repintado. Em 1984 foi decidido requalificar esse muro, revestindo-o com azulejos encomendados ao artista gráfico Amílcar Matias. Porém, embora o trabalho produzido tenha um excelente desenho, apenas corresponde a uma colagem de azulejos a lembrar uma série de “postais turísticos de Coimbra”, colocados numa parede branca e esteticamente fria, sem um adequado enquadramento e sem que se lhe reconheça o estatuto artístico que a cidade merecia.
E vem-nos à memória o painel de João Abel Manta existente na Avenida Gulbenkian em Lisboa (1982) ou o painel da Ribeira Negra de Júlio Resende, colocado à saída do tabuleiro inferior da Ponte de D. Luís I, no Porto (1985), que são contemporâneos dos painéis a que chamei “postais turísticos de Coimbra”.
Porém, uma manhã solarenga na Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes permite um curioso jogo de sombras e uma interessante fotografia, até ao mais amador dos fotógrafos.

Macau é exemplo do dinamismo oriental

Realizou-se ontem em Macau a cerimónia do lançamento da primeira pedra de um novo e imponente projecto imobiliário do MGM China Holdings que vai ser desenvolvido no Cotai e que incluirá 1600 quartos de hotel, 500 mesas de jogo e 2500 slot machines, embora 85% da sua área bruta seja dedicada à oferta extra-jogo, como restaurantes, lojas, espaços de diversão, estacionamentos e uma área pedonal de servidão pública. A MGM China Holdings é detida em 51% pelo grupo americano MGM Resorts, numa parceria com Pansy Ho, a filha de Stanley Ho que é a administradora-delegada da MGM macaense. O projecto tem um orçamento de 2,5 mil milhões de USD e terá que ser concluído até Janeiro de 2018, mas os seus promotores esperam antecipá-lo em dois anos.
O Cotai ou Zona do Aterro de Cotai é uma área de aterros que liga as ilhas da Taipa e Coloane e daí o seu nome (Co de Coloane mais tai de Taipa). Esta extensão territorial de Macau que foi conquistada ao mar, foi estudada e começada a formar nos anos 60 e em 1968 foi inaugurada uma estrada a ligar as duas ilhas. A zona de aterros continuou a ser aumentada mas só depois de 1999, com a transferência da administração de Macau para a República Popular da China, foi intensificada a sua formação. Em 2003 iniciou-se a construção de hotéis, resorts de luxo e grandes casinos, bem como a ponte “Flor de Lótus” que liga o Cotai à ilha da Montanha ou Hengqin.
O Cotai tem hoje cerca de 5,2 Km2, o que representa cerca de 20% do território de Macau e, dentro de três anos,  vai ter o novo projecto concluído. A sua maqueta foi divulgada na primeira página dos principais jornais macaenses, nomeadamente o Ponto Final, constando de torres que se assemelham a caixas de jóias alinhadas e que terão cerca de cem metros de altura.
Macau, onde o português é língua oficial, é realmente um exemplo do dinamismo oriental.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A autoridade de Ronaldo em Barcelona

Ontem realizou-se em Barcelona o jogo da 2ª mão da última eliminatória da Taça do Rei, em que se defrontaram as equipas do FC Barcelona e do Real Madrid CF. No jogo da 1ª mão disputado em Madrid, tinham empatado por 1-1, mas desta vez o Real Madrid superiorizou-se de forma inequívoca e triunfou por 3-1, tendo Cristiano Ronaldo brilhado e marcado dois golos.
Ronaldo aparece frequentemente na capa dos jornais espanhóis, sobretudo nos que são publicados em Madrid, mas desta vez houve mais de duas dezenas dos mais importantes que destacaram a vitória do Real Madrid na sua primeira página, ilustrando-a com a fotografia do jogador português a festejar um dos seus golos. Ele é um caso raro de um português de sucesso.
A rivalidade entre o Barcelona e o Real Madrid é histórica e ultrapassa o futebol. Em termos de percepção psicológica o Real Madrid representa a realeza, a língua castelhana e o poder centralista de Madrid, enquanto o Barcelona representa os ideais republicanos, a língua catalã e a ambição independentista pelo que, habitualmente, no Camp Nou se canta o hino catalão e são agitadas bandeiras da Catalunha, mas desta vez “Ronaldo calou o Camp Nou”. Não há na Europa nenhum caso de rivalidade como este, que é acentuado pelo facto dos dois mais famosos futebolistas da actualidade jogarem nessas equipas.
Ontem, no fim do jogo, as bandeiras catalãs não se agitaram. Em contrapartida o jornal madrileno ABC destacou em primeira página a fotografia de Ronaldo e aproveitou para dar uma alfinetada política nos autonomistas catalães ao escrever: “golpe de autoridad del Madrid en Barcelona”.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O Saharistan e a ameaça fundamentalista

A edição de Março do Courrier internacional  já está nas bancas e a sua capa é ilustrada com uma imagem bem elucidativa que nos revela que, por vezes, uma imagem vale mais do que mil palavras: um grupo de jihadistas armados cobre de negro uma vasta região sahariana e infiltra-se por diversos países do “Sahel”, isto é, uma “cintura” que vai desde o Atlântico ao mar Vermelho, passando pelo Senegal, Mauritânia, Mali, Niger, Burkina Faso, Níger, o norte da Nigéria, Chade, Sudão, Etiópia, Eritreia, Djibuti e Somália.
Aquela imagem mostra como o "Saharistan" é uma ameaça fundamentalista e está bem próxima do sul da Europa. A revista dedica alguns artigos à situação de decomposição política, económica e social que atravessa o norte de África, incluindo os planaltos do sul da Argélia e da Líbia e a região do Sahel, que tem vindo a ser dominada por jihadistas fanáticos e a escapar ao controlo de quaisquer governos, sobretudo depois da “primavera árabe”.
O Mali estava a caminho de se transformar numa nova Somália ou de ter um regime talibã do modelo afegão, além de se estar a tornar num trampolim para a escalada do islamismo armado ou do islamo-gangsterismo, como também é chamado.
A perspectiva de um “Saharistan” ou de um “Sahelistan”, mais o receio de contágio, fizeram a França intervir militarmente, com base numa resolução da ONU e no apoio de um vasto leque de países. As principais cidades do Mali, como Gao e Tombuctu, já foram libertadas, mas não se espera uma resolução rápida do problema o que constitui uma preocupação para a Europa e, em especial, para os países da margem norte do Mediterrâneo, incluindo a Península Ibérica.