quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Donald dificulta soluções na Venezuela

Os Estados Unidos, e em especial a administração Trump, continuam apostados em lutar contra a Venezuela e o chavismo, porque não querem que mais um regime político de tipo cubano se instale na América do Sul.
A campanha contra Nicolás Maduro e o seu regime tem revestido diversas formas, embrulhadas em eventuais golpes de estado, ajuda humanitária, carência de medicamentos, crises no meio militar e outras formas sensacionalistas de sensibilizar a comunidade internacional que, de facto, não sabemos se são apenas acções de propaganda. Porém, daquilo que vamos sabendo, quer as Forças Armadas, quer o aparelho judiciário continuam ao lado de Maduro, enquanto o auto-proclamado presidente Guaidó não consegue ir mais além de ter sido recebido pelo Donald e não arrisca uma viagem à Europa que certamente não lhe correria da mesma maneira.
Apesar de todas as contradições do processo político venezuelano, desde Maio que têm decorrido negociações mediadas pela Noruega, Uruguai e União Europeia, entre o governo de Nicolás Maduro e representantes de Juan Guaidó.  As últimas rondas de negociações têm decorrido em Barbados, embora os americanos insistam que essas negociações devem ter apenas um ponto: o afastamento de Maduro. Nada como esta exigência mostra a efectiva ingerência dos Estados Unidos na vida venezuelana e como a oposição de Guaidó, infelizmente para os venezuelanos, não passa de um instrumento da política externa americana. Agora, a administração Trump foi mais longe e impôs sanções económicas totais contra a Venezuela, sendo a primeira vez que esta medida foi tomada nos últimos 30 anos. Parece-me que foram longe demais e só vieram complicar a situação na Venezuela. Nicolás Maduro, porque terá um sentido de dignidade bolivariana que outros não têm, abandonou a negociações com a oposição, conforme revela hoje o diário 2001 de Caracas. Podia esperar-se outra coisa?

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

As armas de fogo e o choro da América

Nas últimas horas a América tremeu devido à violenta ocorrência de dois tiroteios e, na sua edição de hoje, o jornal Houston Chronicle escolheu como título a frase “uma nação chora”.
Aconteceu um tiroteio na manhã do passado sábado num centro comercial em El Paso, no Texas, de que resultaram 20 pessoas mortas e mais de duas dezenas de feridos; cerca de 13 horas depois, num bar em Dayton, no Ohio, aconteceu um outro tiroteio de que resultaram 9 mortos e mais 27 feridos. Perante estes dois casos, ambos resultantes do racismo branco e do seu radicalismo de ódio e violência, a imprensa americana não só relatou a dor que afectou a sociedade americana, mas também reagiu contra a facilidade com que é possível aos americanos possuir armas de fogo em sua casa e, de vez em quando, utilizá-las na rua. Porém, o assunto é muito antigo e não parece que o lóbi da National Riffle Association abdique das suas posições liberais nesta matéria e que os americanos venham a ser limitados na sua liberdade de compra de armas de fogo.
O facto é que as estatísticas mostram que todos os dias morrem 85 pessoas vitimadas por armas de fogo e que, com os dois casos ocorridos do passado fim-de-semana e quando se está no 216º dia do ano, segundo a Gun Violence Archive já estão contabilizados 251 tiroteios, em cada um dos quais morreram “pelo menos quatro pessoas excluindo o atirador”. Muitos políticos exigem leis mais rigorosas para a posse de armas e acusam Donald Trump de estar a alimentar tensões raciais, designadamente com o seu declarado ódio aos hispânicos, responsabilizando-o pelo que aconteceu em El Paso e em Dayton.  
Depois de cada massacre a América fica chocada com as tragédias e chora, mas nada tem feito para combater esta realidade que faz do país mais poderoso do mundo, também um dos mais perigosos países do planeta.

domingo, 4 de agosto de 2019

Férias a crédito são nova forma de vida

A notícia de La Voz de Galicia é surpreendente, sobretudo depois da grave crise financeira de 2008 da qual nem o sistema financeiro nem os contribuintes já se livraram. Quando mais de cem mil galegos fazem as suas férias com recurso ao crédito, significa que já estamos num novo paradigma das relações entre rendimento e consumo ou, então, que ninguém aprendeu as lições do passado recente. E o que é válido para a Galiza deve ser válido para Portugal, porque os galegos e os portugueses são demasiado parecidos e tanto os comportamentos gananciosos da banca como os apetites irresponsáveis de quem a ela recorre para financiar as suas férias ,são certamente muito parecidos tanto para norte como para sul do rio Minho.
Não está em causa a necessidade de fazer férias, de descansar das rotinas laborais e de desfrutar de um ambiente diferente durante algum tempo para recuperar energias, mas o que admira é a nova forma de vida que se vem acentuando de fazer férias a crédito, seja para uma estadia no Algarve, para uma viagem aos Açores, para um cruzeiro no Mediterrâneo ou, até mesmo, para uma estadia “paradisíaca” nas Sheychelles. O "viaje agora e pague depois" tornou-se uma moda.
As economias europeias estão cada vez mais alavancadas na poderosa indústria do turismo e as férias de uns tornaram-se num negócio para muitos outros, como nos anos mais recentes se vê claramente em Portugal. Nessa lógica, o recurso ao crédito é um alimento essencial para alimentar essa indústria, embora seja perturbador para o princípio individual de que as poupanças que cada um faz com sacrifício para adiar o consumo para melhor oportunidade, se transformam em créditos para quem vai consumir sem que já tenha poupado. Antigamente ainda havia a compensação dos juros, mas agora é a banca que tudo engole na sua ganância e irresponsabilidade social.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Acordo de paz e o futuro em Moçambique

Ontem na Gorongosa, na província moçambicana de Sofala, o presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, e o líder da Renamo, Ossufo Momade, assinaram um acordo para a cessação definitiva das hostilidades e afirmaram unir-se para assegurar o seu cumprimento.
O acto ficou ensombrado por um ataque acontecido numa localidade próxima algumas horas antes da cerimónia, em que foram atingidos um camião e um autocarro de passageiros. Os autores deste ataque estão por identificar, embora as suspeitas recaiam sobre alguns elementos da Renamo que não aceitam o acordo agora assinado ou que contestam a liderança de Ossufo Momade. Significa, portanto, que a paz agora alcançada ainda carece de consolidação concreta, embora seja um esperançoso sinal para o futuro de Moçambique, sobretudo se os protagonistas do acordo de 2019 e a sociedade moçambicana não esquecerem os erros do passado que levaram ao insucesso dos acordos de paz feitos em 1992 e 2014, entre o governo e o então líder da Renamo Afonso Dhlakama. A reconciliação é sempre um processo difícil e, por isso, o antigo presidente Joaquim Chissano mostrou um entusiasmo limitado pelo acordo agora assinado, embora tivesse dito que confiava que “às três é de vez”.
Moçambique vai receber o Papa Francisco em Setembro e vai ter eleições gerais  e das assembleias provinciais no dia 15 de Outubro, pelo que o acordo agora assinado é um importante contributo para a unidade do país em torno do progresso e da unidade nacional, mas também para que seja mais efectivo o combate aos bandos fundamentalistas armados que têm actuado na província de Cabo Delgado. O expressivo sorriso exibido pelos subscritores do acordo na fotografia publicada pelo jornal O País, é muito estimulante para os moçambicanos.

Terá sido 1519 o ano que mudou o mundo?

A última edição da revista francesa Le Nouvel Observateur, por vezes conhecida como Le Nouvel Obs, destaca o ano de 1519 como o seu tema principal, classificando-o como o ano que mudou o mundo. A revista que tem uma larga circulação em França ilustra a sua capa com imagens associadas a alguns relevantes acontecimentos que ocorreram nesse ano de 1519 e que, de facto, influenciaram o processo histórico mundial e que constituem temas que merecem reflexão e evocação. Esses acontecimentos escolhidos pelo Obs são os seguintes:

● A partida de Fernão de Magalhães para as Molucas navegando para ocidente, numa viagem que veio a ser concluída por Juan Sebastián de Elcano e acabou por ser a primeira volta ao mundo;

● A morte de Leonardo da Vinci, uma das grandes figuras do Renascimento europeu e que se destacou como pintor, escultor, cientista, inventor, matemático, engenheiro, poeta e músico, entre muitas outras actividades;

● A morte do imperador Romano-Germânico Maximiliano I (filho de Leonor de Portugal) e a luta pela sua sucessão entre Francisco I de França e Carlos I de Espanha (casado com Isabel de Portugal) que este resolveu a seu favor, tornando-se no poderoso imperador Carlos V; 

● O início da conquista do México por Hernán Cortéz, simbolizada pela figura de La Malinche, a nativa azteca com quem se casou e que se veio a tornar num controverso símbolo da campanha de Cortéz que destruíu o império azteca de Moctezuma II.

Quando uma importante revista de política, negócios, economia e cultura como a Obs dedica tanto espaço à História é porque o tema é importante e oportuno. A História é sempre um exercício de memória e sem memória não temos futuro. Porém, não é linear e indiscutível que o ano de 1519 tenha sido o ano que mais tenha mudado o mundo.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Já começou a corrida à Casa Branca 2020

No dia 3 de Novembro de 2020, isto é, daqui a 15 meses, vai realizar-se a 59ª eleição presidencial nos Estados Unidos e os eleitores americanos irão escolher o seu novo presidente através de um colégio eleitoral, isto é, de forma indirecta. Até lá, num processo deveras complexo, realizar-se-ão as eleições primárias em cada um dos 50 estados americanos nas quais são escolhidos os delegados à convenção de cada um dos partidos políticos que, por sua vez, escolhe o seu candidato presidencial. É um processo demorado e desgastante, que requer avultados recursos financeiros e uma grande coragem para enfrentar todas as insinuações e acusações pessoais que, através dos media, vão desabar sobre cada um dos candidatos. Essa é a tradição americana, mas enquanto na década de 1940 prevalecia a teoria dos efeitos limitados dos mass media sobre os eleitores, enunciada por Paul Lazersfeld, actualmente essa influência, em especial devido aos mass media digitais, está muito mais sofisticada e mais eficiente. De resto, o director de uma estação televisiva portuguesa de nome Emídio Rangel, já em 1997 tinha afirmado que com 50% de audiência podia vender tudo, desde sabonetes ao Presidente da República. E tinha razão. O poder da caixa que mudou o mundo era devastador.
Portanto, a corrida presidencial americana não vai ser uma corrida de ideias ou de projectos mas, sobretudo, uma corrida de imagens veiculadas pelos mass media e por quem os controla.
Neste momento perfilam-se os primeiros candidatos à Casa Branca. Pelo Partido Republicano apresenta-se Donald Trump que procura a sua reeleição e que, aparentemente, não tem competidores... a não ser que surja qualquer imprevisto. Pelo Partido Democrático há cerca de duas dezenas de candidatos e de pré-candidatos que iniciaram uma longa caminhada, conforme hoje relata o Washington Post. Os candidatos terão de participar em muitos debates e de garantir apoios medidos por sondagens e, no fim, para enfrentar Donald Trump, o mais provável escolhido parece ser Joe Biden, ou Bernie Sanders ou Elizabeth Warren. Logo se vê.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

O Redondo e o encanto das ruas floridas

As Festas do Redondo e as suas ruas floridas estão a partir de hoje presentes naquela vila alentejana que dista cerca de 175 quilómetros de Lisboa para, durante nove dias, deslumbrarem os visitantes com uma extraordinária manifestação de cultura popular.  
Esperam-se mais de 500 mil visitantes para apreciarem as 28 ruas ornamentadas com flores e outros motivos figurativos com base em diferentes temáticas, que são confeccionados com papel colorido e que ocupam uma área urbana de cerca de 30 mil metros quadrados.
A festa é da iniciativa da população e dos seus moradores, embora tenha o apoio da autarquia, sobretudo no fornecimento de papel e de outros materiais. Centenas de moradores, em regime de voluntariado e durante muitos meses, organizam-se em cada uma das suas ruas, concebem a sua ornamentação com criatividade e imaginação, transformam toneladas de papel colorido em flores e outros elementos decorativos e, finalmente, tomam o espaço público da vila. O resultado é simplesmente deslumbrante.
As Festas do Redondo são justamente consideradas uma das grandes manifestações culturais do Alentejo e em 2013 foram distinguidas com o Prémio Evento Público 2013.
É um evento de excepcional qualidade cultural que se recomenda vivamente para visitar e que, naturalmente, não deixarei de apreciar uma vez mais.

A vitória da Colômbia no Tour de France

Terminou a 106ª edição da Volta à França e o vencedor foi um jovem colombiano de 22 anos de idade. Chama-se Egan Bernal e declarou ser “el tipo más feliz del mundo”, de acordo com o título do jornal El Heraldo, que se publica na cidade de Barranquilla. Nunca um ciclista tão jovem vencera aquela prova e, além disso, também foi a primeira vez que um praticante latino-americano venceu a mais famosa prova de ciclismo do mundo.
A Colômbia está em festa e em euforia, com toda a sua imprensa a dar um enorme destaque a este singular acontecimento da sua história desportiva, em que o futebol e os futebolistas têm absorvido a maior fatia da popularidade nacional. A juntar à vitória de Bernal, houve mais dois ciclistas colombianos que concluíram a prova nos dez primeiros classificados, o que torna a Colômbia uma potência ciclista no panorama mundial.
Egan Bernal tornou-se, provavelmente, no mais famoso colombiano de todos os tempos e é bem capaz de superar a notoriedade internacional do escritor Gabriel García Márquez. Embora estes dois cidadãos colombianos se encontrem em patamares de reconhecimento muito distintos e não comparáveis, os colombianos vão hesitar na escolha entre o vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 1982 e o vencedor da Volta à França de 2019, como o símbolo maior do orgulho nacional e como figura agregadora da unidade colombiana.
Desportivamente, a prova foi muito disputada e os ciclistas franceses estiveram próximo de dar uma grande alegria aos seus compatriotas, enquanto as reportagens televisivas transmitiram o indescritível entusiasmo popular dos franceses e mostraram a riqueza paisagística e patrimonial da França.
Três ciclistas portugueses participaram na prova em que Rui Costa ficou em 52º lugar, Nélson Oliveira no 77º posto e José Gonçalves no 123º lugar da classificação geral. Estes fracos resultados não aconteceram por falta de apoio, pois nas bermas das estradas das montanhas pirenaicas e alpinas havia sempre muitas bandeiras portuguesas e muito incentivo aos corredores portugueses.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Uma imagem vale mais que mil palavras!

Depois de dois longos processos, um de saída ou não saída da União Europeia e, outro, de saída com ou sem acordo, a política britânica ficou desacreditada e o orgulhoso Reino Unido tornou-se numa coisa que envergonharia a Rainha Victoria. No seu episódio mais recente, o deputado Boris Johnson sucedeu a Theresa May na liderança do Partido Conservador e na chefia do governo do Reino Unido.
Theresa May foi um erro de casting ou um paradoxo político porque durante a campanha do referendo tinha defendido a permanência do Reino Unido na União Europeia e, depois, quando ocupou o nº 10 de Downing Street aceitou o resultado do referendo, isto é, antes esteve contra o Brexit, mas depois apoiou e negociou com Bruxelas esse mesmo Brexit.
Em Março de 2017 coube-lhe a missão de accionar o artigo 50 do tratado da União Europeia e de conduzir as negociações para o Brexit. O acordo alcançado com Bruxelas foi derrotado no Parlamento Britânico em Janeiro de 2019 e um acordo revisto foi também derrotado mais tarde, pelo que Theresa May se demitiu em Maio de 2019.
A saída de Theresa May e a entrada de Boris Johnson aumenta a incerteza quanto ao futuro e, aparentemente, as coisas que estavam a correr mal vão correr pior, não só pelo radical-populismo de Johnson e o seu persistente apoio ao Brexit, mas também por ser uma figura polémica e extravagante. De resto, tratou imediatamente de afastar do governo metade dos ministros de Theresa May e rodeou-se de convictos apoiantes do Brexit. Porém, de Bruxelas veio o aviso de Jean-Claude Juncker de que o acordo de saída não é renegociável, enquanto de Edimburgo falou Nicola Sturgeon a reclamar com vigor por um novo referendo sobre a independência da Escócia e a declarar Johnson como “o último primeiro-ministro do Reino Unido”.
Na sua última edição a revista The Economist colocou Boris Johnson a entrar numa montanha-russa, uma atracção popular dos parques de diversão urbanos em que há saltos, quedas e loopings imprevistos, com tudo muito confuso, muito incerto e sem que se saiba como tudo chega ao fim.
Poucas vezes uma imagem foi tão expressiva daquilo que espera os britânicos nos próximos tempos: here we go!

As alterações climáticas afectam a Europa

Já ninguém duvida de que as alterações climáticas se tornaram num dos grandes problemas da Humanidade, até porque os seus efeitos afectam cada vez mais a vida quotidiana das pessoas, como nas últimas semanas se está a verificar no centro da Europa. Já não são as imagens distantes do degelo nas regiões polares, nem a perda de caudais dos rios ou a secura de lagos, nem a desertificação de extensos territórios. Agora é o calor extremo em regiões ditas temperadas, como são classificadas as regiões europeias.
Depois da onda de calor que afectou a Europa no mês passado, que foi considerado o mês de Junho mais quente já registado no mundo, uma nova onda de calor resultante de uma massa de ar quente vinda do deserto do Sahara está nesta semana a sufocar alguns países europeus, nomeadamente a França, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra e a Espanha, com temperaturas da ordem dos 40ºC. A cidade de Paris registou ontem 42,6ºC, uma temperatura que ultrapassa o máximo de 40,4ºC que fora registado no dia 28 de Julho de 1947 e, na Bélgica, as temperaturas atingiram um recorde histórico pois os termómetros marcaram 40,2ºC em Liége, a mais alta temperatura que foi observada no país desde 1833! Da mesma forma, na Holanda e na Alemanha também foram atingidas temperaturas máximas nunca antes verificadas e que constituem recordes históricos.
Os diferentes serviços meteorológicos nacionais e as autoridadesa locais têm avisado as populações afectadas que, conforme nos mostram as imagens televisivas, correm para as piscinas e para as fontes, para as sombras dos jardins ou para os estabelecimentos comerciais com ar condicionado.
Agora já não há dúvidas: as alterações climáticas são mesmo para levar a sério.

terça-feira, 23 de julho de 2019

As missões lunares e o combate à pobreza

A Índia lançou com sucesso uma missão lunar com o foguete GSLV Mark III a partir da plataforma de lançamento do Centro Espacial de Satish Dhawan, instalado em Sriharikota, no estado de Andhra Pradesh, no sul da Índia. Trata-se de uma missão não tripulada que é o mais ambicioso projecto da agência espacial indiana, que foi baptizada como Chandrayaan-2 e que tem como objectivo uma alunagem para fins científicos na região do polo sul da Lua. Trata-se da segunda missão indiana de exploração lunar, uma vez que a missão Chandrayaan-1 realizada em Novembro de 2008 já colocara um engenho na órbita lunar.
Narendra Modi, o primeiro-ministro da Índia, felicitou os quase mil cientistas envolvidos no projecto e congratulou-se por ter sido “fully indigenous”, isto é, ter sido realizado sem intervenção estrangeira. A agência espacial indiana espera agora que a aeronave pouse sobre a superfície lunar dentro de 48 dias, depois de percorrer os 384 mil quilómetros que separam a Terra da Lua. Se tiver sucesso, a Índia será o quarto país a desembarcar na Lua, depois da Rússia, dos Estados Unidos e da China.
Este acontecimento que, naturalmente, teve grande repercussão mediática na Índia, demonstra o elevado nível de desenvolvimento científico e tecnológico do país, mas também revela a sua ambição geoestratégica para se afirmar em relação aos seus vizinhos e rivais, sobretudo a China e o Paquistão, e para se assumir como a potência regional do oceano Índico.
Porém, o enorme investimento indiano nas tecnologias espaciais, suscita fortes críticas internas e internacionais porque esta utilização de recursos poderia ser canalizada para o combate à pobreza, que na Índia afecta muitos milhões de pessoas. A famosa opção entre “canhões ou manteiga”, expressa pelo economista Paul Samuelson quanto ao desenvolvimento económico, tem na Índia uma semelhança ou uma analogia entre “missões lunares” ou “redução da pobreza”.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Os incêndios florestais estão de volta

Na sua edição de Badajoz, o jornal Hoy publica hoje na sua primeira página uma fotografia a seis colunas dos incêndios florestais que estão a afectar a região centro de Portugal, com a legenda “los incendios de Portugal llenan de humo Extremadura”. Acontece que o fumo derivado desses grandes incêndios que estão a acontecer nas florestas portuguesas em conjugação com as condições atmosféricas locais, deram origem a um “nuvem” que cobriu uma boa parte da Extremadura espanhola e afectou algumas localidades, como as cidades de Badajoz, Cáceres e Mérida.
Depois dos catastróficos incêndios de 2017 e das inúmeras medidas tomadas, a dimensão dos actuais incêndios é surpreendente. No entanto, o excesso de informações e de directos televisivos, bem como as repetidas declarações dos deslumbrados comandos da Protecção Civil, dos autarcas, dos bombeiros e da população, não nos ajudam a compreender o que realmente se passa, porque ora nos dizem que está quase tudo controlado, ora nos informam que há reacendimentos. Dizem-nos que há centenas de operacionais e de meios aéreos envolvidos, mas também nos dizem que os meios são insuficientes. O cidadão comum tem dificuldade em saber o que de facto se passa.
Desta vez, a luta e o aproveitamento político parecem estar ausentes dos teatros de operações e a Cristas ainda não apareceu a dar palpites. Ainda bem. Deixem trabalhar os Bombeiros. O que há a fazer agora é combater as chamas e só depois se deverão fazer balanços e comparações. Já o pequeno Marques Mendes, esse “comerciante político” como lhe chamou Carlos César, não se conteve e tratou de dizer que “há muito boa gente que está indignada com o que se está a passar, com a forma com que tudo isto uma vez mais está a acontecer. Parece que tem semelhanças com há dois anos. Parece que afinal nada mudou“. Porque é que essa criatura não espera para saber o que se passou e fala depois? Porquê essa mania deste pequenote se pôr em bicos dos pés e falar de tudo, mesmo daquilo que não sabe? 

Nova Iorque está sob uma onda de calor

No passado fim-de-semana a cidade de Nova Iorque, tantas vezes coberta de neve no Inverno, esteve sob uma invulgar onda de calor e a sofrer os efeitos das alterações climáticas. O jornal New York Post anunciou a temperatura de 110ºF (43,3ºC), informando que o sábado foi o dia mais quente do ano desde 2011. Por outro lado, o Daily News destacava que a cidade estava a derreter e que o mercúrio dos termómetros passava para além dos 100ºF (37,7ºC), tendo recorrido a uma frase popular para caracterizar o desespero dos nova-iorquinos - “sun of a bitch” – que em português popularucho poderá ser traduzido, entre outras traduções menos suaves, por “um calor do caraças”.
Na realidade, uma onde de calor muito severo está a assolar o centro e a costa Leste dos Estados Unidos e os termómetros têm registado temperaturas superiores a 40ºC, enquanto as autoridades de Nova Iorque, Boston, Filadélfia, Baltimore e Washington já decretaram o estado de emergência nas respectivas cidades. Muitos eventos programados foram cancelados e as populações estão a ser avisadas quanto às precauções que devem tomar.
Espera-se que o Donald esteja na costa Leste e que, apesar de estar ao abrigo e no conforto do ar condicionado, fique mais sensibilizado para reconsiderar e mudar de posição em relação aos acordos de Paris de 2015 sobre a redução da emissão de gases de estufa, a fim de travar o aquecimento global que afecta todo o planeta, como agora se vê numa das regiões mais prósperas do mundo.
Em Junho de 2017 o Donald decidiu retirar-se dos acordos de Paris, mas pode ser que agora apanhe uma caloraça das grandes e mude de ideias sob a pressão dos seus concidadãos, o que de resto aconteceu no Brasil onde a intenção declarada do Jair de abandonar os acordos de Paris foi contrariada pelos brasileiros. Oxalá!

domingo, 21 de julho de 2019

Sevilha procura protagonismo na História

As celebrações da viagem iniciada em 1519 por Fernão de Magalhães para chegar às Molucas por ocidente e que foi concluída por Juan Sebastián Elcano em 1522, continuam a gerar alguma polémica em que se tem destacado o jornal conservador espanhol ABC que, em 10 de Março de 2019, deu guarida e difundiu um dictamen da Real Academia de la História de España em que era afirmado que “es incontestable la plena y exclusiva españolidad” da primeira volta ao mundo e que “todo en la 1ª vuelta al Mundo fue español”. Esta visão ultranacionalista e errada da História até em Espanha foi condenada e se escreveu que eram “actitudes aldeanas, típicas de rivalidades de Villariba y Villabajo, dignas de un profundo estudio antropológico”.
O assunto parecia ter serenado, não só por ser ridículo, mas também porque os governos de Portugal e de Espanha acordaram em patrocinar celebrações comuns. Porém, na sua edição sevilhana de hoje, o mesmo jornal ABC veio fazer a apologia de Sevilha como o “cabo Canaveral de la vuelta al mundo”, fazendo uma analogia entre a viagem da Apollo 11 que há 50 anos levou o homem à Lua e a viagem iniciada por Magalhães há 500 anos. Esta analogia até pode fazer algum sentido para os conservadores espanhóis e para a promoção da capital da Andaluzia, mas não tem nada de original porque a descoberta do mundo sempre serviu para fazer comparações e para glorificar navegadores. Já em 1776 o economista Adam Smith escreveu que “a passagem do cabo da Boa Esperança por Bartolomeu Dias e a chegada às Antilhas por Colombo foram os maiores e mais importantes acontecimentos da História”, enquanto o filósofo inglês Arnold Toymbee afirmou que a viagem de Vasco da Gama representou o início da era gâmica, em que o ocidente e o oriente se uniram por mar. E há muitos mais autores internacionalmente respeitados que têm utilizado as navegações oceânicas portuguesas como o fenómeno que deu origem ao mundo global do nosso tempo.
Portanto, se assim o entenderem, os conservadores espanhóis até podem escolher outros cabos canaverais não só em Sevilha, mas também em Palos de la Frontera ou em Sanlúcar de Barrameda, tal como podem trocar Colombo por Pinzón ou Magalhães por Elcano. O ridículo não paga imposto.

O Tour e a loucura festiva dos franceses

O Tour de France é o maior acontecimento desportivo francês e provoca um entusiasmo popular único, levando milhões de pessoas à berma das estradas ou às encostas das montanhas em indescritível delírio, mas é também um espectáculo televisivo de grande interesse cultural e turístico que, ao longo das etapas, descobre as melhores paisagens naturais e o rico património construído francês. Em termos desportivos e desde 1903, o Tour de France consagrou ciclistas que ficaram célebres pelas suas vitórias como Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Miguel Indurain e muitos outros, mas o facto é que desde 1985, quando Bernard Hinault conquistou a sua quinta vitória na prova, já lá vão 34 anos, que nenhum atleta francês consegue triunfar na “rainha de todas as corridas ciclistas do mundo” e entrar em Paris com o maillot jaune.
Este ano, com a ausência forçada do ciclista inglês Chris Froome, que era o mais destacado favorito para vencer a corrida, os outros corredores agigantaram-se e, apesar de só estarem disputadas 14 das 21 etapas que a prova inclui, a França e a sua imprensa já não disfarçam a euforia que os está a tomar de assalto. Ontem, na etapa que decorreu na região pirenaica e terminou no clássico cume do Tourmalet, os ciclistas franceses Thibaut Pinot e Julian Alaphilippe chegaram à frente. Tal como Richard Nixon esperou Armstrong e Aldrin quando em 1969 regressaram da sua viagem à Lua, também Emmanuel Macron esperou Pinot e Alaphilippe no Tourmalet para simbolizar o orgulho dos franceses nos seus ciclistas, ou apenas por gosto pessoal, ou para aproveitar este acontecimento para melhorar a sua imagem pública. O jornal Le Parisien é apenas um dos diários franceses, nacionais ou regionais, que hoje destaca o entusiasmo dos franceses e escolheu para título Le Tour des Français.