segunda-feira, 6 de julho de 2015

O referendo na Grécia: a luta continua

Η Εφημερίδα των Συντακτών - edição de 6 de Julho de 2015
O resultado do referendo que ontem se realizou na Grécia foi expressivo e deu uma legitimidade reforçada ao governo grego, mas não parece ter alterado as relações de força nas negociações em curso. O confronto entre os dois radicalismos mantém-se. Nenhuma das partes quer ceder. Uns porque não querem perder o dinheiro com que alimentaram as negociatas na Grécia, outros porque não querem a mesma austeridade que lhes trouxe desemprego, recessão, pobreza, cortes de salários e de pensões e a noção de que vai ser assim por longos anos.
A figura do acordo de credores que é tão usada no domínio empresarial para enfrentar e resolver situações financeiras complexas, parece não ser do conhecimento dos burocratas das chamadas instituições. Querem tudo. Diz-se que “quem tudo quer, tudo perde” e, ao tudo quererem, as Lagardes e os Dijsselbloems arriscam-se a tudo perder e a inundar a Europa de instabilidade.
Porém, o referendo grego já teve resultados. Os gregos recuperaram, ao menos por uma noite, a sua alegria e a sua dignidade. Cantaram e dançaram numa onda de orgulho nacional. E já souberam tirar algumas conclusões para levar à mesa das negociações. A demissão de Varoufakis só pode ser entendida como uma atitude de bom senso, mas do outro lado da mesa ninguém se demitiu e, certamente, vão insistir nas mesmas receitas humilhantes e ineficazes.
Os grandes jornais europeus reflectem hoje a incerteza, a imprevisibilidade e a preocupação sobre o que se vai passar nos próximos dias. Consoante o seu alinhamento, os seus títulos são, por exemplo, “Maintenant, respectez le non du peuple grec” (L’Humanité), “Greek voters defy Europe” (The Guardian), "Hora de la verdad en Europa tras el rotundo ‘no’ de Grecia” (El Pais) ou “Il ‘no’ greco spaventa l’Europa” (Corriere de la Sera).
Hoje é cada vez mais evidente que nada vai ser como dantes na Grécia e na Europa. Há razões para estarmos preocupados nesta “ocidental praia lusitana”. Os nossos cofres não estão cheios, a nossa dívida aumentou mais de 30% nos últimos quatro anos, muitos dos nossos compatriotas emigraram, estamos quase todos mais pobres e muito, muito desmoralizados. Contrariamente ao que por aí dizem alguns economistas de segundo plano, a eventual queda da Grécia poderá arrastar outras grécias. A aritmética dos [19 – 1 = 18] está errada e é perigosa.

domingo, 5 de julho de 2015

Copa América: a grande vitória do Chile

Pela primeira vez no seu historial a selecção de futebol do Chile ganhou a Copa América, que é a mais antiga competição que se realiza no mundo entre selecções de futebol, pois foi disputada pela primeira vez em 1910. Nesta sua 44ª edição, o torneio organizado pela Confederação Sul-Americana de Futebol realizou-se no Chile, mas os favoritos não eram os anfitriões mas as selecções do costume que, à sua conta, já tinham vencido em 37 vezes as 43 edições da prova antes realizadas. Além do Uruguai (15 vitórias), Argentina (14) e Brasil (8), só o Paraguai e o Peru (2 vezes cada um) e a Colômbia e a Bolívia (uma vez cada um) tinham vencido a desejada Copa América.
O Chile disputava a sua quinta final e não era favorito, pois defrontava a temível equipa argentina de Leonel Messi e de outros famosos jogadores. Porém, entusiasmados pelo seu público no Estádio Nacional de Santiago, os jogadores chilenos superaram-se e não deixaram que os argentinos ganhassem. Foram, então, para a decisão por grandes penalidades e os chilenos foram felizes, competentes e ganharam a Copa América pela primeira vez. Foi o delírio!
Os 18 milhões de chilenos vibraram com a vitória e, de entre todos, destacou-se a presidente Michelle Bachelet, que assistiu aos jogos da selecção chilena devidamente equipada e que, após a vitória, se apressou a felicitar pessoalmente os jogadores, além de os ir receber brevemente no Palácio de La Moneda, a sua residência oficial. Toda a imprensa chilena dedicou a sua primeira página a esta vitória e ao novo “campéon de América”, a evidenciar a importância que o futebol adquiriu nos últimos tempos em todo o mundo como instrumento de unidade, coesão e mobilização nacional.

sábado, 4 de julho de 2015

Cabo Verde: 40 anos de independência

Amanhã a República de Cabo Verde completa 40 anos como país soberano. Foi no dia 5 de Julho de 1975 que foi lida a histórica proclamação da independência na cidade da Praia, na ilha de Santiago. A festa vai ser grande, nas ilhas e na diáspora. Em Portugal estão anunciadas muitas iniciativas para celebrar a data.
As aspirações independentistas do arquipélago de Cabo Verde nunca tinham passado pela luta armada no seu território, embora o fundador e muitos quadros do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) fossem cabo-verdianos e tivessem participado activamente na guerra de libertação nacional que ocorreu na Guiné entre 1962 e 1974. Esse facto, associado a uma evidente proximidade cultural entre os portugueses e os cabo-verdianos e até circunstâncias de relacionamento pessoal entre muitos dirigentes das duas partes, facilitou e tornou “exemplar” o processo de transferência de soberania portuguesa para o novo Estado. Por isso, as delegações do governo português e do PAIGC assinaram no dia 19 de Dezembro de 1974, em Lisboa, um documento que abriu caminho para a independência do arquipélago.
Nesse documento de oito páginas foi aprovada a transferência de poderes e foi criado um governo de transição composto por três ministros portugueses e três cabo-verdianos, liderado por um Alto-Comissário português, cargo que foi desempenhado pelo almirante Vicente Almeida d'Eça, como representante da soberania portuguesa. O governo de transição teve por principal missão "conduzir as operações conducentes à eleição por sufrágio directo e universal, em 30 de Junho de 1975, de uma assembleia representativa do Povo de Cabo Verde". Nesse dia foram eleitos os primeiros 56 deputados cabo-verdianos, que se reuniram no dia 4 de Julho de 1975 nas instalações da Câmara Municipal da Praia, para constituírem a primeira Assembleia Nacional Popular. Nessa sessão foi aprovada a solene proclamação que foi lida no dia seguinte por Abílio Duarte, o primeiro presidente do parlamento cabo-verdiano, no estádio da Várzea:
“Povo de Cabo Verde, hoje, 5 de Julho de 1975, em teu nome, a Assembleia Nacional de Cabo Verde proclama solenemente a República de Cabo Verde como Nação Independente e Soberana”.
Passados 40 anos, a República de Cabo Verde é um respeitado membro da comunidade internacional, um dos símbolos da paz e da democracia em África e uma terra de gente fascinante, desde Amílcar Cabral e Pedro Pires, até Cesária Évora e Germano Almeida.  É um país de músicos e de futebolistas, de gente de trabalho e de sofrimento, mas é também o país da morabeza e da cachupa, da morna, da coladera e da kolá san jon. Uma grande comunidade e um grande país!

Arrancou o 7º Festival ao Largo

Devagar, devagarinho, o Festival ao Largo vai-se impondo no panorama cultural da cidade de Lisboa, com uma programação que inclui música coral e sinfónica, ópera e. dança, que são apresentados no largo fronteiro ao Teatro Nacional de São Carlos. Este ano o festival cumpre a sua 7ª edição e iniciou-se ontem com um repertório muito atractivo, em que actuaram a Orquestra Sinfónica Portuguesa, o Coro do Teatro Nacional de São Carlos e a solista Sofia Escobar, sob a direcção da maestrina Joana Carneiro, tendo interpretado um programa intitulado “Broadway e Novo Mundo”. Com espectáculos a apresentar quase todos os dias, o festival decorre até ao dia 25 de Julho. Espera-se que, tal como sempre tem acontecido nos anos anteriores, que o festival atraia muito público àvido de espectáculos de boa qualidade, em cenários de grande apelo estético e, além disso, gratuitos. As noites quentes de Julho ajudam a completar o agradável ambiente, embora a escassez do espaço do Largo de São Carlos e as dificuldades de acesso ao local em transporte público ou privado, sejam uma contrariedade.
Este ano e pela primeira vez, o programa do primeiro dia foi transmitido em directo pela RTP2 para o largo Visconde Serra do Pilar, em Santarém, e para a praça do Sertório, em Évora. Uma ideia que se aplaude. Da mesma forma, merece aplauso o patrocínio do Banco Millenium que percebe que "as artes performativas são um dilema económico" e precisam de patrocinadores, como concluiu o economista William Baumol nos seus apreciados estudos sobre este tema.

A festa do Tour de France começa hoje

Inicia-se hoje em Utrecht, na Holanda, a 102ª edição do Tour de France 2015, uma das mais importantes provas desportivas mundiais. A França e os franceses vão entrar em festa com um espectáculo ímpar, que lhes permitirá ver as imagens dos monumentos, povoações e paisagens por onde passarão os ciclistas e a sua monumental caravana de apoio. Milhares de pessoas deslocar-se-ão para as montanhas, nos Alpes e nos Pirinéus, para participar na festa, vibrar com o espectáculo e incitar os seus ídolos. "Ce sera grandiose", titula hoje o jornal L'Équipe.
Até ao dia 26 de Julho e ao longo de 3344 quilómetros distribuidos por 21 etapas, os melhores ciclistas mundiais vão procurar inscrever o seu nome na galeria dos mais notáveis e, desde já, os favoritos são Vicenzo Nibali (Itália), Chris Froome (Inglaterra), Alberto Contador (Espanha) e Nairo Quintana (Colômbia). Como sempre acontece, a montanha vai ter um papel decisivo na definição do vencedor, havendo a salientar-se este ano o regresso da famosa subida do Alpe D’Huez, que será feita na 20ª e penúltima etapa da prova, na véspera da chegada aos Campos Elíseos. Uma grande prova desportiva em perspectiva!
A RTP2 vai proporcionar o acompanhamento desta prova aos portugueses, ao transmitir diariamente e em directo, todas as etapas da competição, devendo salientar-se a elevada qualidade das transmissões televisivas que, desde há alguns anos, têm sido proporcionadas pela organização da prova. Como eles costumam dizer, é um espectáculo televisivo a não perder.
Haverá três portugueses no pelotão: Rui Costa e Nelson Oliveira (Lampre-Mérida), Tiago Machado (Team Katusha) e José Mendes (Bora-Argon 18). Naturalmente que Rui Costa, que foi campeão do Mundo em 2013, vai estar ao lado dos favoritos, esperando-se que possa dar algumas alegrias aos portugueses.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O nosso melhor embaixador é um navio

Os americanos têm um enorme envolvimento emocional e cultural com o 4th July, o seu Dia da Independência, que evoca o dia do ano de 1776 em que as treze colónias rebeldes subscreveram a Declaração de Independência e declararam a separação formal do Império Britânico.
Por razões históricas esse envolvimento acontece sobretudo na costa leste dos Estados Unidos e, em especial, nas cidades costeiras dos estados de Nova Iorque, Maryland, Virginia, Pensilvânia, Massachusetts e Connecticut. Nas cidades de vocação marítima realizam-se grandes festivais náuticos para celebrar a independência americana e, neste ano de 2015, a costa leste está a receber a visita dos veleiros que participam na Tall Ships Challenge Atlantic Coast 2015, que durante os meses de Junho e Julho escalam uma dezena de portos, designadamente Yorktown, Baltimore, Filadélfia, Nova Iorque, Newport e Boston. Esta ano, talvez por razões orçamentais, a participação europeia limita-se às réplicas da fragata francesa L’Hermione e do galeão espanhol Andalucia, mas também da barca portuguesa Sagres. O nosso navio-escola já visitou Filadélfia, onde a sua presença foi muito destacada nas redes sociais da comunidade portuguesa, navegou depois para Nova Iorque onde estará no dia 4 de Julho, seguindo-se New Bedford e Boston.
A edição de hoje do semanário Suffolk Times que se publica em Mattituck – New York, dedica a sua primeira página ao 2015 Greenport Tall Ships Challenge Festival e, entre outros veleiros, apresenta a imagem da Sagres.
A presença da Sagres nestes portos vai ser, como sempre acontece, uma grande festa e um motivo de grande orgulho para a comunidade portuguesa e, por isso, esta viagem merece o nosso aplauso. Ou não fosse o navio-escola Sagres o nosso melhor embaixador.

O caso BES ainda vai mexer no meu bolso

Foram anunciados os nomes dos candidatos à compra do Novo Banco e, de acordo com o que foi noticiado, as ofertas vinculativas dos três candidatos - Anbang, Fosun e Apollo - dificilmente atingirão os 2,5 milhões de euros, o que significa que apenas será recuperado metade do montante de 4,9 milhões de euros que foi injectado pelo Fundo de Resolução, uma entidade recentemente criada e que por falta de fundos foi financiada pelo Estado. O tema faz hoje manchete no Jornal de Notícias e, naturalmente, é muito preocupante porque revela que o caso BES tem sido tratado com muita incompetência, alguma desfaçatez e muita mentira. É grave que os nossos dirigentes tratem os cidadãos dessa maneira.
Nos primeiros dias de Agosto do ano passado, depois do BES ter apresentado prejuízos históricos de 3,6 milhões de euros, o Banco de Portugal anunciou uma injecção de capital de 4,9 milhões de euros e a criação de um "banco mau" e de um "banco bom", que passou a chamar-se Novo Banco. A solução de financiamento encontrada foi um empréstimo do Estado ao Fundo de Resolução, a ser reembolsado pela venda do novo banco e pelo sistema bancário, onde se inclui a CGD. Muitas vozes se levantaram então contra o facto de, previsivelmente, os contribuintes portugueses virem a suportar uma boa parte dos custos do financiamento do BES, tal como já acontecera no caso do BPN. Lembremo-nos que duas semanas antes, de passeio pela Coreia, o Presidente da República tinha dito que “os portugueses podem confiar no BES”. Afinal não era verdade e aconteceu a intervenção. A Ministra das Finanças garantiu então que "os contribuintes não terão de suportar os custos relacionados com a decisão tomada hoje”, enquanto o Presidente da República veio considerar “totalmente errado” o que tem sido dito nos últimos dias sobre o BES e rejeitou que eventuais prejuízos na CGD, por causa do seu envolvimento no resgate, viessem a resultar num custo para os contribuintes. Agora, quando se sabe que apenas vai ser recuperado metade do dinheiro aplicado no BES, temos que perguntar ao Presidente da República e à Ministra das Finanças quem vai pagar o resto, isto é, ou não perceberam nada do que estava a acontecer ou quiseram enganar-nos. É que eles foram peremptórios a afirmar que os contribuintes não suportariam esses custos.

O nosso futebol morre ao chegar à praia

Na passada terça-feira à noite jogou-se em Praga a final do UEFA Under-21 Championship organizado pela UEFA, em que se defrontaram as selecções de Portugal e da Suécia. A partida terminou empatada mesmo depois do prolongamento, pelo que se recorreu à marcação de grandes penalidades para apurar a equipa campeã europeia de futebol para jovens com menos de 21 anos de idade. Ganhou a equipa sueca, pois marcou quatro vezes, enquanto os portugueses só marcaram três vezes. Como tantas vezes nos acontece no desporto, “morremos ao chegar à praia”. A selecção portuguesa tinha brilhado e era a única que não tinha perdido nenhum jogo, era a equipa que mais golos tinha marcado e a que menos golos sofrera. Deixara pelo caminho a Inglaterra, a Itália e a Alemanha. Praticava um futebol artístico, maduro e consequente que entusiasmava. As expectativas eram muito altas e a fome de êxitos futebolísticos era grande em Portugal. Parecia ser a grande oportunidade, mas não correu bem. O adversário não foi melhor, mas foi mais feliz. Tudo correu bem, menos os pontapés de grande penalidade.
Há duas semanas tinha acontecido o mesmo no FIFA U-20 World Cup New Zealand 2015, quando as grandes penalidades brasileiras nos afastaram das meias finais. Habituado a este tipo de situações também no hóquei em patins e no futebol de praia, o nosso público aceitou estes resultados com resignação. Com base na prestação dos futebolistas no UEFA Under-21 Championship, uma equipa de observadores técnicos da UEFA escolheu a formação ideal do campeonato: um alemão, um inglês, um dinamarquês, três suecos e cinco portugueses e, além disso, escolheu um português como o melhor jogador do torneio. Uma pequena consolação. A Suécia delirou e os jogadores foram recebidos numa apoteose nunca vista naquelas terras. Todos os principais jornais suecos destacaram a vitória da sua equipa como a grande notícia do dia, ilustrando-a com fotografias a seis colunas nas suas primeiras páginas. Um deles foi o Kvällsposten, que se publica em Malmö. Imaginemos que o resultado tinha sido diferente e imaginemos o que fariam os nossos jornais.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Publicidade institucional de gama alta

O Grupo José de Mello Saúde tem uma intervenção muito importante no sector da saúde em Portugal, ao gerir dois hospitais públicos em regime de PPP e 14 unidades de saúde privadas, incluindo 5 hospitais e, segundo anuncia, dispõe de um total de 1430 camas, realiza mais de 1,8 milhões de consultas por ano e mais de 500 mil urgências. O Grupo iniciou a sua actividade em 1945 com vocação para a prestação de cuidados de saúde aos 80 mil empregados do Grupo CUF e seus familiares, o que significa que completou agora 70 anos de idade. O tempo correu e as circunstâncias alteraram-se, mas o Grupo conserva uma estrutura familiar herdada do seu fundador e, por isso, os seus principais dirigentes decidiram celebrar essa data e, entre outras iniciativas, encomendaram uma campanha de publicidade institucional à agência BAR.
Essa campanha publicitária que tem aparecido na imprensa, mas também em mupis e cartazes espalhados pela cidade de Lisboa, é muito criativa e parece cumprir o objectivo de dar notoriedade, valorizar a imagem e reforçar a confiança na marca. Não anuncia bens nem serviços. Partindo da mensagem “a prática faz a perfeição”, a campanha utiliza como protagonistas alguns dos próprios médicos do Grupo CUF. Assim, escolheu seis médicos especialistas que representam a experiência acumulada do corpo clínico das unidades CUF, cujas imagens mostram diferentes momentos da sua vida profissional. Entre esses dois momentos do passado e da actualidade, que são atestados por fotografias, a mensagem quantifica as milhares de intervenções cirúrgicas de todos os tipos ou partos assistidos que justificam “a experiência acumulada” e a confiança dos utentes e da sociedade em geral. 
É uma grande campanha de publicidade institucional, isto é, não apela ao consumo como faria a publicidade comercial, mas reforça a reputação e a credibilidade da instituição e, consequentemente, a confiança dos seus utentes.

O escândalo dos tachos para os amigos

A última edição do semanário Expresso destaca como principal notícia a reabertura de embaixadas para colocar alguns amigos instalados nos gabinetes ministeriais e indica nomes, destinos e padrinhos dos beneficiados. A notícia revela o escandaloso comportamento de alguns governantes que tinham imposto uma severa austeridade aos portugueses, com cortes de salários e de pensões, com muito desemprego e com muita pobreza e que, entre outras medidas de aperto, até tinha encerrado embaixadas e missões diplomáticas para poupar na despesa pública. Agora, sem olhar ao despesismo desnecessário, o governo decidiu reabri-las para nelas colocar os amigos. Cada um deles com remunerações directas e indirectas que vão para além dos cinco dígitos! Isso é que são tachos! É lamentável que o Primeiro-Ministro e o Ministro dos Negócios Estrangeiros utilizem o dinheiro dos meus impostos para beneficiar os seus amigos e fiéis servidores, com lugares em Madrid e Paris, em Bruxelas e Nova Iorque, sem que tais postos se justifiquem. Obviamente que Passos e Machete, que deviam ser um exemplo de contenção e parcimónia, abusam dos seus cargos. É um verdadeiro escândalo o que aqueles governantes estão a fazer, ao assegurar tachos aos amigos. É um velho hábito lusitano e, apesar de estar bem diagnosticado desde há muitos anos, parece que ninguém resiste a esse pecado original de arranjar tachos para pagar fidelidades.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A martirizada Aleppo é a nova Sarajevo

A última edição do semanário Tempi, que se publica em Milão e cuja linha editorial é de orientação católica, destaca uma reportagem sobre Aleppo, a segunda maior cidade da Síria, que inclui uma entrevista com o Vigário Apostólico de Aleppo dos Latinos, Dom Georges Abou Khazen.
Aleppo que já foi motor económico da Síria é hoje "a Sarajevo do século XXI", como se lhe referiu o cardeal Angelo Scola. Desde o Verão de 2012 que a cidade está sob os efeitos da guerra e está dividida: na parte oeste que é controlada pelo governo sírio vivem cerca de dois milhões de pessoas, incluindo cerca de 25 mil cristãos, enquanto na parte leste que é dominada pelos jihadistas da Frente Al-Nusra, próxima da Al Qaeda, vivem 300 mil pessoas.
A parte oeste de Aleppo está realmente cercada e a população vive aterrorizada com água uma vez em cada cinco ou dez dias e electricidade apenas duas horas por dia. Os bombardeamentos são diários e são cada vez mais intensos.
O Papa e os bispos católicos lançaram um apelo à comunidade internacional para que intervenha para acabar com o conflito, mas o Vigário Apostólico de Aleppo afirma, na entrevista ao Tempi: “penso che l’opinione pubblica occidentale sia indifferente alla nostra sorte, al contrario dei governi occidentali, che hanno causato questo dramma”. Trata-se de uma declaração insuspeita, feita por alguém que vive o quotidiano da guerra em Aleppo oeste, que revela quem são os senhores da guerra e quem são os responsáveis por este drama. Dom Georges não hesita em nomeá-los - Estados Unidos, Arábia Saudita, Turquia, França. São estes os países que, segundo o Vigário Apostólico de Aleppo dos Latinos, fornecem “armas cada vez mais pesadas e letais, além de combatentes e treino militar e ideológico”.
Um caso triste que envergonha a Humanidade e, sobretudo, os dirigentes comprometidos neste drama como estão americanos, franceses e muitos outros falcões.

domingo, 28 de junho de 2015

Grécia: há sempre alguém que resiste

As relações entre a Grécia e as chamadas instituições credoras estão demasiado tensas e parece que já entramos “em águas nunca dantes navegadas”, como disse Mário Draghi. Ninguém quer assumir a ruptura mas, de facto, ela já aconteceu. As instituições não cedem e os gregos não aceitam repetir os mesmos caminhos que durante cinco anos lhes foram impostos e que os levaram à dramática situação em que se encontram, estando a dar um exemplo de luta contra a prepotência e a arrogância das instituições e dos seus burocratas. No entanto, é bom lembrar que os gregos têm uma longa tradição de resistência e recordemos que, há cerca de 25 séculos, os poderosos exércitos persas invadiram a Grécia mas foram derrotados por Milcíades na batalha de Maratona e que, alguns anos depois, os mesmos exércitos de Xerxes regressaram para conquistar toda a Grécia, mas foram derrotados no desfiladeiro das Termópilas pelo Rei Leónidas de Esparta. Significa que, desde então e ao longo da História, os gregos sempre deram provas de grande resistência aos invasores. Os tempos mudaram e agora os invasores têm comportamentos mais sofisticados, pois já não enviam exércitos como fez Adolfo Hitler durante a 2ª Guerra Mundial, mas actuam na clausura dos gabinetes e no secretismo das reuniões, só passando para o exterior aquilo que eles próprios entendem ser útil para manipular as opiniões públicas e para atingir os seus desígnios pessoais. Wolfgang Schäuble, Jeroen Dijsselbloem e Christine Lagarde, têm sido os rostos da intransigência dos credores e da prepotência dos mercados, cujo objectivo é humilhar a Grécia (e todas as outras “grécias” que queiram despontar) e impor-lhe mais austeridade, mais sacrifícios e mais empobrecimento, isto é, prosseguir as desastrosas políticas que conduziram à recessão económica, ao desemprego e à tragédia social que é hoje a situação grega. Ameaçam e chantageiam. Parecem uma alcateia de lobos esfomeados à volta de uma presa enfraquecida, endividada e humilhada. Nunca se tinha ido tão longe. Os governantes gregos reagiram democraticamente, não aceitaram o diktat das instituições, resistiram e decidiram interrogar o seu povo soberano, os seus eleitores. A sua coragem impressionou os burocratas, muito habituados aos “bons alunos” subservientes. Tsipras e Varoufakis são mesmo uns valentes e defendem os interesses da Grécia. Merecem o respeito, mesmo daqueles que não concordam com eles. Ocorre-nos a “Trova do Vento que Passa”, o poema de Manuel Alegre que nos inspirou contra a prepotência do Estado Novo e que bem se ajusta aos corajosos dirigentes gregos:
           “Mesmo na noite mais triste / Em tempos de servidão 
           Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz não”.
 

sábado, 27 de junho de 2015

Jorge Sampaio foi distinguido pela ONU

Um comité de selecção das Nações Unidas decidiu atribuir ao antigo Presidente Jorge Sampaio e à médica namibiana Helena Ndume o The 2015 United Nations Nelson Rolihlahla Mandela Prize, um prémio atribuído pela Assembleia Geral da ONU apenas de cinco em cinco anos para distinguir duas personalidades, uma masculina e outra feminina de diferentes continentes, que "dedicaram as suas vidas ao serviço da Humanidade, promovendo as finalidades e os princípios das Nações Unidas". O prémio foi estabelecido em 2014 e foi atribuído este ano pela primeira vez.
A vida política de Jorge Sampaio é exemplar, desde os seus tempos de dirigente estudantil em que lutou contra a ditadura do Estado Novo, até aos seus tempos pós-presidenciais em que foi designado como o Alto Representante da ONU para a Aliança entre Civilizações, por nomeação directa do Secretário-geral da ONU. Entre essas duas balizas da sua vida política, Jorge Sampaio foi Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e Presidente da República, tendo apoiado muitas causas de grande relevância internacional como a independência de Timor-Leste e, mais recentemente, a chamada Plataforma Global de Assistência Académica de Emergência a Estudantes Sírios.
É, naturalmente, uma distinção de grande prestígio para Jorge Sampaio e para o nosso país que muito nos devia orgulhar, mas os nossos jornais e as nossas televisões quase não falaram neste assunto. A notícia não mereceu uma primeira página de jornal, nem tão pouco uma abertura de telejornal. Uma tristeza! Um exemplo da mediocridade e do sectarismo que tomou conta da comunicação social portuguesa.
Homens como este são raros e deviam ser mostrados à sociedade como um exemplo, num tempo em que faltam referenciais de altruísmo, de generosidade e de ética no serviço público. E fico-me por aqui...
 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Os filhos e os enteados do luso-desporto

Está a decorrer em Baku, no Azerbaijão, a primeira edição dos Jogos Europeus, uma competição desportiva que se disputa de 12 a 28 de Junho e que se destina a atletas europeus. O evento reproduz os Jogos Olímpicos a uma escala europeia e nele estão presentes cerca de seis mil atletas que representam cinquenta Comités Olímpicos que competem em vinte modalidades. Como se tem visto pela televisão, a organização tem sido muito eficiente e muito profissional, o que contribui para a promoção deste país do Cáucaso, cuja principal riqueza é... o petróleo.
Até ao momento, os atletas portugueses conquistaram 9 medalhas, das quais três de ouro, o que posiciona o nosso país no 16º lugar no ranking das medalhas. É um resultado muito satisfatório, até porque a nossa tradição desportiva nas chamadas modalidades olímpicas é pouco competitiva. A última dessas medalhas foi obtida pela judoca Telma Monteiro, que ganhou a sua prova de -57 Kg e que, dessa forma, se tornou pentacampeã europeia de judo.
Antes desta vitória de Telma Monteiro, os portugueses já tinham ganho 2 medalhas de ouro no ténis de mesa e no taekwondo, 4 medalhas de prata no tiro, no triatlo e na canoagem e 2 medalhas de cobre no taekwondo e nos saltos de trampolim. A comunicação social portuguesa noticiou estes resultados mas não lhes deu qualquer destaque, pelo que os atletas que eram desconhecidos do público continuaram a ser desconhecidos, até porque os jornais desportivos se interessam apenas por treinadores e jogadores de futebol. Inversamente, os jornais portugueses de referência destacaram hoje a vitória de Telma Monteiro, talvez por ter boa notoriedade desportiva, ou por ser "atleta de alta competição", ou por ser do Benfica ou porque beneficia dos favores do jornalismo. Acho bem, mas pergunto porque não fizeram isso ao Rui Bragança, ao João Geraldo, ao Marcos Freitas e ao Tiago Apolónia que também ganharam ouro? E ao Fernando Pimenta, ao João Silva e ao João Costa que conquistaram medalhas de prata? E à Beatriz Martins, à Ana Rente e ao Júlio Ferreira que trouxeram medalhas de cobre? É que, até no desporto, uns são filhos e outros são enteados, isto é, os nossos jornais e os nossos jornalistas estão quase sempre ao lado dos mais poderosos, dos mais fortes, dos mais conhecidos e dos mais populares.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Moçambique: 40 anos de independência

Lourenço Marques, Estádio da Machava, 25 de Julho de 1975
Foi há 40 anos que, numa noite de chuva torrencial, um marinheiro português arriou a bandeira nacional no Estádio da Machava na cidade de Lourenço Marques,  sendo içada depois a bandeira da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). Passados 477 anos sobre os primeiros contactos de Vasco da Gama com a “terra da boa gente” (Inhambane) e com o “rio dos bons sinais” (Quelimane), estava consumada a independência da República Popular de Moçambique.
A guerra em Moçambique que tantos de nós conhecemos, tinha sido muito dura, mas não foi longa. O dia 25 de Setembro de 1964 é considerado como a data de início da luta armada de libertação nacional com o ataque ao posto administrativo do Chai (província de Cabo Delgado) e o dia 7 de Setembro de 1974 é considerado como a data do fim da guerra com a assinatura em Lusaca de um acordo de cessar-fogo.
No dia 12 de Setembro de 1974 chegou a Moçambique o novo Alto-Comissário Vítor Crespo como representante da soberania portuguesa e, poucos dias depois, foi formado um Governo de Transição chefiado por Joaquim Chissano, que incluia ministros designados por Portugal e por Moçambique. A formalização da independência ficou acordada para o dia 25 de Junho de 1975, a data do 13º aniversário da fundação da Frelimo.
E assim sucedeu. A cerimónia de declaração da independência moçambicana realizou-se no Estádio da Machava na data prevista, com toda a dignidade e com a presença das autoridades portuguesas, como o Alto-Comissário, o Primeiro-Ministro de Portugal e os responsáveis máximos dos partidos políticos portugueses de então (Mário Soares pelo PS, Magalhães Mota pelo PPD, Álvaro Cunhal pelo PCP e Pereira de Moura pelo MDP/CDE). Samora Machel, o Presidente da Frelimo e futuro Primeiro-Ministro de Moçambique, fez então uma declaração, entusiasticamente recebida pela população:
“Moçambicanas! Moçambicanos! Operários! Camponeses! Combatentes! Povo Moçambicano! Em vosso nome, às zero horas de hoje, 25 de Junho de 1975, o Comité Central da Frelimo proclama solenemente a independência total e completa de Moçambique e a sua constituição como República Popular de Moçambique”.
Assim se iniciou a nova vida de Moçambique que, 40 anos depois, aqui se evoca!