terça-feira, 7 de junho de 2022

A história do galeão espanhol San José

Iván Duque, o presidente da República da Colômbia anunciou ontem que uma equipa especializada da Marinha colombiana tinha conseguido localizar e filmar, a cerca de 600 metros de profundidade, os destroços do galeão espanhol San José, afundado em 1708 nas proximidades de Cartagena das Índias na batalha de Barú por acção de navios ingleses. Durante a batalha foram atingidos os paióis da pólvora do San José que explodiu, salvando-se apenas onze dos seus seiscentos tripulantes e passageiros.
O galeão San José tinha sido construído em 1698 no País Basco, tinha três mastros e 64 canhões e estava carregado com ouro, prata, esmeraldas e outras riquezas, que actualmente se avaliam em 17 mil milhões de dólares.
O interesse pelo San José e pelas riquezas que transportava é muito antigo e teve muitos interessados, mas os seus destroços só terão sido localizados em 1981 por uma organização caça-tesouros denominada Sea Search Armada. No entanto, entre promessas e compromissos, o governo colombiano acabou por não aceitar a proposta de repartição do espólio e não autorizou as operações para a sua recuperação. Mais tarde, em 2015, também a Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI), um centro de pesquisas americano privado e, estatutariamente, sem fins lucrativos, se interessou pelo San José. A Espanha também mostrou interesse no assunto, “solo para honrar el cementerio de los marinos españoles”. Porém, só agora e após a localização dos destroços pela Marinha colombiana é que a Colômbia reivindicou o galeão San José como parte do seu património submerso, estando constitucionalmente obrigada a proteger e preservar o navio e todo o seu conteúdo, tendo classificado a sua exacta localização como segredo de Estado. Para trás fica um enorme contencioso entre o governo colombiano e várias organizações caça-tesouros, mas para a frente poderá estar um case study no que respeita à defesa e protecção do património submerso contra a sua delapidação por estes corsários dos tempos modernos.
O jornal El Universal que se publica em Cartagena das Índias, destaca hoje essa notícia e ilustra-a com várias fotografias.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Nadal ganha e a Espanha entra em euforia

A selecção nacional de futebol ganhou ontem à Suiça por 4-0, mas podiam ter sido mais golos, pois os atacantes portugueses estiveram muito perdulários. A imprensa desportiva portuguesa entusiasmou-se com a vitória e o Cristiano Ronaldo, que marcou dois golos e falhou alguns mais, voltou a ver a sua fotografia nas primeiras páginas dos jornais portugueses e a ouvir os elogios de que já não estava habituado. Um jornal desportivo português até escolheu o título "Ronaldo infinito", o que é simplesmente despropositado.
Porém, o grande acontecimento desportivo de ontem foi a vitória de Rafael Nadal no Torneio de Roland Garros, o famoso torneio de ténis que se realiza em Paris desde 1891, pois foi a 14ª vez que Nadal venceu esta prova, o que é verdadeiramente notável. Com este triunfo, Rafael Nadal passou a ter 22 vitórias nos torneios do Grand Slam (Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e US Open), o que supera os vinte troféus conquistados pelo suiço Roger Féderer e pelo sérvio Novak Djokovic. 
A imprensa espanhola tratou este sucesso de Nadal com uma enorme euforia e, se nos últimos dias a imprensa britânica só viu a Rainha Isabel, agora é a imprensa espanhola que só vê o Rei Rafael. 
O jornal El País, que é uma referência internacional do jornalismo, publicou uma fotografia de Rafael Nadal a toda a largura da sua primeira página, em homenagem àquele que será o maior atleta espanhol de todos os tempos e que aos 36 anos de idade promete que vai continuar a procurar vitórias.

sábado, 4 de junho de 2022

Os 100 dias de brutal guerra na Ucrânia

A guerra na Ucrânia chegou ao seu centésimo dia e continuamos a saber pouco sobre o que se passa no terreno. Há muitas informações contraditórias e cada uma das partes afirma que vai ganhar a guerra, mas hoje é evidente que são as duas superpotências que se defrontam numa guerra por procuração, como mostra a recente declaração de Antony Blinken a pedir a Vladimir Putin que cesse imediatamente o conflito.
Enquanto isto, as televisões massacram-nos com directos e com demasiados comentadores que pouco nos esclarecem. O rigor e a exactidão, bem como muitas outras regras deontológicas, são grosseiramente ignoradas. Não se percebe onde acaba a notícia e começa a opinião, nem se distingue claramente o que é informação e o que é propaganda. Chama-se a isto a batalha da informação que, aparentemente, é tão violenta quanto a guerra das armas e dos tiros.
As opiniões públicas, tal com as partes directamente envolvidas no conflito, parecem estar cansadas da guerra e das suas consequências na vida das comunidades.
Durante muitas semanas, aqui desejamos o fim da guerra, um cessar-fogo e o início de negociações, mas as últimas semanas mostraram que esse cenário está mais difícil. Os russos intensificaram o seu assalto ao Donbass, enquanto os americanos disponibilizaram aos ucranianos mais um pacote de armamento, com mísseis antitanque Javelin, mísseis antiaéreos Stinger, artilharia pesada e rockets de precisão, radares, drones, helicópteros Mi-17 e munições, embora Joe Biden e Antony Blinken tenham avisado os ucranianos de que aquele material apenas deve ser usado no campo de batalha da Ucrânia. Perante este anúncio, os russos vieram afirmar que os Estados Unidos estão deliberadamente a deitar gasolina para a fogueira.
Significa, portanto, que será entre Washington e Moscovo que a guerra se vai resolver e que as outras partes, incluindo a União Europeia e a Ucrânia, pouco terão a dizer. Isso mesmo se pode concluir da primeira página da edição de ontem do jornal francês Le Parisien, a propósito do 100º dia de guerra, ao publicar a fotografia de Volodymyr Zelensky e o título - héroïques… jusqu’à quand? – insinuando que a resistência ucraniana durará enquanto  os Estados Unidos estiverem dispostos a apoiá-la. Porém, nestas coisas não são as amizades nem as alianças que contam, mas apenas os interesses...

sexta-feira, 3 de junho de 2022

O Reino Unido em festa por Isabel II

O Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, ou simplesmente Reino Unido, está a celebrar o Jubileu de Platina da Rainha Isabel II com um vasto conjunto de cerimónias que comemoram os setenta anos do seu reinado. Essas cerimónias decorrerão em muitas cidades das ilhas Britânicas e nos 54 países membros da Commonwealth e, segundo foi anunciado, será realizado “um show espectacular, único numa geração, que combinará o melhor do esplendor da realeza britânica com a arte e as tecnologias de ponta”. A imprensa britânica esqueceu a guerra da Ucrânia, as excentricidades de Boris Johnson e os desvios protocolares de alguns filhos e netos de Isabel II, para se concentrar no elogio da Rainha de 96 anos de idade, a quem não tratam por Her Majesty, porque preferem, com muito afecto, tratá-la apenas por Ma’am.
Ninguém, mesmo aqueles que não gostam das realezas nem dos regimes monárquicos, fica indiferente a esta rainha que trabalhou com catorze primeiros-ministros, que conheceu treze presidentes dos Estados Unidos e quatro Papas, que visitou mais de cem países, com destaque para o Canadá e a França, que visitou 22 e 13 vezes, respectivamente.
Isabel II subiu ao trono em 1952 por morte do seu pai Jorge VI e, em Fevereiro de 1957 visitou Portugal. Foi há 65 anos e eu estive à beira da estrada por onde ela passava e via-a a acenar de dentro da sua viatura, num tempo em que ainda não havia televisão. Ela gostou do país e voltou em 1985. Quem sabe se não veio em penitência pelos males feitos pela sua antepassada Isabel I e os seus corsários, que tantas desgraças nos trouxeram... mas isso são coisas de finais do século XVI.
Como se referiu, toda a imprensa britânica destaca as cerimónias do Jubileu da Rainha e publica a sua fotografia, designadamente com a família real na varanda do Palácio de Buckingham, mas são muito raros os jornais estrangeiros que destacam a festa britânica. Um deles é um jornal francês de Nancy e, curiosamente, chama-se L’Est Républican, o que significa que até os jornais republicanos têm apreço pela figura de Isabel II.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Aplauso pelo novo Museu do Tesouro Real

Foi inaugurado na tarde de hoje com a devida pompa, o novo Museu do Tesouro Real que está instalado na nova ala do Palácio da Ajuda em Lisboa e que será aberto ao público a partir de amanhã. Desta forma se concretiza uma ideia antiga que era a de expor ao público as jóias da Casa Real portuguesa, muitas das quais nunca foram mostradas e que, nalguns casos, estiveram guardadas em cofres durante muitas dezenas de anos. Trata-se, portanto, de um grande acontecimento cultural que só pode orgulhar os portugueses, que a edição do jornal Público justamente destacou.
O novo museu representa um investimento de 31 milhões de euros, que foi financiado por uma parceria em que participaram o Ministério da Cultura, a Câmara Municipal de Lisboa e a Associação do Turismo de Lisboa, podendo afirmar-se que é menor do que o investimento que fazem muitos clubes de futebol portugueses com a compra futebolistas.
Das notícias divulgadas destacam-se as informações relativas aos aspectos museológicos, uma vez que a exposição permanente começou a ser pensada há seis anos por uma equipa de especialistas, mas também à segurança do conteúdo expositivo. Este foi, porventura, o maior desafio para o projecto de arquitectura da nova ala do Palácio da Ajuda, inacabada há 226 anos. Nele está “incrustada” uma caixa-forte que é uma das maiores do mundo, com 40 metros de comprimento por 10 de largura e 10 de altura. A caixa-forte dispõe de duas portas blindadas de 5 toneladas cada uma, à entrada e à saída. Quando estas portas estão abertas, a entrada e a saída na caixa-forte é protegida por portas com vidros à prova de bala. Para entrar no Museu do Tesouro Real os visitantes terão de passar por um controlo de segurança semelhante aos dos aeroportos, que é inédito nos museus portugueses.
A caixa-forte guarda de forma permanente 736 peças, entre as quais a Coroa Real mandada fazer por D. João VI, bem como 22 mil pedras das quais 18 mil são diamantes, mas o conteúdo das 76 vitrinas da exposição, que também estão protegidas por vidros à prova de bala, contém inúmeras e belas peças a a guardar a nossa contemplação.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Um novo cardeal para a Igreja de Goa

A edição de hoje do jornal oHeraldo, um diário que foi fundado em Goa no ano de 1900 e que até 1983 se publicou em língua portuguesa, anunciou com grande destaque que o Arcebispo Filipe Neri Ferrão vai ser elevado a cardeal pelo Papa Francisco, no consistório marcado para o próximo dia 27 de Agosto.
Filipe Neri António Sebastião do Rosário Ferrão é natural de Goa onde nasceu em 1953, quando aquele território estava sob soberania portuguesa, tendo enveredado pela vida religiosa e pelo catolicismo, num país maioritariamente hindu. Foi sacerdote em várias paróquias de Goa e estudou em Itália e na Bélgica. Em 1994 o Papa João Paulo II escolheu-o para Bispo Auxiliar de Goa e Damão e, em 2004, nomeou-o Arcebispo de Goa e Damão, o mais antigo arcebispado da Ásia que tinha sido criado em 1557, com direito ao título honorífico de Patriarca das Índias Orientais, a que aquela diocese tinha sido elevada em 1886.
O Arcebispo Filipe Neri Ferrão fala fluentemente várias línguas, entre as quais o português, tendo presidido às cerimónias de Fátima em Outubro de 2014. A sua escolha para o Cardinalato deve ter sido recebida euforicamente pelos católicos de Goa, numa altura em que o catolicismo já não é a religião maioritária naquele estado e em que há tensões religiosas em alguns estados indianos vizinhos. 
A comunidade católica goesa que vive em Portugal também acolheu esta notícia com enorme alegria e eu, que conheço o homem de cultura e o amigo de Portugal que é o futuro cardeal, também aqui deixo o meu aplauso à escolha do Papa Francisco. 

Sucessos e alegrias do desporto português

No passado fim-de-semana ocorreram alguns acontecimentos desportivos internacionais em que, a título colectivo ou individual, se destacaram alguns dos nossos compatriotas. Sou do tempo em que os portugueses, exceptuando o caso singular do hóquei em patins, só tinham vitórias morais e, por isso, estamos perante uma grande satisfação, sobretudo os que praticaram ou os que gostam de desporto.
No topo colocamos a vitória do Benfica sobre os alemães do Magdeburgo e a conquista da Liga Europeia de andebol ou EHF Champions League, improvável e inesperada, mas muito justa, que passa a constituir o maior feito da história do andebol português. É certo que a selecção portuguesa já em 2021 entrara definitivamente para a elite mundial do andebol com o 10º lugar no Mundial do Egipto e o 9º lugar nas Olimpíadas do Japão, mas a vitória benfiquista sobre os poderosos alemães é mesmo um feito desportivo histórico. Porém, no mesmo patamar de destaque, colocamos Fernando Pimenta, o canoísta português que tem duas medalhas olímpicas e que é, certamente, o maior atleta português de todos os tempos e que, num só dia, conquistou quatro medalhas de ouro na Taça do Mundo de Poznan em canoagem, ao vencer as provas de K1 500, K1 1000, K2 500 (com Teresa Portela) e K1 5000.
Porém, os atletas portugueses não tiveram só vitórias. A equipa de futebol sub-17 perdeu com a França na “lotaria dos penaltis” e foi afastada da final do UEFA Under 17 Championship, enquanto o ciclista João Almeida desistiu do Giro d’Italia quando lutava pelos primeiros lugares e foi apanhado pelo covid-19.
Foi, portanto, um fim-de-semana com algumas boas alegrias desportivas, mas lamenta-se que a imprensa desportiva e não só, apenas se tivesse fixado nos êxitos do andebol e tenha ignorado Fernando Pimenta, João Almeida e os jovens futebolistas sub-17. A capa do jornal A Bola confirma o que se escreveu.

domingo, 29 de maio de 2022

O imparável Real Madrid ganhou outra vez

O Real Madrid bateu ontem o Liverpool na final da Liga dos Campeões da UEFA e conquistou o seu 14º troféu nesta prova, o que constitui um feito desportivo notável. A imprensa espanhola ficou eufórica e encheu as suas primeiras páginas com imagens dos festejos dos vencedores e com títulos como “Madrid eterno”, ou “Campeón infinito”, ou ainda, “El Real Madrid agiganta su mito”. Essa euforia é natural, porque traduz a expressão do entusiasmo popular dos madrilenos e da maioria dos espanhóis pela enorme supremacia futebolística do Real Madrid com os seus 14 títulos, claramente acima dos seus rivais que são o Milan com sete, o Liverpool e o Bayern de Munique com seis e o Barcelona com cinco.
Contrariamente à euforia da imprensa espanhola, a imprensa britânica ficou decepcionada e, nas suas edições de hoje, ignora a final da Liga dos Campeões da UEFA. No entanto, o jornal The Independent dá uma lição de desportivismo e fair play, ao publicar a fotografia dos festejos dos vencedores e ao destacar como título “Real Madrid end Liverpool’s dream”. 
Como nota de curiosidade relativamente a Portugal e aos portugueses, aqui se salienta que tanto o Benfica como o FC Porto venceram esta prova e este troféu por duas vezes cada um, enquanto Cristiano Ronaldo é o recordista da competição pelos 183 jogos que disputou e pelos 140 golos que marcou.

sábado, 28 de maio de 2022

Boston Common e Jardim das Bandeiras

A edição de hoje do jornal The Boston Globe publica uma interessante fotografia que mostra duas pessoas a passear por entre “a sea of more than 37,000 American flags”, como explica a respectiva legenda. 
A cena passa-se no Boston Common, um parque público da cidade de Boston com 20 hectares, que é considerado o mais antigo parque urbano dos Estados Unidos. Nele se encontra um pouco de tudo, desde jardins e espaços culturais, até equipamentos de diversões e espaços de memória para perpetuar figuras de referência, incluindo as sepulturas de grandes personalidades do estado de Massachusetts.
Desde 2010 que uma organização de voluntários criou um imponente jardim no interior do Boston Common, no qual foi instalado um Monumento aos Soldados e Marinheiros do estado de Massachusetts que deram a vida pelo país, desde a Guerra da Independência. Nesse jardim são anualmente colocadas 37.000 bandeiras americanas em memória dos mortos do estado de Massachusetts nas diferentes guerras em que participaram. Esta gigantesca operação é realizada por centenas de voluntários e acontece nas vésperas da última segunda-feira do mês, o dia em que é celebrado por todo o país o Memorial Day, um feriado em que se homenageiam os homens e as mulheres que morreram enquanto serviam nas Forças Armadas dos Estados Unidos. Segundo referem as notícias o espectáculo proporcionado pelas 37.000 bandeiras é imponente.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

A nau Victoria a fazer... História ao vivo

A cidade de Avilés é a terceira maior cidade do Principado das Astúrias e o seu porto é o segundo maior daquela região, logo a seguir ao porto de Gijón. Nos últimos dias tem estado atracada no porto a réplica da nau Victoria, que foi construída nos estaleiros da Isla Cristina, em Huelva, por ocasião da Exposição Universal de Sevilha de 1992.
A nau Victoria foi o navio em que Juan Sebastián de Elcano concluiu a primeira volta ao mundo em 1522, mas que antes tinha sido comandado por Duarte Barbosa, cunhado de Fernando de Magalhães e que lhe sucedera no comando da expedição após a sua morte em Abril de 1521, na ilha de Mactan.
A base da réplica da nau Victoria é o porto de Cádis, mas segundo refere o jornal La Voz de Avilés, “realmente, pocas veces está parado porque navega por Europa dando a conocer la gran hazaña de Magallanes y Elcano”. De facto, as actividades da réplica são destinadas a promover a epopeia espanhola e são geridas pela Fundación Nao Victoria. Assim, a réplica antes esteve na Corunha e, depois desta visita a Avilés, seguirá para Laredo, na Cantábria e, depois, para Bordéus, em França. Em setembro navegará para Sevilha, para estar presente nas cerimónias finais das comemorações dos 500 anos da volta ao mundo de 1519-1522. Naturalmente, a nau Victoria vai cumprindo a sua missão de promover a Espanha e estará aberta a visitas em todos os portos. No caso de Avilés as entradas custam 5 euros para adultos, 3 euros para jovens dos 5 aos 10 anos e 13 euros para famílias. É um caso de História ao vivo e de divulgação histórica, mas também de boa promoção, que se financiam a si mesmo, ou um caso de pay yourself first.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Sobre a cultura das armas e a violência

A edição de ontem do jornal Correio Braziliense destaca duas notícias alarmantes sobre a violência que se vai manifestando por esse mundo fora e que mostra que já não é apenas o que se passa na Ucrânia a encher-nos de preocupações, mas também outras situações que o jornal identificou como a “guerra no Rio” e o “massacre nos EUA”.
Os factos noticiados são os seguintes:
1. Uma operação policial realizada numa favela do Rio de Janeiro com o objectivo de prender os líderes de organizações criminosas que operam no Brasil, deixou 25 mortos no terreno.
2. Um jovem americano de origem hispânica com 18 anos de idade, chamado Salvador Ramos, entrou numa escola em Uvalde, uma pequena cidade americana nas proximidades da fronteira mexicana e matou a tiro 19 crianças e duas professoras.
Estes dois casos, embora diferentes nas suas motivações, chocaram o mundo e tiveram como denominador comum a violência, que é um problema demasiado complexo para ser analisado neste espaço. Porém, em ambos os casos estão presentes distorções sociais e actividades criminosas, designadamente o tráfico de drogas e o negócio das armas. No caso das armas, a permissividade da legislação americana é apontada como a grande responsável pela violência, estimando-se que 39% das famílias americanas tenham pelo menos uma arma em casa. Acontece que “entre 1968 e 2017, houve 1,5 milhão de mortes por arma de fogo nos EUA — o número é maior que o de todos os soldados americanos mortos nas guerras em que o país se envolveu desde a Guerra da Independência, em 1775”.
Desde há muitos anos que os presidentes dos Estados Unidos tentam travar esta violência e esta tragédia, mas o lobby da indústria do armamento é muito poderoso e a cultura das armas – produção, venda e uso – faz parte da mentalidade americana.

terça-feira, 24 de maio de 2022

Macau reabriu as portas aos portugueses

A epidemia de covid-19 afectou meio mundo e impôs restrições mais ou menos severas à vida das comunidades, perturbando a sua vida económica e cultural a uma escala quase global. No caso da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China essas restrições foram muito rigorosas e, desde Março de 2020, que as autoridades macaenses proibiam a entrada de não residentes, como medida de controlo e prevenção da covid-19.
Calcula-se que Macau tenha cerca de 650 mil habitantes dos quais haverá cerca de nove mil residentes com nacionalidade portuguesa, uma parte dos quais nasceu em Macau, uma outra parte permaneceu no território depois da transferência da soberania em 1999 e, outra parte, instalou-se mais recentemente. Para os portugueses não residentes, ou que não possuem o Bilhete de Identidade de Residente (BIR), a medida de proibição de entrada no território era uma enorme contrariedade, pois representava a separação de famílias e o abandono de muitos projectos.
Porém, as autoridades decidiram agora abrir as portas aos portugueses não residentes, que passam a poder entrar no território sem autorização prévia dos Serviços de Saúde macaenses, desde que nos 21 dias anteriores não tenham estado fora da China, de Hong Kong ou de Portugal. Esta medida é dirigida especificamente aos portugueses não residentes e significa a possibilidade de reunião familiar de muitas famílias, a retoma de projectos profissionais e académicos interrompidos desde há dois anos e até o renascimento do turismo português para Macau. Por isso, o jornal Hoje Macau saudou esta medida com uma expressiva saudação: bem-vindos a Macau!

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Houve festa a dobrar no futebol português

A época futebolística portuguesa terminou ontem com a realização da final da Taça de Portugal e, para quem gosta de futebol, vem aí um período monótono em que não teremos as emoções do futebol em directo nas televisões.
Ontem o Estádio Nacional estava cheio, havia muito entusiasmo e ambiente de festa e, segundo apuramos, nas equipas finalistas do FC Porto e do CD Tondela entraram em campo jogadores de doze diferentes nacionalidades, a mostrar que o futebol é uma indústria multinacional. Para além de portugueses e brasileiros, havia em campo jogadores espanhóis, franceses, argentinos, uruguaios, colombianos, sérvios, senegaleses, nigerianos, congoleses e azeris.
O jogo foi bem disputado e decorreu sem quaisquer sobressaltos. O FC Porto, que já triunfara no campeonato, também venceu esta final, o que significa que conquistou a dobradinha, nome por que os brasileiros designam as duplas vitórias. O jornal A Bola salienta que a festa foi a dobrar.
O futebol é um belo espectáculo quando é jogado por artistas e desperta profundas emoções, embora por vezes excessivas, mas tem a particularidade de ciclicamente satisfazer toda a gente pois há uma alternância de vencedores, isto é, uns anos ganham uns e nos anos seguintes ganham outros.
Embora venham aí os jogos da selecção nacional respeitantes à Liga das Nações, a disputa clubística e o futebol-paixão entram agora no defeso, embora cada clube comece já a pensar na próxima temporada e nos jogadores que vai vender ou comprar. Essa é a componente menos interessante do futebol porque suscita desvarios financeiros e conduz à assinatura de contratos verdadeiramente obscenos.

domingo, 22 de maio de 2022

Os imensos milhões para apoio à Ucrânia

António Costa, o primeiro-ministro de Portugal, foi à Roménia visitar os soldados portugueses, passou pela Polónia e foi a Kiev visitar o presidente Volodymyr Zelensky, como atesta a primeira página da edição de hoje do Público.
Fez o que está na moda e fez bem. Portugal não pode voltar aos tempos do “orgulhosamente sós”. Nas peregrinações a Kiev já se tinha destacado António Guterres, que até ouviu as explosões dos mísseis bem perto de si, mas os inúmeros políticos ocidentais que têm visitado Zelensky. As opiniões públicas nacionais gostam de ter políticos valentes, daqueles que não se cortam e, por isso, muitos têm cumprido essa missão. Agora foi a vez de António Costa. Marcelo já está à espreita…
A visita ao presidente ucraniano teve vários objectivos, mas o principal terá sido o interesse pessoal de António Costa em marcar presença no teatro mediático, que tem sido a apresentação das visitas de políticos europeus a Kiev. Com 60 anos de idade e com forte prestígio europeu, a fotografia do seu encontro com Zelensky vai ser-lhe indispensável para viabilizar o seu futuro político internacional. Para além disso, António Costa foi afirmar a solidariedade e a disponibilidade portuguesa para se juntar à reconstrução da Ucrânia, tendo já reservado o sector da reconstrução das escolas e jardins de infância, ao mesmo tempo que anunciou a concessão de um apoio financeiro de 250 milhões de euros. Nas redes sociais logo apareceram as críticas – “não há dinheiro para a educação e para a saúde, mas há dinheiro para a guerra”, ou “nós a rebentar pelas costuras e eles a fazerem-se de grandes” ou, ainda, “muito gostam os políticos de dar o que não é deles”. 
Hoje sabe-se pelo Kiel Institute for the World Economy que, só no primeiro mês da invasão, a Ucrânia recebeu 13 mil milhões de euros de ajuda humanitária, militar e apoio financeiro. Seguiram-se anúncios de muitos e muitos milhões. Os últimos foram anunciados pelos Estados Unidos e cifram-se em 40 mil milhões de dólares. Quando o Kiel Institute for the World Economy nos anunciar os montantes dos apoios até agora concedidos à Ucrânia vamos ficar estarrecidos, até porque muito desse dinheiro não irá chegar ao seu destino, nem aos seus destinatários.

sábado, 21 de maio de 2022

Ainda é possível a paz na Ucrânia?

Desde o dia 24 de Fevereiro que, em relação à invasão russa da Ucrânia, temos aqui defendido um cessar-fogo sob a égide das Nações Unidas, que conduza a negociações e à paz. Diversos mediadores juntaram as partes em confronto, trocaram-se prisioneiros e foram abertos corredores humanitários, mas como disse um ministro turco “há alguns países no seio da NATO que querem que a guerra na Ucrânia continue”, porque isso enfraquece e humilha a Rússia, mas também porque alimenta a indústria americana do armamento, nomeadamente a Lockeed Martin, a Raytheon Technologies, a General Dynamics e outros grandes tubarões. Há também quem defenda que a guerra só pode acabar com a derrota da Rússia como responsável pela invasão, mas há outros países que não escondem que se deve evitar humilhar a Rússia, até porque os lobos enfurecidos tendem a morder mais e ninguém pode ignorar as ameaças nucleares russas. Enquanto isto e depois de várias derrotas em Kiev e Kharkiv, a Rússia terá conseguido a sua primeira vitória em Mariupol. Assim, as duas partes já têm algumas vitórias registadas, pelo que poderão estar reunidas as condições para que russos e ucranianos ouçam os mediadores e se sentem à mesa de negociações, sem que se apresentem na condição de derrotados.
Porém, já foram acumuladas tantas provocações, insultos e acusações que, na sua última edição, o Courrier international pergunta se a paz ainda é possível. Sem ser especialista, atrevo-me a dizer que a paz tem que ser possível, porque a alternativa à paz é sempre catastrófica, não só para a Ucrânia e para os ucranianos, mas também para a Europa e até para o mundo.
Entretanto, já há muita gente a quem a dor ucraniana pouco interessa e que recorre à famosa análise SWOT, tratando a guerra como uma oportunidade e procurando posicionar-se para fazer negócios no futuro.