sexta-feira, 12 de maio de 2023

Timor-Leste, a ASEAN e o Sudeste Asiático

A Associação das Nações do Sudeste Asiático, ou ASEAN, é uma organização de carácter regional criada em 1967 com o objectivo de promover a cooperação económica e de segurança entre os seus dez membros: Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Myanmar, Filipinas, Singapura, Tailândia e Vietnam. No seu conjunto, os países da ASEAN têm cerca de 662 milhões de pessoas e, por isso, a organização tem tido um papel importante na integração económica asiática, inspirando-se no modelo adoptado pela União Europeia.
Entre os dias 9 e 11 de Maio, a ASEAN realizou a sua 42ª Cimeira na estância indonésia de Labuan Bajo, situada no extremo oeste da ilha das Flores, na província de Nusa Tenggara Timur, com a curiosidade desta ilha ter sido uma “possessão portuguesa” até 1856, data em que foi vendida aos holandeses por 200 mil florins…
O anfitrião foi o presidente da Indonésia Joko “Jokowi” Widodo, que defendeu a união entre os membros da organização para que a região seja pacífica, estável e próspera, mas também para se afirmar como uma voz a ser escutada numa região muito sensível e muito disputada. Por razões relacionadas com o golpe militar e a crise institucional por que o país passa desde então, o Myanmar não participou na Cimeira, mas em contrapartida esteve presente Timor-Leste, o jovem país do sol nascente ou lorosae.
Timor-Leste solicitou oficialmente a adesão à ASEAN em 2011 e em 2022 foi admitido, em princípio, como o 11º membro da organização. Nesse sentido, uma delegação timorense que incluía o primeiro-ministro Taur Matan Ruak e a ministra dos Negócios Estrangeiros Adaljiza Xavier Magno, deslocou-se a Labuan Bajo num Airbus 320 da companhia timorense Aero Dili para participar na 42ª Cimeira da ASEAN. Segundo o relato do jornal The Jakarta Post os governantes de Timor-Leste tiveram a oportunidade de manter encontros bilaterais com os seus homónimos da ASEAN, potenciando o aprofundamento das relações de cooperação bilateral e multilateral.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Um bom exemplo vindo da Extremadura

No próximo dia 28 de Maio vão realizar-se eleições autárquicas e regionais em doze das dezassete comunidade autónomas espanholas: Aragão, Astúrias, Baleares, Canárias, Cantábria, Castilla-La-Mancha, Comunidade Valenciana, Extremadura, La Rioja, Madrid, Múrcia e Navarra, assim como nas cidades autónomas de Ceuta e Melilla. Com estas eleições autárquicas e regionais completa-se o ciclo eleitoral local e regional espanhol, uma vez que essas eleições já foram realizadas nas outras cinco comunidades autónomas.
Esperam-se grandes lutas eleitorais e as sondagens apontam para uma quebra eleitoral ou mesmo a perda de alguns dos nove governos dominados pelos socialistas do PSOE, sozinhos ou em coligação. Um desses casos acontece com a comunidade autónoma da Extremadura, que inclui as províncias de Cáceres e de Badajoz e que corresponde a grande parte do território da antiga província romana da Lusitânia. Apesar de todas as diferenças ideológicas e das rivalidades que separam as várias candidaturas, o jornal el Periódico de Extremadura, que se publica em Cáceres, conseguiu reunir os candidatos cabeças-de-lista das quatro principais cidades estremenhas que aspiram ser eleitos alcaldes de Cáceres, Badajoz, Plasencia e Mérida. São dez candidatos por Cáceres e por Badajoz, mais oito candidatos por Plasencia e por Mérida, isto é, são 36 homens e mulheres candidatos a alcalde, que se deixaram fotografar conjuntamente e que, por alguns momentos, proporcionaram uma feliz imagem do que é a Democracia – igualdade, liberdade, diversidade.
Estes cidadãos irão concentrar-se na defesa das suas ideias e procurar o voto dos eleitores, provavelmente sem recorrer a ataques pessoais, como por aqui acontece tantas vezes. 
Uma excelente e muito pedagógica iniciativa do jornal de Cáceres!

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Há nuvens cinzentas nos céus da Turquia

No próximo domingo a Turquia vai realizar as eleições presidenciais e as eleições parlamentares, mas os dois principais candidatos presidenciais que são Recep Tayyip Erdoğan e Kemal Kılıçdaroğlu, estão muito próximos nas sondagens, pelo que a incerteza quanto ao resultado é a única certeza.
As eleições turcas são muito importantes, porque a Turquia é um país cuja superfície é o dobro da Alemanha e tem cerca de 75 milhões de habitantes, tendo uma parte do seu território na Europa (3,3%) e outra parte na Ásia (96,7%). O país pertence à NATO desde 1952, é candidato à União Europeia e tem desempenhado um papel muito activo no actual conflito da Ucrânia, mantendo contacto com os dois lados.
O actual presidente Recep Tayyip Erdoğan foi eleito em 2014 e, após um referendo constitucional realizado em 2017, o regime turco tornou-se presidencialista e Erdoğan teve os seus poderes alargados, pois também passou a chefiar o governo. Em 2018 foi reeleito para o actual mandato, pelo que a oposição contestou que pudesse concorrer a um terceiro mandato nas actuais eleições, uma vez que a Constituição turca só aceita dois mandatos presidenciais. O Conselho Superior Eleitoral rejeitou os protestos da oposição e aceitou a candidatura de Erdoğan, considerando que o presidencialismo turco se iniciou em 2018.
A poucos dias das eleições a incerteza é completa. A revista francesa Le Point, destacava que a Turquia pode estar perante “l’autre Poutine”, dadas as semelhanças políticas entre ambos, enquanto a mais recente edição da revista L’Express aborda a questão turca e lembra “le risque du chaos”, como aconteceu com algumas turbulências que se seguiram às primaveras árabes que afectaram a região. O facto é que tanto Recep Tayyip Erdoğan como Kemal Kılıçdaroğlu representam o sonho turco de afirmar o país como a potência regional. Porém, há uma dúvida que apoquenta muita gente: se perder, será que Erdoğan abandona o seu cargo pacificamente? E será que a oposição turca aceita a derrota se Kılıçdaroğlu perder?
Há realmente nuvens cinzentas nos céus da Turquia.

terça-feira, 9 de maio de 2023

António Guterres com o Prémio Carlos V

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, receberá esta manhã o Prémio Europeu Carlos V no Mosteiro de San Jerónimo de Yuste, numa cerimónia presidida pelo rei Filipe VI e a que assistirão o presidente e o primeiro-ministro de Portugal. O prémio foi-lhe atribuído pela Fundação Academia Europeia e Ibero-americana de Yuste que, desde 1995, homenageia o trabalho de pessoas, organizações, projectos ou iniciativas que, com o seu esforço e dedicação, tenham contribuído para o conhecimento geral e valorização dos aspectos culturais, sociais, científicos e dos dados históricos na Europa, bem como do processo de construção e integração europeia, representando o espírito de construção de uma Europa unida, justa, igualitária e livre.
O prémio atribuído a António Guterres fundamenta-se na "su acreditada, amplia y larga trayectoria de vida dedicada al compromiso social, el proceso de construcción europea, la promoción del multilateralismo y la dignidad humana como núcleo de su trabajo, abordando retos y crisis globales".Hoje o jornal El País destaca a entrega deste prestigioso prémio a António Guterres e publica uma entrevista na qual reconhece as dificuldades para se encontrar a paz na Ucrânia e a ameaça que as alterações climáticas representam para a humanidade.
Até agora, os galardoados com o Prémio Carlos V foram os seguintes: Jacques Delors (1995); Wilfried Martens (1998); Felipe González (2000); Mijaíl Gorbachov (2002); Jorge Sampaio (2004); Helmut Kohl (2006); Simone Veil (2008); Javier Solana (2011); José Manuel Durão Barroso (2014); Sofia Corradi (2016); Marcelino Oreja Aguirre (2017); Antonio Tajani (2018); o projecto “Itinerários Culturais do Conselho da Europa” (2019), Angela Merkel (2021) e o Foro Europeu da Deficiência (2022), o que significa que três portugueses já receberam o Prémio Carlos V. Aqui fica o meu aplauso para António Guterres!

segunda-feira, 8 de maio de 2023

A salvaguarda do património de Macau

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) adoptou em 1972 a Convenção do Património Mundial, Cultural e Natural, com o objectivo de proteger os bens patrimoniais dotados de um valor universal excepcional. Porém, só em 1980 é que Portugal ratificou aquela convenção e, desde então, teve 17 sítios classificados que passaram a integrar a Lista do Património Mundial.
Actualmente a Unesco tem 1157 sítios do património material classificados, sendo 900 culturais, 218 naturais e 39 misturados, os quais se localizam em 167 países.
No ano de 2005 a Unesco classificou o Centro Histórico de Macau que passou a integrar a Lista do Património Mundial, pois “oferece um testemunho único do encontro de influências estéticas, culturais, arquitectónicas e tecnológicas do Oriente e do Ocidente”, destacando-se “as suas ruas históricas, edifícios residenciais, religiosos e públicos portugueses e chineses”, mas também uma fortaleza e um farol, que é o mais antigo da China.
Entretanto, o crescimento da volumetria do espaço urbano macaense e a ganância de alguns construtores macaenses, tornaram-se uma ameaça em relação aos princípios que norteiam as classificações da Unesco. Daí que, devido às pressões da organização sobre as autoridades locais, uma equipa de investigadores veio propor a redução da altura dos edifícios na área envolvente do farol da Guia, bem como a criação de sete “corredores visuais” para garantir que a integridade do farol fosse protegida. Hoje, o jornal Tribuna de Macau, mas também outros jornais macaenses destacaram esta notícia e publicaram a fotografia do farol da Guia, construído pelos portugueses em 1870.

domingo, 7 de maio de 2023

God save the King Charles III

A edição dominical do The Daily Telegraph, um tablóide publicado em Sydney pela News Corporation de Rupert Murdoch, é apenas um dos muitos jornais que hoje destacam a coroação de Carlos III como o novo rei do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e o novo chefe da Commonwealth, uma organização intergovernamental de 56 países, entre os quais há quinze, designadamente o Canadá e a Austrália, que o reconhecem como Chefe de Estado.
Charles Philip Arthur George, agora Carlos III, tem 74 anos de idade e sucede à rainha Isabel II, a sua mãe, que reinou durante mais de setenta anos e que, com 96 anos de idade, faleceu no passado dia 8 de setembro de 2022. Depois do prestígio da rainha Isabel II e da turbulência que o mundo atravessa, bem como a instabilidade política e social que perturba o Reino Unido, é enorme o desafio de Carlos III, até porque no número 10 de Downing Street não estarão figuras como Winston Churchill ou Margareth Thatcher.
A Monarquia é uma instituição de fortes raízes na sociedade britânica, embora haja alguns sectores minoritários que defendem que é tempo de promover a sua abolição. Depois do longo reinado de Isabel II, houve dúvidas sobre o futuro do sistema monárquico britânico, devido a alguns escândalos que têm envolvido a Família Real, mas a imponência do cerimonial da coroação de Carlos III e da rainha com sorte que tem 75 anos de idade e que antes se chamou Camila Parker Bowles, devem ter restituído uma boa parte do orgulho britânico em relação à sua Monarquia, o mesmo se verificando em vários países da Commonwealth.
Os britânicos é que sabem como querem organizar-se, isto é, se preferem o modo monárquico ou o modo republicano mas, a esta distância e esquecendo algumas malfeitorias que “os nossos velhos aliados nos fizeram”, associamo-nos à festa da Casa de Windsor e também dizemos: God save de King!

sexta-feira, 5 de maio de 2023

O Giro d’Itália e o 'nosso' João Almeida

A 106ª edição do Giro d’Itália arranca amanhã com uma etapa contra-relógio de 19,6 quilómetros, que vai ser corrida na costa adriática, entre a Marina de Fossacesia e a comuna de Ortona. A edição de hoje do jornal L’Équipe dedica uma alargada reportagem a esta clássica do ciclismo mundial que será disputada em 21 etapas e se estenderá por 3.449 quilómetros de vales e montanhas, terminando em Roma no dia 28 de Maio.
Em prova vão estar 176 ciclistas, entre os quais o esloveno Primoz Roglic e o belga Remco Evenepoel, que são os principais favoritos à vitória final, mas entre eles vai estar o português João Almeida, um jovem ciclista com 24 anos de idade que já se afirmou como um grande ciclista no pelotão internacional. Assim, para quem goste de ciclismo, nos próximos dias há a oportunidade de acompanhar o desempenho desportivo de João Almeida e, através das transmissões televisivas, apreciar a beleza das paisagens e das povoações italianas por onde passará o Giro d’Itália.
Em tempos de tantas incertezas internas e internacionais, o acompanhamento desta prova ciclista bem pode ajudar ao nosso desanuviamento.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Forte ventania sobre Belém e São Bento

Nas últimas horas ocorreram diversos episódios na política portuguesa cuja interpretação tem sido feita por agentes políticos, muitos jornalistas e dezenas de comentadores, com os mais diversos pontos de vista. Depois de muitos meses de alegre e muito cooperante actividade, com dezenas de reuniões e de muitos elogios mútuos, o Presidente da República e o Primeiro-Ministro exibiram publicamente a sua discordância sobre a situação do Governo e a sua composição.
Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa conhecem-se há cerca de cinquenta anos, tanto na actividade académica, como na vida política, tendo perfis políticos muito próximos. Tal como acontecera com os anteriores Presidentes da República, desde há cerca de sete anos que estas duas personalidades se reúnem em Belém todas as quintas-feiras. Foram centenas de encontros, em que algumas vezes terão estado em desacordo, mas que souberam ultrapassar com discrição e reserva. E o povo gostava desta aliança, até porque os tempos eram difíceis. Porém, o peculiar costume de Marcelo Rebelo de Sousa de trazer para a comunicação social alguns assuntos que deveriam ser reservados e de lembrar com demasiada frequência os seus poderes, ou seja, aquilo a que por vezes se tem chamado a ausência de uma “gestão cuidadosa da palavra e do silêncio”, fez estalar alguma tensão entre os detentores desses dois órgãos de soberania.
Na presente conjuntura política, Marcelo Rebelo de Sousa fez saber na praça pública que não aceitava a continuação de um certo ministro no governo e António Costa reagiu a essa “ameaça” ou vontade presidencial, tendo decidido manter o referido ministro no seu governo, até porque é um direito que lhe assiste em exclusivo. Aparentemente, ficou o caldo entornado. Veremos.
Nada vai ser como dantes. Hoje, na habitual reunião das quintas-feiras, eles lá se encontrarão em Belém, desejavelmente para se acalmarem, como o país exige.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

O mar dos Açores é um imenso recurso

O jornal Correio dos Açores celebrou hoje o seu 103º aniversário e publicou uma edição especial dedicada ao “mar imenso dos Açores”, porque é o mar que “empresta dimensão a Portugal e à União Europeia”. A edição inclui diversos artigos sobre a problemática do mar e as suas especificidades no arquipélago dos Açores.
O mar é um grande desafio e uma grande oportunidade para Portugal, através dos seus recursos conhecidos e não conhecidos, desde a pesca ao aproveitamento da energia das ondas para a produção de electricidade, mas passando por outras actividades como o transporte marítimo, os portos, a construção e reparação naval, os desportos náuticos ou a observação de espécies, todas elas potenciando a criação de valor para o desenvolvimento económico nacional.
As zonas marítimas sob soberania portuguesa, de acordo com a Convenção das Nações Unidas do Direito de Mar (CNUDM), compreendem as águas interiores marítimas, o mar territorial, a zona económica exclusiva (ZEE) e a plataforma continental, o que torna muito assimétrica e desproporcionada a relação entre os escassos espaços territoriais e os enormes espaços marítimos portugueses. No caso do arquipélago dos Açores, cujas nove ilhas têm cerca de 2.322 km2 de superfície terrestre, a zona económica exclusiva ocupa 930.687 km2, isto é, a área marítima é 400 vezes maior do que a área terrestre.
Nestas circunstâncias, o mar é um grande desafio e uma grande oportunidade para Portugal, sobretudo para a Região Autónoma dos Açores, para onde devem ser canalisados os recursos necessários para criar uma verdadeira economia do mar açoriana.

sábado, 29 de abril de 2023

A corrida para a Casa Branca já começou

O diário americano Newsday noticiou que o Presidente Joe Biden será candidato nas próximas eleições presidenciais que se realizarão no dia 5 de novembro de 2024, tendo Kamala Harris como candidata a vice-presidente, isto é, recandidatam-se pelo Partido Democrático as duas personalidades que actualmente ocupam aqueles cargos. Pelo Partido Republicano anuncia-se a provável candidatura do ex-presidente Donald Trump, embora também se anuncie a possível candidatura de Ron DeSantis, o governador da Flórida.
Este é o tempo em que se anunciam várias candidaturas, mas os candidatos que irão às urnas serão escolhidos nas eleições primárias realizadas pelos principais partidos, isto é, os candidatos afirmam a sua disponibilidade, mas são os partidos que os escolhem.
As eleições americanas são importantes para a América e para o mundo, porque a escolha do presidente do mais poderoso país do planeta acontece num altura de muita instabilidade, conflitualidade e incerteza.
A generalidade dos analistas espera pelo reencontro eleitoral do próximo ano entre Joe Biden e Donald Trump, cujos projectos políticos são bem diferentes. Tanto assim é que já começaram a aparecer as primeiras sondagens que dão 48% das intenções de voto a Trump e 45% a Biden, o que mostra como as eleições americanas vão ser disputadas e como os americanos se vão dividir uma vez mais, num tempo em que deveria haver uma forte unidade nacional.
Após o anúncio da recandidatura de Biden, as “hostilidades” começaram de imediato e o ex-presidente Trump tratou de fazer as primeiras declarações polémicas ao afirmar que iria “reconquistar a Casa Branca” e ao prometer “esmagar” o seu adversário.
No próximo ano Joe Biden e Donald Trump terão, respectivamente, 82 e 78 anos de idade, pelo que muita gente pergunta se ainda estão dentro do prazo de garantia.

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Lula em Portugal: foi bonita a festa pá!

Durante alguns dias fui passear, mudar de ares e melhorar os meus conhecimentos históricos e geográficos no nordeste espanhol, sobretudo na Comunidade Autónoma do País Basco (Euskadi) e nas suas províncias de Álava (Vitoria-Gasteiz), Biscaia (Bilbao) e Guipúscoa (San Sebastián-Donostia). Por esse motivo, não acompanhei a visita a Portugal do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nem a entrega do Prémio Camões a Chico Buarque, nem as festividades alusivas aos 49 anos do 25 de Abril.
Não se pode ter tudo, mas julgo ter perdido algumas dos mais emocionantes episódios da nossa vida pública do corrente ano.
A visita de um presidente da República Federativa do Brasil é sempre um acontecimento que atesta e reforça os laços históricos, culturais e afectivos entre os dois países irmãos, embora alguns deputados não percebam isso. Assim aconteceu com o deputado Rangel que veio de Bruxelas de propósito para insultar Lula da Silva, só porque não pensa como ele. Depois foram os deputados do partido de André Ventura que, miseravelmente, não souberam respeitar o símbolo maior do Brasil e esqueceram que milhões de portugueses foram acolhidos no Brasil ao longo do processo histórico, tal como muitos brasileiros sempre foram recebidos em Portugal. Tiveram a resposta que mereceram - “Chega de envergonhar Portugal” - foi o que bem lhes disse Augusto Santos Silva, o Presidente da Assembleia da República.
O Presidente Lula da Silva partiu depois para Espanha sem confundir as árvores podres que aqui viu com a enorme floresta portuguesa. Partiu contente e mais prestigiado. Em Madrid foi recebido por Filipe VI e por Pedro Sánchez, enquanto o prestigiado jornal El País não perdeu a oportunidade para lhe fazer uma extensa entrevista em que, sobre a guerra da Ucrânia, disse que “solo los que están fuera de la guerra pueden pararla” e que “cada bando quiere ganar y muchas veces una guerra no necesita un ganador”. Dessa forma, o Presidente Lula repetiu que o caminho para a paz na Ucrânia é uma terceira via com países neutrais, que estejam dispostos para negociar uma saída para a guerra que foi iniciada pela Rússia, acrescentando “no quiero agradar a nadie, quiero construir un camino para la paz en Ucrania”.
As suas posições já colocaram Lula no patamar mais alto da política mundial. Desejamos-lhe sucesso.

sábado, 22 de abril de 2023

Lula da Silva, o Brasil e a paz na Ucrânia

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva está em Portugal e a sua presença não pode deixar de ser um motivo de satisfação para os portugueses, porque ele representa o país-irmão, ou o país de que estamos mais próximos nos aspectos históricos e culturais. Hoje, como nunca acontecera antes, há muitos portugueses no Brasil e muitos brasileiros em Portugal, dando um tom mais fraterno e mais íntimo entre os dois países que falam a mesma língua.
Porém, nem todos os portugueses pensam da mesma maneira como se viu na forma agressiva e desorientada como o deputado Rangel reagiu a esta visita, apenas porque Lula da Silva e a diplomacia brasileira têm pensamento próprio e apostam num contributo para que se encontre uma saída para o conflito na Ucrânia, embora no próprio Brasil também haja quem não perceba a táctica externa de Lula da Silva, como mostra a última edição da revista IstoÉ. O pequeno Rangel até pareceu imitar o histerismo de Jens Stoltenberg e, quem sabe, se não quer vir a ocupar o seu lugar na NATO.
O facto é que os acontecimentos que se vivem na Ucrânia são muito complexos e são mais profundos do que a simples ideia, embora verdadeira, de que há um invasor e um invadido. Na última edição do Eurobarómetro foram entrevistados 26.468 cidadãos de 27 países da União Europeia (EU) entre 12 de Janeiro e 6 de Fevereiro e verificou-se existir um forte apoio à resposta da UE à invasão da Ucrânia pela Rússia, com 91% dos inquiridos a concordarem com a prestação de apoio humanitário e 88% a apoiar o acolhimento na UE de pessoas que fogem da guerra. O fornecimento de apoio financeiro à Ucrânia é aprovado por 77% dos cidadãos, enquanto a imposição de sanções económicas aos russos tem o apoio de 74% dos entrevistados, embora o financiamento da UE para a compra e fornecimento de equipamento militar para a Ucrânia só tenha o apoio de 65% dos cidadãos europeus. Por agora, o Eurobarómetro não perguntou a opinião dos cidadãos europeus sobre o que pensam quanto à forma de se poder parar com esta guerra e as suas tragédias. Ora essa parece ser uma aposta de Lula da Silva, que não aposta apenas no interesse brasileiro, mas também numa fórmula para a paz na Ucrânia.
Bem-vindo a Portugal Presidente Lula da Silva!

sexta-feira, 21 de abril de 2023

A paz, a guerra e o negócio do armamento

O jornal espanhol El Mundo, que é o segundo maior diário espanhol, anuncia hoje com destaque de primeira página, que os Estados Unidos vão entregar ao reino de Marrocos 112 supermísseis terra-terra de três modelos diferentes e com alcances entre os 82 e os 305 quilómetros, bem como 18 lançadores HIMARS, o que vai alterar o equilíbrio militar entre Marrocos e a Espanha. Estes lançadores de mísseis são iguais aos que têm sido entregues à Ucrânia e que o presidente Zelensky tanto tem elogiado, mas os mísseis são de potência superior aos que têm sido fornecidos aos ucranianos. O jornal refere, ainda, que este milionário investimento se enquadra num ambicioso plano para modernizar o exército marroquino para poder disputar a hegemonia regional com a vizinha Argélia, convertendo o reino de Marrocos numa potência regional até ao ano de 2030. Nesta altura, Marrocos afecta cerca de 4,2% do PIB a despesas militares, enquanto muitos países da NATO nem sequer atingem o valor de referência que é 2%. 
Esta notícia interessa à Espanha, mas também interessa a Portugal, pois diz respeito aos seus vizinhos do norte de África e é muito preocupante, pois mostra que o negócio do armamento supera todos os outros interesses partilhados pela Aliança Atlântica. É caso para pensar que alguns países da NATO, como acontece com Portugal e com a Espanha, vão passar a estar potencialmente ameaçados pelo reino de Marrocos, porque está a ser armado por um outro membro da NATO. Significa que, a pretexto de se disputar a superioridade entre Marrocos e a Argélia, o negócio da venda de armas se sobrepõe às considerações geopolíticas e aos interesses comuns dos membros da Aliança Atlântica. Quem nos diz que o reino de Marrocos não quer regressar ao Al-Andaluz, como fez o Califado Omíada no século VIII? É que tem havido declarações de responsáveis islâmicos a reivindicar a recuperação do Al-Andaluz, que foi o nome que há doze séculos os invasores deram à Península Ibérica. Significa que há alianças e ameaças, que há paz e há guerra, mas o que conta são os negócios, inclusive de armamento.

A aventura espacial a caminho de Marte

A Space Exploration Technologies Corp. é uma empresa conhecida como SpaceX, tem a sua sede na cidade californiana de Hawthorne e dedica a sua actividade à concepção e produção de sistemas aeroespaciais, transporte espacial e comunicações. Foi fundada por Elon Musk e fabrica motores de foguetes, cápsulas de carga, aeronaves tripuladas, satélites de comunicações e veículos de lançamento como o Falcon 9 e o Falcon Heavy. Recentemente a SpaceX criou o Starship, um veículo de lançamento superpesado com 119 metros de altura, que é o maior e mais poderoso veículo de lançamento construído até hoje, cujo objectivo expresso é a colonização espacial e cuja primeira missão será o eventual pouso em Marte de uma nave tripulada. Tanto Júlio Verne como Wernher von Braun ficariam entusiasmados com este projecto!
Elon Musk anunciou o seu interesse na colonização de Marte em 2001 e no ano seguinte fundou a SpaceX, tendo anunciado a data de 2029 para concretizar o primeiro pouso tripulado em Marte, para garantir a sobrevivência da espécie humana no longo prazo.
O Starship consta de duas partes: o propulsor que é um gigantesco foguete de 70 metros de altura com 33 motores e a espaçonave de 50 metros de altura, que é acoplada no topo do propulsor durante o lançamento e que depois se solta quando o propulsor consome todo o seu combustível.
Ontem, realizou-se a primeira tentativa de voo do Starship em teste orbital não tripulado. O foguete mais poderoso já construído descolou de uma plataforma de lançamento no Texas, mas terminou quatro minutos depois, quando o foguete falhou a sua entrada em órbita, começou a rodar e explodiu, provocando um enorme clarão sobre o golfo do México. “Foi um bom primeiro passo e uma oportunidade para aprendizagem”, declarou Elon Musk. As fotografias da explosão do Starship foram publicadas na generalidade da imprensa americana, nomeadamente no jornal The Dallas Morning News.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Xi Jinping e a China estão muito activos

Nos últimos tempos as visitas de altos dignitários mundiais à República Popular da China têm sido frequentes e, só no corrente mês de Abril, entre outros ocorrem-nos as visitas de Pedro Sánchez (Espanha), Anwar Ibrahim (Malásia), Lee Hsien Loong (Singapura), Emmanuel Macron (França), Ursula von der Leyen (Comissão Europeia) e Lula da Silva (Brasil).
Hoje, o jornal Global Times, que reflecte as posições do Partido Comunista Chinês, anuncia a visita do presidente Ali Bongo Ondimba (Gabão), o que mostra como muitos países estão interessados em ter boas relações com a China, mas também que a China procura fortalecer a sua cooperação e a sua influência em todos os continentes. No caso do Gabão, o interesse chinês centra-se nos abundantes recursos naturais do país, sobretudo o petróleo e as madeiras, mas também na importância de ocupar posições estratégicas no golfo da Guiné e de contrabalançar a “corrida para a África” que está a ser conduzida pelos Estados Unidos, Rússia e União Europeia, que estão a tornar o continente africano numa terra de disputa entre as grandes potências.
O presidente Xi Jinping tem marcado muitos pontos desde a sua reeleição e após a sua visita à Rússia, que aconteceu há um mês, na qual expressou apoio a Vladimir Putin e considerou a Rússia como “um bom vizinho”. Para que não haja dúvidas, Xi Jinping fez-se fotografar com todos os dignitários que estiveram em Pequim, para mostrar que a diplomacia chinesa está muito activa em todos os tabuleiros e que a estratégia chinesa procura o multilateralismo e uma nova ordem mundial, sem se esquecer das suas reivindicações relativamente a Taiwan.