domingo, 10 de setembro de 2023

As lições da tragédia de Marraquexe

O forte terramoto de 6,9 graus de magnitude que aconteceu na noite de sexta-feira em Marrocos teve a dimensão de uma grande tragédia, pois provocou mais de dois mil mortos e uma enorme destruição, sobretudo na área da cidade histórica de Marraquexe, que está classificada pela Unesco como património mundial. A imprensa mundial destaca hoje esse trágico acontecimento com a mesma fotografia, em que uma desesperada moradora da cidade chora a sua desgraça entre as ruínas.
Nos últimos tempos o número de grandes catástrofes naturais tem aumentado, por razões diversas, mas sobretudo devido às alterações climáticas e ao egoísmo das nações. As comunidades e os seres humanos estão a ser vítimas de incêndios florestais e de ciclones devastadores, de inundações e de sismos, mas também de secas extremas e do progressivo degelo polar. As Nações Unidas, sobretudo pela voz de António Guterres, têm denunciado a apatia geral dos líderes mundiais perante esta ameaça global e esta hecatombe, que se aproxima mais depressa do que tínhamos pensado. Porém, a generalidade dos líderes que nos governam parece pensar em mais armas, mais munições e mais aviões para a guerra da Ucrânia, e menos na solução dos problemas ambientais do mundo. Na recente visita que fez a Kiev, o nosso presidente da República apoiou a continuação da guerra com grande entusiasmo, parecendo ignorar que as guerras só aproveitam aos fabricantes de armamento, aos especuladores de alimentos e aos produtores de energia, mas que afectam seriamente a economia, a qualidade de vida e a confiança no futuro da Humanidade.
A tragédia que nas últimas horas se abateu sobre os nossos vizinhos de Marrocos é apenas mais um sinal, mas também uma lição, a aconselhar que pensemos mais e melhor quanto ao futuro do nosso planeta.

sábado, 9 de setembro de 2023

Há quem goste ou não goste de veleiros

Depois de ter passado por Lisboa, onde lamentavelmente ninguém lhe ligou, a Gran Regata ou a Tall Ships Race 2023, chegou a Cádiz. A cidade gaditana soube honrar a sua origem fenícia e a sua ligação ao mar, organizando um vasto programa de apoio às tripulações dos veleiros, ao mesmo tempo que a visita também está a ser um grande acontecimento cultural, como se pode verificar pela enorme cobertura que o evento está a ter por parte da comunicação social da cidade e pela diversidade de iniciativas, destinadas sobretudo à juventude. 
Ontem, realizou-se um grande desfile das tripulações pelas ruas do centro da cidade e La Voz de Cádiz destacou-o na sua primeira página com uma fotografia em que se pode observar a delegação do navio-escola Sagres a desfilar, com uma enorme bandeira nacional a ser transportada por jovens cadetes da Escola Naval.
Além da nossa Sagres, os jornais de Cádiz destacaram a presença dos veleiros mexicano Cuauhtémoc e do polaco Dar Mlodziezy, que classificou como "imponentes". Em Portugal, com a cidade de Lisboa provavelmente cansada pelo seu recente envolvimento com a JMJ, a presença da Gran Regata não interessou a comunicação social, muito mais interessada em saber o que se passou no Conselho de Estado, nas transferências dos futebolistas e até no ridículo caso Rubiales. Como aqui já tínhamos referido, toda esta mediocridade nos dói.

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Evocando a independência do Brasil

Ontem, que foi dia 7 de Setembro, comemorou-se a histórica e simbólica efeméride ocorrida nesse dia do ano de 1822 nas margens do rio Ipiranga, no actual estado brasileitro de São Paulo, quando o príncipe-regente D. Pedro de Alcântara e Bragança assumiu a responsabilidade pela separação do reino do Brasil do reino de Portugal e gritou: Independência ou morte!
Viviam-se então tempos difíceis, tanto em Portugal como no Brasil. O rei D. João VI, bem como a Família Real, tinha regressado a Portugal em 1821 e nomeara o seu filho mais velho como príncipe-regente do Brasil, numa altura em que os territórios da América espanhola reivindicavam e lutavam pela sua independência, sob a inspiração de Simón Bolivar. A ausência do rei desgostava os brasileiros, enquanto em Lisboa se considerava que o príncipe-regente era “um mancebo ambicioso e alucinado”.
A declaração de independência acelerou os preparativos para resistir à esperada reacção portuguesa e, no dia 12 de outubro de 1822, data em que celebrava 24 anos de idade, dos quais passara quinze no Brasil, o príncipe-regente foi aclamado como D. Pedro I, Imperador do Brasil. Começou então a guerra em todo o território brasileiro e só a Marinha Imperial poderia defender a independência do Brasil e manter a unidade do vasto território nacional. Porém, enquanto as províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo aderiram à proclamação do príncipe-regente, a generalidade das unidades militares portuguesas permaneceram fiéis ao seu rei e ao seu governo, resistindo à onda independentista, sobretudo nas províncias da Cisplatina (Montevideu), Bahia (Salvador), Maranhão (S. Luís) e Pará (Belém). 
A guerra durou até Agosto de 1825 quando Portugal reconheceu formalmente a independência do Brasil. O jornal O Imparcial que se publica em São Luís, a capital do Estado do Maranhão, lembrou na sua edição de ontem que “o grito do Ipiranga não ecoou no Maranhão”.

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Os portugueses estão na Rugby World Cup

Começa amanhã em Paris a décima edição da Rugby World Cup, um torneio que é considerado o terceiro acontecimento desportivo mais importante que se realiza no nosso planeta, só ultrapassado em audiência pelo Campeonato do Mundo de Futebol e pelos Jogos Olímpicos. 
Participam vinte selecções nacionais que foram divididas em quatro grupos e os jogos do torneio vão realizar-se entre os dias 8 de Setembro e 28 de Outubro, em nove diferentes cidades francesas. O jogo inaugural vai disputar-se amanhã no estádio de Saint-Denis entre duas das selecções favoritas: a França e a Nova Zelândia.
Depois de ter participado nesta fase final em 2007, que também se realizou em França, na qual perdeu os quatro jogos realizados e ficou em 19º lugar na classificação final, a selecção portuguesa volta a estar presente na fase final da Rugby World Cup, estando incluída no Grupo C com o País de Gales, a Austrália, Fiji e a Geórgia. A sua estreia nesta sua segunda participação neste torneio acontecerá no dia 16 de Setembro contra o País de Gales e, naturalmente, todos desejamos que a equipa portuguesa tenha bons resultados.
As nove anteriores edições da prova tiveram como vencedores a Nova Zelândia (3 vezes), a África do Sul (3 vezes), a Austrália (2 vezes) e a Inglaterra (uma vez), mas os franceses que já foram vice-campeões por três vezes esperam que desta vez possam vencer o torneio e, finalmente, possam ser campeões do mundo, como tanto desejam. É essa a mensagem que, na sua edição de hoje, o jornal La Dépêche du Midi, que se publica na cidade de Toulouse - a capital do rugby francês - transmite aos seus jogadores.

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Lisboa quase ignorou a Tall Ships Race 23

A edição de hoje do jornal La Voz de Cádiz anuncia que os grandes veleiros que tomam parte na Gran Regata, ou na Tall Ships Race 2023, partiram ontem de Lisboa, esperando-se que amanhã cheguem ao porto de Cádis.
A Tall Ships Race é um evento organizado anualmente que reúne os grandes veleiros de diferentes países que cumprem uma itinerância por diferentes portos e que, por vezes, é associada a uma efeméride relevante para uma ou mais cidades de acolhimento. Este ano, essa grande festa de confraternização de veleiros a que se costuma chamar regata, celebrou a primeira viagem de circumnavegação iniciada em 1519 por Fernão de Magalhães e completada em 1522 por Sebástian de Elcano. O ponto de reunião dos veleiros aconteceu em Falmouth, no Reino Unido, seguiu-se a navegação para La Coruña e depois para Lisboa, onde os veleiros estiveram desde o dia 31 de Agosto até ontem.
Exceptuando, uma ou outra breve notícia televisiva, o assunto foi ignorado pela comunicação social portuguesa, o que é bem curioso, mas também muito triste. A presença de tantos veleiros num qualquer porto é um espectáculo de grande beleza e uma memória viva das navegações que descobriram o mundo, mas também uma afirmação de juventude e de apelo à preservação do ambiente marítimo. Isso não interessou os jornais portugueses que hoje falam de futebol, da crise da habitação, do arranque do ano escolar e do preço dos combustíveis, ao contrário do que fez o jornal La Voz de Cádiz que publicou hoje uma fotografia a toda a largura da sua primeira página do navio-escola Sagres, a sair o estuário do Tejo. 
Que pena não termos jornais assim.

sábado, 2 de setembro de 2023

O “Doble João” ou as loucuras do futebol

Como não há grandes notícias do estado do mundo para além do já famoso caso Rubiales, nem das meteorologias adversas que nos apoquentam, têm sido as politiquices internas a incomodar-nos e a indicar-nos que a corrida para Belém já começou. O pequeno Luís antecipou-se, mas o Pedro, o Paulo e o Cherne não ficaram calados e já mostraram que têm aspirações a ser frequent flyers dos nossos Falcon.
Nessas circunstâncias, são as transferências futebolísticas que ocupam as manchetes da imprensa e mostram que não falta dinheiro no mundo do futebol, embora poucas vezes se saiba de onde vem.
Hoje a imprensa desportiva espanhola destaca a transferência para o Fútbol Club Barcelona, não de um João, mas de dois Joãos. O jornal catalão L’Esportiu anuncia um Doble João. É uma alegria para os Joãos de Portugal!
O mesmo clube que gastou milhões com Messi e com Neymar, abriu os cordões à bolsa e comprou dois dos melhores futebolistas portugueses. Não se sabe onde foi buscar o dinheiro nem de quanto necessitou, pois os problemas financeiros do FC Barcelona têm uma escala inimaginável e até se diz que Messi abandonou o clube, apenas porque já tinha secado o pote do clube blaugrana, que terá uma dívida de três mil milhões de euros. O problema é que o clube e a afición querem vitórias, não havendo quem os obrigue a não gastarem o que não têm. E a situação tende a piorar…
Os Joãos estão certamente muito contentes, a afición vai exigir-lhes que joguem bem e metam muitos golos, enquanto nós lhes desejamos que sejam felizes.

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Is the U.S. going cold on Ukraine?

O espaço mediático está saturado de informação sobre a guerra na Ucrânia, uma parte verdadeira e outra parte não verdadeira, ou uma parte independente e outra parte manipulada. Para o cidadão comum, é mesmo difícil perceber o que se passa no terreno, pois são tantos os comentadores e tantas as opiniões, muitas vezes disfarçadas de notícias, que todos só podemos ficar baralhados. Porém, o que é mais evidente nesta tragédia que caiu sobre o povo ucraniano, é o conteúdo bélico de quase tudo o que se diz, incluindo o desenvolvimento da contraofensiva ucraniana, a robustez das linhas defensivas russas, a chegada dos F-16, o efeito da guerra de drones ou a garantia das partes que sairão vitoriosas deste conflito.
Segundo revela hoje o Evening Standard, até agora os Estados Unidos já contribuíram com cerca de 62 mil milhões de libras em ajuda militar, enquanto o Reino Unido se ficou pelos 4,6 mil milhões, mas “em ambos os casos, uma grande parte desse dinheiro reverte para as indústrias de defesa dos Estados Unidos e do Reino Unido”. O resultado é terrível e, segundo o Pentágono, a Rússia já perdeu 270 mil soldados mortos e feridos e a Ucrânia tem um saldo de 200 mil mortos e feridos desde o início da guerra.
O governo ucraniano está preocupado com o arrefecimento do apoio americano, devido ao suposto fracasso da contraofensiva ucraniana, à aproximação da campanha eleitoral e à falta de apoio da opinião pública americana. Por isso, segundo o jornal, Zelensky, os ministros e os comandantes ucranianos estiveram recentemente na fronteira polaca para se encontrarem com altos comandos militares americanos, para lhes pedir que não abandonem o apoio à Ucrânia, nem forcem o país a negociar com a Rússia. O temor ucraniano em relação à vontade de muitos políticos democratas e republicanos americanos de parar o apoio à Ucrânia, é crescente. É por tudo isto que o Evening Standard diz, que é preciso parar os combates e conversar, conversar, conversar, como diria o Papa Francisco.

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Turismo: será a galinha dos ovos de ouro?

A economia portuguesa tem registado boas taxas de crescimento do produto interno bruto e para esses bons resultados tem estado o turismo, que está a contribuir com cerca de 16%. 
Os números do turismo são impressionantes, a começar pelos mais de 31 milhões de passageiros que passaram nos aeroportos portugueses no 1º semestre do ano. O turismo está a ser uma verdadeira galinha dos ovos de ouro, como hoje se lhe refere o jornal i, mas pouco se tem falado das vantagens e das desvantagens de ter tantos turistas que deixam dinheiro na nossa economia, mas descaracterizam as cidades e “expulsam” os moradores dos centros das cidades.
Algumas cidades europeias já vivem o problema do excesso e dos excessos do turismo de massas e aponta-se o caso de Veneza, cujo centro perdeu quase toda a sua população em poucos anos, mas o mesmo se poderá dizer daquilo que está a acontecer em Barcelona, Berlim ou em Roma, mas também em muitas outras cidades europeias. Os moradores protestam porque o seu modo de vida e os seus quotidianos são perturbados porque as cidades estão a descaracterizar-se, com os preços dos arrendamentos e dos serviços a disparar e com a multiplicação dos hotéis. O comércio tradicional morreu. As esplanadas e as lojas de recordações inundam o espaço público, o trânsito tornou-se caótico com autocarros de turismo e os tuk-tuk, havendo multidões de pessoas a correr atrás de guias turísticos. Nos locais, turística ou culturalmente mais atractivos, formam-se filas extensas onde se passam horas de espera. O emprego criado pelo turismo é precário, exige baixas qualificações e é mal remunerado.
Parece ser a altura de se pensar nas vantagens e nas desvantagens de tanto turismo e na descaracterização cultural que provoca num país com 900 anos de história.

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

O reencontro entre o Brasil e Angola

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou Angola onde foi recebido pelo presidente João Lourenço, mas ao contrário do que se faz por cá em que as comitivas presidenciais vão sempre com demasiados jornalistas, ele fez-se acompanhar por empresários para potenciar negócios entre as duas margens do Atlântico Sul.
O Brasil e Angola são dois importantes países atlânticos, cujas afinidades não passam apenas pela língua portuguesa e por fortes relações históricas, mas também passam por ligações culturais e afectivas.
Segundo informou o Jornal de Angola foram assinados sete acordos de cooperação que relançam as relações comerciais entre os dois países. De entre os acordos assinados destacam-se os que irão dinamizar a produção agrícola angolana, numa altura em que uma crise alimentar está a ameaçar o nosso planeta, embora ambos os países mostrem a vontade de reforçar a cooperação em todos os domínios.
São poucos os casos, se é que existem, em que dois países situados em dois continentes diferentes tenham tantas afinidades culturais, como acontece com o Brasil e com Angola. Por isso, o relançamento das relações entre os dois países é um facto que beneficia as suas populações, que reforça o eixo Brasil-Angola no quadro estratégico do Atlântico Sul e, por razões históricas e culturais, é um motivo de grande orgulho para Portugal. 
É um reencontro que, aparentemente, acontece devido à personalidade dos dois presidentes.

sábado, 26 de agosto de 2023

As acusações contra Trump e o seu futuro

Se acontecesse no Burkina Faso ou na Costa Rica, a acusação de um ex-presidente por ter promovido uma tentativa de fraude eleitoral, não teria o enorme impacto que está a ter nos Estados Unidos e no mundo.
Tudo começou nas eleições presidenciais realizadas no dia 3 de Novembro de 2020, quando o republicano Donald Trump não conseguiu ser reeleito e foi derrotado pelo democrata Joe Biden. Nesse mesmo dia, o derrotado Trump iniciou um processo de contestação dos resultados eleitorais, em que nunca reconheceu a sua derrota e procurou revertê-la, num processo em que o seu ponto mais simbólico foi a ocupação do Capitólio no dia 6 de Janeiro de 2021. Na estratégia de Trump e da sua equipa esteve a tentativa de “encontrar” ou “inventar” quase doze mil votos no estado da Geórgia, mas também no Arizona, que o colocariam à frente de Joe Biden e alterariam a seu favor a repartição dos 538 delegados no Colégio Eleitoral.
A estratégia de Donald Trump falhou e ele foi acusado, juntamente com aqueles que, consciente e voluntariamente, se lhe juntaram numa conspiração para alterar ilegalmente o resultado das eleições. Por isso, foi preso na Geórgia onde ficou registado como o preso nº P01135809, mas ao fim de vinte minutos saiu em liberdade depois de pagar uma caução de 200 mil dólares.
Nesse mesmo dia realizou-se o primeiro debate das eleições primárias do Partido Republicano e, entre outros, lá estiveram Ron DeSantis, o governador da Florida, Mike Pence, o ex-vice-presidente de Donald Trump, e Nikki Haley, a ex-governadora da Carolina do Sul e ex-embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas.
Donald Trump não esteve nesse debate apesar de ser o favorito nas sondagens sobre a intenção de voto dos americanos e de uma eventual condenação nos processos em curso não o tornar inelegível nos Estados Unidos. A América parece estar dividida entre os que apoiam e os que rejeitam Donald Trump, um "enemy of Democracy" como hoje se lhe refere o Daily News. Falta muito tempo e, como diz o povo, “o futuro a Deus pertence”.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

MRS: de Monte Gordo a Varsóvia e Kiev

Tem sido uma canseira! Já não nos bastava o calor tórrido que suportamos e ainda temos que aguentar este descontrolo comunicacional de ver e ouvir o Supremo Magistrado da Nação a toda a hora, quase sempre a dizer banalidades. A praia de Monte Gordo e o veto ao chamado programa da habitação foram uma espécie de estágio, tantas foram as suas aparições televisivas, mas o melhor estava para vir com a visita feita a Varsóvia e Kiev, para onde se deslocou com uma muito numerosa e injustificada comitiva de jornalistas, para que registassem o seu habitual exercício de narcisismo presidencial.
A visita a Kiev de qualquer líder político é importante, desde que leve consigo qualquer contributo para uma boa solução do actual conflito e o presidente Marcelo Rebelo de Sousa podia ter tido esse papel histórico de mostrar solidariedade para com o povo ucraniano, mas também de mostrar que a paz é necessária e tem que ser procurada. Podia ter estado em linha com o Papa Francisco e com António Guterres, mas esteve alinhado com Jens Stoltenberg e os seus falcões. Numa altura em que há muitos silêncios - quem sabe se a denunciar que já se procuram soluções diplomáticas para o conflito na Ucrânia – o presidente MRS optou pelo mais fácil e fez um discurso de conveniência, apoiando a continuação da guerra como Zelensky e a indústria do armamento desejam, quando se esperaria que cumprisse a Constituição Portuguesa que, no seu artigo 7º, afirma que nas relações internacionais Portugal se rege pelo princípio “da solução pacífica dos conflitos internacionais”. 
Não foi isso que fez e como hoje escrevia um jornal de Lisboa, “Marcelo foi ver a guerra”. Esperava-se mais.

O orgulho nacional indiano está em alta

A India está a viver um dos momentos mais eufóricos da sua existência como país independente, pois tornou-se o primeiro país a pousar com sucesso no polo sul lunar e o quarto país a aterrar com sucesso na Lua, o que só acontecera antes com os Estados Unidos, a antiga União Soviética e a China. 
A missão espacial Chjandrayaan-3 da ISRO (Organização Indiana de Investigação Espacial) pousou ontem nas proximidades do polo sul lunar, poucos dias depois da nave não tripulada russa Luna-25, ter colidido com a superfície lunar, o que destaca ainda mais o sucesso do programa espacial indiano e mostra ao mundo o enorme desenvolvimento científico e tecnológico deste país com mais de 1.400 milhões de habitantes.
O jornal The Pioneer que se publica em várias cidades indianas, escolheu como título de primeira página “tiranga on the moon”, o que significa que a bandeira indiana, habitualmente referida como tiranga ou tricolor, foi hasteada na Lua. É o delírio para milhões de indianos que podem gritar Jay Hindi, o seu mais mais vibrante grito patriótico e de unidade nacional.
A Índia é um estado federal constituído por 28 estados e sete Union Territories, sendo um país de contrastes culturais, religiosos e linguísticos, em que convivem 22 línguas oficiais e mais de quatro centenas de idiomas e dialetos, para além de inúmeras cadeias de televisão, companhias aéreas e empresas de serviços telefónicos. As desigualdades são brutais e resultam tanto das condições económicas da população, como do regime de estratificação social que domina a sociedade indiana. É um país demograficamente assimétrico em que convivem o mundo da pobreza e o mundo da prosperidade, do desenvolvimento tecnológico e da ambição internacional, de que a chegada à Lua é apenas um exemplo.

terça-feira, 22 de agosto de 2023

A Cimeira dos BRICS e a ordem mundial

Iniciou-se hoje em Joanesburgo a 15ª Cimeira dos BRICS – Brasil, Rússia, India, China e África do Sul – mas o anfitrião, que é o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, convidou os líderes de sete dezenas de países para participar na referida cimeira, tendo sido anunciado que 22 desses países já pediram para integrar este grupo.
Embora não tenha sido anunciado qualquer objectivo antiocidental, este grupo e esta cimeira são claramente um desafio para a ordem internacional vigente. Hoje o jornal católico francês La Croix, anuncia mesmo que os BRICS são uma aliança contra o dólar e que vão discutir a criação de uma nova moeda compartilhada por todos para reduzir a dependência do dólar como moeda de de troca, mas também o fim da guerra na Ucrânia.
A ausência do presidente russo Vladimir Putin, que é alvo de um mandado de captura do Tribunal Penal Internacional, é o aspecto mais destacado desta cimeira, onde se podem ou não dar passos no sentido de uma nova ordem mundial multipolar e mais igualitária, em que seja atenuado o actual domínio dos Estados Unidos e da Europa. Muita gente se recorda da Conferência de Bandung, realizada na Indonésia em 1955, em que os países não-alinhados se fizeram ouvir e o movimento anticolonial não mais parou, procurando encontrar alguma semelhança entre a Conferência de Bandung de 1955 e a corrente Cimeira de Joanesburgo de 2023.
Actualmente, os cinco membros dos BRICS representam 42% da população mundial, 30% da superfície do planeta, 23 % do produto mundial e 18% do comércio global e, alguns deles, não escondem as suas ambições.

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

O delírio espanhol com um título mundial

Todos os jornais espanhóis enchem hoje a sua primeira página com uma fotografia de homenagem à equipa feminina de futebol da Espanha, que ontem bateu a equipa inglesa na final da FIFA Women’s World Cup 2023 disputada em Sydney. Um desses jornais é o El País, que na sua capa abdicou de todo o seu noticiário internacional e da problemática da formação do novo governo espanhol, para destacar as novas “campeonas del mundo”.
Foi o delírio completo e a imprensa limita-se a reflectir a onda de entusiasmo nacional que atravessa toda a Espanha. Os povos vivem destas alegrias e o delírio espanhol é justificado. Num país onde são enormes as rivalidades regionais, as tensões separatistas e a diversidade linguística e cultural, esta vitória futebolística trouxe consigo um sentimento de unidade nacional que há muitos anos não se verificava. As “campeonas del mundo” deram um bom contributo para a unidade da Espanha e "nuestros hermanos" estão em festa. 
Hoje, o rei Filipe VI recebe os dois principais líderes políticos espanhóis que são candidatos a primeiro-ministro, respectivamente Pedro Sánchez e Alberto Núñez Feijóo. Os dois principais blocos políticos espanhóis estão empatados e a governabilidade depende dos compromissos e das alianças com os pequenos partidos, mas sobretudo das suas exigências. O rei tem apenas um poder moderador e a situação é complexa mas, provavelmente, o ambiente no palácio de La Zarzuela será de serenidade e boa disposição, porque todos ainda estarão a viver a euforia da vitória espanhola na FIFA Women’s World Cup 2023.

domingo, 20 de agosto de 2023

O inferno dos incêndios florestais

Continua muito activa, agressiva e persistente a onda calor que está a afectar várias regiões do hemisfério norte e as televisões vão mostrando as calamidades ecológicas, a ansiedade das populações e, em alguns casos, também as tragédias humanas que vão acontecendo em diferentes regiões do mundo.
A ilha hawaiana de Maui e a cidade de Lahaina foram vítimas do pior desastre natural que o arquipélago alguma vez suportou, enquanto a atlântica ilha de Tenerife também enfrenta um incêndio florestal de grandes dimensões, que já obrigou à evacuação de milhares de pessoas. Porém, os incêndios que têm afectado o Canadá, antes na província do Quebec e agora na província da Colúmbia Britânica, têm mostrado uma preocupante dimensão e perigosidade, tendo obrigado alguns milhares de pessoas a deixar as suas casas para evitar a ameaça do fogo. Na pequena cidade de Yellowknife, a capital e principal comunidade dos Territórios do Noroeste, que fica situada a cerca de 400 quilómetros do círculo polar ártico, as autoridades estão a tentar retirar todos os seus vinte mil moradores para os proteger da ameaça do fogo.
O jornal The Globe and Mail que se publica em Toronto e noutras seis cidades canadianas, destacou na sua edição de ontem os incêndios florestais que assolam o país e escolheu a palavra inferno, para definir a gravíssima situação que afecta muitas regiões do planeta e nos remete - a todos - para o problema das alterações climáticas.