sábado, 14 de setembro de 2024

Cádiz tem mais de 3.000 anos de história

Vindo do golfo Pérsico há cerca de três mil anos, o povo fenício instalou-se no litoral do Mediterrâneo Oriental e fundou cidades importantes como Sidon e Tiro. A partir dessas cidades e porque eram marinheiros e comerciantes, navegaram pelo mar Mediterrânro e fundaram colónias e feitorias em toda a sua orla marítima, tendo atravessado o estreito e navegado no Atlêntico, chegando ao sudoeste das ilhas Britânicas e tendo explorado a costa ocidental africana quase até ao golfo da Guiné. 
Foi uma grande civilização da Antiguidade e as suas colónias mais importantes foram Cartago, cujas ruinas se situam próximo da capital da Tunísia, e também Gadir, que deu origem à cidade espanhola de Cádiz e cujos habitantes são conhecidos como gaditanos.
A cidade de Cádiz é uma cidade portuária da província do mesmo nome que faz parte da Comunidade Autónoma da Andaluzia e costuma celebrar o seu passado fenício. Neste fim-de-semana e sob o lema "Orgullos@s de nuestra historia”, o município de Cádiz promoveu uma grande festa de raiz histórica e de afirmação da sua identidade cultural, que incluiu a reconstituição de um desembarque fenício e um desfile com cerca de mil participantes devidamente trajados. Logo que o desfile chegou às Puertas de Tierra foi apresentado o espectáculo inaugural de som, luz e cor, intitulado “Cádiz, hace más de 3.000 años”. 
A reportagem desta festa foi publicada hoje pelo Diario de Cádiz e não lhe faltam adjectivos elogiosos. Como informação adicional regista-se que existem testemunhos arqueológicos da presença fenícia em Portugal, na costa do Algarve e nas bacias hidrográficas dos rios Sado, Tejo e Mondego. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

O centenário de Amílcar Cabral

A edição de ontem do semanário caboverdiano Expresso das Ilhas dedica a sua manchete a Amílcar Cabral, seguramente a personalidade maior de Cabo Verde, que hoje completaria 100 anos de idade.
Nascido em Bafatá (Guiné-Bissau) no dia 12 de setembro de 1924, veio a ser assassinado no dia 20 de janeiro de 1973 em Conacri (República da Guiné), quando tinha apenas 48 anos de idade e era a principal figura da luta pela independência das colónias portuguesas, mas também um respeitado líder anticolonialista mundial.
Em 1945 rumou a Lisboa onde frequentou o Instituto Superior de Agronomia, cujo curso concluiu com sucesso em 1950, mas nesse período envolveu-se em actividades políticas contra o regime de Salazar, sobretudo no âmbito da Casa dos Estudantes do Império, daí nascendo a sua adesão aos movimentos de libertação colonial, aparecidos depois da 2ª Guerra Mundial e acelerados com a conferência de Bandung. Em 1956, na cidade de Bissau, fundou o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que dirigiu até à sua morte, acontecida em circunstâncias trágicas, quando “a independência estava ao virar da esquina”.
Durante a luta armada contra a presença portuguesa na Guiné iniciada em 1963, o PAIGC de Amílcar Cabral ameaçou seriamente as tropas coloniais com uma derrota militar, mas muitas vezes afirmou que a sua luta era contra o colonialismo e não contra o povo português e, várias vezes também, propôs negociações com as autoridades portuguesas para acabar com a guerra, mas a intransigência marcelista e o seu regime recusaram essa hipótese.
O insuspeito professor Adriano Moreira escreveu que “talvez Cabral tenha sido o mais lusotropicalista dos chefes do movimento revolucionário, com um notável uso da língua portuguesa, e uma invocação constante dos valores que são os da Carta da ONU”. Apesar de ter estado na Guiné do outro lado da luta armada, aqui presto a minha homenagem a Amílcar Cabral.

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Cristiano Ronaldo já marcou 900 golos!

A selecção nacional de futebol iniciou ontem a sua caminhada na 4ª edição da Liga das Nações da UEFA, cuja 1ª edição venceu, defrontando a sua congénere croata. Jogou muito bem na primeira parte e ganhou por 2-1, mas não foi a vitória que entusiasmou a nossa comunicação social, pois o destaque foi dirigido para Cristiano Ronaldo que marcou o golo 900 da sua carreira, como hoje destaca o jornal Record.
A sua carreira é notável no mundo do futebol, pois jogou no Sporting, no Manchester United, no Real Madrid, na Juventus, de novo no Manchester United e, actualmente, no Al Nassr, marcando muitos golos e deixando uma forte marca nos estádios.
Os seus 39 anos de idade já lhe pesam e já não corre nem se eleva como antes, mas continua com o seu lugar reservado na selecção nacional, na qual se estreou em Chaves no dia 20 de agosto de 2003, num jogo de preparação contra o Cazaquistão.
Segundo a RSSSF (Rec. Sport Soccer Statistics Foundation), a organização que regista os dados estatísticos do mundo do futebol, Cristiano Ronaldo é o maior “artilheiro” da história em jogos oficiais, seguindo-se-lhe Lionel Messi (838), Josef Bican (805), Romário (772), Pelé (767) e Puskas (735).
No Brasil pergunta-se: então o Pelé não tem mais de mil golos? A RSSSF esclarece que esse número relativo a Pelé inclui todos os jogos amigáveis e não oficiais, afirmando que “Cristiano Ronaldo é o primeiro jogador a atingir os 900 golos na carreira”, ou seja, a RSSSF confirma que ele é o maior marcador de golos de todos os tempos e, naturalmente, um dos melhores futebolistas da história. 
Naturalmente, muitos portugueses têm orgulho neste futebolista que, por mérito próprio, é o mais famoso português da nossa história de 900 anos, curiosamente tantos anos quantos os golos de Cristiano Ronaldo.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Nicolás Maduro e o imbróglio venezuelano

As eleições presidenciais venezuelanas realizadas no dia 28 de julho tiveram resultados que foram contestados interna e externamente, tendo gerado muita instabilidade política e social desde então e que continua activa, quando já são passados quase quarenta dias. 
As ruas de muitas cidades, como a capital Caracas, encheram-se de manifestantes a constestar a fraude eleitoral e o resultado anunciado, ou a apoiar o presumível vencedor das eleições, que o actual presidente Nicolas Maduro anunciou ser ele próprio.
Houve confrontos e muitas centenas de cidadãos foram agredidos pela polícia, daí resultando 27 mortos, 192 feridos e cerca de 2.400 detenções. A generalidade da comunidade internacional continua sem aceitar os resultados anunciados pelo regime chavista e tem reclamado a consulta das actas que registaram o apuramento das votações em cada mesa eleitoral. Entretanto, segundo vem sendo deunciado nos meios de comunicação de diversos países, tem aumentado a repressão sobre a oposição venezuelana e sobre os seus dirigentes, tendo o jornal Perú 21 anunciado na sua edição de hoje que foi emitida uma ordem de detenção contra o ex-diplomata Edmundo González Urrutia, que foi o candidato que enfrentou o ditador Nicolas Maduro. 
Porém, Edmundo González continua a afirmar que venceu as eleições, mas está escondido desde há um mês, pois não confia no aparelho repressivo chavista, nem no sistema de justiça venezuelano que está ao serviço de Nicolás Maduro. Perante a gravidade crescente da situação, os presidentes Lula da Silva do Brasil e Gustavo Petro da Colômbia manifestaram “profunda preocupação” pela decisão de deter Edmundo González e esperam encontrar-se com Nicolás Maduro nas próximas horas para encontrar uma solução pacífica para o imbróglio venezuelano. 
Se já há demasiadas tensões no mundo, porquê sustentar mais uma?

O Papa Francisco em Timor é uma festa!

O Papa Francisco chegou ontem à Indonésia para uma visita apostólica, tendo a edição de hoje do jornal The Jakarta Post destacado esse acontecimento que ocorre no maior país muçulmano do mundo. Trata-se da viagem mais longa do pontificado do Papa Francisco, em que percorrerá 32 mil quilõmetros com 44 horas de voo, com passagens por quatro países.
A Indonésia é constituída por milhares de ilhas entre a Ásia e a Austrália, sendo esta visita papal considerada um facto muito importante no actual contexto mundial, como afirmou Joko Widodo, o presidente da Indonésia, que convidou o Papa a visitar o país. Segundo as fontes do Vaticano, trata-se de construir pontes entre universos culturais diferentes e de estimular o diálogo interreligioso, tendo o Papa Francisco associado a “unidade na multiplicidade indonésia” à unidade das diferentes religiões, que perseguem o bem comum, a justiça social e a paz no mundo.
Depois da visita à Indonésia, o Papa Francisco seguirá para a Papua Nova-Guiné, Timor-Leste e Singapura.
No que respeita a Timor-Leste, um país onde se fala português e em que 95% da população é católica, a chegada do Papa Francisco acontecerá no dia 9 de setembro e, depois de cerca de 48 horas em Dili, seguirá para Singapura no dia 11 de setembro. A visita papal a Timor-Leste vai ser uma grande festa para a população e tem um significado especial porque a Igreja Católica foi um referencial de liberdade para os timorenses durante a violenta ocupação indonésia do território (1975-2002), tendo sido essencialmente através dela que se processou a comunicação interpessoal que permitiu a luta da resistência timorense.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

O treino das Marinhas latino-americanas

O diário chileno El Mercúrio que se publica em Santiago do Chile, destaca na sua última edição a realização do UNITAS LXV (65), um exercício naval multinacional que se enquadra nos propósitos do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, ou Tratado do Rio, um pacto de defesa mútua interamericano assinado em 1947 no Rio de Janeiro.
No exercício do corrente ano, que vai decorrer até 12 de setembro, participam 25 países, com 17 navios, dois submarinos, 20 aeronaves e mais de 4.000 marinheiros e fuzileiros navais e, entre os países participantes, estarão “delegaciones europeas y del Asia Pacifico”.
Diz a organização que o UNITAS é o exercício naval mais antigo do mundo, pois realiza-se anualmente desde 1960 sob a orientação operacional dos Estados Unidos e com a participação de várias Marinhas latino-americanas, com o objectivo de treinar, capacitar e estabelecer vínculos de confiança entre si. Nessa altura, o exercício destinava-se à preparação das Marinhas para fazer frente à ameaça soviética no contexto da Guerra Fria mas, com o tempo, os seus objectivos foram-se ampliando para novos aspectos da guerra no mar e para os novos cenários mundiais. A partir de 1999 o UNITAS passou a dividir-se em três fases que se realizam alternadamente no Atlântico, no Pacífico e nas Caraíbas. 
O exercício UNITAS LXV (65) vai decorrer na costa chilena do Pacífico e terá como bases os portos de Valparaíso e de Punta Arenas, no estreito de Magalhães.

sábado, 31 de agosto de 2024

Evocação do referendo de 1999 em Timor

Por diversas razões, incluindo as anomalias da descolonização portuguesa e a guerra civil timorense, no dia 28 de novembro de 1975 a Fretilin (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) proclamou unilateralmente a independência daquele território que ocupa a parte oriental da ilha de Timor, mas essa declaração não foi reconhecida por Portugal, nem pelas Nações Unidas, nem pela comunidade internacional.
Por isso, no dia 7 de dezembro de 1975, quando as tropas portuguesas se limitavam a uma presença simbólica na pequena ilha de Ataúro, a vizinha e poderosa Indonésia invadiu a antiga colónia portuguesa da ilha de Timor que, de jure, ainda tinha soberania portuguesa, decretando a sua anexação. A repressão indonésia foi violenta e gerou uma resistência armada que lutou nas montanhas e criou dificuldades aos ocupantes. Estima-se que tenham morrido quase duzentos mil timorenses. Apesar de alguns países, como a Austrália e os Estados Unidos, terem aceite a ocupação indonésia, os sucessivos governos portugueses defenderam a causa timorense e mobilizaram a comunidade internacional para respeitar o direito do povo timorense a escolher o seu destino. Depois de um longo e complexo processo diplomático, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, conseguiu que os governos da Indonésia e de Portugal estabelecessem negociações e chegassem a um Acordo sobre a Questão de Timor-Leste, que previa a realização de um referendo, que veio a ser realizado no dia 30 de agosto de 1999. Foi há 25 anos e a generalidade dos mass media portugueses estiveram distraídos e não evocaram esse dia histórico, tanto para Portugal como para Timor-Leste. Uma das honrosas excepções foi o Et cetera, o suplemento semanal do Jornal Económico, cuja primeira página evoca a figura de Xanana Gusmão, ex-comandante da guerrilha timorense, ex-presidente eleito da República e actual primeiro-ministro de Timor-Leste.
Nesse dia 30 de agosto de 1999, sob a supervisão das Nações Unidas, houve 78,5% de timorenses que rejeitaram a proposta de autonomia especial de Timor-Leste, o que significava a independência e a separação da Indonésia.
A independência chegou no dia 20 de maio de 2002. Foi um dia memorável em Portugal. Quem se recorda desse dia?

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Israel radical também ataca a Cisjordânia

O território palestiniano situado a oeste do rio Jordão que é designado por Cisjordânia, ou West Bank, está ocupado militarmente por Israel, o que é ilegal à luz do Direito Internacional e das Resoluções das Nações Unidas.
O território é governado pela Autoridade Nacional Palestiniana presidida por Mahmoud Abbas mas, para além do seu controlo militar, o governo de Netanyahu decidiu agora lançar operações aéreas e terrestres em grande escala a que chamou operações antiterroristas. Assim, invadiu as cidades de Jenin, Nablus, Tubas e Tulkarem e outras áreas cisjordanas, com o apoio da aviação, de helicópteros e de veículos armados. Segundo os relatos de alguma imprensa internacional trata-se de “um dos ataques mais violentos em décadas na Cisjordânia” e o jornal Kuwait Times escreveu em título de primeira página que “Zionist terror hits West Bank”, o que significa que o terror atingiu a Cisjordânia. O insuspeito jornal The Washington Post escreveu ontem em primeira página que “massive Israeli raids kill at least 10”.
Alguns podem compreender a luta contra o Hamas que governa a Faixa de Gaza, como um direito de resposta israelita aos massacres e raptos de 7 de outubro, embora todos considerem injusto, excessivo e cruel o que tem sido feito ao povo palestiniano.
Outros podem compreender a reacção de Israel perante a ameaça do Hezbollah, uma organização política e paramilitar fundamentalista islâmica instalada no sul do Líbano.
Porém, ninguém compreende as acções israelitas nos territórios cisjordanos governados pela Autoridade Nacional Palestiniana onde já morreram mais de 650 palestinianos, desde o dia 7 de outubro. E ninguém compreende os silêncios de Joe Biden, de Ursula von der Leyen, de Emmanuel Macron, de Olaf Scholz e de tantos líderes que se comportam como cúmplices do massacre ao povo palestiniano.

Perda de um F-16: golpe para a Ucrânia

A edição de hoje do The Wall Street Journal publica na sua primeira página uma notícia com o título “Ukrainian Pilot Dies in F-16 Crash”, um facto que terá acontecido na passada segunda-feira, mas que só foi revelado quatro dias depois, certamente porque foi um duro golpe para as aspirações ucranianas.
A notícia avançada por diferentes agências diz que “a Ucrânia perdeu o primeiro dos seus caças F-16 de fabricação norte-americana durante o enorme ataque com mísseis e drones da Rússia na segunda-feira, matando o piloto, tenente-coronel Oleksiy Mes, um dos primeiros do país a ser qualificado para pilotar os caças avançados”. As autoridades militares ucranianas “não acreditam que um erro do piloto esteja por trás do acidente” e também afirmaram que "não parece ter sido resultado de fogo russo".
A longa pressão conduzida por Volodymyr Zelensky para que os seus aliados e amigos lhe cedessem caças F-16 tinha sido bem sucedida e as primeiras unidades tinham chegado à Ucrânia há poucas semanas, provenientes da Bélgica, Dinamarca, Países Baixos e Noruega. Havia a expectativa de que os F-16 poderiam desequilibrar a balança operacional a favor da Ucrânia, pelo que este acontecimento veio arrefecer os ânimos belicosos de muita gente e mostrar que a solução do problema ucraniano está na diplomacia, na negociação, no fim da destruição de vidas e bens, isto é, no cessar-fogo e na paz entre russos e ucranianos, mas também veio mostrar que aqueles que defendem o envolvimento de mais meios militares e até de tropas europeias, estão errados.
Haverá ainda quem pense que a guerra serve para solucionar algum problema?

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

O paradoxo dos negócios do armamento

Os negócios do armamento sempre foram muito lucrativos e a sua prosperidade depende das tensões internacionais e das guerras que delas derivam. 
Os aviões de combate são apenas um subconjunto nesse negócio e é sobre ele que trata a edição de hoje de La Tribune, um jornal económico e financeiro francês. A sua primeira página é dedicada ao avião de combate Dassault Rafale, construído pela Dassault Aviation, a propósito de uma possível nova encomenda de 12 unidades por parte da Sérvia que, dessa forma será, além da França, o oitavo país a escolher “os aviões de combate tricolores”.
No campo da aviação militar, tal como na área da aviação comercial, há uma enorme rivalidade entre construtores e, no caso dos aviões de combate, concorrem vários construtores europeus, designadamente com o Dassault Rafale (projecto da França), o Eurofighter Typhoon (projecto do Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha) e o Saab JAS 39 Gripen (projecto da Suécia). Neste negócio de muitos milhões, é caso para dizer “amigos, amigos… negócios à parte”.
O Dassault Rafale já equipa as forças aéreas da França, India, Egipto, Qatar, Croacia, Grécia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia; o Eurofighter Typhoon foi adoptado pelas forças aéreas do Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha, mas também pela Áustria, Arábia Saudita, Omã, Qatar e Kuwait; o Saab JAS 39 Gripen equipa as forças aéreas da Suécia, África do Sul, República Checa, Hungria, Tailândia e Brasil.
Há, portanto, uma verdadeira disputa por este riquíssimo nicho de mercado e de poder, sendo que cada um destes aviões custa cerca de cem milhões de euros, dependendo o preço da configuração escolhida pelo comprador. Significa que éste negócio se fundamenta num paradoxo terrível, pois é preciso que haja guerras, ou a ameaça de as haver, para alimentar a prosperidade ou a sobrevivência dos negócios do armamento.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

EUA: Donald, Kamala e tudo por decidir

Depois de uma caminhada de muitos meses, a corrida eleitoral americana entrou agora na sua fase final com dois candidatos já oficializados pelos seus partidos que são, respectivamente, Donald Trump, republicano e ex-presidente com 78 anos de idade, e Kamala Harris, democrata e actual vice-presidente com 59 anos de idade.
O candidato democrata começou por ser o actual presidente Joe Biden, que demorou a reconhecer que estava diminuido física e cognitivamente. Tardou a passar o testemunho a Kamala Harris, mas ao desânimo que assolava as hostes democratas, sucedeu um novo alento na sua campanha, que gerou uma onda de euforia em torno da nova candidata, a que uma revista francesa chamou a kamalamania
Os americanos estão perante duas personalidades bem diferentes e, como referiu um jornal belga, são “duas visões totalmente opostas da América”. Como destacou, o jornal francês Le Parisien, na sua mais recente edição, “rien n’est joué”, ou nada está decidido. A verdadeira luta eleitoral vai agora começar e serão os temas internos – o emprego, a inflação, a saúde, os impostos, os imigrantes e o controlo das fronteiras, entre outros – que irão ser decisivos nas escolhas dos americanos. Porém, porque se trata da nação mais poderosa do planeta, as eleições nos Estados Unidos interessam a todo o mundo e, de forma especial, é sobre a política externa americana que todos se interrogam.
Nesse domínio, os republicanos e os democratas têm visões distintas, mas nem uns nem outros parecem ter soluções para os conflitos em curso, pois não é credível afirmar que se acaba com as guerras em 24 horas, mas também não é aceitável que tanta bomba americana esteja a destruir o povo palestiniano, nem que as nove viagens de Antony Blinken ao Médio Oriente não tenham chegado à paz ou à moderação de Netanyahu.
Quanto a sondagens há-as para todos os gostos.

domingo, 25 de agosto de 2024

A História é uma moeda com duas faces

A revista francesa L’Express foi criada em 1953 e entre os seus fundadores estava o famoso jornalista Jean-Jacques Servan-Schreiber que, pelo seu prestígio, tornou aquela revista num sucesso da comunicação social francesa e europeia, tendo inspirado muitos projectos jornalísticos em vários países que, por vezes, até o seu nome copiaram. Ao longo da sua vida o L’Express passou por diferentes proprietários, modelos de gestão e orientações editoriais situadas no campo da esquerda democrática, mas a partir de 1980 a sua orientação tem-se situado claramente à direita e, como se vê na última edição, assume características panfletárias. 
A revista entrou pelos caminhos da História e escolheu como capa da sua última edição, uma galeria dedicada a cinco tiranos encartados – Josef Stalin, Mao Tsé-Tung, Fidel de Castro, Pol Pot e Nicolas Maduro – classificando-os como “dictateurs qui ont tant fasciné la gauche”, com a curiosidade de incluir essa figura exótica e caricata que é Nicolas Maduro. Não sei se estes indivíduos fascinaram a esquerda, ou que sector das muitas esquerdas que existem, mas a História regista que estes homens aterrorizaram muitos outros homens, que foram tiranos e despóticos, que perseguiram, torturaram e mandaram matar muitos dos seus adversários, sem qualquer observância dos princípios que vieram a ser classificados como direitos humanos.
Porém, essa galeria é enganadora sob o ponto de vista histórico. O bem e o mal existem tanto à esquerda como à direita. Daí que nessa galeria poderiam ser incluídos muitos outros tiranos e tiranetes da nossa História recente, como Adolfo Hitler, Benito Mussolini, Francisco Franco, Augusto Pinochet e Benjamin Netanyahu que, como sabemos, também fascinam muita gente.
A História é como uma moeda e tem sempre duas faces. Não há meias Histórias como aquela que o L'Express nos quer contar.

sábado, 24 de agosto de 2024

Aste Nagusia, a grande festa de Bilbau

Estão a decorrer na cidade de Bilbau as Fiestas de Bilbao ou, utilizando a sua designaçáo em língua basca, a Aste Nagusia, que é o acontecimento cultural mais importante da cidade que se realiza anualmente.
As tradicionais festividades da cidade aconteciam no mês de agosto, mas com o fim do franquismo e o reconhecimento da identidade basca, a partir de 1978 foi criada a Aste Nagusia como uma importante celebração da cultura basca, das suas tradições e dos seus costumes, em que se estimulava a participação popular, mas também se divulgavam as actividades culturais de raíz basca.
As festividades são organizadas pelo Ayuntamiento de Bilbao e pelos Bilboko Konpartsak, que são grupos populares de voluntários organizados para apoiar a preparação das actividades. Diz a organização que “durante 9 dias, quienes se acercan a Bilbao pueden participar de cientos de actividades de todo o tipo: festivas, culturales, artisticas, deportivas”, das quais “más de 300 actividades programadas por el Ayuntamiento de Bilbao son gratuitas”, podendo destacar-se as dezenas de concertos de todos os tipos de música, as oito corridas de touros na Plaza de Toros de Vista Alegre e várias exposições, designadamente no Guggenheim Bilbao Museum.
Este ano, a Aste Nagusia teve uma novidade que foi assinalada na primeira página do jornal El Correo, com a visita, ou “o regresso a casa”, do navio-escola Guayas, uma barca da Marinha do Equador. Esta barca foi construída nos Astilleros Celaya de Erandio, na ria de Bilbao, os mesmos estaleiros que em 1967 construíram a barca colombiana Gloria e, em 1982, a barca mexicana Cuauhtemoc
O navio-escola Guayas deixara Bilbau em 1977 para a sua primeira viagem e, 47 anos depois, regressou ao porto onde foi construído para assistir à Aste Nagusia 2024.

Continua a crise política na Venezuela

Os resultados das eleições venezuelanas realizadas no dia 28 de julho foram anunciados dando a vitória a Nicolas Maduro com 51,2% dos votos, mas foram fortemente contestados desde a primeira hora, tanto pelo candidato derrotado Edmundo González Urrutia, como pela oposição venezuelana e pela generalidade da comunidade internacional. Desde logo, surgiram acusações de fraude e foi exigida a divulgação das actas das mesas eleitorais, para demonstrar, ou não, que houve manipulação na sua transcrição para o registo de apuramento final. 
Nas ruas surgiram manifestações de contestação aos resultados anunciados, mas também outras manifestações de apoio a Maduro e ao chavismo. No entanto, vários países reconheceram González como vencedor e muitos outros países exigiram a divulgação das actas eleitorais, mas Maduro conseguiu que as Forças Armadas lhe manifestassem apoio. Até ver…
Maduro controla todas as instâncias de poder na Venezuela e há dois dias, sem surpresa, ouviu-se a voz da Caryslia Beatríz Rodrígues, a presidente do Tribunal Supremo de Justicia (TSJ), a certificar de forma “inobjetable” os resultados eleitorais, conforme anunciou o jornal El Periodiquito que se publica na cidade de Maracay, no estado de Aragua. Com esta validação da sua reeleição por um TSJ, que é “um braço armado do chavismo”, Nicolas Maduro endureceu o seu discurso e as suas ameaças. Porém, tanto a Organização dos Estados Americanos como a União Europeia recusam reconhecer a vitória de Maduro até à verificação das actas eleitorais e há onze países americanos, incluindo os Estados Unidos, a Argentina, o Chile e o Perú, que se recusam aceitar a decisão do TSJ, enquanto o vizinho Brasil se mostra dialogante com Maduro para ultrapassar a crise política na Venezuela.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

EUA: a questão de Gaza e a luta eleitoral

A propósito da Convenção Nacional do Partido Democrata que hoje se encerra e que escolheu Kamala Harris como candidata à presidência dos Estados Unidos, as notícias televisivas têm mostrado unanimidade, muito entusiasmo e um enorme apoio que lhe tem sido dado, nomeadamente por Oprah Winfrey, Nancy Pelosi, os Clintons, os Obamas e outros dignitários. Porém, a edição de hoje do jornal Chicago Sun Times revela que os Democratas estão divididos pelo problema de Gaza. 
De acordo com aquele jornal, no exterior da Convenção estiveram muitos activistas a protestar contra a ofensiva israelita em Gaza, enquanto no interior da Convenção se manifestou um pequeno mas expressivo contingente de delegados democratas que suspendeu o apoio a Kamala Harris, até que ela “se comprometa a cortar o fornecimento de armas a Israel”. Muitos destes delegados estão alinhados com o movimento de protesto que tem apelado a Joe Biden para cortar o fluxo de armas americanas para Israel, destacando-se Abbas Alawich, delegado do Michigan, que disse da dificuldade em contactar as bases do partido, quando “vemos o assassinato em massa de crianças e bebés em Gaza usando armas dos Estados Unidos”. Durante o discurso de Joe Biden foi desfraldada uma faixa no salão da Convenção pedindo-lhe que “pare de armar Israel”, embora essa faixa tivesse sido imediatamente retirada por outros delegados. Num outro discurso, o senador Bernie Sanders, antigo candidato presidencial, afirmou que “devemos acabar com esta guerra horrível em Gaza” e, dirigindo-se a Kamala Harris, disse-lhe para que “traga os reféns para casa e exija um cessar-fogo imediato”.
Muitos delegados e congressistas Democratas alertaram que esta questão “pode inclinar a votação de 5 de novembro para o candidato republicano”, mas o que é significativo é o facto do conflito israelo-palestiniano e o apoio americano ao radicalismo israelita estarem no centro da luta eleitoral americana. De facto, ainda vai correr muita água debaixo das pontes durante a corrida eleitoral.