segunda-feira, 11 de abril de 2022

A escolha dos franceses: Macron ou Le Pen

As eleições presidenciais francesas são um acontecimento político muito importante para a Europa, sobretudo no actual quadro de guerra que se vive no leste europeu e, por isso, são destacadas hoje no jornal Le Figaro, mas também pela imprensa mundial.
Na primeira volta que ontem se disputou, o candidato Emmanuel Macron obteve 28,3% dos votos e a candidata Marine Le Pen conseguiu 23,6%, pelo que irão de novo a votos no próximo dia 24 de Abril. Pelo caminho ficaram dez outros candidatos, com destaque para Jean-Luc Mélenchon que obteve 20,8% dos votos.
Significa que a França ficou com um quadro muito semelhante ao que teve nas anteriores eleições presidenciais de 2017, pois voltará a ter os mesmos candidatos na segunda volta. Nessas eleições, Macron obteve 24,01% na primeira volta realizada no dia 23 de Abril de 2017 e Le Pen ficou-se pelos 21,3% dos votos. Depois, na segunda volta realizada no dia 7 de Maio, Macron chegou aos 66,1% e Le Pen obteve apenas 33,9% dos votos.
Os comentadores especializados dizem que em 2022 não vai ser como em 2017, o que as sondagens também estão a confirmar, além de que o próprio Emmanuel Macron já declarou que “não nos enganemos, nada está decidido”.
A escolha dos franceses preocupa a Europa, pois parece que muitos tenderão a favorecer os candidatos que melhores garantias lhes ofereçam quanto à qualidade de vida, ao emprego e à melhoria do poder de compra, isto é, ao seu interesse pessoal imediato. Porém, numa altura em que o conflito ucraniano está na ordem do dia, os europeus esperam que o futuro presidente da França possa contribuir para a estabilidade e para o apaziguamento no leste europeu e que não atire mais gasolina para a fogueira.

domingo, 10 de abril de 2022

As vistas a Kiev dos líderes europeus

Quando, há muitos anos, assistia a disputas e confrontações violentas entre duas pessoas, sempre procurei separá-las sem cuidar de saber quem tinha razão e, por isso, quando hoje vejo as multidões de refugiados a abandonar a Ucrânia, a brutal destruição do património e os mortos espalhados pelas cidades, só penso no cessar-fogo, na arbitragem, nas negociações e, naturalmente, no fim de toda esta tragédia.
Há todas as versões possíveis sobre as causas próximas ou remotas deste conflito que já se transformou numa grande catástrofe mas, nesta fase, não interessará muito discuti-las na praça pública pois tendem a ser distorcidas por razões emocionais. Também não é suficiente dizer-se que a Rússia é o agressor e que a Ucrânia é o agredido porque, pelo menos desde 2014, se sucediam intermináveis escaramuças entre os dois países, ou seja, tudo isto já começou há vários anos. Esses são alguns dos assuntos para discutir à mesa das negociações, mas primeiro há que concretizar o cessar-fogo.
Porém, tem havido uma intensa campanha nos mass media internacionais e, de forma muito especial nas televisões portuguesas, não para procurar o cessar-fogo e a paz, mas sobretudo para acusar a Rússia e incriminá-la por crimes guerra. Volodymyr Zelensky tornou-se a principal figura desta guerra, pela sua coragem, persistência e capacidade de comunicação que usa com mestria, mas ao mesmo tempo que pede armas, afirma-se pronto para negociações. Porém, os seus aliados ocidentais gostam de o ouvir enquanto pede armas que lhe são prometidas e que objectivamente prolongam a guerra, mas nunca falam na necessidade de parar com a guerra.
A recente visita de Ursula von der Leyen a Kiev teve uma marca de solidariedade e de apoio humanitário que deve ser elogiada mas, pelo contrário, a visita de Boris Johnson que o jornal The Sunday Telegraph hoje destaca, foi um acto de propaganda pessoal e de instrumentalização da catástrofe ucraniana do primeiro-ministro britânico que, perigosamente, tende a intensificar ou mesmo a internacionalizar a guerra e nada contribui para a paz.

sábado, 9 de abril de 2022

A França e a incerteza das suas eleições

A edição de hoje do jornal Le Figaro dedica a sua primeira página às eleições presidenciais francesas que se realizam amanhã e escolheu como título “A França na hora da escolha”, enquanto ilustra a notícia com uma fotografia onde se podem ver os cartazes dos doze candidatos presidenciais que vão a votos. As últimas sondagens que se conhecem vieram aumentar a incerteza quanto aos resultados esperados, até porque há cada vez mais gente a desconfiar de sondagens.
O actual presidente Emmanuel Macron, que liderava destacado nas intenções de voto, vem perdendo espaço nas sondagens, enquanto Marine Le Pen se vem aproximando da linha da frente nas intenções de voto. Os últimos resultados apontam para 27% para Macron, 24% para Marine Le Pen, 17% para Jean-Luc Mélenchon e 9% para Eric Zemmour, o que no quadro das margens de erro destas sondagens significa a incerteza. No entanto, há sondagens que dão esses dois candidatos, do centro e da extrema-direita, separados apenas por 2%. 
Essa incerteza quanto ao vencedor da 1ª volta, não se coloca em relação aos candidatos que disputarão a 2ª volta no dia 24 de Abril, podendo afirmar-se com segurança que serão Macron e Le Pen. Significa, assim, que Macron e Le Pen irão retomar o combate que disputaram na 2ª volta das eleições presidenciais de 7 de Maio de 2017, quando Macron obteve 66% e Le Pen 33%. Agora, as sondagens apontam para um resultado favorável para Emmanuel Macron apenas com 52%, o que significa incerteza, mas também que, apesar dos seus cinco anos no Eliseu, não conquistou a popularidade nem a confiança dos franceses.
Quanto à importância destas eleições para a França, para a Europa e até para a paz no mundo, ninguém tem dúvidas.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Algumas hipocrisias da guerra na Ucrânia

Estamos a assistir diariamente a preocupantes sinais de um alastramento do conflito ucraniano a outras esferas que não apenas a específica área militar, com destaque para a esfera económica e para as sanções que têm sido impostas à Federação Russa por inúmeros países. Uma das sanções mais dolorosas para os russos, terá sido a Executive Order (O.E.) de 8 de Março, assinada por Joe Biden, em que é proibida aos americanos a importação de petróleo, gás natural e carvão russos, isto é, os Estados Unidos decretaram o embargo à importação de hidrocarbonetos ou energias fósseis russas.
Porém, é sabido como a globalização deu origem a uma enorme interdependência entre as economias e como os factores de produção se encontram muito dispersos, pelo que o processo produtivo se internacionalizou e mostra como todos são cada vez mais dependentes de todos. Por isso, todos os embargos têm um efeito bumerangue, pois afectam as duas partes do processo e nem todos se sujeitam aos diktats políticos.
Só assim se compreende a notícia que hoje é destacada pelo jornal financeiro francês La Tribune, em que revela que apesar do embargo, os Estados Unidos continuam a importar petróleo russo. A investigação baseou-se na consulta do portal marinetraffic.com, que regista os movimentos de navios petroleiros, bem como as datas e portos de partida e de chegada. Assim, o jornal verificou o registo de chegada a portos americanos de vários navios hasteando diferentes bandeiras, uns saídos de Krasnodar, no mar Negro, e outros de Ust-Luga, na região de São Petersburgo. O jornal diz ainda que “pelo menos sete petroleiros provenientes da Rússia, navegam actualmente para os Estados Unidos com petróleo russo, segundo os dados do portal marinetraffic.com”.
Segundo o jornal, estes fluxos mostram que apesar do embargo, os hidrocarbonetos russos continuam a chegar aos Estados Unidos e que se elevam a cerca de 148 mil barris diários. Para além da tragédia humana e da destruição, é realmente cada vez mais difícil perceber o que se está a passar no meio de tantas hipocrisias.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

China is watching

Enquanto a incerteza e a guerra, mas também a tragédia humanitária e a brutal destruição das cidades continuam a dominar a situação na Ucrânia, a China observa. Esse é o teor de alguns conteúdos da imprensa internacional e é esse o título da mais recente edição da revista Newsweek, em cuja capa se vê Xi Jinping a espreitar.
Significa que o conflito da Ucrânia não é apenas uma disputa entre irmãos, geograficamente bem localizada no centro da Europa, mas que está a ser uma luta pela recomposição de poderes militares e económicos à escala planetária, na qual muita gente está interessada, tanto no ocidente, como do outro lado do mundo.
Há poucas semanas, as ambições repetidamente expressas pelos responsáveis chineses de anexar Taiwan pela força talvez tivessem muitos seguidores em Pequim, mas com os acontecimentos que estão a observar na Ucrânia, incluindo a corajosa postura dos seus líderes, a resistência popular da população, a solidariedade activa da NATO e a derrota russa na sua tentativa de dominar Kiev, a China está a ficar desencorajada de cumprir a promessa de capturar a ilha “rebelde” de Taiwan e os seus 24 milhões de habitantes. Noutra perspectiva, também a união que até agora se tem verificado em torno da NATO e os efeitos das sanções económicas impostas à Rússia, são motivos adicionais para dissuadir Xi Jinping e a sua equipa de tomar qualquer iniciativa no sentido do regresso forçado da ilha de Taiwan à grande China, onde a resistência ucraniana está a ser uma inspiração para a população de Taiwan.
No entanto, tudo está em movimento e a China observa.

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Que venha o cessar-fogo e bem depressa!

Nas guerras modernas como aquela que está a devastar a Ucrânia, são decisivos os papéis desempenhados pela propaganda e pela contrainformação, não só para mobilizar as populações e os combatentes, mas também para agitar as opiniões públicas internacionais e para assegurar apoios políticos ou militares de governos estrangeiros.
Por isso, quando se está a cerca de 3.500 quilómetros de Kiev e sem a pressão emocional e directa da tragédia, é normal que haja muita desconfiança quanto às notícias que nos chegam, pois incluem distorções e mentiras que se repetem nas televisões e nas redes sociais, adquirindo por vezes o estatuto de notícias verdadeiras. Dessa forma, pouco sabemos sobre o que realmente se passa na Ucrânia, embora saibamos do drama dos refugiados, da enorme destruição nas cidades e da corajosa resistência popular ucraniana. Desconhecemos, também, se há envolvimento de forças estrangeiras nos combates, quais são e de quem são os avanços e os recuos e, ainda, qual é o real andamento das negociações para um cessar-fogo cada vez mais urgente.
Porém, a retirada russa dos arredores de Kiev veio permitir a divulgação de imagens captadas em Bucha, nos arredores da capital, em que se vêm centenas de cadáveres de civis, aparentemente executados pelas tropas russas. Essas imagens aparentam ser verdadeiras e estão a gerar grande indignação internacional, com o regime de Putin a ser acusado de genocídio. Há suspeitas de torturas e de massacres. Há fortes indícios de crimes de guerra a lembrar My Lai (1968), Wiriyamu (1972) e Srebenica (1995), mas também pode haver alguma encenação para incriminar os russos. A exigência de uma investigação independente que foi reivindicada pelas Nações Unidas é absolutamente necessária para conhecer a verdade.
Nas suas edições de hoje a imprensa internacional faz eco da horrível situação que foi encontrada em Bucha e o jornal francês Libération usa a palavra barbárie para a descrever. Quanto tempo irá decorrer até que saibamos a verdade sobre a trágica realidade encontrada em Bucha?

domingo, 3 de abril de 2022

Salgueiro Maia, o maior capitão de Abril

O jornal Público evoca na sua edição de hoje o 30º aniversário da morte de Fernando Salgueiro Maia, o capitão que no dia 25 de Abril de 1974 comandou a coluna de blindados que saiu de Santarém e se dirigiu para Lisboa. Na capital começou por ocupar o Terreiro do Paço onde resistiu às forças que se lhe opuseram e, ao fim da tarde, montou o cerco ao quartel do Carmo, forçando a rendição de Marcelo Caetano, o presidente do Conselho de Ministros. Com a sua enorme coragem e grande determinação, Salgueiro Maia deu o principal passo para o derrube da ditadura do Estado Novo e para a instauração da democracia, tornando-se muito justamente num dos maiores símbolos dessa data libertadora, a par de Otelo Saraiva de Carvalho e de outros militares.
Salgueiro Maia morreu em 1992 por doença, quando tinha 47 anos de idade. Apesar de lhe terem sido abertas todas as portas do poder, sempre recusou privilégios ou cargos confortáveis e bem remunerados com que o sistema costuma proteger os mais ambiciosos ou os menos escrupulosos. Essas circunstâncias tornaram-no um militar respeitado, tanto pelos seus companheiros, como pelos seus adversários. O povo compreendeu o seu destacado papel na mudança do regime político, bem como a sua coragem física e a sua generosidade cívica. O seu nome passou a fazer parte da toponímia das nossas cidades e vilas, inspirou criadores e autores, dando origem a manifestações culturais de toda a ordem, na literatura, na música, no cinema e na arte urbana. O filme Salgueiro Maia, o implicado que vai estrear brevemente, é um dos mais recentes tributos à memória do capitão que “nunca quis ser herói”.
Aqui lhe presto, também, a minha grata homenagem.

sábado, 2 de abril de 2022

A desejável neutralidade para a Ucrânia

A guerra da Ucrânia ocupa a informação portuguesa desde há mais de um mês, através da presença de muitos enviados especiais no terreno e de inúmeros comentadores e comentadoras nos estúdios, cujas notícias, opiniões e comentários são repetidos demasiadas vezes, como se fizessem parte de um programa de propaganda organizada.
Apesar disso, hoje sabe-se pouco sobre o que realmente se passa no terreno, embora possamos ver cenários de grande tragédia humana e de grande destruição patrimonial, que as televisões nos mostram durante horas e horas. O cessar-fogo já deveria ter acontecido, mas há quem não esteja interessado nele, apesar das negociações estarem a dar alguns bons passos, segundo tem sido divulgado, designadamente quanto a uma futura neutralidade ucraniana e à sua não integração na NATO.
A questão russo-ucraniana tornou-se um problema mundial. Na Eslováquia, um dos sete países que tem fronteiras com a Ucrânia e que é um pequeno país que pertence à União Europeia e à NATO, o jornal Denník N que se publica em Bratislava, deu hoje espaço de primeira página a um curioso cartoon com as cores ucranianas e com um guarda-chuva que protege o país dos bombardeamentos, russos ou outros, escrevendo Akú neutralitu by brali Ukrajinci que, em tradução feita pelo google significa, que neutralidade aceitariam os ucranianos. O cartoon é inteligente e insinua uma Ucrânia neutral, em que o guarda-chuva da neutralidade protege o país de todas bombas, venham elas de onde vierem.
Para além da questão da neutralidade ucraniana e da integração na União Europeia, há as questões mais complexas das autonomias ou das independências no Donbass, da ocupação russa da Crimeia, do estatuto da cidade autónoma de Sebastopol, dos acessos ucranianos ao mar Negro e da compatibilização no mesmo país de duas línguas, duas culturas e duas religiões, para além das feridas que irão persistir durante muito tempo na sociedade ucraniana em relação às suas próprias comunidades e à Rússia.
É mesmo um desafio muito difícil, mas não pode deixar de ser procurada uma rápida solução para a Ucrânia com a ajuda da comunidade internacional. A neutralidade como tem a Áustria ou a Finlândia pode ser uma solução.

quinta-feira, 31 de março de 2022

A guerra e a destabilização da economia

Os jornais espanhóis anunciam hoje que a inflação no país atingiu 9.8%, que é o valor mais alto desde 1985, enquanto foi anunciado que a inflação na Bélgica se situa nos 8.31% e na Alemanha nos 7.3%. Estes valores da inflação não se verificavam desde há cerca de quarenta anos e estão a alarmar as economias, os consumidores e as empresas europeias. No mês passado a taxa de inflação na Zona Euro já tinha acelerado para 5.8%, o que é um máximo histórico e um aviso do que poderá acontecer nos próximos tempos. A estabilidade dos preços, tal como o modelo social e outras conquistas civilizacionais que têm beneficiado os europeus e que nos acompanhavam desde há muitos anos, poderão estar em causa devido à actual aceleração da inflação.
De uma forma simples, a inflação define-se como a subida dos preços. O preço é o ponto de encontro entre a oferta e a procura: quando a oferta aumenta o preço baixa, mas quando a oferta baixa o preço sobe. É o que está a acontecer agora: há menos produção e há menos oferta, pelo que os preços aumentam.
O mundo tornou-se global, interdependente e muito competitivo, tal como os sistemas produtivos que procuram economias de escala e custos de produção mais baixos. As matérias-primas, os componentes, a energia ou as patentes de que as empresas carecem, chegam-lhe de muito diferentes origens. Quando acontece uma guerra como aquela que está a devassar o território ucraniano, há rupturas na logística, quebras na produção, o quadro económico destabiliza e alteram-se as expectativas das empresas e dos consumidores. A diminuição da produção gera a diminuição da oferta de bens e serviços e os preços sobem, arrastados sobretudo pelos custos da energia e da alimentação.
Por agora, é uma incógnita prever até onde poderá ir esta destabilização da economia e a forma mais ou menos severa como afectará Portugal.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Portugal no Catar com sonhos na bagagem

Goste-se ou não se goste de futebol, alinhe-se ou não na alienação que faz daquela arte uma fantochada, ou apreciem-se ou não as aberrantes discussões televisivas a respeito das futebolices, o facto é que a selecção nacional de futebol ganhou ontem à Macedónia do Norte e garantiu a sua presença nos Mundiais do Catar, que se realizarão a partir de 21 de Novembro. Foi uma alegria ver os dois golos do Bruno Fernandes! Foi uma alegria ver o Pepe e o Danilo como dois generais a comandar a defesa! Foi uma alegria ver o entusiasmo do público, cantando o hino nacional e agitando bandeiras!
Todos os povos precisam destas pequenas-grandes coisas para se animarem, para reforçarem a sua autoestima e até para darem mais sentido às suas vidas, para assim poderem ultrapassar as suas frustrações do presente ou as suas ansiedades quanto ao futuro. A ausência do Catar seria quase uma humilhação para a orgulho português, mas também para alguns outros povos que se vão rever naquela equipa.
Os jogadores estão de parabéns, tal como a estrutura organizativa que os apoia e o treinador da equipa, que é um homem de sorte, por dispor de um tão vasto leque de talentosos e experientes futebolistas. Foi ele quem declarou que “vamos atrás do sonho”, que hoje faz o título do jornal A Bola, a pensar que é possível fazer boa figura no Catar e, quem sabe, até chegar à vitória. De facto, o sonho comanda a vida, como escreveu António Gedeão no poema Pedra Filosofal, ou pelo sonho é que vamos como disse Sebastião da Gama. Esta curiosa ligação da arte do futebol à arte poética é realmente muito estimulante e até resgata o futebol de uma teia de duvidosos interesses e de gente pouco recomendada que dele vive.
Portanto, viva o futebol propriamente dito, mas só esse!

A grande aventura iniciou-se há 100 anos

No dia 30 de Março de 1922, os comandantes Gago Coutinho e Sacadura Cabral partiram do rio Tejo, em frente de Belém, no seu hidroavião monomotor Fairey F III-D Mk II de nome Lusitânia, para percorrerem mais de 4.500 milhas até ao Rio de Janeiro e fazerem pela primeira vez a travessia aérea do Atlântico Sul.
Hoje perfazem-se cem anos sobre esse acontecimento que foi bem-sucedido e foi realizado no contexto das comemorações do primeiro centenário da Independência do Brasil. Os portugueses e os brasileiros aclamaram vibrantemente, com entusiasmo e orgulho, os dois corajosos marinheiros-aviadores portugueses, como mostrou a imprensa da época.
A viagem só foi concluída no dia 17 de Junho porque, por razões técnicas e meteorológicas, houve necessidade de recorrer a três aparelhos, pois o primeiro perdeu-se durante a amaragem junto aos penedos de São Pedro e São Paulo e o segundo perdeu-se no mar entre aqueles penedos e o porto do Recife, tendo sido o terceiro aparelho – o hidroavião Santa Cruz – que concluiu a viagem. Para além do sucesso aeronáutico, o voo permitiu concluir que era possível realizar com precisão voos de grande distância, utilizando os mesmos métodos da navegação marítima, através da adaptação do sextante que foi idealizada por Gago Coutinho e que depois foi adoptado durante algumas décadas pela navegação aérea.
Embora a viagem tenha demorado setenta e nove dias, o tempo efectivo de voo foi apenas de sessenta e duas horas e vinte e seis minutos.
Esta efeméride vai ser devidamente evocada, estando divulgado o Programa das Comemorações da 1ª Travessia Aérea do Atlântico Sul (1922-2022), em que participam a Academia de Marinha, a Sociedade de Geografia de Lisboa, a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Portuguesa da História.
Entretanto, o hidroavião Santa Cruz resistiu ao tempo e está conservado no Museu de Marinha, constituindo uma bela página de História ao Vivo e, entre algumas evocações que vão sendo feitas na comunicação social, destaca-se e saúda-se a última edição da revista Visão História.

terça-feira, 29 de março de 2022

O cessar-fogo, a paz e o futuro da Ucrânia

Quando se começam a observar alguns sinais de que as partes em confronto no território ucraniano estão a revelar algum cansaço, começando a flexibilizar as suas posições de princípio e a encaminhar-se para um cessar-fogo – pelo menos é isso que parece aos observadores não especialistas, como é o nosso caso – a edição de ontem do jornal inglês The Guardian veio dizer que Putin quer dividir a Ucrânia em duas partes, tal como aconteceu com a Coreia depois da 2ª Guerra Mundial. Ao mostrar a bandeira ucraniana invertida, a imagem da capa dessa edição sugere mesmo a divisão do país, cujo território só é superado territorialmente na Europa pela Federação Russa.
Não se sabe se é uma boa solução, mas o facto é que tem sido seguida em vários conflitos recentes, uns armados (Coreia e Jugoslávia) e outros não armados (Checoslováquia).
No dia 9 de Março escrevemos aqui, na Rua dos Navegantes, um texto intitulado “Sim ao cessar-fogo e à paz na Ucrânia”, em que transcrevemos algumas passagens de um artigo publicado por Henry Kissinger na edição de 5 de Março de 2014 do The Washington Post intitulado “To settle the Ukraine crisis, start at the end”, que está disponível na internet.
Entre outras coisas importantes e oportunas, Kissinger escreveu que “devemos buscar a reconciliação, não a dominação de uma facção” e, também, que “com demasiada frequência, a questão ucraniana é apresentada como um confronto: se a Ucrânia se junta ao Oriente ou ao Ocidente”, acrescentando, “mas para que a Ucrânia sobreviva e prospere, não deve ser o posto avançado de nenhum dos lados contra o outro – deve funcionar como uma ponte entre eles”.
O presidente Joe Biden é uma das principais chaves para resolver o problema ucraniano, pois os líderes europeus deram-lhe demasiadas asas. Porém, ele bem pode ler o texto de Henry Kissinger, que foi o Prémio Nobel da Paz em 1973, ou se preferir, ir falar pessoalmente com ele, pois parece que, aos 98 anos de idade, conserva a lucidez suficiente para o aconselhar a “buscar a reconciliação” e a não atirar gasolina para a fogueira, como fez na Polónia.

segunda-feira, 28 de março de 2022

Ukraińcy, Polacy, jesteśmy z wami!

Quando a guerra na Ucrânia já decorre há mais de um mês e somos confrontados com uma batalha de contra-informação e de propaganda que nos deixa sem saber a verdadeira evolução bélica do conflito, o presidente dos Estados Unidos viajou para a Europa para discutir com os aliados europeus a invasão russa e os problemas que ela representa para a paz e para os equilíbrios mundiais. Durante a sua estada em Bruxelas, o presidente Joe Biden participou numa cimeira da NATO, mas também em reuniões com a União Europeia e com o G7. 
Encontraram-se todos e isso é positivo. Houve unanimidade dos membros da NATO com vista ao reforço da sua presença nas fronteiras da Ucrânia e em todos os países da Aliança, tendo sido reafirmado o compromisso de defesa mútua com base no artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte. Para além do reforço militar nas fronteiras da NATO, da condenação da iniciativa bélica de Putin e do anúncio de solidariedade para com o povo ucraniano, os Estados Unidos anunciaram o fornecimento de armamento à resistência ucraniana e o aumento de fornecimento de gás à Europa para reduzir a dependência da Rússia, isto é, fez dois bons negócios.
Depois de dois dias em Bruxelas, Joe Biden voou para a Polónia, certamente para imitar o discurso que John Kennedy pronunciou em Berlim em Junho de 1963, quando disse a famosa frase: “eu sou um berlinense!” Agora foi Joe Biden a querer ficar na História, pelo que foi a Varsóvia dizer “Ukraińcy, Polacy, jesteśmy z wami” (Ucranianos e polacos, estamos convosco). Esse foi o título escolhido pelo jornal Gazeta Wyborcza para acompanhar a fotografia de capa da sua edição do dia em que Joe Biden chegou à Polónia.
Essa visita tem apenas um significado simbólico e faz parte da sua propaganda interna, pois nada contribuiu para o apaziguamento entre os dois blocos, nem para que chegue o desejado cessar-fogo. Por isso, os europeus não alinharam neste número em que Biden foi lançar gasolina na fogueira, ao chamar “criminoso de guerra”, “ditador assassino” e “carniceiro” ao Vladimir, afirmando que “não pode continuar no poder”. Emmanuel Macron, que tanto tem procurado o entendimento entre as partes, não gostou nada do que ouviu e tratou de pôr água na fervura.
Muito gostam os americanos de dar tiros nos pés.

sexta-feira, 25 de março de 2022

Ucrânia: um mês de guerra e de tragédia

Desde há muito tempo que aqui tem sido expressa a vontade de que termine a guerra na Ucrânia, que não haja mais mortes nem mais destruições, que cesse o movimento de muitos milhares de refugiados e que a paz regresse à Ucrânia. É sabido que não haverá vencedores e que nenhuma das partes vai aceitar a derrota, mas o cessar-fogo e a paz só serão possíveis se ambos fizerem cedências, sem perder a face perante os seus povos e o mundo.
Desde o dia 24 de Fevereiro que Putin é o agressor e que Zelensky é o agredido, mas o que se deseja agora é que cesse imediatamente a tragédia que está a destruir a Ucrânia. Depois, na mesa das negociações, haverá uma extensa agenda de acusações e de exigências, em que entra a história e a economia, a geopolítica e as relações internacionais e, de uma forma mais geral, uma nova arquitectura para o futuro do mundo, pois nada vai ser como antes. O que está a acontecer na Ucrânia é apenas a ponta do iceberg da instabilidade mundial, que tem estado adormecida desde o fim da Guerra Fria, da implosão do império soviético e da queda do muro de Berlim.
Aparentemente nada correu bem a Putin, não só no plano militar, mas sobretudo na reacção internacional que provocou na Europa e nos Estados Unidos, que se uniram perante a ameaça comum. Embora a guerra da informação não esteja necessariamente alinhada com a verdade, ao fim de um mês de operações em território ucraniano, parece que os russos encontraram inesperadas dificuldades e que, segundo hoje destaca o jornal Libération, a Ucrânia passou de uma fase defensiva e de resistência para uma fase ofensiva.
Porém, talvez se possa pensar que se trata de movimentações tácticas para ganhar posições no tabuleiro das negociações que se seguirão ao ansiado cessar-fogo, pois prosseguem as discretas negociações entre as partes, para além de de que há diversas diplomacias envolvidas nesse processo. No entanto, é preciso que ambas as partes apareçam como vencedoras e sem a carga de uma humilhante derrota.

quinta-feira, 24 de março de 2022

O louco entusiasmo turco pelo futebol

Esta noite realiza-se um jogo de futebol entre as selecções de Portugal e da Turquia, em que ambas as equipas procuram arranjar um lugar no grupo de 32 selecções que vão competir no Campeonato Mundial de Futebol da FIFA, que se vai realizar no Qatar entre os dias 21 de Novembro e 18 de Dezembro.
Contrariamente ao que é habitual, a comunicação social portuguesa tem colocado o futebol em plano secundário por andar envolvida com acontecimentos bem mais importantes para a nossa sociedade e, por isso, poucas têm sido as referências ao jogo com os turcos, aos jogadores e ao noticiário futebolístico que serve para mobilizar e excitar a chamada tribo do futebol.
Porém, na consulta que fizemos à imprensa turca e com a ajuda do amigo google, verificamos que as coisas por lá não se passam da mesma maneira. O entusiasmo pelo futebol é enorme e a hipótese da selecção turca estar no Qatar está na ordem do dia, havendo um jornal chamado Foto, que não só anuncia que hoje a Turquia tem um jogo histórico, como destaca que não são necessárias tácticas, porque o que é preciso é vencer. As imagens que ilustram a primeira página são demonstrativas do entusiasmo ou até do fanatismo com que os turcos encaram este jogo.
Acontece que a Turquia ocupa cerca de metade da orla meridional do mar Negro e está apenas a cerca de quatrocentos quilómetros da península da Crimeia e, por isso, é com surpresa que se vê a imprensa a colocar o calor futebolístico turco acima das preocupações sobre o que se está a passar do outro lado do mar Negro. 
Agora, vou ver o jogo porque preciso de me distrair e, naturalmente, espero que a vitória fique por cá, porque também precisamos de alguma coisa que nos anime.