sexta-feira, 7 de julho de 2023

O Tour de France e a loucura dos franceses

As transmissões televisivas diárias têm confirmado a 110ª edição do Tour de France como uma grande prova desportiva, mas também como um entusiástico espectáculo popular de quase loucura, com muitos milhares de pessoas nas bermas das estradas, sobretudo nas altas montanhas, a incitar e aplaudir o colorido pelotão de ciclistas. Embora haja muitos desportos que entusiasmam as multidões, não será exagero afirmar que as Grandes Voltas ciclistas e, em especial o Tour de France, estão no topo desse entusiasmo.
A corrida iniciou-se no País Basco espanhol e à partida tinha o dinamarquês Jonas Vingegaard e o esloveno Tajed Pogacar como grandes favoritos. Como primeira dificuldade, os ciclistas enfrentaram os Pirinéus e as suas montanhas e, na 5ª etapa, Vingegaard deixou Pogacar para trás. Ontem disputou-se a 6ª etapa, na qual os ciclistas subiram o col d’Aspin e o col du Tourmalet e foi a vez de Pogacar deixar Vingegaard para trás. Faltam muitos quilómetros, muitas montanhas e há sempre imprevistos, mas estas duas etapas já mostraram que estamos perante um “duelo de gigantes”, como hoje titula o diário desportivo espanhol as.
O presidente Emmanuel Macron acompanhou a 6ª etapa a bordo de uma viatura, porque é um entusiasta do ciclismo como são todos os franceses e, talvez, para esquecer os graves problemas que tem no país e fora dele. Na meta de Cauterets-Cambasque, o presidente francês viu a chegada de Pogacar, de Vingegaard, do norueguês Johannessen e do português Rúben Guerreiro, que com muito brilho chegou em 4º lugar, mas teve que esperar até que um ciclista francês cortasse a meta em 10º lugar.
O nosso aplauso ao Rúben Guerreiro e os votos para que no “duelo de gigantes” ganhe o melhor.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

O dia mais quente de sempre no mundo

As alterações climáticas são uma realidade cada vez mais sentida no mundo, apesar de ainda haver países que continuam a ignorar os compromissos assumidos com a assinatura dos Acordos Climáticos de Paris de 2015. A persistência com que vão afectando a vida no nosso planeta teve nos últimos dias um episódio significativo, quando na passada segunda-feira foi registada a mais elevada temperatura média de sempre - 17,01 graus C - com os termómetros a ultrapassarem os 45 graus em muitas cidades do Médio Oriente e dos Estados Unidos. Nessa altura, os especialistas afirmaram que esse valor seria ultrapassado em breve e… tinham razão. 
De facto, na terça-feira seguinte, que foi o dia 4 de Julho, o recorde foi novamente batido quando a temperatura média diária do ar na superfície da Terra foi de 17,18 graus C, isto é, foi o dia mais quente de sempre no mundo, segundo os dados medidos nos Estados Unidos pelos serviços da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) e por outras agências. A NOAA regista os valores máximos mundiais da temperatura do ar desde 1979 e o seu maior registo tinha sido estabelecido no dia 24 de Julho de 2022 com 16,92 graus C.
António Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas, tem sido o grande paladino pela causa da luta contra as alterações climáticas e, perante estes casos, afirmou numa conferência de imprensa em Nova Iorque, estar muito preocupado com a posição do mundo em relação ao clima e com a “falta de ambição e cooperação”, acentuando que "as actuais políticas levarão à catástrofe".
O jornal brasileiro O Globo fez deste caso a notícia do dia, mas os jornais generalistas portugueses destacaram que um tal Di Maria assinara contrato com o Benfica e que as equipas do FC Porto e do SL Benfica se encontrarão no dia 1 de Outubro, na 7ª jornada do campeonato. Que tristeza…

Onda de violência e vandalismo em França

No passado dia 27 de Junho, um jovem francês chamado Nahel de origem magrebina e com 17 anos de idade, foi morto nos arredores de Paris pelo disparo de um agente durante uma operação de controlo policial, quanto tentava esquivar-se com o automóvel que conduzia sem carta de condução. Este episódio inflamou o país e reacendeu a enorme tensão social devida às assimetrias da sociedade francesa, bem como as acusações de racismo feitas às forças de segurança francesas, surgindo na linha dos protestos violentos dos últimos anos, como a reacção ao aumento da idade da reforma ou o movimento dos coletes amarelos. Todas estas situações geraram violência e vandalismo em várias cidades francesas, estando apurado que a idade média dos participantes na onda de protesto é de 17-18 anos.
Segundo revelou o ministro do Interior, os distúrbios ocorridos nos últimos dez dias provocaram incêndios em 2.508 edifícios e a destruição de 12.031 veículos automóveis, enquanto 3.505 pessoas, na sua maioria jovens, foram detidas por suspeita de envolvimento nesses crimes. As forças policiais registaram um total de 23.178 incêndios, dos quais 273 atingiram esquadras da polícia ou quartéis da guarda nacional. Uma enormidade! 
O mundo está estupefacto com esta onda de violência e de vandalismo que se verifica muito frequentemente em França, o país da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade. O jornal La Dépêche du Midi, que se publica em Toulouse, exprime bem essa estupefação ao destacar em primeira página que “le monde ne nous reconnaît plus”.
Esta situação mostra-nos a incapacidade de alguns líderes europeus, designadamente Emmanuel Macron, para gerir os actuais problemas sociais que afectam os seus países e obriga-nos a repensar o mundo e a Europa em que temos vivido.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Os BRICS, a OCS e a nova ordem mundial

Na histórica disputa entre o Oriente e o Ocidente, as coisas não correm à mesma velocidade, como se pode observar nas movimentações da OCS e dos BRICS, em ambos os casos por inspiração chinesa. Ontem os líderes da OCS reuniram-se em videoconferência e afirmaram a sua solidariedade à Rússia.
A Organização para a Cooperação de Xangai (OCS) é uma organização política, económica e de segurança liderada pela China, que foi fundada em 2001. Inicialmente, a organização incluia a China, o Cazaquistão, o Quirguistão, a Rússia, o Tajiquistão e o Uzbequistão, mas em 2017 acolheu a Índia e o Paquistão e, em 2021, recebeu o Irão. São nove países que, como já foi salientado, “representam metade da humanidade” e que visam a cooperação em vários domínios, sobretudo em matérias de segurança, mas que tem sido criticada por ser antiocidental, por querer acabar com o dólar enquanto moeda forte do comércio internacional e por querer construir uma aliança militar rival da NATO. A reunião de ontem parece ter reforçado a solidariedade para com a Rússia pois “nenhum estado-membro da OCS votou contra a Rússia em resoluções da ONU desde a invasão da Ucrânia, há quase 500 dias”, como salienta o jornal South China Morning Post que se publica em Hong Kong e que, na sua edição de hoje, destaca as fotografias de Xi Jinping, Putin e Narendra Modi.
Entretanto, tanto a OCS como o grupo dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) alimentam a vontade de reformar o sistema internacional e criar uma nova ordem mundial. Quando no próximo mês se reunirem em Joanesburgo, os líderes dos BRICS irão analisar as candidaturas da Argentina, Egipto, Indonésia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Argélia, Irão e Bangladesh, mas nem a Índia nem o Brasil apoiam tantas adesões pois não querem perder influência na organização.
Assim vai o mundo com muitas disputas e demasiadas guerras.

domingo, 2 de julho de 2023

A festa do Tour de France já começou

Começou ontem a 110ª edição do Tour de France, a maior e mais famosa prova ciclista da actualidade, que este ano teve início na cidade espanhola de Bilbao, que é a capital da província da Biscaia da Comunidade Autónoma do País Basco, ou Euskadi. Partiram 176 ciclistas representando 22 equipas, que vão percorrer 3.405 quilómetros que se repartem por 21 etapas, muitos deles a obrigá-los a pedalar em alta montanha. A prova termina em Paris no dia 23 de Julho e espera-se que os três ciclistas portugueses que integram o pelotão cheguem ao fim, mas também com boas classificações.
Toda a imprensa basca deu grande cobertura ao “historico estreno en Euskadi”, como acontece com a edição de hoje do jornal El Correo, em linha com o enorme entusiasmo popular que se viu na transmissão televisiva em directo da primeira etapa, que percorreu os arredores da cidade e terminou junto do Museu Guggenheim, mas que obrigou os ciclistas as trepar as primeiras montanhas desta prova.
Os favoritos desta 110ª edição são o dinamarquês Jonas Vingegaard, que ganhou em 2022, e o esloveno Tadej Pogacar, que triunfou em 2020 e 2021. Porém, para além dos aspectos desportivos inerentes a esta grande prova mundial, o Tour de France é uma grande festa popular e há sempre a expectativa de podermos assistir a grandes transmissões televisivas que mostram a riqueza patrimonial e paisagística da França e que, esperemos, também sirvam para refrear a preocupante onda de vandalismo que está a atravessar o país.

sábado, 1 de julho de 2023

Bolsonaro inelegível, mas ainda é pouco

O Tribunal Superior Eleitoral do Brasil (TSE) tomou ontem a decisão de declarar o ex-presidente Jair Bolsonaro inelegível até 2030, por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação numa reunião com embaixadores estrangeiros realizada no Palácio da Alvorada, por atacar sem provas, o sistema de voto electrónico que é utilizado no Brasil. O TSE decidiu-se pela condenação, por cinco votos contra dois, mas Jair Bolsonaro vai certamente recorrer desta decisão.
Toda a imprensa brasileira deu destaque a esta notícia e a edição do Correio Braziliense publicou a fotografia do Jair e uma sua declaração em que afirmou que antes “levei uma facada na barriga, hoje levei uma facada nas costas com a inelegibilidade”. É caso para dizer que o Tribunal decidiu e que, portanto, está decidido.
Porém, o que surpreende é o facto de ainda não terem sido apuradas as responsabilidades de Jair Bolsonaro nos graves acontecimentos de 8 de Janeiro de 2023 em Brasília, quando alguns milhares dos seus apoiantes, extremistas e vândalos, ocuparam a Praça dos Três Poderes e invadiram o Palácio do Planalto, o Palácio do Congresso Nacional e o Palácio do Supremo Tribunal Federal, com o objectivo de pressionar um golpe militar contra o governo do presidente Lula da Silva e, por essa via, entregar a presidência a Jair Bolsonaro, que tinha sido derrotado nas urnas. Nos meses seguintes foi anunciada a prisão de 2.182 pessoas por participação ou envolvimento na tentativa do golpe bolsonarista, que provocou a destruição e roubo de obras de arte, a destruição parcial de edifícios e, sobretudo, afectou a imagem externa do Brasil.
Bolsonaro foi declarado inelegível politicamente, mas certamente que o Brasil espera que venha a ser acusado criminalmente pelos acontecimentos de 8 de Janeiro de 2023.

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Fotografias felizes que são notícia

Os meios de comunicação social tradicionais – imprensa, rádio e televisão – concorrem entre si para conquistar leitores, ouvintes ou telespectadores. Para fazerem melhor jornalismo e terem a preferência do público, esses meios, ou mass media, apostam nas “notícias exclusivas”, nas “notícias em primeira mão” e nas "imagens únicas", até porque no âmbito da rivalidade que sustentam entre si e da própria concorrência comercial, cada um deles pretende chegar, relatar ou mostrar antes do seu concorrente. Por isso, mesmo quando reportam o mesmo acontecimento, cada um dos mass media procura utilizar manchetes e imagens diferentes dos seus concorrentes, para chamar a atenção, suscitar o interesse e levar à vontade de aquisição. Portanto, não é habitual que dois jornais publiquem exactamente a mesma fotografia para ilustrar a capa das suas edições e, quando acontece, é interpretado como um sinal de menor qualidade do jornal e dos seus profissionais.
Hoje acontece que a generalidade dos jornais ingleses publica exactamente a mesma fotografia, mas não é da crise na Rússia, nem da guerra da Ucrânia, nem dos incêndios do Canadá, ou até da crise no NHS, que parece ser bem pior do que a do nosso SNS. A fotografia que hoje "toda a Inglaterra viu", foi captada durante uma partida de cricket, quando um manifestante do grupo activista ambiental Just Stop Oil invadiu o campo e foi bloqueado por Jonny Bairstow, uma das mais famosas estrelas inglesas do cricket, que simplesmente o pegou pela cintura e o levou para fora do campo. Essa mesma fotografia, aliás excelente exemplo de fotojornalismo, ilustrou as capas do jornal The Times, mas também dos jornais The Guardian, The Daily Telegraph, The Independent e The Daily Express.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Putin, Prigozhin e o "motim de Rostov"

Durante dois dias, ou mais, não se falou noutra coisa e as televisões exibiram dezenas de comentadores com as mais diversas explicações sobre o que se estava a passar nos territórios ocidentais da Federação Russa, tendo o jornal New York Post anunciado que “a guerra chegou às portas de Putin”.
Yrvgeny Prigozhin, é uma figura sinistra que controla uma empresa privada de mercenários que usa o nome de Grupo Wagner e, muitas vezes, os homens de Prigozhin foram contratados nas prisões russas. Prigozhin desafiou os poderes de Vladimir Putin e, depois de tomar o quartel-general russo em Rostov “sem disparar um único tiro”, decidiu avançar com uma coluna militar sobre Moscovo, chamando-lhe a “marcha pela justiça”, com o objectivo de enfrentar o comando militar russo e a própria presidência. O mundo ficou suspenso sobre o que se estava a passar na maior potência nuclear do planeta e que está envolvida numa guerra na Ucrânia, que já vai longa. Putin acusou os revoltosos de traição, mas não ordenou que os seus aviões bombardeassem a coluna de Prigozhin, enquanto este foi declarando querer evitar o derramamento de sangue.
Ao fim de poucas horas, devido à intervenção mediadora do presidente bielo-russo Aleksander Lukashenko, a coluna de Prigozhin decidiu suspender a sua viagem e retroceder, sendo depois anunciados alguns dos termos das negociações que incluiam o “exílio” do líder do Grupo Wagner na Bielo-Rússia.
Mesmo sem saberem exactamente o que se passava, os inúmeros comentadores portugueses e internacionais muito discutiram se Putin ficou mais fraco ou mais forte, ou se esta situação favorecia ou não a contraofensiva ucraniana. Não ouvi os comentadores falarem da paz. Aqui, porque sabemos pouco, limitamo-nos a salientar que este “motim de Rostov”, tal como o assalto ao Capitólio de 6 de Janeiro de 2021, são episódios sempre preocupantes, sobretudo quando acontecem nas grandes potências com capacidade nuclear. 

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Angra em festa com as Sanjoaninas 2023!

A cultura popular açoriana é muito diversificada e tem raízes de várias origens geográficas, o que confere a cada uma das nove ilhas do arquipélago uma identidade distinta, com as suas práticas culturais específicas, que são observáveis nas festividades religiosas e em especial no culto do Divino Espírito Santo, na paisagem rural, nas tradições, na música popular, na gastronomia e em muitos outros aspectos do quotidiano. Porém, neste panorama cultural riquíssimo destaca-se a ilha Terceira, onde para além da sua singular carga histórica, existe uma enorme atração pela participação em festas. Há mesmo uma frase irónica que afirma que o arquipélago dos Açores é constituído por oito ilhas e mais um parque de diversões, que é a ilha Terceira.
São da ilha Terceira os bailinhos de Carnaval, as marchas populares, as touradas à corda e inúmeras festas de cariz religioso e profano que se realizam por toda a ilha, com destaque para as famosas Sanjoaninas, a festa maior da cidade de Angra do Heroísmo.
Neste ano de 2023 as Sanjoaninas realizam-se de 22 de Junho a 2 de Julho e, durante os onze dias de festa, há de tudo um pouco, mas destacamos aqui os cinco desfiles de marchas – dos adultos, das crianças, dos grupos etnográficos, das freguesias e das filarmónicas – com a informação de que no desfile das marchas dos adultos, que se realiza no dia 23, tomam parte 35 grupos com muitas centenas de marchantes alegres e divertidos. 
É notável esta enorme participação popular e, por isso, o nosso aplauso às Sanjoaninas 2023 e à bela cidade de Angra do Heroísmo.

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Cristiano Ronaldo: 200 jogos, 123 golos!

Cristiano Ronaldo fez ontem o seu 200º jogo pela selecção nacional de futebol e marcou o seu 123º golo. Num jogo triste e desinteressante disputado em Reykjavik, esses dois patamares, um de presenças na selecção e outro de golos marcados, são únicos no mundo do futebol e têm lugar no Guinness World Records, o antigo Guinness Book of Records.
Muitos não acreditavam que aos 38 anos de idade e sem a destreza física que o tornou famoso no mundo do futebol, ele fosse escolhido para integrar a selecção nacional, mas o facto é que foi ele que, mesmo ao findar do jogo, conseguiu fazer o remate que deu a magra vitória a Portugal com um solitário golo.
Alguns jornais portugueses destacaram os feitos de Ronaldo em Reykjavik, sobretudo o seu 200º jogo e o seu 123º golo, mas foi o Morgunbladid, o maior jornal islandês que publicou uma fotografia de Cristiano Ronaldo a toda a largura da sua primeira página, com a legenda que o Google nos ajudou a traduzir, que dizia: “Ronaldo está feliz por marcar o golo da vitória na sua 200ª partida internacional”.
Ou porque já esqueceram o que o nome de Ronaldo tem significado único para o prestígio de Portugal, ou porque se distraíram, ou porque “são pobres e mal agradecidos”, o facto é que alguns jornais de referência portugueses apenas publicaram uma pequena nota noticiosa a propósito do feito de Ronaldo.
O Cristiano Ronaldo merecia mais de A Bola, do Público e do Diário de Notícias.

terça-feira, 20 de junho de 2023

EUA e RPC: cooperação ou conflito?

No quadro internacional que actualmente se vive, em que para além dos desastres naturais, se sucedem provocações, ameaças, tensões e o rearmamento em larga escala de muitos países, o encontro havido ontem em Pequim entre o secretário de Estado norte-americano Antony Blinken e o presidente chinês Xi Jinping, é um dos mais importantes acontecimentos do ano. Estão em causa a hegemonia e a liderança mundial, bem como diversas situações que têm contribuído para a tensão entre as duas maiores economias do mundo, sobretudo em relação a Taiwan, mas também a respeito das reividicações chinesas sobre o mar do Sul da China, da rivalidade tecnológica, do comércio e das práticas dos gigantes digitais chineses. Naturalmente, o conflito na Ucrânia também esteve na ordem do dia.
Desde 2018 que as duas superpotências não se reuniam e fizeram-no agora para melhorar as suas relações bilaterais e escolher entre a cooperação e o conflitoDa leitura da imprensa ressaltam poucas declarações sobre esta cimeira sino-americana, pois Xi Jinping apenas disse que se “fizeram progressos” durante o encontro e Blinken afirmou que “a China renovou a promessa de não fornecer armas à Rússia”. Significa que o diálogo entre Blinken e Xi Jinping não resolveu nenhum dos assuntos em que divergem, mas aliviou a tensão entre chineses e americanos. Sobre a problemática ucraniana que terá sido um importante tema de discussão, a China afirmou-se neutra e defensora de uma paz justa, mas nunca condenou a invasão russa da Ucrânia.
O jornal chinês Shanghai Daily destaca o encontro com uma fotografia a toda a largura da primeira página e salienta a vontade de Xi Jinping em estabelecer laços estáveis com os Estados Unidos.

domingo, 18 de junho de 2023

Africanos dizem que a guerra deve acabar

O semanário Sunday Times que, desde há mais de cem anos se publica ao domingo na cidade de Joanesburgo, destaca na sua edição de hoje a missão que o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa e os líderes do Senegal, Comores, Zâmbia, Egipto, República do Congo e Uganda levaram a cabo em Kiev e São Petersburgo, em busca da paz na Ucrânia. 
Aqueles dirigentes africanos encontraram-se com Volodymyr Zelensky e com Vladimir Putin e assentaram a sua argumentação para acabar com a guerra no princípio de que “todas as guerras devem ser resolvidas e terminadas em algum momento e estamos aqui para informar que gostaríamos que esta guerra terminasse”. Estes sete dirigentes apresentaram e discutiram um plano de dez pontos a que chamaram iniciativa de paz africana que, aparentemente, foi recusado, embora Ramaphosa tivesse insistido com clareza que “this war must end”, porque os países africanos e o mundo estão a ser muito afectados pela guerra. Esse foi o título escolhido pelo semanário sul-africano para noticiar a iniciativa de Ramaphosa.
Desta deslocação a Kiev e São Petersburgo não resultou nenhum acordo para acabar com a guerra e as partes insistiram nos seus habituais argumentos, embora o presidente Ramaphosa tivesse mostrado sinais de algum optimismo, porque da semente lançada é de esperar que nasça qualquer coisa. No entanto, os combates estão muito intensos e as posições estão tão radicalizadas que só a proximidade das eleições presidenciais americanas de 2024, ou acontecimentos políticos importantes como a actual visita de Antony Blinken à China, parecem capazes de levar ucranianos e russos a sentar-se à mesa de negociações como deseja a iniciativa de paz africana, o secretário-geral das Nações Unidas, o Papa Francisco e muito mais gente. Há que confiar que a força da diplomacia supere a força das armas.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Tragédias humanas no mar Mediterrâneo

A imprensa dos países do sul da Europa deu hoje grande destaque ao naufrágio nas costas gregas de um navio de pesca que saíra da Líbia e se dirigia para a Itália com migrantes, de que terão resultado seis centenas de mortes. O jornal francês L’Humanité foi um desses jornais e em título de primeira página escreveu que “eles deixaram-nos morrer”, referindo que algumas ONG acusaram as autoridades e a Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira, vulgarmente conhecida por Frontex, por não terem providenciado socorros em tempo útil.
Nesta altura, há poucas informações sobre o navio e os passageiros, bem como sobre o que realmente se passou, mas as notícias referem que se tratou de mais uma operação preparada por organizações criminosas que transportam migrantes para a Europa. O navio tinha entre 25 a 30 metros de comprimento e transportava cerca de 750 passageiros, mas algumas notícias dizem que encalhou e outras dizem que se afundou a 47 milhas das costas gregas. Uma fotografia captada por um helicóptero da Frontex, que foi publicada em muitos jornais, mostra o convés do navio cheio de gente, havendo relatos de que o interior do navio também estava cheio, sabendo-se que é comum isolar e fechar esses passageiros para poderem ser controlados durante a viagem. Naturalmente, nenhum passageiro dispunha de coletes de salvação.
As autoridades gregas afirmaram ter recuperado 79 corpos e resgatado cerca de uma centena de pessoas, mas desconhece-se o paradeiro de cerca de seis centenas de pessoas. Independentemente deste drama humanitário e desta polémica sobre o que poderia ou não ter sido feito, esta tragédia mostra como são poderosas as redes de tráfico e como a União Europeia e os seus dirigentes se mostram impotentes para tratar deste grave problema humanitário.

A paz chegou finalmente a Moçambique

A República Popular de Moçambique tornou-se independente depois de uma guerra de libertação nacional iniciada em 1964 e que se prolongou até ao dia 7 de Setembro de 1974, quando o Estado Português e a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) assinaram os Acordos de Lusaka. Nesses acordos, o Estado Português reconheceu o direito à independência do povo moçambicano, tendo sido estabelecidos os passos relativos à transferência da soberania, que foi solenemente proclamada no dia 25 de Junho de 1975. 
A Frelimo, que tinha conduzido a luta armada contra a administração colonial portuguesa, assumiu todos os poderes soberanos, mas em 1977 surgiu a contestação da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), um grupo político que contestava o poder absoluto da Frelimo. A contestação deu origem ao confronto que se generalizou e se transformou na guerra civil moçambicana, ou guerra dos Dezasseis Anos, na qual se envolveram vários países vizinhos e na qual se estima terem morrido cerca de um milhão de pessoas, devido a causas directas e indirectas da guerra. O conflito foi muito violento e apenas terminou em 1992 com a assinatura de um Acordo Geral de Paz, assinado por Joaquim Chissano, presidente da República Popular de Moçambique, e por Afonso Dhlakama, o então presidente da Renamo. Em 1994 realizaram-se eleições gerais multipartidárias, mas os enormes problemas que o país atravessava, incluindo a crise económica e a fome, a desorganização administrativa, o apoio aos deficientes que a guerra provocara, a proliferação de minas terrestres em muitas zonas do país e, por vezes, alguma falta de vontade política das partes, fizeram com que o Acordo Geral de Paz tivesse demorado quase trinta anos a concretizar-se plenamente. Segundo a edição de hoje do jornal O País, foi encerrada a última base da Renamo e os seus últimos 347 militares passaram ontem, oficialmente, à vida civil, no âmbito do processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração.
Demorou muito tempo, mas a paz chegou a Moçambique. Finalmente!

terça-feira, 13 de junho de 2023

A luta política e a lógica do “vale tudo”

A comunicação social tem dado grande destaque à acusação formal contra Donald Trump, o ex-presidente dos Estados Unidos, pela prática de 37 crimes relacionados com os documentos confidenciais que, depois de ter deixado a Casa Branca, levou para a sua residência de Mar-a-Lago, na Florida. Ontem, o jornal New York Post assumiu posições em defesa de Trump e tratou de perguntar “what about the Bidens?”, referindo-se a Hunder Biden, o filho do presidente Joe Biden, contra o qual há suspeitas de ser viciado em drogas e ter desenvolvido negócios ilegais na Ucrânia e na China. Independentemente destes casos que os jornais divulgam, que podem configurar ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos, estas notícias relacionam-se com a luta política entre Democratas e Republicanos e com as próximas eleições presidenciais, nas quais há fortes probabilidades de Biden e Trump se reencontrarem depois da sua disputa eleitoral de 2020. Porém, estes casos de luta política levada ao mais alto plano nacional sempre acontecem nos países democráticos, onde "vale tudo" para derrotar os adversários políticos, parecendo que nos anos mais recentes essa lógica se tem acentuado.
São muitos os exemplos que nos chegam, mas destaquemos apenas alguns que nos estão mais próximos, casos do Brasil, da França e da Escócia. No Brasil aconteceu em 2019 a prisão durante 580 dias do ex-presidente Lula da Silva e, agora, estão sob investigação alguns comportamentos políticos de Jair Bolsonaro, incluindo os crimes de terrorismo, associação criminosa, golpe de estado e abolição violenta do estado de direito democrático. Em França, foi o antigo presidente Nicolas Sarkozy que foi condenado a três anos de prisão, por corrupção e tráfico de influências. Na República Checa o ex-primeiro-ministro Petr Necas foi condenado a dois anos e meio de prisão por corrupção. Da Escócia chega-nos a notícia que a ex-primeira-ministra Nicole Sturgeon esteve detida durante algumas horas a fim de ser interrogada numa investigação sobre o financiamento do SNP, o seu partido. Todos estes casos são diferentes, mas cada um deles mostra como os tempos têm mudado em relação às lutas políticas, bem como à percepção que as comunidades - moldadas mediaticamente - têm dos seus políticos, das suas actividades e dos seus comportamentos.