quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Exportações, porta-aviões e... aldrabões

Nas últimas semanas o discurso da propaganda e do triunfalismo tem-se acentuado na política portuguesa e, por vezes, o nosso primeiro e o nosso vice-primeiro parecem disputar entre si o principal papel no elenco do optimismo lusitano, cada qual a tentar passar a ideia que foi mais importante do que o outro no andamento da nossa vida pública e da nossa economia. É uma questão entre o Pedro e o Paulo.
O caso do Paulo é, porventura, mais interessante. O Paulo é um jurista e não tem formação económica, nem estudou Econometria nem Finanças Públicas, mas teve um entusiasmo tardio pelas questões económicas e aprendeu que o investimento e as exportações são importantes, mas esqueceu-se que o consumo ainda é mais importante ou que as pessoas são o objecto da economia. O recente artigo do Financial Times ajudou-o com aquela história do “herói-surpresa da Zona Euro” e, com isso, ele foi buscar um acrescido entusiasmo para destacar o sucesso das exportações portuguesas nos últimos anos e o mérito das “nossas empresas”. Esta semana veio dizer-nos que "as exportações estão a ser o porta-aviões da recuperação do país".
- “Bela frase, Paulo”, terão dito os seus amigos do governo, do parlamento e das mil e muitas assessorias e tacharias.
O Paulo é o irrevogável, aquele que me enganou ao definir uma fronteira que não podia deixar passar... e deixou, ou aquele que não permitiria uma sociedade que descartasse os mais velhos... e permitiu. Que se esqueceu da reforma do Estado. Andava tão entretido “naquele engano de alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito”, como dizia Camões, quando veio o FMI arrefecer-lhe os ânimos ao dar-lhe um tiro no porta-aviões e dizer-lhe que o milagre das exportações só existe na cabeça dele, pois resulta da nossa dependência face às refinarias da Galp e da anormal quebra das importações devido à crise doméstica, não sendo um sinal inequívoco de que a economia está a mudar para melhor em termos estruturais, gerando crescimento e emprego. Afinal, o Paulo ainda precisa de aprender muita coisa e não alinhar nesta aldrabice que é vender-nos a ideia de que as exportações tudo resolvem, quando o FMI vem dizer exactamente o contrário.

Um português ao volante do grupo PSA

Estava anunciado desde há alguns meses que o português Carlos Tavares, o ex-número dois da Renault, iria assumir a presidência executiva da PSA Peugeot Citroën, o maior construtor francês de automóveis e o oitavo a nível mundial e, conforme revela a  edição do diário económico francês La Tribune, foi hoje que iniciou essas funções ou, como titula o jornal “se instalou ao volante da PSA.
Carlos Tavares nasceu em Lisboa e tem 55 anos de idade, tendo feito os seus estudos superiores em França. Em 1981 entrou na Renault como engenheiro de ensaios e teve uma carreira diversificada e bem sucedida, mas em 2013 decidiu deixar o grupo Renault, vindo a ser convidado para exercer o comando operacional do grupo PSA Peugeot Citroën, que tem 15 fábricas em diversos países do mundo, incluindo a fábrica de Mangualde que foi inaugurada em 1964, além de dar trabalho a mais de 200 mil trabalhadores. O grupo está presente em 160 países e em 2013 vendeu 2.819.000 veículos e facturou 55,4 mil milhões de euros.
A responsabilidade agora assumida pelo gestor português acontece num momento histórico para a vida do grupo, atingido há dois anos por uma profunda crise devido à sua forte dependência do mercado europeu, de que resultaram prejuízos líquidos de 5 mil e 2,3 mil milhões de euros, respectivamente em 2012 e 2013, o que levou a que a estrutura familiar do grupo que era dominada pela família Peugeot se tivesse alterado com a entrada de dois novos accionistas, casos do Estado francês e do grupo Dongfeng, o segundo maior fabricante de automóveis chinês.
O desafio assumido por Carlos Tavares é de enorme responsabilidade e mostra a confiança que nele foi depositada, além de ser um motivo de orgulho para os milhares de portugueses que trabalham para o grupo PSA Peugeot Citroën, não só em Mangualde, como também nas cinco fábricas francesas do grupo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A luta política na sua forma mais cruel

No passado dia 29 de Janeiro escrevemos que “a Ucrânia está em pé de guerra” e citamos Leonid Kravchuk, o primeiro presidente do país desde a independência conquistada à URSS em 1991, que afirmou que a Ucrânia está “à beira de uma guerra civil”, em consequência do confronto entre as autoridades e os opositores ao regime do Presidente Victor Yanukovich.
De facto, após várias semanas de calma, a cidade de Kiev voltou ontem a ser palco de violentos confrontos entre os oposicionistas e as forças de segurança, tendo estas acabado por recorrer a blindados e canhões de água contra os manifestantes concentrados na Praça da Independência, enquanto os oposicionistas ripostaram com cocktails molotov e petardos. Leonid Kravchuk parece que tinha toda a razão, como agora se vê nas trágicas imagens de violência e de destruição que nos chegam de Kiev, ao mesmo tempo que são anunciadas 26 mortes e mais de quatro centenas de feridos. A generalidade dos jornais europeus inserem fotografias dos confrontos e dos incêndios a mostrar a luta política na sua forma mais cruel mas, provavelmente, a mais eloquente de todas as fotografias é aquela que é hoje publicada pelo diário espanhol ABC.
A comunidade internacional e em especial a União Europeia, os Estados Unidos e a Rússia, têm lançado repetidos apelos à trégua e ao diálogo para que seja travada a onda de violência que se instalou no país e para que haja negociações, mas o cenário de uma guerra civil às portas da Europa é uma realidade, a fazer lembrar o que se passou na antiga Jugoslávia ou o que está a acontecer na Síria.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Se a esmola é grande, o pobre desconfia…

A edição online do Financial Times publicou há dois dias uma notícia assinada por Peter Wise, o seu correspondente em Lisboa, segundo a qual “Portugal é o herói-surpresa do crescimento da Zona Euro no que toca à recuperação económica”. Em Portugal rejubilou-se e com razão, porque se trata de uma notícia de enorme impacto, que não só valoriza a imagem externa do país, como vem acrescentar confiança aos potenciais investidores estrangeiros de que tanto carece a economia portuguesa.
Simbolicamente, o artigo centra-se no aeroporto de Lisboa onde, simultaneamente, se regista a saída diária de 200 jovens licenciados em busca de emprego no estrangeiro e, não muito longe, se vêem as lojas do aeroporto cheias de turistas e as exportações a sair pelos terminais de carga. O retrato escolhido é feliz, pois traduz a realidade portuguesa que é o êxodo resultante dos efeitos da recessão e da austeridade, mas também as consequências do aumento da competitividade da economia portuguesa. O elemento chave da notícia é o crescimento homólogo de 1,6% da economia portuguesa que se verificou no último trimestre de 2013, que ultrapassou o de todos os outros membros da Zona Euro, incluindo a Alemanha, mas também a modernização do tecido empresarial e o crescimento das exportações que, em quatro anos, aumentaram 24,2%. Porém, a notícia não trata de uma dívida pública de quase 130% do PIB, nem de um défice que, mesmo com medidas estraordinárias, será de cerca de 5%, nem de um desemprego de quase 16%, nem do empobrecimento do país, nem das ameaças à coesão social. A notícia é tão laudatória para Portugal, uma coisa rara nas páginas do Financial Times, que até ficamos desconfiados porque, como diz o povo, quando a esmola é grande o pobre desconfia. Apesar disso, Peter Wise termina o seu artigo a afirmar que, quando em fins de Junho terminar o programa de ajustamento, ficará para trás um rasto devastador de dezenas de milhar de pequenas empresas encerradas, de salários e pensões espremidas, de desigualdades agravadas, de vidas destruídas pelo desemprego de longa duração e, com a propósito, questiona-se se terá valido a pena.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Um salto com vara a 6,16 metros. Notável!

O atleta francês Renaud Lavillenie conseguiu ontem um notável resultado desportivo, ao bater o record do mundo do salto à vara com um salto de 6,16 metros, no meeting de pista cobertao Pole Vault Stars  realizado na cidade ucraniana de Donetsk. Renaud Lavillenie tem 27 anos de idade e em 2012 já fora campeão olímpico nos Jogos de Londres.
A generalidade dos jornais franceses destacaram o feito de Lavillenie com o seu habitual orgulho nacional e com muito entusiasmo, pois tratou-se de um caso de grande simbolismo no atletismo mundial, não só porque tinha sido exactamente nesse estádio que, há cerca de 21 anos, o atleta ucraniano Serguei Bubka batera o seu record mundial de 6,15 metros, mas também porque o próprio Bubka se encontrava presente no estádio e foi um dos primeiros a felicitar o novo recordista mundial.
Para quem gosta de atletismo, até havia quem pensasse que Serguei Bubka tinha atingido pela primeira vez o limite das possibilidades humanas. Afinal, este atleta francês, que até era bem pouco conhecido, mostrou que no desporto, tal como na ciência, na tecnologia e em outras áreas da actividade humana, parece não haver limites.

Uma Justiça que é cega e não funciona

A edição de hoje do jornal ABC afirma que em Espanha “a justiça não funciona” e o facto é que em Portugal, também ouvimos esta frase muitas vezes e até parece que, nesta matéria, ainda estamos pior que os nossos vizinhos.
Há poucos dias foi anunciada uma nova organização do sistema judiciário, que vai levar à extinção de 20 tribunais e à transformação de 29 que vão ser convertidos em secções de proximidade, isto é, meros balcões locais de atendimento. A Ordem dos Advogados já veio repudiar “a grave desqualificação” resultante da redução de comarcas que passam a ter a sua sede nas capitais de distrito, bem como o encerramento de tribunais e todas as medidas que põem em causa os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos e o princípio basilar do acesso à Justiça. É evidente que a nova medida governamental apenas pretende reduzir custos e nada tem a ver com o funcionamento ou com rapidez da Justiça, nem com o respeito dos direitos dos cidadãos. Segundo tem sido dito, as novas medidas não vão produzir efeitos na melhoria do funcionamento do sistema judicial, nem vão melhorar as relações da Justiça com a Cidadania e a Economia, como seria desejável.
Recorde-se que o último relatório da Comissão Europeia para a Eficiência da Justiça (CEPEJ) divulgado há menos de um ano, mostrava que no ano de 2010, um caso cível a correr nos tribunais portugueses demorava em média 1096 dias a ser resolvido, isto é, quatro vezes mais do que a média da União Europeia. Por isso, também por cá podemos dizer que a Justiça não funciona, pois é incompreensível a sua morosidade sobretudo em casos graves – e tantos são – que se traduzem na perplexidade do cidadão comum face à demora e ao conteúdo de algumas decisões judiciais.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O negócio dos vistos ‘gold’

No ano passado foram criados os vistos gold, um regime que permite aos cidadãos de países que não pertençam à União Europeia, ou não integrem o Acordo de Schengen, obter uma autorização de residência em Portugal para desenvolverem actividades de investimento. Essas actividades devem decorrer por um período mínimo de cinco anos, prevendo-se opções como a transferência de capital num montante igual ou superior a um milhão de euros, a criação de pelo menos dez postos de trabalho ou a compra de imóveis num valor mínimo de 500 mil euros.
O irrevogável ministro Portas foi o grande impulsionador desses vistos. No ano passado, segundo foi divulgado “foram concedidos 471 vistos gold que se traduziram num volume de investimento de 306,7 milhões de euros no país”, de que beneficiaram sobretudo cidadãos da China, Rússia, Angola e Brasil. Ora a compra de imóveis de luxo dificilmente pode ser classificada como investimento e, provavelmente, não foi criado nenhum posto de trabalho, o que significa que a ideia original de atrair investimento e criar emprego foi adulterada e se transformou num simples negócio imobiliário. Não é mau, mas não é investimento! Para o corrente ano, o irrevogável ministro Portas espera que “sejam atingidos 500 milhões de euros de investimento”, mas provavelmente o que vai acontecer, mais uma vez, não serão acções de investimento para criar riqueza, nem a criação de postos de trabalho. Assim, a opção governamental de vender vistos a quem aparecer, independentemente da origem e da cor do seu dinheiro, é muito discutível e nem se percebe porque traz tanta gente eufórica e leva o irrevogável ministro a exibir aquela sua caracterítica cara de auto-satisfação. É certo que este negócio chegou a muitos outros países europeus que têm dificuldades financeiras como as nossas e que até está a gerar concorrência entre Estados-membros mas, ao menos, esses não chamam investimento ao que por cá se tem revelado apenas como um negócio imobiliário. Porém, o irrevogável chama-lhe investimento apenas por ambição e porque no futuro lhe interessa estar ligado a essa palavra para a cobrar ao eleitorado.
 

World Press Photo 2013

Intitula-se apenas  Signal a fotografia que venceu o 57º World Press Photo - a World Press Photo of the Year 2013 - na qual se pode ver um grupo de emigrantes africanos de telemóveis erguidos para o céu e à luz da lua que, a partir da costa do Djibouti, tentam encontrar a rede somali que é mais barata, para poderem falar com os seus familiares. A fotografia foi obtida no dia 23 de Fevereiro de 2013 pelo fotojornalista americano John Stanmeyer nas proximidades da cidade de Djibouti, que é o principal ponto de paragem dos emigrantes da Somália, Etiópia e Eritreia que procuram uma vida melhor na Europa e no Médio Oriente, tendo sido publicada pelo National Geographic Magazine.
Nesta edição do World Press Photo concorreram 5.754 fotojornalistas oriundos de 132 países que submeteram a concurso 98.671 fotografias, que foram apreciadas por um júri de 19 profissionais do fotojornalismo e do documentário. Foram premiadas 56 fotografias nas nove categorias em apreciação, tendo cabido a maior parte dos prémios a fotojornalistas americanos e europeus, enquanto nenhum prémio foi atribuido a fotojornalistas portugueses ou brasileiros.
Tal como acontece anualmente, as fotografias premiadas vão integrar uma exposição itinerante que provavelmente será apresentada em Portugal, tal como tem acontecido todos os anos em Lisboa.
 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Uma mulher inconseguida

Confesso que andei distraido e que foi preciso que alguém do outro lado do Atlântico me chamasse a atenção para o sucesso que está a ter o discurso de uma mulher  inconseguida, isto é, uma mulher que afirma que “o meu medo é o do inconseguimento”. Fui ao YouTube e lá estava a esdrúxula entrevista a declarar “o inconseguimento frustracional do soft power sagrado” e a sua afirmação de ter medo “do egoísmo que nos deixa de certo modo castrados em termos pessoais e nos deixa castrados em termos colectivos”.
Pois a ideia do inconseguimento é da autoria de uma senhora licenciada em Direito que, com esse diploma e o cartão do seu partido, tem levado uma vida de conforto à nossa custa e que vai muito para além dos seus eventuais méritos. Desde muito cedo militou nos comícios transmontanos de certeza de bandeirinha na mão. Muito jovem chegou a deputada e depois foi indicada pelo seu partido para juíza do Tribunal Constitucional, onde esteve até 1998. Aí se reformou com 42 anos de idade! Mas não parou e andou pelo Conselho da Europa e pelo Parlamento Europeu. Chegou a Presidente da Assembleia da República mas, pasme-se, não tem salário pois optou por continuar com a choruda reforma que vence desde há quase vinte anos. Que exemplo para quem trabalha ou para quem trabalhou! Pois é esta mulher que, de vez em quando, se destaca pelos ridículos disparates que diz e que são cada vez mais frequentes, a provocar a gargalhada geral e a envergonhar-nos enquanto segunda figura do Estado. Aqui há tempos inventariou os custos da eventual transladação de Eusébio para o Panteão Nacional e, agora, tomou posição sobre as comemorações dos 40 anos do 25 de Abril, ao lançar a ideia de abrir a porta ao mecenato para as custear. A senhora tem medo de inconseguimentos, mas o verdadeiro inconseguimento é ter esta senhora no lugar onde está, a falar desta maneira e a mostrar-se como se fosse assessora da troika ou das finanças. Que ridícula. Só nos faltava esta!

Carvalho, um português de sucesso

O Miami Herald é um importante diário que se publica em Miami desde 1903 e que tem no seu historial a atribuição de 20 Prémios Pulitzer, o maior galardão do jornalismo americano. Na sua edição de hoje, o jornal destaca em primeira página o seguinte título:
Carvalho named U.S.’ best schools leader.
O nome Carvalho chamou-me a atenção porque se devia tratar de um português e como estamos habituados a ver apenas o nome de Cristiano Ronaldo impresso nos jornais internacionais, não só li a notícia como também procurei saber mais sobre esse nosso compatriota.
Trata-se de Alberto M. Carvalho, um português nascido no Bairro Alto em Lisboa, que emigrou para os Estados Unidos em 1982, depois de completar os seus estudos secundários. Uma vez nos Estados Unidos começou por trabalhar em restaurantes e na construção civil mas estudou sempre, tendo obtido o grau de B.S. em Biology/Biomedical Sciences na Barry University e o grau de Master of Educational Leadership na Nova Southeastern University. Depois, foi professor numa escola secundária durante três anos, dando aulas de Física, Química e Biologia, mas rapidamente foi promovido a assistente de director de uma escola. Desempenhou outros cargos e em 2008 foi escolhido para o cargo de Superintendente das Escolas de Miami-Dade, o quarto maior sistema de educação dos Estados Unidos, gerindo 392 escolas com 350 mil estudantes que falam 56 línguas diferentes, além de 40 mil professores e outros profissionais. Em Dezembro de 2013 foi declarado o Florida’s 2014 Superintendent of the Year e, agora, foi eleito o 2014 National Superintendent of the Year entre os 49 superintendentes estaduais do país. O Miami Herald destacou Alberto Carvalho na sua primeira página, um português bem sucedido de 49 anos de idade!
Talvez o crato queira aprender com ele.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O sucesso do A380

O consórcio europeu Airbus, que tem a sua sede em Toulouse, anunciou uma encomenda de 20 aviões A380 pela Amedeo, uma plataforma de compra e aluguer de aviões baseada na Irlanda, numa operação avaliada em cerca de 6 mil milhões de euros e, com esta encomenda, o objectivo de vender anualmente três dezenas destes aviões está próximo de ser atingido em 2014, conforme noticia hoje o diário económico parisiense La Tribune.
O A380 é conhecido por superjumbo e é o maior avião comercial de todos os tempos. Entrou ao serviço em 2007 e, desde então, já foram feitas 123 entregas a dez companhias aéreas com destaque para a Emirates Airlines (44), a Singapore Airlines (19), a Qantas (12), a Lufthansa (10) e a Air France (9).  Entretanto, estão actualmente encomendados 309 novos aviões por 19 companhias, quase todas asiáticas e, entre estes, há 140 unidades que se destinam à Emirates, a companhia do Dubai. Porém, estes números escondem alguma preocupação no seio do fabricante, porque em 2012 apenas foram encomendados 9 aviões e, no ano seguinte, houve apenas um contrato que só foi confirmado no dia 23 de Dezembro pela Emirates, com uma encomenda de 50 aviões. A imprensa francesa dizia então que a Emirates era le Père Noël de l’Airbus A380, ao assegurar um negócio de 20 mil milhões de dólares. Como ainda não apareceu nenhum concorrente do A380, lançado pela Boeing ou por outro construtor, é evidente a excessiva dependência e até mesmo a vulnerabilidade económica da Airbus em relação a um só cliente, quase a configurar uma situação de monopsónio, uma vez que nos próximos quatro anos a Emirates Airlines vai assegurar por si só, a produção anual de 30 aviões, que é a normal capacidade de resposta do construtor. Nesse aspecto, a encomenda de 20 aviões pela Amedeo foi uma excelente notícia para a Airbus e, embora tenda a esconder os tempos difíceis por que passa o mercado aeronáutico, mostra que o A380 é um caso de sucesso tecnológico do construtor europeu, mas que também é um caso de sucesso comercial.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Moçambicanos escolhem o treino italiano

Segundo anuncia hoje a edição do diário moçambicano O País, os “italianos treinam a Marinha de Guerra moçambicana” através do trigésimo grupo da sua marinha, que compreende o porta-aviões Cavour, a fragata Bergamini, o navio-patrulha Comandante Borsini e o navio reabastecedor Etna. Este importante grupo naval, que embarca mais de mil homens e mulheres, deixou a Itália no dia 13 de Novembro para fazer uma viagem de circum-navegação do continente africano e chegou a Maputo no dia 27 de Janeiro, para materializar o acordo de colaboração técnica assinado recentemente, que estabelece actividades de cooperação naval durante dois meses e inclui acções de formação, operações de segurança marítima, diplomacia naval, assistência humanitária e a promoção da indústria italiana.
Dadas as relações históricas e culturais entre Portugal e Moçambique e, ao mesmo tempo, o seu comum empenhamento na CPLP, estranha-se e lamenta-se que o treino da Marinha moçambicana deixasse de ser feito pela Marinha Portuguesa. São conhecidas as situações de aperto por que estão a passar os países do sul da Europa, incluindo a Itália e Portugal, com elevadas dívidas externas, enormes défices públicos e altas taxas de desemprego. Apesar disto, a Itália não hesita em investir numa acção de promoção de grande envergadura, onde expressamente inclui a promoção da indústria italiana, enquanto Portugal parece nada fazer para se manter com influência junto da Marinha de Moçambique. O advogado Aguiar-Branco sabe desfazer hospitais e estaleiros, mas parece nada fazer para nos manter na linha da frente da cooperação com Moçambique, talvez porque não conheça essa dimensão simbólica e essa vocação da nossa Marinha. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A bizarra ideia da “Fatura da Sorte”

Toda a gente sabe da existência da economia paralela, da fuga ao fisco e da concorrência desleal, mas ao consultarmos os estudos divulgados por entidades internacionais credíveis, verificamos que a dimensão desses males no nosso país não é muito diferente da que se verifica na Suécia, na Noruega ou na Alemanha, além de ser menor do que aquilo que se verifica em alguns países da União Europeia. Portanto, coloquemo-nos no nosso devido lugar e sem complexos, embora deva ser estimulado o cumprimento  dos nossos deveres cívicos para minorar esses males da sociedade. Nesse sentido, o governo decidiu-se por uma verdadeira cruzada no combate à economia paralela e teve a bizarra ideia de criar a Fatura da Sorte.
A Fatura da Sorte é um concurso que premiará os consumidores que exijam as facturas correspondentes aos seus consumos de bens e serviços, quando tomam cafés, engraxam sapatos, compram um jornal ou usam alguns WC. Tal como acontece com as promoções do tipo “Poupa mais”, “quantas mais facturas forem emitidas a cada contribuinte” mais cupões vão a concurso, segundo disse o porta-voz da iniciativa. O concurso terá direito a transmissão televisiva, que provavelmente vai ser tão animada como “O preço certo” e, semanalmente, vai sortear automóveis que “em princípio” serão viaturas novas “de gama elevada”. Tudo conta e todos podem ganhar um automóvel, pelo que é de esperar algum sucesso desta bizarra iniciativa. É a estratégia da cenoura!
A dignidade e a autoridade do Estado, assim como a responsabilidade fiscal dos contribuintes ficam, desta maneira, colocadas ao nível dos concursos televisivos e das promoções das grandes superfícies. Que mais nos irá acontecer?

O novo-riquismo de São Bento

O governo faz tudo para ir ao bolso dos pensionistas e dos funcionários públicos com o argumento que é preciso cortar na despesa pública e diminuir o défice público e, depois, vai dando exemplos de um brutal despesismo e de ausência de economicidade nas suas decisões, o que para além de ser insensato, é passível de ser classificado como ilegalidade. É mais uma das poucas vergonhas a que vamos assistindo, porque o dinheiro que o gabinete do primeiro-ministro gasta é meu e de quem paga os impostos, que ele, o seu governo e os seus deputados nos impõem.
O caso é divulgado hoje pelo jornal i, que informa que o gabinete do primeiro-ministro contratou uma empresa em regime de outsourcing para atender telefones em São Bento por 25,1 mil euros, apesar de ter no seu gabinete de São Bento nada menos do que dez secretárias pessoais, nove auxiliares e doze pessoas a prestar apoio técnico-administrativo. O contrato foi assinado com a empresa We Promote – Outsourcing e Serviços, Limitada e já é o terceiro que é celebrado por adjudicação directa entre esta empresa e o gabinete do primeiro-ministro, porque este tem "ausência de recursos próprios". No entanto, com tão elevado número de secretárias/assistentes será mesmo necessária esta despesa? E porque não foram recrutados alguns funcionários no grupo da mobilidade especial, evitando-se assim o recurso a uma empresa externa? É o novo-riquismo de São Bento!
Quando, no intervalo da consulta da sua conta bancária que cresce, cresce, cresce, o amigo Catroga souber disto, não só vai discordar deste contrato, como vai poder dizer que são estas as gorduras do Estado a que se referia quando em 2011 afirmava que seria tudo fácil.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A gente sem vergonha que nos governa

São cada vez mais as vozes de todos os quadrantes políticos e sociais que, com legítima indignação, se levantam contra o fanatismo ideológico do governo, contra a arrogância e a mentira, contra as promessas eleitorais não cumpridas e contra a violação dos direitos das pessoas, sobretudo dos pensionistas e dos funcionários públicos.
A voz de António Bagão Félix é apenas uma delas e na edição de hoje do jornal i, aquele antigo ministro das Finanças afirma que “para o governo tudo é matemática orçamental e as pessoas não contam”, recordando ao mesmo tempo aquilo que está escrito em todos os livros de Economia, isto é, que a Economia deve estar ao serviço das pessoas e não o contrário. O que se tem verificado em Portugal sob a direcção de um governo cheio de gente sem vergonha e sem pudor, mas com o apoio de Belém e das bancadas de São Bento, é o sistemático confisco das pensões, levando a pobreza e a insegurança aos seus beneficiários, sem que daí tenham resultado quaisquer efeitos significativos sobre a dívida e o défice.
Em Espanha, que passa por uma crise muito semelhante à nossa, o governo de Mariano Rajoy tem mostrado uma atitude bem diferente perante os pensionistas e escreveu-lhes recentemente uma carta personalizada na qual informa que, desde o dia 1 de Janeiro, as pensões foram aumentadas em 0,25% e que em 2013, apesar da difícil conjuntura económica, as pensões subiram entre 1 e 2%. A carta subscrita pela Ministra de Empleo y Seguridad Social garante aos pensionistas “que las pensiones subirán todos los años sea cual sea la situación económica y que nunca podrán ser congeladas".
O exemplo espanhol mostra a gravidade do que se passa por cá e mostra que, lamentavelmente, continuamos sujeitos à arrogância, à ignorância e à mediocridade desta gente sem vergonha que nos governa.