segunda-feira, 9 de março de 2015

Um investimento realmente exemplar

Foi hoje anunciado que a Fábrica de Cerâmica de Valadares retomou a sua produção, depois ter estado encerrada durante mais de dois anos em consequência da declaração da sua insolvência e de ter entrado em processo de liquidação. Nessa altura, em Setembro de 2012, a empresa de Vila Nova de Gaia acumulava dívidas de 96 milhões de euros e cerca de 300 trabalhadores perderam o seu emprego. Nos termos da lei foi então designado um administrador de insolvência para resolver o processo de falência da empresa, onde convergiam muitas variáveis, incluindo os interesses e os direitos dos bancos credores, das Finanças, da Segurança Social, dos antigos trabalhadores da empresa cujos créditos ascendiam a mais de dez milhões de euros e, naturalmente, de muitos fornecedores. Estes processos são sempre demorados e complexos, com ou sem intervenções judiciais e com ou sem acordos de credores. Porém, em Setembro de 2014 surgiu uma solução para a Cerâmica de Valadares, resultante do bom senso e da inteligência de muita gente, especialmente do administrador de insolvência, do presidente da autarquia gaiense e dos credores: a empresa continua na posse dos credores que arrendam as suas amplas instalações, para já a uma nova sociedade denominada ARCH, constituída por ex-quadros da antiga empresa e novos investidores, mas também a outros .interessados como sucede com a têxtil italiana La Perla.
A ARCH iniciou hoje a sua laboração para relançar a marca Valadares, tendo contratado 45 antigos trabalhadores que agora regressaram à fábrica e espera, nos próximos meses, que regressem mais de uma centena de ex-trabalhadores. Este caso é exemplar do ponto de vista económico e social e é um verdadeiro case study, porque a solução teve o acordo de todas as partes envolvidas, recupera uma grande empresa quase centenária, cria emprego, contribui para as nossas exportações e incorpora tecnologia e recursos nacionais. Isto é que é um investimento exemplar, sem portas e sem vistos gold!

domingo, 8 de março de 2015

Nélson Évora: uma vitória que se saúda

É um acontecimento pouco vulgar quando um desportista português conquista títulos europeus ou mundiais, sobretudo nas modalidades de primeiro plano. Assim aconteceu ontem com Nélson Évora ao vencer a prova do triplo salto nos Campeonatos Europeus de Atletismo em pista coberta, que se disputaram em Praga, na República Checa. Ao contrário do que fizeram os outros jornais desportivos, o jornal A Bola destacou a vitória de Nélson Évora que “voltou a voar”, o que não é habitual num jornalismo que vive obcecado com o futebol e só com o futebol. Tal como Nélson Évora, também o jornal A Bola está de parabéns.
Nélson Évora é um dos nossos maiores atletas de todos os tempos, tendo sido campeão do mundo do triplo salto em 2007 e medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, mas veio a ser afectado por lesões de alguma gravidade que o afastaram das competições durante muito tempo. Muitos julgaram-no perdido para o atletismo, mas o salto de 17,21 metros e a vitória em Praga vieram mostrar que a persistência do atleta e do seu treinador produziu resultados. Quando o seu nome já parecia estar arredado das pistas, esta vitória veio recolocá-lo no grupo de atletas de quem se esperam bons resultados nas Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016.

Às vezes era melhor que estivesse calado

Nos últimos dias o problema das relações do primeiro-ministro com a Segurança Social e com o Fisco tem sido a questão dominante da vida política portuguesa. Aquele que tem conduzido a política de austeridade, que afirmou querer ir mais longe que a troika, que afirmou que não cortaria salários nem pensões e que atacou aqueles que não pagavam impostos, afinal não declarou, ou não pagou, ou não sabia que tinha que pagar, ou não tinha dinheiro para pagar, ou simplesmente distraiu-se e, durante cinco anos, não pagou à Segurança Social. Porém, teve a ousadia de ter comandado a perseguição fiscal aos portugueses e o confisco cego dos seus bens. Apenas há uma ano defendia que “há muitos que deviam pagar os seus impostos e não pagam […] porque não declaram as suas actividades”, mas afinal deu este mau exemplo cívico e político. Perante esta trapalhada, muitas vozes se têm levantado, inclusive no seu próprio partido, porque à mulher de César não basta ser séria: é preciso que pareça. E como não parece e os rendimentos auferidos e a vida contributiva do primeiro-ministro estão por esclarecer, o coro de críticas generalizou-se e até surgiram abaixo-assinados a exigir a sua demissão.
No seu papel de salva-vidas do governo, veio então o supremo magistrado da nação que deveria assumir uma posição de equidistância em relação a este problema, fazer a triste e lamentável figura de declarar que “o primeiro-ministro lhe deu as explicações que entendia dever dar” e que entende que “deve deixar aos partidos as suas controvérsias politico-partidárias, que já cheiram a campanha eleitoral”. Então ele acha que a evasão fiscal e contributiva é uma questão de luta político-partidária? Então ele acha que um primeiro-ministro não deve dar todas as explicações sobre este caso? Ele podia estar calado, mas gosta de falar para mostrar que existe, apesar de já ninguém lhe dar ouvidos. A minha avó, se ainda cá estivesse, diria para que eu aguentasse pois já falta pouco para ele se ir embora. Até o insuspeito comentador LMM reagiu, perante esta pobreza de espírito e esta pequenez intelectual.

sexta-feira, 6 de março de 2015

O biscate e o chico-espertismo lusitanos

O caso da dívida à Segurança Social do cidadão PPC complicou-se e aquilo que parecia ser um assunto marginal, está a tornar-se num assunto central, porque revela que em Portugal há uma tribo de privilegiados e que existem dois pesos e duas medidas nas relações do Estado com os cidadãos, isto é, que há uma fúria perseguidora contra a generalidade dos contribuintes e em especial contra os pensionistas e os funcionários públicos e, ao mesmo tempo, vive-se uma lamentável permissividade a favorecer uma pequena minoria. Neste grupo parecem encontrar-se os chamados VIP do regime, isto é, os profissionais da política que nunca fizeram outra coisa na vida que não fosse viver à sombra dos privilégios que a política lhes oferece. Não é gente de um só partido, mas gente que milita nos vários partidos que têm ocupado o poder, que confunde política com negócios e que age como facilitadora. Há muita gente dessa por aí, que tem vivido sempre na orla da política e que sobrevive em esquemas do verdadeiro biscate e de chico-espertismo, quer os seus amigos estejam no governo, quer estejam na oposição. É gente que em geral é bem falante e que vive desafogadamente, mas os seus currículos são confrangedores, apesar de alguns até terem licenciaturas, por vezes sem que se saiba onde e em que condições foram obtidas. Alguns são melhores ou mais afortunados que outros e conseguem subir na vida, mas o vírus do biscate e de chico-espertismo não lhes sai do corpo. Vivem deslumbrados com um poder com que nunca tinham sonhado. Viajam muito. Deslocam-se em bons carros. Usam gravatas caras. Passam por nós nas auto-estradas a alta velocidade, em absoluta impunidade mas, sempre, a bem da nação. Fazem-se acompanhar de seguranças que os protegem do povo. Dominam territórios de interesses onde se acantonam assessores, consultores, administradores e facilitadores que se protegem mutuamente. Recebem facilidades e avenças, cartões de crédito e senhas de presença, mas nem sempre prestam as contas que exigem aos outros. Há muitos por aí e não são apenas os Relvas, os Varas e os Loureiros.

quarta-feira, 4 de março de 2015

O drama humanitário da imigração ilegal

Embora o drama humanitário da imigração ilegal que atravessa o Mediterrâneo venha sendo muito divulgado pelos meios de comunicação, poucas fotografias serão tão expressivas como aquela que é hoje publicada na edição do diário Le Figaro, que ilustra bem o que tem sido essa aventura das pessoas que procuram um futuro melhor na Europa. De entre as várias rotas que conduzem ao espaço europeu, a mais utilizada está a ser a Rota do Mediterrâneo Central, cuja porta de entrada é o sul da Itália e que, só no passado ano de 2014, terá sido utilizada por mais de 200 mil imigrantes ilegais que tentaram chegar à Europa em pequenas embarcações, sem quaisquer condições de segurança e à mercê de traficantes sem escrúpulos, vindo a traduzir-se em pelo menos 3419 mortes.
Ao longo do milenar processo histórico que moldou a nossa civilização, o Mediterrâneo desempenhou sempre um papel determinante, tendo sido uma área privilegiada de contactos culturais e relações comerciais, mas também de confrontos de natureza diversa. Nas suas margens floresceram muitas das antigas civilizações, nomeadamente a egípcia, a fenícia, a grega e a cartaginesa, mas sobretudo a civilização romana que lhe chamou o mare nostrum. Até aos nossos dias, o Mediterrâneo continuou a ser um ponto de confluência de muitos interesses e um quase centro do mundo, mas nos últimos anos é a sua utilização pelos fluxos migratórios ilegais que mais tem chamado a atenção. Esse fluxo está associado às recentes perturbações políticas da margem sul e oriental do Mediterrâneo e às suas regiões vizinhas, tendo-se acentuado depois das “primaveras árabes” e, mais recentemente, com a grave situação que se vive na Síria e na Líbia. Por razões humanitárias a Itália empenhou-se na operação Mare Nostrum que desde Outubro de 2013 salvou mais de 100 mil pessoas, mas em Novembro de 2014 iniciou-se a operação Tritão, vocacionada para o policiamento, com financiamento europeu e coordenação do Frontex, a agência europeia de gestão da cooperação operacional nas fronteiras comunitárias, na qual estão envolvidos diversos países, entre os quais Portugal. De qualquer forma, esta imigração está  a ser um drama humanitário que continua sem respostas apropriadas.

terça-feira, 3 de março de 2015

Quem nos governa tem que ser exemplar

Na vida política portuguesa acontecem trapalhadas com demasiada frequência e, nesse aspecto, não há grandes diferenças entre as esquerdas e as direitas que têm passado pelo poder porque, como dizia um certo deputado, é tudo farinha do mesmo saco. Apesar disso, há quem pretenda mostrar uma imagem de seriedade que afinal não tem, como sucede com o caso revelado há três dias pelo jornal Público a respeito do nosso primeiro-ministro e pelos desenvolvimentos que o caso teve.
Noticiou o jornal que “Passos esteve 5 anos sem pagar contribuições à Segurança Social”. Esse facto é muito grave porque não acontece com um cidadão comum, mas com alguém que é primeiro-ministro e que devia dar o exemplo na direcção de um Estado insaciável a penhorar salários, a cortar pensões e a perseguir contribuintes. De resto, ainda há bem pouco tempo, também houve trapalhada no caso da sua alegada violação do estatuto de deputado em regime de exclusividade e da sua eventual fuga ao fisco, a mostrar que o primeiro Passos não tem ou não teve uma boa relação com as obrigações fiscais. Apesar da gravidade deste comportamento, a sua corte veio de imediato desculpabilizar a falta, com o seu ajudante Mota Soares à cabeça a dizer que a culpa era dos serviços administrativos que não tinham notificado o faltoso. Depois, veio a malta do costume, isto é, os Montenegros, os Melos, os Marcos e os Telmos, mais os Abreusamorins, os Piresdelima e os Lealcoelhos a desculparem o seu chefe e a mostrarem-se confortados com as suas explicações. Porém, o “caso Passos”, como hoje lhe chama o Diário Económico, não está nem pode estar arrumado.
Entretanto, o faltoso veio dizer que “não tinha consciência que essa obrigação era devida”, o que significa que enquanto deputado desconhecia uma lei de 1982.
Por fim, e apesar de não ter sido contabilizada toda a dívida, o que mostra que houve um tratamento especial para este caso, o faltoso foi a correr pagar quando o escândalo rebentou. Embora a dívida já tivesse prescrito, o professor Marcelo perguntou “como é que se paga voluntariamente uma dívida prescrita”. Tudo isto é, realmente, demasiado mau e um caso de pouca vergonha. Uma trapalhada. Mais uma...

domingo, 1 de março de 2015

Rio de Janeiro celebra 450 anos

Como hoje salienta O Globo e de uma forma geral a imprensa brasileira, a cidade do Rio de Janeiro celebra hoje o 450º aniversário da sua fundação, mas a sua história é tão grandiosa e tão rica que não cabe num pequeno texto evocativo como este. O nome do local onde foi fundada a cidade derivou do facto de no dia 1 de Janeiro de 1502 os navegadores portugueses terem avistado a baía de Guanabara e terem pensado que se tratava da foz de um grande rio a que chamaram Rio de Janeiro. Aquela baía veio a ser ambicionada pelos franceses, pelo que o capitão-mor português Estácio de Sá desembarcou no dia 1 de Março de 1565 num istmo entre o Morro Cara de Cão e o Pão de Açucar, na entrada ocidental da Baía da Guanabara, ali erguendo algumas palhotas e uma paliçada de protecção, aproximadamente no local onde hoje se situa a Fortaleza de São João. Assim nasceu a povoação de São Sebastião do Rio de Janeiro, em homenagem ao Rei de Portugal D. Sebastião, tendo sido a partir dela que foram afastadas as pretensões territoriais estrangeiras, sobretudo francesas.
Porém, o crescimento da povoação foi lento, pois era no Nordeste do Brasil que se concentrava o interesse português. Com a invasão holandesa, a produção de açucar deslocou-se para sul e a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tornou-se a cidade mais populosa do Brasil e o centro da expansão colonial portuguesa. Seguiu-se no século XVIII a descoberta e exploração das jazidas de ouro em Minas Gerais o que deu mais importância à cidade. Em 1763 e por iniciativa do Marquês de Pombal, o Primeiro-Ministro de Portugal, a cidade tornou-se a capital da colónia do Brasil, que foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro. Em 1808 acolheu a Família Real Portuguesa e daí resultou um surto de progresso e de modernidade sem paralelo na América do Sul. Entre 1808 e 1815 o Rio de Janeiro foi a capital do Reino Unido de Portugal e dos Algarves e de 1815 a 1821 foi a capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Após a independência brasileira em 1822, a cidade continuou sendo a capital do país. Foi aí que até 1960 viveu e faleceu o meu avô paterno. Nesse mesmo ano a capital federal foi transferida para Brasília e o Rio de Janeiro tornou-se a capital do Estado da Guanabara. Hoje celebra 450 anos e em 2016 vai acolher os Jogos Olímpicos.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O smartphone já anuncia uma nova era

A edição de hoje da revista The Economist inclui uma desenvolvida reportagem sobre o estado actual e o futuro das telecomunicações, revelando que, pela primeira vez, no 2º trimestre de 2013 as vendas de smartphones superaram as vendas de telefones celulares tradicionais. Os smartphones são uma novidade bem recente e combinam as funcionalidades da telefonia e da computação, tendo tido grande sucesso, primeiro  através do BlackBerry e, depois, do iPhone da Apple, que foi o primeiro smartphone multitouch e sem teclado físico. Em Portugal calcula-se que haja 4 milhões de pessoas que já utilizam essa tecnologia e esse número só surpreende quem não utiliza o Metropolitano de Lisboa e não se confronta com um incontável número de utilizadores.
Nos últimos anos o progresso desta tecnologia tem sido exponencial e hoje há mais de uma dezena de sistemas operativos e mais de duas dezenas de fabricantes, desde a Nokia à Samsung, passando pela Apple, Asus, Acer, Sony, Motorola, LG, BlackBerry e outras. Aqui é só escolher, a pronto ou a prestações. Na China espera-se que este ano sejam vendidos 500 milhões de smartphones, enquanto a Micromax, a mais popular marca indiana, vende modelos básicos por menos de 40 dólares. Actualmente há dois mil milhões de pessoas no mundo que utilizam smartphones com ligação à internet e com um ecrã sensível ao toque, mas até ao final da presente década estima-se que esse número duplique. Com os progressivos aperfeiçoamentos técnicos e a normal redução de preços, o The Economist destaca em primeira página que “no ano 2020 haverá 80% de adultos com um supercomputador no bolso”, acrescentando que, tal como o livro, o relógio e o motor de explosão, também o smartphone está a mudar a maneira como as pessoas se relacionam com os outros e com o mundo.
Os artigos do The Economist incluem diversas estatísticas a fundamentar as suas análises, o que recomenda um estudo mais cuidadoso do assunto. No entanto, parece ser evidente que, na sequência de tantos progressos que têm beneficiado a Humanidade, estamos agora a entrar numa nova era – a era dos planet of the phones - em que o ser humano passa a possuir dois cérebros, um na cabeça e outro na mão, mas também um terceiro cérebro de natureza planetária que é telepaticamente partilhada por todos em todo o mundo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O terrorismo cultural junta-se à guerra

Hoje, os jornais portugueses escolhem para temas centrais das suas edições o Zeinal Bava que não sabia de nada, o Jardim Gonçalves que diz o que nunca ousara dizer, o Alfredo Barroso que decidiu abandonar o PS e o polémico discurso do Costa para a plateia chinesa, isto é, assuntos específicos da nossa paróquia. Entretanto, todos os jornais britânicos de referência dedicam grandes espaços ao maior assassino da actualidade que dá pelo nome de Jihad John, mas que na realidade foi identificado como sendo Mohammed Emwazi, de 26 anos de idade, nascido no Kuwait mas criado em Londres, onde frequentou a Westminster University.
Curiosamente, os jornais espanhóis também tratam dos seus assuntos paroquiais e do Jihad John, mas destacam nas suas primeiras páginas e com destaque fotográfico  a destruição pelos jihadistas de esculturas pré-islâmicas do Museu de Mossul, o que já foi considerado uma “tragédia cultural”. O diário ABC dedica toda a sua primeira página a este caso.
A notícia foi divulgada através de um vídeo que mostra alguns jihadistas a destruirem estátuas e frisos à martelada no Museu de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, que os jihadistas ocupam desde o Verão do ano passado. Este acto segue-se à continuada destruição de património arqueológico, ao incêndio de bibliotecas e livrarias e ao contrabando de obras de arte assíria dos séculos VIII e VII AC para assegurar financiamento à jihad.
A UNESCO já reagiu e condenou estes actos de autêntico terrorismo cultural. A história da civilização da antiga Mesopotâmia já perdera muito com a invasão americana do Iraque em 2003, quando museus e sítios arqueológicos foram pilhados. Depois, essa dramática realidade alastrou à Síria com a guerra civil, onde foram total ou parcialmentre destruídos muitos tesouros, incluindo o mercado da cidade Velha de Alepo, classificado como Património Imaterial da Humanidade. Agora são os jihadistas que prosseguem a destruição cultural de uma das mais antigas civilizações da Humanidade. Todos perdemos com isso.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A fúria do mar como notícia do dia

A orla marítima das comunidades autónomas espanholas do País Basco, Cantábria, Astúrias e Galiza é um cenário sujeito às violentas tempestades marítimas que nos meses de inverno ocorrem no golfo da Biscaia. Muitos dos recursos e das actividades destas regiões estão ligados ao mar, em especial a pesca, a construção naval e a náutica de recreio e, por isso, o mar é um elemento marcante na vida das suas populações. A imprensa das suas principais cidades, sobretudo os periódicos de San Sebastian, Bilbau, Santander, Gijón, Oviedo e Corunha, reflecte esse interesse das populações em tudo o que se passa no mar.
Neste mês de Fevereiro, uma vez mais houve temporais e, de novo, a generalidade dos jornais divulgou as imagens do mar em fúria que afecta as actividades económicas e danifica o património, mas que proporciona visões espectaculares e panoramas únicos. A fúria do mar passa a ser a notícia. Tal como fizeram outros jornais da região, o diário El Comercio, que se publica desde 1878 em Gijón, escolheu a fotografia do mar enfurecido a rebentar junto do farol de San Esteban de Pravia, um farol de 20 metros de altitude que está localizado à entrada do porto do mesmo nome, na foz do rio Nálon, a cerca de 45 km para poente de Gijón. É realmente “uma imagem que vale mais do que mil palavras”.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Hollywwod, o cinema e a alta costura

Na noite de domingo, no Dolby Theater em Los Angeles, decorreu a 87ª cerimónia de entrega dos Óscares da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, para premiar os melhores actores, técnicos e filmes de 2014. Essa cerimónia é conhecida como a grande noite do cinema, com direito a uma das mais vistas emissões televisivas em directo para todo o mundo, que nos mostra Hollywood e muitas das suas peculiaridades.
Os grandes vencedores deste ano foram o filme Birdman do realizador mexicano Alejandro González Iñarritu, a actriz americana Julianne Moore e o actor britânico Eddie Redmayne. Porém, a cerimónia da entrega dos Óscares é também o maior desfile de alta costura mundial, juntando actrizes e estilistas que conseguem fazer um espectáculo dentro do espectáculo.
Embora todos os jornais tivessem destacado os vencedores da noite cinematográfica, também houve muitos outros que se ocuparam do desfile das estrelas, quase como se esse tivesse sido o assunto mais importante da noite. O jornal nova-iorquino Daily News, por acaso o quinto jornal de maior circulação nos Estados Unidos, foi um dos jornais que até deu maior destaque ao desfile de estrelas do que aos laureados com os Óscares, destacando na sua primeira página a figura elegante e a escassa roupa da modelo russa Irina Shaik .
Durante alguns anos ela foi uma presença constante na comunicação social portuguesa, não tanto pelos seus atributos físicos ou dotes profissionais, mas apenas porque era a namorada do melhor futebolista do mundo, que é também o mais famoso português da actualidade. Agora que terminou a sua relação com Cristiano Ronaldo, Irina Shaik faz-se ao caminho, usa as técnicas do marketing pessoal e, certamente, procura outras oportunidades de trabalho e de vida. O Daily News dá-lhe uma boa ajuda.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Meios de guerra e diplomacia económica

A acção da jihad islâmica continua a surpreender e a merecer o repúdio do mundo civilizado e, para além do núcleo duro da coligação internacional que a combate, alguns países islâmicos também já tomaram algumas iniciativas de força contra o ISIS, como foram os casos da Jordânia, do Egipto e da Turquia. Estas iniciativas mostram como tem evoluido a percepção da gravidade das acções do ISIS e do jihadismo, mas também mostram que estão a ser mobilizados mais meios militares para os combater. Assim acontece com a França que, para além dos seus alinhamentos e alianças, tem aí uma oportunidade para afirmar o seu prestígio e poder militar no mundo.
Hoje, a edição do diário Le Parisien noticia que o porta-aviões nuclear francês Charles-de-Gaulle, que navega ao largo do Bahreïn, “entrou em guerra contra o Daech” e que os primeiros aviões de caça Rafale descolaram esta manhã em direcção ao Iraque para cumprirem missões de reconhecimento ou de ataque contra as forças jihadistas no Iraque. O navio-almirante da Marinha francesa juntou-se ao porta-aviões americano Carl Vinson, passando a integrar a força conjunta da coligação internacional coordenada pelos Estados Unidos. Até agora a França dispunha de nove aviões Rafale na base francesa de Al-Dhafra, no Abu Dhabi, e seis aviões Mirage 2000D baseados em Azraq, na Jordânia. Com os 12 aviões Rafale e os 9 aviões Super Étendard embarcados no porta-aviões, mais do que duplica o dispositivo francês na região. Porém, o Charles-de-Gaulle ficará apenas oito semanas no golfo Pérsico, porque em finais de Abril irá participar num exercício aéreo com a Índia.
Este exercício, evidentemente, está relacionado com o negócio da venda à Índia de 126 aviões Rafale, por cerca de 20 mil milhões de dolares. A assinatura do respectivo contrato tem sido adiada desde há três anos e há fortes pressões para que a Índia opte pelos aviões russos Su-30MKI e Mig-29K. O novo governo do primeiro-ministro Narendra Modi, parece hesitar na escolha. Nestas circunstâncias, ficamos sem saber qual das duas missões do porta-aviões Charles-de-Gaulle é a mais importante: a missão militar de combate ao ISIS ou a missão de diplomacia económica de apoio ao negócio dos 126 Rafale ou, ainda se, como diz a publicidade, simplesmente são dois em um...

Gibraltar e a Espanha: os prós e contras

De vez em quando os espanhóis publicitam notícias sobre Gibraltar para que o tema não seja esquecido pela sua opinião pública. Assim faz hoje a edição do conservador ABC com uma sugestiva e eloquente capa alusiva ao crime associado ao “paraíso fiscal” que é o Peñón, a designação que os espanhóis dão a Gibraltar.
Gibraltar é uma pequena península situada no extremo sul da Península Ibérica que está sob soberania britânica mas, segundo escreveu e cantou em meados do século passado o cantor andaluz Antonio Molina, é uma “espina en el corazón de mi España soberana”.  O rochedo de Gibraltar foi ocupado em 1704 por forças anglo-holandesas e essa ocupação veio a ser reconhecida pela Espanha no Tratado de Utrecht de 1713 “para sempre, sem qualquer excepção ou impedimento”, como parte do pagamento indemnizatório da Guerra da Sucessão Espanhola. No entanto, a Espanha mantém a reivindicação sobre o Peñón, situação a que os 30 mil gibraltinos já se opuseram nos referendos realizados em 1967 e 2002, com a esmagadora maioria da população a rejeitar a partilha de soberania entre o Reino Unido e a Espanha. A presença britânica em Gibraltar é litigiosa e fere o orgulho espanhol, embora a Espanha também mantenha situações litigiosas de sinal contrário em Ceuta, Melilla e Olivença.
Gibraltar comporta-se como um “paraíso fiscal” e tem modos de vida que são perturbadores para a Espanha pois são verdadeiros focos do crime organizado, sobretudo o contrabando de tabaco e de outros produtos, o branqueamento de capitais e, em menor grau, o tráfico de drogas. Por isso, as autoridades espanholas mostram-se preocupadas e vieram revelar que haverá quinze grupos de crime organizado em Espanha com ligações a Gibraltar. O caso do contrabando de tabaco é, porventura, o mais relevante pois que se estima que origine uma quebra anual de impostos especiais e IVA de quase 10 mil milhões de euros aos cofres dos países comunitários. Já no que respeita ao branqueamento de capitais as preocupações espanholas são mais moderadas pois parece que o dinheiro lavado se dirige para o investimento imobiliário na Costa del Sol...
São os prós e os contras de Gibraltar e dos seus modos de vida em relação à Espanha.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A América sofre com onda de frio polar

A costa leste dos Estados Unidos e, em especial, as regiões do nordeste, tem estado sob o efeito de uma onda de frio polar sem precedentes nos registos históricos existentes e a agenda mediática tem assinalado esse facto. Muitos dos jornais publicados, um pouco por todo o país, têm ilustrado as suas edições com expressivas fotografias do gelo e da neve, sobretudo nas cataratas do Niagara e no porto de Nova York, mas também em outros locais. Os efeitos daquela frente fria têm sido arrasadores e têm afectado muitos milhões de pessoas, tendo sido registadas cerca de três dezenas de mortes, sobretudo por hipotermia. Embora não seja uma situação invulgar naquelas latitudes americanas, o facto é que estes dias têm sido particularmente rigorosos e têm feito sofrer muitos milhões de pessoas que ficaram retidas em casa, enquanto as ruas ficaram cobertas de neve e vazias, os transportes públicos foram interrompidos, milhares de voos foram cancelados ou sofreram atrasos consideráveis e as escolas e as empresas fecharam as suas portas, isto é, o quotidiano de uma grande parte dos Estados Unidos foi seriamente afectado. As zonas mais atingidas têm sido os estados de Nova York, Connecticut, Massachusetts e Maine. Em Nova York registaram-se as mais baixas temperaturas das últimas décadas e os termómetros até marcaram -34º C, enquanto as águas do seu porto congelaram. Na cidade de Boston acumularam-se mais de dois metros e meio de neve nos últimos dias e as águas do seu porto congelaram. As cataratas do Niagara também congelaram e até os jardins da Casa Branca, em Washington, se cobriram de neve.
A edição do Newsday escolheu o título Ice Age (a Idade do Gelo), numa alusão ao período em que extensos mantos de gelo cobriram a América do Norte, mas também uma fotografia elucidativa e insólita, que é um bom exemplo de fotojornalismo: as águas do porto de Nova York congeladas e o porto quase a precisar da acção de navios quebra-gelos.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Portugal merecia outra dignidade...

As consequências das eleições gregas continuam a suscitar muitas controvérsias, sobretudo porque entre as escolhas feitas pelo eleitorado grego consta a rejeição da austeridade e a exclusão da troika do território grego, mas também a adopção de medidas imediatas de combate à grave situação humanitária que se vive no país. Com o programa que foi imposto à Grécia pela troika, o produto nacional grego foi reduzido em cerca de 25%, a dívida aumentou para 175% do PIB, o desemprego situou-se acima dos 25% e a pobreza tornou-se uma calamidade nacional.
Com o novo governo, os gregos adoptaram como objectivos o combate à crise humanitária, a adopção de reformas que combatam as oligarquias dominantes e a renegociação da sua dívida, com um eventual perdão, a redução de juros e o alargamento de prazos. É um enorme desafio e muitos especialistas consideram que se não houver uma boa solução para o problema grego e a Grécia for abandonada, então será Portugal a ser depois contagiado.
O problema está, portanto, em ajudar a Grécia a sair do seu actual ciclo de empobrecimento numa lógica de solidariedade comunitária ou actuar de forma severa, para que o caso grego seja uma vacina para a Europa. E enquanto Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, veio dizer que “a troika pecou contra a dignidade de portugueses, gregos e também irlandeses”, reiterando que é preciso rever o modelo e não repetir os mesmos erros, o ministro alemão Wolfgang Schäuble afirmou em Berlim que Portugal era a prova de que os programas de ajustamento funcionaram. Juncker tem razão e tem pensamento europeu. Schäuble está errado e tem pensamento alemão. Acontece que o nosso governo quis ir mais longe do que a própria troika e aumentou a dívida, o desemprego, a pobreza, a emigração qualificada. Esmagaram-se os salários e as pensões. Liberalizaram-se as leis laborais e os despedimentos. Venderam-se as nossas empresas ao desbarato. Desinvestiu-se na Saúde e na Educação. Perdeu-se a confiança e a autoestima, bem como o orgulho nacional. Como então escreveu o jornal Público, “temos gente de todas as nacionalidades a mandar em Portugal”, desde o etíope Abebe Selassie ao indiano Subir Lall, passando por dinamarqueses, finlandeses, alemães e eu sei lá que mais. O irrevogável Portas não hesitou e classificou-nos como um protectorado.
E no meio desta controvérsia, em vez de sermos solidários com quem precisa e sermos sensíveis à dimensão humana da crise, escolhemos o seguidismo ridículo de ser “mais papistas do que o Papa” e assistimos à presença obediente, submissa e instrumentalizada da ministra Albuquerque a prestar-se à triste figura de ser exibida como uma boa discípula da Alemanha de Merkel e de Schäuble. A fotografia que o Público hoje publica em primeira página diz tudo. Portugal merecia outra dignidade…