sexta-feira, 11 de março de 2022

A detecção do 'Endurance' 107 anos depois

Quando a generalidade da imprensa internacional trata da guerra na Ucrânia e de todos os problemas humanitários e militares que ela suscita, há um jornal internacional que escolhe um tema de capa bem diferente. Trata-se do jornal suíço Le Temps, que desde 1998 se publica na cidade de Genève e que é um diário francófono, generalista e de cobertura nacional. Na sua edição de hoje optou por contar a história de um veleiro de três mastros chamado Endurance e de Ernest Shackleton, em vez de repetir as notícias, verdadeiras ou não, que nos chegam da Ucrânia a um ritmo tão repetitivo quanto a publicidade comercial, parecendo querer afastar-se de toda a manipulação noticiosa que está a contaminar a verdade. Para a capa do jornal foi escolhida uma das famosas fotografias do Endurance, captadas em 1916 por Frank Hurley, o fotógrafo da expedição.
Ernest Shackleton foi um explorador britânico que, depois de ter participado em três expedições à Antártida, organizou a Expedição Transantártica Imperial que pretendia atravessar a Antártida, passando pelo Polo Sul. A sua equipa embarcou no Endurance e largou das águas britânicas em Agosto de 1914, mas no dia 19 de Janeiro de 1915 ficou preso num banco de gelo no mar de Weddell. Depois de muitos meses e de muitas peripécias, o navio cedeu à pressão do gelo e o seu casco de madeira foi esmagado, afundando-se nas águas austrais geladas no dia 21 de Novembro de 1915. Dispondo apenas de uma pequena embarcação salva-vidas, Ernest Shackleton decidiu procurar auxílio na estação baleeira da Geórgia do Sul, situada a quase dois mil quilómetros de distância. Foi uma aventura bem-sucedida porque, apesar de todas as dificuldades, Shackleton conseguiu que todos os seus 28 companheiros fossem salvos.
Cento e sete anos depois, o Endurance foi localizado e fotografado a dez mil pés de profundidade no mar de Weddell por uma equipa científica patrocinada pelo Falklands Maritime Heritage Trust, que saiu da Cidade do Cabo a bordo de um navio quebra-gelos. As fotografias obtidas mostram que o navio está muito bem preservado e que até o seu nome podia ser visto estampado na popa, o que deu origem à afirmação de que “a preservação está para além da imaginação”
Uma bela história em tempo de guerra.

Macau evoca Camões e ‘Os Lusíadas’

A propósito da celebração dos 450 anos da publicação d’Os Lusíadas, decorre amanhã um congresso internacional em que participam especialistas de várias partes do mundo, incluindo o território de Macau, como se pode observar na notícia da primeira página da edição de hoje do jornal Tribuna de Macau, que publica a fotografia do busto de Camões que se encontra na chamada gruta de Camões, existente no Jardim Luís de Camões em Macau.
Este jardim é um dos mais aprazíveis locais da cidade, com um luxuriante verde orlado de frondoso arvoredo e carreiros sinuosos, havendo formações rochosas e algumas peças escultóricas disseminadas pelo seu espaço. Numa das formações rochosas a que uma escadaria dá acesso, encontra-se a gruta de Camões, um importante elemento da memória e da cultura macaense de raiz portuguesa. Porém, a relação do poeta com Macau é um assunto com mais dúvidas do que certezas, porque não se conhecem documentos que esclareçam a verdade histórica, daí resultando muita imaginação e muita especulação, embora ao longo dos anos tenha prevalecido a ideia de que Camões terá vivido em Macau e terá escrito uma parte da sua obra exactamente nesta gruta.
Neste congresso haverá um discurso do sultão Hidayatullah Sjah, o rei de Ternate (que no século XVI foi a “capital portuguesa” das Molucas), estando asseguradas comunicações por académicos indonésios, macaenses, iranianos, turcos, goeses e especialistas de outras origens, que reconhecem na expansão marítima portuguesa um movimento pioneiro na globalização e no encontro de culturas. 
O que é realmente curioso é o facto de um jornal macaense escolher a fotografia do busto de Camões para ilustrar a primeira página da sua edição.

quinta-feira, 10 de março de 2022

A conflitualidade na Europa das pátrias

A Europa é uma realidade cultural muito heterogénea e daí que, muitas vezes, seja usada a expressão “Europa das pátrias” para a caracterizar. A unidade europeia existe na geografia mas só avançou no plano político depois da 2ª Guerra Mundial, embora subsistam enormes diferenças culturais que resistem aos efeitos sociológicos e económicos da mundialização cultural.
Nesse sentido, o conflito da Ucrânia no qual estão concentradas todas as atenções, tende a fazer esquecer outros sinais de instabilidade associados aos nacionalismos que, embora de outra escala e adormecidos ou não, estão presentes no panorama político europeu. É o caso da Córsega, a ilha francesa do Mediterrâneo que tem cerca de 340 mil habitantes e onde existe uma significativa corrente nacionalista e independentista, que em tempos se agrupava na FLNC (Fronte di Liberazione Naziunale Corsu). Um dos seus líderes chama-se Yvan Colonna, tem 61 anos de idade e está condenado a prisão perpétua por homicídio de um autarca corso em 1998.
Há dias, na prisão de Arles, no sul de França, Colonna foi atacado e gravemente ferido por um companheiro de prisão, encontrando-se em coma. Surgiram protestos violentos em que as autoridades francesas foram acusadas de não terem dado resposta ao pedido de Colonna para ser transferido para uma prisão corsa. Na cidade de Ajaccio, a capital, os manifestantes atacaram a Polícia e o Palácio da Justiça com pedras e bombas incendiárias, enquanto em Bastia e Calvi foram utilizados cocktails Molotov e houve mais de duas dezenas de polícias feridos.
Na sua edição de hoje, o jornal corse matin refere a escalada das manifestações e dos motins que explodem por toda a ilha e escreve que os separatistas corsos que lutaram pela independência durante décadas, estão de novo nas ruas, depois do seu principal movimento (FNLC) ter deposto as armas em 2014.
Para além das preocupações com a Ucrânia que dizem respeito a todos, os franceses ainda têm estes problemas adicionais.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Sim ao cessar-fogo e à paz na Ucrânia!!!

A edição de ontem do jornal espanhol elEconomista.es inclui na sua primeira página um mapa da Ucrânia, em que a parte ocidental está colorida com as cores nacionais azul e amarelo, enquanto a parte oriental apresenta dois tons de castanho que parecem ser as cores das repúblicas rebeldes. Aparentemente a linha que separa as duas partes é o rio Dnieper e a legenda que acompanha o mapa refere que “Putin quiere partir Ucrania por el eje entre Kiev y Odesa”. O mapa sugere várias coisas aos não especialistas em geopolítica, como a partilha da Alemanha em 1945 ou a divisão da Checoslováquia em 1993. 
Quando a guerra na Ucrânia já vai no seu 13º dia, pouco sabemos sobre o que realmente se passa em termos operacionais e das perdas e ganhos de cada uma das partes, embora saibamos que há mais de dois milhões de refugiados e uma enorme destruição que está a ser provocada nas cidades. Todos já perceberam, tanto nos teatros da guerra como fora deles, que não haverá vencedores. Todos já perceberam que há muitos ucranianos que culturalmente querem ligar-se à Europa e muitos outros que querem ligar-se à Rússia. Todos já percebemos que as principais cidades estão a ser destruídas. O sofrimento do povo e a tragédia são indescritíveis. O cessar-fogo é absolutamente necessário, mas a paz e a concórdia entre os ucranianos não parece ser possível durante muitos anos.
Nessas condições tem muito interesse um artigo escrito em 2014 pelo antigo secretário de Estado americano Henry Kissinger no jornal The Washington Post com o título “To settle the Ukraine crisis, start at the end” (edição de 5 de março de 2014).
Desse artigo destaco as seguintes passagens:

- Com demasiada frequência, a questão ucraniana é apresentada como um confronto: se a Ucrânia se junta ao Oriente ou ao Ocidente. Mas para que a Ucrânia sobreviva e prospere, não deve ser o posto avançado de nenhum dos lados contra o outro – deve funcionar como uma ponte entre eles.

- O oeste é em grande parte católico; o leste em grande parte ortodoxo russo. O oeste fala ucraniano; o leste fala principalmente russo. Qualquer tentativa de uma ala da Ucrânia de dominar a outra – como tem sido o padrão – levaria eventualmente à guerra civil ou à ruptura

- Devemos buscar a reconciliação, não a dominação de uma facção.

- Internacionalmente, devem seguir uma postura comparável à da Finlândia. Essa nação não deixa dúvidas sobre sua feroz independência e coopera com o Ocidente na maioria dos campos, mas evita cuidadosamente a hostilidade institucional em relação à Rússia.

Kissinger dixit. Há muita gente a procurar o cessar-fogo e a paz: turcos, chineses e israelitas, bem como algumas personalidades internacionais com Macron na primeira fila. Talvez lhes seja útil lerem o texto de Kissinger que está disponível na internet.

domingo, 6 de março de 2022

Volodymyr Zelensky novo herói mundial

A invasão russa do território ucraniano iniciou-se na madrugada do dia 24 de Fevereiro e, portanto, vai no seu décimo primeiro dia de guerra e de resistência, de combates, de bombardeamentos e de destruições, enquanto mais de um milhão de refugiados já atravessou as fronteiras. É uma enorme catástrofe que ninguém imaginava e não há diferendos ou razões, nem provocações ou ameaças, que justifiquem esta tragédia.
No dia 2 de Março, a Assembleia Geral das Nações Unidas condenou a invasão russa com 141 votos a favor, cinco votos contra e 35 abstenções, mas as partes não deram ouvidos aos apelos da comunidade internacional e, no terreno, continuaram os combates e as destruições. Aparentemente, as partes não dão sinais de moderação, com os russos a continuar os seus ataques para ganhar posições e com os ucranianos a resistir na defesa da sua terra, apesar da desproporção de forças. É uma dura prova para todos, tanto para os que combatem, como para os que abandonam as suas cidades, como para aqueles que assistem à derrocada das suas casas.
Volodymyr Zelensky, o presidente da Ucrânia, tem sido o rosto da resistência e da coragem ucranianas, aparecendo na primeira linha de defesa do seu país. Muitas publicações internacionais destacam a sua corajosa liderança, como sucede na última edição da revista brasileira IstoÉ, que publica a sua fotografia e a frase “o novo herói mundial”. Num conflito que é muito complexo e que nasceu de erros e provocações acumuladas pelas duas partes, o presidente Volodymyr Zelensky é um exemplo de coragem que está a impressionar o mundo.

sábado, 5 de março de 2022

A Europa recebe os refugiados ucranianos

Sabe-se pouco sobre a evolução operacional da guerra da Ucrânia, porque as informações que vamos recebendo são muito contraditórias, embora pareça que nenhuma das partes esteja a registar sucessos suficientes que lhes garantam posições mais favoráveis na mesa de negociações. Do que não há dúvidas é da enorme destruição que está a tomar conta das cidades ucranianas, da ameaça do conflito se estender para além do território ucraniano e das multidões de refugiados que estão a chegar à Polónia, à Hungria, à Moldova, à Eslováquia e à Roménia, mas também à Rússia e à Bielorrússia.
Segundo revelou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), apenas numa semana de guerra registou-se um milhão de refugiados, havendo muitos deles que já deixaram os países de acolhimento e seguiram para outros destinos, incluindo Portugal.
A mais recente edição da revista americana Newsweek dedica a sua primeira página aos refugiados e informa que as previsões apontam para que o seu número possa chegar aos quatro milhões, sobretudo se o cessar-fogo tardar e os combates prosseguirem.
Porém, a tragédia dos refugiados também tem uma expressão interna, porque uma parte da população abandona as zonas de combate para fugir aos bombardeamentos e procura refúgio em zonas mais isoladas do país.
Não restam dúvidas de que com tantos refugiados e com tanta destruição, o cessar-fogo tem que ser conquistado rapidamente, mas não sei se aqueles que podem influenciar os caminhos da paz estão a fazer tudo o que deviam, isto é, não sei se o exemplo do Papa Francisco, que visitou a embaixada russa no Vaticano para “expressar a sua preocupação com a guerra”, tem quem siga o seu exemplo. A Europa que deveria ser a mediadora deste conflito, preferiu outro caminho.

sexta-feira, 4 de março de 2022

Há demasiados ‘outdoors’ a poluir Lisboa

Lisboa goza da fama de ser uma bonita cidade, mas não é só fama, pois é realmente uma bela cidade. Porém, é preciso que os burocratas não estraguem o trabalho que tem sido feito por muitos profissionais para a preservar, embelezar e modernizar.
Na praça Marquês de Pombal, uma das áreas mais movimentadas da cidade, foi colocado um significativo número de painéis publicitários, habitualmente conhecidos por outdoors, que foram instalados em volta da praça e que são muito inestéticos, o que dá um ar suburbano à cidade. É lamentável que a Câmara Municipal tenha autorizado essa instalação e tenha cedido a esse tipo de interesses comerciais, apenas para arrecadar uma receita suplementar para os seus cofres. Os serviços distraíram-se ou fizeram-se distraídos. O novo presidente, Carlos Moedas, ainda não deve ter visto este verdadeiro atentado à harmonia urbana, que parece estar a tomar conta de algumas zonas nobres da cidade e chegou agora ao coração da cidade.
Houve quem reagisse e não perdesse tempo e que, exactamente num desses painéis, escrevesse a frase Take this shit off. We want trees! 
Uma frase muito oportuna, que os lisboetas certamente aplaudem.
Espera-se que Carlos Moedas veja esta mensagem e mande rapidamente retirar os outdoors da praça Marquês de Pombal e de outras zonas nobres da cidade.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Quando a fotografia serve a propaganda

A resistência ucraniana está a surpreender o mundo e as notícias que vamos recebendo indicam que têm sido distribuídas armas à população, que foram organizadas forças de voluntários civis, que estão a ser preparados obstáculos para impedir a progressão de viaturas blindadas e que, em várias cidades, os civis estão a ser ensinados a fazer e a lançar cocktails molotov.
Por isso, tem um significado muito simbólico a fotografia hoje publicada pelo jornal croata Večernji list e pelo jornal italiano La Repubblica, na qual um combatente civil lança um cocktail molotov num cenário de fogo e fumo em que se vê uma bandeira ucraniana, um outro homem que observa aquele lançamento e a mão de um terceiro homem que estende um outro cocktail molotov. Aquela imagem, captada na cidade de Zhytomyr, a menos de cem quilómetrios de Kiev, associada à expressão do jornal italiano - La resistenza di un popolo – deixa ao leitor a ideia de que se trata de um ataque da corajosa resistência ucraniana, até porque tem sido anunciado que as forças invasoras russas se encontram às portas de Kiev.
Porém, numa breve pesquisa efectuada na internet, verificamos que se trata de uma imagem retirada de um conjunto de imagens captadas numa vulgar sessão de treino de lançamento de cocktails molotov ou numa sessão especialmente preparada para a recolha de fotografias, que foi realizada em Zhytomyr. Assim, aquela que parecia ser uma fotografia para ficar na História da Resistência Ucraniana, não passa de uma imagem enganosa destinada a servir a propaganda e a manipular alguém ou alguma coisa, incluindo aqueles dois jornais.

Solidariedade para com o povo ucraniano

A guerra na Ucrânia pode ser analisada sob diferentes aspectos políticos e militares, mas a resistência ucraniana às forças invasoras russas parece ser o aspecto mais surpreendente desse conflito que está a atravessar o centro da Europa e que parece agravar-se em cada dia que passa. A Ucrânia está a reagir como um pequeno Davi que enfrenta o gigante Golias. 
A mobilização popular para combater o invasor por todos os meios e a ideia de defender as cidades, rua a rua, estão a impressionar a Europa, pois já não se imaginava que houvesse um povo com tanta coragem e tanta heroicidade, num tempo em que as sociedades contemporâneas estão dominadas pelos valores do consumo e do conforto, que tendem a sobrepor-se a todos os outros ideais, como a independência e a liberdade. 
Na chamada Europa das Pátrias, o exemplo da Ucrânia é, certamente, um caso singular. Poucos defenderiam a sua terra como o estão a fazer os ucranianos. Por isso, a solidariedade europeia para com o povo ucraniano está a acentuar-se à medida que se vai conhecendo a firmeza e a determinação ucraniana para resistir ao invasor, apesar dos intensos bombardeamentos russos que são feitos sobre as cidades. 
Essa solidariedade está a manifestar-se de formas muito diversas, mas destacamos a iniciativa do jornal italiano Corriere della Sera que, na sua edição de hoje, mostra a sua solidariedade e homenageia a nação ucraniana, ao publicar a sua bandeira em todo o espaço da sua primeira página.  

quarta-feira, 2 de março de 2022

Futebol é jogo de paz e desanuviamento

O noticiário, tanto o nacional como o internacional, está a ser dominado pela guerra na Ucrânia que, aparentemente, se está a intensificar, como se pode observar pelas imagens televisivas que nos chegam e que mostram as explosões, as destruições e as colunas de refugiados que atravessam as fronteiras. As notícias revelam que prevalece a desinformação e a contrainformação produzidas por ambas as partes e não é necessário ser-se perito em coisas militares para perceber que isso está a acontecer em larga escala. Na realidade, sabemos muito pouco quanto à evolução da guerra nas cidades de Kiev e Kharkiv, bem como nas cidades do sul, situadas na orla do mar Negro, como Mariupol, Berdiansk, Melitopol, Kherson e Odessa. A ansiedade está a tomar conta da Europa, não só devido aos elevados riscos nucleares que nos ameaçam, mas também porque não se conhecem os desígnios de Putin e até onde ele pretende ir.
Neste contexto, um simples jogo de futebol acaba por ser um alívio para a tensão que aflige as pessoas e para que os canais televisivos deixem de nos massacrar repetidamente com as mesmas notícias, muitas delas inverdadeiras. Hoje o Sporting e o FC Porto defrontam-se em Lisboa, quando ainda estão vivos os graves incidentes ocorridos no passado dia 11 de Fevereiro, após o jogo em que as duas equipas se defrontaram. Desse dia ficou pouco mais do que a imagem positiva do abraço entre os dois treinadores, hoje republicada em dois jornais desportivos. O que hoje se espera é que Amorim e Conceição “estejam à altura do clássico” como diz o jornal A Bola, ou que estejam “unidos pela paz” como escreve o jornal O Jogo, que acrescenta que “os treinadores desarmadilharam clima de tensão antes do primeiro duelo na Taça de Portugal”.
Realmente, perante a tragédia que está a acontecer no centro da Europa, não há quaisquer razões para que esta noite aconteça outra coisa que não seja um jogo de futebol pacífico, animado e divertido, isto é, um bom espectáculo com artistas inspirados.

terça-feira, 1 de março de 2022

A Europa Unida no apoio à Ucrânia

As imagens que as televisões nos mostram de milhares de refugiados, sobretudo mulheres e crianças, que procuram segurança na Polónia e na Roménia, impressionam mais do que as imagens de tanques ou de viaturas destruídas, ou que as notícias de combates à volta das cidades ucranianas. Essas imagens, que mostram a face mais desumana e mais cruel da guerra, têm sido o elemento mobilizador da opinião pública mundial na solidariedade e no apoio ao povo ucraniano. Muitos milhares de pessoas em inúmeras cidades europeias e não europeias, têm vindo para a rua protestar contra a guerra e contra os desígnios de Vladimir Putin, que parece não ter sequer o apoio da maioria da população russa. Ao mesmo tempo, a União Europeia veio mostrar um sentido de unidade que não lhe era habitual, ao adoptar sanções económicas severas contra a Rússia e medidas de apoio à Ucrânia, onde se inclui o fornecimento de material letal. Em edição especial, o jornal Le Monde destaca hoje a união da Europa no apoio à Ucrânia como um facto notável, pois representa a vontade europeia de actuar autonomamente em relação aos Estados Unidos e à NATO. As vozes dos falcões atlantistas como são as figuras de  Joe Biden ou de Jens Stoltenberg têm-se apagado, enquanto as vozes europeístas de Ursula von der Leyen, Josep Borrell, Emmanuel Macron ou Charles Michel têm sido ouvidas com mais insistência, a mostrar que o problema ucraniano é um problema europeu.
Apesar de já se terem dado alguns passos no sentido de um cessar-fogo, a situação é muito complexa e até mesmo perigosa, mas todos havemos de confiar que uma boa solução possa estar a caminho, sobretudo se o assunto for tratado como um problema entre europeus, o que dispensa o irritante da participação directa e injustificada da NATO e dos americanos na solução desta crise.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Um breve encontro, um passo necessário

A guerra prossegue no território ucraniano, mas pouco sabemos sobre o que realmente se passa no terreno, para além das repetidas imagens televisivas que nos chegam e que nos mostram o sofrimento das populações na sua fuga em busca de segurança. Essas imagens são reais. As grandes novidades desta crise serão a ameaça de utilização de armamento nuclear por uma das partes (Rússia) e o enorme apoio internacional que tem a outra parte do conflito (Ucrânia), mas também a intensa utilização das plataformas comunicacionais, como a televisão e as redes sociais, que estão a fazer um novo tipo de guerra através de uma intensa manipulação da informação, mas que também servem para mobilizar solidariedades, para denunciar abusos e para reclamar pelo fim da guerra.
Putin foi longe demais e abriu uma caixa de Pandora. Hoje houve um breve encontro entre as partes e esse foi um passo necessário e um sinal de esperança. A Europa deveria ter estado nesse encontro a mediar, mas optou por apoiar uma das partes e lançar gasolina para a fogueira. Naturalmente, cada uma das delegações estará a estudar as propostas que recebeu da outra parte como base para uma negociação e para um desejável cessar-fogo, esperando-se que cada uma delas entenda bem o que é uma negociação, isto é, que saiba que tem que ceder alguma coisa para que o sofrimento da população fique por aqui.
Os tempos mudaram muito e as imagens que nos chegam das populações em fuga do território ucraniano, bem como as ameaças russas, têm gerado solidariedades por todo o mundo, inclusive na própria Rússia. Milhares de pessoas por todo o mundo têm participado em marchas de protesto contra a guerra e em apoio do povo ucraniano. O jornal The Washington Post foi um dos jornais que hoje destacou em primeira página a grande manifestação contra a guerra, ontem realizada em Berlim.   
Hoje o presidente Zelensky pediu a adesão urgente da Ucrânia à União Europeia. Não sei se será a melhor altura para abrir o processo de adesão que é sempre demorado, recordando aqui que Portugal esperou uns bons dez anos para satisfazer todos os critérios necessários.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

A resistência e a coragem de Zelensky

Sabe-se pouco sobre o que vai acontecendo no conflito que está em curso na Ucrânia, porque as notícias são contraditórias e resultam das necessidades de desinformação e da política de contrainformação de ambas as partes. Há referências a um possível encontro entre russos e ucranianos, nas próximas horas, o que não pode deixar de nos dar alguma esperança de estarmos a caminho de um cessar-fogo, de negociações e da paz.
Apesar de ter havido repetidas provocações, tanto por parte dos russos como por parte dos ocidentais e dos falcões da NATO, a inesperada e brutal invasão russa deixou o mundo perplexo. Pouco se sabe sobre o que se passa no terreno, sobre os combates, sobre as baixas ou sobre quem está a ter vantagem nas operações, mas são visíveis as imagens de milhares de pessoas que fogem das cidades e procuram refúgio nos países fronteiros, bem como as imagens do protesto que o mundo está a fazer contra a invasão das tropas de Putin e de solidariedade para com a Ucrânia.
Nestas difíceis circunstâncias e neste clima de incerteza, um homem já se impôs ao respeito dos seus concidadãos e ao mundo: Volodymyr Olexandrovytch Zelensky. Tem 44 anos de idade e é o actual presidente da Ucrânia, cargo para que foi eleito em Maio de 2019. Não tem passado político e, enquanto actor e comediante, desempenhou o papel de presidente da Ucrânia na série televisiva “Servo do Povo”, que foi transmitida entre 2015 e 2019 pela televisão ucraniana. Será um populista mas, inesperadamente, tem sido o rosto e a voz da resistência, num exemplo de coragem a lembrar a firmeza do presidente chileno Salvador Allende, que em 1973 foi deposto por um golpe militar chefiado pelo general Augusto Pinochet. 
Hoje o jornal regional francês Courrier picard, que se publica em Amiens, presta-lhe uma homenagem a que me associo. Bravo Volodymyr Zelensky!

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Guerra continua mas pouco sabemos dela

A invasão russa da Ucrânia prossegue e apesar de nos chegarem muitas notícias provenientes do território ucraniano, pouco sabemos sobre o que de facto está a acontecer e sobre os propósitos das tropas invasoras. Vemos a inesperada e corajosa intervenção do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, vemos algumas imagens pouco esclarecedoras de operações militares, mas não temos visto soldados, nem colunas militares, nem ataques aéreos. Ambas as partes estão a utilizar a desinformação e a contrainformação em larga escala, como é habitual nestes casos, para estimular os seus combatentes e para suscitar a compreensão ou o apoio internacionais. 
A população das cidades parece estar a abandoná-las e a procurar refúgio e segurança nos países vizinhos. Há notícia de operações em várias regiões do país mas, aparentemente, o objectivo russo é dominar a cidade de Kiev, a capital da Ucrânia e forçar a rendição do presidente Zelensky, havendo muitos jornais internacionais que, tal como o diário Público, publicam exactamente a mesma fotografia em que vêm soldados ucranianos a tomar posição para resistir às tropas russas.
Entretanto, a diplomacia poderá já estar a trabalhar para conseguir um cessar-fogo que permita reencontrar a paz. É a melhor notícia que nos pode chegar da Ucrânia, mas os negociadores terão de utilizar a inteligência e a sensatez, mas também os conhecimentos da História e saber que a negociação é uma arte e não um jogo de teimosos.
Há vários países europeus que, nas disputas Leste-Oeste, optaram por um estatuto de neutralidade. É o caso da Suíça, da Áustria, da Finlândia e da Suécia. Talvez esses exemplos sirvam para inspirar os diplomatas russos e ucranianos.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Um dia muito negro na História da Europa

Na madrugada de hoje, Vladimir Putin falou aos russos e ao mundo para anunciar a iniciativa que todos temiam, mas que poucos acreditavam ser possível, isto é, a invasão da Ucrânia. Depois de muitos dias de diálogo, contactos diplomáticos, consultas e conversações, mas também de ameaças, acusações e insultos, tudo parecia caminhar no sentido de ser encontrada uma solução que resultaria de alguma cedência das partes e que recusasse a guerra e as suas consequências catastróficas. 
Porém, aconteceu uma crescente radicalização, sem que cada parte atendesse aos argumentos da outra.
No longo discurso que pronunciou esta madrugada, Putin considerou que a Rússia e o seu povo estavam cada vez mais ameaçados pelos Estados Unidos e pela NATO, afirmando que “decidi conduzir uma operação militar especial” e que “a Rússia moderna, mesmo após o colapso da URSS e a perda de uma parte significativa do seu potencial, é hoje uma das potências nucleares mais poderosas do mundo”, o que deve ser associado a outra passagem do seu discurso em que Putin também disse que “quem nos tentar impedir, deve saber que a resposta da Rússia será imediata”. Trata-se de uma declaração de guerra à NATO e ninguém sabe o que vai acontecer. É um dia muito negro na História da Europa. A iniciativa de Putin tem sido condenada com veemência, com as excepções do costume. Só a imprensa sul-americana não deu a notícia da invasão da Ucrânia porque quando Putin falou, a América do Sul ainda estava no dia anterior…
Em Portugal temos o presidente Marcelo a condenar a violação do direito internacional e temos o primeiro-ministro Costa a afirmar que está preparada uma força militar portuguesa para missões de dissuasão da NATO, mas que a NATO não vai intervir na Ucrânia. 
Todos condenam Putin e declaram solidariedade para com o povo ucraniano. Nós também. Que o cessar-fogo e a diplomacia cheguem depressa. Que tudo isto seja apenas um mau sonho.