domingo, 5 de janeiro de 2025

Baixa do Cassange: massacre há 64 anos

O dia 4 de Janeiro é o Dia dos Mártires da Repressão Colonial em Angola e, na sua edição de ontem, o Jornal de Angola prestou tributo às vítimas dos acontecimentos que ficaram registados na história como o “massacre da Baixa do Cassange”.
Aconteceu que nos primeiros dias do ano de 1961 os trabalhadores agrícolas das plantações algodoeiras da Companhia Geral de Algodões de Angola (Cotonang), uma sociedade luso-belga com actividade na Baixa do Cassange, um território localizado entre os distritos de Malange e da Lunda-Norte, decidiram protestar contra as suas condições de trabalho, armaram-se de catanas e canhangulos e desafiaram as autoridades portuguesas, destruindo plantações, casas e pontes. A reacção dos colonos portugueses foi violenta e teve apoio militar, designadamente da Força Aérea Portuguesa, que bombardeou a região e provocou baixas entre os manifestantes.
Controlada pela censura, a imprensa portuguesa da época não noticiou estes acontecimentos, mas houve quem tivesse estudado o assunto e publicado (Revista Militar, nº 2517, Outubro, 2011). Esse estudo conclui que “teria havido entre duzentas e trezentas mortes entre os revoltosos, muitos das quais poderiam ter sido evitadas se não fosse a histeria inicial de que estavam imbuídos e cerca de uma centena de feridos, tratados no Hospital de Malange”.
Porém, o MPLA tem aproveitado estes acontecimentos para condenar o regime colonial, para justificar a sua luta de libertação e para fortalecer a unidade nacional do país. Assim, instituíu o Dia dos Mártires da Repressão Colonial, afirmando que “o heróico feito de 4 de janeiro de 1961 deve ser transformado em fonte de inspiração para todos os cidadãos, de Cabinda ao Cunene” e considerando que “o exército colonial matou milhares de camponeses”. Porém, parece que em boa verdade, o condenável massacre colonial da Baixa do Cassange, que aconteceu há 64 anos, atingiu algumas centenas e não milhares de trabalhadores.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

A paz no mundo deve começar em nós…

Na altura da passagem do ano é costume fazerem-se balanços sobre o ano que findou e formularem-se votos para o novo ano, sendo frequente expressarem-se desejos de saúde, paz, harmonia, prosperidade e outras coisas boas. Os jornais não fogem a essa regra, pois fazem balanços do ano que findou e relatam as festas do fim do ano, mostrando as imagens do fogo-de-artifício em Sydney, em Kuala Lumpur, no Dubai e em muitos outros locais do mundo.
Na sua primeira edição do novo ano de 2025, para além das imagens do fogo-de-artifício, a generalidade dos jornais internacionais noticiou o atentado terrorista de New Orleans, tentou perspectivar o que vai ser a presidência de Donald Trump nos Estados Unidos, divagou sobre o futuro das guerras na Europa Oriental e no Médio Oriente e, poucas vezes, tratou a paz com o devido destaque.
O Correio Brasiliense, o principal jornal de Brasília, foi uma singular excepção, ao publicar uma pomba da paz na sua primeira página e ao escolher para manchete a frase “A paz deve começar em nós…” e, acrescentando depois, “… Não importa qual a sua fé, o que importa é a vontade de lutar para um mundo melhor, essa é a mensagem de religiosos de vários credos ouvidos pelo Correio aos brasilienses. Devemos sempre manter a capacidade de largar o ódio, pois essa pode ser a única maneira de pacificar nosso planeta. É preciso recomeçar. Afinal, o caminho da vida é o da liberdade e da beleza… Feliz 2025!”
Esta mensagem que diz que a paz deve começar em nós e que é preciso recomeçar, apelando à paz e ao fim do ódio, bem precisava de chegar aos ouvidos de meia dúzia de dirigentes mundiais, mas também aos dirigentes menores que continuam a incitar ao ódio, mas também àqueles que, nomeadamente na Europa, se calam e que, por isso, consentem.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Há que condenar todos os terrorismos

O novo ano de 2025 começou de forma muito dolorosa para os Estados Unidos devido a uma acção de grande violência ocorrida na cidade de New Orleans, que as autoridades já classificaram como terrorista. Às primeiras horas do dia 1 de Janeiro, quando uma enorme multidão celebrava a chegada do novo ano na Bourbon Street, uma das mais importantes e mais frequentadas ruas de New Orleans, no estado da Luisiana, um motorista lançou a sua pick-up Ford Ranger a alta velocidade sobre as pessoas, daí resultando 15 mortos e 35 feridos.
O autor deste criminoso acto era um cidadão americano de 42 anos de idade, veterano do Exército, tendo sido encontrados armas e explosivos na sua viatura, além de uma bandeira do grupo terrorista Estado Islâmico, também designado por ISIS e por Daesh.
A grave ocorrência e as cenas de horror que se seguiram foram relatadas por toda a imprensa americana e por muita imprensa internacional, que condenaram de forma unânime esta brutal acção terrorista, que pode significar que aquela organização não morreu no Médio Oriente e ainda vive, inclusive nos Estados Unidos. O lamentável e desumano acto que ceifou muitas vidas inocentes, veio mostrar que o terrorismo, enquanto acção de violência extrema contra tudo e contra todos, acontece por toda a parte e obriga a alterar o modo de vida de cada comunidade. 
O terrorismo é criminoso, não faz discriminação religiosa e não é de esquerda nem de direita. Os ataques terroristas de Londres, Paris, Nice, Estocolmo, Manchester ou Barcelona, visaram atingir sempre o maior número possível de vítimas. Ontem, nas Twin Towers de Nova Iorque, nas bombas humanas dos Tigres Tamil do Sri Lanka, no atentado de Paris contra o Charlie Hebdo ou, mais recentemente, no cruel massacre que ocorre em Gaza e na Bourbon Street de New Orleans, a Humanidade deve condenar com firmeza todos os tipos de terrorismo.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Pico, ou a beleza no coração do Atlântico

A revista Volta ao Mundo é uma referência no que respeita à divulgação de destinos turísticos e na sua edição de Janeiro de 2025 destaca a ilha do Pico, referindo-se-lhe como uma “[ilha] de beleza no coração do Atlântico”. Ao escolher a ilha do Pico entre “12 destinos para amantes de séries e filmes”, entre os quais se incluem a cidade de Budapeste e as ilhas Canárias, a revista presta uma boa homenagem àquela ilha açoriana que designa como “a ilha baleeira, a ilha de pedra, a ilha cinzenta, a ilha sofredora, de cujo ‘chão roto’ um frei tirou um vinho ímpar, vai para séculos”. Para quem gosta da ilha ou nela tenha raízes familiares ou culturais, esta reportagem é uma excelente maneira de iniciar o ano de 2023. 
Porém, a leitura da reportagem deixa uma sensação de vazio ao leitor. De facto, a própria reportagem anuncia que “a Volta ao Mundo viajou a convite da Alma do Pico Nature Residence”, um empreendimento localizado na vila da Madalena e, naturalmente, tem o formato editorial que se classifica como publireportagem, isto é, um texto de publicidade que elogia um produto ou serviço, por vezes de forma exorbitante e desproporcionada, que é publicado para parecer um artigo jornalístico objectivo, independente e verdadeiro. Dessa forma, ao comprar a revista, o leitor e o potencial visitante estão a comprar gato por lebre. Evidentemente que o texto se fundamenta na verdade e na recolha de depoimentos de vários residentes mas, como escreveu o poeta popular António Aleixo (1899-1949), “pra mentira ser segura e atingir profundidade, tem que trazer à mistura qualquer coisa de verdade”.
E há tanta coisa grandiosa, interessante, atraente e verdadeira na ilha do Pico, que não é necessário recorrer a este tipo de reportagens por encomenda.

sábado, 28 de dezembro de 2024

A catastrófica “riada” de Valência de 2024

No passado dia 29 de Outubro o território da Comunidade Valenciana, sobretudo os arredores de Valência e a própria cidade, foram atingidas por um violento temporal com uma pluviosidade extrema e, em apenas oito horas, choveu o equivalente a um ano, dando origem a inundações que se revelaram catastróficas. Em 69 municípios da comunidade, a água e a lama inundaram as casas e as ruas, destruíram infraestruturas e arrastaram centenas de viaturas, provocando ainda 225 mortes e um número ainda indeterminado de desaparecidos.
Em 1957 tinha acontecido a Gran Riada de Valencia, que também foi catastrófica e provocou muitas mortes, levando o governo do general Franco a avançar com um megaprojecto denominado Proyeto Sur, que “retirou” o leito do rio Turia do centro da cidade, o que agora se revelou importante pois poupou o centro urbano dos efeitos das inundações e das enxurradas de lamas.
Toda a gente atribuíu a catástrofe ao efeito das alterações climáticas. Porém, a construção de edifícios, autoestradas e outras infraestruturas nos arredores da cidade, muitas vezes sem qualquer planeamento e sob o efeito da especulação imibiliária, contribuíram para a impermeabilização de extensas áreas urbanas, o que agravou a situação de calamidade, pois as águas pluviais não foram retidas pelos solos.
Cerca de dois meses depois o diário Las Provincias que se publica em Valência, evoca na sua edição de hoje a catástrofe de Outubro e publica uma impressionante fotografia de centenas de automóveis destruídos pelo temporal, escolhendo como título “um tsumani de sucata”.
A imagem é impressionante e aqui está como, muitas vezes, uma imagem vale mais que mil palavras.

Os obscenos lucros da banca portuguesa

A manchete da edição de ontem do Diário de Notícias destaca que a “banca portuguesa vai ter ano mais lucrativo de sempre em 2024”, o que parece ser uma boa notícia, pois todos se recordam dos tempos difíceis por que passou a banca depois da falência do banco norte-americano Lehman Brothers, acontecida em 2008.
Aquela falência deu origem a uma grande crise financeira internacional que chegou a Portugal e afectou a débil banca portuguesa, daí resultando a falência do BPN (2008), do BPP (2010), do BES (2014) e do BANIF (2015), ainda agravadas por gestão fraudulenta ou incompetente. Seguindo a orientação preconizada pelas instituições financeiras internacionais, os sucessivos governos portugueses trataram de inscrever anualmente nos Orçamentos do Estado uma previsão de despesa para salvar ou apoiar a banca. Estima-se que, até agora, os contribuintes portugueses já tenham avançado com mais de 20 mil milhões de euros. No caso da CGD que precisou de se capitalizar em 2017, a ajuda do Estado ascendeu a 2.500 milhões de euros que, segundo foi divulgado, já foram totalmente pagos.
Significa, portanto, que a banca portuguesa está a cumprir o seu papel na relação entre a Economia e a Sociedade ou a servir a população, ao assegurar a gestão dos depósitos bancários e das poupanças, articulando-os com o crédito bancário e o financiamento dos investimentos.
Porém, quando se anunciam 6,6 mil milhões de lucros no terceiro trimestre de 2024, com destaque para os 1,4 mil milhões de euros apresentados pela CGD, o maior banco português e que é público, ficamos perplexos, pois é uma quase obscenidade num país onde ainda há tanta pobreza. Embora uma boa parte deste lucro regresse ao accionista Estado sob a forma de dividendos, a CGD comporta-se como um vulgar banco comercial, pois retira-se das pequenas localidades porque “não são rentáveis” e castiga os seus clientes, não lhes pagando juros justos pelos seus depósitos, enquanto lhes cobra exorbitantes valores por manutenção de contas. Um abuso! Ocorre-me o “Poemarma”, o poema de 1967 que Manuel Alegre incluíu n’O Canto e as Armas e que diz:
- Que [o poema] chegue ao banco e grite: abaixo a pança!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Aproxima-se o ponto de viragem ou o fim?

A edição de hoje do jormal francês La Dépêche du Midi mostra as fotografias de Zelensky, Trump e Putin e, como manchete, pergunta se o ano de 2025 será o ponto de viragem, isto é, se é o ano do fim da guerra na Ucrânia. Era bom que a resposta fosse positiva, que terminasse a guerra, que fosse aliviado o sofrimento dos ucranianos e que os europeus e o mundo respirassem de alívio.
A guerra na Ucrânia já dura há quase três anos e é uma vergonha civilizacional para a Europa, que deveria ter presentes as catástrofes de 1914-1918 e de 1939-1945. Porém, em vez de procurar os caminhos da paz, as partes só falam de guerra e de mais guerra, de armas e de mais armas, usando uma preocupante retórica belicista, com a qual a indústria do armamento lucra escandalosamente.
No seu actual formato, a guerra foi iniciada no dia 24 de Fevereiro de 2022 com a invasão russa da Ucrânia. Nesse dia, o regime de Putin deu início a uma “operação militar especial”, embora já se verificasse uma tensão separatista e de guerra desde há alguns anos nas regiões orientais ucranianas, devido à luta das autoproclamadas independências de Donetsk e Lugansk. O regime de Kiev reagiu à invasão russa com o apoio militar de vários países ocidentais e da própria NATO e, na realidade, a possível integração da Ucrânia na NATO tornou-se o factor determinante da guerra e da paz, pois passou a ser considerada uma ameaça para Moscovo.
Agora com a eleição de Donald Trump para a Casa Branca e com a sua repetida promessa de “acabar com a guerra em 24 horas”, as expectativas subiram e fica claro que o que está em jogo não são apenas o fim da guerra e a satisfação das aspirações autonomistas de algumas regiões orientais da Ucrânia. Fica evidenciado que, com esta guerra, estão confrontadas as rivalidades entre as superpotências americana e russa, com a China a espreitar e com a velha e preguiçosa Europa de cócoras, sem ter opinião própria. Talvez o Donald consiga acabar com esta situação catastrófica que está a destruir a Ucrânia, a abalar as economias europeias e a ameaçar a paz no mundo.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Em apoio da Palestina e do seu povo

Não é costume que o JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias trate de matérias como a Palestina, como acontece na sua última edição, a propósito do apoio que as Artes têm dado à luta do povo palestiniano pela sua dignidade e pelo seu direito a viver na sua terra. Comentando esse facto, José Carlos de Vasconcelos justifica-o porque estamos perante “uma injustiça, um conflito, um drama, uma tragédia de tão longa duração, proporções tão terríveis e devastadoras”.
Acontece que diariamente nos chegam notícias de mais atrocidades e de mais mortes em Gaza, com milhares de pessoas com as suas casas destruídas e as suas vidas destroçadas. Já são mais de 40 mil mortos, mas esse número aumenta todos os dias. As forças israelitas continuam a matar e a destruir, não poupando hospitais nem escolas, nem a acção das organizações humanitárias e das agências das Nações Unidas, ao mesmo tempo que impedem que os abastecimentos humanitários, incluindo água e comida, cheguem a quem deles necessita. 
É uma crueldade extrema que nada justifica. Muitas vozes classificam estas acções israelitas como crimes de genocídio e o Tribunal Penal Internacional já emitiu mandado de captura contra o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, enquanto principal responsável por supostos crimes de guerra cometidos nesta guerra, que nasceu do ataque terrorista do Hamas de 7 de Outubro de 2022.
Não há humanidade, nem decência, nem respeito pelos direitos humanos na acção dos extremistas israelitas, nem na indiferença e cumplicidade com que os Estados Unidos e a União Europeia parecem apoiar Israel, mesmo que Antony Blinken ou Ursula van der Leyen aparentem fazer esforços para travar as atrocidades israelitas.
Neste contexto, o JL sugere que Portugal não espere pela decisão da União Europeia e que “devia reconhecer formalmente o Estado da Palestina, como já fizeram muito mais de cem países, entre eles todos os países lusófonos e, em Maio passado, a Espanha”. Não se percebe a raxão porque, nem António Costa nem Luís Montenegro, deram esse passo...

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Vendée Globe 2024 já se aproxima do fim

Vendée Globe 2024 que é uma corrida à volta do mundo para navegadores solitários, partiu de Les Sables-d’Olonne na costa atlântica francesa no passado dia 10 de Novembro e tem decorrido sem quaisquer percalços significativos. 
Dos quarenta velejadores que partiram apenas houve quatro desistências, pelo que ainda estão em prova 36 concorrentes, que se distribuem por um longo “pelotão” em que os da frente já passaram o cabo Horn e os mais atrasados ainda não passaram o cabo Leeuwin, o que significa que os primeiros e os últimos já estão separados por mais de sete mil milhas!
À frente da corrida e navegando separados por cerca de 40 milhas, ou navegando quase à vista, encontram-se os franceses Yoan Richomme e Charlie Dalin, que já percorreram mais de 17.600 das cerca de 24.000 milhas do percurso, isto é, cerca de 73% da prova. Navegam actualmente a nordeste das ilhas Falkland e tudo indica que vai ser batido o record da prova que é de 74 dias, 3 horas e 36 minutos.
O jornal L’Équipe dedicou a sua última edição à Vendée Globe 2024 e numa sugestiva ilustração apresenta em primeira página os monocascos Arkéa de Yoan Richomme e Macif de Charlie Dalin a passar o cabo Horn, na extremidade da América do Sul, tendo escolhido como título dessa edição a frase “Réveillon au Horn”.  
Porém, na noite do réveillon que se aproxima, haverá certamente vários monocascos a passar o cabo Horn, mas o Arkéa e o Macif já estarão bem no interior do Atlântico a navegar com rumo a Les Sables-d’Olonne.

O Natal de 2024 como tempo de reflexão

Nesta quadra festiva que muitas vezes é demasiado consumista, costumamos saudar os amigos e desejar-lhes felicidades e prosperidades, com saúde e paz. Não fujo a essa tradição e, por isso, saúdo os leitores deste blogue, aproveitando a mensagem da edição de ontem do jornal Le Télégramme que se publica em Brest.
Através do Google Analytics sei que os leitores da Rua dos Navegantes não são muitos mas que são muito bons, pois são regulares nas visitas que fazem ao blogue. Esses leitores-amigos, ou amigos-leitores, estão sobretudo em Portugal, em particular na área de Lisboa, embora também haja alguns deles que residem no estrangeiro. Para todos eu desejo um Joyeux Noël ou umas Boas Festas, como tempo de união e de fraternidade, mas também de reflexão sobre o que se passa à nossa volta, por aqui e pelo mundo, em que as mudanças tecnológicas e culturais, bem como as transformações naturais, ocorrem a velocidades impensáveis, gerando preocupações e incertezas. 
A proliferação de guerras e as consequentes catástrofes humanas que provocam, tal como a fome e a pobreza, são imagens da forma desgovernada e muitas vezes irresponsável como o mundo caminha e são, também, um preocupante sinal dos tempos.
A nível global estamos a perder a confiança nos políticos que “governam” o mundo e que se mostram impotentes face à era da desinformação que atravessamos, em que toda a informação é manipulada para servir objectivos mais ou menos desonestos.
É sobre este quadro cinzento que devemos reflectir e, na nossa esfera de acção fazer alguma coisa, para recuperarmos a confiança, a paz e a tranquilidade que podem tornar mais felizes cada ser humano e toda a humanidade.

domingo, 22 de dezembro de 2024

R.I.P. Carlos de Almada Contreiras

Vitimado por doença súbita faleceu na passada 4ª feira o Comandante Carlos de Almada Contreiras, uma das figuras mais importantes do Movimento das Forças Armadas (MFA), tendo sido um dos principais elementos que levou à participação da Marinha nas operações da queda do regime que visaram restaurar a Liberdade e a Democracia em Portugal. Tanto no período da conspiração e da redacção do Programa do MFA, como também na preparação da acção militar de 25 de Abril de 1974, o Comandante Contreiras mostrou grande coragem, muita determinação e capacidade de liderança. Foi ele que, em circunstâncias decisivas, escolheu a canção “Grandôla Vila Morena” para ser transmitida no “Programa Limite” da Radio Renascença para servir de senha para o início das operações militares do "dia inicial, inteiro e limpo".
O Comandante Carlos Contreiras tinha 83 anos de idade e integrou a primeira Comissão Coordenadora do Programa do MFA, foi Conselheiro de Estado, Conselheiro da Revolução e, em 1986, foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Era um dos símbolos do 25 de Abril e destacava-se pela sua sobriedade, dinamismo e inteligência.
Ontem, o cortejo fúnebre que saíu de Beja para Lisboa, fez uma pausa em Grândola, onde a Câmara Municipal lhe promoveu uma homenagem, após a qual seguiu em direcção a Lisboa para a Capela de São Roque, nas instalações da Marinha. 
Hoje, o Comandante Contreiras voltou a ser homenageado na Capela de São Roque com a participação da Associação 25 de Abril e, depois, na Praça do Município com a participação da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense. Presentes também  muitos amigos, que não esqueceram o Homem nem o seu importante contributo para o movimento do 25 de Abril, para o prestígio das Forças Armadas e para a democratização do país. Todos perdemos um grande Homem!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Macau é uma pérola na palma da mão

Tanto a imprensa da República Popular da China (RPC) como a imprensa da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) destacaram nas suas últimas edições a visita que o presidente Xi Jinping está a fazer ao território de Macau, a propósito da celebração do 25º aniversário da sua transferência da soberania portuguesa de Macau para a soberania da RPC, que aconteceu no dia 20 de Dezembro de 1999.
Os portugueses estabeleceram-se na pequena península de Macau em meados do século XVI e, apesar de diversas contingências sucedidas ao longo de cerca de 450 anos, o território e a sua população conservaram sempre relações amistosas com a China. Depois de negociações entre Portugal e a RPC acontecidas após a democratização portuguesa, a “Declaração Conjunta Sino-Portuguesa sobre a Questão de Macau”, assinada no dia 13 de Abril de 1987, veio definir Macau como um “território chinês sob administração portuguesa” e agendar a transferência da soberania para o já referido dia 20 de Dezembro de 1999. Esse documento incluía uma série de compromissos e garantias que permitiam um considerável grau de autonomia a Macau, bem como a conservação das suas especificidades, incluindo a manutenção da língua portuguesa e o modo de vida macaense. Após 25 anos de soberania chinesa, vários indicadores mostram que perdura e é respeitada a memória portuguesa em Macau e que há um grande esforço para preservar a língua portuguesa.
O jornal Global Times, um jornal diário alinhado com o Partido Comunista Chinês, destacou a visita de Xi Jinping a Macau e escolheu para manchete a sua expressiva declaração: 
“Macau é uma pérola na palma da mão da Pátria”.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Prémio Sakharov e a oposição venezuelana

A edição de hoje dos principais diários portugueses, casos do Jornal de Notícias, do Público e do Correio da Manhã, incluiu um anúncio publicitário de uma página, pago pelo Parlamento Europeu, em homenagem aos laureados com o Prémio Sakharov 2024, respectivamente María Corina Machado, líder das forças democráticas da Venezuela, e Edmundo González Urrutia, presidente eleito do país.
María Corina Machado que foi escolhida como representante da Plataforma Unitária Democrática para disputar as eleições presidenciais de 2023 contra o chavista Nicolas Maduro, foi impedida pelas autoridades venezuelanas de se apresentar à eleição, vindo a ser substituída pelo diplomata Edmundo González Urrutia. 
As eleições realizaram-se no dia 28 de Julho e Nicolas Maduro auto-proclamou-se vencedor, ignorando as acusações de grossa fraude eleitoral, mas o provável vencedor González Urrutia foi internacionalmente reconhecido como vencedor.
O povo festejou nas ruas a sua vitória, mas Nicolas Maduro não reconheceu a sua derrota e nunca aceitou a divulgação das actas eleitorais, tratando de perseguir os oposicionistas, que enfrentaram a repressão chavista do regime de Nicolas Maduro. González Urrutia acabou por se exilar em Espanha, mas María Corina Machado permaneceu na Venezuela por vontade própria. Agora, o Parlamento Europeu veio reconhecer a justeza e a coragem da sua luta pela democracia na Venezuela.
O Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento foi instituído em 1988 pelo Parlamento Europeu, quando o físico nuclear e dissidente russo Andrei Sakharov estava exilado em Gorky, sendo atribuído anualmente a personalidades ou entidades que se esforçam por defender os direitos humanos e as liberdades fundamentais. 
O prémio foi hoje entregue pela presidente do Parlamento Europeu numa cerimónia realizada em Estrasburgo, na qual González Urrutia esteve presente e María Corina Machado foi representada pela filha.
Tal como o Parlamento Europeu, também aqui prestamos homenagem àqueles que na Venezuela lutam pela democracia.

domingo, 15 de dezembro de 2024

Síria: indefinição, apreensão e incerteza

Decorreu apenas uma semana desde a fuga do ditador Bashar al-Assad e a entrada em Damasco dos rebeldes do Hayat Tahir-al Shams (HTS) e do seu líder Abu Mohammad al-Jowlani.
Segundo as imagens que nos chegam, a cidade de Damasco está em festa com a sua libertação do regime dos Assad e uma onda de esperança e de optimismo alastra pelo país. A diáspora síria também festeja e muitos querem regressar, embora também haja algumas minorias que desconfiam dos novos poderes e querem abandonar o país.
A situação é de euforia como mostra a capa da mais recente edição da revista Der Spiegel, mas o mais elementar bom senso mostra que o mundo deve estar apreensivo. A Síria viu-se livre de Bashar al-Assad, mas ninguém se atreve a adivinhar o futuro, que tanto pode ser de estabilidade, como de mais uma dura guerra. A Síria é uma manta de retalhos de etnias, de religiões e de grupos armados rivais. O Estado sírio implodiu, grande parte do país está destruido e as ambições dos vizinhos são ilimitadas. A Turquia viu-se livre dos Assad e vê agora uma boa oportunidade para resolver a seu favor a questão curda. Israel não disfarça a sua política agressiva para com o vizinho sírio para o atemorizar e, provavelmente, para ocupar uma parte do seu território. Os Estados Unidos já trataram de mandar para a região o seu enviado especial Antony Blinken. A Rússia e o Irão, aparentemente derrotados, continuam silenciosos e sem justificar porque deixaram cair Bashar al-Assad. Este é o sombrio panorama sírio, que a alegria da libertação parece esconder.
Entretanto, o líder Abu Mohammad al-Jowlani começou a usar a sua verdadeira identidade – Ahmed al-Sharaa – certamente para mudar a sua imagem radical e torná-la mais moderada. Este sírio de 42 anos de idade, que nasceu na Arábia Saudita mas que viveu na cidade de Damasco desde os 7 anos de idade, aderiu ao jihadismo da al-Qaeda no Iraque, passou pelo Daesh e a partir de 2017 cortou com a al-Qaeda e criou o Hayat Tahir-al Shams (HTS), uma organização que as Nações Unidas, os Estados Unidos, o Reino Unido e muitos outros países consideram terrorista.
É caso para usar uma famosa e popular frase: prognósticos só no fim do jogo…

sábado, 14 de dezembro de 2024

A nova alternativa: canhões ou manteiga

Um político holandês de 57 anos de idade e de nome Mark Rutte é, desde o dia 1 de Outubro de 2024, o 14º Secretário-Geral da NATO, sucedendo ao norueguês Jens Stoltenberg que ocupou aquele cargo durante dez anos. Parece não haver mudanças significativas na orientação ideológica da NATO e se Stoltenberg vivia obcecado com a possibilidade de uma invasão russa e dizia “mata”, temos agora Rutte a dizer “esfola”, ao afirmar que “o perigo está a avançar na nossa direção a toda velocidade” e, ao mesmo tempo, a expressar a convicção de que “não estamos preparados para o que está para vir em quatro ou cinco anos”.
O holandês nem esperou pela posse de Donald Trump e já avisou que os cidadãos dos 32 países-membros da NATO devem “aceitar fazer sacrifícios”, como cortes nas suas pensões, na saúde e nos sistemas de segurança social, para aumentar as despesas com a defesa e garantir a segurança a longo prazo na Europa, isto é, aumentar o valor de referência das suas despesas de defesa dos actuais 2% para 3% do PIB, como referia o Finantial Times na sua edição de ontem.
Mark Rutte náo teve tempo de consultar ninguém. Falou por si, pelo seu partido, pelos seus princípios e até se pode pensar que também falou por Portugal. Mas não é assim. Portugal é um membro fundador da NATO, mas é um estado soberano com órgãos democráticos que decidem a forma como devem ser repartidas as suas despesas entre “canhões ou manteiga”. As suas despesas na área da defesa são actualmente da ordem dos 4.186 milhões de euros, mas o primeiro-ministro – com base não se sabe em quê – já veio dizer que podem atingir os 6 mil milhões de euros em 2029. Com que base e com que direito?
A escolha entre “canhões ou manteiga” obedece a regras constitucionais e nenhum poder político tem legitimidade para fazer essas escolhas à margem da vontade dos portugueses, ou não é um qualquer Rutte que nos diz como devemos aplicar os nossos escassos recursos.