terça-feira, 12 de junho de 2012

Tempos muito difíceis e muito incertos

Nunca como agora, com a Espanha a integrar o grupo de países que pediram ajuda financeira externa, se apresenta tão incerto o futuro do euro e da União Europeia. O que aconteceu vem confirmar a irresponsabilidade e a desonestidade da banca espanhola, mas também veio clarificar a enorme interdependência financeira e bancária que se verifica à escala global. A bolha imobiliária espanhola era visível desde há muito tempo, nos subúrbios das grandes cidades e nos aldeamentos turísticos da costa mediterrânica, mas os banqueiros e os governantes espanhóis andaram deslumbrados e distraídos, um pouco como aconteceu por cá com o BPN, o BPP e alguns outros. E hoje pode perguntar-se qual é a diferença entre a Grécia que mentiu nas suas contas públicas e a Espanha cujos bancos mentiram nos seus balanços? Assim, esta crise espanhola veio confirmar que a União Europeia é cada vez mais um amontoado de países endividados, sobretudo na sua margem sul, com as ajudas concedidas aos quatro países já resgatados - Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha – a atingirem perto de 500 mil milhões de euros, como destaca o Financial Times. Entretanto, o ataque especulativo dos “mercados” prossegue, sem esperar pelo resultado das eleições gregas e da decisão quanto à sua permanência no euro, lançando nuvens muito negras sobre o futuro da comunidade nascida do Tratado de Roma. E, como se isso não bastasse, agitam-se já os fantasmas do colapso próximo da economia italiana. A União Europeia parece, assim, ter entrado numa espiral de definhamento da qual dificilmente sairá com os protagonistas que tem, nomeadamente em Berlim ou Bruxelas. São tempos muito difíceis e tempos muito incertos. Aparentemente, porque os eurocratas não são capazes de fazer melhor, só há duas alternativas: a refundação da União Europeia ou o seu desmantelamento.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Chegou a vez da Espanha

Chegou a vez da Espanha reconhecer a sua insustentável situação financeira, ao anunciar que pediu a ajuda europeia para refinanciar o seu sistema bancário e a confirmar que a crise que atravessamos é global. Embora tenha sido insistentemente declarado que não se trata de um resgate, serão canalizados cem mil milhões de euros só para a banca, ficando de fora o apoio à economia, às cajas de ahorro e o combate ao desemprego e aos défices central e das regiões autónomas. Comparando com as outras intervenções em curso, o montante anunciado do crédito ou do resgate, parece ser insuficiente. A Espanha é o quarto país da zona euro a solicitar a ajuda financeira externa, após a Grécia (Maio de 2010), a Irlanda (Novembro de 2010) e Portugal (Abril de 2012). Todos recusaram até ao limite pedir esse apoio pelo seu significado humilhante. No caso da orgulhosa Espanha, tem sido dito que é uma situação diferente da Grécia e de Portugal, estando a doença circunscrita ao seu sistema financeiro, mas isso não corresponde à verdade, porque a economia espanhola está tão debilitada quanto a portuguesa e padece dos mesmos sintomas de recessão e desemprego. Esta situação confirma que a crise do euro deixou de ser uma doença dos pequenos países periféricos e que chegou definitivamente às grandes economias. Ninguém está a salvo ou, como ontem referia The Economist, estamos todos no mesmo barco, sentindo-se que a Itália pode ser o próximo alvo dos credores. O famoso economista Nouriel Roubini escreveu que "desta vez a Europa está mesmo à beira do precipício", enquanto o Nobel da Economia Joseph Stiglitz, considerou que o resgate financeiro a Espanha “não funcionará e pode criar uma ‘economia vudu’ com o Estado a resgatar os bancos e estes a resgatar o Estado”. A crise é cada vez mais global, como se sabe, mas aqui está muito associada ao que se passa com nuestros hermanos. Haja confiança. Porém, humildemente, eu pergunto se aquilo que há um ano os catrogas, os nogeiras e os moedas nos disseram sobre a nossa situação - que era apenas um caso de gorduras do Estado e de excesso de institutos - foi um caso de má fé, um sinal de grande incompetência ou, apenas, uma sofisticada forma de assalto ao poder.

sábado, 9 de junho de 2012

Start the engines, Angela!

Na sua edição de hoje, The Economist analisa a economia global, afirmando que ela está em grave perigo e que uma boa parte da solução depende de uma mulher. E a mais conceituada revista económica mundial recomenda: Start the engines, Angela! A União Europeia é a maior zona económica do mundo e engloba algumas das mais prósperas economias mundiais, como a Alemanha, a França, o Reino Unido, a Itália e a Espanha. Tudo o que se passa neste espaço não respeita apenas aos seus 500 milhões de consumidores, mas tem repercussões globais. Porém, acontece que, desde há alguns anos, a União Europeia vive um problema económico-financeiro (e institucional) que nasceu quando da criação da moeda única e que se acentuou em 2008, depois do caos desencadeado pela falência do Lehman Brothers. Aconteceram então enormes erros, sobretudo na Grécia, Irlanda, Portugal, Chipre, Bélgica, Itália e Espanha, que foram aconselhados a endividarem-se para vencer a crise e que cairam na malha da especulação financeira e da ganância bancária. O endividamento foi excessivo, o crescimento económico tornou-se vacilante, o desemprego atingiu níveis insustentáveis e o risco de catástrofe financeira tem progredido numa incontrolável espiral. As políticas de austeridade impostas para combater o endividamento e o défice público têm aprofundado os problemas, sobretudo na Grécia e na Espanha. Porém, o problema já tem uma dimensão global porque hoje há dificuldades por toda a parte, incluindo nos países emergentes que “parece terem batido na parede”. O Brasil já está a crescer menos do que o Japão. A Índia está a passar por muita confusão. A economia chinesa está em desaceleração. A economia global, como sugere The Economist, é um enorme navio que corre o risco de se afundar sem que ninguém se salve. Estamos todos no mesmo barco e, de facto, isto não vai nada bem. Assim, pelas interligações e interdependências existentes, o destino da economia mundial parece depender cada vez mais da obstinada Angela Merkel e das suas orientações. Mrs Merkel, it’s up to you.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

EURO 2012: lamento, mas não acredito!

Dentro de dias a selecção portuguesa de futebol defronta a equipa alemã, iniciando a sua participação no EURO 2012. As televisões, as rádios e os jornais não falam noutra coisa. A excitação mediática é total e o povo tem sido insistentemente contagiado pelos excitómetros televisivos e radiofónicos. Já se vêem janelas e varandas com algumas bandeiras nacionais numa encenação pseudo-patriótica. A hora H aproxima-se. Sucedem-se as notícias, as reportagens, as conferências de imprensa, os treinos em directo, as entrevistas, as sessões de autógrafos, os forum radiofónicos, os espaços publicitários e as mensagens dos patrocinadores. É um delírio absoluto. Até que, contrariando a euforia quase geral e numa entrevista à TSF, o experiente treinador Manuel José veio dizer que era necessária mais concentração e menos circo. Que a selecção parece um big brother e que passa a vida em festas. Outros concordaram. E eu também. De facto há um ambiente de festa exagerado, que tem transformado os jovens jogadores em vedetas antecipadas. Que se deslumbram. Que se desconcentram. Que passaram uma boa parte do estágio em sessões fotográficas com fins publicitários, como é exemplo o anúncio da Galp que "obrigou" os jogadores a transformarem-se em actores. A televisão mostra-nos tudo isso, o entusiasmo delirante e os carros dos jogadores que são uma afronta aos desempregados e a quem passa fome, enquanto a FPF não modera esta feira de vaidades. Manuel José está pessimista. Eu também. Gostava de me enganar, porque dessa forma talvez eu me esquecesse do triste espectáculo que tem sido a euforia do apoio à selecção, que muitas vezes se confunde com a bagunça das promoções do Pingo Doce ou do Continente. Se assim fosse, aqui me retrataria pelo meu pessimismo e me regozijaria com as vitórias da selecção. Porém, lamento mas eu não acredito!

Sinais exteriores de riqueza

É sabido que há bastantes cidadãos em Portugal que fogem ao fisco de uma maneira escandalosa e que têm gozado de grande impunidade em relação ao cumprimento dos seus deveres fiscais. O Estado e as autoridades fiscais poucas vezes intervêem nestes casos, pois parecem mais preocupados com a pequena fraude e com a imprecisão das declarações fiscais dos pequenos contribuintes, do que com a verdadeira fraude fiscal. Muitos dos que escapam às malhas do fisco enriqueceram ilicitamente e exibem os chamados sinais exteriores de riqueza – os automóveis, as aeronaves, os iates e, naturalmente, a vida social. Os seus truques são diversos e em diferentes escalas. Uns são barões que gerem e beneficiam dos chamados negócios sujos, que são comuns em todas as sociedades. Outros são os beneficiários da corrupção nas suas diversas formas, que lhes permitem a acumulação de rendimentos de duvidosa origem. Outros, ainda, são os profissionais liberais e muitos empresários que vivem da economia paralela. Essa gente frequenta locais caros e utiliza carros topo de gama, não só das marcas premium como a BMW, Audi e Mercedes, mas também os famosos Ferraris, Maseratis e Lamborghinis, sendo de salientar que, em 2011, cerca de 59% dos consumidores portugueses pagou a pronto os veículos automóveis de luxo e de gama média-alta que importou, segundo revelou um estudo de uma consultora do mercado automóvel. Esclarecedor... A decisão da autoridade fiscal passar a intervir nas operações Stop para fiscalizar os veículos de valor superior a 50 mil euros, os rendimentos dos seus proprietários e a sua situação contributiva, vai atenuar o forrobodó que por aí anda há muito tempo. Os chamados espertalhões que exibiam sinais exteriores de riqueza sem que ninguém soubesse a sua origem, passarão a ser mais controlados e terão menos sossego. Já não era sem tempo e, neste aspecto, as nossas autoridades fiscais tomaram uma excelente medida que, esperamos, seja eficaz.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Um desfile náutico memorável no Tamisa

Há muitos, muitos anos, aprendia-se nas nossas escolas primárias que a aliança luso-britânica assinada em 1373 e confirmada pelo Tratado de Windsor de 1386, era a mais antiga aliança diplomática do mundo ainda em vigor. Com o correr dos anos e com a aprendizagem da História que fomos tendo ao longo do tempo, começamos a ver que essa aliança foi sempre mais vantajosa para os ingleses do que para nós e que eles, muitas vezes, não só não foram nossos aliados, como foram nossos intransigentes adversários, que nos atraiçoaram, nos combateram e nos humilharam. Assim aconteceu quando perdemos as praças da costa do Malabar para os holandeses, quando perdemos Baçaim e a Província do Norte do Estado da Índia para os maratas, quando nos ocuparam a Madeira e Goa com o pretexto das invasões napoleónicas ou quando nos humilharam com o Ultimato de 1891. Por todas estas razões e como republicano, não tenho especial atracção pelos ingleses e pela sua monarquia, embora goste de muitas coisas que eles têm para nos oferecer. Destaco, por exemplo, a sua língua universal, os museus de Londres, os grandes concertos e a Premier League. Além disso, admiro a solenidade com que a sociedade inglesa celebra os grandes momentos da Casa Real, de que é exemplo o conjunto de iniciativas que nestes dias assinalaram as Bodas de Diamante da Rainha e que a televisão nos mostrou. Destaco, em especial, o desfile náutico do Tamisa com mais de mil embarcações que escoltaram a Rainha e os milhões de pessoas que a ele assistiram, a lembrar ao mundo o simbolismo do poder naval inglês e a forma como a Família Real e os ingleses o evocam. Destaco, igualmente, a forma como os jornais de todo o mundo relataram esse memorável desfile náutico. Aqui, lamentavelmente, a nossa herança marítima é menos evocada do que devia e, nem o Tejo nem o Douro, têm servido para estas coisas.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Os jacarandás já florescem em Lisboa

Os jacarandás já florescem em Lisboa e, em poucos dias, a sua exuberância cromática transforma o espaço público, parecendo anunciar o Verão ou um tempo de maior confiança e optimismo para os lisboetas. Como sempre, a partir de fins de Maio e até meados de Junho, a cidade parece animar-se com a luminosidade e a intensidade que veste muitas das suas praças e ruas com o azul-lilás ou o rosa-lilás das flores dos jacarandás e com os mantos de pétalas que se estendem pelo chão, nos passeios e sobre os carros. Há jacarandás por toda a cidade e li que serão cerca de dois mil e duzentos, correspondendo a cerca de 6% da superfície arbórea da cidade, sobretudo nas avenidas 5 de Outubro e Dom Carlos I, nos Largos do Rato e do Carmo, no Parque Eduardo VII, no Príncipe Real, na Tapada das Necessidades, na Ajuda, no Restelo e em tantos outros locais. É bom saber que há coisas que são belas e que não mudam, que fazem parte das nossas memórias alfacinhas e da identidade da nossa cidade, que estão para além da ganância e da mediocridade de tantos personagens do nosso tempo, mas também da crise do euro, da nossa dívida, do desemprego, da justiça que não funciona, dos escândalos financeiros, das promiscuidades nas secretas, da tristeza das programações televisivas, dos exageros com o futebol e do triste espectáculo que continuamente nos oferecem os relvas, os borges, os gonçalves, as esteves, os catrogas e os moedas. Esqueçamos tudo isso por instantes, naveguemos pelas ruas onde florescem os jacarandás, paremos alguns momentos para os observar e verifiquemos como é um privilégio poder contemplar tão belo espectáculo em Lisboa. E lembremos José Craveirinha, o poeta moçambicano dos “Jacarandás de Saudade”: Tempo / de seus passos vindo / pelo tapete de roxas flores / dos jacarandás enfileirados na rua.

domingo, 3 de junho de 2012

Um país cheio de Borges

Portugal está cada vez mais ocupado por gente estranha e ambiciosa, que mistura política com negócios, que usa a coisa pública em proveito pessoal e que não olha a meios para atingir os seus fins. Muitos têm um ar estrangeirado, falam línguas e estudaram lá por fora. Não fizeram empresas, nem criaram riqueza. Penduraram-se no Estado, que apenas deveria abrigar gente vocacionada para servir o interesse nacional e o bem comum. Nunca como agora houve esta evidência. Enquanto a generalidade dos portugueses empobrece e sofre, ou emigra, andam por aí alguns abutres que, à sombra do Estado e à custa de todos nós, se vão enchendo descarada e abusivamente. Aqueles que nos governam devem merecer a nossa confiança e não podem trair o voto popular, mas todos os dias nos desapontam com as suas medidas insensíveis tomadas através dessa estranha gente. Agora decidiram dar poderes de consultor a um tal Borges, atribuindo-lhe uma milionária retribuição sem descontos, com o argumento de que é funcionário do FMI. Não é verdade. O homem foi mas já não é e, inclusive, até consta que foi despedido por incompetência. É ele que, com arrogância desmedida, defende a descida dos salários dos outros, que “manda” no governo, que vende o nosso património em nome de privatizações. Como é administrador de várias empresas privadas, ficam no ar muitas suspeitas sobre a forma como serve tantos interesses não convergentes. É um equilibrista. É assim. Vale tudo! Infelizmente o país está cheio de Borges, em vez de servidores do Estado e do interesse público. Os Borges que prescindem do salário para receber as reformas. Os Borges que estando no governo continuam a gerir os seus escritórios e seguramente a aumentar a sua clientela. Os Borges que vieram de Vancouver. Os Borges que sairam dos escritórios de advogados para a agricultura, o ambiente e o mar. É caso para dizer, parafraseando o manifesto anti-Dantas de José de Almada Negreiros: se o Borges é português eu quero ser espanhol!

sábado, 2 de junho de 2012

A temporada Gulbenkian de música 12/13

O programa da próxima temporada Gulbenkian de música já foi divulgado e pode ser consultado, mês a mês ou por tema, quer no sítio da Fundação Gulbenkian, quer na brochura em papel que a Fundação disponibiliza. A programação, tal como tem acontecido nos anos anteriores, dividir-se-à em ciclos de Piano, Música Antiga, Grandes Orquestras, Teatro/música, Músicas do Mundo e as transmissões da Metropolitan Opera House, de Nova Iorque. Alguns dos cerca de 130 eventos anunciados, que se dividem por 9 ciclos, despertam mais expectativas, como por exemplo as iniciativas enquadradas na celebração dos 50 anos da Orquestra Gulbenkian, a apresentação da famosa Filarmónica de Berlim, as doze transmissões de ópera do Metropolitan de Nova Yorque, as dez propostas incluídas no ciclo Músicas do Mundo e o Festival Jazz em Agosto. Está em curso o período de renovação das assinaturas, a que se seguirá o período de aceitação de novos assinantes. Para o público, a venda de bilhetes inicia-se a 2 de Julho. Se o leitor quiser ser um dos cerca de cem mil espectadores da temporada Gulbenkian de música de 2012/2013, estude o respectivo programa, escolha o que quer ver e, na data apropriada, reserve os seus bilhetes antes que esgotem.

Encontro de Culturas em Serpa

Inicia-se hoje em Serpa a nona edição do Encontro de Culturas em Serpa, uma iniciativa municipal que se realiza anualmente no mês de Junho e que este ano decorrerá até ao dia 17 de Junho, com o objectivo de promover a vida cultural, enquanto factor de desenvolvimento e de coesão social. O programa deste ano inclui diversas iniciativas culturais lusófonas ou ibero-americanas, designadamente um mercado cultural e duas exposições, mas são as duas dezenas de espectáculos de música que despertam mais atenção. No que respeita à música destaca-se a apresentação de grupos ou artistas vindos de Portugal, Brasil, Argentina, Chile, Cabo Verde, Espanha, Rússia e Estados Unidos da América. Estarão em destaque o cante alentejano (10 de Junho), assim como uma homenagem a Cesárea Évora que irá juntar quatro artistas cabo-verdianos (8 de Junho) e os concertos do brasileiro Zeca Baleiro (9 de Junho), do fadista Camané (15 de Junho), da espanhola Luz Casal (16 de Junho) e do cantor espanhol Pablo Alborán, que terá a participação especial da fadista Carminho (17 de Junho). É uma boa oportunidade para visitar Serpa, mas também é uma boa oportunidade para felicitar o Município de Serpa por esta iniciativa de grande qualidade, bem distinta da generalidade das iniciativas municipais que, no Verão e em articulação com a brejeirice de tipo baião da RTP, promovem o pimbismo musical lusitano e nos exibem a mais confrangedora das mediocridades.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A imoralidade de certas reformas

No passado mês de Abril o Correio da Manhã revelou que J. J. Gonçalves, o antigo presidente do BCP, tem desde finais de 2007 uma reforma mensal superior a 167 mil euros, além de outras regalias adicionais de que se destacam a possibilidade de viajar em aviões alugados, utilizar automóveis com motorista e de contar com cerca de 40 seguranças privados, tudo suportado pelo banco, em nome do seu “direito à segurança e à protecção na saúde”. É uma imoralidade e um verdadeiro escândalo, quando os portugueses passam por enormes dificuldades e quando os direitos adquiridos pelos trabalhadores e pelos pensionistas estão a ser diariamente violados. Mais uma vez, o pequeno contabilista Gaspar se mostra duro para com os fracos e se cala em relação aos abusos e aos escândalos que por aí campeiam, como sucede com a reforma e as mordomias deste Gonçalves que, talvez, merecesse uma auditoria à sua gestão no banco, como de resto exigiu o accionista Berardo. O BCP tem procurado corrigir esta imoralidade, mas o Tribunal de Sintra acaba de se considerar incompetente para julgar a pretensão do BCP. É realmente inacreditável a protecção de que esta gente goza até na Justiça e é uma vergonha para a nossa sociedade. Embora noutra escala, também é igualmente imoral e escandaloso o que se passa com o ex-presidente Paulo Teixeira Pinto que, aos 46 anos de idade e depois de ano e meio no cargo de presidente do BCP, recebeu uma indemnização de dez milhões de euros e uma reforma vitalícia de 500 mil euros anuais. Hoje, ao saber destas coisas, o arcebispo de Braga confessou que quase se engasgou quando esta manhã tomava o pequeno-almoço e leu que o antigo presidente do BCP, recebe uma reforma de cerca de 175 mil euros. Porém, eu ando engasgado há muitos meses e não percebo porque razão o Estado não actua. Em tempos, o Gonçalves disse que esta reforma não custava "um cêntimo ao banco". Então não há dúvidas: ele está a encher os bolsos à custa dos contribuintes. Pouca vergonha!

terça-feira, 29 de maio de 2012

Campeões da solidariedade

No passado fim-de-semana de 26 e 27 de Maio os dezanove Bancos Alimentares Contra a Fome portugueses angariaram 2644 toneladas de alimentos numa campanha realizada em 1655 superfícies comerciais de todo o País, na qual participaram cerca de 37 mil voluntários. Quer as quantidades recolhidas quer o número de voluntários constituíram recordes absolutos. As quantidades recolhidas excederam em 13,7% as recolhas que se verificaram em Maio de 2011, o que é verdadeiramente surpreendente na actual situação económica das famílias e revela fortes sinais de solidariedade da sociedade portuguesa. O elevado número de voluntários mostra a generosidade dos portugueses e também confirma que esta iniciativa de voluntariado não tem, ao nível da dimensão, qualquer paralelo no nosso país. Como afirmou Isabel Jonet, a Presidente da Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome, “quando os projectos são claros e mobilizadores, na medida das suas possibilidades, os portugueses querem e podem contribuir de uma forma construtiva, coesa, cívica e solidária para a resolução dos problemas”. Exactamente, digo eu! O primeiro Banco Alimentar contra a Fome foi criado em 1991 e em 2011, os dezanove Bancos Alimentares Contra a Fome existentes distribuíram um total de 30.252 toneladas de alimentos (equivalentes a um valor global estimado superior a 42 milhões de euros), ou seja, um movimento médio de 121 toneladas por dia útil. Os portugueses são realmente campeões da solidariedade e da generosidade e é caso para perguntar se a classe política que nos dirige merece um povo como este.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A transparência continua adiada

O hábito de fazer ajustes directos é antigo e está enraizado no Estado, que gasta 130 milhões de euros por mês, sem concurso, segundo revelou hoje o Jornal de Notícias. Desde meados de 2008, quando o registo arrancou de forma sistemática, até à semana passada, o Estado assinou mais de 262 mil ajustes directos, no valor total de cerca de 8 mil milhões de euros! Desde que a troika chegou a Portugal e foi iniciado o programa de ajustamento, há pouco mais de um ano, o valor dos contratos sem concurso baixou, mas mesmo assim continuou a um incompreensível ritmo de 130 milhões de euros por mês. As contas foram feitas pelo Jornal de Notícias com base nos dados do sítio onde são inscritos os ajustes directos formalizados entre as entidades públicas e os fornecedores de bens, serviços ou empreitadas. Só no corrente ano de 2012 já foram feitos 22.089 ajustes directos, sendo cerca de metade inferiores a 10 mil euros e, aproximadamente outra metade, entre 10 e 100 mil euros. No entanto, são de salientar os ajustes directos feitos pelo Ministério da Justiça (a nova sede da PJ por 85,8 milhões de euros), pela REFER (73,3 milhões de euros), pelo Banco de Portugal (19,8 milhões de euros) e por outras entidades públicas. Estas avultadas quantias são pagas por entidades públicas a fornecedores que elas próprias escolheram, muitas vezes apenas por serem amigos, familiares ou correligionários do decisor. O ajuste directo e sem concurso deveria ser a excepção, mas parece ser a regra. Assim, uns são favorecidos e engordam, enquanto outros não têm oportunidades. É o império da cunha. É o tráfico de influências. É a opacidade do Estado. É a pequena ou média corrupção. Ninguém pede responsabilidades a estes decisores. Lamentavelmente, a transparência continua adiada.

A utilidade de uma informação – II

Na chamada Zona Industrial do Casal da Areia, próximo de Alcobaça, situam-se as instalações da Veco Design - Fábrica de Parques Infantis e Mobiliário Urbano, uma empresa portuguesa a que já foi atribuído o prestigioso estatuto de PME Excelência. As suas instalações ocupam cerca de 10 mil metros quadrados e constam de uma fábrica e de um armazém, além de um show-room permanente, em que se destacam o colorido e o design dos equipamentos que a empresa comercializa, não só em Portugal, mas também em Angola, Espanha, França, Marrocos, Brasil e Alemanha. É uma empresa bem sucedida e, talvez por isso, cobiçada pelos amigos do alheio. Porém, num enorme cartaz colocado junto da sua porta principal, a empresa avisa os senhores ladrões que não temos telemóveis, portáteis ou dinheiro para roubar, “mas temos trabalho para dar!...” É uma informação útil que certamente desincentiva os ladrões, mas com o elevado desemprego que temos, a Veco Design corre o risco de ver milhares de desempregados à sua porta a procurar o trabalho que a empresa afirma ter para dar.

domingo, 27 de maio de 2012

Nem oito, nem oitenta

Organizado pela UEFA, vem aí o Campeonato da Europa de Futebol - o EURO 2012 - que se iniciará no próximo dia 8 de Junho em Varsóvia com o jogo entre a Polónia e a Grécia e, para quem gosta de futebol, este acontecimento está a gerar um enorme entusiasmo devido aos espectáculos que todos teremos oportunidade de ver pela televisão. Acresce o facto da equipa portuguesa – a nossa selecção - estar apurada para integrar o grupo de dezasseis finalistas que vão disputar a competição e, esse facto, constitui um factor adicional de interesse. No meio de tanto entusiasmo, é natural que a comunicação social dedique espaços informativos muito alargados ao acontecimento. Porém, está a verificar-se uma cobertura noticiosa absolutamente desproporcionada, que inclui a transmissão de imagens dos treinos e dos exames médicos, inúmeras entrevistas e muitas reportagens. Ficamos a saber quase tudo sobre os jogadores, sobre as suas famílias, os seus automóveis, os seus devaneios. Ouvimos discursos jornalísticos tão laudatórios, quanto ridículos. Os chamados jornalistas do futebol estão a endeusar os jogadores que, até agora, apenas asseguraram chorudos prémios. Nós somos inundados de "selecção", enquanto os jogadores se deslumbram com tanta atenção. É um exagero absoluto. A indústria da publicidade associa-se a este frenesim e, em vez de treinarem e de se concentrarem, os jogadores passam o tempo em sessões fotográficas. O povo gosta assim. Esquece-se a crise do euro, em nome do EURO. É demais. Nem oito, nem oitenta!