quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

The Perfect Storm

A imprensa é um meio de comunicação que utiliza o texto e a imagem como suportes da informação, embora seja o texto e, em especial o título, que habitualmente dão destaque à notícia. Porém, nem sempre é assim. Por vezes, com base na ideia de que uma imagem vale mais do que mil palavras, a imprensa utiliza a imagem como principal suporte da informação ou da notícia, não se refugiando na lógica mercantilista do sensacionalismo de um título.
A imprensa inglesa utiliza frequentemente a imagem como suporte da informação e um bom exemplo desse estilo encontra-se na edição de hoje do jornal The Guardian, que noticia a situação de temporal que vem assolando as Ilhas Britânicas através da fotografia de uma gigantesca onda batendo a área portuária de Seaham Harbour, uma pequena cidade situada no distrito de County Durham, na costa nordeste da Inglaterra. O autor da espectacular fotografia, em que é possível comparar a altura da onda com a altura do farol, é o fotojornalista Owen Humphreys.
O jornal recorreu a uma sugestiva legenda: perfect storm ou tempestade perfeita, que é uma expressão que descreve uma combinação rara de circunstâncias meteorológicas extremamente graves, mas que também vem sendo usada para descrever fenómenos de outra natureza e que se popularizou quando, no ano de 2000, foi produzido o filme The Perfect Storm, realizado por Wolfgang Petersen e que teve George Clooney como protagonista.
Sem quaisquer dúvidas, com a capa da sua edição de hoje, o The Guardian dá uma boa lição de jornalismo.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Afrighanistan ou a ameaça no Sahara

A prestigiada revista inglesa The Economist, muitas vezes considerada como a melhor revista económica do mundo, destacou na sua última edição o conflito que está a afectar alguns países situados entre o mar Mediterrâneo e o deserto do Sahara, comparando-o aos que acontecem desde há 11 anos no Iraque e no Afeganistão, onde a guerra já custou centenas de milhares de mortos e um trilião e meio de dólares em custos directos. A situação é especialmente crítica no chamado “arco da instabilidade”, que se estende da Somália ao Mali, passando pelo Sudão, pelo Chade e pelo Niger. A intervenção francesa que está em curso no Mali é, aparentemente, uma operação limitada no tempo, mas não há garantias de que seja assim, podendo vir a degenerar numa situação semelhante à que se passa no Iraque ou no Afeganistão.
A ilegalidade e a violência sempre existiram na região sahariana mas, nos últimos anos, com a “primavera árabe” e, sobretudo, depois da queda de Kadaffi em finais de 2011, a situação piorou. Formaram-se pequenos exércitos ou gangues armados que ocupam cidades, fazem reféns, exigem resgates, praticam o contrabando, fazem tráfico de drogas e praticam o banditismo avulso. Embora sejam comparados aos piratas das costas da Somália, parecem ser bem mais perigosos. Esses gangues e os seus líderes têm reforçado a sua influência junto das populações saharianas e, alguns deles, actuam em nome da jihad. Os jihadistas parecem ter ricos apoios financeiros, sobretudo na Arábia Saudita, sendo oriundos de alguns países da região como a Argélia, Tunísia, Niger e Mali, mas também de outras regiões como o Paquistão, a Iémen e a Somália. Esses grupos procuram atacar os interesses ocidentais na região, que é rica produtora de petróleo e gás, numa estratégia que também pretende incentivar uma campanha de terror na Europa e na América. Em defesa dos seus interesses económicos e da protecção dos seus nacionais residentes no Mali, a França assumiu o combate contra esses gangues armados, mas tem lamentado estar sozinha no terreno. Para a generalidade dos observadores, a situação é muito perigosa e muito incerta, podendo ser um atoleiro para os franceses, enquanto The Economist se interroga sobre se já estamos confrontados com um Afrighanistan.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A impressionante ondulação da Nazaré

No passado dia 28 de Janeiro a Nazaré voltou a ser notícia mundial, através de uma excepcional fotografia de Garrett McNamara a surfar uma onda gigante na Praia do Norte, mesmo junto ao Farol da Nazaré.
Alguns jornais internacionais, nomeadamente a edição de 30 de Janeiro do jornal inglês The Times, reproduziram essa extraordinária imagem do surfista americano a deslizar sobre uma montanha de água de impressionantes dimensões. Um caso de fotojornalismo de qualidade.
No mesmo local, no dia 1 de Novembro de 2011, o mesmo atleta tinha conseguido surfar uma onda cuja altura foi estimada em 27,5 metros, que viria depois a ser distinguida com o prémio de Maior Onda Surfada de 2011, nos Billabong XXL Awards, uma espécie de “óscares” do surf de ondas grandes, ao mesmo tempo que passou a constar do Guiness Book de recordes.
As imagens captadas vão agora ser avaliadas pelos peritos para determinar a sua altura exacta, através de um processo simples: assume-se a altura do surfista como referência e extrapola-se para conseguir a distância entre o topo e a parte mais baixa da face da onda. Independentemente da medição que vier a ser fixada, uma vez mais o mundo assistiu ao encontro de um fenómeno da natureza com um extraordinário feito desportivo, que contribui para a promoção internacional da Nazaré como destino de referência para a prática de desportos de ondas grandes. No entanto, para as pessoas comuns, com ou sem a ousada presença de surfistas do tipo McNamara, a observação da impressionante ondulação da Nazaré em certos dias é um espectáculo imperdível.

Joana Vasconcelos: o sucesso em Paris

Entre os dias 19 de Junho e 30 de Setembro de 2012 realizou-se no Palácio de Versailles, em Paris, uma exposição de Joana Vasconcelos que teve assinalável êxito. O assunto não foi esquecido e, passados cerca de quatro meses, a edição on line de 30 de Janeiro do jornal francês Le Fígaro, publica uma reportagem intitulada “La folie des expos” que assinala que nos últimos seis anos, o número de exposições apresentadas em Paris mais do que duplicou. O artigo procura analisar algumas das razões que justificam esta explosão de exposições em Paris (de 46 em Novembro de 1998 a 104 em Novembro de 2012), através das suas temáticas, dos seus públicos e do número de visitantes, mas também através da sua “equação financeira” porque, tal como acontece com os museus, uma exposição deve assentar num equilíbrio entre receitas (apoios mecenáticos, patrocínios e receitas de bilheteira) e despesas (transportes, seguros, catálogos e outros).
O artigo publicado pelo jornal Le Figaro, apresenta uma relação das exposições mais visitadas em Paris nos últimos cinquenta anos, que mostra que a exposição “Joana Vasconcelos dans les Grands Appartements à Versailles”, realizada em 2012 no Palácio de Versalhes teve o impressionante número de 1,6 milhões de visitantes, tendo sido  a exposição mais visitada de sempre em Paris. Nessa lista, a mostra de Joana Vasconcelos é, seguida pela exposição “Toutankhamon au Petit Palais” (em 1967, com 1,2 milhões de visitantes), pela exposição “La Collection Barnes à Orsai” (em 1993, com 1,15 milhões), a exposição “Monet au Grand Palais” (em 2011, com 913 064 visitantes) e a exposição “Dali à Beaubourg” (em 1979, com 840 600 visitantes).
Numa época em que uma certa Europa procura ridicularizar uma outra Europa, o êxito de Joana Vasconcelos é uma resposta cultural à arrogância dessa Europa endinheirada e, naturalmente, alimenta a nossa auto-estima.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Adeus Goa, olá Lisboa!

Depois de alguns dias passados em Goa, estou de regresso a Portugal. O tempo que por lá passei satisfez as minhas expectativas e consegui fazer tudo o que eu tinha planeado fazer. Goa continua na sua onda de progresso acelerado e a alimentar o seu próprio estereótipo de “Europa da Índia”, o que leva a que multidões de turistas indianos a visitem e contribuam para a descaracterização cultural cada vez mais rápida do território.
No entanto, está a acontecer em Goa um caso muito curioso: a importantíssima actividade mineira foi suspensa pelo Bombay High Court, que tem jurisdição nos Estados de Maharashtra e Goa, ao dar provimento às queixas e às pressões das associações ambientalistas que vinham acusando a indústria mineira de estar a provocar uma verdadeira catástrofe ambiental em Goa. As três centenas de explorações mineiras a céu aberto, muitas delas operando intensivamente e à margem da lei, alteraram a paisagem goesa, destruíram áreas enormes, produziram autênticas montanhas de terra, lama e minério de ferro de baixo teor, que são materiais não tratados e altamente instáveis, que ameaçam abater-se sobre aldeias e os campos e que já estão a poluir os rios e os inúmeros cursos de água.
Acontece que a indústria mineira, juntamente com o turismo, são as principais actividades económicas de Goa, pelo que esta decisão revela muita coragem ao enfrentar interesses económicos muito poderosos, o que não é nada comum no mundo contemporâneo.
Ao largo da barra de Goa não se vêem agora as dezenas de navios mineraleiros em espera, nem nos rios Mandovi e Zuari se observam as centenas de barcaças que faziam o transporte do minério, desde o interior até aos navios fundeados. Há uma mudança visível na paisagem goesa e a poeira avermelhada desapareceu de muitas áreas que recuperaram a sua cor verde natural. Porém, a indústria mineira cresceu exponencialmente nos últimos anos devido à procura do Japão e da China, empregando actualmente muitos milhares de pessoas nas minas, no transporte do minério e nas actividades conexas. Assim, esta suspensão está a ter consequências económicas muito sérias e a colocar em causa a coesão social goesa, até porque a suspensão da actividade significa muito desemprego. À calamidade ambiental pode suceder uma calamidade social. Porém, neste caso, a arrogância e a ganância do poder económico foram travadas pela Justiça, devido à pressão dos ambientalistas e das estruturas democráticas de participação popular. É um bom exemplo a mostrar que, mesmo em nome da economia, não pode valer tudo.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Eu falo português em Goa!

Amanhã parto para Goa, onde vou visitar amigos e rever lugares pelo que, durante algum tempo, estarei ausente deste espaço.
Voltar a Goa é sempre um reencontro com uma terra acolhedora, cultural e paisagisticamente muito rica, cheia de contrastes na sociedade e no ordenamento, que quase se assemelha a um caleidoscópio de cores e de sabores, mas também de línguas e de religiões. A dinâmica desenvolvimentista e o ritmo de transformações que se verificam na sociedade e na economia goesas são bem evidentes para o visitante frequente e não precisam de ser atestadas por quaisquer indicadores.
Goa é o mais pequeno, mas também é o Estado mais próspero de toda a União Indiana e, depois de 451 anos de presença portuguesa, o território e em especial as cidades de Pangim e Margão, continuam a exibir muitos traços da cultura portuguesa, reconhecíveis na sociedade e no quotidiano, na arquitectura e no traçado urbano, na gastronomia e nas práticas festivas, nos costumes sociais e no uso do Código Civil, na paixão pelo futebol e no gosto pelo Carnaval mas, sobretudo, na língua portuguesa. Naturalmente, a língua portuguesa tende a perder importância em Goa, mas é do interesse da Lusofonia preservar, estimular e apoiar a sua preservação, o seu uso e o seu ensino, com base nos acordos culturais estabelecidos com as autoridades indianas e através das instituições adequadas para esse efeito. Trata-se de uma exigência histórica e cultural e, por isso, terá que ser um parâmetro ou uma directiva permanente da nossa acção externa.
Eu falo português em Goa!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O Município de Lisboa é um gigante

Nas remessas de correio electrónico mais ou menos indesejado que todos recebemos diariamente, chegou-me uma informação relativa aos quadros de pessoal da Câmara Municipal de Lisboa (CML), que referia a existência de 2521 Técnicos Superiores, licenciados ou doutorados, designadamente 330 arquitectos, 101 assistentes sociais, 73 psicólogos, 104 sociólogos, 146 licenciados em marketing, 260 engenheiros civis, 156 historiadores e 303 juristas, entre outros profissionais. Não era referido se a situação era actual ou passada, mas estranhei um tão numeroso exército de gente qualificada pelo que fui procurar a confirmação dessa informação. Julgo ter encontrado uma resposta no Boletim Municipal da CML, nº 937, Suplemento 2 (Fevereiro de 2012), que inclui o Mapa de Pessoal do Município de Lisboa para 2012, anexo ao Orçamento para o mesmo ano. O Mapa apresenta os elementos relativos a 2011 e estabelece a sua evolução para o ano de 2012. No que respeita aos Técnicos Superiores está prevista em 2012 a sua redução de 2616 para 2539 elementos (-2,9%) e lá estão 343 arquitectos, 321 juristas, 270 engenheiros civis, 160 historiadores, 150 licenciados em Ciências da Comunicação e 104 sociólogos. A informação que eu recebera estava certa e apenas pecava por defeito!
No entanto, a CML parece estar alertada para o seu gigantismo e estar a actuar com sensatez e sem sobressaltos, pois em 2012 o número total de pessoal teria passado de 11.510 para 10.424 colaboradores (-9,4%), com o pessoal dirigente a passar de 197 para 166 (-15,7%) e os assistentes operacionais a passarem de 4599 para 3975 elementos (-13,5%). Há, portanto, uma vontade de racionalizar estruturas e racionalizar custos, corrigindo os erros acumulados durante muitos anos. De resto, o texto que acompanha o Mapa de Pessoal destaca a efectiva redução do número de cargos dirigentes e faz referência à necessidade de potenciar recursos e de assegurar ganhos de eficiência, significando que a CML está atenta às realidades nacionais, mas que não precisou de recorrer aos estagiários do FMI como fez o deslumbrado moedas que, por isso, muito tem levado na cabeça.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A nossa língua é uma “jóia da coroa"

Alguns jornais espanhóis e latino-americanos destacaram nas suas edições de hoje uma informação fornecida pelo Instituto Cervantes no seu anuário de 2012: com mais de 495 milhões de falantes, a língua espanhola é a segunda língua mais falada do mundo, logo a seguir ao mandarim. O diário madrileno ABC destaca essa notícia em primeira página, com a informação de que o Instituto Cervantes é o órgão que promove o ensino da língua e da cultura espanholas em todo o mundo e que está presente em 77 cidades de 44 países, sobretudo na América e na Ásia.
O anuário também informa que o espanhol é o segundo idioma de comunicação internacional depois do inglês e que é o terceiro mais utilizado na internet, logo a seguir ao inglês e ao mandarim, referindo que há actualmente mais de 18 milhões de estudantes que aprendem o espanhol como língua estrangeira e que, em 2012, o Instituto Cervantes registou um crescimento de 8% no número de estudantes matriculados. Na cerimónia de apresentação do anuário o ministro dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação de Espanha referiu-se ao Instituto Cervantes como “a jóia da coroa” da acção externa da Espanha e alertou para “o perigo que representa a globalização” no que respeita à aquisição de uma cultura universal uniforme e de padrão anglo-saxónico.
A língua portuguesa é, depois do inglês e do espanhol, a mais falada das línguas europeias e, por isso, o alerta espanhol também nos deve preocupar. Assim, bom seria que o Instituto Camões também fosse “a jóia da coroa” da nossa acção externa. Aparentemente, porém, é apenas a promoção das exportações que mobiliza a nossa acção externa e não sei se a acção do Camões tem o reconhecimento concreto e o apoio orçamental que se justifica.

O “coração da França” sob ameaça

A República do Mali é um país africano que se tornou independente da França em 1960, que tem cerca de 12 milhões de habitantes e a cidade de Bamako por capital. Tem uma área que é cerca de 14 vezes maior do que Portugal, fronteiras terrestres com 7 países e não tem saída para o mar. É um dos maiores países do continente africano, embora uma grande parte do país ocupe o sul do deserto do Saara, mas tem importantes recursos naturais explorados sobretudo por interesses franceses, pelo que nele residem alguns milhares de cidadãos franceses.
Nos últimos anos o país tem sido afectado por alguns golpes de Estado, o último dos quais aconteceu em Março de 2012 e levou Dioncunda Traoré ao poder. Acontece que muitos milicianos tuaregues que participaram das lutas na Líbia em defesa de Coronel Kadafi regressaram ao país muito bem equipados com o armamento que lhes tinha sido fornecido e fundaram um movimento (o MNLA) com o objectivo de proclamar a independência do Azawad ou Norte do Mali. Com o mesmo objectivo, um grupo radical islâmico ligado à Al Qaeda (o Ansar Dine), também invadiu a região. Estes grupos e alguns outros de menor expressão, têm combatido o exército regular do Mali e ameaçam tomar a capital e a totalidade do território do país. Perante essa ameaça à estabilidade do país e da região, o Presidente Traoré pediu ajuda militar à França com base nos laços históricos entre os dois países e o governo de François Hollande não hesitou. Foi lançada a operação “Serval” e, desde há alguns dias, que a aviação francesa e algumas centenas de soldados entraram em combate no Mali, numa acção que tem recebido o apoio dos franceses, das Nações Unidas e da comunidade internacional. É a guerra do Mali e, depois dos ataques franceses, os jihadistas ameaçaram retaliar e atingir "o coração da França”, bem como os cidadãos franceses em todo o mundo. A opinião pública francesa está inquieta por esta ameaça, mas também porque este tipo de intervenção militar pode eternizar-se e transformar-se num atoleiro do “tipo vietnam”.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Uma nova atracção turística em Lisboa

Tive a oportunidade de visitar o Lisboa Story Centre – Memórias da Cidade, um centro de interpretação dedicado à história da cidade de Lisboa, com especial ênfase no terramoto de 1755 e nos planos do que é hoje a Baixa pombalina. O mínimo que se pode dizer é que o Terreiro do Paço continua a sua trajectória de transformação numa grande praça aberta à cultura e ao lazer e que conta agora com uma nova atracção turística, instalada junto do Torreão Nascente do Terreiro do Paço, no local onde antes teriam sido ministérios e repartições, com burocratas a entrar e a sair e com automóveis estacionados à porta. Trata-se de um projecto inédito de interactividade e tecnologia que se inspira em alguns dos acontecimentos que influenciaram a história da cidade e do próprio país, incluindo a época das descobertas e da expansão, a restauração de 1640, o terramoto de 1755 e a reconstrução da cidade sob a orientação do Marquês de Pombal, o regicídio de 1908 e a revolução de 1974. Ao recurso a fotografias, gravuras, mapas e réplicas junta-se a utilização de efeitos especiais que tornam a “viagem” numa experiência muito enriquecedora sob o ponto de vista pedagógico. O novo equipamento valoriza a oferta turística e cultural da cidade e ocupa uma área aproximada de 2.200 metros quadrados, divididos por dois pisos, propiciando uma visita de cerca de uma hora, orientada por um audioguia que acompanha todo o percurso e que, sucessivamente, explica os diversos conteúdos disponibilizados de forma sintética como convém. O Lisboa Story Centre – Memórias da Cidade está aberto todos os dias, das 10:00 às 20:00 horas e, apesar de não ser barato, bem merece ser visitado.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Lutar contra a descrença e o pessimismo

A sociedade portuguesa está a atravessar um período muito depressivo, com desemprego muito elevado, quebra do poder de compra e aumento da pobreza, para além de muitos sinais de recessão económica, de crise social e até de decadência civilizacional. O desespero e a perda de confiança alastraram por todos os estratos da população, afectando sobretudo os jovens, o que tem conduzido a um aumento da emigração de gente muito qualificada, que procura no estrangeiro as respostas para os seus anseios. Neste quadro, que começa a ter algum dramatismo, tende a instalar-se a descrença e o pessimismo, ficando muita gente incomodada por não haver um discurso mobilizador contra a actual situação, a lembrar, aqui e no exterior, que somos uma nação quase milenária, com uma forte identidade nacional, com uma das mais faladas línguas do mundo e com uma história e uma cultura singulares.
A edição desta semana da revista Visão reage e é mobilizadora, dedicando uma reportagem especial aos “portugueses vencedores”, isto é, aos portugueses anónimos que, não aparecendo nas primeiras páginas dos jornais como acontece com os políticos e os futebolistas, se têm destacado nas suas carreiras profissionais de excelência, desde a ciência à arquitectura, da dança aos negócios, do cinema ao automobilismo, da medicina à publicidade.
São casos de grande inspiração que triunfaram no espaço global pelo trabalho e pela inteligência, que nos orgulham e alimentam a auto-estima, que nos ajudam a vencer o desânimo e a recuperar a confiança mas, também, que nos permitem ver como anda por aí tanta gente acidentalmente poderosa que, afinal, vale mesmo muito pouco.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Há um cavalo de Tróia no nosso Governo

O governo português está a usar os secretários de estado, aqueles a quem o antigo chefe de governo e actual chefe de estado chamava “ajudantes”, para anunciar coisas importantes. Antes foi o anúncio da privatização da ANA, agora foi o comentário a um relatório do FMI. Em ambos os casos era de esperar a cara e a voz do nosso primeiro, mas ele prefere falar quando os jornalistas lhe estendem o microfone, por exemplo, à porta do Teatro Politeama.
Esse papel de porta-voz coube ao filho do Zé Moedas, um rapaz que entrou nisto da política há muito pouco tempo mas que é muito ambicioso. Andou lá por fora e trabalhou para o Goldman Sachs com o famoso Borges. Regressou, aderiu a um partido, foi o ajudante do Catroga nas negociações com o PS e, como era pequenino, meteram-no no cavalo de Tróia que o nosso primeiro trouxe para o governo. Sim, o Moedas era o cavalo de Tróia da Goldman Sachs no governo português, mas agora também aceitou ser o cavalo de Tróia do FMI. Moedas é um autêntico erro de casting
Pois foi essa figura sem currículo político que veio elogiar o relatório do FMI, no qual é verdadeiramente proposta a extinção do nosso Estado Social: o desemprego para 120 mil funcionários públicos, o corte permanente das pensões em 15 a 20%, a reforma aos 66 anos de idade, a dispensa de professores e o aumento das propinas, a redução do subsídio de desemprego, o ataque aos profissionais da saúde, aos militares e aos polícias. É um caso de adivinhação da vontade do freguês ou um "fato feito à medida". O relatório não propõe medidas para atenuar o desemprego ou para promover o crescimento económico, nem trata do combate ao despesismo e à corrupção, nem da reforma da componente político-partidária do regime que tem sido responsável pelo estado a que isto chegou.
O relatório e a frieza de quem o apresentou com insensatos risinhos hipócritas, estão a gerar uma onda de protestos e vão desencadear uma onda de indignação e de turbulência social. A insensibilidade social do governo atingiu o máximo com as declarações do filho do Zé Moedas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Os submarinos e o referendo escocês

A integração federalista em curso na Europa confronta-se frequentemente com uma outra ideia, que corresponde a uma confederação de Estados que não renunciam aos seus direitos de soberania nacional. A “Europa das Pátrias”, como o general De Gaulle chamava a esta ideia, não só rejeitava o modelo federalista alemão (que a chanceler Merkel está actualmente a impor) como também representava uma resposta para a diversidade cultural europeia, expressa nas línguas nacionais, valores, símbolos, tradições e memória histórica. É nesse contexto de diversidade cultural e de crise económica e social que várias regiões europeias têm acentuado as suas aspirações independentistas. Uma dessas regiões é a Escócia.

A Escócia foi independente até 1707 e foi depois integrada no Reino Unido, mas o sentimento independentista nunca se perdeu e vai poder pronunciar-se através de um referendo a realizar em 2014 sobre se, sim ou não, quer tornar-se independente.

Os apoiantes das duas teses alinham argumentos e o jornal The Scotsman recorre aos submarinos nucleares britânicos para tomar posição, anunciando hoje que a frota submarina equipada com mísseis nucleares Trident continuará na sua base de Faslane on the Clyde, independentemente dos resultados do referendo, pois a mudança custaria ao governo britânico alguns milhares de milhões de libras. Por outro lado, a base da Royal Navy é um símbolo de prestígio e um importante pólo económico, pelo que o seu abandono se traduziria na perda de muitos milhares de postos de trabalho altamente qualificados e os independentistas escoceses temem esse cenário. 

O que é curioso é o facto da base de Faslane on the Clyde e os submarinos estarem a animar o referendo escocês.

Há mesmo muitos "jobs for the boys"

Ontem expressei aqui a minha surpresa pelo número de elementos que integram o gabinete do Secretário de Estado da Cultura, que achei exagerado, desproporcionado e, consequentemente, gerador de despesa supérflua e contributo para o agravamento do nosso défice público. Afinal, aquele caso não é singular. Alguém me chamou a atenção para o que se passa com o gabinete do nosso primeiro e fui verificar. E lá estão os nomes, a função, idade, data de nomeação e vencimento de 67 leais servidores do nosso primeiro e da causa pública, isto é, gente de confiança. É certamente gente sábia e experimentada. É um verdadeiro exército de 10 assessores, 10 secretárias pessoais, 7 adjuntos, 4 técnicos-especialistas, 13 técnicos administrativos, 12 motoristas e mais uma dezena de outros colaboradores. Haverá mais alguns, especialmente alguns rapazes musculados que dão pelo nome de seguranças. É manifestamente gente a mais. Muitos desses sábios e experimentados colaboradores são boys ou são compagnons de route do nosso primeiro. Desse exército de apoio há 22 elementos cuja remuneração mensal é superior a 3 mil euros e assim, ao fim de cada mês, são necessários cerca de 150 mil euros para pagar os salários desta malta, fora os extras que essa gente custa em deslocações e estadas, em viaturas, reparações, seguros e combustíveis, mais as horas extraordinárias, mais os subsídios disto e daquilo, mais os telefones e, em alguns casos, os cartões de crédito. Quando se vêem os jovens a abandonar o país, a brutalidade do desemprego, o pequeno comércio a fechar portas, a insegurança a instalar-se nas ruas e a coesão social a perigar, este tipo de comportamentos arrasa o contribuinte e o cidadão.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

2013: ainda há “jobs for the boys”

Hoje, o Diário da República, 2.ª série — N.º 5 (Parte C) inclui 26 despachos de nomeação assinados pelo Secretário de Estado da Cultura, que nomeiam outras tantas pessoas para exercer funções no seu gabinete, incluindo 3 adjuntos, 5 técnicos-especialistas, 3 motoristas, 2 secretárias pessoais e mais 13 pessoas. Lê-se e quase não se acredita. 
É com este tipo de opções que se consome o Orçamento do Estado e que não se consegue controlar o défice público. Um gabinete de um Secretário de Estado, mesmo que se trate de pessoa competente como parece ser o caso, não pode ter tanta gente a consumir recursos orçamentais, quer seja para fazer trabalho que compete às direcções-gerais, quer seja para alimentar clientelas ou, até, o próprio ego de um deslumbrado e ambicioso governante. São, evidentemente, "jobs for the boys". É um caso surpreendente de despesismo e de exibicionismo, infelizmente igual a muitos outros que acontecem nos gabinetes ministeriais, numa altura em que o governo avançou com o “napalm fiscal”, ao lançar um brutal aumento de impostos sobre os trabalhadores e os pensionistas. Todos recordamos que o governo chegou ao poder em 2011 com um discurso de combate às “gorduras do Estado” e, nesse sentido, uma boa parte destas 26 nomeações premeia os “boys”, mas apenas serve para aumentar essas mesmas gorduras.
É lamentável que muitos dos nossos governantes não conheçam a dura realidade que está a afectar os portugueses, nem saibam como é importante o bom exemplo da contenção como factor de mobilização nacional e de restauro da confiança.