quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

As dúvidas e as incertezas do Brasil

A recente rebelião do presídio de Manaus em que se confrontaram grupos rivais e que se saldou em 60 mortos e 184 fugitivos, não é só um acontecimento trágico, mas também é um sinal muito preocupante da situação social que se vive em algumas regiões brasileiras, com evidentes sinais de instabilidade e até mesmo de desagregação. A consulta da imprensa brasileira revela sinais de uma crise profunda, em que sobressai a fraqueza do Estado e das instituições, mas também uma situação económica fragilizada pela recessão e pelo desemprego e um quotidiano de insegurança e de incerteza.
A propósito da rebelião do presídio de Manaus o jornal Estado de Minas classifica o ambiente do sistema prisional brasileiro como bomba-relógio, mas esse alerta é porventura mais profundo e pode aplicar-se a outros sectores da sociedade brasileira, que não apenas o sistema prisional.
A imagem externa do Brasil deteriorou-se enormemente quando há poucos meses foi destituída a Presidente Dilma Rousseff, como consequência de um confronto de facções político-partidárias. A democracia brasileira abriu uma profunda brecha e saiu muito enfraquecida do processo de “impeachment”, ao contrário do que foi dito. A confusão no topo do Estado contagiou outros escalões. O sistema político brasileiro abriu uma caixa de Pandora e viu-se o novo governo de Michel Temer a perder ministro sobre ministro, sob acusações de corrupção. Muitas instituições federais ou estaduais têm revelado alguma incapacidade para assegurar a harmonia social, para promover a recuperação económica e para dar confiança aos brasileiros. 
É preciso que a rebelião de Manaus tenha sido apenas um caso isolado e que não haja qualquer bomba-relógio no horizonte brasileiro.

Guernica: símbolo da crueldade da guerra

Nestes primeiros dias do ano e em jeito de balanço, a imprensa espanhola tem destacado três grandes temas que são as festas religiosas do Natal, a significativa quebra no desemprego e o enorme aumento do turismo, o que de resto parece ser uma característica ibérica.
Porém, no meio de alguma unanimidade noticiosa, o diário Málaga hoy anuncia a realização do Año Guernica que este ano se comemora e em que será homenageado Pablo Picasso, o mais famoso de todos os malaguenhos.
Pablo Picasso nasceu em Málaga em 1881 e de entre as suas obras mais famosas salienta-se Guernica, um painel pintado a óleo em 1937 por ocasião da Exposição Internacional de Paris e que foi exposto no pavilhão da República Espanhola. Esse enorme painel que mede 3,49 x 7,77 metros encontra-se em Madrid no Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia e representa o bombardeamento efectuado no dia 26 de Abril de 1937 sobre a cidade basca de Guernica, situada a poucos quilômetros de Bilbau, por aviões alemães e italianos que apoiavam as forças nacionalistas do ditador Francisco Franco.
Guernica tornou-se um símbolo universal da crueldade da guerra e estão anunciadas grandes exposições no Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia e no Museu Thyssen-Bornemisza em Madrid e no Museu de Barcelona.
No caso do Museu Rainha Sofia já está anunciada a exposição intitulada “Piedadd y terror em Picasso: el camino a Guernica” que celebrará os 80 anos de Guernica e que estará patente de 4 de Abril a 4 de Setembro, na qual poderão ser vistas cerca de 150 obras primas do pintor, provenientes de colecções de mais de três dezenas de instituições de todo o mundo. Uma grande oportunidade.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O português é uma língua em ascensão

O diário Hoy é o principal jornal da Extremadura espanhola e tem edições simultâneas nas cidades de Badajoz e Cáceres.
Hoje, ambas as edições destacam o ataque terrorista que aconteceu na noite da passagem do ano numa discoteca de Istambul, mas também incluem um anúncio na sua primeira página que chama a atenção dos portugueses, pois reproduz a bandeira nacional.
O anúncio promove a venda de um “Curso audiovisual de autoaprendizaje de português” que tem o valor de 103 euros, mas que pode ser comprado nas instalações do jornal por 24,95 euros, isto é, trata-se de uma promoção com um desconto de 78,05 euros que representa uma poupança de 76%. Nesta altura, segundo o jornal, “ya lo tienen 5”.
O anúncio convida os leitores a aprender português de forma amena e ao ritmo de cada um, diz que “es el momento de aprender portugués” e acrescenta que “o Curso es compuesto por todo el material audiovisual, diccionario y casos prácticos que te permitirán defenderte en las destrezas básicas de un idioma en alza: leer, escribir y hablar português”.
Idioma em alza” significa idioma em ascensão ou idioma em alta. De facto, o português é falado por mais de 200 milhões de pessoas e é a 6ª língua mais falada no mundo, depois do mandarim, do espanhol, do inglês, do híndi e do árabe. Qualquer dia, quando uma proposta feita em 2008 pelos países da CPLP vingar, há-de tornar-se a 7ª língua oficial das Nações Unidas.

domingo, 1 de janeiro de 2017

O meu voto de boa sorte para Guterres

António Guterres iniciou hoje o seu mandato de cinco anos como secretário-geral das Nações Unidas e esse facto é um acontecimento marcante da nossa história contemporânea, que deixa os portugueses muito orgulhosos.
A partir de agora, todos estaremos mais atentos ao que se passar nas Nações Unidas e no mundo, até porque a inteligência, a experiência e a sensibilidade de António Guterres colocam as nossas expectativas demasiado altas. Nenhum português teve alguma vez um desafio desta dimensão, em que se interceptam as complexas crises que vai enfrentar, que vão desde a Síria aos refugiados, mas que também passam pelo terrorismo, pelas alterações climáticas, pelos direitos humanos e pela fome no mundo.
António Guterres vai encontrar um mar de problemas e uma nau em risco de naufrágio. As Nações Unidas são cada vez mais uma organização paralisada por uma excessiva burocracia e que está a passar por um período de descrédito internacional porque se tem mostrado inoperante perante o conflito da Síria e que, além disso, está muito manchada por alguns episódios de má conduta dos seus funcionários. De facto a ONU está sem rumo, um pouco como acontece com o mundo. A escolha de um português para ocupar o cargo de secretário-geral da ONU é realmente um acontecimento único e nenhum dos seus concidadãos ficou indiferente a esta designação.
O processo de candidatura foi exemplar e meio mundo ficou espantado. Agora todos esperamos que ele consiga, a partir de hoje, colocar as suas capacidades ao serviço da paz mundial e tenha resultados positivos. Como dizia hoje o suplemento Magazine do Diário de Notícias, numa edição especial que lhe foi dedicada, temos ”o mundo no olhar de Guterres” e todos esperamos que ele tenha boa sorte. O mundo precisa mesmo deste António Guterres. Que a sorte o acompanhe.

Novo ano e esperança num mundo melhor

Ontem despedimo-nos de 2016 com uma imagem do Brasil e da sufocante praia de Pitangueiras a abarrotar de guarda-sóis e de gente. Hoje voltamos ao Brasil para saudarmos a chegada do novo ano de 2017, através de uma imagem do espectacular fogo de artifício sobre a praia de Copacabana no Rio de Janeiro, que o jornal O Globo escolheu para ilustrar a sua primeira edição do novo ano.
Hoje, como repetidamente acontece todos os anos, muitos jornais ilustraram as suas edições com imagens do fogo de artifício em Sydney e Hong Kong, enquanto a generalidade das televisões rivalizaram na apresentação de imagens da passagem do ano.
Porém, para além das festivas e coloridas imagens que proporciona, esta mudança de calendário torna-se um tempo de reflexão, em que por toda a parte se exprime a aspiração por um mundo melhor, com paz, harmonia e prosperidade. Esta aspiração também significa que se deseja o fim de todas as guerras, o fim do terrorismo, o fim da exploração e o fim da fome e da pobreza.  Estes e outros males do mundo podem não acabar de repente, mas há que fazer um esforço no sentido de os atenuar, para que a felicidade, a segurança, a prosperidade e o bem estar sejam cada vez mais uma pertença de toda a Humanidade.
Que em 2017 seja esse o rumo do mundo.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Que sufocantes são as praias brasileiras

O diário brasileiro Estado de S. Paulo ilustra a sua última edição de 2016 com uma elucidativa fotografia da praia de Pitangueiras que se situa no centro do Município da Estância Balneária do Guarujá, no Estado de S. Paulo.
É a mais acessível e a mais popular de todas as 27 praias do município e, por isso, atrai multidões, sobretudo nestes dias de festas do fim do ano, quando o calor tropical aumenta e a brisa marítima se torna uma benção que toda a gente procura. Nestes dias, porque o lugar está geograficamente em 23º de latitude Sul e a declinação do Sol também está próxima desse valor, ao meio-dia o Sol está no zénite ou por cima da cabeça das pessoas e “não há sombra”. É mesmo tempo de calor.
A fotografia que o jornal publica mostra o areal da praia de Pitangueiras coberto por muitas centenas de coloridos guarda-sóis, absolutamente ocupado e sem espaço para mais nada. Este sufoco está a banalizar-se em muitas praias, não apenas no Brasil, mas sobretudo nas praias situadas nas proximidades das grandes cidades que se estão a tornar num sítio pouco recomendável para descanso ou para lazer. Todos podemos imaginar o ambiente criado por guarda-sóis encostados uns aos outros e acrescentar que, segundo refere a notícia, “as caixas de som debaixo do guarda-sol viraram moda”.
A fotografia publicada fala por si e vale mais do que mil palavras. É caso para perguntar se alguém quer trocar este frio português pelo calor de uma praia brasileira como esta.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A reconciliação firmada em Pearl Harbor

Cerca de 75 anos depois da famosa operação aeronaval em que a Marinha Imperial japonesa atacou a base americana de Pearl Harbor nas ilhas Hawai, o Presidente Barack Obama e o primeiro-ministro Shinzō Abe encontraram-se exactamente no local onde no dia 7 de Dezembro de 1941 aconteceu esse ataque que provocou a morte de 2300 militares americanos e empurrou os Estados Unidos para a 2ª Guerra Mundial. Como foi afirmado nos discursos pronunciados no USS Arizona Memorial, nenhum outro local era tão apropriado para assinalar a definitiva reconciliação entre os Estados Unidos e o Japão.
Esta foi a primeira visita oficial de um líder japonês àquela base naval e esse gesto emblemático foi interpretado como o símbolo de uma autêntica reconciliação, a que ainda assistiram alguns sobreviventes dessa trágica manhã, entre os quais o luso-descendente Alfred Rodrigues. 
Porém, esta iniciativa também teve o cunho da reciprocidade. De facto, no passado mês de Maio o Presidente Barack Obama tinha sido o primeiro presidente dos Estados Unidos em exercício a visitar Hiroshima, a primeira cidade japonesa sobre a qual foi lançada uma bomba nuclear no dia 6 de Agosto de 1941, que provocou a morte de 150 mil pessoas.  Nesse local encontra-se hoje o Hiroshima Peace Memorial e foi aí que Barack Obama e Shinzō Abe deram ao mundo uma primeira imagem de reconciliação. 
Estas visitas foram mensagens enviadas para o mundo, mostrando que é sempre possível encontrar a paz, mesmo depois das mais violentas guerras. O jornal Star Advertiser que se publica em Honolulu, fez uma alargada reportagem do acontecimento e, na sua primeira página, destacou exactamente a palavra reconciliação. Curiosamente, nem Barack Obama pediu desculpas ao Japão, nem Shinzō Abe pediu desculpas aos Estados Unidos, isto é, houve um respeito pela História e não houve lugar para esse tipo de hipocrisias.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

“Mare Mortum” em balanço de fim de ano

Nesta época de fim do ano é habitual fazerem-se balanços sobre os acontecimentos mais relevantes que ocorreram no ano que finda. Este ano assim acontece.
No seu balanço do ano de 2016, o diário El Periódico que se publica em Barcelona decidiu evocar a tragédia do Mediterrâneo, onde nos últimos doze meses morreram mais de 5.000 pessoas que procuravam chegar à Europa para fugir da guerra, ou da pobreza ou, simplesmente, procuravam uma vida melhor. O Mare Nostrum dos Romanos que foi um símbolo de progresso civilizacional está transformado num Mare Mortum, como anuncia o título do jornal de Barcelona.
Esta evocação é uma oportuna chamada de atenção para todo o mundo e para muitos dos alucinados dirigentes que o governam e fecham os olhos a este tipo de tragédias humanitárias, mas é sobretudo uma valente bofetada nos dirigentes europeus que têm fortes responsabilidades na criação da dramática situação que tem acontecido no Mediterrâneo e para a qual têm sido incapazes de encontrar soluções. E nem é coisa que não tenha sido prevista por muita gente. Porém, o que tem acontecido é uma crescente subordinação da política aos interesses económicos e financeiros, numa relação em que os dirigentes são meros instrumentos dos interesses dos “mercados”. O respeito pelos direitos humanos e a solidariedade que devia ser praticada tornam-se secundárias. O ser humano é cada vez mais um número. A arrogância europeia é cada vez mais gritante. A sobranceria com que se olham os gregos ou os portugueses, não é muito diferente da indiferença com que olham os líbios, os sírios e outros povos que fogem da guerra.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

E se mais prémio houvera mais ganhara

O ano de 2016 vai ficar na história recente de Portugal, por muito boas razões.
No campo da nossa política interna tivemos uma eleição presidencial que colocou em Belém um homem que respira alegria e que despachou para o esquecimento de Boliqueime aquele que durante dez anos ensombrou a nossa vida política mas, como se isso fosse pouco, ainda tivemos um governo que acabou com aquela pantomina que era o arco da governação e que, segundo revelam as sondagens, está a merecer cada vez mais o agrado dos portugueses.
No campo da política internacional também assistimos a uma Comissão Europeia que, depois de tanto nos ter humilhado, se desfaz agora em elogios aos resultados da governação portuguesa, enquanto um processo de grande profissionalismo diplomático levou o enorme prestígio de António Guterres ao cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas.
No campo desportivo também o sucesso nos bateu à porta com as vitórias europeias no hóquei em patins e, sobretudo no Euro 2016, em que aquele golo do improvável Éder deixou o país cheio de orgulho e de lágrimas de alegria.
Porém, num tempo em que prevalecem as culturas mediáticas e pesem embora todas as coisas boas que aconteceram em Portugal, não será exagero afirmar-se que o ano de 2016 foi o ano de Cristiano Ronaldo, que no espectro mediático dá pelo nome de CR7. O homem fartou-se de ganhar títulos colectivos e prémios individuais. Então não é que agora foi eleito o melhor desportista europeu de 2016, quando havia desportistas alemães e ingleses, mas também franceses, italianos, espanhóis e de muitos outros países, que rematam, nadam, pedalam, velejam ou remam? Aqui nenhum jornal lhe dedicou uma página inteira, como hoje fez o diário espanhol as.
De facto, é caso para dizer que se mais prémio houvera, mais ganhara.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A volta ao mundo à vela em 47 dias

Alguns jornais franceses, tal como por cá fez o Diário de Notícias, destacam hoje nas suas primeiras páginas o notável feito de Thomas Coville, o navegador francês natural de Rennes de 48 anos de idade que, no comando do catamarã Sodebo Ultim de 31 metros, concluiu ontem a volta ao mundo em solitário no tempo de 49 dias, 3 horas, 7 minutos e 38 segundos. Trata-se de um novo recorde da volta ao mundo em solitário, sem escala e em catamarã, que bate por oito dias e 10 horas a anterior marca estabelecida em 2008 por Francis Joyon.
É um notável feito náutico de Thomas Coville que, no seu historial vélico, conta com sete voltas ao mundo, nove passagens no Cabo Horn e uma vitória na Volvo Ocean Race 2011-2012. Colville partiu de Brest no dia 6 de Novembro e cruzou ontem a linha de chegada virtual instalada em Ouessant, na Bretanha.
Costuma dizer-se que não há nada mais violento nem mais perigoso do que a navegação solitária, em que um pequeno erro de manobra pode significar a morte. Nesta sua aventura, Thomas Coville enfrentou algumas dificuldades, incluindo uma quase colisão com um cetáceo mas, sobretudo, quando já navegava no Atlântico norte e estava a poucos dias da chegada, encontrou fortes temporais com ventos de 45 nós e ondas alterosas.
Os velejadores da Bretanha são realmente fantásticos e, aparentemente, no mundo da vela ninguém os suplanta. Como, de resto, se tem visto na Vendée Globe que está actualmente a decorrer.

A grande festa do Natal

Embora o Natal seja uma festa cristã, por razões de diversa ordem transformou-se numa festa que perdeu muita da sua religiosidade e adquiriu contornos de festa pagã, demasiado virada para o consumo. Muitas das antigas tradições do Natal, incluindo o culto do presépio ou a missa do galo, têm perdido espaço de celebração, enquanto alguns novos símbolos natalícios como o Pai Natal ou a árvore do Natal se têm imposto um pouco por todo o lado. As crianças já não põem o sapatinho na chaminé, nem escrevem cartas ao Pai Natal. Tudo se tem alterado e, nesse quadro, domina a cultura do shopping center e a compra de prendas mais ou menos inúteis, para distribuir por miúdos e graúdos depois da ceia natalícia, que deve ser farta e bem regada.
Nesta crescente transformação do velho Natal religioso no novíssimo Natal consumista, que agora é dominado pelas renas da Lapónia a rebocar trenós, pelas vestes vermelhas do Pai Natal e pelas luzes cintilantes vendidas nas lojas chinesas, apenas se mantém a data de 25 de Dezembro e, ainda, uma fugaz ideia de Família.
Os jornais evocam essa data de forma muito ligeira e já não mostram presépios, mas tão somente e algumas vezes, uma fotografia da árvore de Natal gigante lá da terra que uma qualquer empresa patrocina. Porém, os franceses são uma excepção, porque muitos dos seus jornais publicam a fotografia do seu Père Noël e deixam bem clara a sua mensagem: Joyeux Noel.
Assim fez o jornal Paris-Normandie ao publicar a fotografia de um sorridente Pai Natal.
Hoje, porque ainda estamos em período de festas natalícias, deixo aqui os meus votos de Boas Festas aos leitores desta página.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O terror ataca uma Europa desnorteada

O terror e a violência chegaram agora a Berlim, a Ankara e a Zurich ou, como diz o diário escocês The Herald, os ataques terroristas atravessam toda a Europa. Antes, o terror passara por Nova Iorque, Moscovo, Madrid, Londres, Bruxelas, Paris e Nice. A ameaça terrorista parece que se está a tornar numa maldição que ataca e quer destruir a paz social e a harmonia a que aspiram cada homem e cada comunidade.
Antigamente o terrorismo tinha contornos políticos bem definidos e traduzia-se por uma luta contra os poderes ilegítimos ou ditatoriais, através de acções violentas como assassinatos, sequestros, raptos, assaltos ou explosões de bombas, mas nos tempos modernos a feição do terrorismo alterou-se. Embora utilize o mesmo tipo de violência contra alvos selectivos por forma a provocar vítimas ou a destruição de instalações, o seu objectivo principal é de natureza psicológica e destina-se a gerar o medo e o pânico nas populações, a perturbar a actividade económica e a fragilizar a vida social das comunidades.
O terrorismo que está a atravessar a Europa tem raizes e motivações que não têm sido compreendidas pelas autoridades europeias e, sobretudo, pelos governantes dos seus principais países, que têm alinhado com a desastrada política americana, primeiro de George W. Bush e depois de Barack Obama. Certamente que David Cameron, Nicolas Sarkozy e François Hollande, com a sua imprudente atitude de querer agradar aos americanos e vender armas aos países ricos do Golfo Pérsico, têm grandes responsabilidades na tragédia que está acontecer na Síria, mas também no Iraque, na Líbia e no Iémen. Os países países ricos do Golfo – Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Omã e Kuwait – não aceitam os seus irmãos sírios ou iraquianos como refugiados, mas em contrapartida compram enormes arsenais de armamento com que alimentam os grupos que se guerreiam na Síria e no Iraque. O ocidente vive nesta hipocrisia que esconde com uma propaganda mentirosa, apenas porque quer vender armamento a quem tem dinheiro para o pagar, obrigando-se em troca a aceitar os refugiados sírios e o seu desespero.
A desnorteada Europa semeou ventos, agora está a colher tempestades.

domingo, 18 de dezembro de 2016

O Brasil enguiçou, mas o Brasil vencerá!

O Brasil está a passar por um período difícil, não apenas por razões políticas e sociais, mas também por razões económicas, mas essa dificuldade não é apenas brasileira. Hoje é difícil encontrar um canto do mundo onde a harmonização entre a democracia, o crescimento económico e o emprego tenha inequívoco sucesso ou, dito de outra maneira, onde se caminhe firmemente para o progresso e o bem estar social das populações.
A globalização não está a ser uma luz que ilumina o mundo, a instabilidade é grande e vive-se num quadro de incerteza e de menor confiança no futuro. O nosso tempo, que se pensava poder ser de prosperidade devido aos progressos da ciência e da tecnologia, está a gerar muita conflitualidade, a paz global está ameaçada e surgem desafios a que se estava menos atento, como o combate à pobreza e à desigualdade, à poluição e à degradação do ambiente.
Tal como tem acontecido na generalidade das regiões do nosso planeta, também o Brasil atravessa um período de recessão económica e de instabilidade política, do qual precisa de sair  depressa para criar empregos, gerar rendimentos, reduzir a pobreza e assegurar os serviços fundamentais à população, como a educação, a saúde, a justiça e a segurança. Para conseguir tudo isso, o Brasil precisa de crescimento económico ou precisa de quebrar o enguiço.
A revista brasileira Época que se publica no Rio de Janeiro abordou esse problema na sua última edição - com uma capa cheia de criatividade - e trata do assunto numa perspectiva económica, recorrendo a uma máquina que harmoniza duas grandes engrenagens, isto é, a força de trabalho (capital humano) e os meios de produção (capital físico). Está certo e é isso que se aprende nas escolas de economia. Porém, esse crescimento económico não resulta apenas dessas duas engrenagens pois depende de uma complexa equação a muitas incógnitas e há três delas que são essenciais: a estabilidade política, o regular funcionamento das instituições e a confiança. As elites brasileiras deslumbraram-se com um ciclo económico favorável e abriram caminhos que agora não controlam. A máquina do crescimento quebrou. É preciso mais investimento. Mais produtividade. Menos burocracia. Mais inovação. Mais estabilidade política. Mais confiança. Mas o Brasil vencerá!

sábado, 17 de dezembro de 2016

A sorte de Sérgio Conceição anima Nantes

As coisas não corriam bem ao Football Club de Nantes na Liga Francesa de Futebol, pois não vencia um jogo desde o dia 15 de Outubro de 2016 e encontrava-se em 19º lugar da classificação. Segundo os relatos da imprensa, a cidade vivia triste com as derrotas do seu clube e sem as alegrias que tivera noutros tempos, quando averbara 8 Campeonatos e 3 Taças de França ao seu historial. Como costuma acontecer nestas situações, o clube decidiu-se por uma “chicotada psicológica” ao despedir o seu treinador e, no dia 8 de Dezembro, contratou o antigo internacional português Sérgio Conceição como seu novo treinador por duas temporadas. Conceição nunca jogou em França, não conhecerá bem o futebol francês e não tem grandes credenciais como treinador, pois apenas treinou o Olhanense, a Académica, o Sporting de Braga e o Vitória de Guimarães. Porém, o FC Nantes apostou nele.
Foi tudo muito rápido. No dia 11 de Dezembro Conceição foi apresentado aos jogadores do FC Nantes e no dia 13 venceu o Montpellier por 3-1, em jogo da Taça da Liga, ficando apurado para os quartos de final da competição. Ontem, dia 16 de Dezembro, o FC Nantes foi jogar a Angers para defrontar o clube local para a Liga francesa e ganhou por 2-0. A euforia tomou conta dos adeptos do clube de Nantes que é a 6ª cidade francesa e a capital da região do Loire. Em menos de uma semana foram dois jogos e duas vitórias. O jornal Presse Ocean destaca o nome do treinador português a cinco colunas na sua edição de hoje e diz que, em poucos dias, mudou o FC Nantes. Provavelmente, nem como jogador que até vestiu 56 vezes a camisola da selecção portuguesa, Sérgio Conceição foi tão elogiado como está a ser agora em Nantes. Que tenha sorte, porque no futebol a sorte pesa muito.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A tragédia de Alepo parece não ter fim

Perante a dramática situação que se vive em Alepo, na passada terça-feira dia 13, ao fim da tarde, a Rússia que é o principal aliado de Bashar al-Assad, e a Turquia que é o principal suporte da oposição síria, chegaram a um acordo: os rebeldes sitiados em Alepo aceitavam retirar da cidade e ficava estabelecido um corredor humanitário para a sua evacuação. A partir das cinco horas da manhã de quarta-feira dia 14, haveria autocarros governamentais para transportar os feridos, os civis e, depois, os combatentes rebeldes, com destino à província de Idlib, a oeste da cidade, que é controlada pela oposição ao regime sírio.
Nessa noite, os jornais de todo o mundo começaram a anunciar o cessar-fogo, o fim da batalha de Alepo e a vitória de Putin e Bashar al-Assad. Porém, às primeiras horas do dia, os bombardeamentos e os confrontos recomeçaram e os autocarros não saíram dos seus locais de espera. A evacuação foi cancelada e o desespero tomou conta da população, que apela ao mundo para que não esqueça a tragédia que se abateu sobre a cidade. Cada um dos vários grupos armados acusa o outro de ter rompido o acordo e de ter iniciado o bombardeamento. De um lado e do outro há vários grupos e várias alianças, provavelmente sem um comando único, tendo cada um deles interpretado à sua maneira o acordo entre Putin e Erdogan. Segundo as notícias, os mais resistentes ao acordo terão sido o influente grupo rebelde Noureddine AL-Zinki e as milícias iranianas aliadas do regime sírio.
A propaganda domina, até nas fotografias publicadas pela imprensa, umas com os tanques vitoriosos do regime sírio e outras mostrando o drama das populações. Os destaques noticiosos tanto vão para a “descoberta pelo exército sírio de câmaras de tortura rebeldes”, como para “as mulheres que se suicidam para fugir às violações do exército sírio”. Como sempre acontece nestas situações, não há bons nem maus. São todos maus. No entanto, é importante que não se esqueça, como faz hoje o Libération, porque é que tudo isto está a acontecer e quem são os principais responsáveis pela tragédia que se abateu sobre Alepo, mas também sobre a Síria, o Iraque, a Líbia, o Iémen e outros países da região. Como foi possível terem deixado as coisas chegar a este ponto?