sexta-feira, 12 de março de 2021

A guerra da Síria ou a tragédia esquecida

No próximo dia 15 de Março perfazem-se dez anos sobre o início da guerra civil na Síria. Tudo começou em Janeiro de 2011 com manifestações populares contra o regime de Bashar al-Assad, no contexto da chamada Primavera Árabe, tendo havido violentos confrontos entre os manifestantes e as forças de segurança do regime. No dia 15 de Março de 2011 uma parte do Exército sírio revoltou-se e juntou-se à oposição para destituir Bashar al-Assad, formando o Exército Livre da Síria (ELS), enquanto o regime e os seus fiéis passaram a tratar a oposição armada como terroristas. Porém, o objectivo da luta depressa deixou de ser a tomada do poder pela oposição, pois formaram-se diversos grupos de cariz religioso em que a rivalidade entre xiitas e sunitas prevaleceu. O conflito passou a opor uma maioria sunita apoiada pelos estados do Golfo às forças xiitas leais a Bashar al-Assad, apoiadas pelo Irão e pela Rússia. Entretanto, a partir de 2014 entrou em grande actividade ao lado da oposição o autoproclamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL ou Daesh) que depois passou a actuar de forma autónoma. Destas várias situações resultou a internacionalização do conflito com a entrada em cena do Líbano e do Iraque, dos estados do Golfo, da Turquia e do Irão, da Rússia e dos Estados Unidos. Em Março de 2019 o Daesh foi finalmente derrotado, depois de ter chegado a controlar mais de 200 mil quilómetros quadrados de território na Síria e no Iraque. Nessa altura, com o apoio russo o regime sírio controlava quase todo o território, mas a Turquia ameaçava a província síria do Curdistão. Então a guerra civil na Síria saíu da agenda dos mass media internacionais e pouco se sabe sobre o que se passa, isto é, se ainda há guerra, se há conversações, que potências estrangeiras estão no terreno ou se a reconstrução do país começou.
Agora, na passagem do décimo aniversário do início da guerra e por ocasião da visita papal ao Iraque, o jornal L’Osservatore Romano, que é o órgão oficial do Vaticano veio lembrar que há uma geração de sírios que foi devastada pela guerra e “o terrível impacto da guerra nas crianças sírias e nas suas famílias”, salientando que, de acordo com a Unicef, houve cerca de 12.000 crianças que foram mortas ou feridas e que mais de 5.700 menores foram recrutados como combatentes.
Entretanto, sobre o curso actual do conflito não há notícia.

quinta-feira, 11 de março de 2021

O Brasil, a pandemia e o regresso de Lula

Por razões históricas e culturais o Brasil está sempre presente na memória colectiva portuguesa e, por isso, os portugueses acompanham tudo o que vai acontecendo no maior país da América so Sul. Assim, na edição de hoje do jornal O Globo, que se publica no Rio de Janeiro, encontramos dois temas de destaque: a pandemia do covid-19 e a nova vida política do ex-presidente Lula da Silva.
O jornal anuncia que a pandemia está descontrolada e que o país é o epicentro de uma tragédia que, nas últimas 24 horas, provocou 2.349 mortes e revelou 80.955 novos casos - os números mais altos que se registaram até agora - evidenciando como tem sido errada a política sanitária de Jair Bolsonaro, ao não compreender a intensidade da pandemia a que um dia chamou uma gripezinha. No que respeita à vacinação, o jornal informa que cerca de nove milhões de brasileiros já tomaram a primeira vacina (4,26% da população) e que cerca de três milhões já receberam a segunda vacina (1,50% da população), mas a vastidão territorial do Brasil vai tornar muito complexa essa tarefa.
O outro tema em destaque na edição de hoje do jornal O Globo é o aparecimento público do ex-presidente Lula da Silva e as suas declarações de ataque a Jair Bolsonaro e à forma como tem sido conduzido o combate à pandemia mas, sobretudo, a sua declaração de ter sido vítima da maior manipulação jurídica que aconteceu no Brasil nos últimos 500 anos e que o juiz Sérgio Moro é um mentiroso. Lula da Silva não revelou as suas intenções quanto ao futuro, limitando-se a dizer que vai percorrer o país e reencontrar-se com os seus amigos e apoiantes, o que parece significar o início de uma caminhada que o leve de novo ao Palácio da Alvorada em Brasília, que ocupou entre 2003 e 2011. 
A pandemia derrotou Donald Trump. Será que a pandemia vai derrotar Bolsonaro?

terça-feira, 9 de março de 2021

Macau e a sua moderna Biblioteca Central

As edições dos três jornais macaenses que se publicam em português destacam hoje na sua primeira página uma fotografia da maquete do edifício da futura Biblioteca Central de Macau.
A intenção de construir uma biblioteca moderna já era antiga e o primeiro concurso para o projecto de arquitectura foi lançado em 2008, mas acabou por ser suspenso. Depois houve avanços e recuos que se arrastaram por muito tempo, mas parece que finalmente o projecto vai arrancar. No passado mês de Setembro foi anunciado que a nova Biblioteca Central seria construída na Praça do Tap Seac, no centro da cidade e no local onde se localizou o antigo Hotel Estoril, estando já escolhidas as quatro equipas de projectistas que integravam a short list – uma holandesa, uma finlandesa, uma suiça e outra irlandesa.
Agora, o governo de Macau anunciou que o atelier holandês Mecanno foi escolhido para desenvolver o projecto que apresentou. No seu portfólio a Mecanno conta com diversos projectos de referência como a Biblioteca de Birmingham, a renovação da Biblioteca Central Pública de Nova Iorque e a Biblioteca Dr. Martin Luther King em Washington. A escolha da Mecanno baseou-se na sua experiência neste tipo de projectos e no moderno design que apresentou, mas também foram analisados outras variáveis como o custo global, a dificuldade de construção, a concepção energética, a disposição funcional e os custos de design, entre outros. Os conceitos nucleares do projecto assentam na imagem de um livro, de estantes e lombadas e de uma página que se abre no centro da cidade.
As autoridades esperam que, mais do que um edifício onde se guardam livros, o novo edifício se torne num ex-libris da modernidade de Macau e um centro cultural de referência. A obra terá um custo estimado de 500 milhões de patacas (cerca de 52 milhões de euros) e espera-se que fique concluída em 2025.

Luiz Inácio Lula da Silva está de volta?

Luiz Inácio Lula da Silva foi presidente do Brasil entre 2003 e 2011, tendo sido um dos mais populares presidentes da história brasileira, tanto interna como externamente. Os seus governos foram marcados pelas políticas sociais como o Bolsa Família e o Fome Zero, que foram reconhecidos pelas Nações Unidas e se tornaram referenciais na luta contra a pobreza para muitos países.
Em 2013, dez anos depois do início desses programas, a FAO anunciava que o Brasil tinha conseguido reduzir a pobreza extrema em 75% e que, em termos globais, a pobreza tinha sido reduzida em 65%. Era a consagração das políticas sociais dos governos de Lula, pelo que foi reconhecido à escala mundial e foi distinguido com dezenas de condecorações e com 36 doutoramentos honoris causa.
A partir de 2016 surgiram acusações, designadamente de lavagem de dinheiro e de ocultação de património e, dois anos depois, foi condenado com pena de prisão pelo controverso juiz Sérgio Moro mas, após 580 dias na prisão, veio a ser libertado em Novembro de 2019. Muitos consideraram que o processo e a sentença foram viciados com intenções políticas, até porque Lula foi impedido de se candidatar à Presidência da República quando as sondagens lhe davam o favoritismo.
Ontem, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações ditadas pela Vara Federal de Curitiba e pelo juiz Moro, pelo que o antigo Presidente recuperou todos os seus direitos políticos.
Luiz Inácio Lula da Silva tem 75 anos de idade e poderá estar de volta como hoje titula o jornal O Dia que se publica no Rio de Janeiro. Lula já estará a equacionar a hipótese de se recandidatar às eleições presidenciais de 2022, mas também já estará a estudar a forma de pedir contas pelos danos políticos e morais que sofreu, devido à manipulação dos processos judiciais em que foi envolvido. Independentemente de se recandidatar ou não, o regresso de Lula da Silva à vida política anima milhões de brasileiros e vai ter consequências.

segunda-feira, 8 de março de 2021

As três medalhas de ouro para Portugal

Realizaram-se na cidade polaca de Torun durante quatro dias, os Campeonatos Europeus de Atletisno em pista coberta e a participação portuguesa destacou-se ao obter três medalhas de ouro, o que nunca acontecera, mesmo nos tempos de Carlos Lopes, de Rosa Mota e de outros grandes atletas que conhecemos. 
Com surpresa, as medalhas não foram conquistadas nas corridas de fundo como era habitual, mas em disciplinas ditas técnicas, como o lançamento do peso e o triplo salto. A consulta do medalheiro do European Athletics Campionship (indoor) mostra uma situação inédita, com Portugal no segundo lugar, apenas atrás da Holanda, mas bem à frente de todos os outros países participantes. Na sexta-feira tinha sido Auriol Dongmo a vencer a prova do lançamento do peso feminino e, ontem, foram Pedro Pichardo e Patrícia Mamona que venceram a prova do triplo salto. A bandeira portuguesa foi hasteada três vezes no Arena Torun e todos pudemos ver como cada um dos novos campeões europeus, mesmo com máscara, cantou A Portuguesa, o que não costuma acontecer com os futebolistas.
Os jornais desportivos portugueses renderam-se a estes resultados e, por uma vez, esqueceram o futebol e dedicaram a sua primeira página aos novos campeões europeus.
De facto, a indústria do futebol arrasa todo o espaço mediático desportivo, mas desta vez o jornal A Bola e os outros jornais desportivos portugueses, não conseguiram ignorar estes resultados.
Aqui fica o meu aplauso pelas performances desportivas destes três atletas, esperando-se que se mantenham em forma para os Jogos Olímpicos de Tóquio.

sábado, 6 de março de 2021

O Papa Francisco está em visita ao Iraque

Depois de vinte e quatro anos no poder, o ditador Saddam Hussein foi derrotado pelas tropas de uma coligação liderada pelos Estados Unidos que, no dia 20 de Março de 2003, invadiu o território do Iraque e o veio a ocupar militarmente.
A República do Iraque tinha sido criada na sequência da dissolução do Império Otomano a seguir à Grande Guerra de 1914-18, tornando-se num estado independente em 1919, mas a sua história mostra que nunca foi conseguida a unidade nacional, sobretudo devido às rivalidades religiosas entre xiitas, sunitas e curdos. Daí que os iraquianos tivessem vivido muito tempo com guerras e golpes de estado, tendo sido por essa mesma via que Saddam Hussein ocupou o poder em 1979 e o manteve até 2003.
Saddam Hussein era acusado de possuir armas de destruição em massa e essa foi a justificação para que a coligação invadisse o país à revelia do Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas essa acusação era falsa. Ele perdeu essa segunda Guerra do Golfo e foi capturado pelas tropas americanas. Seguiram-se os esforços da comunidade internacional patrocinados pelas Nações Unidas para pacificar o país e dar-lhe uma estrutura governativa estável. Porém a guerra abriu uma caixa de Pandora e, desde então, o país tem estado em guerra interna provocada por diferentes facções e sob ameaça externa, bastando recordar duas recentíssimas ocorrências: uma emboscada ocorrida a norte de Bagdad, em que morreram 11 soldados iraquianos e o duplo ataque suicida acontecido no centro de Bagdad, em que houve 32 mortos e 110 feridos. É nesse contexto de instabilidade nacional e de recrudescimento das actividades terroristas e do reaparecimento dos jihadistas do Estado Islâmico, que se está a realizar a viagem do Papa Francisco ao Iraque, em defesa da paz e da tolerância religiosa, mas também em apoio aos cristãos iraquianos. É um grande acontecimento no caminho da paz entre os iraquianos, mas também é um acto de grande coragem do Papa, tendo sido noticiado com destaque na imprensa internacional, designadamente pelo The Wall Street Journal.
O Papa Francisco chegou ontem a Bagdad e as primeiras notícias que nos chegam são promissoras, porque o encontro que já manteve com o ayattollah Ali al Sistani, a máxima autoridade religiosa dos xiitas, se traduziu num pacto de amizade sem precedentes entre cristãos e xiitas, de que resultará a protecção da minoria cristã no Iraque e em outros países do Médio Oriente.

sexta-feira, 5 de março de 2021

A pandemia e o Jair desesperam o Brasil

Com um sentido inverso do que se passa em Portugal, o Brasil está a atravessar um momento muito difícil devido à crise pandémica, verificando-se que o número de óbitos se aproxima dos dois mil registos diários, enquanto o número de novos infectados ultrapassa os setenta mil casos por dia. Esta situação é muito preocupante porque já estão contabilizados 260.970 óbitos desde o início da pandemia, um valor que no mundo só é superado pelos Estados Unidos. 
Embora seja difícil perceber as razões da actual subida de casos e de óbitos, verifica-se que a imprensa brasileira atribui uma boa parte dessa responsabilidade ao próprio presidente da República, recordando o mau exemplo que constituem as palavras que utiliza quando fala para a imprensa: “E daí?", "gripezinha", "não sou coveiro" e "país de maricas" foram algumas das formas utilizadas pelo presidente da República  para desvalorizar ou mesmo desdenhar publicamente uma situação que continua a alastrar e que já infectou mais de dez milhões de brasileiros.
Neste contexto, o presidente Jair Bolsonaro interveio e ontem fez uma declaração pública em Goiás, em que afirmou: "Vocês não ficaram em casa. Não se acovardaram. Temos que enfrentar os nossos problemas. Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?".
O jornal Estado de Minas, que se publica na cidade de Belo Horizonte, foi um dos jornais que não gostou da frescura, nem do mimimi, tendo criticado severamente as declarações do Jair, lembrando-lhe que o país real está desesperado. Outros jornais criticaram o Jair e lembraram a carência de vacinas e um confinamento pouco eficaz, a par de uma enorme quebra na economia. A OMS classificou a situação por que passa o Brasil como uma tragédia.
O Brasil bem precisava de um outro presidente, porque quando isto acabar vai ser necessário reconstruir o Brasil.

terça-feira, 2 de março de 2021

Um ano de covid-19 em Portugal

Perfaz-se hoje um ano sobre o dia 2 de Março de 2020 em que foram detectados os dois primeiros casos de covid-19 em Portugal e, desde então, verificaram-se 804 956 casos positivos dos quais cerca de 89,5% já recuperaram, tendo ocorrido 16 351 óbitos. Este número é dramático e supera o número de mortos havidos durante os treze anos de guerra colonial, mas esconde o drama de muitas famílias e uma realidade inesperada: o mundo mudou e nunca mais vai voltar a ser o que era, na política e na economia, na educação e na saúde, no desporto e na vida cultural. As facemasks e o take away, as conversas remotas via zoom e as compras online entraram nas nossas vidas e, durante o ano que passou, pudemos assistir a uma multidão de oportunistas que, disfarçados de especialistas, tomaram de assalto os espaços televisivos. Porém, a mediocridade da televisão portuguesa foi mais longe e entregou os seus noticiários a estagiários que, em vez de informarem e esclarecerem, apenas procuram saber o que não correu bem e arranjar responsáveis para serem queimados na praça pública. Tem sido um ano televisivamente lamentável.
Naturalmente que nem tudo tem corrido bem, até porque tudo está a passar-se num quadro que não se conhecia. No entanto, tem havido a humildade de reconhecer erros e tem havido o generoso contributo de muitos profissionais que, por detrás desta cortina que é a televisão e muitos dos seus patetas, trabalha dedicadamente nos hospitais e nos serviços de apoio à rede hospitalar. Por isso, aqui fica a minha gratidão e o meu aplauso à tenacidade e à dedicação com que a Ministra da Saúde, a Directora Geral da Saúde e as suas equipas têm enfrentado não só a pandemia, mas também o histerismo de comentadores, de estagiários de jornalismo e das ordens profissionais, tão apostadas andam na promoção pessoal dos seus bastonários.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Jair Bolsonaro: autoritário e populista

Embora sejamos confrontados com diferentes narrativas em relação à evolução da pandemia e haja notícias animadoras nas últimas semanas, ainda ninguém avança com previsões seguras quanto ao futuro, que continua dominado pela incerteza. No entanto há algumas excepções que contrariam o alívio que se sente um pouco por todo o mundo e a mais notória acontece no Brasil, que parece atravessar o seu pior momento em relação a novas infecções e ao número de óbitos, para além de se anunciar que em algumas cidades brasileiras os sistemas de saúde estão a entrar em colapso. O controlo da pandemia no Brasil tem dificuldades específicas devido à vastidão do território e à descentralização estadual, mas também devido à forma como os mais altos responsáveis do país quiseram tratar esta “gripezinha”, como se lhe referiu o próprio Presidente da República.
De facto, Jair Bolsonaro sempre desvalorizou a pandemia, ao mesmo tempo que sempre procurou reforçar o seu projecto de poder populista e autoritário, com que ultrapassa a lei, os princípios democráticos e o bom senso. O homem parece delirar e procura inspiração no rei Luis XIV que, em finais do século XVII, afirmou que “L´Etat c´est moi”. Pois Bolsonaro já no ano passado, imitando o Rei Sol, gritou que “eu sou a Constituição”. Agora, num novo registo de autoritarismo, decidiu interferir na Petrobras para servir a sua clientela, quebrando a confiança dos agentes económicos e descredibilizando o país junto dos mercados internacionais. O ridículo cobriu-o completamente quando gritou: “Eu sou o Estado”.
Na sua mais recente edição a revista paulista IstoÉ apresenta Bolsonaro como um vulgar rambo, denunciando o seu comportamento e os seus propósitos para concretizar um projecto de poder pessoal autoritário. Porém, a gravidade da crise sanitária, não parece levantar qualquer tipo de preocupação ao Jair.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Até na corrida às vacinas há corrupção

O primeiro dia de vacinação contra o covid-19 em Portugal aconteceu no dia 27 de Dezembro de 2020 e, nesse dia, foram vacinadas 4.534 pessoas. Escreveu-se então que foi um dia histórico para a generalidade dos países da União Europeia que, nesse dia, iniciaram os seus programas de vacinação. A rapidez com que foi descoberta a vacina foi um notável feito científico e gerou naturais expectativas no mundo. 
Todos querem ser vacinados, todos querem proteger-se dos efeitos da pandemia. Porém, como resultado da investigação científica surgiram vacinas que, embora de diferente grau de eficácia, geraram a encomenda de muitos milhões de unidades que os laboratórios não têm conseguido satisfazer. Daí resulta a escassez de vacinas e, o desfasamento entre a oferta e a procura, com muitos desvios aos planos de vacinação e com algumas distorções, por vezes desonestas, na sua aplicação.
No caso da Argentina, um país de 45 milhões de habitantes, aconteceu que nem a BioNTech-Pfizer, nem a AstraZeneca, nem Moderna, forneceram as vacinas de que o país precisava, pelo que as autoridades argentinas recorreram à Rússia que lhes forneceu a Sputnik V, tornando-se o terceiro país do mundo a utilizar a aquela vacina. Porém, porque foi intensa a corrida à vacinação ou porque o país vive sem regras, foram criadas listas de privilegiados ou listas VIP para favorecimento de parentes e de amigos, mostrando que a corrupção argentina tomou conta do processo. Milhares de pessoas denunciaram este escândalo e manifestaram-se em várias cidades do país, incluindo Buenos Aires, tendo o jornal Clarín publicado a fotografia da grande manifestação de protesto realizada na Plaza de Mayo, em frente da famosa Casa Rosada, a sede da presidência da República Argentina.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Evocando a viagem e a visita de Magalhães

No dia 6 de Março de 1521 a frota de Fernão de Magalhães, constituída pelas naus Trinidad, Victoria e Concepción, chegou a umas ilhas a que chamou ilhas dos Ladrões, depois de três meses e vinte dias de viagem sem escala, durante a travessia do Pacífico. Essas ilhas vieram a ser colonizadas pelos espanhóis e em 1668 o seu nome foi alterado para ilhas Marianas, em homenagem a Mariana de Áustria, a viúva de Filipe IV de Espanha. As ilhas dependiam da Capitania Geral das Filipinas, mas em 1898 foram cedidas aos Estados Unidos na sequência da guerra hispano-americana. Actualmente, constituem o Estado Livre das Marianas Setentrionais, dependente dos Estados Unidos, enquanto a ilha de Guam, que fica mais a sul do arquipélago e onde se localiza a cidade de Hagatña, é um território americano.
Foi a este porto que ontem chegou o navio-escola espanhol Juan Sebastian de Elcano que, 500 anos depois, está a fazer uma viagem de circum-navegação evocativa da viagem de Fernão de Magalhães.
O jornal Pacific Daily News noticia hoje a chegada do navio espanhol, que foi recebido por canoas à entrada do porto, onde se situa a Base Naval americana de Guam. Naturalmente a visita parece despertar a curiosidade da população, constituída sobretudo por militares americanos e suas famílias.
O que é curioso é que diversos navios-escolas, nomeadamente do Chile, da Itália e da Espanha, estão em viagens de instrução como se tem visto aqui nesta ruadosnavegantes, parecendo não recear o covid-19.

R.I.P. Alfredo Quintana

Há menos de um mês, durante o 27º Campeonato do Mundo de Andebol que se realizou no Egipto, a baliza portuguesa foi defendida pelo guarda-redes Alfredo Eduardo Quintana Bravo e a excelência das suas exibições ajudou a selecção de Portugal a alcançar um inédito 10º lugar na competição. As transmissões televisivas mostraram que a equipa portuguesa teve um comportamento notável, que exibiu um elevado nível competitivo e que era formada por vários jogadores de classe mundial. Um deles era Alfredo Quintana, que se destacava pela sua elevada estatura, pela sua atitude e pela sua agilidade.
De regresso a Portugal, retomou os seus treinos e foi durante uma sessão realizada no dia 22 de Fevereiro, que sofreu uma paragem cardio-respiratória. Foi de imediato transportado ao hospital e aí lutou pela vida durante quatro dias, mas não resistiu e faleceu aos 32 anos de idade.
Alfredo Quintana nascera na cidade cubana de Havana mas viera para Portugal em 2011 para representar a equipa de andebol do FC Porto, com a qual foi campeão de Portugal por seis vezes. Integrou-se na sociedade e na cultura portuguesas e requereu a nacionalidade do país que o acolheu, pelo que veio a representar a selecção nacional de andebol em 56 partidas.
O destino foi cruel para este grande atleta. O desporto português ficou de luto. Nesse mundo tantas vezes movido por rivalidades regionais e clubísticas, raramente se assistiu a tão grandes provas de solidariedade para com um atleta, expressas pela imprensa, pelo seu clube, pelos seus companheiros e pelos seus adversários, significando que Alfredo Quintana era um grande atleta, mas também um grande desportista.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

O ben-u-ron, a dor de cabeça e a Mona Lisa

A Publicidade é uma técnica de comunicação que codifica ideias e as transmite para o espaço público, para influenciar o comportamento do público, ou de uma parte dele, levando-o a adquirir um bem ou um serviço, a adoptar uma determinada opinião e, até, a escolher o candidato em que deve depositar o seu voto. No complexo mundo da comunicação, a codificação das mensagens publicitárias é uma arte em que a imaginação é essencial para que o receptor distinga e reconheça umas mensagens mais interessantes do que outras. Por isso, os anunciantes procuram mostrar que o seu produto lava mais branco ou anda mais rápido, que a sua viagem é mais confortável, que ninguém lhe oferece melhores condições de crédito ou que o seu candidato é o melhor. Nesta corrida para ganhar a preferência dos consumidores, dos utentes, dos leitores, dos telespectadores, dos sócios ou dos eleitores, a mensagem publicitária recorre à criatividade, mas muitas vezes é mentirosa e manipuladora, pelo que nos surpreende cada vez menos. A sua função traduz-se muitas vezes por um modelo simplificado, o chamado modelo AIDA, isto é, pretende chamar a atenção, despertar o interesse, suscitar o desejo e levar à aquisição, mas os exageros dos publicitários por vezes não despertam o interesse e até provocam a rejeição da mensagem.
Tudo isto vem a propósito do anúncio da bene farmacêutica, Lda, a filial portuguesa da companhia alemã bene-Arzneimittel GmbH que, para vender o ben-u-ron – que existe em todas as casas portuguesas – até conseguiu pôr a Mona Lisa ou Gioconda, a obra-prima de Leonardo da Vinci, com dores de cabeça ou enxaqueca e a suspirar por um ben-u-ron.
Trata-se, realmente, de uma ideia muito criativa e que não atenta com nenhuma das regras do código deontológico da Publicidade.

A crise da aviação à sombra dos Pirinéus

Um pequeno jornal regional de nome L’Éclair des Pyrénées, que se publica na cidade francesa de Pau, na região Pyrénées-Atlantique, destaca na sua edição de hoje que há “dezenas e dezenas de aviões de todo o mundo” no aeroporto de Tarbes, que está transformado num enorme parque de estacionamento, enquanto se espera que o tráfego aéreo mundial regresse à normalidade.
A fotografia que ilustra aquela notícia de primeira página mostra dois aviões da TAP estacionados entre muitos outros, sendo visíveis num segundo plano as montanhas nevadas da cordilheira dos Pirinéus. Os dois aviões "abandonados" junto das montanhas pirenaicas, são uma das expressões da grave crise que atravessa a transportadora aérea nacional. 
Os aviões estão à guarda da empresa Tarmac Aerosave, que é a maior empresa europeia que se dedica a esta actividade, mas com a crise causada pela pandemia do covid-19, a empresa viu aumentar a procura dos seus espaços que já existiam em Tarbes (Pyrénées-Atlantique), em Teruel (Espanha) e em Toulouse (Occitânia), abrindo um novo estacionamento em Vatry (Marne). A empresa presta serviços de armazenagem e guarda dos aviões, assegura a sua manutenção, protege os seus sistemas electrónicos mais sensíveis, isto é, o avião não fica abandonado e mantém-se capaz de voar a todo o momento. 
Actualmente, a empresa guarda 230 aviões nos seus quatro estacionamentos mas, segundo é referido na notícia do L’Éclair des Pyrénées, há uma longa lista de aviões e de companhias aéreas em espera. Porém, se necessário, a empresa também assegura a reciclagem dos aparelhos e há a convicção de que muitos dos aviões guardados pela Tarmac Aerosave não voltarão a voar.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Vespucci, la nave più bella del mondo

O navio-escola Amerigo Vespucci foi construído nos estaleiros de Castellammare di Stabia, próximo de Nápoles, tendo sido incorporado na Marina Militare Italiana no dia 22 de Fevereiro de 1931.
O navio celebrou ontem 90 anos de vida, de muitas navegações e uma viagem de circumnavegação realizada entre Maio de 2002 e Setembro de 2003, pelo que os mass media italianos foram visitá-lo na sua base da La Spezia, na região da Ligúria. Com base nos press releases que receberam, todos os jornais se referiram à efeméride aniversariante da “nave più bella del mondo” e, no caso do Il Tirreno, que se publica em Livorno, a cidade que alberga a Escola Naval italiana, o jornal tratou de publicar uma sugestiva fotografia do navio na sua primeira página.
O Vespucci é um belo navio e sempre foi um símbolo da Marinha Italiana, havendo uma curiosa história à volta dele. Em 1962 navegava no Mediterrâneo quando se cruzou com o porta-aviões americano USS Independence e, de acordo com os procedimentos habituais do cerimonial marítimo internacional, o porta-aviões terá interrogado o navio italiano e daí terá resultado a seguinte troca de mensagens:
           - Independence: “What ship?”.
            - Amerigo Vespucci: “Amerigo Vespucci School Ship, Italian Navy".
            - Independence: "You are the most beautiful ship in the world".

Naturalmente, as autoridades marítimas e os seus serviços de relações públicas ampliaram esta notícia, verdadeira ou não, passando a classificar a sua nave scuola como la “nave più bella del mondo”, o que pode deixar alguns países marítimos desconsolados.
Nestas coisas é sempre difícil utilizar o artigo definido, mas há que reconhecer que tem algum sentido que o navio-escola Vespucci seja classificado como o mais belo navio do mundo, mesmo que isso custe muito a quem já viu o navio-escola Sagres.