quinta-feira, 3 de março de 2022

Quando a fotografia serve a propaganda

A resistência ucraniana está a surpreender o mundo e as notícias que vamos recebendo indicam que têm sido distribuídas armas à população, que foram organizadas forças de voluntários civis, que estão a ser preparados obstáculos para impedir a progressão de viaturas blindadas e que, em várias cidades, os civis estão a ser ensinados a fazer e a lançar cocktails molotov.
Por isso, tem um significado muito simbólico a fotografia hoje publicada pelo jornal croata Večernji list e pelo jornal italiano La Repubblica, na qual um combatente civil lança um cocktail molotov num cenário de fogo e fumo em que se vê uma bandeira ucraniana, um outro homem que observa aquele lançamento e a mão de um terceiro homem que estende um outro cocktail molotov. Aquela imagem, captada na cidade de Zhytomyr, a menos de cem quilómetrios de Kiev, associada à expressão do jornal italiano - La resistenza di un popolo – deixa ao leitor a ideia de que se trata de um ataque da corajosa resistência ucraniana, até porque tem sido anunciado que as forças invasoras russas se encontram às portas de Kiev.
Porém, numa breve pesquisa efectuada na internet, verificamos que se trata de uma imagem retirada de um conjunto de imagens captadas numa vulgar sessão de treino de lançamento de cocktails molotov ou numa sessão especialmente preparada para a recolha de fotografias, que foi realizada em Zhytomyr. Assim, aquela que parecia ser uma fotografia para ficar na História da Resistência Ucraniana, não passa de uma imagem enganosa destinada a servir a propaganda e a manipular alguém ou alguma coisa, incluindo aqueles dois jornais.

Solidariedade para com o povo ucraniano

A guerra na Ucrânia pode ser analisada sob diferentes aspectos políticos e militares, mas a resistência ucraniana às forças invasoras russas parece ser o aspecto mais surpreendente desse conflito que está a atravessar o centro da Europa e que parece agravar-se em cada dia que passa. A Ucrânia está a reagir como um pequeno Davi que enfrenta o gigante Golias. 
A mobilização popular para combater o invasor por todos os meios e a ideia de defender as cidades, rua a rua, estão a impressionar a Europa, pois já não se imaginava que houvesse um povo com tanta coragem e tanta heroicidade, num tempo em que as sociedades contemporâneas estão dominadas pelos valores do consumo e do conforto, que tendem a sobrepor-se a todos os outros ideais, como a independência e a liberdade. 
Na chamada Europa das Pátrias, o exemplo da Ucrânia é, certamente, um caso singular. Poucos defenderiam a sua terra como o estão a fazer os ucranianos. Por isso, a solidariedade europeia para com o povo ucraniano está a acentuar-se à medida que se vai conhecendo a firmeza e a determinação ucraniana para resistir ao invasor, apesar dos intensos bombardeamentos russos que são feitos sobre as cidades. 
Essa solidariedade está a manifestar-se de formas muito diversas, mas destacamos a iniciativa do jornal italiano Corriere della Sera que, na sua edição de hoje, mostra a sua solidariedade e homenageia a nação ucraniana, ao publicar a sua bandeira em todo o espaço da sua primeira página.  

quarta-feira, 2 de março de 2022

Futebol é jogo de paz e desanuviamento

O noticiário, tanto o nacional como o internacional, está a ser dominado pela guerra na Ucrânia que, aparentemente, se está a intensificar, como se pode observar pelas imagens televisivas que nos chegam e que mostram as explosões, as destruições e as colunas de refugiados que atravessam as fronteiras. As notícias revelam que prevalece a desinformação e a contrainformação produzidas por ambas as partes e não é necessário ser-se perito em coisas militares para perceber que isso está a acontecer em larga escala. Na realidade, sabemos muito pouco quanto à evolução da guerra nas cidades de Kiev e Kharkiv, bem como nas cidades do sul, situadas na orla do mar Negro, como Mariupol, Berdiansk, Melitopol, Kherson e Odessa. A ansiedade está a tomar conta da Europa, não só devido aos elevados riscos nucleares que nos ameaçam, mas também porque não se conhecem os desígnios de Putin e até onde ele pretende ir.
Neste contexto, um simples jogo de futebol acaba por ser um alívio para a tensão que aflige as pessoas e para que os canais televisivos deixem de nos massacrar repetidamente com as mesmas notícias, muitas delas inverdadeiras. Hoje o Sporting e o FC Porto defrontam-se em Lisboa, quando ainda estão vivos os graves incidentes ocorridos no passado dia 11 de Fevereiro, após o jogo em que as duas equipas se defrontaram. Desse dia ficou pouco mais do que a imagem positiva do abraço entre os dois treinadores, hoje republicada em dois jornais desportivos. O que hoje se espera é que Amorim e Conceição “estejam à altura do clássico” como diz o jornal A Bola, ou que estejam “unidos pela paz” como escreve o jornal O Jogo, que acrescenta que “os treinadores desarmadilharam clima de tensão antes do primeiro duelo na Taça de Portugal”.
Realmente, perante a tragédia que está a acontecer no centro da Europa, não há quaisquer razões para que esta noite aconteça outra coisa que não seja um jogo de futebol pacífico, animado e divertido, isto é, um bom espectáculo com artistas inspirados.

terça-feira, 1 de março de 2022

A Europa Unida no apoio à Ucrânia

As imagens que as televisões nos mostram de milhares de refugiados, sobretudo mulheres e crianças, que procuram segurança na Polónia e na Roménia, impressionam mais do que as imagens de tanques ou de viaturas destruídas, ou que as notícias de combates à volta das cidades ucranianas. Essas imagens, que mostram a face mais desumana e mais cruel da guerra, têm sido o elemento mobilizador da opinião pública mundial na solidariedade e no apoio ao povo ucraniano. Muitos milhares de pessoas em inúmeras cidades europeias e não europeias, têm vindo para a rua protestar contra a guerra e contra os desígnios de Vladimir Putin, que parece não ter sequer o apoio da maioria da população russa. Ao mesmo tempo, a União Europeia veio mostrar um sentido de unidade que não lhe era habitual, ao adoptar sanções económicas severas contra a Rússia e medidas de apoio à Ucrânia, onde se inclui o fornecimento de material letal. Em edição especial, o jornal Le Monde destaca hoje a união da Europa no apoio à Ucrânia como um facto notável, pois representa a vontade europeia de actuar autonomamente em relação aos Estados Unidos e à NATO. As vozes dos falcões atlantistas como são as figuras de  Joe Biden ou de Jens Stoltenberg têm-se apagado, enquanto as vozes europeístas de Ursula von der Leyen, Josep Borrell, Emmanuel Macron ou Charles Michel têm sido ouvidas com mais insistência, a mostrar que o problema ucraniano é um problema europeu.
Apesar de já se terem dado alguns passos no sentido de um cessar-fogo, a situação é muito complexa e até mesmo perigosa, mas todos havemos de confiar que uma boa solução possa estar a caminho, sobretudo se o assunto for tratado como um problema entre europeus, o que dispensa o irritante da participação directa e injustificada da NATO e dos americanos na solução desta crise.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Um breve encontro, um passo necessário

A guerra prossegue no território ucraniano, mas pouco sabemos sobre o que realmente se passa no terreno, para além das repetidas imagens televisivas que nos chegam e que nos mostram o sofrimento das populações na sua fuga em busca de segurança. Essas imagens são reais. As grandes novidades desta crise serão a ameaça de utilização de armamento nuclear por uma das partes (Rússia) e o enorme apoio internacional que tem a outra parte do conflito (Ucrânia), mas também a intensa utilização das plataformas comunicacionais, como a televisão e as redes sociais, que estão a fazer um novo tipo de guerra através de uma intensa manipulação da informação, mas que também servem para mobilizar solidariedades, para denunciar abusos e para reclamar pelo fim da guerra.
Putin foi longe demais e abriu uma caixa de Pandora. Hoje houve um breve encontro entre as partes e esse foi um passo necessário e um sinal de esperança. A Europa deveria ter estado nesse encontro a mediar, mas optou por apoiar uma das partes e lançar gasolina para a fogueira. Naturalmente, cada uma das delegações estará a estudar as propostas que recebeu da outra parte como base para uma negociação e para um desejável cessar-fogo, esperando-se que cada uma delas entenda bem o que é uma negociação, isto é, que saiba que tem que ceder alguma coisa para que o sofrimento da população fique por aqui.
Os tempos mudaram muito e as imagens que nos chegam das populações em fuga do território ucraniano, bem como as ameaças russas, têm gerado solidariedades por todo o mundo, inclusive na própria Rússia. Milhares de pessoas por todo o mundo têm participado em marchas de protesto contra a guerra e em apoio do povo ucraniano. O jornal The Washington Post foi um dos jornais que hoje destacou em primeira página a grande manifestação contra a guerra, ontem realizada em Berlim.   
Hoje o presidente Zelensky pediu a adesão urgente da Ucrânia à União Europeia. Não sei se será a melhor altura para abrir o processo de adesão que é sempre demorado, recordando aqui que Portugal esperou uns bons dez anos para satisfazer todos os critérios necessários.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

A resistência e a coragem de Zelensky

Sabe-se pouco sobre o que vai acontecendo no conflito que está em curso na Ucrânia, porque as notícias são contraditórias e resultam das necessidades de desinformação e da política de contrainformação de ambas as partes. Há referências a um possível encontro entre russos e ucranianos, nas próximas horas, o que não pode deixar de nos dar alguma esperança de estarmos a caminho de um cessar-fogo, de negociações e da paz.
Apesar de ter havido repetidas provocações, tanto por parte dos russos como por parte dos ocidentais e dos falcões da NATO, a inesperada e brutal invasão russa deixou o mundo perplexo. Pouco se sabe sobre o que se passa no terreno, sobre os combates, sobre as baixas ou sobre quem está a ter vantagem nas operações, mas são visíveis as imagens de milhares de pessoas que fogem das cidades e procuram refúgio nos países fronteiros, bem como as imagens do protesto que o mundo está a fazer contra a invasão das tropas de Putin e de solidariedade para com a Ucrânia.
Nestas difíceis circunstâncias e neste clima de incerteza, um homem já se impôs ao respeito dos seus concidadãos e ao mundo: Volodymyr Olexandrovytch Zelensky. Tem 44 anos de idade e é o actual presidente da Ucrânia, cargo para que foi eleito em Maio de 2019. Não tem passado político e, enquanto actor e comediante, desempenhou o papel de presidente da Ucrânia na série televisiva “Servo do Povo”, que foi transmitida entre 2015 e 2019 pela televisão ucraniana. Será um populista mas, inesperadamente, tem sido o rosto e a voz da resistência, num exemplo de coragem a lembrar a firmeza do presidente chileno Salvador Allende, que em 1973 foi deposto por um golpe militar chefiado pelo general Augusto Pinochet. 
Hoje o jornal regional francês Courrier picard, que se publica em Amiens, presta-lhe uma homenagem a que me associo. Bravo Volodymyr Zelensky!

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Guerra continua mas pouco sabemos dela

A invasão russa da Ucrânia prossegue e apesar de nos chegarem muitas notícias provenientes do território ucraniano, pouco sabemos sobre o que de facto está a acontecer e sobre os propósitos das tropas invasoras. Vemos a inesperada e corajosa intervenção do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, vemos algumas imagens pouco esclarecedoras de operações militares, mas não temos visto soldados, nem colunas militares, nem ataques aéreos. Ambas as partes estão a utilizar a desinformação e a contrainformação em larga escala, como é habitual nestes casos, para estimular os seus combatentes e para suscitar a compreensão ou o apoio internacionais. 
A população das cidades parece estar a abandoná-las e a procurar refúgio e segurança nos países vizinhos. Há notícia de operações em várias regiões do país mas, aparentemente, o objectivo russo é dominar a cidade de Kiev, a capital da Ucrânia e forçar a rendição do presidente Zelensky, havendo muitos jornais internacionais que, tal como o diário Público, publicam exactamente a mesma fotografia em que vêm soldados ucranianos a tomar posição para resistir às tropas russas.
Entretanto, a diplomacia poderá já estar a trabalhar para conseguir um cessar-fogo que permita reencontrar a paz. É a melhor notícia que nos pode chegar da Ucrânia, mas os negociadores terão de utilizar a inteligência e a sensatez, mas também os conhecimentos da História e saber que a negociação é uma arte e não um jogo de teimosos.
Há vários países europeus que, nas disputas Leste-Oeste, optaram por um estatuto de neutralidade. É o caso da Suíça, da Áustria, da Finlândia e da Suécia. Talvez esses exemplos sirvam para inspirar os diplomatas russos e ucranianos.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Um dia muito negro na História da Europa

Na madrugada de hoje, Vladimir Putin falou aos russos e ao mundo para anunciar a iniciativa que todos temiam, mas que poucos acreditavam ser possível, isto é, a invasão da Ucrânia. Depois de muitos dias de diálogo, contactos diplomáticos, consultas e conversações, mas também de ameaças, acusações e insultos, tudo parecia caminhar no sentido de ser encontrada uma solução que resultaria de alguma cedência das partes e que recusasse a guerra e as suas consequências catastróficas. 
Porém, aconteceu uma crescente radicalização, sem que cada parte atendesse aos argumentos da outra.
No longo discurso que pronunciou esta madrugada, Putin considerou que a Rússia e o seu povo estavam cada vez mais ameaçados pelos Estados Unidos e pela NATO, afirmando que “decidi conduzir uma operação militar especial” e que “a Rússia moderna, mesmo após o colapso da URSS e a perda de uma parte significativa do seu potencial, é hoje uma das potências nucleares mais poderosas do mundo”, o que deve ser associado a outra passagem do seu discurso em que Putin também disse que “quem nos tentar impedir, deve saber que a resposta da Rússia será imediata”. Trata-se de uma declaração de guerra à NATO e ninguém sabe o que vai acontecer. É um dia muito negro na História da Europa. A iniciativa de Putin tem sido condenada com veemência, com as excepções do costume. Só a imprensa sul-americana não deu a notícia da invasão da Ucrânia porque quando Putin falou, a América do Sul ainda estava no dia anterior…
Em Portugal temos o presidente Marcelo a condenar a violação do direito internacional e temos o primeiro-ministro Costa a afirmar que está preparada uma força militar portuguesa para missões de dissuasão da NATO, mas que a NATO não vai intervir na Ucrânia. 
Todos condenam Putin e declaram solidariedade para com o povo ucraniano. Nós também. Que o cessar-fogo e a diplomacia cheguem depressa. Que tudo isto seja apenas um mau sonho.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

O invasor Putin e as reacções ocidentais

Não é fácil consultar a imprensa que se publica nos países situados para além daquilo que Churchill chamou a Cortina de Ferro e que estiveram alinhados com a União Soviética, desde o fim da 2ª Guerra Mundial até à sua implosão nos anos 90 do século passado. Porém, a Polónia é uma excepção, pois a sua imprensa está disponível na internet. 
A Polónia foi pioneira na contestação ao sovietismo através do movimento sindical Solidariedade, que lançou os primeiros sinais que prenunciavam o colapso do comunismo na Europa Oriental e o fim da União Soviética e do seu modelo político-económico. Depois o país democratizou-se, foi integrado na NATO em 1999 e passou a fazer parte da União Europeia em 2004. Nessa altura, inspirado no jornal alemão Bildsurgiu em Varsóvia o jornal tablóide Fakt que é, actualmente, um dos jornais mais vendidos na Polónia. O jornal tem características conservadoras, nacionalistas e populistas e, com a ajuda do Google, é possível ler alguma coisa do seu conteúdo. Pois na sua última edição o jornal escolheu uma “imperial” fotografia de Vladimir Putin e o título “Putin zaborca”, que significa “Putin invasor”. Depois, publica as fotografias de Emmanuel Macron, Boris Johnson, Joe Biden e Olaf Scholz e escreve “Co teraz zrobi Zachód?” que, segundo o referido Google, quer dizer “O que vai agora fazer o Ocidente?”.
Embora se trate de um jornal de características populistas, ele traduz o sentimento generalizado naquele país de que Putin foi o invasor, mas também que estão à espera que o Ocidente faça alguma coisa…
Porém, é necessário estar atento à propaganda com que ambas as partes do conflito manipulam as opiniões públicas e, sobretudo, ao que dizem os comentadores encartados.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

A Ucrânia e o passo em frente do Vladimir

Vladimir Putin anunciou o reconhecimento da independência das chamadas repúblicas rebeldes de Donetsk e Lugansk, situadas no leste da Ucrânia, o que significa um passo em frente no conflito que se vem desenvolvendo entre a Rússia e os Estados Unidos, no qual a Europa deveria ter um papel decisivo mas que se limita a um seguidismo dos seus falcões, que estão subordinados aos interesses americanos. De imediato, as novas repúblicas pediram o apoio russo e Putin mandou avançar os seus tanques como forças de manutenção da paz para a bacia de Donbass, que é a maior região industrial do país e que tem uma área semelhante a metade de Portugal, com quase cinco milhões de habitantes.
A Ucrânia está no centro da Europa e, em vez de ser olhada como parte da Rússia ou como parte da Europa Ocidental, deveria ser tratada como o país multicultural e multireligioso, cujo destino seria a moderação dos apetites históricos, tanto dos russos, como dos ocidentais. A ideia de levar a NATO para a Europa oriental, que já Henry Kissinger condenara, tem sido uma provocação para o orgulho russo. O antigo secretário de Estado americano assinou em 2014 um artigo no The Washington Post, intitulado “How the Ukraine Crisis Ends”, em que afirma que ”a Ucrânia faz parte da Rússia há séculos” e, de facto, o país só é independente há 23 anos, na sequência da queda do império soviético e da humilhação que foi feita aos russos.
E agora? A incerteza é completa sobre o que se vai passar. Hoje, as televisões vão encher-se de comentadores a criticar a iniciativa russa que foi precipitada, pois ainda havia muito espaço para a diplomacia, mas também vão fazer os seus prognósticos. Haverá confrontos militares entre russos e ucranianos? Os russos limitar-se-ão apenas ao controlo do Donbass ou tenderão a ocupar o leste da Ucrânia, onde se encontra o porto de Mariupol, para se ligarem ao território da República Autónoma da Crimeia? Etc, etc.
O certo é que vêm aí tempos muito difíceis, porque “Putin orders troops to Ukraine’s East”, como hoje destaca The Wall Street Journal.

sábado, 19 de fevereiro de 2022

As milícias digitais como arma política

O Brasil parece estar sob a crescente influência das milícias digitais, uma expressão que se vem impondo na cobertura mediática para definir aqueles que actuam organizadamente nas redes sociais e em aplicações de troca de mensagens com o objectivo de influenciar resultados políticos, através da mentira, da difamação, da violência e da intimidação. Porém, as chamadas milícias digitais não são um exclusivo brasileiro, estiveram activas sob as ordens de Donald Trump e a sua acção é bem evidente nos nossos dias, como se vê na manipulação da opinião pública internacional a respeito do conflito na Ucrânia.
No que respeita à milícia digital bolsonarista, segundo revela a última edição da revista IstoÉ, trata-se de uma organização criminosa que é comandada por gente da confiança de Jair Bolsonaro e que difunde mentiras sob a forma de fake news para atacar a reputação dos seus adversários políticos, estando agrupada no chamado gabinete do ódio, instalado no terceiro andar do palácio do Planalto a poucos metros do gabinete do presidente Jair Bolsonaro. A Polícia Federal brasileira estará a investigar esta grave situação de ataque à democracia, que terá começado a manifestar-se durante a campanha eleitoral que em 2018 levou Bolsonaro à presidência, com 55% dos votos e com vitória em 16 dos 27 estados brasileiros.
O gabinete do ódio dispõe de diversos núcleos operacionais e é dirigido pelo senador Flávio Bolsonaro e pelo vereador Carlos Bolsonaro, filhos de Jair Bolsonaro. O seu principal objectivo é o ataque ao ex-presidente Lula da Silva, que tem sido alvo de mentiras, calúnias e notícias distorcidas, não só para o difamar, mas também para encobrir a gestão bolsonarista que levou o Brasil ao retrocesso económico e social.
O facto é que quem assiste diariamente aos noticiários televisivos portugueses, não tem dificuldade em constatar que, também por cá, existem milícias semelhantes às milícias digitais bolsonaristas.

A tempestade Eunice e uma bela fotografia

A passagem da tempestade Eunice pelo noroeste europeu traduziu-se em algumas mortes e muitas destruições em vários países, devido aos ventos que chegaram a atingir quase 200 quilómetros por hora, às chuvas torrenciais, à forte agitação marítima e às ondas gigantes que afectaram a sua orla costeira. As Ilhas Britânicas, devido aos seus condicionalismos geográficos, foram severamente afectadas e o jornal Daily Express classificou a tempestade como “the storm of the century”, enquanto um jornal espanhol escrevia que foi “la peor tormenta en décadas y causa el caos en Europa”. Na ilha de Wight, a sul de Southampton, pode ter sido registada a rajada de vento mais violenta alguma vez registada na Inglaterra: 196 quilómetros por hora. Mais de 400 mil pessoas ficaram sem electricidade na área de Londres e a cobertura da O2 Arena, a maior sala de espectáculos da capital britânica, foi levada pelo vento. Muitas árvores caíram, os aeroportos foram encerrados e milhões de pessoas foram aconselhadas a ficar em casa.
Na sua edição de hoje o jornal The Guardian também destaca a Eunice como a pior tempestade acontecida em décadas na Inglaterra e publica uma espectacular fotografia captada em Porthcawl, nas proximidades da cidade de Cardiff, em South Wales, a mostrar que apesar das destruições causadas pela tempestade, é possível captar fotografias excepcionais.

Ucrania: la guerra ci fa vergognare tutti

O jornal L’Osservatore Romano, que é a voz do Vaticano e do Papa, destaca na sua última edição a fotografia de um tanque e a frase “la guerra ci fa vergognare tutti”, isto é, a guerra que nos envergonha a todos. É verdade, esta guerra envergonha-nos a todos. Os falcões ocidentais com um tal Stoltenberg à cabeça, bem como aqueles que não os denunciam, parecem estar ávidos de uma guerra que significa tragédia e morte, destruição de património e lucro para as indústrias do armamento. As suas centrais de propaganda e os seus agentes querem ressuscitar a guerra fria e todos os dias anunciam a concentração de mais soldados russos nas fronteiras e a iminência de uma invasão do território ucraniano, apontando mesmo o seu modus faciendi. Há poucos meses assistimos à forma como esse exemplo de democrata que é Donald Trump insultou a unidade europeia e, agora, são exactamente os mesmos americanos que nos falam da unidade do Ocidente para fazer frente às tropas do ditador Vladimir Putin, como se os interesses americanos e europeus, ou das várias europas, fossem convergentes.
Aqui em Portugal é inquietante assistir ao desfilar televisivo de inúmeros pseudo-especialistas em geopolítica e em estratégia militar que, desonestamente, têm feito passar na opinião pública a ideia de que os russos são maus e que os americanos são bons, mas também que a Europa tem que alinhar ao lado do aventureirismo americano, tal como já fez no Iraque, na Síria e no Afeganistão, numa cruzada sem sentido e sem glória.
A compreensão do que se passa obriga-nos a conhecer a História e a ver com atenção o mapa da Europa. O Velho Continente não pode ser condenado a ser um mero peão americano neste complexo xadrez e compete-lhe ser a voz da diplomacia, da moderação e do apaziguamento, neste conflito de rivalidades e de interesses estratégicos que se vem desenvolvendo na Ucrânia e que nos envergonha a todos.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Fortes temporais levaram o luto ao Brasil

O Brasil está de luto porque um temporal acompanhado de chuva torrencial provocou fortes inundações e deslizamento de terras de que resultaram 110 mortos e mais de 130 desaparecidos em Petrópolis, uma cidade situada na periferia do Rio de Janeiro.
Petrópolis é uma cidade histórica envolvida pelo belo Parque Nacional da Serra dos Órgãos, que se caracteriza pelos seus picos arborizados e quedas de água, nela se localizando o antigo palácio imperial de D. Pedro II, o filho do imperador D. Pedro I e neto de D. João VI, bem como o Museu Imperial e a Catedral de São Pedro de Alcântara. 
É o local que, como nenhum outro, conserva a memória imperial do Brasil, mas também é um sítio castigado ciclicamente com tragédias provocadas por temporais. No ano de 2011 as chuvas torrenciais provocaram enxurradas de lama e pedras que mataram pelo menos 918 pessoas em toda a região mas, apesar disso, os sucessivos governadores do Rio de Janeiro não tomaram as medidas de prevenção requeridas, incluindo a recuperação de encostas, o reflorestamento das margens dos rios, a demolição de casas em locais de risco e a realização de uma campanha de sensibilização da população para o problema. 
Nada foi feito e, por isso, a tragédia não foi inesperada como referiu a edição de ontem do jornal O Globo do Rio de Janeiro. A imprensa brasileira deu grande cobertura a este doloroso acontecimento que levou a dor, o desespero e o luto à Cidade Imperial, enquanto as televisões divulgaram impressionantes imagens da destruição e da desolação que se abateu sobre a cidade de Petrópolis.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

O nosso país está adiado há muito tempo

O Tribunal Constitucional decidiu, por unanimidade, declarar a nulidade das eleições legislativas de 30 de Janeiro em mais de uma centena de assembleias de voto do círculo da Europa e a repetição do acto eleitoral. Esta decisão considerou nulos 157.205 votos, correspondentes a cerca de 80% dos votos por correspondência que não chegaram acompanhados pela fotocópia do documento de identificação do eleitor, conforme determina a lei, mas vieram a ser misturados com os votos válidos em cerca de 150 secções de voto. A Comissão Nacional de Eleições já deliberou que a nova votação presencial se realizará nos dias 12 e 13 de Março e que os votos por via postal serão validados se forem recebidos até ao dia 23 de Março. Espera-se que este imbróglio não se volte a repetir e que todos os agentes envolvidos neste processo sejam mais atentos e responsáveis, até pelos avultados custos que envolve, não só políticos, mas também financeiros.
A posse do novo governo estava agendada para o dia 23 de Fevereiro, mas vai agora ser adiada em pelo menos um mês, o que levou o jornal Público a escrever um título desproporcionado, quanto ao conteúdo e quanto à dimensão – o país adiado. Ora o país está adiado há muito tempo e não é por causa da anulação das eleições do círculo da Europa e de só mais tarde termos um novo governo, mas por muitas outras coisas que vão acontecendo no território e no tecido social. O que adia o nosso país é a ausência de causas e a cegueira partidária dos nossos agentes políticos, o egoísmo das elites, o escandaloso compadrio nacional, mas também a falta de ambição, o conformismo e a vaidade, entre outras coisas. Há uma grande confusão, que precisa de ser clarificada, na Justiça, no Serviço Nacional de Saúde ou na Defesa Nacional, mas não só. Porém, a comunicação social que podia ser mobilizadora em tantas causas de progresso, opta por perseguir o sensacionalismo e as audiências, vai criando mitos e massacra-nos com a “espuma dos dias”, como são o caso Rendeiro, ou os incidentes do Porto-Sporting, ou a “invasão” da Ucrânia.