quarta-feira, 20 de abril de 2022

Eleições francesas: Macron ou Le Pen?

Os candidatos à presidência da França que chegaram à 2ª volta, vão encontrar-se esta noite num debate televisivo que interessa a meio mundo e não apenas aos franceses. O centrista e actual presidente Emmanuel Macron parece ter alguma vantagem sobre a candidata radical de extrema-direita Marine Le Pen, mas as sondagens têm errado tanto, como se viu desde o imprevisto "sim" ao Brexit, até à recente vitória de Carlos Moedas em Lisboa, que é caso para utilizar a repetida expressão “prognósticos só no fim do jogo”. Por isso, o debate desta noite pode influenciar o resultado do próximo domingo.
As eleições francesas são muito importantes para a Europa e para o mundo, porque à instabilidade e à incerteza trazidas pela guerra na Ucrânia, junta-se a ameaça de implosão da União Europeia, que o projecto nacionalista de Marine Le Pen corporiza. Por outro lado, Emmanuel Macron tem sido o líder ocidental que, aparentemente, mais tem feito no sentido de haver um cessar-fogo na Ucrânia e para que haja negociações entre Kiev e Moscovo, ou entre Moscovo e Washington.
Hoje, toda a imprensa francesa, como sucede com o jornal Le Parisien, dedica largo espaço ao debate desta noite. Nos tempos por que passamos, a vitória de Emmanuel Macron é uma necessidade para não aprofundar a incerteza com que actualmente nos confrontamos, ou mesmo para salvar o projecto europeu de paz, solidariedade e progresso.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Angola protege o seu património cultural

O Dia Internacional dos Monumentos e Sítios foi ontem evocado em todo o mundo sob a inspiração da Unesco e, em Angola, segundo hoje revela a edição do Jornal de Angola, ocorreram muitas iniciativas de que se destaca a classificação do Palácio do Governo, em Luanda, como novo registo do Património Histórico-Cultural Nacional.
De acordo com a directora-geral do Instituto Nacional do Património Cultural de Angola, o país conta actualmente com 265 monumentos e sítios classificados, embora a notícia do Jornal de Angola refira que são mais de trezentos. O facto é que parece que as autoridades angolanas estão a trabalhar para preservar o seu património cultural – património imaterial, património móvel e património imóvel – mas também para a sensibilização da sociedade sobre essa matéria, incluindo a consciencialização quanto aos efeitos ambientais na vida e na cultura dos povos.
Do registo nacional para o plano mundial há um enorme salto e, actualmente, Angola apenas tem Mbanza Kongo, que conserva os vestígios da capital do antigo Reino do Kongo, registada desde 2017 na World Heritage List da Unesco. Entretanto, a Unesco já tinha aceitado os processos de inscrição preliminar que agora deverão ser acelerados, das gravuras rupestres de Tchitundu-Hulu, no Namibe, do corredor do Kwanza que está ligado à rota da escravatura e da cidade de Cuito Cuanavale, que é considerada um símbolo da paz, do diálogo e da reconciliação nacional. O governo angolano anunciou agora que pretende avançar este ano com estas três candidaturas para inscrição na rota do património mundial da Unesco. É uma boa notícia para Angola e não só.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Viva o andebol que nos dá boas alegrias!

A selecção portuguesa de andebol classificou-se pela segunda vez consecutiva para o Campeonato do Mundo de 2023, depois de ter derrotado a selecção dos Países Baixos por 35-28 num jogo disputado em Eindhoven, depois de ter perdido por 33-30 no jogo da primeira mão disputado em Portimão. Desta maneira, a selecção portuguesa garantiu a sua quinta presença num Mundial de andebol, depois de ter participado nas edições de 1997, 2002, 2003 e 2021.
O 2023 World Men’s Handball Chamionship vai ser disputado na Suécia e na Polónia, entre os dias 11 e 29 de Janeiro de 2023. No dia 2 de Julho será realizado em Katowice o sorteio que distribuirá as 32 equipas finalistas por oito grupos de quatro equipas cada.
A Dinamarca é a actual bicampeã do mundo, tendo triunfado no anterior campeonato disputado em 2021 no Egipto, em que Portugal obteve a décima posição.
Hoje, com a sua insensibilidade habitual aos desportos que não o futebol, a imprensa portuguesa não deu qualquer destaque a esta notícia desportiva, incluindo os jornais desportivos que se esgotaram a discutir e a analisar o Sporting-Benfica que se realizou ontem.
Porém, aqui fica o nosso aplauso à equipa portuguesa de andebol que, esperemos, nos possa dar alegrias no próximo Campeonato do Mundo.

domingo, 17 de abril de 2022

Falcon 50, ou vício de utilizar mordomias

O semanário tal & qual foi fundado em 1980 pelo jornalista Joaquim Letria e foi publicado até 2007, data em que por motivos económicos cessou a sua publicação. De formato tablóide e de circulação semanal, tinha bastante aceitação e teve grande sucesso, embora adoptasse uma postura demasiado sensacionalista.
Em Junho de 2021 o jornal reapareceu sob a responsabilidade de um consórcio de jornalistas, alguns dos quais são reconhecidamente credíveis, com o mesmo estilo sensacionalista que tinha adoptado na sua versão inicial.
Na sua última edição, o semanário escolheu o título “o que está a dar é andar de Falcon”, que está em linha com a sua orientação editorial sensacionalista. Pois o jornal verificou que, entre Abril de 2021 e Abril de 2022, os três Falcon 50 da Força Aérea Portuguesa realizaram 71 viagens ao serviço do Presidente da República e de membros do Governo, designadamente do Primeiro-Ministro e dos Ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa Nacional. No caso do Chefe do Estado, o Falcon 50 foi utilizado trinta vezes, não só no interior do território nacional, mas também em viagens para o estrangeiro. Esta frequente requisição do Falcon 50 é uma mordomia, um verdadeiro exagero, uma despesa desnecessária e um caso de novo-riquismo injustificável. Um dos exemplos apresentados na imprensa referem-se ao passado dia 29 de Março, em que Marcelo Rebelo de Sousa utilizou um Falcon 50 para ir ao Porto ver o jogo de futebol entre Portugal e a Macedónia do Norte, de qualificação para o Mundial de 2022 e, depois, para regressar a Lisboa para poder estar presente no Coliseu dos Recreios, para assistir ao final do concerto com que Simone de Oliveira assinalou o seu fim de 65 anos de carreira.
Então os Falcon 50 são para estas coisas?

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Um duro golpe para a Marinha da Rússia

A evolução da guerra na Ucrânia, ou da operação especial como se lhe referiu o Vladimir, tem-me interessado pouco, sobretudo porque as televisões são demasiado repetitivas e seguem à risca as novas regras do jornalismo tablóide e sensacionalista, em que a verdade pouco vale. Daí resulta uma manipulação dos factos, com a difusão de notícias a transformar-se muitas vezes num exercício de propaganda, em que se misturam opiniões com factos, uns verdadeiros e outros não. Porém, as imagens da guerra são brutais, trágicas e chocantes. Não se imaginava que fosse possível acontecer o que está a suceder. Há que parar com esta catástrofe e discutir depois o que tiver que ser discutido.
Entretanto, parecem estar suspensas as negociações com vista a um cessar-fogo que tarda e, pelo contrário, há demasiados sinais de agravamento do conflito, tanto no terreno, como nas chancelarias que parece pensarem mais no envio de armas para a fogueira, do que chegar à paz.
Na noite de quarta-feira, ao largo de Odessa, o cruzador russo Moskva, o navio-almirante da frota do mar Negro, teve uma explosão a bordo, seguida de incêndio e acabou por se afundar. Russos e ucranianos deram explicações bem diferentes para esse caso. Para os ucranianos, o navio terá sido atingido por dois mísseis R-360 Neptuno, que provocaram o incêndio, a que se seguiu a explosão de munições, mas os russos negam que tenha havido impacto de mísseis. A tripulação de cerca de 500 elementos abandonou o navio que, com graves danos, começou a ser rebocado para Sevastopol, mas acabou por se afundar.
O cruzador Moskva deslocava 12.490 toneladas e tinha 184 metros de comprimento, estando ao serviço desde 1983. O seu afundamento foi um duro golpe para a Marinha da Rússia, uma enorme derrota no campo psicológico e um forte abalo no seu orgulho, enquanto os ucranianos reivindicam uma grande vitória que, a ser verdade o ataque de mísseis, é um feito notável para a tecnologia ucraniana e que, certamente, vai entusiasmar a resistência contra o invasor russo.
Fontes americanas não confirmaram a reivindicação ucraniana, afirmando apenas que houve uma “explosão significativa” no navio e que deu origem a um “incêndio significativo”. Os jornais americanos de referência usam as palavras afundamento, explosão e perda, para referir o que se passou, sem se referirem a qualquer acção ucraniana e sem grande destaque jornalístico, apesar de se tratar do mais relevante acto de guerra acontecido até agora.
Com ou sem a intervenção de mísseis, este episódio é uma grande vitória ucraniana e um dolorosa derrota russa. Curiosamente só o jornal Público e dois jornais italianos publicam a notícia com fotografia do navio em primeira página, mas o jornal português destaca-se por ser o único jornal que afirma que “ataque ucraniano afundou o Moskva”.
É caso para dizer que é mais papista do que o Papa.

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Carlos Tavares: remunerações e prémios

Na sequência de um acordo de fusão 50:50 celebrado em Dezembro de 2019 entre a Peugeot (Grupo PSA) e o grupo Fiat Chrysler Automobiles NV, foi criado um novo grupo gigante do sector automóvel que adoptou o nome Stellantis e que iniciou a sua actividade em Janeiro de 2021, com o gestor português Carlos Tavares como CEO.
O grupo está registado e tem sede em Amesterdão, possui quase trezentos mil funcionários e reúne 14 marcas, entre as quais a Alfa Romeo, Citroën, Fiat, Jeep, Lancia, Maserati, Opel e Peugeot. Ontem, em assembleia geral, os accionistas do grupo rejeitaram a proposta de remunerações dos administradores, influenciados pela polémica que surgiu em França relativa aos valores pagos ou a pagar pela Stellantis a Carlos Tavares que, segundo o jornal Le Monde, terá recebido 66 milhões de euros de remunerações em 2021. Porém, de acordo com o relatório submetido aos accionistas, a remuneração de Carlos Tavares relativa a 2021 terá sido de 19.153.507 euros, dos quais apenas 1,99 milhões de euros correspondem à remuneração-base.
O valor de 66 milhões de euros que tem sido divulgado não constitui uma remuneração imediata, pois trata-se de acções atribuídas no âmbito do plano de incentivos de longo prazo, avaliadas em 32 milhões de euros, e outras remunerações em dinheiro que poderão ser recebidas a longo prazo. Portanto, o anúncio de 66 milhões de euros, não é verdadeiro, mas quer seja 19, quer seja 66, é uma coisa escandalosa em qualquer parte do mundo.
No entanto, num ano em que os lucros da Stellantis atingiram 13.354 milhões de euros, o grupo reconheceu “a excepcional capacidade de Mr. Tavares para transformar a Stellantis”, mas os valores do seu pacote salarial têm sido considerados “indecentes e revoltantes” e o assunto já entrou na disputa eleitoral em França, enquanto o jornal La Tribune lhe dedica a capa da sua edição de hoje.

terça-feira, 12 de abril de 2022

A imponência da Semana Santa em Málaga

A Espanha tem uma forte tradição religiosa e cultural em torno da Semana Santa, durante a qual se presta homenagem e devoção à Paixão de Jesus Cristo na última semana da Quaresma, que antecede a Páscoa. As inúmeras irmandades católicas espanholas organizam monumentais procissões de penitência pelas ruas de quase todas as cidades e vilas, sobretudo na Andaluzia e, em especial, nas cidades de Sevilha, Málaga, Granada e Jerez de la Frontera. 
Nessas procissões incorporam-se os pasos, que são semelhantes a carros alegóricos que suportam esculturas de santos ou cenas da Paixão de Cristo, que por vezes existem há séculos e são guardados durante o ano pelas irmandades. Alguns desses pasos ou tronos pesam mais de cinco toneladas e são carregados por mais de 250 membros da irmandade ou irmãos, que usam uma vestimenta especial que consiste de uma túnica ou manto, com ou sem capuz com ponta cónica, sendo acompanhados por bandas de música que executam marchas adequadas.
A Semana Santa de Málaga é celebrada desde há mais de cinco séculos e foi declarada em 1965 como Festival de Interesse Turístico Internacional, sendo famosa em toda a Espanha. Durante a Semana Santa Malaguenha as 42 irmandades existentes na cidade organizam 45 procissões pelas ruas da cidade e a imponência das cerimónias atrai milhões de visitantes, segundo informa um texto oficial.
A edição de hoje do jornal Sur, o mais conhecido diário malaguenho, dedica toda a sua primeira página à Procissão da Segunda-Feira Santa que se realizou ontem, na qual se pode observar a presença de milhares de pessoas.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

A escolha dos franceses: Macron ou Le Pen

As eleições presidenciais francesas são um acontecimento político muito importante para a Europa, sobretudo no actual quadro de guerra que se vive no leste europeu e, por isso, são destacadas hoje no jornal Le Figaro, mas também pela imprensa mundial.
Na primeira volta que ontem se disputou, o candidato Emmanuel Macron obteve 28,3% dos votos e a candidata Marine Le Pen conseguiu 23,6%, pelo que irão de novo a votos no próximo dia 24 de Abril. Pelo caminho ficaram dez outros candidatos, com destaque para Jean-Luc Mélenchon que obteve 20,8% dos votos.
Significa que a França ficou com um quadro muito semelhante ao que teve nas anteriores eleições presidenciais de 2017, pois voltará a ter os mesmos candidatos na segunda volta. Nessas eleições, Macron obteve 24,01% na primeira volta realizada no dia 23 de Abril de 2017 e Le Pen ficou-se pelos 21,3% dos votos. Depois, na segunda volta realizada no dia 7 de Maio, Macron chegou aos 66,1% e Le Pen obteve apenas 33,9% dos votos.
Os comentadores especializados dizem que em 2022 não vai ser como em 2017, o que as sondagens também estão a confirmar, além de que o próprio Emmanuel Macron já declarou que “não nos enganemos, nada está decidido”.
A escolha dos franceses preocupa a Europa, pois parece que muitos tenderão a favorecer os candidatos que melhores garantias lhes ofereçam quanto à qualidade de vida, ao emprego e à melhoria do poder de compra, isto é, ao seu interesse pessoal imediato. Porém, numa altura em que o conflito ucraniano está na ordem do dia, os europeus esperam que o futuro presidente da França possa contribuir para a estabilidade e para o apaziguamento no leste europeu e que não atire mais gasolina para a fogueira.

domingo, 10 de abril de 2022

As vistas a Kiev dos líderes europeus

Quando, há muitos anos, assistia a disputas e confrontações violentas entre duas pessoas, sempre procurei separá-las sem cuidar de saber quem tinha razão e, por isso, quando hoje vejo as multidões de refugiados a abandonar a Ucrânia, a brutal destruição do património e os mortos espalhados pelas cidades, só penso no cessar-fogo, na arbitragem, nas negociações e, naturalmente, no fim de toda esta tragédia.
Há todas as versões possíveis sobre as causas próximas ou remotas deste conflito que já se transformou numa grande catástrofe mas, nesta fase, não interessará muito discuti-las na praça pública pois tendem a ser distorcidas por razões emocionais. Também não é suficiente dizer-se que a Rússia é o agressor e que a Ucrânia é o agredido porque, pelo menos desde 2014, se sucediam intermináveis escaramuças entre os dois países, ou seja, tudo isto já começou há vários anos. Esses são alguns dos assuntos para discutir à mesa das negociações, mas primeiro há que concretizar o cessar-fogo.
Porém, tem havido uma intensa campanha nos mass media internacionais e, de forma muito especial nas televisões portuguesas, não para procurar o cessar-fogo e a paz, mas sobretudo para acusar a Rússia e incriminá-la por crimes guerra. Volodymyr Zelensky tornou-se a principal figura desta guerra, pela sua coragem, persistência e capacidade de comunicação que usa com mestria, mas ao mesmo tempo que pede armas, afirma-se pronto para negociações. Porém, os seus aliados ocidentais gostam de o ouvir enquanto pede armas que lhe são prometidas e que objectivamente prolongam a guerra, mas nunca falam na necessidade de parar com a guerra.
A recente visita de Ursula von der Leyen a Kiev teve uma marca de solidariedade e de apoio humanitário que deve ser elogiada mas, pelo contrário, a visita de Boris Johnson que o jornal The Sunday Telegraph hoje destaca, foi um acto de propaganda pessoal e de instrumentalização da catástrofe ucraniana do primeiro-ministro britânico que, perigosamente, tende a intensificar ou mesmo a internacionalizar a guerra e nada contribui para a paz.

sábado, 9 de abril de 2022

A França e a incerteza das suas eleições

A edição de hoje do jornal Le Figaro dedica a sua primeira página às eleições presidenciais francesas que se realizam amanhã e escolheu como título “A França na hora da escolha”, enquanto ilustra a notícia com uma fotografia onde se podem ver os cartazes dos doze candidatos presidenciais que vão a votos. As últimas sondagens que se conhecem vieram aumentar a incerteza quanto aos resultados esperados, até porque há cada vez mais gente a desconfiar de sondagens.
O actual presidente Emmanuel Macron, que liderava destacado nas intenções de voto, vem perdendo espaço nas sondagens, enquanto Marine Le Pen se vem aproximando da linha da frente nas intenções de voto. Os últimos resultados apontam para 27% para Macron, 24% para Marine Le Pen, 17% para Jean-Luc Mélenchon e 9% para Eric Zemmour, o que no quadro das margens de erro destas sondagens significa a incerteza. No entanto, há sondagens que dão esses dois candidatos, do centro e da extrema-direita, separados apenas por 2%. 
Essa incerteza quanto ao vencedor da 1ª volta, não se coloca em relação aos candidatos que disputarão a 2ª volta no dia 24 de Abril, podendo afirmar-se com segurança que serão Macron e Le Pen. Significa, assim, que Macron e Le Pen irão retomar o combate que disputaram na 2ª volta das eleições presidenciais de 7 de Maio de 2017, quando Macron obteve 66% e Le Pen 33%. Agora, as sondagens apontam para um resultado favorável para Emmanuel Macron apenas com 52%, o que significa incerteza, mas também que, apesar dos seus cinco anos no Eliseu, não conquistou a popularidade nem a confiança dos franceses.
Quanto à importância destas eleições para a França, para a Europa e até para a paz no mundo, ninguém tem dúvidas.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Algumas hipocrisias da guerra na Ucrânia

Estamos a assistir diariamente a preocupantes sinais de um alastramento do conflito ucraniano a outras esferas que não apenas a específica área militar, com destaque para a esfera económica e para as sanções que têm sido impostas à Federação Russa por inúmeros países. Uma das sanções mais dolorosas para os russos, terá sido a Executive Order (O.E.) de 8 de Março, assinada por Joe Biden, em que é proibida aos americanos a importação de petróleo, gás natural e carvão russos, isto é, os Estados Unidos decretaram o embargo à importação de hidrocarbonetos ou energias fósseis russas.
Porém, é sabido como a globalização deu origem a uma enorme interdependência entre as economias e como os factores de produção se encontram muito dispersos, pelo que o processo produtivo se internacionalizou e mostra como todos são cada vez mais dependentes de todos. Por isso, todos os embargos têm um efeito bumerangue, pois afectam as duas partes do processo e nem todos se sujeitam aos diktats políticos.
Só assim se compreende a notícia que hoje é destacada pelo jornal financeiro francês La Tribune, em que revela que apesar do embargo, os Estados Unidos continuam a importar petróleo russo. A investigação baseou-se na consulta do portal marinetraffic.com, que regista os movimentos de navios petroleiros, bem como as datas e portos de partida e de chegada. Assim, o jornal verificou o registo de chegada a portos americanos de vários navios hasteando diferentes bandeiras, uns saídos de Krasnodar, no mar Negro, e outros de Ust-Luga, na região de São Petersburgo. O jornal diz ainda que “pelo menos sete petroleiros provenientes da Rússia, navegam actualmente para os Estados Unidos com petróleo russo, segundo os dados do portal marinetraffic.com”.
Segundo o jornal, estes fluxos mostram que apesar do embargo, os hidrocarbonetos russos continuam a chegar aos Estados Unidos e que se elevam a cerca de 148 mil barris diários. Para além da tragédia humana e da destruição, é realmente cada vez mais difícil perceber o que se está a passar no meio de tantas hipocrisias.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

China is watching

Enquanto a incerteza e a guerra, mas também a tragédia humanitária e a brutal destruição das cidades continuam a dominar a situação na Ucrânia, a China observa. Esse é o teor de alguns conteúdos da imprensa internacional e é esse o título da mais recente edição da revista Newsweek, em cuja capa se vê Xi Jinping a espreitar.
Significa que o conflito da Ucrânia não é apenas uma disputa entre irmãos, geograficamente bem localizada no centro da Europa, mas que está a ser uma luta pela recomposição de poderes militares e económicos à escala planetária, na qual muita gente está interessada, tanto no ocidente, como do outro lado do mundo.
Há poucas semanas, as ambições repetidamente expressas pelos responsáveis chineses de anexar Taiwan pela força talvez tivessem muitos seguidores em Pequim, mas com os acontecimentos que estão a observar na Ucrânia, incluindo a corajosa postura dos seus líderes, a resistência popular da população, a solidariedade activa da NATO e a derrota russa na sua tentativa de dominar Kiev, a China está a ficar desencorajada de cumprir a promessa de capturar a ilha “rebelde” de Taiwan e os seus 24 milhões de habitantes. Noutra perspectiva, também a união que até agora se tem verificado em torno da NATO e os efeitos das sanções económicas impostas à Rússia, são motivos adicionais para dissuadir Xi Jinping e a sua equipa de tomar qualquer iniciativa no sentido do regresso forçado da ilha de Taiwan à grande China, onde a resistência ucraniana está a ser uma inspiração para a população de Taiwan.
No entanto, tudo está em movimento e a China observa.

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Que venha o cessar-fogo e bem depressa!

Nas guerras modernas como aquela que está a devastar a Ucrânia, são decisivos os papéis desempenhados pela propaganda e pela contrainformação, não só para mobilizar as populações e os combatentes, mas também para agitar as opiniões públicas internacionais e para assegurar apoios políticos ou militares de governos estrangeiros.
Por isso, quando se está a cerca de 3.500 quilómetros de Kiev e sem a pressão emocional e directa da tragédia, é normal que haja muita desconfiança quanto às notícias que nos chegam, pois incluem distorções e mentiras que se repetem nas televisões e nas redes sociais, adquirindo por vezes o estatuto de notícias verdadeiras. Dessa forma, pouco sabemos sobre o que realmente se passa na Ucrânia, embora saibamos do drama dos refugiados, da enorme destruição nas cidades e da corajosa resistência popular ucraniana. Desconhecemos, também, se há envolvimento de forças estrangeiras nos combates, quais são e de quem são os avanços e os recuos e, ainda, qual é o real andamento das negociações para um cessar-fogo cada vez mais urgente.
Porém, a retirada russa dos arredores de Kiev veio permitir a divulgação de imagens captadas em Bucha, nos arredores da capital, em que se vêm centenas de cadáveres de civis, aparentemente executados pelas tropas russas. Essas imagens aparentam ser verdadeiras e estão a gerar grande indignação internacional, com o regime de Putin a ser acusado de genocídio. Há suspeitas de torturas e de massacres. Há fortes indícios de crimes de guerra a lembrar My Lai (1968), Wiriyamu (1972) e Srebenica (1995), mas também pode haver alguma encenação para incriminar os russos. A exigência de uma investigação independente que foi reivindicada pelas Nações Unidas é absolutamente necessária para conhecer a verdade.
Nas suas edições de hoje a imprensa internacional faz eco da horrível situação que foi encontrada em Bucha e o jornal francês Libération usa a palavra barbárie para a descrever. Quanto tempo irá decorrer até que saibamos a verdade sobre a trágica realidade encontrada em Bucha?

domingo, 3 de abril de 2022

Salgueiro Maia, o maior capitão de Abril

O jornal Público evoca na sua edição de hoje o 30º aniversário da morte de Fernando Salgueiro Maia, o capitão que no dia 25 de Abril de 1974 comandou a coluna de blindados que saiu de Santarém e se dirigiu para Lisboa. Na capital começou por ocupar o Terreiro do Paço onde resistiu às forças que se lhe opuseram e, ao fim da tarde, montou o cerco ao quartel do Carmo, forçando a rendição de Marcelo Caetano, o presidente do Conselho de Ministros. Com a sua enorme coragem e grande determinação, Salgueiro Maia deu o principal passo para o derrube da ditadura do Estado Novo e para a instauração da democracia, tornando-se muito justamente num dos maiores símbolos dessa data libertadora, a par de Otelo Saraiva de Carvalho e de outros militares.
Salgueiro Maia morreu em 1992 por doença, quando tinha 47 anos de idade. Apesar de lhe terem sido abertas todas as portas do poder, sempre recusou privilégios ou cargos confortáveis e bem remunerados com que o sistema costuma proteger os mais ambiciosos ou os menos escrupulosos. Essas circunstâncias tornaram-no um militar respeitado, tanto pelos seus companheiros, como pelos seus adversários. O povo compreendeu o seu destacado papel na mudança do regime político, bem como a sua coragem física e a sua generosidade cívica. O seu nome passou a fazer parte da toponímia das nossas cidades e vilas, inspirou criadores e autores, dando origem a manifestações culturais de toda a ordem, na literatura, na música, no cinema e na arte urbana. O filme Salgueiro Maia, o implicado que vai estrear brevemente, é um dos mais recentes tributos à memória do capitão que “nunca quis ser herói”.
Aqui lhe presto, também, a minha grata homenagem.

sábado, 2 de abril de 2022

A desejável neutralidade para a Ucrânia

A guerra da Ucrânia ocupa a informação portuguesa desde há mais de um mês, através da presença de muitos enviados especiais no terreno e de inúmeros comentadores e comentadoras nos estúdios, cujas notícias, opiniões e comentários são repetidos demasiadas vezes, como se fizessem parte de um programa de propaganda organizada.
Apesar disso, hoje sabe-se pouco sobre o que realmente se passa no terreno, embora possamos ver cenários de grande tragédia humana e de grande destruição patrimonial, que as televisões nos mostram durante horas e horas. O cessar-fogo já deveria ter acontecido, mas há quem não esteja interessado nele, apesar das negociações estarem a dar alguns bons passos, segundo tem sido divulgado, designadamente quanto a uma futura neutralidade ucraniana e à sua não integração na NATO.
A questão russo-ucraniana tornou-se um problema mundial. Na Eslováquia, um dos sete países que tem fronteiras com a Ucrânia e que é um pequeno país que pertence à União Europeia e à NATO, o jornal Denník N que se publica em Bratislava, deu hoje espaço de primeira página a um curioso cartoon com as cores ucranianas e com um guarda-chuva que protege o país dos bombardeamentos, russos ou outros, escrevendo Akú neutralitu by brali Ukrajinci que, em tradução feita pelo google significa, que neutralidade aceitariam os ucranianos. O cartoon é inteligente e insinua uma Ucrânia neutral, em que o guarda-chuva da neutralidade protege o país de todas bombas, venham elas de onde vierem.
Para além da questão da neutralidade ucraniana e da integração na União Europeia, há as questões mais complexas das autonomias ou das independências no Donbass, da ocupação russa da Crimeia, do estatuto da cidade autónoma de Sebastopol, dos acessos ucranianos ao mar Negro e da compatibilização no mesmo país de duas línguas, duas culturas e duas religiões, para além das feridas que irão persistir durante muito tempo na sociedade ucraniana em relação às suas próprias comunidades e à Rússia.
É mesmo um desafio muito difícil, mas não pode deixar de ser procurada uma rápida solução para a Ucrânia com a ajuda da comunidade internacional. A neutralidade como tem a Áustria ou a Finlândia pode ser uma solução.