segunda-feira, 19 de setembro de 2022

O tenor Plácido Domingo encantou Sevilha

Plácido Domingo tem 81 anos de idade e foi a principal atracção da gala lírica que inaugurou a primeira edição das Noches de la Maestranza, o novo festival que se realizou na famosa Plaza de Toros de La Real Maestranza de Caballeria de Sevilla.
O tenor é uma figura mundial, quer como cantor quer como director de orquestra, tendo sido galardoado com muitos títulos honoríficos e prémios muito diversos, mas também é reconhecido pelos seus compromissos humanitários e de solidariedade social. Tem sido um divulgador da ópera, sobretudo através das suas parcerias com José Carreras e Luciano Pavarotti, os três tenores que “conquistaram o mundo”. Em 2021 foi nomeado Embaixador da Cultura Espanhola no Mundo.
Em Sevilha, Plácido Domingo foi um dos nove cantores que intervieram na gala lírica e, com a Real Orquestra Sinfónica de Sevilha, apresentou-se em dois blocos diferenciados: o primeiro dedicado à ópera e que centrou em Giuseppe Verdi, enquanto no segundo escolheu um repertório espanhol com zarzuelas, passodobles e canções populares. O público deslumbrou-se com a actuação e aplaudiu-o longamente e de pé, reconhecendo o talento artístico daquele octogenário.
Porém, o que é curioso foi o facto da edição sevilhana do jornal ABC, mas também o Diário de Sevilla, terem dedicado as suas primeiras páginas a “una noche estelar para Sevilla”. De facto, com um noticiário tão diversificado e tão vasto, com novidades internas e internacionais, é bem curioso como os dois maiores jornais sevilhanos centraram as suas edições na arte e na cultura. Excepcional. Único.
O Futebol e a Política desta vez perderam.

domingo, 18 de setembro de 2022

A guerra na Ucrânia e o outono de Putin

A guerra na Ucrânia tem estado em banho-maria aparentemente devido ao cansaço das partes ou à falta de soldados e de munições, mas nos últimos dias parece que algo está a mudar, com os ucranianos e os seus apoiantes a mostrarem sinais de grande satisfação por algumas vitórias. Inversamente, os russos de Vladimir Putin têm acumulado más notícias e algumas derrotas tanto militares como políticas. O jornal sueco Expressen destacou ontem em primeira página que “Putins kollaps”, o que significa “o colapso de Putin”.
De facto, Putin sofreu vários revezes bem duros nos últimos dias. O primeiro foi o recuo na região de Kharkiv que, em termos militares, foi uma pesada derrota. O segundo revés foi a descoberta de uma vala comum com mais de quatro centenas de corpos na cidade de Izyum, que repete o que aconteceu em Bucha e que, supostamente, serão crimes de guerra. O terceiro revés aconteceu em Samarkand, pois embora Putin se tivesse encontrado com Xi Jinping e com Narendra Modi, os líderes dos dois mais populosos países do mundo e que possuem armamento nuclear, nenhum deles expressou claro apoio a Putin, tendo mesmo sugerido que era tempo de acabar com a guerra. Finalmente, um quarto revés foi interno, pois algumas dezenas de autarcas de várias cidades russas assinaram uma petição a pedir a demissão de Putin, porque a sua política prejudica o futuro da Rússia e dos seus cidadãos.
Esta situação configura um desequilíbrio que pode conduzir a maiores dificuldades para uma desejável negociação da paz. O facto é que o equinócio do outono se aproxima, mas Vladimir Putin parece que antecipou o seu próprio outono.

sábado, 17 de setembro de 2022

O novo caminho de progresso para Angola

As eleições angolanas realizaram-se no dia 24 de Agosto, os resultados foram divulgados no dia 29 e, no dia 15 de Setembro, o novo presidente da República Popular de Angola e os novos deputados tomaram posse. Tudo decorreu com uma normalidade que foi reconhecida internacionalmente e que veio mostrar que Angola conquistou as bases democráticas que lhe vão permitir corrigir alguns erros do percurso que tomou depois da independência e da guerra civil. Os resultados foram esclarecedores, pois o MPLA obteve a maioria dos votos com 51,7% e elegeu 124 deputados, enquanto a UNITA obteve 43,95% dos votos e elegeu 90 deputados, tendo sido eleitos mais seis deputados de três pequenos partidos. Como muitas vezes acontece nos processos eleitorais, os resultados foram contestados devido a eventuais irregularidades, mas foram confirmados pela Comissão Nacional Eleitoral. Porém, a UNITA declarou que não abdicava do seu direito de recorrer aos tribunais internacionais, estimulada pelas suas expressivas vitórias em Luanda e nas províncias de Cabinda e do Zaire.
O presidente João Lourenço que era o cabeça de lista do MPLA, foi reeleito, enquanto a oposição passou a ter um líder e um rosto respeitável que é o engenheiro Adalberto Costa Júnior.
Como noticiava o Jornal de Angola, o presidente eleito prometeu prestar particular atenção ao sector social e essa intenção deve ser saudada. O país passou por 41 anos de guerras - a guerra colonial e a guerra civil - e, nos anos mais recentes, tem procurado encontrar um rumo de paz, de progresso e de prosperidade. Os seus abundantes recursos naturais, que têm alimentado uma oligarquia que se passeia pela Europa e, sobretudo, por Lisboa e Londres, exibindo poder e riqueza cuja origem gostariam que não fosse conhecida, devem ser postos imediatamente no combate à desigualdade e ao subdesenvolvimento do povo angolano. Essa terá que ser a missão principal do presidente João Lourenço
Que seja bem-sucedido nessa missão!

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

God save Roger Federer, the Master!

Roger Federer anunciou ontem, aos 41 anos de idade, o fim da sua carreira como tenista profissional e vários jornais mundiais destacaram essa notícia, num dia em que outras coisas importantes aconteciam no mundo, desde Londres, onde decorrem as cerimónias fúnebres de Isabel II, até Samarkand, no Uzbequistão, onde Xi Jinping e Vladimir Putin se encontraram.
O jornal L’Équipe dedicou a sua primeira página ao tenista suiço e não hesitou em escolher um título de primeira página que, nas actuais circunstâncias que se vivem no Reino Unido, parece pouco oportuno pois minimiza ou ridiculariza os sentimentos de 70 milhões de britânicos e de muitos milhões de canadianos, australianos, neozelandeses e muitos mais. De resto, os jornais desportivos são useiros e vezeiros no uso desproporcionado de frases ou adjectivos: um guarda-redes que defende um penalti é um génio, um avançado que marca um golo é um herói e uma equipa que ganha pela primeira vez concretiza um feito histórico.
À margem deste comentário há que salientar a singularidade de Roger Federer que, apesar de igualado ou superado nos courts por Rafael Nadal e Novak Djokovic, foi sempre o eleito do público pelo seu ténis, as suas atitudes e a sua elegância desportiva. Venceu o seu primeiro torneio ATP em 2001 e o último em 2019, o que lhe dá um record de longevidade e fez com que durante a sua carreira, tivesse defrontado Djokovic cinquenta vezes e Nadal quarenta. Durante a sua carreira venceu 103 torneios ATP, incluindo vinte Grand Slam e, entre 2004 e 2018, esteve 310 semanas como número um do ranking mundial. 
Foi um Mestre. God save the Master!

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

A guerra na Ucrânia e a posição de Ursula

Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia esteve ontem em Estrasburgo para falar ao Parlamento Europeu sobre o estado da União Europeia. Esperava-se que falasse mais sobre a crise energética, pois disse que “milhões de pessoas estão a precisar de ajuda e que pagar as contas ao fim do mês está a tornar-se uma fonte de ansiedade para famílias e empresas”. Anunciou, também, cortes no consumo de energia e avisou que o inverno vai ser difícil, mas que teriam que ser os governos nacionais a tomar as decisões, coisa que poucos tomarão por serem impopulares. A edição de hoje do jornal alemão die tageszeitung dedicou-lhe a sua primeira página e escreveu “Sind so leere Hände” que, em português, significa “são mãos tão vazias”. O que ela queria era falar da Ucrânia. E falou. Demoradamente. 
O seu discurso foi considerado muito corajoso ao dar todo o seu apoio à Ucrânia, enquanto escolheu para esta sessão um fato azul e amarelo com as cores da bandeira ucraniana, o que foi considerado uma poderosa declaração de solidariedade para com o povo ucraniano, mas que também foi uma afirmação de exibicionismo populista, como se os dirigentes e os deputados europeus fossem membros de uma qualquer claque de futebol das mais fanáticas. Se a vestimenta tem algum significado, então melhor seria que ela vestisse de branco, porque a Europa deve ser mediadora e não uma parte activa naquele conflito.
Disse ela que o responsável pela situação é Vladimir Putin e tem razão. Foi ele que não resistiu às provocações e avançou com a tal “operação militar especial”. Hoje já se vê que não haverá vencedores e que todos somos perdedores. Porém, são vários os dirigentes europeus que querem o fim da guerra e que têm mantido algum diálogo com o agressor, procurando saídas para a situação. Entre eles, com alguma prudência, têm estado Scholz, Macron e Erdogan, todos eles líderes de países membros da NATO e que querem um cessar-fogo e a paz, enquanto noutra postura têm estado os americanos, os ingleses e… Ursula von der Leyen, que querem a derrota total de Putin.  
Ursula von der Leyen continua a anunciar apoios à Ucrânia e garante que a União Europeia vai ajudar “tanto tempo quanto for preciso”. Ela lá sabe.

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Carlos Alcaraz foi um gigante em NY

A Espanha desportiva está a viver uma onda de euforia e acaba de criar um novo ídolo, chamado Carlos Alcaraz que, no passado domingo e apenas com 19 anos de idade, venceu o US Open e ascendeu a número um do ranking mundial do ténis. Foi a primeira grande vitória da sua promissora carreira e uma boa parte da imprensa espanhola publica a sua fotografia com destaque de primeira página e com rasgados elogios.
Depois de um longo período em que o ténis mundial foi dominado por Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic, a ascensão do jovem Carlos Alcaraz ao topo da hierarquia mundial do ténis significa o início de uma mudança geracional nesta prática desportiva das élites. Como escreveu Luís de Camões há quase quinhentos anos, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / muda-se o ser, muda-se a confiança / todo o mundo é composto de mudança”.
A final do passado domingo foi a primeira da história em que para além da vitória no torneio, também se decidia quem seria o novo líder do ranking mundial e o acaso parece ter escolhido o local mais apropriado para este evento, isto é, o Arthur Ashe Stadium localizado em Flushing Meadows, no bairro de Queens da cidade de Nova Iorque, que é o maior estádio do mundo e que pode receber 23.771 espectadores.
De entre os inúmeros jornais espanhóis desportivos ou generalistas que homenagearam Carlos Alcaraz escolhemos o as e o seu título: un gigante en NY. Assim foi de facto.

domingo, 11 de setembro de 2022

Como acabar com a guerra na Ucrânia?

Como actualmente há menos notícias sobre a guerra na Ucrânia, até parecia que as partes estavam cansadas e que os paióis começavam a estar vazios, o que poderia ser uma boa oportunidade para o trabalho das diplomacias. Porém, nas últimas horas, os ucranianos anunciaram algumas vitórias militares que terão obrigado os russos a recuar, o que pode significar o início de uma grande ofensiva antes que chegue o inverno, com o frio, a neve, as estradas enlameadas e os campos inundados.
Contudo, ontem o jornal croata Večernji list, que se publica em Zagreb, tratou da guerra na Ucrânia e publicou com destaque de primeira página, as fotografias de Joe Biden e de Vladimir Putin e, em segundo plano, as imagens de Angela Merkel e de Olaf Scholz.
Com a ajuda do Google Tradutor procurei saber a tradução dos textos e, em ante-título,  li que a “União Europeia enfrenta o colapso” e, depois em título principal, li a frase “como a Alemanha trouxe a Europa para uma ratoeira neste século, da qual não há saída”.
“Colapso da Europa”, “ratoeira” e “não há saída” são frases ou palavras muito duras e arrasam a esperança de quem deseja que “a tragédia em curso” – assim se refere o jornal àquela guerra – termine rapidamente. A notícia critica severamente a “política estrategicamente cega e de mente estreita de Angela Merkel e toda a elite empresarial alemã”, que estão a prejudicar a Alemanha e toda a Europa.
Não sei se alguma vez algum jornal publicou as fotografias de Joe Biden e de Vladimir Putin como fez o Večernji list, a sugerir que a resolução do conflito depende apenas destes dois homens. Afinal tudo isto é uma coisa bem diferente da narrativa habitual e até há quem diga que, afinal, a culpa é de… Angela Merkel! 
No entanto, a pergunta fica: como acabar com a guerra na Ucrânia?

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

R.I.P. Elizabeth II

Elizabeth II cujo nome de baptismo era Elizabeth Alexandra Mary, faleceu ontem com 96 anos de idade. Desde 1952 que era a rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e de mais catorze Estados independentes e, ainda, chefe da Commonwealth, uma organização que agrega 53 países.
Não me recordo de qualquer acontecimento que suscitasse tanto interesse e tanta unanimidade na imprensa mundial como a notícia do falecimento de Elizabeth II, que hoje ocupa toda a primeira página de inúmeros jornais. O prestígio da Rainha era, seguramente, bem maior do que o do seu próprio país e dos seus políticos, dos quais conviveu com quinze primeiros-ministros! Os britânicos, mesmo aqueles que não gostam da Monarquia nem dos seus vícios e privilégios, gostavam da Rainha que durante setenta anos simbolizou a unidade britânica e a estabilidade nacional, apesar das transformações que aconteceram no mundo depois da 2ª Guerra Mundial e das tropelias em que alguns dos seus filhos e netos se envolveram. Elizabeth II era “uma querida soberana e amada mãe”, como hoje escreveu The Journal, que se publica em Londres.
Um outro jornal escreveu que “a Rainha andou de braço dado com a História” e, de facto assim foi, pois assistiu à 2ª Guerra Mundial e ao declínio do Império Britânico, entre muitos outros grandes acontecimentos de relevo mundial.
O Reino Unido hoje está de luto e há quem já anteveja que se aproximam tempos muito difíceis para a monarquia britânica, para os quais faltará a palavra respeitada, tranquilizadora e conciliadora de Elizabeth II. 
Rest in peace Elizabeth II!

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Parabéns, Brasil!

No dia 7 de Setembro de 1822, o regente que o rei D. João VI, seu pai, deixara à frente do Brasil quando em 1821 regressou Portugal, terá declarado aos seus acompanhantes nas margens do rio Ipiranga, que a separação do Brasil em relação a Portugal era irreversível e terá proferido a frase “independência ou morte”, que ficou conhecida como “o grito do Ipiranga”. 
É muito duvidosa a veracidade desta expressão que o imaginário nacional, a tradição e vontade popular consagraram, mas o dia 7 de Setembro foi declarado feriado nacional no Brasil e é celebrado como o Dia da Independência.
Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, assim se chamava o regente que declarou a independência, era mais conhecido por D. Pedro de Alcântara ou D. Pedro de Bragança, foi o primeiro imperador do Brasil como Pedro I, entre 1822 a 1831 e, também, rei de Portugal e dos Algarves como Pedro IV, entre Março e Maio de 1826.A história de vida de D. Pedro é fascinante e interessa a portugueses e brasileiros, quando se celebram 200 anos sobre o dia em que ele assumiu a independência do Brasil. Ele foi o porta-voz de uma ambição e dos ventos de liberdade que sopravam nas Américas. A independência brasileira foi uma reacção da nobreza colonial rica e branca, tanto brasileira como portuguesa, ao domínio das metrópoles. Foi semelhante aos movimentos que levaram à revolta das colónias inglesas e espanholas, que deram origem à independência americana e às independências das colónias espanholas sul-americanas.
A ligação entre Portugal e o Brasil não é apenas pela língua, pois os laços históricos e culturais entre os dois países são profundíssimos. Por isso, hoje o jornal Público, destaca que é dia para nos associarmos aos brasileiros e dizer-lhes: Parabéns, Brasil!

A Espanha a celebrar a viagem de Elcano

No dia 6 de Setembro de 1522 a nau Victoria chegou defronte de Sanlúcar de Barrameda, na foz do rio Guadalquivir e próximo de Cádis, sob o comando de Juan Sebastián de Elcano, trazendo 18 tripulantes europeus e três homens que tinham embarcado nas Molucas. Estava concluída a primeira viagem de circumnavegação da Terra, pois daquele mesmo local tinham partido no dia 20 de Setembro de 1519 cinco navios com 237 homens comandados por Fernão de Magalhães. A viagem que foi descrita por Antonio Pigafetta e por alguns outros membros da expedição, durou quase três anos. As comemorações desta viagem foram assumidas pelos dois governos ibéricos, cada um deles procurando discretamente chamar a glória deste feito que muitos comparam com a chegada do homem à Lua - a glória de Magalhães (os portugueses) ou a glória de Elcano (os espanhóis).
O facto é que ontem, mostrando como em Espanha tudo foi preparado para alimentar a sua própria narrativa histórica, o navio-escola Juan Sebastián de Elcano regressou de uma longa viagem internacional de representação e integrou-se num desfile naval e aéreo em homenagem a Elcano, realizado ao largo de Sanlúcar, que se integrou nas comemorações do V Centenario de la Primera Circunnavegación. O rei Filipe VI esteve presente, bem como as principais autoridades espanholas e andaluzas. No desfile integraram-se doze navios de guerra, incluindo o LHD Juan Carlos I, o LDP Galicia e quatro modernas fragatas, para além da réplica da nau Victoria e vários aviões Sea Harrier e helicópteros, conforme relata com muito detalhe a edição de hoje do Diario de Cadiz.
Foi uma festa grande em Sanlúcar de Barrameda, porque até a Volta a Espanha foi pensada para que ontem uma etapa ligasse Sanlúcar a Sevilla. Foi, portanto, um dia “histórico y emocionante para todos los sanluqueños”.
Pois que Viva Sanlúcar, que Viva El-Rey e que Viva España!

terça-feira, 6 de setembro de 2022

A minha homenagem a Adriano Moreira

Adriano José Alves Moreira completa hoje cem anos de idade e alguns jornais portugueses prestam-lhe uma justa homenagem a que me associo, porque foi meu professor e de muitos dos meus amigos, todos dele guardando uma imagem de homem de sabedoria, inteligência e sensatez. É reconhecido como um humanista com elevado sentido de serviço público, um cientista político de referência e um activo participante no desenvolvimento do ensino superior em Portugal. A sua voz sempre foi escutada com atenção e respeito, independentemente das posições ideológicas ou partidárias de quem o escuta.
O seu percurso cívico, político e académico são bem conhecidos: licenciado em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, doutorado pela Universidade Complutense de Madrid e pelo ISCSP da Universidade de Lisboa, doutor Honoris Causa por diversas universidades portuguesas e estrangeiras, membro da delegação portuguesa nas Nações Unidas, deputado e vice-presidente da Assembleia da República, presidente do CDS, conselheiro de Estado, presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa e curador da Fundação Oriente, são apenas algumas linhas da sua extensa biografia. Porém, será o cargo de Ministro do Ultramar que ocupou no governo de Salazar entre 13 de Abril de 1961 e 4 de Dezembro de 1962, a marca mais distintiva da sua carreira, não só como patrocinador de profundas reformas no estatuto dos povos das colónias, mas também como dirigente que afrontou Salazar e “assistiu” ao início da guerra em Angola e à queda da Índia Portuguesa.
Hoje é um dia para felicitar o Professor Adriano Moreira pelo seu centésimo aniversário, mas também pelas lições que ao longo da vida nos tem ensinado e que esperamos nos continue a ensinar.

sábado, 3 de setembro de 2022

A Índia e o reforço do seu poder naval

Decorreu ontem no porto de Cochim, no estado indiano de Kerala, a cerimónia de incorporação na Marinha da India do novo porta-aviões INS Vikrant, que foi presidida pelo primeiro-ministro Narendra Modi.
O INS Vikrant foi construído nos estaleiros da Cochin Shipyard Limited, é o primeiro porta-aviões concebido e construído na Índia e, só por isso, é um motivo de orgulho nacional e de confiança quanto às capacidades industriais e tecnológicas do país, apesar da sua construção se ter arrastado durante 13 anos e ter custado cerca de 2,5 mil milhões de dólares. O primeiro-ministro Modi chamou-lhe uma “cidade flutuante” com 1700 tripulantes e considerou-o um “símbolo do potencial nacional”, tendo proporcionado um momento histórico para a Índia e para o seu chefe do governo, por ser um incentivo que pode impulsionar a indústria indiana de defesa.
O navio mede 262 metros de comprimento e tem quase 60 metros de altura, podendo alojar 30 aviões de combate e helicópteros. Com o INS Vikramaditya, o outro porta-aviões indiano, a Índia torna-se cada vez mais um importante e ambicioso actor no cenário geopolítico internacional.
A imprensa indiana de hoje dá conta da entrada ao serviço do novo navio e o jornal The Hindu, chama-lhe “sentinel of the seas”, ao mesmo tempo que analisa o crescente aumento do poder militar indiano.
Duas curiosidades sobre o Vikrant e sobre Cochim.
- O INS Vikrant é o segundo porta-aviões indiano com este nome, tendo o primeiro entrado ao serviço em 1961 e tomado parte nas operações que levaram à “queda da Índia Portuguesa”.
- Cochim foi “o primeiro porto português da Índia”, foi visitado por Pedro Álvares Cabral em 1500 e foi lá que morreu Vasco da Gama na noite de Natal de 1524. Em 1663, após uma presença de um século e meio, os holandeses expulsaram os portugueses da cidade e da costa do Malabar.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

R. I. P. Mikhail Gorbachev

Mikhail Gorbachev, o último presidente da antiga União Soviética, morreu ontem em Moscovo com 91 anos de idade e a imprensa mundial dedica enormes elogios à sua acção política, que conduziu ao fim da Guerra Fria e à abertura do antigo bloco soviético ao mundo ocidental.
Tendo sido eleito secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética em 1985, tornou-se aos 54 anos de idade no líder do maior país do mundo em área territorial e rival ideológico dos Estados Unidos. A partir de então as palavras glasnost (transparência) e perestroika (reestruturação) entraram na vida política soviética e no léxico dos países ocidentais, como símbolos das políticas reformistas de Gorbachev. Como presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev enfrentou a estagnação da era de Leonid Brejnev, abriu-se à comunidade internacional, fez uma grande aposta na democratização e modernização do país, na reforma da economia e da sociedade soviéticas, incluindo uma maior liberdade de expressão e a liberalização da imprensa. Porém, não foi capaz de conter os protestos por maior liberdade que se geraram em várias repúblicas soviéticas, que a partir de 1991 exigiam o fim do comunismo e a independência, tendo acabado por assistir à desintegração do bloco de países do Leste e do seu próprio país, durante os dois anos seguintes.
Por isso, alguns grandes acontecimentos mundiais como a queda do muro de Berlim, a reunificação alemã, as independências dos estados bálticos e a queda dos governos pró-soviéticos na Europa de Leste foram possíveis pela acção directa ou indirecta de Gorbachev. Em 1990 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Paz. 
Quem sabe se a sua morte não foi acelerada pela mágoa e pela dor provocadas pelo que está a acontecer actualmente na martirizada Ucrânia.
Mikhail Gorbachev é, seguramente, uma das mais relevantes personalidades da segunda metade do século XX, a par de John Kennedy, Charles de Gaulle, François Mitterrand, Margaret Thatcher, Helmut Kohl ou Nelson Mandela. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

A euforia viajante do Presidente Marcelo

O jornal moçambicano O País anuncia na sua edição de hoje que Moçambique e Portugal realizam uma cimeira na próxima semana em Maputo e publica a fotografia dos presidentes dos dois países em caloroso abraço. Desde que no dia 9 de Março de 2016 tomou posse do cargo para que foi eleito, o presidente da República Portuguesa realizou 97 viagens presidenciais a 44 diferentes países, destacando-se Espanha (16 visitas), França (12 visitas), Estados Unidos (8 visitas), Brasil (6 visitas), Cabo Verde e Itália (5 visitas), Angola (4 visitas), Andorra, Bélgica, Grécia, Moçambique, Reino Unido e S. Tomé e Príncipe (3 visitas), Alemanha, Bulgária, Rússia e Vaticano (2 visitas) e, com apenas uma visita, Afeganistão, Áustria, China, Colômbia, Costa do Marfim, Croácia, Cuba, Egipto, Eslovénia, Guatemala, Guiné-Bissau, Hungria, Índia, Israel, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Marrocos, México, Países Baixos, Panamá, República Centro-Africana, Senegal, Suíça, Timor-Leste e Tunísia. Tantas viagens a tantos países, fazem de Marcelo Rebelo de Sousa o mais viajado presidente da História de Portugal que, no corrente ano, já fez viagens a França, Países Baixos, Moçambique, Espanha, Timor-Leste, Reino Unido, Andorra, Brasil e Angola. 
Começa a ser altura de se fazer uma avaliação custo/benefício de tantas viagens porque, aparentemente, delas pouco mais fica do que os afectos populares que recebe e as selfies, além das repetitivas entrevistas espontâneas que lhe são feitas pelos jornalistas seus acompanhantes. Até o jornal O País se rende a esta euforia do presidente português, ao assumir que vai fazer mais uma visita a Moçambique, mas não sabemos se a notícia é falsa ou verdadeira. Porém, se recordamos que Marcelo Rebelo de Sousa esteve em Moçambique em Março, podemos perguntar o que há de novo a justificar esta viagem, se realmente ela estiver para ser feita. Temos tantos problemas por cá, que não se sabe que sentido ou que utilidade têm tantas viagens, para além de não sabermos quem compõe as suas comitivas, nem quanto custa tudo isto aos contribuintes portugueses.

domingo, 28 de agosto de 2022

Filipe Neri Ferrão, o novo cardeal de Goa

O Papa Francisco presidiu ontem na Cidade do Vaticano a um Consistório Ordinário, isto é, uma reunião de cardeais que é destinada a assistir ou ajudar o Papa nas suas decisões. Foi o oitavo Consistório do seu pontificado e nele foram criados 20 novos cardeais, dos quais 16 eleitores e 4 eméritos (não eleitores), com a particularidade de terem sido criados os primeiros cardeais oriundos de Timor-Leste, do Paraguai e de Singapura. Dos 16 novos cardeais eleitores destacam-se o cardeal Filipe Neri António Sebastião do Rosário Ferrão, arcebispo de Goa e Damão e Patriarca das Índias Orientais, e o cardeal Virgílio do Carmo da Silva, arcebispo de Dili. Ambos são falantes de português e ambos dirigem dioceses historicamente ligadas à Igreja de Portugal.
A diocese de Goa foi a primeira diocese asiática da Cristandade, foi criada em 1533 pelo Papa Clemente VII, era inicialmente sufragânea da diocese do Funchal e estendia-se espacialmente desde o cabo da Boa Esperança até à China e ao Japão. 
A diocese de Dili foi criada em 1940 como sufragânea da arquidiocese de Goa, numa altura em que o território de Timor estava ocupado pelas forças japonesas.
Para aqueles que se identificam com a herança cultural portuguesa nascida da sua expansão marítima pelo mundo, ou para aqueles que se orgulham da lusofonia, católicos ou não católicos, a criação destes novos cardeais lusófonos, a que se juntam os dois novos cardeais brasileiros (os arcebispos de Manaus e de Brasília), é um motivo de grande satisfação cultural.
O jormal oHeraldo que se publica em Goa, onde o hinduísmo é a religião dominante, deu um grande destaque à elevação do seu Arcebispo ao Cardinalato e nós, que bem o conhecemos, também aqui expressamos o nosso regozijo.