segunda-feira, 13 de abril de 2015

Hillary e as mulheres presidenciáveis

Hillary Clinton, a antiga Primeira-dama e Secretária de Estado anunciou a sua candidatura às eleições presidenciais americanas de 2016 e essa iniciativa lembra-me as eleições presidenciais portuguesas que, nos últimos dias, têm ocupado a agenda mediática portuguesa.
Em ano de eleições legislativas que vão escolher as políticas e a equipa que nos vai governar nos próximos quatro anos, o tema das eleições presidenciais é prematuro e inoportuno, mas tem servido para não se falar nos assuntos inconvenientes para o governo, que são muitos. Não se fala na trapalhada das dívidas do Primeiro-ministro à Segurança Social, nem naquela mentirosa afirmação de que não há dívida nova e que os cofres estão cheios, nem naquele Secretário de Estado arrogante e mentiroso que disse que não havia listas VIP, nem nas nomeações de boys e girls para recompensar lealdades partidárias, nem na lata com que o irrevogável se pavoneia sem nada de útil ter feito no governo, para além das passeatas. Não se fala no desemprego, nem na dívida que tem aumentado, nem no défice que encalhou nos 4%, nem na falta de investimento, nem na pobreza que vemos nas ruas desta cidade de Lisboa. O que tem ocupado a agenda mediática são os candidatos presidenciais, já anunciados ou ainda por anunciar, como o neto, o morais, o amaral, o vitorino, o sampaio, o carvalho, o marcelo, o lopes, o rio e outros que hão-de aparecer. É uma grande alegria termos tanta gente capaz de ocupar o palácio de Belém. São todos homens e, com alguma timidez, também têm sido lançadas na praça pública algumas personalidades femininas, o que é muito positivo, mas que tem que ser visto com cuidado.
Já imaginaram se o exemplo dos Estados Unidos atravessa o Atlântico e chega até nós? À semelhança de Hillary Clinton teríamos a actual Primeira-dama candidata e teríamos um Aníbal, tal como o Bill, a fazer de primeiro-damo ou primeiro-cavalheiro. Para quem está satisfeito com os dez anos de cavaquismo presidencial, aqui está uma alternativa para que o Aníbal e a Maria troquem de papéis e nos continuem a divertir. Talvez o primeiro Passos apoie esta divertida solução...

domingo, 12 de abril de 2015

Cuba: reencontro com os Estados Unidos

Cuba sempre suscitou uma enorme curiosidade e simpatia na juventude europeia dos anos 60, sobretudo pela mediatização que foi feita do mítico Ernesto Che Guevara, o jovem médico argentino que se juntou a Fidel de Castro e que em 1957-1958 teve um destacado papel na revolução cubana. Porém, a simpatia pela revolução cubana também resultava de um somatório de episódios protagonizados por um grupo de jovens guerrilheiros que, com muita coragem, tinham lutado contra o regime de Fulgêncio Batista: era o audacioso assalto ao quartel de Moncada, o julgamento e a condenação do jovem advogado Fidel, as peripécias da organização da guerrilha, a viagem do Gramna, o desembarque dos 82 revolucionários, a luta na Sierra Maestra, as batalhas por Santiago e Santa Clara e a entrada em Havana em Janeiro de 1959. Era a fuga de Batista, a vitória e o poder. A corrupção e os interesses americanos instalados na ilha foram atacados. Depois, foi a nacionalização da banca e das grandes empresas, as expropriações e a reforma agrária. A hostilidade americana acentuou-se e foi decretado um embargo comercial. Cuba entrou na órbita da URSS e passou a exportar a revolução.
Passaram-se muitos anos e os tempos mudaram, mas Cuba permaneceu estática, apesar de ter sido eliminado o analfabetismo e de existir um sistema de saúde universal. As transformações revolucionárias não produziram os resultados esperados e os cubanos empobreceram. A URSS implodiu e Cuba perdeu grande parte do apoio do seu aliado. O envelhecido Fidel adoeceu e em 2008 foi substituído pelo seu irmão Raúl Castro.
Agora, depois de quase sessenta anos de isolamento e de recíproca hostilidade, os Estados Unidos e Cuba reaproximam-se e os seus Presidentes – Barack Obama e Raúl Castro – prometem cooperar, apesar de Castro ainda ter afirmado “as nossas profundas diferenças”. Para já espera-se o fim do embargo comercial imposto pelos Estados Unidos em 1962, a retirada de Cuba da lista dos países patrocinadores do terrorismo e a chegada de muitos turistas americanos. O mundo e a imprensa de língua espanhola elogiaram esta reaproximação mas, sobretudo, há 11 milhões de cubanos que agora esperam por uma vida melhor.

sábado, 11 de abril de 2015

Foi você que falou em homens de palavra?

 
Este indivíduo que foi baptizado como António Pires de Lima (APL) é um economista, igual a tantos outros que por aí andam e, através do seu currículo, sabemos que vendeu sumos, cafés e cervejas Super Bock. Agora, pela mão do irrevogável, chegou a ministro e, com ares de uma competência que ainda está por demonstrar e alguma arrogância, faz propaganda, vende disparates e alimenta ilusões. Para ele, a pasta da Economia são empresas e privatizações, não são trabalhadores. Ele é o privatizador-mor e, aparentemente, é isso que faz no governo para, com obcessão ideológica, servir interesses indefinidos.
Quando há tempos foi à Assembleia da República prestar contas dos seus desempenhos não foi capaz ou não quis retratar a nossa débil economia, nem explicar porque não há investimento, preferindo adoptar um lastimável e ridículo comportamento que foi quase insultuoso para o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que nem estava presente nem era para ali chamado. Esperava-se mais de um PL!
Aqui há dias, a propósito das questões da TAP e do insanável impasse que ameaça a empresa com novas greves, veio dizer que “os acordos em homens de palavra são para se cumprir”. Esta frase, dita por um ministro, é para rir à gargalhada.
Então, o que é que os ministros em geral, e o nosso primeiro Passos em particular, têm feito aos acordos que fizeram com os eleitores? Será que esta gente se esquece que está no governo para cumprir um acordo feito com os eleitores que está inscrito no seu programa eleitoral e, naturalmente, na Constituição da República?

Sucesso da indústria aeronáutica francesa

Diversos jornais franceses, como acontece com Le Figaro, anunciam hoje que a Índia encomendou 36 aviões Rafale à França, durante a visita oficial que o Primeiro-Ministro Narendra Modi fez a Paris. Em Fevereiro passado, tinha sido assegurada a venda de 24 unidades do mesmo avião ao Egipto por 5 mil milhões de euros e, desta forma, em pouco tempo a França concretiza a primeira venda deste avião para o estrangeiro com duas encomendas. A economia francesa anima-se e a imprensa faz eco desse entusiasmo.
O Rafale é um caça polivalente de amplo raio de acção, de dupla propulsão e com asa em delta, podendo ter várias versões. Foi concebido pela Dassault Aviation e entrou ao serviço em 2000. Porém, até agora só a Força Aérea e a Marinha francesas tinham adquirido este avião para o seu serviço, dispondo respectivamente de 42 e 26 unidades, embora estejam encomendadas mais 120 aviões. Porém, apesar das suas reconhecidas capacidades operacionais, o Rafale ainda não se tinha imposto no mercado internacional porque a concorrência é muito forte neste sector, com propostas americanas, russas, chinesas, suecas e de vários consórcios europeus.
Actualmente, sabe-se que a Índia mantém conversações para formar uma parceria com a Dassault Aviation e para construir os aviões Rafale na própria Índia, havendo também negociações com os Emirados Árabes Unidos para equipar a sua Força Aérea.
Se faltasse alguma coisa para confirmar que o mundo está cada vez mais inseguro, aqui está esta notícia do sucesso da indústria aeronáutica francesa e da corrida que alguns países vêm fazendo aos aviões de combate, casos do Egipto e da Índia, apesar de terem outros problemas internos graves para resolver. Ou, como diria o Papa Francisco, esta economia mata!

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Os exóticos periquitos da nossa Lisboa

Na sua edição de ontem o diário inglês The Guardian esqueceu alguns dos temas nacionais e internacionais relevantes e dedicou a fotografia da sua primeira página ao psittacula krameri, uma ave que é conhecida em Portugal como periquito-de-colar, periquito-de-colar-rosa, periquito-rabo-de-junco ou periquito-da-Índia.
Trata-se de  uma ave de origem indiana ou africana, com a plumagem verde, com o bico vermelho em forma de gancho e com a cauda longa e afilada. Mede entre 38 e 43 centímetros, mas a sua cauda mede cerca de metade do comprimento total. Os machos têm um colar à volta do pescoço, o que permite distingui-los das fêmeas. Voam em pequenos bandos e são muito barulhentos.
É a única ave da família dos papagaios e periquitos em liberdade na Europa, como resultado de fugas de cativeiro ou de libertações deliberadas, havendo-os em várias cidades europeias. Em Portugal começaram a aparecer há poucos anos, mas a sua população tem aumentado muito rapidamente, sobretudo em Lisboa, onde pode ser visto em muitos parques e jardins, como o Jardim da Estrela, o Jardim Botânico da Ajuda, o Jardim do Ultramar, o Parque Gulbenkian, o Parque Tejo e em muitos outros jardins e zonas arborizadas, mas também já aparecem no Porto, Comporta, Guimarães, Alvor e Torres Novas.
Gosto de ver os psittacula krameri e de os fotografar a partir da minha janela lisboeta, empoleirados nas árvores ou voando em pequenos bandos, porque dão um ar exótico à cidade e nos recordam a vertente exótica do nosso passado histórico, que nos levou a percorrer todos os mares e a reconhecer o mundo, muito para além das limitadas fronteiras da Europa.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Sunitas & xiitas: agora lutam no Iémen

Há actualmente um enorme conflito religioso no mundo islâmico a fazer lembrar os conflitos religiosos entre católicos e protestantes, que atravessaram a Europa no século XVII, estando de um lado a confissão sunita e do outro a confissão xiita, cada uma delas resultante das diferentes interpretações do Alcorão. O conflito é sério e tem-se desenvolvido na Síria e no Iraque, mas agora parece ter-se aberto uma nova frente no Iémen, com uma guerra ainda não declarada entre o Irão xiita e a Arábia Saudita sunita, como revela a edição asiática da TIME.
A República do Iémen tem 527 mil km2 e 24 milhões de habitantes. Estrategicamente situada à entrada do mar Vermelho e com fronteira com a Arábia Saudita, o país tem estado a ser dominado por um conflito nascido da acção dos rebeldes houthis (xiitas) que,  com o apoio do Irão,  desafiaram a autoridade do governo e já dominam a maior parte do país. O Presidente Abd Rabbo Mansur Hadi refugiou-se em Riad, na Arábia Saudita. A cidade de Sanaa, que é a capital do Iémen está em poder dos rebeldes houthis, enquanto Aden, a segunda cidade do país, está confrontada com violentos combates entre os apoiantes do Presidente e os rebeldes houthis, mas também com uma grave situação humanitária. Uma coligação militar liderada pelos sauditas, com o apoio do Egipto, Jordânia, Marrocos e das monarquias do golfo Pérsico interveio com ataques aéreos e ameaça com uma invasão terrestre. Os Estados Unidos apoiam.
Como pano de fundo deste conflito e desta intervenção saudita no Iémen está a luta pela supremacia regional entre o Irão (xiita) e a Arábia Saudita (sunita). Perante esta situação, as posições dos Estados Unidos são incompreensíveis, aparecendo contra ou ao lado do Irão, conforme as circunstâncias. Em Lausana fazem acordos com o Irão para limitar o seu programa nuclear, no Iraque aliam-se ao mesmo Irão para combater o Estado Islâmico, enquanto na Síria apoiam as forças que lutam contra Bashar-el-Assad e o seu aliado iraniano. Agora, no Iémen, estão ao lado dos sauditas e contra o Irão. Ninguém percebe a política externa americana que, apesar do seu poder, não consegue soluções consequentes. Entretanto, o terrorismo ganha terreno e a indústria do armamento farta-se de fazer negócios e de ganhar dinheiro.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Um chegada inédita na Volvo Ocean Race

Chegaram ontem ao porto brasileiro de Itajai os primeiros quatro veleiros que concluiram a 5ª etapa da Volvo Ocean Race 2014-2015, que ligou Auckland (Nova Zelândia) a Itajai (Brasil). Foi a mais longa e também a mais dura das nove etapas da prova, que decorreu ao longo de um percurso de 6776 milhas, que atravessou o Pacífico Sul, que bordejou as latitudes até onde aparecem os icebergs e que transpôs o temível cabo Horn.
Como salienta o Jornal de Santa Catarina foi uma chegada inédita, porque dos cinco veleiros ainda em prova, os quatro primeiros chegaram a Itajai em menos de uma hora. Depois de tantas milhas e de tantas peripécias, é de facto um final de etapa absolutamente inédito, com quatro veleiros a navegar à vista. O primeiro veleiro a cortar a linha de chegada foi o Abu Dhabi Ocean Racing, cujo skpiper é o inglês Ian Walker e de cuja tripulação internacional fazem parte ingleses (2), australianos (2), neo-zelandeses (2) e um americano, um irlandês e um espanhol. 
A prova é retomada no dia 19 de Abril, quando se iniciar a 6ª etapa entre Itajai e Newport, numa distância de 5010 milhas.
De acordo com o plano da regata, a 7ª etapa ligará Newport a Lisboa, onde se estima que os veleiros cheguem entre os dias 23 e 27 de Maio.

Ronaldo ressuscitou com 5 golos. É obra!

Desde que ganhou pela terceira vez o título de melhor futebolista do mundo que Ronaldo não justificava essa distinção com golos, quer na sua equipa do Real Madrid, quer na selecção nacional portuguesa. Havia alguma preocupação com esse facto que para alguns prenunciava o princípio do fim de uma notável carreira mas que outros, simplesmente, atribuiam à instabilidade emocional do atleta provocada pela sua separação da modelo russa Irina Shaik. Até que ontem, talvez por ser domingo de Páscoa, o homem ressuscitou num jogo para a Liga BBVA, em que a sua equipa defrontou o Granada CF e venceu por números que já não se usam (9-1). Ronaldo marcou 5 golos, coisa que fez pela primeira vez na sua carreira.
Todos ficamos satisfeitos com a performance desse homem que, no quadro das culturas mediáticas contemporâneas, é o mais famoso português de todos os tempos e, certamente, o único que tem notoriedade universal. Alguns jornais portugueses e espanhóis, sobretudo os jornais desportivos, destacaram em primeira página os cinco golos de Ronaldo, um feito que é conhecido na gíria futebolística espanhola como manita, mas esse destaque não surpreende. O que surpreendeu foi o que fez um jornal indiano, ao destacar esse feito num país em que o futebol ainda não é um acontecimento desportivo de primeiro plano.
O Hindustan Times, um diário que tem edições em 8 cidades indianas e cerca de 3,5 milhões de leitores, decidiu vender uma parte do seu título (substituindo hindustan times por hindustan is good) e uma boa parte do seu espaço de primeira página com um anúncio das motocicletas da Honda, mas também destacou os cinco golos de Ronaldo como a principal notícia do dia, escolhendo o título Five-star Ronaldo. A capa do jornal ficou graficamente desfigurada com estas combinações, mas o marketing é assim.

sábado, 4 de abril de 2015

Há sinais muito promissores no Irão

Depois de um longo processo de conversações, as últimas das quais realizadas em Lausana, chegou-se a um entendimento de base que limita o programa nuclear iraniano em troca do fim das sanções internacionais que têm vigorado, o qual foi subscrito pelo Irão e pelo chamado grupo P5+1 (Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha).
Hoje, a edição do prestigiado e influente Le Monde chama-lhe um acordo histórico, mas enquanto os iranianos comemoraram esta notícia com grandes manifestações de júbilo nas ruas, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu considerou-o uma ameaça a Israel. Nos Estados Unidos há muita gente que não ficou nada satisfeita, pelo que o Presidente Obama vai ter pela frente a tarefa de convencer os seus opositores republicanos no Congresso.
Nos próximos três meses serão discutidos os pormenores do acordo final que será assinado em Junho, mas não é seguro que os acertos finais decorram sem problemas, sobretudo nos Estados Unidos, apesar de estarem garantidas as principais exigências americanas quanto à impossibilidade do Irão desenvolver armas nucleares e de estar assegurada a aceitação de regulares verificações por inspectores internacionais.
O Irão é um inimigo tradicional de Israel e tem estado envolvido, directa ou indirectamente, na complexa conflitualidade e na guerra que está em curso no Iraque e na Síria, para além de estar empenhado na luta contra as forças do Estado Islâmico. O Irão é uma peça muito importante na região e tem uma equação com muitas variáveis para resolver, mas o passo que agora deu é muito promissor no sentido de estabelecer uma relação de maior cooperação com os Estados Unidos e, por essa via, contribuir para a resolução dos graves conflitos daquela região.
(PS: A mesma edição do Le Monde destaca em primeira página o falecimento de Manoel de Oliveira).

sexta-feira, 3 de abril de 2015

R.I.P. Manoel de Oliveira

Com 106 anos de idade faleceu ontem na sua cidade do Porto o realizador Manoel de Oliveira. Porém, não se trata de um homem que apenas se destacou pela sua singular longevidade mas, sobretudo, por uma vida inteiramente dedicada ao cinema, que cultivou com mestria. Era considerado “o mais velho realizador em actividade” e teve prémios, condecorações e reconhecimentos académicos em Portugal e em outros países, sendo muito respeitado pela crítica, tanto em Portugal como no estrangeiro. O seu primeiro trabalho foi realizado em 1931, mas ao longo da sua carreira de cineasta realizou 32 longas metragens, onde se incluem Aniki-Bóbó (1942), Amor de Perdição (1978), Francisca (1981), Non ou Vã Glória de Mandar (1990), Vale Abraão (1993) e Um filme falado (2003), entre outros.
Um dos aspectos mais relevantes da obra de Manoel de Oliveira foi o facto de ter transformado o cinema português numa actividade cultural de referência e a ter levado até às elites europeias, sobretudo em França e na Itália, vencendo as dificuldades inerentes a uma periferia geográfica e cultural do nosso país. Daí, que o seu desaparecimento seja destacada notícia não apenas na imprensa portuguesa, mas também na imprensa francesa, italiana e espanhola, com especial destaque para o diário francês Libération.
A vasta obra de Manoel de Oliveira que tantas vezes foi incompreendida, objecto de polémica e por vezes símbolo de má qualidade no nosso limitado meio cultural, vai agora poder ser revista e reapreciada no cinema, na televisão, ou nos espaços indoor através do DVD. Provavelmente, como sucede muitas vezes no campo das artes, o reconhecimento é tardio porque, habitualmente, o apreço pela obra de genialidade só surge post mortem. Por isso, com humildade, eu vou reapreciar a obra. Não quero cair na hipocrisia colectiva daqueles que elogiam Manoel de Oliveira sem ter visto um só dos seus filmes.

terça-feira, 31 de março de 2015

L’homme qui a réveillé la maison Peugeot

 
O diário económico francês Les Echos, destaca na primeira página da sua edição de hoje uma reportagem sobre o homem que “acordou a casa Peugeot” através de uma gestão a que chamou o “electrochoc Tavares”. Trata-se do engenheiro Carlos Tavares, presidente-executivo do grupo Peugeot-Citroën (PSA) desde há cerca de um ano. A reportagem recolheu diversos depoimentos que parecem convergir num ponto: como consequência das reestruturações efectuadas pelo seu CEO, o grupo PSA já atingiu os seus objectivos de cash flow com dois anos de avanço, enquanto as vendas melhoraram no mercado europeu e o grupo está a conquistar mercado na China.
Carlos Tavares é português, nasceu em Lisboa e costuma alimentar a sua paixão pelas corridas de automóveis pilotando um Peugeot RCZ, usando o nome de Carlos Antunes e um capacete com as cores da bandeira portuguesa. Admira a nossa história e diz: “A história deste pequeno país, capaz de tais descobertas marítimas, é fascinante”.
O seu lema de vida é o trabalho e todos os seus colaboradores reconhecem as suas capacidades técnicas e de liderança. Não se preocupa com a sua imagem pessoal e é um adepto da cultura e da avaliação de resultados. Por isso não perde tempo e as reuniões a que preside não excedem uma hora, as intervenções não atingem os 15 minutos e os power points não podem ter mais que cinco diapositivos. A leitura desta reportagem é estimulante, embora nos deixe muito inquietos por não termos gestores destes em Portugal.

domingo, 29 de março de 2015

O avião faz parte das nossas vidas

La Razon: edição de 25 de Março de 2015
Foi há cinco dias, exactamente na manhã do dia 24 de Março, que um Airbus A320 da companhia aérea Germanwings que voava de Barcelona para Dusseldorf, se despenhou nos Alpes franceses com 144 passageiros e 6 tripulantes.
O trágico acontecimento encheu os noticiários televisivos, ocupou as manchetes dos jornais e consternou o mundo, porque as suas circunstâncias também foram trágicas.
Porém, em pouco tempo, como resultado de uma rápida intervenção no terreno e de um competente trabalho de investigação, foi possível saber o que aconteceu ao voo 4U9525, concluir que se tratou de uma situação absolutamente excepcional  e de recolher ensinamentos para que situações destas não voltem a acontecer.
A confiança do público foi rapidamente restabelecida, pela ponderação das declarações das autoridades aeronáuticas, mas também pela solidariedade dos líderes dos países mais directamente envolvidos. No mundo em que vivemos, em que estamos cada vez mais confrontados com as mais diversas e inesperadas ameaças, o transporte aéreo e o avião fazem parte do modo de vida de muitos milhões de pessoas. Há que confiar no serviço prestado pelas companhias de aviação, mas estas não podem pensar apenas no seu desempenho económico e nos seus lucros. Não pode ser de outra maneira.

sábado, 28 de março de 2015

Honoris causa porquê? Alguém sabe?

Fonte: Kyoto University of Foreign Studies
Andava eu muito crítico quanto às constantes viagens de descarada promoção pessoal do nosso vice-primeiro ministro, quando me chegou a notícia de que o nosso primeiro Passos entrou em disputa com ele e se deslocara ao Japão levando consigo uma delegação com 26% do seu ministério, para além de secretários, assessores, ajudantes e os inevitáveis jornalistas para relatarem o sucesso da viagem, como se isso interessasse aos leitores ou aos telespectadores. O cidadão comum observa este corrupio de viagens e de despesas e fica indignado por lhe cobrarem tantos impostos, por lhe cortarem as pensões, por lhe prestarem cuidados de saúde insatisfatórios e por obrigarem tanta gente a emigrar. Nesta melancolia de vida que levamos e em que somos obrigados a viver, há tão poucas alegrias que qualquer coisinha positiva que nos chega de fora ajuda a descongelar a nossa auto-estima. E foi o que aconteceu esta semana quando vimos na televisão o nosso primeiro Passos a receber um doutoramento honoris causa pela Kyoto University of Foreign Studies. Tive que “meter a viola no saco” pois foi um momento de grande alegria ver um nosso concidadão, que se licenciou aos 37 anos numa universidade lisboeta menos reputada, ser reconhecido academicamente por uma universidade do Império do Sol Nascente. Nem Luis de Almeida, nem Luis Fróis, nem João Rodrigues, nem Wenceslau de Moraes, atingiram este patamar académico! Mas porquê?
Segundo se leu, esta atribuição distingue “o apoio dado por Portugal à CPLP” e aí começa o meu desapontamento. Afinal o nosso primeiro Passos não foi reconhecido pelos seus méritos, mas apenas pelo apoio que Portugal deu à CPLP, ficando nós sem saber se esse apoio tem a ver com a polémica admissão da Guiné Equatorial, em que o nosso país se comportou como um subalterno.
Porém, o desapontamento ainda foi maior quando verifiquei que a Kyoto University of Foreign Studies figura na 157ª posição (!) no ranking das universidades japonesas e, nessas circunstâncias, a distinção conferida é mesmo de importância menor. Será que o primeiro Passos merecia mais?

terça-feira, 24 de março de 2015

Os governantes passa culpas

O nosso processo educativo percorre um longo caminho que vai da casa paterna, passa por várias escolas e que depois se confronta com o mundo.
Neste caminho os jovens adquirem saberes e valores, aprendem a cultivar a verdade, a praticar a humildade e a assumir a responsabilidade, mas também a relacionar-se com os outros através da solidariedade e da amizade. Muitos desses jovens, quando entram na vida profissional são conduzidos para circunstâncias muito especiais de direcção ou de comando de outros homens, em que a tomada de decisão é muitas vezes um processo solitário, em que se acerta ou se erra, mas em que a responsabilidade é assumida por inteiro. É essa atitude que assegura a autoridade, a efectiva liderança e, consequentemente, a boa gestão.
Toda essa vivência faz com que assista estupefacto ao triste espectáculo que nos é oferecido por alguns governantes que, em vez de nos darem bons exemplos, se comportam como verdadeiros passa culpas, sem qualquer sentido de responsabilidade.
Tudo começou com o nosso primeiro Passos que depois de ter dito que tinha estudado tudo e que não haveria aumento de impostos, tratou de ignorar as suas promessas e veio dizer que a culpa era do governo anterior. Depois foi mais longe do que a troika e, uma vez mais, por culpa do governo anterior. Não tinha pago à Segurança Social, não sabia que tinha de pagar e não foi notificado, mas a culpa foi dos funcionários. O ministro Mota veio em auxílio do seu chefe a confirmar que a culpa foi dos funcionários.
Antes, a ministra Albuquerque não tinha cumprido o défice em 2014 e tratou de atirar a culpa para o Tribunal Constitucional, enquanto a ministra Cruz informou que o desastre do arranque do Citius foi culpa de dois funcionários que terão feito sabotagem informática. O secretário Núncio, aquele que o comentador Marcelo veio dizer que em autoridade política valia zero, negou a existência de uma lista de contribuintes VIP que, se existisse, só podia ser por culpa dos funcionários.
Aqui estão alguns casos que justificam a designação de governantes passa culpas. Na realidade, estes casos mostram como esta gente sacode a água do capote e não é capaz de assumir responsabilidades. A culpa é sempre dos outros. Nestas circunstâncias, Jorge Coelho e Miguel Macedo são dois exemplos recentes e raros de pessoas que sabem assumir responsabilidades.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Angola evoca a batalha de Cuito Cuanavale

As autoridades angolanas assinalam hoje com grandes cerimónias o 27º aniversário da sua vitória sobre as forças do antigo regime sul-africano do apartheid em Cuito Canavale, na província do Cuando Cubango, naquela que é considerada a maior batalha que aconteceu na África ao sul do Sahara. Foi, também, o maior confronto da guerra civil angolana e o Jornal de Angola afirma hoje que "Cuito Cuanavale mudou a História". De facto, assim foi.
De um lado estavam as forças governamentais das FAPLA e os seus aliados cubanos e, do outro, as forças do regime do apartheid sul-africano e as tropas da UNITA. Essa batalha que se desenrolou no chamado Triângulo do Tumpo, culminou com a derrota das tropas sul-africanas e da UNITA, mas os angolanos de ambos os lados pagaram um elevado preço pois perderam milhares de combatentes, muitos deles enterrados no calor da guerra e cujos restos mortais ainda lá permanecem. Porém, com este resultado foi aberto o caminho que levou a grandes transformações políticas na África Austral, nomeadamente a libertação de Nelson Mandela, a independência da Namíbia e o fim do apartheid na África do Sul.
A batalha de Cuito Cuanavale é um dos maiores símbolos da independência de Angola,  pois traduziu-se numa expressiva vitória sobre os invasores sul-africanos, que eram considerados invencíveis. Desde há vários meses que os sul-africanos e os seus aliados da UNITA procuravam entrar em Angola e para isso mobilizaram importantes meios, incluindo vinte super-tanques “Oliphant”, de grande mobilidade e poder de artilharia. No dia 23 de Março de 1988, apesar das condições atmosféricas adversas, os sul-africanos iniciaram uma derradeira tentativa de entrar no Triângulo do Tumpo e avançaram. Porém, atolaram-se nas chanas inundadas, entraram em terrenos minados e a sua acção ficou limitada e à mercê da artilharia angolana. Um tanque “Oliphant” foi capturado, dois detonaram minas e outros foram atingidos. A meio da tarde desse dia houve melhoria do tempo e a aviação angolana entrou em acção com os seus Mig 23, tendo atacado as forças sul-africanas que retiraram. Dos 20 super-tanques “Oliphant” que trouxeram para Angola só 13 conseguiram regressar e com sérias avarias. No terreno, os sul-africanos deixaram muito material de guerra e, pelo menos, um avião Mirage abatido pelas forças angolanas. A partir de então, tudo passou a ser diferente, inclusive no reconhecimento internacional de Angola.
A dureza da batalha de Cuito Cuanavale expressa-se pelo facto de, até Janeiro de 2015, terem sido identificados 37 campos de minas no Triângulo do Tumpo, havendo milhares delas que foram identificadas e neutralizadas.