sábado, 19 de setembro de 2015

Por favor, livrem-nos dos banqueiros...

Durante muitos anos os bancos foram considerados como pilares do sistema económico pois prestavam serviços financeiros, isto é, captavam dinheiro dos clientes, ficavam devedores e depois restituiam-lhe capital e juros (operações passivas) e com esse capital concediam crédito a outros clientes, ficavam credores e depois recebiam deles capital e juros (operações activas). Depois, a banca passou a fazer outras operações a que chamou serviços bancários e envolveu-se nas mais diversas operações de gestão e de risco, com o objectivo de maximizar o seu insaciável lucro. Com o crescimento da economia mundial, a banca tornou-se poderosa e influente, passou a comandar o sistema financeiro e até o sistema político, muitas vezes através de actividades especulativas ou mesmo fraudulentas. Ao escândalo da falência do Lehmon’s Brothers seguiram-se outros escândalos e, segundo li, “só nos Estados Unidos faliram 380 bancos comerciais”. A falência do sistema bancário na Islândia fez com que meio milhão de depositantes perdessem as suas poupanças, enquanto na Irlanda, na Grécia, em Chipre e na generalidade dos países europeus, também muitos bancos faliram. Aqui tivemos o BPN, o BPP e o BES. Com este catastrófico desempenho da banca, era de admitir que os banqueiros se calassem e que se enchessem de vergonha. Porém, isso não está a acontecer e a sua interferência na vida política continua activa e passa as marcas do aceitável. Ontem tivemos a agência Standard and Poor’s (S&P) a melhorar o rating de longo prazo de Portugal, numa postura inoportuna, pois interfere com a campanha eleitoral. Hoje, a imprensa espanhola destaca que “a banca toma partido contra a independência” e ameaça retirar-se da Catalunha se a decisão eleitoral dos catalães no dia 27 de Setembro for no sentido da independência. Depois da vergonha que tem sido a especulação fraudulenta da banca, os banqueiros ainda têm o atrevimento de se manifestar. Ao menos calem-se!

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

União Europeia está sem rumo e à deriva

São terríveis e muito dolorosas as imagens e as notícias que diariamente nos chegam sobre os refugiados que procuram fugir às guerras, de cujas responsabilidades os líderes europeus não estão isentos. É um retrato de uma Europa sem rumo, incapaz de sair da sua zona de conforto e definir uma estratégia comum de solidariedade para com os que procuram a paz, esquecendo um passado recente em que ela própria gerou milhões de refugiados. Essa incapacidade agora evidenciada de forma chocante nas fronteiras da Hungria, mas também nas medidas já tomadas pelas autoridades alemãs, austríacas, eslovacas, eslovenas e croatas, já se tinha revelado em relação à política internacional e, em especial, na forma desordenada como alguns dos seus membros actuaram militarmente no Iraque, na Líbia e na Síria. Da mesma forma, as suas posições na Ucrânia não auguram nada de bom. Além disso, a União Europeia não tem sido capaz de assumir políticas comuns viradas para o crescimento e para o emprego, estando cada um dos seus estados-membros a refugiar-se nos seus interesses nacionais e num absoluto egoismo, incompatível com o espírito do Tratado de Roma.
Paradoxalmente (ou não) os dirigentes da União Europeia têm-se mostrado muito activos em relação à crise financeira que tem penalizado gravemente os países do sul, mostrando-se intransigentes em relação às suas “dívidas soberanas”e aos juros especulativos que lhes são cobrados, que põem em causa a sua própria sobrevivência. Essa intervenção, em que se tem destacado o Eurogrupo e um tal Jeroen Dijsselbloem, tem sido um rotundo falhanço, uma constante manipulação do medo e da incerteza e uma permanente ameaça, principalmente para os gregos, mas também para os portugueses, os espanhóis, os italianos e os cipriotas. Porém, enquanto para tratar da governação, da dívida e do futuro da Grécia se fizeram maratonas de reuniões, o drama dos refugiados apanhou Bruxelas de surpresa e mostrou que a solidariedade europeia é uma farsa. É caso para perguntar a Durão Barroso, que tão activo esteve no apoio à invasão do Iraque, porque não pensou que as guerras que alimentou, ou não contrariou, haveriam de gerar a multidão de refugiados que estão a chegar à Europa. Ele e a sua corte de assessores não pensaram nisso.
A União Europeia está mesmo sem rumo e à deriva!

A pressão internacional sobre os catalães

Aproxima-se o dia 27 de Setembro em que se vão realizar as eleições regionais na Catalunha e em que, mais importante do que escolher o novo Parlamento e o futuro Chefe do Governo, os catalães vão expressar a sua vontade quanto à sua independência e à separação da Espanha. De acordo com o que se vai lendo na imprensa espanhola, em que uma parte está alinhada com o soberanismo catalão e outra parte com o centralismo madrilista, as intenções de voto nas duas correntes estão muito próximas e o resultado eleitoral é imprevisível.
Porém, a diplomacia espanhola tem estado muito activa e até Filipe VI visitou Barack Obama, sucedendo-se declarações dos maiores líderes ocidentais, como salientou na sua primeira página o diário conservador ABC, um dos periódicos que mais tem atemorizado os catalães com os riscos da sua deriva independentista. Ontem, o jornal juntou declarações de Barack Obama - “queremos uma Espanha forte unida”, Angela Merkel – “há que respeitar a legalidade internacional”, David Cameron - “quem se separa já não faz parte da União Europeia”, François Hollande – “desejamos uma Espanha forte e unida como agora” e Jean-Claude Juncker - “a Europa não aceita uma Catalunha independente”.
Não é habitual um jornal tomar uma posição editorial tão afastada da neutralidade, da verdade, do rigor, da isenção e da independência, que devem ser as normas jornalísticas por excelência. Porém, neste caso e como diria o nosso Luís de Camões, “cesse tudo o que a musa antiga canta, que outro poder mais alto se alevanta”... Além disso, o jornal é frontal no seu posicionamento, não engana, não insinua, não usa a manha e não vende gato por lebre.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O preço da irresponsabilidade da banca

Um estudo do BCE hoje divulgado na imprensa, revela que entre 2008 e 2014, cada português já pagou 1950 euros para salvar bancos, isto é, o Estado já gastou 19,5 mil milhões de euros (11,3% do PIB) no apoio ao sector financeiro. É muito dinheiro! Embora este apoio seja menor do que aquele que foi concedido na Irlanda (31,1%), na Grécia (22,1%) e em Chipre (18,8%), o facto é que o BCE “dá nota muito negativa a Portugal”, sobretudo pela incapacidade que tem demonstrado para recuperar essa ajuda.
Este valor de 19,5 mil milhões de euros líquidos, engloba os diversos tipos de intervenção feitos pelo Estado ao longo da grave crise financeira nascida nos Estados Unidos com a vigarice dos subprimes e a falência do Lehman Brothers e que, em Portugal, se iniciou com a nacionalização do BPN, passou por outras intervenções no sistema bancário como o empréstimo de capital contingente ao BPI, CGD, BCP e Banif (que também teve uma injecção de fundos) e cujo capítulo final foi a intervenção no BES/Novo Banco, através do Fundo de Resolução.
A discriminação desses 19,5 mil milhões de euros é pouco transparente, vá-se lá saber porquê... Até finais de 2014 a factura real do BPN já atingia 2691 milhões de euros, enquanto 3900 milhões de euros eram emprestados ao Fundo de Resolução para resolver o Novo Banco. A execução de garantias do BPP já custou 450 milhões de euros. E há os empréstimos ao BPI (já integralmente devolvido), à CGD, ao BCP, ao Banif e  eu sei lá mais a quem, ou seja, são 19,5 mil milhões de euros, segundo o BCE!
O facto é que sabemos pouco disto, embora saibamos que no essencial a banca continua arrogante e “a comer e a beber” do melhor, como se nada tivesse acontecido. Porém, este estudo do BCE tem a virtude de provar que a difícil situação por que temos passado resulta desta irresponsabilidade da banca e de quem a geria e que não é, sobretudo, a consequência de má governação ou de termos vivido acima das nossas possibilidades, como nos últimos anos tem sido muito repetido.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Um mentiroso compulsivo e sem emenda

Uma das questões que tem provocado mais ruido na discussão pré-eleitoral em que a política portuguesa está envolvida é a de saber quem chamou a troika e quem assinou o Memorando de Entendimento. Se em relação ao Memorando assinado no dia 17 de Maio de 2011 todos nos lembramos de ver Eduardo Catroga a participar em reuniões acompanhado pelo actual Comissário Moedas e a afirmar que o nosso problema eram apenas as “gorduras do Estado”, já em relação à vinda da troika podia haver dúvidas. Sabemos que a Comissão Europeia de Durão Barroso e o BCE de Jean-Claude Trichet saudaram e apoiaram o PEC4, que teria permitido enfrentar as dificuldades, evitar o resgate e a vinda da troika com o seu programa que nos humilhou, mas esse documento veio a ser chumbado no Parlamento pela oposição. Sabemos que esse chumbo levou à queda do governo no dia 23 de Março de 2011. Hoje, ficamos a saber, através de uma carta divulgada pelo jornal Público que, no dia 31 de Março de 2011, Passos Coelho se dirigiu ao então Primeiro-Ministro já demissionário e lhe afirmou que o seu partido “não deixará de apoiar o recurso aos mecanismos financeiros externos, nomeadamente em matéria de facilidade de crédito para apoio à balança de pagamentos”. Para quem tem repetidamente afirmado nada ter a ver com a vinda da troika, nem com o conteúdo do Memorando, esta carta e as imagens da televisão de que nos recordamos, confirmam como este homem vive num mundo de continuada mentira. Fica demonstrado que, depois de chumbar o PEC 4 e a solução negociada que Barroso, Trichet e Merkel apoiavam, uma semana depois já afirmava que não deixaria de apoiar a vinda da troika, quando o governo já demissionário ainda estava atordoado pelo chumbo do PEC 4. Era seguramente o que ele queria. Parece, pois, que foi Passos quem primeiro falou do auxílio externo ou da vinda da troika. De resto, é evidente que a troika só viria para Portugal se os dois grandes partidos estivessem de acordo e até nem é importante saber qual foi o menino que primeiro levantou o dedo. O resto é conversa.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A campanha eleitoral vem aí. Votemos!

A campanha eleitoral para as Eleições Legislativas vai decorrer de 20 de Setembro a 2 de Outubro e a votação decorrerá no dia 4 de Outubro. Embora eu não tenha a intenção de trazer a campanha eleitoral para a Rua dos Navegantes, vou aproveitar estes dias de pré-campanha para aqui deixar alguns comentários ou um breve testemunho. Eu entendo que os cidadãos só beneficiam com a alternância do poder e que as eleições são um julgamento do que foi ou não foi feito, mas que também servem para comparar promessas não cumpridas e para darmos ,ou não, a nossa confiança a quem se propõe tomar o exercício do poder.
Todos sabemos o que se passou nos últimos quatro anos, em que a nossa riqueza e a nossa economia decresceram, em que a nossa dívida pública aumentou, em que foram destruidos muitos milhares de postos de trabalho e se criou um exército de desempregados, com uma parte substancial da nossa população a entrar em risco de pobreza e com muita gente a emigrar. Foi devastador. Foi o aumento enorme do IVA e do IRS. Foram a criação de taxas de sustentabilidade e de solidariedade, a extinção de quase todos os benefícios fiscais, os cortes nos 13º e 14º mês, o corte dos feriados, o corte nas indemnizações por despedimento, o aumento dos preços dos transportes, das custas judiciais, das despesas de educação e saúde, para além de pagarmos, mais caro que a maior parte dos europeus, a gasolina, o gás, a água e a electricidade. A ameaça e a incerteza foram permanentes. Os salários e as O governo tem apresentado alguns resultados positivos verificados nos últimos meses nas exportações e no turismo, mas não são obra sua e, infelizmente,  são uma caricatura relativamente ao que aconteceu na Espanha e até na Grécia. O governo falhou em quase tudo a coberto do memorando e da troika, incluindo as privatizações feitas à pressa e por razões ideológicas, a intervenção no BES sem proteger as poupanças dos emigrantes, a distribuição abusiva de subsídios às escolas privadas, a instabilização nas Forças Armadas e de Segurança, a promoção dos hospitais privados e o ataque ao SNS. Há um enorme descontentamento nos médicos e nos professores, nos polícias, nos enfermeiros, nos militares e o futuro é sombrio num país cujos governantes submissos deixaram que a dignidade nacional fosse humilhada.
Os resultados da governação Passos-Portas são tão maus e eles são tão impopulares que muitos dos seus correlegionários não se lhes chegam e temos o presidente do PSD a andar às costas desse malabarista chico-esperto que é o presidente do CDS, que não tem votos nem popularidade e que não passa de um irrevogável que dá o dito por não dito. São homens vulgares, sem carreiras profissionais fora da política e sem grandes recursos intelectuais, sem ideias e sem projectos, denunciados como mentirosos e como manipuladores da verdade, que usam pequenos golpes baixos para desviar as atenções do essencial, mas que souberam rodear-se de uma corte de fiéis, sobretudo dos que querem segurar o seu tacho ou que aspiram a ser contemplados com um qualquer lugar de assessor ou de consultor ,com três ou quatro mil euros por mês, mesmo que tenham apenas 21 anos.
Porém, a realidade é bem mais negativa e negra do que aquilo que a propaganda oficial se esforça por fazer crer, com o apoio de muitos jornalistas que decidiram ser escandalosamente servis, o que é uma desonra para a sua profissão. Não é preciso mais nada a não ser observar. A campanha eleitoral vem aí. Votemos!

sábado, 12 de setembro de 2015

Sim ou não à independência da Catalunha

A Catalunha celebrou ontem a sua Festa Nacional, habitualmente conhecida como Diada Nacional de Catalunya, ou simplesmente Diada. A habitual festa popular que assinala a data mobilizou cerca de um milhão e meio de pessoas, tendo-se transformado numa monumental manifestação de apoio à independência da Catalunha e ocupado a grande Avenida Meridiana em Barcelona, como hoje mostra a primeira página do La Vanguardia.
O ideal independentista catalão está relacionado com o dia 11 de Setembro de 1714 quando,  depois de um cerco que durou 14 meses, a cidade de Barcelona caiu perante um exército de 40 mil homens. A queda de Barcelona determinou o fim da guerra da Sucessão (1702-1714) que tinha confrontado a Catalunha e Aragão com Castela, no contexto de um conflito à escala europeia que se tornara,  também, uma guerra civil em Espanha. Pouco tempo depois foram abolidas as instituições catalãs e iniciou-se um processo repressivo e de imposição do centralismo castelhano que durou até ao fim do franquismo. Porém, o orgulho catalão não desapareceu. Com a restauração da Monarquia e da Democracia foram restauradas as autonomias espanholas e a Catalunha recuperou as suas instituições e, sobretudo, o seu ideal independentista.
Nos últimos anos os partidos independentistas que recusam o centralismo e defendem a separação da Catalunha da Espanha ganharam muitos adeptos. Depois do governo de Madrid ter recusado às autoridades catalãs o direito de organizar um referendo como fez a Escócia, o governo da Catalunha forçou a realização de eleições regionais antecipadas para o próximo dia 27 de Setembro. As sondagens apontam para uma elevada probabilidade de vitória das forças independentistas, o que pode significar o início de um processo de separação ou mesmo de uma declaração unilateral de independência. Faltam apenas duas semanas para que as eleições catalãs se possam transformar numa autêntica e imprevisível caixa de Pandora. Ontem a Diada foi um acontecimento mobilizador. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Isabel II, o mais longo reinado britânico

A rainha Isabel II, cujo título oficial completo é Sua Majestade Elizabeth Alexandra Mary Segunda, com a Graça de Deus, da Grã-Bretanha, Irlanda do Norte e territórios de Além Mar, Rainha da Comunidade Britânica e Defensora da Fé, torna-se hoje a monarca com o mais longo reinado da história britânica, ultrapassando o recorde da rainha Victoria, a sua trisavó, sendo esse facto assinalado por diversos jornais, como por exemplo The Daily Telegraph.
A rainha Victoria nasceu em 1819 e faleceu em 1901, tendo o seu reinado durado 63 anos e 7 meses e ficado conhecido como a era victoriana, que foi um período de grande mudança industrial, cultural, política, científica e militar na Grã-Bretanha, marcando a expansão e a hegemonia global do Império Britânico. Teve nove filhos e quarenta e dois netos que, através do casamento com membros de outras famílias reais e da nobreza europeia, a tornaram um referencial familiar para a Europa e lhe valeram a alcunha de “a avó da Europa”. Os maridos da rainha Victoria (Francisco Alberto) e da rainha D. Maria II de Portugal (Fernando) eram primos e membros da Casa de Saxe-Coburgo Gota, isto é, as casas reais inglesa (Windsor) e portuguesa (Bragança) tinham relações familiares.
À rainha Victoria sucederam Eduardo VII, Jorge V, Eduardo VIII, Jorge VI e Isabel II. A rainha Isabel II iniciou o seu reinado em 1952 e hoje é a rainha do Reino Unido e de quinze outros estados independentes, além de chefe da Commonwealth, que é constituída por 53 estados. Os seus biógrafos afirmam que ela conheceu 6 Papas, 10 Presidentes dos Estados Unidos e 12 Primeiros-Ministros britânicos.
Para quem não é monárquico e conhece muitas das mal-feitorias feitas pelos ingleses ao seu velho aliado lusitano, a longevidade da monarca não mereceria especial destaque, mas o seu serviço voluntário como simples motorista do Auxiliary Territorial Service durante a II Guerra Mundial e sob os bombardeamentos aéreos de Londres, foi um acto de coragem que sempre mereceu a nossa admiração.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Brasil protesta em dia de independência

O dia 7 de Setembro é, oficialmente, o Dia da Independência do Brasil. Nesse dia do ano de 1822 nas margens do pequeno rio Ipiranga, num local que hoje foi absorvido pela malha urbana da cidade de São Paulo, o Príncipe Regente do Brasil D. Pedro de Alcântara de Bragança tomou a decisão de liderar o processo de independência daquela colónia portuguesa. A História regista essa decisão como o chamado “grito do Ipiranga” e, cerca de um mês depois, o príncipe foi proclamado Imperador do Brasil com o nome de D. Pedro I. Assim começou a história do Brasil moderno que, daqui a sete anos vai celebrar o seu bicentenário.
Todos os países têm uma ou mais datas que marcam a sua História e que, juntamente com a bandeira, o hino, a língua e o território, reforçam a unidade e a identidade nacionais: os Estados Unidos têm o 4 de Julho (Dia da Independência), a França tem o 14 de Julho (Tomada da Bastilha), a Índia tem o 26 de Janeiro (Dia da República), Portugal tem o 10 de Junho (Dia de Camões) e o Brasil tem o 7 de Setembro.
Porém, este ano não houve festa no Brasil e, em vez dela, houve largo protesto e muita indignação porque a crise política é grave, a economia está em recessão com a inflação e o desemprego a subirem e a popularidade da Presidente Dilma Rousseff em níveis muito baixos. O tradicional desfile da independência que se realizou em Brasília foi pouco participado e não mobilizou a população, embora o discurso presidencial tivesse agradado a muita gente, como hoje salienta o Correio Braziliense ao destacar que Dilma “fez mea-culpa”. De facto, no seu discurso a Presidente disse que “se cometemos erros, vamos superá-los e seguir em frente”. Não é habitual que os governantes tenham a lucidez de admitir ter errado e, por isso, essa declaração deve dar esperança e ânimo aos brasileiros.
E, já agora, os meus parabéns pelos 193º aniversário do Brasil!

domingo, 6 de setembro de 2015

Refugiados sim, mas acabem com a guerra

As imagens que nos chegam pelas televisões e as fotografias que ilustram as primeiras páginas dos jornais são aterradoras e têm feito despertar a Europa que, desde há muito tempo, vinha revelando alguma indiferença perante a tragédia humanitária que a guerra na Síria e no Iraque está a provocar. Este “long walk to freedom” como ontem se lhe referiu o diário The Scotman, é uma das consequências de uma guerra, brutal com todas as guerras, que ocorre na Síria há quase cinco anos, na qual alguns Estados europeus, designadamente o Reino Unido, a Alemanha e a França, têm apoiado uma das partes do conflito com armamento e dinheiro, em vez de procurarem a paz, sem que as suas opiniões públicas questionem os respectivos governos sobre essa sua cegueira política e ausência de visão estratégica.
Tal como já acontecera no Iraque e na Líbia, a política europeia em relação à Síria, tem contribuido para a desagregação e a destruição do país e dado origem a uma tragédia humanitária com milhões de refugiados, não só internamente, mas também nos estados vizinhos e, agora, em direcção à Europa. A guerra civil que se trava entre o governo de Bashar al-Assad e as várias oposições tem sido cada vez mais “uma guerra por procuração”, em que se confrontam rivalidades religiosas e interesses económicos, representados de um lado pela Turquia, a Arábia Saudita e o Qatar e, do outro lado, pelo Irão, o Líbano e uma parte do Iraque. Igualmente envolvidos nessa guerra, estão os Estados Unidos, a Rússia e os países europeus já referidos, enquanto a posição que o Estado Islâmico atingiu na região é relevante, embora com alguma cumplicidade ocidental, porque o negócio do armamento é vital para as suas economias.
É preciso que toda esta gente se entenda para acabar com a guerra e que os povos da Europa e dos Estados Unidos  se manifeste e exija esse caminho aos seus governos!
Um refugiado sírio de 13 anos de idade que chegou à Europa foi entrevistado pela Al Jazeera e, sem hesitação, disse: "Nós não queremos vir para a Europa. Só queremos que parem a guerra na Síria". Ele tem toda a razão.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Bodrum e a má consciência da Europa

Bodrum é uma cidade turca situada nas margens do mar Egeu que nos últimos anos se tornou numa das mais atraentes estâncias balneares, para onde se dirige a sociedade turca mais ocidentalizada e mais próspera. Ontem, nas areias de uma das suas praias mais procuradas apareceu o cadáver de Aylan Kurdi, uma criança síria de três anos de idade, cuja família fugia da guerra no seu país e procurava atingir a ilha grega de Kos, numa pequena embarcação que naufragou. A generalidade da imprensa mundial publicou nas suas primeiras páginas uma fotografia em que um militar turco recolhe o corpo de Aylan Kurdi. A imagem daquele menino tornou-se o símbolo da grave crise migratória que já provocou milhares de mortos entre a multidão de refugiados que foge à guerra e essa fotografia fez tremer a consciência de uma Europa que se tem mostrado incapaz de promover a paz no mundo e, em especial, nas suas fonteiras mediterrânicas. É a maior e mais grave crise de refugiados desde a 2ª Guerra Mundial e o influente jornal The Washington Post classificou aquela imagem como "o mais trágico símbolo da crise de refugiados do Mediterrâneo". No caso da Síria, mas não só, as grandes potências têm enormes responsabilidades nas tragédias humanitárias que estão a acontecer, pois foram elas que promoveram a instabilidade regional e que têm alimentado a guerra. Espera-se agora que, perante o dramatismo do que se viu no areal de Bodrum, a imprensa influencie, as opiniões públicas reajam e os dirigentes das grandes potências arrepiem caminho em nome dos ideais humanitários que os deveriam nortear, quando muitas das más memórias de um passado recente ainda estão vivas. A tragédia de Bodrum alerta-nos para os nossos deveres morais de apoiar os refugiados e exige que se ponha fim da guerra.
Nesta Europa tão egoísta e a revelar tanta falta de valores e tão má consciência, há entidades públicas e muitas organizações da nossa sociedade civil a dar mostras de grande solidariedade e humanidade e, desta forma, a honrar a tradição portuguesa de acolhimento a refugiados e, também, a memória de Aristides de Sousa Mendes.

É evidente que vamos pagar o Novo Banco

Todos nos lembramos do famoso diktat do homem do leme que em Julho de 2014, durante uma visita à Coreia do Sul, garantiu a partir de Seul que “os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo”, acrescentando que “o Banco de Portugal tem sido peremptório e categórico a afirmar que os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo dado que as folgas de capital são mais que suficientes para cumprir a exposição que o banco tem à parte não financeira, mesmo na situação mais adversa”. Duas semanas depois a bomba estoirou. Cavaco enganara os portugueses. No dia 3 de Agosto o Banco de Portugal anunciou uma injecção de capital de 4.900 milhões de euros e a criação de um "banco mau" e de um "banco bom", que passou a chamar-se Novo Banco. Nesse mesmo dia, através da ministra das Finanças, o governo garantiu que os contribuintes não teriam de suportar os custos relacionados com o financiamento do BES e que a nova instituição seria detida integralmente pelo Fundo de Resolução, uma pessoa coletiva de direito público criada em 2012, que funciona junto do Banco de Portugal.
Passou um ano e está tudo na mesma ou pior. Entre Agosto e Dezembro do ano passado o Novo Banco registou prejuízos de 467 milhões de euros e, no primeiro semestre de 2015, o prejuízo foi de 252 milhões de euros. É obra! Entretanto, o Banco de Portugal que, como alguém disse, sabe tanto da venda de bancos como o Jorge Jesus de literatura portuguesa, tratou de contratar assessores e consultores por ajuste directo e a respectiva factura já atinge 20 milhões de euros. Um regabofe!
Mesmo a poucas semanas das eleições legislativas, o governo quer vender tudo e depressa mas, como diz o ditado popular, “depressa e bem não há quem”. Além disso, nem a Anbang, nem a Fosun, nem a Apollo estão realmente interessadas num negócio em que são imprevisíveis os custos das litigâncias e das imparidades. Apesar da confidencialidade do processo de venda, é hoje evidente que o Estado não vai recuperar os 4.900 milhões de euros que, obviamente, serão pagos pelos contribuintes através das mais diversas formas. Ninguém tem dúvidas disso. Aqueles que disseram o contrário mentiram ou são absolutamente incompetentes. Alguns deles ainda têm o atrevimento de aparecer na televisão a embrulhar as suas responsabilidades. Que impunidade e que grande farsa!

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O pequeno caceteiro que veio de Bruxelas

O licenciado Paulo Rangel nasceu em 1968 e, segundo reza a sua biografia, entrou na política aos 33 anos de idade quando em 2001 lhe confiaram a redacção do programa de candidatura de Rui Rio à Câmara Municipal do Porto. Gostou da experiência, encostou-se aos amigos e, em vez de escolher uma carreira académica, optou por ocupar alguns bons tachos, misturando funções públicas com funções privadas. Em 2010 já se sentia alguém e decidiu disputar a liderança do PSD, mas como perdeu o confronto com Passos Coelho foi compensado com um tacho de eurodeputado muito bem remunerado em Bruxelas. Foi nessa condição que foi convidado para essa magna reunião de escoteiros sociais-democratas a que, pomposamente, chamam a universidade de verão do PSD.
Pois foi esta figurinha menor, este pateta e este verdadeiro caceteiro que nos veio dizer que foi o actual governo que tratou de confrontar um ex-primeiro-ministro e um banqueiro com a Justiça, ao afirmar com os dedos no ar que estes dois casos só estão a acontecer porque o PSD e o CDS estão no governo. Nestas condições e, ainda segundo o caceteiro-pateta Rangel, a acção da Justiça tem sido encaminhada e interpretada à luz dos desejos do PSD e do CDS, porque ninguém “acredita que se os socialistas estivessem no poder haveria um primeiro-ministro sob investigação”, isto é, a Justiça só investiga políticos quando os seus partidos não estão no governo e, portanto, a Justiça não passa de uma qualquer coisa comandada pelo governo. É triste vermos um jurista e eurodeputado, alucinado e fanático, a dizer isto. É um ignorante. É uma vergonha da nossa Democracia.
Assim, ainda segundo o referido caceteiro-pateta, temos Sócrates a ser investigado porque é do PS; temos Passos a não ser investigado no caso Tecnoforma e nas dívidas à Segurança Social porque é do PSD que está no governo; temos Portas a não ser investigado no “caso dos submarinos” porque o CDS também está no governo; temos Vara condenado no processo “Face Oculta” porque é do PS; temos Miguel Macedo a não ser constituído arguido no caso “vistos gold” porque é do PSD; temos Marco António Costa que ainda não foi constituído arguido no “caso Câmara de Gaia” porque o PSD está no governo ; e temos Dias Loureiro e toda a malta do BPN a circularem livremente por aí sem investigação, porque são do PSD. Das declarações do eurodeputado Rangel não se pode concluir outra coisa e, portanto, como diria o treinador Manuel Machado, “um imbecil é sempre um imbecil”.

Gibraltar e tanta economia paralela

Gibraltar é uma península situada a sul da península Ibérica e um rochedo a que os espanhóis chamam el Peñón, é um território britânico ultramarino e, também, um paraíso fiscal. Foi ocupado em 1704 por uma força anglo-holandesa durante a Guerra da Sucessão Espanhola e, no Tratado de Utrecht assinado em 1713, o território foi cedido à Inglaterra com a "a total propriedade da cidade e castelo de Gibraltar, junto com o porto, fortificações e fortes [...] para sempre, sem qualquer exceção ou impedimento”.
Está com este estatuto desde há 300 anos. Porém, as cedências ou as ocupações territoriais resultantes das guerras ou dos respectivos tratados de paz, mais tarde ou mais cedo geram processos de contestação, sobretudo quando não se verifica uma autêntica integração ou quando as correlações de forças se alteram. A Espanha tem reivindicado continuamente a devolução de Gibraltar e essa contestação até tem dado origem a alguma tensão diplomática. O Reino Unido já promoveu referendos em 1967 e em 2002, para que os cerca de 30 mil gibraltinos decidam do seu futuro, mas estes têm declarado quase unanimemente que querem ser colónia britânica. Parece um paradoxo, mas não é.
Gibraltar perdeu o valor estratégico de outros tempos, mas é um gigantesco shopping center, um verdadeiro mundo da economia paralela e a verdadeira capital do jogo on line, que é um dos seus grandes negócios.  Hoje o jornal ABC tenta mostrar o que Gibraltar esconde e afirma que “como todos los paraísos fiscales, Gibraltar está lleno de secretos”. Assim é de facto. Não se sabe quantos estrangeiros lá trabalham, mas estima-se que esse número se situe entre 3500 e 10 mil, sobretudo espanhóis residentes em Espanha. Porém, só 120 espanhóis têm emprego legal declarado pois os outros milhares que entram e saem todos os dias preferem ser “clandestinos e precários”, podendo ter outro emprego em Espanha ou receber qualquer tipo de subsídio, eventualmente de desemprego. As autoridades fiscais espanholas estão em vias de “cercar” esses milhares de espanhóis empregados nas companhias de jogo, nas empresas financeiras e de entretenimento, mas também os inúmeros profissionais liberais, sobretudo da área da saúde, que defraudam o fisco espanhol. Enquanto isto, como refere o ABC, os “colonialistas” gibraltinos exploram os seus “colonos” espanhóis.

O Brasil, a recessão e os dias cinzentos

O Brasil que é o país da alegria e do sol tropical, vive dias cinzentos, depois de ter sido anunciado que no 2º trimestre de 2015 o seu PIB caiu 1,9% e, como no 1º trimestre tinha caido 0,7%, em termos económicos o país entrou em recessão pois registou dois trimestres consecutivos em queda. Todos os jornais brasileiros destacaram esta notícia que é preocupante para a sociedade brasileira que, actualmente, passa por grandes dificuldades económicas e por alguma convulsão política, com muitas manifestações e muitos dos seus dirigentes a contas com a Justiça. O Correio Braziliense exagera e até diz que o Brasil está em queda livre! Porém, para quem está longe e não conhece as especificidades brasileiras, esta recessão (económica) também parece corresponder a uma depressão (psicológica), pois o país não é apenas afectado pela queda do PIB, pelo desemprego e pela inflação, mas também pela insatisfação política e pela corrupção.
Em relação ao PIB há que pensar no chamado ciclo económico, isto é, nas flutuações da actividade económica, em que aos períodos de crescimento se sucedem os períodos de estagnação ou mesmo de declínio. Esses ciclos são tão normais que foram teorizados e até receberam nomes - o ciclo de Kondratiev, o ciclo de Kitchin, o ciclo de Kuznets – consoante as suas características e a sua duração. Portanto, o Brasil está numa baixa a que se irá suceder, embora não se saiba quando, uma alta. É a lei da vida. Porém, o Brasil também vive um período político que não foi satisfatoriamente resolvido nas eleições presidenciais de 2014, porque a vitória de Dilma Rousseff sobre Aécio Neves foi escassa (51,29%), o que faz com que os brasileiros já levem mais de uma dúzia de anos de governo do Partido dos Trabalhadores (PT) e isso, provavelmente, cansa-os. Isto tudo acontece quando a China treme, quando a Europa se revela incapaz de resolver os seus problemas e quando o preço do petróleo cai e o comércio internacional desacelera. Finalmente, há a questão da corrupção e temos a Transparency International a classificar o Brasil como o 69º país mais corrupto do mundo, entre os 175 países avaliados. Mas, segundo a mesma agência a corrupção é muito maior, por exemplo, na Argentina, na Rússia, na Índia e na China e em mais de uma centena de outros países. Por tudo isso, se deseja que os brasileiros resistam aos títulos dos seus jornais que, por razões que só eles conhecem, estão a tender para o dramático. Vá-se lá saber porquê. Força Brasil!