quinta-feira, 21 de março de 2019

O apoio dos portugueses a Moçambique

Cada nova notícia que nos chega de Moçambique e, sobretudo, cada nova imagem que recebemos, ajudam-nos a compreender a dimensão da enorme tragédia que se vive naquele país a que nos ligam raízes históricas e tão fortes sentimentos de fraternidade.
A edição de hoje do jornal O País noticia que estão 60 mil pessoas penduradas em tectos e árvores e que tendem a aumentar as zonas inundadas na província de Sofala, devido à subida dos caudais dos rios Púngué e Búzi.
Como ontem foi afirmado “Portugal estará na linha da frente do apoio internacional humanitário e técnico a Moçambique nesta hora muito difícil” e, nesse sentido, uma força de reacção rápida portuguesa constituída por quarenta militares dos quais 25 são fuzileiros especiais equipados com botes de borracha, duas equipas cinotécnicas da GNR com cães especializados em busca e salvamento, além de médicos e de enfermeiros, já partiu para Moçambique para ajudar no socorro às populações vítimas do ciclone Idai. Entretanto, com o incentivo do Presidente da República, que considera Moçambique a sua segunda Pátria, e com a acção do governo que está a mobilizar todos os meios possíveis de auxílio, a solidariedade portuguesa não vai faltar aos moçambicanos neste tempo de grande tragédia. Da mesma forma, diversas iniciativas de recolha de ajudas estão em curso, não só promovidas pelo governo português, mas também por diversas entidades da sociedade civil, com destaque para a Cruz Vermelha Portuguesa e para a Cáritas Portuguesa.
A solidariedade portuguesa não faltará e Moçambique vencerá!

quarta-feira, 20 de março de 2019

Uma nova aliança entre o Donald e o Jair

O Presidente Jair Bolsonaro viajou para os Estados Unidos para um encontro com Donald Trump e, dessa forma, não só satisfez a sua enorme vontade de se encontrar com o seu ídolo político, como também rompeu a tradição dos chefes de Estado brasileiros de iniciarem as suas visitas ao estrangeiro pela vizinha Argentina.
Segundo foi revelado pela imprensa, houve trocas de elogios, muitas promessas de cooperação e a assinatura de alguns acordos de natureza económica e militar, mas parece que o assunto principal das conversações foi a Venezuela. O Donald e o Jair apoiam o auto-proclamado presidente Juan Guaidó e querem ver Nicolas Maduro fora do poder, embora no mesmo dia a Rússia tenha advertido os Estados Unidos para que não se envolvesse nos assuntos internos venezuelanos e haver organizações ibero-americanas de Direitos Humanos que acusam os Estados Unidos de promover uma guerra civil na Venezuela. Não se sabe o que terá sido pedido ao Jair em relação à Venezuela, mas esperemos que ele não tenha sido contagiado pela agressividade obsessiva do Donald.
O jornal Correio do Brasil diz que o encontro foi um completo fiasco que superou as piores previsões. O Jair foi subserviente e cedeu em questões sensíveis à soberania nacional do Brasil, sem nada receber em troca para além de uma vaga promessa de, contrariando a geografia, o Brasil poder vir a integrar a NATO que é uma aliança atlântica do norte e da qual o Donald não gosta, nem é dono.
Os dois presidentes sairam deste encontro ideologicamente aliados e afirmaram ter muitas coisas em comum e, no fim, transformaram a Sala Oval num campo de futebol, com o Donald a oferecer ao Jair uma camisola da selecção norte-americana, enquanto o Jair retribuiu o mesmo gesto com uma camisola da selecção brasileira com o número 10 e o nome de Trump.

terça-feira, 19 de março de 2019

A solidariedade para com Moçambique

A República Popular de Moçambique e os moçambicanos vivem dias muito difíceis depois da tragédia que resultou da passagem do ciclone Idai sobre o seu território, sobretudo nas províncias de Tete, Manica, Sofala e Zambézia, que ligam o norte e o sul do país, mas que também afectou seriamente os vizinhos estados do Zimbabwe e do Malawi.
Mais do que os relatos, nomeadamente no diário O País, bem como as declarações das autoridades que chegam até nós, são as fotografias que nos expressam a enorme tragédia, que o próprio Presidente da República Filipe Nyusi classificou como um desastre humanitário, no qual terão perecido muitas centenas de pessoas. A conjugação das cheias dos rios Púngué e Búzi e, depois dos ventos ciclónicos, arrasou povoações inteiras, destruiu casas, pontes, instalações públicas e colheitas, afectando mais de um milhão de pessoas, enquanto a cidade da Beira, a segunda maior cidade moçambicana, terá sido destruída em cerca de 90% da sua área urbana. Os prejuízos humanos e materiais são incalculáveis.
A catástrofe já foi descrita como o pior desastre do hemisfério sul. Perante a dimensão da tragédia, as Nações Unidas e a União Europeia já fizeram seguir para Moçambique alguma ajuda humanitária de emergência e o governo português já afirmou que  Portugal estará na linha da frente do apoio internacional humanitário e técnico a Moçambique nesta hora muito difícil”. Não pode ser de outra maneira.
Nesse sentido, um membro do governo português já seguiu para Maputo para avaliar necessidades e recolher as solicitações das autoridades moçambicanas, para que sem demora se inicie uma cadeia de auxílio e de solidariedade de Portugal em prol do povo moçambicano.
Tal como aconteceu noutras circunstâncias graves, como por exemplo recentemente com a destruição de Timor, os portugueses não deixarão de ser solidários com o povo moçambicano.

Bercow desespera com a teimosia de May

John Bercow é um deputado britânico de 56 anos de idade que foi eleito para a Câmara dos Comuns pela primeira vez em 1997 pelo círculo eleitoral de Buckingham. Em 2009 candidatou-se a presidente ou speaker dessa Câmara e, actualmente, está no seu terceiro mandato. Bercow é um experimentado político e um respeitado académico que dirige duas universidades, mas só recentemente se tornou conhecido do público devido ao Brexit.
As suas aparições televisivas mostraram a forma eficaz como dirigia os trabalhos parlamentares e como era respeitado o seu grito de order, durante as acaloradas discussões parlamentares.
Entretanto, com a aproximação do dia em que a Grã-Bretanha deveria abandonar a União Europeia, a primeira-ministra Theresa May persiste na sua teimosia de procurar a aprovação do acordo que negociou com Bruxelas e que já foi chumbado duas vezes, parecendo querer arrastar até ao último dia o pedido de adiamento do Brexit. Vai daí, resolveu apresentar pela terceira vez à votação o seu plano de acordo, mas teve que recuar pois John Bercow informou que não irá permitir uma nova votação do acordo para o Brexit, a não ser que Theresa May traga um texto que seja substancialmente diferente daquele que foi votado na semana passada e foi derrotado por 149 votos.
Toda a imprensa britânica destaca a coragem política do conservador John Bercow, que afirmou que se limita a cumprir a lei, enquanto o gabinete de Theresa May o acusa de sabotar o acordo, conforme anuncia hoje o jornal The Times. O facto é que estamos a dez dias da data anunciada para o Brexit e ninguém se arrisca a fazer previsões sobre o que vai acontecer.

segunda-feira, 18 de março de 2019

O protesto dos coletes amarelos de Paris

Pela 18ª semana consecutiva os “coletes amarelos” franceses estiveram activos no passado fim de semana ao convocarem mais um dia de protesto em que se manifestaram com grande violência, sobretudo no centro de Paris e, em especial, nos Campos Elíseos. Houve automóveis incendiados, lojas saqueadas e destruídas, quiosques arrasados, uma agência bancária assaltada e até foi atacado o restaurante Le Fouquet, o favorito do Presidente Emmanuel Macron.
As imagens divulgadas mostram chamas e fumos negros em muitos locais, a denunciar actos de grande vandalismo que o jornal Le Figaro classificou como insuportáveis e que alguns jornalistas atribuiram aos “profissionais do tumulto”. Essas imagens evocam-nos o ditador alemão Adolf Hitler, quando em Agosto de 1944 perguntava se Paris já estava a arder. Agora há quem diga que Paris está de novo a arder, embora provavelmente com mais intensidade do que acontecera quando da retirada alemã de 1944.
Hoje já não há dúvidas que alguns grupos extremistas se terão infiltrado no protesto dos “coletes amarelos” e serão esses grupos os principais responsáveis pelas destruições que se têm repetido nos últimos fins de semana de protesto.
Foi anunciado que cinco mil agentes da polícia foram mobilizados para a zona dos Campos Elísios, onde foram detidas 230 pessoas das cerca de 10 mil que protestaram em Paris. Ao fim de 18 semanas de protesto e de destruições em larga escala, também há quem acuse as autoridades por falta de firmeza na repressão dos responsáveis pelas destruições que, naturalmente, vão para além do seu legítimo protesto.

domingo, 17 de março de 2019

O independentismo catalão voltou à rua

Depois da aparente letargia que se seguiu aos acontecimentos de Outubro de 2017, o independentismo catalão está a reaparecer com grande dinamismo e com novas polémicas, sobretudo depois do início do julgamento dos 12 políticos catalães envolvidos no chamado procés.
A primeira dessas polémicas é a intenção do partido independentista Junts per Catalunya (JxCat) de apresentar como seu cabeça de lista às eleições europeias de 26 de Maio, o antigo presidente da Generalitat Carles Puigdemont que está exilado na Bélgica desde Outubro de 2017. Outra polémica resulta da exigência da Junta Eleitoral Central para que sejam retirados dos edifícios públicos regionais as bandeiras independentistas e os laços amarelos, símbolo de apoio aos políticos separatistas presos pelo seu envolvimento no referendo de autodeterminação, o que o governo da Catalunha se tem recusado a fazer.
Estes casos revelaram-se mobilizadores e ontem, em Madrid, realizou-se uma grande manifestação convocada por cerca de seis dezenas de associações de toda a Espanha, em que participaram dezenas de milhares de pessoas e que foi encabeçada por Quim Torra e por outros membros do governo catalão, a reclamar contra o julgamento dos independentistas que estão presos e a exigir a sua libertação, sob o lema “A autodeterminação não é delito. Democracia é decidir”. Vieram da Catalunha cerca de 500 autocarros e 15 comboios de alta velocidade e, segundo o cálculo efectuado pelo jornal La Vanguardia, estiveram em Madrid 55.800 manifestantes.
Entretanto, os partidos políticos espanhóis estão em pré-campanha para as eleições legislativas que se vão realizar no dia 28 de Abril, menos de um mês antes das eleições europeias, regionais e municipais de 26 de Maio, o que significa que a questão catalã vai estar em destaque.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Um dia de terror numa escola brasileira

Um massacre numa manhã de autêntico terror, que causou uma dezena de vítimas mortais, enlutou o Brasil. O jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, destaca em título de primeira página que “o Brasil volta a copiar o horror dos Estados Unidos”.
Aconteceu, ontem, numa escola de Suzano, um município situado na região metropolitana de São Paulo, quando dois jovens antigos alunos dessa escola estadual entraram nas suas instalações, provavelmente não vigiadas, tendo disparado sobre estudantes e funcionários da escola. No mesmo dia, um dos atiradores da escola de Suzano tinha publicado na sua página do Facebook várias fotografias em que aparecia armado e usava uma máscara com uma caveira estampada, bem como o boné e o relógio utilizados durante o tiroteio.
O massacre de Suzano volta a levantar a questão e o debate sobre a liberalização do uso e porte de arma no Brasil, que foi uma das bandeiras de Jair Bolsonaro para atingir a presidência da República.
De acordo com a lei aprovada por Bolsonaro, qualquer brasileiro maior de 25 anos e sem antecedentes criminais pode ter uma arma em casa, não sendo necessário que o seu possuidor prove que dela necessite. Porém, se não existem restrições importantes quanto à posse de arma, no que respeita ao porte de arma, que é a possibilidade de andar armado na via pública, a lei é muito mais restritiva. O facto é que os dois estudantes de Suzano tiveram acesso a armas e provocaram um massacre, o que obriga a que todo o Brasil repense este problema e o resolva no sentido de uma sociedade equilibrada e sem violência.

quarta-feira, 13 de março de 2019

O dia da ressureição de Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo nasceu no Funchal há 34 anos e muita gente pensa que essa idade já não é recomendável para jogar futebol, sobretudo na alta-roda das competições internacionais e, ainda por cima, como atacante.
Quando em Julho de 2018 o famoso futebolista deixou Madrid a caminho de Turim, eu pensei, e muitos pensaram como eu, que a Juventus não tinha comprado um futebolista por 100 milhões de euros, mas que adquirira, sobretudo, um ícone publicitário ou uma imagem de marca, para melhorar o marketing do clube e para o ajudar a voltar ao topo do futebol europeu.
O tempo parecia dar razão a essas pessoas, pois Cristiano Ronaldo deixou de aparecer na selecção portuguesa, teve problemas com o fisco espanhol e com a justiça americana e pareceu ter perdido o seu habitual alto rendimento futebolístico. Até a Bola de Ouro lhe escapou para Luka Modric, o croata que fora seu companheiro no Real Madrid.
Porém, Cristiano Ronaldo ressuscitou ontem em Turim e tratou de pôr em delírio um estádio cheio e os adeptos da Juventus. Defrontando o Atletico de Madrid e, depois de ter perdido por 2-0 no primeiro jogo disputado na capital espanhola, desforrou-se com 3-0 e passou aos quartos de final da Liga dos Campeões. Cristiano Ronaldo marcou os três golos e a imprensa italiana, mas também a espanhola, a portuguesa e a latino-americana esgotaram os adjectivos elogiosos.
Até La Gazzetta dello Sport, a "bíblia" do futebol italiano, se rendeu a Cristiano Ronaldo. É mesmo um caso raro de talento futebolístico que bate todos, ou quase todos, os recordes do mundo do futebol.

May volta a ser derrotada no Parlamento

O Parlamento britânico votou ontem o novo acordo para a saída da Grã-Bretanha da União Europeia e, pela segunda vez, a primeira-ministra Theresa May foi derrotada, sendo essa derrota hoje destacada por toda a imprensa britânica.
À semelhança do que aconteceu na votação de 15 de Janeiro, quando o acordo foi chumbado por 432 votos a 202 (derrota por 230 votos), a votação de ontem resultou num novo chumbo pois 391 deputados votaram contra o acordo, que teve somente 242 votos favoráveis (derrota por 149 votos). Significa que as alterações introduzidas nas últimas semanas no texto do acordo convenceram alguns deputados, embora 62% dos membros do Parlamento britânico continuem a recusá-lo.
Hoje os deputados britânicos vão decidir se aceitam uma saída da União Europeia sem acordo, o chamado Brexit duro. Se o aceitarem haverá uma "crise sísmica na Europa", mas se recusarem essa opção, os deputados votam amanhã um adiamento do Brexit para além do dia 29 de Março, a chamada extensão do Artigo 50 do Tratado de Lisboa.
Enquanto os deputados discutem acaloradamente e se embrulham nesta questão, com Theresa May a revelar uma inacreditável teimosia, há manifestações em frente do Parlamento que têm convivido bem, umas a favor e outras contra o Brexit. Ninguém adianta cenários nem previsões, mas é cada vez mais provável que a saída para este caso seja um pedido de extensão do Artigo 50, seguida da demissão de Theresa May e da convocação de eleições gerais, em que os partidos e os candidatos a deputados afirmem, prévia e claramente, a sua posição em relação ao Brexit. Talvez assim se evite a vergonha que seria um novo referendo. Não há outra saída.  

terça-feira, 12 de março de 2019

A Argélia caminha para uma nova ordem

Contrariamente ao que acontece na Venezuela com a contestação a Nicolás Maduro, a contestação dos argelinos à candidatura de Abdelaziz Bouteflika para a presidência da Argélia produziu efeitos e o actual presidente, desistiu das suas intenções. Não se sabe se foi por vontade própria ou por pressão dos seus conselheiros, mas nesta desistência prevaleceu a sensatez e, provavelmente, o nome de Bouteflika não será apagado da história argelina. As multidões que, sob o impulso da juventude argelina, vieram para a rua contestar aquela candidatura a um quinto mandato presidencial, aspiram agora a uma mudança de regime, a uma nova sociedade e a novas perspectivas de vida.
Significa que se aproximam tempos difíceis e de confrontação entre uma ordem antiga e uma nova ordem, o que pode incitar a que alguns poderes externos queiram meter a mão onde não devem, a coberto dos mais diversos pretextos. A história recente dos povos mostra-nos que, a partir de agora, tudo pode acontecer na Argélia, mas também nos mostra que são indesejáveis quaisquer interferências externas.
Na Síria, como no Iraque ou na Líbia, as interferências externas produziram maus resultados e é necessário que aqueles que perseguem o petróleo ou o gás natural, não se precipitem na Venezuela, mas também não se intrometam na Argélia. Hoje o jornal francês Libération salienta a primeira vitória, mas não indica quem foram estes primeiros vencedores. O tempo nos mostrará o que vai acontecer.

A crise agudiza-se na Venezuela

A situação na Venezuela está a complicar-se ou, dito de outra forma, está a ir de mal a pior. Antes era a crise económica, a hiper-inflação, a falta de bens essenciais e a insegurança. Depois veio a fuga de muitos milhares de pessoas para o Brasil e para a Colômbia, mas também a contestação nas ruas. Foi então que Juan Guaidó enfrentou o chavismo e se autoproclamou Presidente da República Bolivariana da Venezuela, mas como Nicolás Maduro já estava no poder com largo apoio dos militares e do poder judicial, a Venezuela ficou politicamente polarizada e com dois presidentes, cada qual com os seus apoios internacionais.
Desde então os acontecimentos têm-se sucedido a alta velocidade.
Há cinco dias aconteceu o mais longo apagão da rede eléctrica venezuelana que paralisou o país, que levou ao encerramento de escolas e hospitais. Sem energia eléctrica e sem transportes públicos tudo se alterou na Venezuela e até surgiram os inevitáveis assaltos a supermercados e residências. O desespero tomou conta das pessoas e, com o encerramento das fronteiras terrestres com a Colômbia e o Brasil, a que se juntou a “escuridão” dos últimos dias, a Venezuela está cada vez mais isolada.
O apagão foi uma anormalidade tem todo o aspecto de um inovador ataque feito sem armas, sem soldados e sem aviões. Não foi um acaso. Foi um acto de sabotagem em grande escala. Quem teriam sido os seus autores? Opositores internos ou agentes externos? O grupo de Lima, em que pontificam os Estados Unidos, acusa Maduro de ser o exclusivo responsável pela crise venezuelana, mas Maduro devolve a acusação aos Estados Unidos por este ataque que disse ter sido cibernético e essa acusação foi veiculada pelo jornal Ultimas Notícias de Caracas. Entretanto, Juan Guaidó afirma ter declarado o estado de emergência e convocou novos protestos, aproveitando o desespero da população com a falta de água, de comida e de energia. A crise venezuelana agudiza-se.

domingo, 10 de março de 2019

As polémicas com a viagem de Magalhães

Na sua edição de hoje o diário conservador espanhol ABC dedica uma grande reportagem à polémica criada em torno da autoria ou co-autoria da primeira viagem de circumnavegação iniciada por Fernão de Magalhães em 1519 e concluída por Sebastião de Elcano em 1522. Foi uma grande viagem e quando se aproximam os 500 anos da sua realização, há quem considere que essa histórica viagem ibérica foi exclusivamente espanhola e há quem defenda que também foi portuguesa. O jornal ABC, depois de ter consultado a Real Academia de la Historia, recebeu um parecer que foi hoje divulgado, em que aquela instituição conclui que essa viagem foi “plena y exclusivamente española” e fundamenta-a em 13 pontos. Todos esses pontos estão apoiados em documentos, mas a interpretação desses documentos dá argumentos para todas as versões, até porque Magalhães era português e levava consigo “trinta e tantos portugueses”.
Os portugueses tomaram a iniciativa de comemorar a efeméride e associaram-se aos espanhóis, tendo apresentado conjuntamente na UNESCO uma proposta para que a Rota de Magalhães seja inscrita como Património da Humanidade. Os espanhóis distraíram-se com outras coisas e, agora que o assunto está na ordem do dia, não estão a gostar nada do que está a acontecer. O jornal ABC acusa os políticos socialistas espanhóis e refere “as mentiras de Portugal para se apropriar da gesta de Magalhães e Elcano”, ridiculariza “um historiador português que acusa Elcano por ter dado a volta ao mundo ilegalmente” e acusa “a diplomacia portuguesa de ter perdido o respeito pela Espanha”.
Ninguém tem dúvidas de que a principal quota-parte dessa viagem é espanhola, mas não é verdade que seja “incontestable la plena y exclusiva españolidad dela empresa”. A Real Academia de la Historia deve estar cheia de fantasmas franquistas. Quando se pensava que a integração europeia acabava com todas as rivalidades ibéricas do passado, temos um jornal da direita franquista e tramontana espanhola a desenterrar o machado de guerra.

R.I.P. José de Albuquerque

José de Albuquerque deixou-nos ontem de forma inesperada na sua terra de Goa e eu perdi um amigo de excepcional inteligência e de extrema cordialidade.
Tinha 85 anos de idade e, há pouco mais de um mês publicara um livro em português, o que foi um testemunho do seu talento literário e a prova do seu conhecimento da língua e da cultura portuguesas, de cujo uso nunca abdicou. Conhecemo-nos há mais de vinte anos em Goa, quando no exercício de funções de gestão necessitei do conselho técnico de alguém com competência e experiência nos domínios da engenharia e toda a gente me indicou o nome de José de Albuquerque, que era um engenheiro formado pela Universidade de Puna e que tinha  servido no PWD (Public Works Department), onde atingiu o cargo de Engenheiro-Chefe do Estado de Goa e Secretário-Adjunto do Governo de Goa.
Tinha sido um aluno brilhante no antigo Liceu Afonso de Albuquerque em Pangim e admirava Portugal e os portugueses. Por uma única vez na vida visitou Portugal e, nessa altura, eu tive o privilégio de lhe mostrar algumas coisas do país que ele tanto amava em todas as suas dimensões.
Goa perdeu um grande homem e, dos muitos amigos que por lá tenho, perdi um dos melhores.

quinta-feira, 7 de março de 2019

A Argélia está a requerer a nossa atenção

Com 82 anos de idade e ocupando a presidência da República Democrática e Popular da Argélia desde 1999, Abdelaziz Bouteflika anunciou há poucos dias a sua candidatura a um quinto mandato presidencial.
Trata-se de um homem de grande prestígio nacional porque foi um dos líderes da revolução argelina que derrotou o poder colonial francês, mas também de prestígio internacional pois presidiu à Assembleia Geral das Nações Unidas. Porém, para além da sua idade, Bouteflika não é visto em público desde que foi vítima de um acidente vascular cerebral (AVC) em 2013 e, alegadamente, estará hospitalizado na Suiça desde há uma semana. Por isso, o anúncio da sua recandidatura gerou uma forte contestação popular, sobretudo da juventude universitária e de outras forças que se lhe juntaram, que não aceitam a candidatura de Bouteflika porque se encontra diminuído das suas capacidades, nem o sistema oligárquico por ele criado para dirigir a Argélia que acusam de ser corrupto e submisso a forças externas.
Tudo começou há menos de um mês, mas a contestação tem aumentado através da convocação de manifestações feitas através das redes sociais, que não querem que Bouteflika e os seus apaniguados se mantenham no poder. Os argelinos têm aspirações e parece que querem mais democracia e mais progresso, embora não se saiba que aproveitamento podem os radicais islâmicos fazer desta situação.
Argel fica a cerca de mil quilómetros de Lisboa, logo a Argélia fica próxima de Portugal. Desde que apareceram as primaveras árabes que têm ocorrido graves perturbações em diversos países do Médio Oriente e da margem sul do Mediterrâneo, desde a Tunísia ao Iraque, passando pelo Iraque, pelo Egipto e pela Líbia. A intervenção externa ocidental nestas primaveras árabes tem sido um caso de enorme insensatez e estupidez. É preciso estudar o que se passa na Argélia e ajudar os argelinos. O trabalho hoje publicado pelo OBS - Le Nouvel Observateur, pode ajudar a compreender a situação.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Os bailinhos de Carnaval da ilha Terceira

A ilha Terceira tem uma história muito rica, um importante património construído e até uma capital que é património da Humanidade, mas o que mais impressiona naquela ilha são as características culturais dos terceirenses, que se revelam nas Sanjoaninas, nas Festas da Praia (da Vitória) e em muitas outras festas que se realizam por toda a ilha, mas também nas touradas, nas marchas, nas danças, nas comédias e, sobretudo, nos bailinhos de Carnaval.
Durante muitas semanas, homens e mulheres das mais diversas idades e profissões, de diferentes graus académicos e estratos sociais, esquecem as diferenças socioculturais, e transformam-se em músicos e actores, juntando-se em ensaios para apresentarem em palco um divertido espectáculo popular que envolve um pouco de todas as artes performativas, como a música, o teatro, o canto e a dança, que entusiasmam uma ilha inteira. São os grupos que vão ao encontro das pessoas e chegam a fazer seis ou mais atuações em cada noite, pela madrugada dentro, nas salas espalhadas por toda a ilha durante os quatro dias de Carnaval. Este ano foram 70 bailinhos, 6 danças de pandeiro, 2 danças de espada, 8 comédias e um monólogo, apresentados em 36 palcos das sociedades recreativas de toda a ilha, sempre cheias, em que participaram 1.970 músicos e actores, sendo 1.136 homens e 833 mulheres. Os bailinhos são, seguramente, uma das mais interessantes manifestações da cultura popular portuguesa, embora sejam pouco conhecidos no território continental.
Os terceirenses também levaram a sua tradição cultural para os Estados Unidos e para o Canadá e todos os anos são apresentados bailinhos que, por vezes, vêm actuar na ilha Terceira. Este ano estavam programados 18 bailinhos na costa Leste americana e 15 na Califórnia, enquanto no Canadá só estavam anunciados 10!
Naturalmente, o terceirense Diário Insular destacou que a ilha esteve embalada pelo Carnaval, até porque, como alguém referiu, a ilha Terceira é uma terra de artistas e hoje, que é quarta-feira, já os terceirenses estão com saudades do Carnaval e a começar a ensaiar as marchas a apresentar nos Santos Populares. Sempre em festa! Viva a alegria da ilha Terceira.