terça-feira, 5 de julho de 2022

World needs better leaders, diz Kissinger

O jornal USA Today, que é o diário de maior circulação por todo o território dos Estados Unidos, destaca na sua edição de hoje como principal notícia de primeira página, o tiroteio que ocorreu ontem durante o desfile do 4 de Julho em Highland Park, nos arredores de Chicago, de que resultaram “seis mortos e dúzias de feridos”. Porém, na mesma primeira página e com semelhante destaque, há uma referência a uma entrevista a Henry Kissinger em que o antigo secretário de Estado americano, agora com 99 anos de idade, diz que “world needs better leaders”.
A entrevista surgiu na sequência do seu 19º livro, uma obra de 499 páginas que foi lançada ontem em Nova Iorque e que tem como título Leadership: Six Studies in World Strategy. Nesse livro, Henry Kissinger mostra-se preocupado com o seu país e com o mundo, descrevendo o perfil de seis líderes que viveram tempos tumultuosos, mas que souberam ajudar a construir uma nova ordem mundial no século XX: Konrad Adenauer (Alemanha), Charles de Gaulle (França), Richard Nixon (Estados Unidos), Anwar Sadat (Egipto), Lee Kuan Yew (Singapura) e Margaret Thatcher (Reino Unido). Questionado sobre se actualmente vê algum líder comparável àqueles, capaz de enfrentar as exigências dos tempos actuais, Kissinger respondeu com uma única palavra “Não” e, após uma breve pausa, acrescentou “Doloroso”.
A propósito da Ucrânia, várias vezes tenho pensado que eram necessários melhores líderes que tivessem evitado a guerra, que negociassem o cessar-fogo, que evitassem a brutalidade das destruições e que travassem a escalada da guerra que nos pode levar a maiores tragédias. Porém, eles ficam-se pela “espuma dos dias”, ou por umas visitas a Kiev, permitindo que seja um funcionário de nome Stoltenberg que, em seu nome, atire gasolina para a fogueira. 
Henry Kissinger tem razão: “world needs better leaders”.

A violência armada na grande América

O 4 de Julho ou Dia da Independência é um feriado federal nos Estados Unidos que comemora a data em que, no ano de 1776, os delegados das treze colónias rebeldes americanas adoptaram a Declaração de Independência, um documento elaborado por Thomas Jefferson, que veio a ser o terceiro presidente dos Estados Unidos. É um dia de grande festa em que se celebra o nascimento da nação americana de formas muito diversas, com grandes desfiles militares e sociais, fogos-de-artifício, concertos e espectáculos, além de tradicionais e alargadas reuniões familiares. Porém, um desfile do Dia da Independência que ontem decorreu em Highland Park, um subúrbio a cerca de 40 quilómetros do centro de Chicago, no estado de Illinois, foi interrompido por um tiroteio de que resultaram pelo menos seis mortos e 31 feridos. A edição de hoje do jornal Chicago Tribune destaca este acto com o título “Holiday Horror” pois, mesmo em dia de festa nacional, a aterradora e brutal violência armada não faltou, como vem acontecendo em escolas, supermercados, igrejas e outros locais, como consequência de uma cultura de violência e de uma política de livre venda de armas a particulares.
Recentemente, na sua edição de 25 de Maio, o jornal Diário de Notícias tinha noticiado que, desde o início do ano, pelo menos 17.196 pessoas tinham morrido baleadas, segundo a organização Gun Violence Archive, incluindo homicídios e suicídios. Em média morrem por ano 40.620 pessoas nos Estados Unidos vitimadas por armas de fogo o que significa que acontecem 111 mortes violentas por dia. 
No país que lidera o mundo, tanto económica como tecnologicamente, há alguns aspectos civilizacionais que mancham a imagem dos Estados Unidos e, seguramente, que a violência armada é um deles.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

As alegres viagens do presidente Marcelo

A Bienal Internacional do Livro de S. Paulo, este ano na sua 26ª edição, é um evento literário de grande importância na vida cultural brasileira que teve Portugal como convidado de honra, razão porque registou a presença de mais de duas dezenas de escritores portugueses e lusófonos. O Presidente da República Portuguesa decidiu participar na inauguração desse evento, mostrando o seu apoio aos escritores e aos editores portugueses, mas também o seu empenho no reforço da amizade entre Portugal e o Brasil. Nesta sua deslocação, Marcelo Rebelo de Sousa viajou para o Brasil num voo especial da TAP para celebrar a primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul realizada há cem anos por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, tendo participado numa cerimónia pública no Rio de Janeiro em que foi descerrada uma placa comemorativa alusiva a essa viagem. Segundo foi noticiado, Marcelo foi nadar na praia da Copacabana com os jornalistas à sua volta como tanto gosta, ofereceu uma recepção à comunidade portuguesa do Rio de Janeiro e, depois em S. Paulo, ofereceu mais uma recepção à comunidade portuguesa desta cidade, bem como um almoço aos editores e escritores portugueses presentes na Bienal. Encontrou-se com os antigos presidentes Fernando Henrique Cardoso, Luis Inácio Lula da Silva e Michel Temer, mas Jair Bolsonaro, o actual presidente do Brasil, desconvidou-o para um encontro com almoço em Brasília que estivera programado.
Através das fotografias divulgadas pela própria presidência, vemos que a viagem foi bem divertida e animada, com as cenas popularuchas do costume, as selfies, os abraços e os incontáveis microfones à volta. Ao mesmo tempo pudemos ver como era alargada a comitiva presidencial e como foi elevado o número de jornalistas que o acompanharam nesta viagem. Não se justifica tanta gente neste tipo de viagens, porque tudo isso é pago com os nossos impostos que são bem altos. O presidente sabe isso, mas actua como se o recurso orçamental fosse inesgotável.
Foi dito que esta viagem foi “a oportunidade para se falar mais de Portugal”, mas o exemplo do jornal Estado de S. Paulo mostra que não foi assim, pois este jornal dedica um grande espaço da sua capa à 26ª Bienal Internacional do Livro, mas refere apenas um português que é o escritor Valter Hugo Mãe e não Marcelo Rebelo de Sousa.

domingo, 3 de julho de 2022

A Airbus e os seus "contratos do século"

Os portugueses gostam da França, apesar das invasões napoleónicas de 1808-1811, mas há que reconhecer que os franceses são demasiado chauvinistas e que, para eles, la France está sempre acima de todas as coisas. Por isso, os sucessos aeronáuticos da Airbus SE, até porque comparam com a sua rival americana Boeing, estão sempre a ser anunciados pela imprensa francesa.
Ontem, o jornal La Dépêche du Midi que se publica em Toulouse, a cidade onde se localizam as principais fábricas da Airbus SE e as linhas de montagem finais dos aviões A320, A330, A350 e A380, noticiou que quatro companhias aéreas chinesas tinham encomendado 292 aviões A320neo por 37 mil milhões de dólares e classificou este contrato como “la commande du siècle”, ou “le contrat du siècle”. A mesma notícia indica que nos primeiros cinco meses do corrente ano a Airbus já produziu 237 aviões, o que corresponde a uma produção média mensal de cerca de 50 unidades. A notícia é deveras curiosa, pois os “contrat du siècle” são frequentemente anunciados pela imprensa francesa, como verificamos numa breve pesquisa feita na internet.
Em 2021 tinha sido anunciado que o grupo Air France-KLM encomendara 100 aviões A320neo para equipar as frotas da KLM e da Transavia e mals 60 unidades suplementares, o que foi classificado pela imprensa francesa como o “contrat du siècle”. Em 2019, no salão aeronáutico do Dubai, a companhia indiana IndiGo encomendou 255 A321neo por cerca de 30 mil milhões de euros e esta encomenda recebeu a classificação de “contrat pharaonique”. Em 2017 tinha sido anunciado um “contrat historique” e “la commande du siècle” quando foi anunciado que um fundo de investimento americano encomendara 430 aviões A320 e A321 por 42 mil milhões de euros. Em 2013 a companhia indonésia Lion Air encomendou 234 aviões da família A320 por 18,4 mil milhões de euros e, nessa altura, o ministro Arnaud Montebourg afirmou que era o “contrat du siècle”.
Como se vê, a Airbus é um sucesso tecnológico e comercial, mas a chauvinista imprensa francesa não se cansa de anunciar sucessivos “contrats du siècle”-

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Um governo de distraídos e acomodados

O actual governo português é o XXIII Governo Constitucional que resultou da vitória do Partido Socialista por maioria absoluta nas eleições de 30 de Janeiro de 2022, tendo tomado posse no dia 30 de Março seguinte. O elenco governativo foi constituído por 17 ministros e 38 secretários de Estado que estão em funções há três meses e dos quais há uma boa parte com experiência política e governativa. O governo tem uma maioria parlamentar que o apoia e tem uma economia que está em franca recuperação, enquanto o país vive uma significativa estabilidade social, isto é, o governo tem tudo o que precisa para fazer reformas e para se adaptar aos novos tempos e às novas exigências, para mudar o que está mal e para aperfeiçoar o que não está bem. É isso que se deve exigir de um governo com maioria absoluta.
No seu discurso de posse, o primeiro-ministro tinha dito: “Os portugueses desejam um Governo que trabalhe afincadamente, já a partir de hoje, para que o país proteja os seus cidadãos, garanta a sua liberdade e segurança, os mobilize no esforço coletivo de modernizar Portugal”. Era isso que se esperava na Saúde e na Justiça, onde existem graves distorções que afectam os cidadãos, mas também em outros sectores da nossa sociedade, designadamente na Educação e na Defesa. Porém, assistimos a um aumento da degradação dos serviços públicos, ao aumento do custo de vida, a uma descrença que se instala na sociedade e a uma crescente incerteza quanto ao futuro.
Hoje a imprensa portuguesa destaca as fotografias do primeiro-ministro António Costa e do ministro Pedro Nuno Santos que, sendo pessoas respeitáveis, protagonizaram nas últimas horas uma trapalhada política inimaginável e lamentável, que nos deve deixar apreensivos quanto ao futuro. Que este triste episódio sirva, pelo menos, para acordar aqueles que se deixaram adormecer ou se acomodaram no desempenho das funções governativas que lhes foram confiadas e que passem a trabalhar afincadamente, como prometeu o primeiro-ministro.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

A Escócia e a sua luta pela independência

A Escócia é um país que em 1707 se uniu com a Inglaterra e formou a Grã-Bretanha, a qual mais tarde se associou com o País de Gales e com a Irlanda do Norte, passando a constituir o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda ou, simplesmente, Reino Unido.
Os escoceses, que são mais de cinco milhões de pessoas, têm uma forte identidade nacional e profundos sentimentos autonomistas, havendo muitos deles que defendem ideais independentistas.
Em 2014, após um acordo entre os governos do Reino Unido e da Escócia, foi realizado um referendo em que foi perguntado aos eleitores se “a Escócia deve ser um país independente?”, tendo havido 44,7% que votaram sim e 55,3% que votaram não.
Seguiu-se em 2016 um referendo geral sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia em que o brexit ganhou com 51,9% dos votos, mas a Escócia votou maioritariamente pela permanência na União Europeia com 62% dos votos. Esse resultado mostrou um maior distanciamento de Edimburgo em relação a Londres e, no dia seguinte à votação, a primeira-ministra escocesa Nicola Sturgeon que lidera o Partido Nacional Escocês pró-independência, afirmou que um segundo plebiscito pela independência da Escócia estava em cima da mesa. Porém, as vicissitudes por que passou o brexit e a pandemia de covid-19 atrasaram essa intenção, até que as excentricidades de Boris Johnson e o sucesso do seu partido nas eleições locais do ano passado, fizeram renascer a ideia de um segundo plebiscito que Nicola Sturgeon quer que seja realizado no dia 19 de Outubro de 2023. No entanto, o governo escocês não tem autonomia total para realizar esta consulta popular e precisa da prévia autorização do Supremo Tribunal, ou seja, a intenção de Sturgeon é, por agora, apenas isso.
O jornal The National, the newspaper that supports an independence, foi o jornal escocês que mais destaque deu à intenção de realizar um segundo referendo e diz aos seus leitores que têm apenas 16 meses “to save Scotland from Westminster”.

Novo aeroporto revela uma “nau à deriva”

Esta manhã o país foi surpreendido com uma notícia sobre o novo aeroporto de Lisboa veiculada pelo jornal Público, que informava que o governo “quer o Montijo em 2026 e Alcochete em 2035” e publicava uma fotografia aérea da área aeroportuária do Montijo. Assim, segundo anunciava o jornal com base num despacho do Ministério das Infraestruturas, a intenção é avançar com as obras no Montijo para que em 2026 possa ser uma infraestrutura complementar da Portela, ao mesmo tempo que se começa a avançar com uma nova infraestrutura aeroportuária a construir de raiz no Campo de Tiro de Alcochete para concluir em 2035, altura em que o aeroporto da Portela será encerrado e libertará a cidade de Lisboa dos seus indesejáveis efeitos ambientais. O mesmo despacho indicava que o processo de Avaliação Ambiental Estratégica em curso passava a ser da responsabilidade do Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
A notícia deixou-me optimista, porque era o início do fim de um problema que se arrasta há 53 anos! De facto, foi através do Decreto-lei 48.902, de 8 de Março de 1969, que o governo de Marcello Caetano criou o Gabinete do Novo Aeroporto de Lisboa (GNAL) destinado "a empreender, promover e coordenar toda a actividade relacionada com a construção do novo aeroporto de Lisboa". Desde então avançou-se e recuou-se, envolveram-se interesses contraditórios, perdeu-se tempo e gastou-se dinheiro, houve um incontável número de opiniões expressas por especialistas e não especialistas e até houve soluções tão diversas como a Ota e Beja, Alverca, Alcochete e o Montijo.
Parecia que, finalmente, o problema ia agora começar a ser resolvido. Aleluia, pensei eu! Porém, foi sol de pouca dura. O despacho do Ministério das Infraestruturas foi precipitado e rapidamente foi revogado. Aparentemente, nem o 1º Ministro, nem o Presidente da República, nem os partidos da oposição foram ouvidos numa matéria de relevante interesse nacional. Uma gaffe monumental a manchar ainda mais esta história de incompetência e hesitação de 53 anos. O recuo foi uma humilhação política para o ministro e um sinal de descontrolo do governo. Tal como na Saúde ou na Justiça, na Educação ou na Administração Pública, a nau governativa parece andar à deriva e, nos tempos que correm, isso é muito mau.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Os franceses e a loucura do Tour de France

Nos últimos dias temos assistido impotentes ao aumento da escalada em que navega a generalidade dos líderes europeus, do Atlântico aos Urais, com a NATO a considerar a Rússia como a sua maior e mais directa ameaça e a Rússia a prometer resposta às decisões da NATO. A tensão está a aumentar e não há notícias quanto a possíveis diligências diplomáticas para terminar com a “operação especial” desencadeada por Vladimir Putin. 
Entretanto, a Ucrânia vai sendo destruída apesar de todo o armamento que recebe, enquanto o povo ucraniano continua a sofrer as consequências da guerra e a ser vítima de uma enorme tragédia humanitária. Nesse contexto, é bem curioso que, nas suas últimas edições, uma parte da imprensa francesa, nomeadamente o jornal Le Parisien, não tenha destacado como manchete a guerra da Ucrânia ou a cimeira da NATO, tendo-se centrado na 109ª edição do Tour de France, que se inicia na próxima sexta-feira. 
Esse destaque resulta do facto de Julian Alaphilippe, bicampeão mundial e estrela maior do ciclismo francês que corre pela equipa belga Quick-Step Alpha Vinyl, ter sido preterido da equipa que vai disputar o Tour por não estar ainda recuperado de uma queda que sofreu no dia 24 de Abril na clássica Liége-Bastogne-Liége, em que perfurou um pulmão, partiu duas costelas e teve um ombro deslocado. Os franceses parece estarem mais desolados com a ausência de Julian Alaphilippe do Tour, do que com o que se passa em torno da guerra na Ucrânia e, certamente, até ao dia 24 de Julho, não vão pensar noutra coisa que não seja o Tour, que é a sua maior loucura desportiva.

terça-feira, 28 de junho de 2022

A cimeira da NATO e a escalada da tensão

Iniciou-se hoje em Madrid a cimeira da NATO em que participam os chefes de estado ou os chefes de governo dos países membros e que ocorre quando a invasão russa da Ucrânia já dura há mais de quatro meses. Por isso, a Rússia vai estar no centro desta reunião como o “inimigo” e não deixa de ser curioso que em 2010, na cimeira de Lisboa, tinha sido considerada um “parceiro”. Como as coisas se alteraram em tão pouco tempo! 
Sobre a cimeira de Madrid o jornal francês Le Figaro escreve na sua edição de hoje que a NATO está em “conselho de guerra” perante a Rússia e, de facto, as declarações de vários dirigentes que estão presentes em Madrid mostram que estão dispostos a continuar a apoiar militarmente a Ucrânia e a resistir à invasão russa, num quadro operacional que se tem agravado e que é muito complexo, até porque acontece numa situação de crise económica em agravamento. 
A situação vem-se revelando cada vez mais como um confronto entre a Rússia e os Estados Unidos, ou entre a Rússia e a NATO, embora também haja quem inclua a China nesta equação e daí que a Austrália, o Japão e a Coreia do Sul também estejam presentes nesta cimeira da NATO como convidados. O falcão Jens Stoltenberg, que é o secretário-geral da NATO, tem-se desdobrado em declarações e tem anunciado que vai ser aprovado um novo conceito estratégico que deverá definir a Rússia como a maior e mais directa ameaça aos países da NATO, que deverá ser alargada a NATO com a adesão da Suécia e da Finlândia à organização e que vai ser aprovado o reforço de meios e forças de alta prontidão, sendo avançado o número de 300.000 soldados que serão colocados nas fronteiras orientais da NATO. 
Porém, o que o Stoltenberg não diz é que a China vai “estar” na cimeira, que voltamos à corrida aos armamentos e que os riscos de uma terceira guerra mundial são cada vez maiores. Chama-se a tudo isto uma preocupante escalada.

sábado, 25 de junho de 2022

Uma obra ímpar: os painéis de S. Vicente

Na História de Portugal há alguns assuntos menos esclarecidos que têm suscitado dúvidas e incertezas, dando origem a algumas teorias explicativas, mas que permanecem como enigmas. Os painéis de S. Vicente, atribuídos a Nuno Gonçalves, são um desses casos sobre o qual já se escreveram centenas de monografias e muitos milhares de páginas com hipóteses e interpretações múltiplas e discordantes.
O facto é que o famoso políptico que consta de seis painéis e que terá sido concluído por volta de 1470, é a mais importante pintura da arte portuguesa, representando a Corte e os vários estratos da sociedade portuguesa quinhentista, impressionando quem a vê em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). Os painéis foram acidentalmente descobertos em 1882 no Paço Patriarcal de São Vicente de Fora e, depois de restaurados, foram expostos pela primeira vez em 1910 na Academia de Belas Artes de Lisboa. Desde então surgiram inúmeras teses sobre os painéis e a sua origem, sobretudo em relação à iconografia e à identidade das 58 personagens cujos retratos constituem o essencial da obra, havendo centenas de propostas quanto à sua identificação. Os painéis tiveram duas operações de restauro global e várias intervenções pontuais ou selectivas, mas urgia estudá-los, conservá-los e restaurá-los.
A oportunidade do estudo e do restauro do políptico surgiu com a assinatura de um protocolo mecenático entre o MNAA, o Grupo de Amigos do MNAA, a Direcção-Geral do Património Cultural e a Fundação Millennium bcp, que vem sendo desenvolvido desde há dois anos com a coordenação de Joaquim Caetano, o director do MNAA. De acordo com o que já se sabe, os painéis que vão sair desta intervenção serão mais próximos dos originais e quanto à identificação das personagens, terão ficado dissipadas as dúvidas sobre a identidade do homem de chapéu à moda da Borgonha, que será mesmo o infante D. Henrique.
Em boa hora, a E - Revista do Expresso deu a conhecer esta iniciativa de grande interesse cultural e que, certamente, será inspiradora de muitos mais projectos desta natureza.

A Ucrânia e a sua adesão à União Europeia

A actual União Europeia nasceu no dia 25 de Março de 1957 com o Tratado de Roma, que instituiu a Comunidade Económica Europeia e tinha apenas seis membros. Depois, com os sucessivos alargamentos chegou aos 28 membros mas, com a saída do Reino Unido, são agora 27. Desde 1986 que Portugal faz parte desse espaço de prosperidade, de tolerância e de ambiguidade, onde têm cabido diferentes culturas, línguas, histórias, religiões e níveis de desenvolvimento muito diversos. 
Porém, o projecto inicial de Jean Monnet e de Robert Schuman, que foi consolidado por homens como Konrad Adenauer, François Mitterrand, Helmut Kohl e Jacques Delors, sobredimensionou-se, atravessa evidentes dificuldades de coesão e vem-se desenvolvendo a várias velocidades. 
Para além dos 27, há actualmente cinco candidatos reconhecidos para a adesão, respectivamente a Turquia desde 1987, a Macedónia do Norte desde 2004, o Montenegro desde 2008 e a Albânia e a Sérvia desde 2009, havendo ainda dois países com o estatuto de potenciais candidatos: a Bósnia-Herzegovina e o Kosovo. Na sequência da invasão russa da Ucrânia e da teimosia com que as partes em conflito persistem naquela guerra, os 27 aprovaram o estatuto de candidatos à adesão da Ucrânia e da República da Moldávia o que, segundo o jornal catalão La Vanguardia, deu origem à frustração entre os líderes dos Balcãs ocidentais por verem os seus processos de adesão ultrapassados. 
Esta medida do Conselho Europeu tem natureza exclusivamente política, é demagógica e apenas pretende enganar os ucranianos, pois todos os 27 líderes europeus, incluindo o português António Costa, sabem que a entrada da Ucrânia na União Europeia iria alterar todo o actual contexto de equilíbrio, pois seria grande demais e o seu maior país, acrescentaria 40 milhões de habitantes com um produto per capita de 28,9% em relação à média europeia, o que tornaria a Ucrânia a principal beneficiária das ajudas comunitárias de pré e de pós-adesão. Mesmo que sejam solidários, muitos europeus dificilmente aceitariam que possam deixar de ser beneficiários das ajudas comunitárias de que agora beneficiam. Talvez daqui a trinta anos...

Aproximam-se as eleições gerais no Brasil

Faltam cerca de cem dias para a realização da primeira volta das eleições gerais no Brasil que estão agendadas para o dia 2 de Outubro e estima-se que 148 milhões de brasileiros irão às urnas, o que significa que este país é uma das maiores democracias do mundo.
Nessas eleições serão escolhidos o presidente, o vice-presidente e os deputados do Congresso Nacional, mas também os governadores, os vice-governadores e os deputados das assembleias legislativas estaduais, mas o interesse das eleições centra-se sobretudo na escolha do presidente da República. Nesta altura estão anunciadas doze pré-candidaturas, embora todas as sondagens indiquem que a luta eleitoral será entre o actual presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
De entre as inúmeras sondagens divulgadas destaca-se a que é regularmente apresentada pela Datafolha, o instituto de pesquisas do Grupo Folha a que também pertence o jornal Folha de S. Paulo, que na sua última edição revelou que actualmente Lula recolhe 47% das intenções de voto, enquanto Bolsonaro se fica por 28%, o que mostra que Lula poderá ser eleito logo à primeira volta. No entanto, uma outra sondagem realizada pela PoderData, um instituto do grupo de comunicação Poder360, indica que na hipótese de uma segunda volta, o candidato Lula da Silva tem 52% de intenções de voto, contra 35% do actual presidente.
Porém, há outras sondagens como a do Instituto de Pesquisas Gerp de Niterói-RJ, que indica que os dois candidatos estão tecnicamente empatados com 39 e 37% das intenções de voto. Significa, portanto, que há sondagens para todos os gostos, embora pareça que Luiz Inácio Lula da Silva se encaminha para regressar ao Palácio do Planalto e volte a presidir aos destinos do Brasil.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

BRICS falam para o mundo a uma só voz

Os BRICS são um grupo de cinco países ditos emergentes – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – que foi constituído em 2009, embora a África do Sul só nele tenha ingressado em 2011, os quais realizam uma cimeira anual em que cada um dos países participa através dos respectivos líderes de governo. O grupo não constitui um bloco económico nem uma associação de comércio, mas sobretudo um “clube político” ou uma "aliança", que visa converter o seu crescente poder económico numa maior influência geopolítica à escala mundial.
Actualmente, os BRICS são detentores de mais de 21% do PIB mundial, formando o grupo de países que mais crescem no planeta. Além disso, representam 42% da população mundial, 45% da força de trabalho e o maior poder de consumo do mundo, destacando-se também pela abundância dos seus recursos naturais e das condições favoráveis que atualmente apresentam para a sua exploração.
Este ano, a XIV Cimeira dos BRICS realizou-se em Pequim e ontem lá estiveram Xi Jinping, Vladimir Putin, Jair Bolsonaro, Narendra Modi e Cyril Ramaphosa. No actual quadro de guerra e de envolvimento euro-americano no conflito resultante da invasão russa da Ucrânia, esta "aliança" tem uma enorme importância. Pela primeira vez desde que ordenou a invasão da Ucrânia, Vladimir Putin encontrou-se com grandes líderes mundiais que, aparentemente, não o criticaram. Nenhum dos 75 pontos da Declaração de Pequim desta XIV Cimeira dos BRICS faz referências à invasão russa, nem critica Vladimir Putin. Naturalmente, o jornal chinês Global Times dá um grande destaque a esta Cimeira, à qual todos os agentes da geopolítica devem estar atentos.

Ainda as festas de São João e as fogueiras

A noite de São João decorreu com grande animação e, através de longas transmissões televisivas, todos puderam acompanhar os festejos que ocorreram no Porto e em Angra do Heroísmo. Em tempos de grande preocupação pela crise económica que se desenha e da agitação social que sempre a acompanha, mas também pelo prolongamento da guerra e da tensão nas fronteiras europeias e das suas imprevisíveis consequências, é caso para dizer que “tristezas não pagam dívidas” e daí que o povo se tenha divertido a ver as marchas e os fogos-de-artifício, a bater com martelinhos e com alhos-porros, a comer sardinhas assadas e outros petiscos, sempre a cantar e a dançar. Foi, segundo pudemos ver na televisão, uma grande festa popular, que até levou ao Porto o senhor Presidente da República para se divertir e conviver com o seu povo.
Porém, os festejos de São João são diferentes em todas as comunidades mas, no imaginário popular, as fogueiras são um elemento essencial e são mesmo o traço comum de todos os festejos joaninos, sobretudo nas pequenas comunidades rurais que ainda sabem conservar as tradições ancestrais. Curiosamente, sabe-se lá porquê, as fogueiras de São João são pouco mencionadas no noticiário português, ao contrário do que acontece na Galiza, onde a imprensa publica fotografias e textos alusivos. 
Hoje na sua primeira página, o jornal Faro de Vigo publica uma fotografia a quatro colunas de “La noche más corta… y esperada”, acrescentando que “las hogueras atraen a miles de personas y plantan cara al mal tiempo en el primer San Xoan multitudinario desde que estalló la pandemia”.
Ainda bem que as memórias das fogueiras de São João da nossa infância não se perdem, ao menos na vizinha Galiza!

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Sanjoaninas 2022, a grande festa de Angra

Amanhã, dia 24 de Junho, é o Dia de São João e a próxima noite é a Noite de São João.
O nascimento de João Baptista é uma festa cristã que celebra aquele que profetizou o advento ou a chegada do Messias na pessoa de Jesus Cristo, tendo-o baptizado. É uma festa religiosa marcada por grande devoção e por missas e procissões, mas que evoluiu para um festival pagão de características populares, com práticas diferentes em cada comunidade. Alguns desses festivais enraizaram-se no gosto popular e tornaram-se elementos identitários de algumas comunidades, como por exemplo as festas das cidades do Porto, de Braga ou de Angra do Heroísmo.
É muito ingrato escrever sobre estas festas, sobretudo porque têm características muito diferentes, mas atrevo-me a salientar as famosas Sanjoaninas, que se realizam na cidade de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, que envolvem, com grande entusiasmo, uma cidade e uma ilha. Durante alguns dias as Sanjoaninas têm de tudo, incluindo torneios desportivos e mostras de artesanato, concertos e espaços gastronómicos, desfiles de filarmónicas, fogo-de-artifício, bailes populares e muitas outras iniciativas em que participam milhares de pessoas. Porém, são as touradas de praça e à corda e, sobretudo, as marchas de São João, que mais caracterizam as Sanjoaninas de Angra do Heroísmo, a competir em criatividade e entusiasmo popular com as Festas da Senhora da Agonia e com tantas outras festas populares em que Portugal é rico.
O desfile das marchas de São João é realmente uma manifestação de grande animação e criatividade popular e a televisão nunca deixa de as transmitir em directo.