domingo, 12 de março de 2023

É tão grande o chauvinismo dos franceses

Na semana que hoje termina a França tem estado em ebulição social com protestos e greves que contestam o projecto de lei apresentado pelo governo que prevê aumentar a idade legal de reforma, gradualmente até 2030, dos actuais 62 anos até atingir os 64 anos. Esta semana foi decretada uma greve geral, subiu o tom dos protestos, houve distúrbios em várias cidades, fecharam escolas, os transportes públicos paralisaram e houve muitas prisões. O Senado já aprovou a intenção do governo, pelo que a contestação continua nas ruas, o que tem sido mostrado nas televisões.
Na passada sexta-feira o primeiro-ministro britânico Rishi Sunak (42 anos de idade e 1,70 m de altura) atravessou o canal e foi encontrar-se em Paris com o presidente francês Emmanuel Macron (45 anos e 1,73 m de altura). Desde 2018 que os dois vizinhos não se reuniam numa cimeira franco-britânica e daí a importância deste encontro em que trataram de assuntos de interesse comum, sobretudo a contenção de migrantes que procuram atravessar o canal da Mancha, mas também o fortalecimento de laços militares e, naturalmente, da questão ucraniana que tanto dinheiro lhes custa.
Porém, nas suas edições de hoje, um grande número de jornais franceses não trata das greves, nem dos protestos, nem dos distúrbios, nem da visita de Rishi Sunak. Quase sempre com a palavra historique em grande evidência, muitos jornais franceses destacam a vitória da selecção francesa de rugby sobre a Inglaterra por 53-10, a maior de sempre entre as duas selecções rivais. Essa vitória foi obtida no “santuário” de Twickenham, no sudoeste de Londres, que é o segundo maior estádio do Reino Unido e o maior estádio exclusivo da prática do rugby, onde tomam assento 82 mil espectadores.
Um simples jogo de rugby fez esquecer tudo o resto, incluindo o protesto e a política. É o chauvinismo francês em toda a sua extensão. E nós que às vezes pensamos que somos uns exagerados...

quarta-feira, 8 de março de 2023

Hoje foi o Dia Internacional da Mulher

Hoje celebrou-se o Dia Internacional da Mulher, como acontece anualmente no dia 8 de Março, a data adoptada em 1975 pelas Nações Unidas para recordar as reivindicações das mulheres relativas à igualdade de género e as suas conquistas nas lutas políticas, sociais e económicas, que travam para verem reconhecidos os seus direitos, independentemente das suas origens nacionais, étnicas, linguísticas, políticas, culturais ou económicas.
O princípio da igualdade entre homens e mulheres, foi reconhecido pela primeira vez na Carta das Nações Unidas adoptada em 1945, o que significa que essa luta desenvolvida desde o século XIX, ainda está longe de atingir o seu justo resultado na generalidade dos países do mundo, onde a mulher é muitas vezes vítima de acrescida exploração. Em Portugal tem havido muitos progressos no reconhecimento do papel da mulher na sociedade, sobretudo na política, no desporto, na ciência e na cultura, nas artes decorativas e nos mass media, mas na esfera empresarial ainda predomina o elemento masculino e, sobretudo, continua vivo o princípio que não reconhece que a trabalho igual deva corresponder salário igual. Um estudo recente revela que a paridade salarial entre homens e mulheres só chegará a Portugal em 2051!
Hoje, muitos jornais internacionais dedicam as suas capas ao Dia Internacional da Mulher, mas escolhemos a edição do Diário de Notícias que homenageia a mulher e ilustra a sua primeira página com um desenho do escultor e pintor Francisco Simões, mas também porque reuniu nos Jerónimos as embaixadoras estrangeiras acreditadas em Portugal. Foi uma excelente ideia editorial, até porque dos 126 embaixadores acreditados em Portugal, há 40 que são mulheres e, destas, há 28 que são residentes e fizeram declarações ao jornal. Finalmente, para que conste, Portugal tem actualmente 93 embaixadores, dos quais 24 são mulheres.

sábado, 4 de março de 2023

Pódios e medalhas do atletismo português

Ontem em Istambul, os atletas portugueses Pedro Pichardo no triplo salto e Auriol Dongmo no lançamento do peso, tornaram-se bicampeões da Europa e conquistaram medalhas de ouro, durante as provas do 2023 European Athletics Indoor Championships.
Outros atletas como Tiago Pereira, Jessica Inchude e Arialis Martinez ficaram à porta das medalhas. É um desempenho notável numa modalidade desportiva que, como poucas, exige muito trabalho, dedicação e sacrifício para se poder competir na alta roda. É uma das melhores prestações portuguesas de sempre no atletismo em pista coberta e, no fim dos dois primeiros dias de provas, acontece que, com duas medalhas de ouro, Portugal está no primeiro lugar do medalheiro, à frente de todos os outros. É mesmo um grande acontecimento desportivo! 
Hoje pudemos ver na televisão as cerimónias protocolares da entrega das medalhas, ouvir duas vezes o hino nacional, ver a bandeira portuguesa no topo do mastro de honra e, sobretudo, apreciar a forma emocionada e comovente como Auriol Dongmo cantou o hino nacional português. Notável.
Hoje, também, o Diário de Notícias destacou como nenhum outro jornal, este grande feito desportivo dos atletas portugueses, o que aqui se saúda vivamente, ao mesmo tempo que se lamenta o sectarismo e a evidente mediocridade da imprensa desportiva portuguesa, que hoje se limita a dar aquela notícia de maneira discreta e que, de forma desproporcionada, destaca com elogios e grandes fotografias um jovem futebolista chamado Gonçalo Ramos, que ontem marcou dois golos à equipa do Famalicão. Dois golos marcados à equipa do Famalicão valem mais do que duas medalhas de ouro? Esta imprensa desportiva portuguesa não forma, nem informa. Faz fretes.

quinta-feira, 2 de março de 2023

As redes sociais ao serviço da espionagem

As redes sociais são estruturas que ligam as pessoas ou as organizações. Nos últimos anos essas redes têm-se desenvolvido rapidamente com base nos suportes online, permitindo a troca de informações e o relacionamento social. Tem sido uma revolução cultural contínua em todo o mundo e, entre outras, destacam-se as chamadas redes sociais de relacionamento como o Facebook, o Twitter, o WhatsApp, o Telegram, o Instagram, o Google+, o Youtube, o My Space e o Badoo, bem como as redes profissionais como o Linkedin e outras de natureza diversa. São tantas as redes sociais que os cidadãos têm grande dificuldade em acompanhar as suas evoluções e adaptações aos tempos, às modas ou à concorrência entre si, mas não há dúvidas que têm uma importância cada vez maior nas sociedades modernas, ao construir realidades virtuais, sociabilidades e acontecimentos fictícios, sem qualquer tipo de regulação. As redes sociais têm contribuído largamente para o progresso cultural e social das comunidades, mas têm gerado grandes problemas como a invasão da privacidade, a difamação gratuita e sentimentos de medo, para além de estarem na primeira linha do estabelecimento de uma nova ordem mundial.
Uma das mais recentes redes sociais é o TikTok que apareceu em 2019 com grande sucesso ao permitir partilhar vídeos muito curtos, é detida por uma empresa chinesa e há suspeitas de que possa ser usada para fazer espionagem, o que compromete a segurança nacional. Assim, em 2020 a Índia proibiu a utilização do TikTok, juntamente com dezenas de outras aplicações chinesas, alegando serem potencialmente prejudiciais à segurança e à integridade do país. Nos Estados Unidos e no Canadá a rede TikTok vem sendo considerada como uma perigosa porta de entrada da China na sociedade americana e na União Europeia também o Parlamento Europeu, o Comité das Regiões e o Conselho Económico e Social decidiram proibir a rede social TikTok nos telemóveis profissionais, recomendando ainda a sua exclusão em dispositivos pessoais. 
O jornal Libération dedica a sua edição de hoje ao TikTok e salienta que se multiplicam as interdições contra a rede social chinesa por suspeitas de espionagem, isto é, as crescentes tensões internacionais também passam pelas redes sociais.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

O entendimento entre Londres e Bruxelas

O antigo primeiro-ministro britânico David Cameron, quando pressionado pelo seu próprio Partido Conservador, decidiu realizar um referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, que ficou conhecido por Brexit. A realização desse referendo foi aprovada pelo Parlamento Britânico, realizou-se no dia 23 de Junho de 2016 e, contra todas as previsões, deu a vitória ao sim com 51.8% dos votos. Como consequência, o Reino Unido deixou a União Europeia no dia 31 de Janeiro de 2020, depois de um longo e complexo processo de saída, em que intervieram os primeiros-ministros Theresa May (2016-1019) e Boris Johnson (2019-2022). Porém, ficaram alguns assuntos por resolver, designadamente os que se relacionam com a Irlanda do Norte, que é um território que, conjuntamente com a Inglaterra, a Escócia e o País de Gales, formam o Reino Unido. Esse território situa-se na vizinha ilha da Irlanda e tem uma fronteira de cerca de 500 quilómetros com a República da Irlanda, que faz parte da União Europeia.
Acontece que a pandemia do covid 19 e as medidas restritivas que se seguiram ao Brexit provocaram dificuldades diversas, que a recente crise da Ucrânia mais acentuou. Após mais de três anos de oficialização do Brexit, o Reino Unido e a União Europeia chegaram a acordo, ao estabelecerem uma espécie de “via verde” comercial entre a Irlanda do Norte (território do Reino Unido) e a República da Irlanda (membro da União Europeia), que permitirá eliminar o controlo das mercadorias nas suas fronteiras que tem vigorado até agora.
A imprensa inglesa, nomeadamente o jornal The Times, destacou esta notícia e publicou a fotografia dos sorridentes Rishi Sunak e Ursula von der Leyen. No entanto, há quem pense que o Brexit foi um grave erro e que, qualquer dia, o Reino Unido vai regressar à União Europeia e Rishi Sunak disse mesmo que este acordo “inaugura um novo capítulo nas relações do Reino Unido com a União Europeia”, que tão abaladas foram com o Brexit.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

As tensões separatistas no sul da Europa

O conceito de “Europa das pátrias” tem subjacente a ideia de uma confederação de Estados que, embora unidos por diversos interesses comuns, não renunciam aos seus direitos de soberania nacional, nem às suas especificidades culturais, nem à sua história.
Embora defendendo uma Europa forte e unida, o general De Gaulle foi, porventura, um dos grandes defensores da “Europa das Pátrias” ao rejeitar uma integração europeia centralista e dominada pelos interesses instalados em Bruxelas. Porém, os tempos não evoluíram no sentido defendido pelo general francês e hoje é cada vez mais evidente que não há lugar à lógica de “cada país um voto”, pois alguns países constituem um verdadeiro directório para a governação da União Europeia e daí que, muitas vezes, se fale na “ditadura de Bruxelas”.
Porém, numa lógica diversa daquela que hoje domina a Europa, existem muitas tensões separatistas por todo o continente, resultantes de um processo histórico muito complexo que gerou inúmeras culturas, línguas, religiões e mentalidades, isto é, muitas pátrias.
Ontem o jornal Berria, que se publica no município de Andoin, na província basca de Guipuzcoa, escolheu como tema de fundo da sua edição os movimentos separatistas da Catalunha, em relação à Espanha, e da Córsega, em relação a França. Apresentando as suas lutas como se estivessem a ser disputadas numa mesa de ping-pong, o jornal lembra que tanto os movimentos independentistas catalães como a Frente de Libertação Nacional Corsa, são os protagonistas de um processo histórico e identitário que embora pareça estar adormecido, conserva bem viva uma tensão latente.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Novas lanchas no combate ao narcotráfico

O narcotráfico internacional pode ser considerado como uma rede ilegal que faz a ligação entre os países produtores de cocaína e os mercados consumidores, sobretudo nos países ocidentais, sendo um grave problema que afecta as sociedades modernas. As drogas proibidas chegam aos mercados consumidores sob as mais diferentes formas, designadamente por via aérea e por via marítima, pelo que as autoridades nacionais mantêm estruturas policiais de combate à sua entrada. A península Ibérica parece ser a região europeia em que, por razões diversas, o narcotráfico é mais activo, verificando-se a regular apreensão de toneladas de cocaina e outras drogas nas águas territoriais portuguesas e espanholas. Nos últimos meses, as notícias referem a apreensão de várias embarcações rápidas designadas por narcolanchas. Por isso, segundo revela a edição de ontem do jornal La Voz de Galicia, o governo espanhol encomendou aos estaleiros galegos Moaña Aister, a concepção e construção de lanchas rápidas de cerca de 30 toneladas e com um desenho pioneiro e inovador, que poderão navegar à incrível velocidade de 60 nós, ou cerca de 110 quilómetros por hora. Estas lanchas destinam-se à Guardia Civil e poderão ser utilizadas sobretudo na área do estreito de Gibraltar.
La Voz de Galicia anuncia na sua primeira página as “veloces patrulleras hechas en Galicia contra el narcotráfico del Estrecho” e publica uma fotografia dos ensaios no mar de uma dessas lanchas rápidas.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

A única opção é entre “la paix ou le caos”

A guerra na Ucrânia já se trava há um ano e essa enorme catástrofe, bem como os seus mortos e as suas destruições são hoje assinalados por toda a imprensa mundial. De entre todos os títulos que hoje são publicados destacamos de forma especial La Marseillaise, um jornal regional francês com sede em Marselha, cuja manchete é esclarecedora como nenhuma outra: la paix ou le caos. Desde há um ano que, explícita ou implicitamente, tem sido essa a nossa posição, pois torna-se evidente que nesta guerra todos sairemos derrotados, sobretudos os ucranianos e os russos, mas também toda a humanidade.
Depois da agressividade dos discursos dos últimos dias, uma Resolução ontem aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas veio exigir a retirada imediata das tropas russas da Ucrânia e pedir “uma paz abrangente, justa e duradoura”, tendo sido aprovada por 141 votos, com 7 votos contra e 32 abstenções, isto é, mais ou menos o mesmo resultado de outras anteriores resoluções sobre o conflito russo-ucraniano.
Entretanto, também ontem, o secretário-geral das Nações Unidas e o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês vieram lançar veementes apelos à paz. No caso da China, não foi apenas o apelo para o cessar-fogo entre a Ucrânia e Rússia, mas também a defesa do diálogo como única forma de alcançar uma solução viável, tendo feito uma proposta para a paz em doze pontos, cujo aspecto mais saliente é a afirmação da importância de “respeitar a soberania de todos os países de acordo com os princípios da Carta das Nações Unidas”. É um bom princípio, como já foi reconhecido. Porém, a China que afirmou ser neutra no conflito, apelou ao fim da “mentalidade da Guerra Fria” e afirmou que mantém uma relação “sem limites” com a Rússia, recusando-se a criticar a invasão da Ucrânia e acusando o Ocidente de provocar o conflito ao alimentar a guerra através do fornecimento de armas defensivas à Ucrânia.
Não são necessárias mais palavras para além daquelas que La Marseillaise escolheu para a manchete da sua edição de hoje: la paix ou le caos.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Brasil: pra tudo se acabar na quarta-feira

Nos últimos dias, a imprensa de diversos países de expressão ibérica destacou os festejos de Carnaval, sobretudo no Brasil, em Portugal e no sul da Espanha, mas também nas ilhas Canárias, no arquipélago de Cabo Verde e na cidade de Luanda, onde foi considerada a maior manifestação cultural do país. Mais longe, no pequeno território de Goa, também os festejos de Carnaval tiveram destaque na imprensa goesa.
Porém, a grande festa do Carnaval acontece no Brasil, que é conhecido como o “país do Carnaval”, em especial na cidade do Rio de Janeiro, onde é o acontecimento da cultura popular mais emocionante que ocorre na cidade, com os seus sumptuosos desfiles das escolas de samba e o entusiasmo do povo. A competição entre as escolas é semelhante à competição entre as equipas de futebol e a rivalidade entre escolas é indescritível, como se verifica nos relatos da imprensa e nas multidões de apoiantes que acorrem ao sambódromo para assistir aos desfiles e apoiar a sua escola, para que seja considerada a melhor ou a campeã.
O jornal carioca O Globo destaca o mérito da escola Beija-Flor, mas neste ano de 2023 a campeã foi a escola Imperatriz Leopoldinense, a vice-campeã foi a escola Unidos do Viradouro, seguidos da Unidos de Vila Isabel, da Beija-Flor de Nilópolis, da Estação Primeira de Mangueira e da Académicos do Grande Rio. Depois, como diz a canção do cantor e compositor Martinho da Vila, o nome artístico de Martinho José Ferreira, “pra tudo se acabar na quarta-feira”.

A grande paixão / Que foi inspiração / Do poeta é o enredo
Que emociona a velha-guarda / Glória a quem trabalha o ano inteiro 
São escultores, são pintores, bordadeiras 
São carpinteiros, vidraceiros, costureiras/Figurinista, desenhista e artesão  
Gente empenhada em construir a ilusão / E que tem sonhos
Como a velha baiana / Sonho de rei, de pirata e jardineira 
Pra tudo se acabar na quarta-feira.

Um ano de guerra na Ucrânia (III)

Desde há muito tempo que o conflito ucraniano já era uma “sfida diretta”, ou um desafio directo entre a Rússia e os Estados Unidos, como hoje destaca o jornal milanês Corrierre della Sera, mas os discursos ontem pronunciados por Vladimir Putin e por Joe Biden apenas vieram confirmar essa realidade, o que mostra como Zelensky, Rishi Sunak, Macron e Scholtz são figuras importantes mas secundárias, ou que a Europa não foi capaz de resolver o problema ucraniano. Nessa perspectiva, tanto Ursula von der Leyen, como Jens Stoltenberg e Josep Borrell pouco valem, enquanto essa fulgurante figura da diplomacia mundial que é João Gomes Cravinho, se vem esforçando por aparecer, embora só diga banalidades e asneiras. Ontem também se destacaram as declarações de Wang Wenbin, o porta-voz do ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, que pediu aos Estados Unidos “para não alimentarem o conflito ucraniano” e acusou-os de estarem “a lucrar imensamente com a guerra”, ao mesmo tempo que lhes recordava a retirada do Afeganistão. Hoje, Putin e Xi Jinping reúnem-se em videoconferência e entre os temas em discussão vai estar “a retórica extremamente agressiva da NATO e dos Estados Unidos”.
Estamos, portanto, num patamar de conflito em acelerado agravamento e cada vez mais perigoso. Desde há muito tempo que algumas vozes diziam que a paz na Ucrânia devia ser negociada entre Moscovo e Washington, mas as declarações ontem proferidas em Moscovo e Varsóvia, tal como o que ontem também foi dito em Pequim, vieram lançar enormes preocupações quanto ao futuro e confirmar que terão que ser Putin e Biden a resolver o problema e acabar com o sofrimento do povo ucraniano e com esta ameaça que paira sobre a Europa e o mundo. Eles conhecem-se há muitos anos e, no seu último encontro presencial que aconteceu em Genebra em Junho de 2021, não ficaram amigos, mas elogiaram-se mutuamente e foram classificados como bons negociadores.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Um ano de guerra na Ucrânia (II)

Apesar dos festejos de Carnaval e das catástrofes que afectaram o Brasil e que voltaram a causar destruições na Turquia nas últimas horas, o acontecimento do dia de ontem foi a visita não anunciada do presidente Joe Biden a Kiev e, por isso, é destacada hoje nas primeiras páginas da imprensa mundial. Ao contrário da generalidade dos políticos europeus que, num exercício de hipocrisia, costumam ir a Kiev para serem vistos nos seus próprios países, a deslocação de Joe Biden é um acto de muita coragem e significa o seu “apoio inabalável” à Ucrânia, como hoje destaca a edição americana do jornal Finantial Times.
Joe Biden salientou que “a guerra pela conquista da Ucrânia lançada por Putin está a falhar” e afirmou que “não nos vamos embora”, enquanto Volodymyr Zelensky agradeceu o apoio americano, afirmou que “esta conversa nos deixa mais próximo da vitória” e disse esperar que “este ano de 2023 seja o ano da vitória”. Todas estas declarações visam um efeito mediático e são destinadas a impressionar ambas as partes e o mundo, porque parece ser cada vez mais evidente que ninguém vai ganhar este conflito e que todos vamos perder. Por outro lado, a imprensa internacional continua a divulgar notícias e opiniões contraditórias sobre o que se passa, mas é lamentável que não se fale de paz. Assim, uns dizem que a visita de Biden foi “a dramatic show of solidarity with Ukraine’s leader” (The Wall Street Journal), outros reclamam “send jets to Ukraine, Truss and Johnson tell PM” (The Daily Telegraph) e outros anunciam que “le monde entier voudrait que tout cela s’arrête” (Le Monde).
Entretanto, mais uma sondagem foi divulgada ontem em Paris pelo jornal Le Figaro, anunciando que “les opinions européennes [sont] divisées sur l’aide militaire”, mas que a Ucrânia beneficia de “boa opinião” ou alta popularidade na Europa, designadamente no Reino Unido (82%), Polónia (79%), Espanha (74%), Países Baixos (71%), França (64%), Itália (62%) e Alemanha (61%), o que mostra que “l’aide militaire crée des clivages profonds dans les populations et d’un pays à l’autre”.
Portanto, nem Biden nem Zelensky atenuaram os seus discursos. Ninguém parece ter vontade de ceder. A paz parece que está longe.  

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Um ano de guerra na Ucrânia (I)

Quando se perfaz um ano sobre o início da invasão russa da Ucrânia a que Vladimir Putin chamou “operação militar especial”, são inúmeras as edições especiais impressas e televisivas dedicadas â passagem de “um ano de guerra”, com análises da situação, operações militares, armamentos em confronto, avanços e recuos, sucessos e insucessos das partes. Há muita destruição, muita propaganda e, lamentavelmente, há poucos apelos para que as armas se calem e se encontre a paz. As narrativas e as opiniões sobre o conflito são as mais diversas, sendo muito interessante analisar algumas sondagens nacionais e, sobretudo, os inquéritos de opinião realizados regularmente em nome da Comissão Europeia. 
Assim, os resultados do inquérito realizado entre 12 de Outubro e 7 de Novembro de 2022 que envolveu entrevistas presenciais a 26.443 cidadãos dos 27 estados-membros e deu origem ao Eurobarómetro de Outono de 2022 do Parlamento Europeu, foi publicado em Janeiro. Relativamente à invasão russa da Ucrânia há uma larga maioria de 74% de cidadãos europeus que aprovam o apoio da União Europeia à Ucrânia, com 33% a aprovar fortemente, 41% a aprovar moderadamente, mas com 16% a desaprovar moderadamente e 17% a desaprovar fortemente.
Apesar de Portugal ser o país da União Europeia situado mais longe da frente de batalha, há 92% de portugueses que concordam com o apoio financeiro, militar e humanitário que a União Europeia tem dado à Ucrânia, o que o coloca como um dos países mais favoráveis a esse apoio, só superado pela Suécia (97%), pela Finlândia (95%) e pelos Países Baixos (93%), enquanto do lado dos menos entusiastas com esse apoio, se encontram a Bulgária e a Grécia (48%), a Eslováquia (49%), o Chipre (53%) e a Hungria (59%). É bem curiosa esta quase unanimidade portuguesa, numa Europa onde nem todos pensam da mesma maneira e onde há posições bem diferentes. Enquanto Mateusz Morawiecki, o primeiro-ministro polaco, diz que o mundo precisa de uma “desputinização”, porque Putin “é mais perigoso que Hitler e Estaline” e que “a Rússia não vai parar em Kiev”, já Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro, afirma que a Europa se envolveu indirectamente no conflito ucraniano ao enviar armas, ajudas e dinheiro para Kiev, ao mesmo tempo que acusa a União Europeia e a NATO de serem a favor da guerra e defende que a paz deve ser negociada entre Moscovo e Washington. 
O facto é que não se vislumbra a forma de apagar este incêndio que arrasa a Ucrânia e que ameaça o mundo.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Airbus constrói, lucra e vai na frente

O Grupo Airbus, nome por que é conhecida a Airbus Commercial Aircraft, anunciou esta semana um lucro recorde de 4,2 mil milhões de euros no ano de 2022. É o maior lucro de sempre na sua história e reflecte o dinamismo da procura do transporte aéreo mundial, mas também a boa resposta tecnológica, industrial e comercial da empresa aeronáutica que tem sede em Toulouse e que, no último ano, entregou 661 aviões saídos das suas nove linhas de montagem final, localizadas em Toulouse (França), Hamburgo (Alemanha), Sevilha (Espanha), Tianjin (China), Mobile (Estados Unidos) e Mirabel (Canadá).
A Airbus e a região de Toulouse, vivem um momento de grande euforia e o jornal La Dépêche du Midi que se publica naquela cidade, escreve na sua edição de hoje “quelle semaine folle pour Airbus! Rarement, l’avionneur toulousain n’aura vécu une telle succession de (bonnes) nouvelles”. De facto, na passada semana, foram anunciados os resultados de 2022, mas também foram recebidas novas encomendas, pelo que o respectivo caderno do grupo inclui actualmente 7.239 pedidos de novos aviões, o que representa cerca de dez anos de produção industrial e de emprego! Nunca a Airbus e as empresas que lhe estão associadas, mas também muitos dos seus fornecedores em mais de trinta países, tiveram tão boas perspectivas comerciais. Se à produção de aviões comerciais se juntarem os negócios dos ramos espacial, da defesa e dos helicópteros, o caderno de encomendas do grupo atinge actualmente cerca de 450 mil milhões de euros!
Depois de ter havido muitos construtores aeronáuticos, o mercado evoluiu e tornou-se um duopólio dos gigantes Boeing e Airbus, tendo “obrigado” alguns construtores como a Lockheed e a McDonnell Douglas, entre outros, a retirarem-se do mercado ou a mudarem de ramo de actividade. O sucesso comercial da Airbus é notável e o La Dépêche du Midi diz na sua edição de hoje que a “Airbus reste le maître du ciel”.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Grandes espectáculos mundiais em Lisboa

Hoje vou ao Campo Pequeno porque é dia de assistir, mais uma vez, ao espectáculo musical Cats da autoria de Andrew Lloyd Webber, o genial compositor londrino que, entre muitas outras obras, compôs o Jesus Christ Superstar (1970), o Evita (1976), o Cats (1981) e o Fantasma da Ópera (1986). 
Actualmente com 74 anos de idade, Lloyd Webber é considerado um dos mais importantes ícones da cultura britânica contemporânea pela reinvenção que fez da música. Com a sua obra ganhou inúmeros prémios internacionais e é uma das dezoito personalidades mundiais que já venceram um Oscar, um Emmy, um Grammy e um Tony, isto é, as mais importantes distinções do mundo musical contemporâneo.
O musical Cats estreou-se em Londres, no West End, no ano de 1981 e esteve em cena durante 21 anos. No ano seguinte, aquela produção foi apresentada em Nova Iorque, na Broadway, tendo estado em cartaz durante 18 anos. Ambos os espectáculos bateram recordes de espectadores naquelas duas cidades, mas o sucesso daquele musical inspirado em poemas sobre gatos escritos pelo poeta americano e britânico T. S. Eliot, que foi o prémio Nobel da Literatura em 1948, levou o espectáculo a todo o mundo, através de vários grupos e de traduções em mais de vinte idiomas.
A apresentação do Cats em Lisboa confirma que a oferta cultural da capital portuguesa está mais próxima do que antes da oferta cultural das grandes cidades europeias.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Aí estão as grandes festas do Carnaval!

O Carnaval está à porta e começa a ser objecto de notícia. Trata-se de um festival típico do cristianismo ocidental que ocorre 47 dias antes da Páscoa, que é caracterizado por festas de rua e desfiles populares, em que muitas pessoas usam trajes e máscaras que, por uns dias, lhes alteram a individualidade e lhes permitem alguns excessos comportamentais. Nos tempos modernos, em muitas comunidades, o Carnaval também se tornou um espectáculo turístico, tanto pelo entusiasmo e pelo colorido visual e sonoro da participação popular, como pelas multidões de curiosos que atrai, havendo muitos a reivindicar que o seu Carnaval é o melhor Carnaval do mundo, pois cada festividade carnavalesca adquiriu características próprias, mais ou menos exuberantes. Assim acontece em muitas cidades portuguesas e em todo o Brasil, mas também em outras regiões do mundo, sobretudo as que foram aculturadas pela influência ibérica. Do Rio de Janeiro à ilha Terceira, ou de Goa às ilhas Canárias, o Carnaval é sempre uma grande festa e , em alguns casos, um grande negócio.
Ontem em Santa Cruz de Tenerife, numa gala a que assistiram 4.700 pessoas e que foi transmitida em directo pela televisão estatal espanhola, foi eleita a “nueva Reina del Carnaval y sus cuatro damas de honor”. A escolhida chama-se Adriana Peña Fumero, representou o Centro Comercial Añaza Carrefour e apresentou-se com uma fantasia intitulada “Lisboa”. Nas suas edições de hoje, alguns jornais da ilha de Tenerife, como o Diario de Avisos e outros, esqueceram quaisquer outros acontecimentos regionais, nacionais ou internacionais e, nas suas primeiras páginas, destacaram a “nueva Reina del Carnaval 2023 de Santa Cruz de Tenerife”.
Pois que em Tenerife, mas também no Rio de Janeiro, em Ovar, Loulé ou Torres Vedras, todos se divirtam. Eu limito-me a recomendar os bailinhos da ilha Terceira.